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domingo, 23 de março de 2008

Crash - No Limite, de Paul Haggis (2004)


Poster do filme. Fonte: Wikipedia

Refeição Cultural - Crash: No Limite

Direção: Paul Haggis - 2004

Com: Matt Dillon (oficial John Ryan), Sandra Bullock (Jean Cabot), Brendan Fraser (Rick Cabot), Don Cheadle (detetive Grahan Waters), Ryan Phillippe (oficial Hanson), Ludacris (Anthony), Michael Peña (Daniel Ruiz), Jennifer Esposito (Ria), Thandie Newton (Christine Thayer), Terrence Howard (Cameron Thayer) e outros.


Assisti por esses dias a um filme que entra para minha galeria de preferidos. “Crash - No Limite”. Eu o coloco na mesma prateleira de “Um Dia De Fúria” (1993), “Beleza Americana” (1999) e “Pão e Rosas” (2000).

A palavra-chave para o filme é: uma sociedade doente.

Infelizmente, retrata-se ali a cidade de Los Angeles, que por sinal é um espelho da sociedade norte-americana. Na verdade, penso que a sociedade mundial está doente, com raríssimas exceções.

Temos ali um retrato das sociedades capitalistas modernas. E que se dizem democráticas.

Cenas cotidianas

- Uma asiática que ofende a uma suposta latina em uma batida de trânsito; garota que está no carro com um negro que é policial; negro que é irmão de outro negro, ladrão de carros; ladrão que anda com outro negro que diz que tudo é preconceito contra sua raça, até o jeito de olhar da garçonete no fast food ou da branca que vem pela calçada com seu marido; casal que finge não ser preconceituoso quando vê os dois negros se aproximando; negros que, por acaso, assaltam esses brancos e levam o seu carro e atropelam um asiático...

- enquanto isso, na casa das vítimas brancas ocorre uma rusga, pois a mulher branca acha seu marido condescendente com gente como o chaveiro que trocou a fechadura de sua casa, e que ela pensa ser bandido por ter aparência de latino com tatuagens; 

- em outro canto da cidade, um árabe é maltratado em uma loja de armas por seu dono branco que o ofende chamando-lhe de Bin Laden; 

- enquanto isso, ainda, um casal de negros endinheirado é parado na rua por um policial branco racista que quer descontar a raiva em alguém por seu pai estar doente e então humilha o casal alisando a mulher na vistoria, observado pelo outro policial loiro - que depois troca de parceiro por se achar certinho e incorruptível...

A partir daí desenrola-se a trama toda.

Durante os 100 minutos de filme, tudo o que se vê é a explicitação da falsa democracia norte-americana, da falsa liberdade norte-americana, da falsa terra de oportunidades norte-americana, da falsa competência norte-americana, em resumo, da falsidade norte-americana.

O que temos ali é preconceito, medo, falta de liberdade, falta de ética, falta de direitos (humanos e sociais). Será que é aquilo que o mundo precisa? Aquela é a sociedade ideal na qual se inspiram os liberais? Seria aquela a tal democracia racial? Ou étnica?

Um outro mundo é possível.

E o final do filme nos mostra que não é dali que vamos tirar a referência de outra sociedade necessária ao mundo.

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Post Scriptum em 2012

O SUL É A NOVIDADE DO SÉCULO XXI

Que tal mudarmos o nosso olhar mais para baixo no Atlas Geográfico?

Ali pelo lado do México, onde a população fez grande resistência à suposta fraude eleitoral arquitetada pela elite burguesa, na eleição mais conturbada das últimas décadas, quando Obrador foi roubado, pois ganhou a eleição, mas não levou (2004).

Ou então, podemos olhar para Cuba, que resiste há décadas ao embargo imperialista norte-americano. Se, por um lado, a falta de liberdade não é ideal e falta, inclusive, o direito a mais partidos políticos; por outro lado, é o lugar do mundo onde mais se investe em educação e saúde pública para todos.

Continuando a ir para o Sul, podemos dar uma parada ali na Venezuela, onde a Revolução Bolivariana de Hugo Chávez provoca arrepios aos imperialistas.

Descemos mais até passar pela potência Brasil, que em detrimento de erros cometidos aqui e acolá, mudou a vida de quase 80 milhões de pessoas que viviam à margem da própria vida e que agora parecem querer que as mudanças continuem com o governo democrático-popular de Dilma Rousseff, que sucede ao melhor governo da história do país, sob a batuta de Lula da Silva.

Ainda podemos passar pela Bolívia, Uruguai, Chile (apesar de retroceder à direita com Piñera), Equador e Argentina.

É um filme interessante.

Quando assisti aos outros três que citei, também quedei-me pensando nesta questão da sociedade “moderna” doentia em que vivemos.

Apesar de difícil (por nadar contra a corrente) muitos querem um outro mundo. E é por isso que nós socialistas, progressistas, esquerdistas, sindicalistas, saímos todos os dias de casa a buscar.

Um outro mundo é possível.

William Mendes

(Por um mundo mais solidário, com mais oportunidades e menor acumulação por poucos)

(comentado em 2006, quando ainda não tinha o blog, e revisto em 2012)

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Post Scriptum (02/11/19)

Quinze anos se passaram desde que o filme foi lançado. Quanta coisa aconteceu de lá pra cá. Quanta coisa! Os Estados Unidos são governados pelo empresário troglodita Donald Trump. O Brasil sofreu um golpe de Estado em 2016, derrubaram a Dilma Rousseff, sem crime de responsabilidade, sequestraram o ex-presidente Lula, que se candidatou para suceder o golpista Temer em 2018, e segundo as pesquisas seria eleito em primeiro turno... inventaram uma tal Lava Jato, uma organização criminosa dentro da estrutura estatal, e até hoje Lula segue preso, mesmo após toda a operação Lava Jato e os bandidos que a comandam serem desmascarados pelo site The Intercept Brasil, provando que armaram um conluio para destruir as cadeias produtivas do Brasil, roubarem o pré-sal, destruírem os direitos do povo brasileiro e doar o patrimônio público aos gringos. Todo mundo da elite está envolvido nesse projeto de destruição do país: o golpe foi "com o Supremo, com tudo" como demonstraram as gravações vazadas dos golpistas. Que canseira de descrever isso. CRASH... é bem isso... ah, já ia me esquecendo. As milícias e máfias ascenderam ao poder e estão nas instituições estatais do Brasil. O cara que ocupa a cadeira presidencial por golpe em 2018 e fraude nas eleições é o fascista troglodita Jair Bolsonaro. Todos os seus filhos têm mandatos e a famiglia toda manda no país. Elegeram fascistas no RJ, em SP e diversos Estados brasileiros. CRASH... 

A Paixão de Cristo - Mel Gibson (2004)


Foto divulgação

Refeição Cultural - A Paixão de Cristo

Direção: Mel Gibson - 2004

Com: Jim Caviezel (Jesus de Nazaré), Maia Morgenstern (Maria de Nazaré), Monica Bellucci (Maria Madalena), Rosalinda Celentano (Satanás). 

Impressões...

Após assistir ao filme A Paixão de Cristo, dirigido por Mel Gibson, vi-me impelido a fazer alguns comentários sobre ele.

Vê-se claramente que o filme quer atingir o seu público pela catarse imagética. Os diálogos que existem são tão poucos e tão inexpressivos que quase não se fazem necessários.

Em primeiro lugar, quero deixar já a minha opinião sobre o que achei da obra: grotesca!

Como humanista, saí do cinema com um grande aperto no coração. Doía mesmo! De tanta repulsa que senti ao ver tanto sangue. Já vi filmes que me chocaram bastante pela tortura a seres humanos. Mas como esse, ainda não consegui me lembrar de nenhum.

Gostaria de saber, de fato, qual a intenção do diretor, em escolher um banho de sangue e sangue e sangue para fazer um filme retratando um homem que viveu dois mil anos atrás e que pregou a paz, a não violência, o amor a todos, a esperança em um reino metafísico e na existência de um ser superior e que segundo Suas palavras, criou a tudo e a todos.

Confesso que não percebi nada da tal polêmica de que o filme pregaria o ódio aos judeus. Também achei infantis aquelas bestas “óliudianas” que apareciam para Judas e Jesus.

É interessante observar que o diretor conseguiu fazer um filme que não passa nenhuma mensagem pregada pela personagem retratada: Jesus Cristo. Perdeu a oportunidade de colocar diálogos importantes entre Este e os apóstolos, entre Ele e seu Pai, só para ficar nas passagens mais conhecidas dos evangelhos.

Muitos filmes sobre Cristo já foram feitos, daqueles antigos “café com leite” e foram muito melhores do que este.

E, para não falar que a questão de considerar o filme tão ruim é de ordem dogmática, vale salientar que se o objetivo do diretor era questionar a tradição cristã retratando Jesus de forma diferente daquela pregada pela igreja e por seus seguidores, muitos diretores já fizeram obras melhores que chocaram também o público, principalmente os cristãos, mas com qualidade superior no roteiro e na linha ideológica contrastante como, por exemplo, “A última tentação de Cristo” (1988), de Martin Scorsese, que, por sinal, também não gostei.

A única coisa que penso que se possa aproveitar da catarse sanguinolenta proporcionada pelo filme é a oportunidade de chamar a atenção para o cuidado que se deve ter ao lidar com massas e multidões. Ou seja, lidar tanto com grupos excluídos, necessitados e subjugados, quanto com grupos de dominadores, vencedores e mais organizados socialmente requer clareza do que se busca e aonde se quer chegar.

É importante conhecer sempre a tênue linha que separa a fraternidade da barbárie. Assim como os homens do Sinédrio levaram uma massa a pedir a troca e crucificação de um bandido condenado por um inocente, pode-se ver atualmente populações festejarem americanos queimados e pendurados no Iraque, bandidos em um presídio felizes a jogarem pedaços de presos pelo telhado, soldados nazistas exterminando milhares de judeus em fornos, crianças e adolescentes arrebentando uns aos outros com camisas de clubes rivais no futebol e daí por diante.

Sempre penso que devemos ter muita atenção ao que dizemos e em nossos atos, seja para com nossos filhos e amigos ou para com nossos adversários, por mais que, muitas vezes, estejamos “putos da vida” com eles.

É possível mudarmos sempre, tanto para melhor, quanto para pior (socialmente falando). Depende muito do contexto em que estamos. É pena não poder hoje desejar que o humano seja mais Humano, porque nestes dias que correm, as pessoas valem pelo que compram e têm, e não pelo que são...

Mas muitos de nós trabalhamos para mudar isso, é ou não é?


(Escrevi estas impressões em 2004, após o lançamento do filme)

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Post Scriptum (31/3/18):

Assisti novamente ao filme. Já se passaram catorze anos desde que vi o filme pela primeira vez. Tanta coisa mudou! Eu, meu mundo, o mundo. Sigo achando a violência extremada, um exagero. Mas ela é bem o retrato da maldade humana. É muito real. Somos maus mesmo! 

Uma coisa eu mudei de opinião em relação ao texto original que escrevi: entendo que o filme incita, no mínimo, muita raiva em relação ao povo judeu, pela forma como ele foi mau com o cidadão Jesus Cristo. É isso!

Post Scriptum (20/12/19):

Revi o filme mais uma vez e, se já havia mudanças importantes de visão em março em 2018 como disse acima, o que poderia dizer agora, após o primeiro ano do Brasil governado pela milícia, pelo fascismo? Os fariseus do Sinédrio chegaram ao poder central, as leis são usadas para caçar e aniquilar qualquer pessoa que pense diferente deles. Assassinatos, chacinas, tiros na "cabecinha" ordenados por governantes. O símbolo dos governantes no poder são armas, cartuchos de balas, dedo indicador e polegar modelo "arminha". O ódio venceu. Jesus perdeu. E a destruição de tudo segue acelerada em Seu nome.