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domingo, 23 de abril de 2017

Leitura: Bom de briga (2000) - Markus Zusak



Dois bons livros do autor australiano Markus Zusak.

Refeição Cultural

"Do que ele pode ter medo?
- O que eu vou fazer quando tiver uma luta que posso perder?
Então, é isso.
O Rube é um vencedor.
Ele não quer ser.
Ele quer ser, primeiro, um lutador.
Como nós.
Lutar uma luta que pode perder.
Respondo à pergunta para tranquilizá-lo.
- Você vai lutar de qualquer jeito, como nós.
- Você acha?
Mas nenhum de nós sabe, porque uma luta não vale nada se você sabe desde o início que vai ganhar. São as lutas no meio disso que põem você à prova. São as que trazem perguntas com elas.
O Rube ainda não esteve numa luta. Não numa de verdade.
- Quando acontecer, será que eu vou me levantar? - pergunta.
- Não sei - confesso.
Ele preferia ser um lutador mil vezes entre o bando dos Wolfe a ser um vencedor no mundo uma só vez.
- Me diz como fazer isso - pede. - Me diz. - Mas nós dois entendemos que algumas coisas não podem ser ditas nem ensinadas. Um lutador pode ser um vencedor, mas isso não faz de um vencedor um lutador" (Bom de Briga, Markus Zusak)


Assim como fiz a leitura do livro anterior do australiano Markus Zusak, O Azarão (1999), sobre os irmãos Wolfe, sozinho em casa, longe de filho e esposa, em março passado, li neste feriado o outro livro dele, Bom de Briga (2000), dando sequência à estória dos adolescentes Cameron e Rubem Wolfe e sua família proletária cercada dos problemas comuns de nós todos trabalhadores do mundo. Falta de dinheiro para o sustento, pai encanador desempregado, a busca dos jovens para se estabelecerem na vida.

Eu pensei muito na minha infância e adolescência difícil e na vida de meu amado filho quando li no mês passado o livro dos irmãos Wolfe (ver comentário AQUI).

Hoje, li com saudades dele e com preocupações a respeito do presente e futuro, tanto de meu filho quanto dos jovens filhos da classe trabalhadora brasileira. A estória dos jovens Wolfe é muito bem contada, retrata bastante a realidade em nosso mundo e me fez lembrar bastante o meu mundo dos anos oitenta e noventa, um cenário desolador para a classe trabalhadora, cenário que retorna ao Brasil após o Golpe de Estado em 2016.

Me emocionei bastante com a leitura, talvez pelo contexto. Nós temos que ser lutadores, independente de sermos vencedores. Aprendi isso em minha vida desde a infância num local difícil, na adolescência e primeira vida adulta com a miséria que nosso País vivia e com ele toda a classe trabalhadora. O contexto de pobreza, de desemprego, faz os adultos, os pais, se sentirem derrotados pela vida, pelo mundo. E a culpa não é deles, pois um país e seus governos devem estar a serviço de seu povo, dando a ele oportunidades para a vida com dignidade.

Também me tocou relembrar o difícil trilhar de cada jovem no começo de sua vida, seja ela em condição de miséria e também em melhores condições de vida. O buscar estabelecer-se na vida em sociedade, num mundo duro como é o nosso, é sempre um desafio grande para os adolescentes. Independente do contexto social em que se encontram os adolescentes, todos eles vivem seus dramas de relacionamento, para serem aceitos, para lidarem com os assédios que a vida lhes apresenta.

Gostei muito do livro. Eu senti um pouco mais meu filho. Já havia sentido isso na leitura de J. D. Salinger em seu clássico O apanhador no campo de centeio (1951), ler comentário AQUI

O jovem autor Markus Zusak está de parabéns pelos dois livros retratando a família Wolfe. E olha que o livro mais famoso dele é A menina que roubava livros (2005), que ainda não li.

É uma leitura leve e que mexe com a gente que vive de levantar todos os dias para novas lutas, independente se vencemos ou perdemos a luta anterior (da vida).

William Mendes
Um amante da leitura

segunda-feira, 6 de março de 2017

Próximos objetivos de autoconhecimento e resistência


Projetos de leitura para o próximo período.

Refeição Cultural

Acabou o primeiro final de semana de março de 2017. Tentei aproveitá-lo o máximo que pude.

Após conseguir empreender uma jornada importante de leituras em janeiro e fevereiro, quando li e terminei 12 livros no mês de férias e mais 5 livros no mês passado, iniciei este mês com a leitura de um livro leve e descontraído do australiano Markus Zusak - O azarão (1999) - ler AQUI. Foi uma leitura motivada por saudades de meu filho, jovem estudante ausente de casa.

Agora defini uma meta de leitura desafiadora para mim, apesar de parecer modesta para quem tem mais tempo de leitura. Hobsbawn é um clássico que sempre revisito a parte que já li, e capítulos soltos, mas nunca li de cabo a rabo. Comunidades Imaginadas (1983), de Benedict Anderson, é um tema que me interessa muito, comprei e li cento e poucas páginas em 2010 e nunca mais peguei. Hemingway é porque já li neste ano O sol também se levanta (1926) - ler AQUI - e quero seguir com o autor lendo a obra que tem como pano de fundo a 1ª Guerra Mundial.

Os quatro livros (da foto acima) têm relação profunda com política internacional, períodos anteriores às grandes guerras mundiais e pós-guerras. Na minha leitura, o mundo caminha para algum tipo de sociedade distópica, caótica e terrível para os seres humanos. O que podemos fazer? Algo central seria estudar e dar formação política e social para os nossos pares da classe trabalhadora para organizar a reação. Onde está a organização de base para isso? Ninguém sabe, ninguém viu. Mas já que pertenço ao pequeno grupo de militantes políticos e sociais que tomou a pílula da desalienação... não tenho como fugir de meu papel como ator social.

Por fim, como anda a minha saúde para seguir lutando? Anda meio ruim. Mas não é porque o cansaço pela dedicação canina ao projeto social em que estou engajado está me consumindo - a autogestão em saúde dos trabalhadores do Banco do Brasil -, que vou desistir de buscar uma condição mínima de saúde e condicionamento físico.

Em janeiro, fiz um tremendo esforço para correr, andar e me exercitar um pouco. Consegui correr 13 vezes e caminhei praticamente o mês todo. Em fevereiro, trabalhei longas jornadas de manhã, tarde e noite. Mesmo assim, corri 7 vezes. O tempo todo, com desconforto nos Tendões de Aquiles.

Iniciei o mês de março concentrado em achar alguma energia para correr. Consegui correr no dia 1º (4k), no dia 3 (4,6k) e hoje, no Eixão, fiz uma corrida de 6k. Fiquei feliz nestas corridas de março, porque não senti muito os tendões.

Meu objetivo esportivo é desafiador para o meu momento atual e modesto para o que já corri de provas meio longas. Quero chegar aos 48 anos, daqui para abril conseguindo correr 10k. Atualmente não estou em condições para tal.

É isso. Acabou o domingo. Vamos para uma semana difícil de trabalho, simplesmente porque sempre é de batalhas o papel de um representante eleito em gestão compartilhada. O conflito de interesses e de visões na gestão é da natureza da entidade de saúde que administramos. E não estou dizendo com isso que o modelo deva mudar, porque lembrando os ensinamentos de Marilena Chauí, é da natureza da Política a divergência, o debate, o conflito, e ao final, deve prevalecer a busca de soluções conciliadas e em prol do bem comum e coletivo.

Boa semana a tod@s os meus pares da classe trabalhadora.

William


Post Scriptum (14/04/17):

Ao reler esta postagem, o que registro é bom. Com toda a dificuldade de agenda que tenho, acabei de ler "Adeus às armas" (1929), de Hemingway. Também consegui ler "Comunidades imaginadas", que estava na lista de quatro livros a ler.

Em relação a chegar aos 48 anos correndo um percurso de 10k, não foi possível. O que deu pra fazer foi correr 7k. Mas tudo bem. Cheguei aos 48 anos com disposição de não ser sedentário e me esforçar para praticar esportes. É isso!

sábado, 4 de março de 2017

Leitura: O azarão (1999) - Markus Zusak





Refeição Cultural


"A primeira coisa que me obrigou a fazer foi meter a mão na privada de uma velha e retirar tudo que estava entupindo o cano. Sério, quase vomitei na privada na mesma hora.

- Ah, que merda! - gritei, sem fôlego, e meu pai apenas sorriu.

Falou:

- Bem-vindo ao meu mundo, filho. - E foi a última vez que sorriu durante todo o dia. No restante do tempo, me obrigou a fazer todo o trabalho sujo, como pegar canos no teto da van, cavar uma fossa debaixo da casa, ligar e desligar a energia elétrica, e recolher e arrumar as ferramentas dele. No fim do dia, me deu vinte contos e, na verdade, me agradeceu.

Falou:

- Obrigado pela ajuda, garoto."


Comentário do Blog

Na quinta-feira à noite, dia 2 de março, cheguei do trabalho esgotado e já era quase onze horas. Estava sozinho em casa, estando a esposa em Osasco e o filho longe, estudando no interior de São Paulo. 

Fiquei pensando em meu filho. Entrei no quarto dele, hoje vazio, e acabei olhando algumas coisas. Apostilas de cursinho, livros. Peguei dois livros de Markus Zusak. Vi nas capas e orelhas que eram livros sobre jovens. Comecei a ler O azarão. O sono logo bateu por causa do cansaço. Li umas trinta ou quarenta páginas.

Por mais que eu tenha me esforçado para acompanhar momentos importantes na vida deste belo jovem, meu filho, enquanto minhas lutas pelos trabalhadores me afastavam do dia a dia de casa, eu sinto que preciso sempre buscar formas de compreendê-lo mais, de estar mais disponível, de tentar entrar em seu mundo, se ele quiser que isso ocorra. Até uma série de Anime - Death Note - estou quase acabando de ver. Dos 37 capítulos, faltam 4 agora.

Superar a distância de mundos diferentes entre os adultos e os jovens é algo sempre desafiador para pais e filhos. Certa vez, li algo que nunca esqueci: que nós adultos devemos respeitar a dimensão sentida pelos jovens, às vezes dramática, dos problemas que eles têm, por mais que na nossa ótica, o caso concreto que eles enfrentem possa parecer algo menor, porque um problema deles para nós pode parecer bobagem, mas para o mundo deles pode ser algo de muito sofrimento real. É necessário estarmos atentos a isso.

Um dos livros que li faz pouco tempo, em 2012 - O apanhador no campo de centeio (1951) -, de J. D. Salinger, me fez refletir muito sobre a juventude, os jovens, as revoltas com causa ou "sem causa" dos jovens. Eu fui um jovem extremamente revoltado. (ler comentário sobre o livro de Salinger AQUI)

Enfim, neste sábado, acordei e retomei a leitura até o fim. A estória do jovem Cameron Wolfe e seus irmãos e irmã me fez pensar na juventude de meu filho, na sua geração e lembrei-me de minha própria juventude e geração.

A cena que coloquei em epigrama é a descrição exata do que vivi como ajudante de encanador lá na minha infância e que foi muito marcante para mim (ler uma crônica a respeito AQUI). Na estória o pai de Cameron é encanador e aceita o pedido do filho para ajudá-lo em troca de conseguir algum dinheiro, já que foi despedido pelo jornaleiro por quebrar um vidro sem querer nas entregas que fazia.

Os críticos e os operadores do mundo literário gostam de classificar os tipos de textos literários. Este que li está classificado como literatura para jovens. Assim como não sou muito favorável às classificações que se fazem de algumas obras clássicas como sendo de difícil compreensão para determinados grupos - muito jovens, com pouca formação etc - também acho que toda obra pode valer a pena conforme o momento em que um leitor se encontre em sua vida. 

Valeu a pena a leitura deste livro de Markus Zusak. Vou ler o outro dele publicado como sequência da estória dos irmãos Cameron e Ruben Wolfe - Bom de briga (2000).

Abraços,

William
Um leitor