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quarta-feira, 28 de maio de 2025

Poema 30: Oração como utopia


ORAÇÃO COMO UTOPIA


Enquanto me banhava

meus pensamentos oravam

pedindo ajuda e proteção:

aos palestinos violentados,

aos viciados em drogas, 

aos imigrantes sem chão, 

às mulheres sem liberdade, 

às vítimas da depressão, 

aos odiados e perseguidos,

a quem falta o pão. 


Ateu não fala com deuses,

mas a razão consciente

sabe ser possível a mudança 

pela inteligência humana. 


Falemos de mudança!

Sejamos sonhadores!

Esperancemos!

Utopia, já!

Amém!


William 

28/05/25


sábado, 7 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (7) - Llaneza, Jorge Luis Borges



LLANEZA - JORGE LUIS BORGES

           A Haydée Lange


Se abre la verja del jardín

con la docilidad de la página

que una frecuente devoción interroga

y adentro las miradas

no precisan fijarse en los objetos

que ya están cabalmente en la memoria.

Conozco las costumbres y las almas

y ese dialecto de alusiones

que toda agrupación humana va urdiendo.

No necesito hablar

ni mentir privilegios;

bien me conocen quienes aquí me rodean,

bien saben mis congojas y mi flaqueza.

Eso es alcanzar lo más alto,

lo que tal vez nos dará el Cielo:

no admiraciones ni victorias

sino sencillamente ser admitidos

como parte de una Realidad innegable,

como las piedras y los árboles.

---

COMENTÁRIO:

Fiquei dias pensando neste poema de Borges. Na minha interpretação, o poema fala de pertencimento:

"que toda agrupación humana va urdiendo."

Cada verso, cada imagem, vai nos fazendo sentir o acolhimento que eventualmente o leitor ou leitora sinta ao chegar no ambiente ao qual pertence: 

"bien me conocen quienes aquí me rodean,"

Por outro lado, se sente também o amargor de não se ver mais pertencente a um ambiente que te compõe "cabalmente en la memoria".

Me lembrei de uma cena de cinema, do filme "Highlander" (1986), do banimento de Connor MacLeod de seu clã sem que nada de errado tivesse feito para merecer a proscrição do mundo ao qual pertencia.

Ao ler o poema "Llaneza", de Borges, senti uma "nostalgia" no sentido espanhol da palavra: "tristeza o pena que se siente al estar lejos de las personas y de los lugares queridos" (Señas, Martins Fontes, 2001)

As reuniões de família na casa da vó Deolinda, da vó Cornélia, da casa de meus pais; o pertencimento ao movimento sindical. As pessoas conheciam a gente, nossos anseios e fraquezas, mas éramos admitidos como parte daquela realidade...

Hoje não tenho mais pertencimento (me falta alcançar o mais alto...). 

Nostalgia...

William Mendes 


Bibliografia:

BORGES, Jorge Luis. Antología poética 1923-1977. Biblioteca Borges, Alianza Editorial. Madri, 2005.

quarta-feira, 15 de maio de 2024

Vendo filmes (XVI)



Refeição Cultural

Vidas passadas, vidas futuras, o presente que estamos construindo


Vi por esses dias dois filmes cujos enredos se passam nos Estados Unidos da América, ou pelo menos partes das histórias acontecem por lá. 

Estive duas vezes em Nova York e a experiência me trouxe aprendizados, inclusive me ajudou a evoluir em relação a preconceitos que tinha por confundir o povo de um país com o governo, coisas relacionadas, mas diferentes. Numa plutocracia como nos EUA, o povo pouca influência tem nos rumos da nação.

Neste artigo, comento a respeito de dois filmes muito bons, filmes que mexem com os sentimentos dos espectadores, filmes que valem a pena! Filmes com temáticas muito diferentes.

São filmes para chorar, para disparar as batidas do coração. Estórias que incomodam o espectador que, ou torce para que o desfecho seja o esperado ou se indigna pela atitude não esperada dos personagens.

O filme "Guerra Civil" nos assusta. É ficção ou é uma premonição do amanhã? E o comportamento das personagens naquele mundo sob guerra civil? Já não somos nós hoje com a indiferença na qual lidamos com todas as desgraças e injustiças ao nosso redor? Foda!

O filme "Vidas Passadas" nos envolve e nos coloca nos papéis dos jovens personagens sul-coreanos. Na vida real, os caminhos que as vidas deles tomaram seriam os caminhos meio que obrigatórios de boa parte das pessoas no mundo contemporâneo. São nossos destinos quando escolhemos as veredas que tomamos na vida? Há diferença entre escolher caminhos ou deixar que os caminhos se apresentem a nós e a gente só siga por eles?

Gostei bastante dos dois filmes. Recomendo a imersão, a viagem. O exílio por algum tempo nas ficções é perigoso como a vida real no mundo em desfazimento atual. A experiência pode nos modificar e ao final da catarse já não seremos os mesmos...

William Mendes

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FILMES

Vidas Passadas (Past Lives), 2023. Direção e roteiro: Celine Song. Elenco: Greta Lee, Yoo Teo, John Magaro.

SINOPSE: filme conta a história de Nora Moon (Na Young até os 12 anos) e Hae Sung, dois amigos de infância com uma forte conexão, que são separados quando a família de Nora decide migrar para o Canadá. Depois de muitos anos, eles retomam contato pela internet e duas décadas depois da separação se encontram em Nova York. O encontro colocará frente a frente dois adultos ligados pelo passado comum na Coreia do Sul e separados pelas veredas da vida.

COMENTÁRIO: a história de Nora e Hae Sung emocionam a gente. Nos deixam pensando na vida. Enquanto estamos na sessão, viajamos por várias reflexões sobre nossas vidas, eu vi na história dos amigos de infância sul-coreanos as veredas de minha própria história de vida. Provavelmente muitos espectadores se veem ou se recordam de alguém em contextos parecidos aos de Nora e Hae Sung. Na existência humana os exílios acabam se impondo em um momento ou noutro de nossa jornada.

Minha impressão é que a diretora e roteirista Celine Song quis nos mostrar os caminhos percorridos por duas pessoas de natureza muito diferentes, apesar da origem comum que as unia na infância. Uma pessoa, Nora, muito competitiva, sonhadora e disposta a alcançar seus objetivos, e a outra, Hae Sung, mais voltada à tradição e cultura de sua gente. Sentimentos difusos entre duas pessoas... amizade, amor, cumplicidade (a pessoa que sempre acolhia enquanto a outra chorava).

Pensei em tanta coisa durante o filme! Aos dez anos fui embora de meu mundo. Tive que me adaptar a outro mundo. Aos dezessete, voltei sozinho para aquele mundo da infância: nada mais era como antes. Exílios... Tenho na memória a lembrança de estar sempre andando em sentido contrário às gentes: aos 17 anos, quando descia para ir a outra escola - o Daniel - enquanto todo mundo subia para ir ao Adolfino. Aos 32 anos, quando descia na Franz Voegeli no final da noite, vindo da USP, e trombando com a gente subindo pela calçada, saindo da faculdade local. 

Nora e Hae Sung veem o mundo com a cultura da sua gente, com as crenças e mitologias que conformam a vida dos sul-coreanos. Como teria sido a vida deles se Nora não tivesse se mudado com os pais para outro país? Teriam ficado juntos, teriam filhos? Já estiveram juntos em vidas passadas? Em que contexto isso teria se dado? Ficariam juntos em alguma vida futura? Veredas, veredas...

O filme é lindo, muito bem montado. As cenas de lugares e tempos distintos se conectam. O monumento no qual as duas crianças brincam num encontro proporcionado por suas mães e anos depois um monumento onde se encontram em Nova York. Rostos de pedra separados por algo entre eles, como a vida deles, juntos, mas separados. Os silêncios que falam por eles, os cenários perfeitos para os momentos dos encontros. O parque e o carrossel... a cena da calçada aguardando o uber... as escolhas que Nora e Hae Sung fizeram, eu diria que de forma consciente, são as dimensões das decisões humanas a nos fazer refletir sobre a vida.

Filme para ver e rever sempre! Nos põe a pensar a vida.

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Guerra Civil (Civil War), 2024. Direção e roteiro: Alex Garland. Elenco: Wagner Moura, Kirsten Dunst, Cailee Spaeny e Stephen McKinley Henderson.

SINOPSE: o filme retrata a história de uma equipe de jornalistas e fotógrafos que viaja pelos Estados Unidos durante uma guerra civil. Joel (Moura) e Lee (Dunst) são amigos de longa jornada, estão em Nova York e pretendem chegar até Washington (DC) para entrevistarem o presidente dos EUA antes que a guerra chegue ao fim.

COMENTÁRIO: visto no cinema o filme coloca o espectador dentro do cenário de tensão da trama. Guerra é uma merda! Durante a sessão ficamos pensando como é ou seria bom vivermos em paz. E o enredo ficcional do filme nos lembra o quanto estamos a cada dia mais próximos da guerra, das guerras. Na verdade, já estamos em guerra, guerra civil, inclusive. A questão é quando as consequências das guerras se darão nas imediações de onde você e eu estamos. 

Saí do cinema meio passado. O que a ficção retrata é uma hipótese muito premonitória do que pode estar por vir. E o filme demonstra ao espectador a loucura que impera num mundo sem paz, sem contrato social, sem direitos civis, sem as conquistas civilizatórias - apesar de imperfeitas - que a espécie humana criou ao longo de sua existência no planeta. Foda isso!

Em termos de técnica, o filme é uma espécie de road movie, num cenário distópico, baseado na imagem, na fotografia. Diálogos pouco aparecem e o enredo deixa claro que o diálogo acabou, já era! Não existe mais rendição, conciliação. As coisas se resolvem na violência, na bala. Na eliminação ao diferente, divergente. Lei da selva: na guerra civil da savana, pela sobrevivência, não existem direitos de humanos, de gazelas, de cervos, de rezes e filhotes. Predação.

Algumas cenas são marcantes: belezas fugazes em meio a sangue, concreto, bombas, chumbo: umas florezinhas na grama distraem gente assustada durante tiroteio... fuligens incandescentes iluminam a noite dos mundos queimando... gente morrendo em instantes captados em preto e branco...

Como seres históricos, como seres passíveis de educação, podemos desenhar e capturar instantes melhores num futuro diferente... um mundo de paz, de tolerância à diversidade e sustentável. Queremos isso? Estamos fazendo algo por isso? Ou só queremos cliques, likes?

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É isso! Dois filmes distintos, dois enredos que se passam na terra do império atual.


Post Scritpum: o texto anterior desta série de comentários sobre filmes pode ser lido aqui. O comentário seguinte sobre filmes pode ser lido aqui.


sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Diário e reflexões - Cuba II (06/01/23)


José Martí.

Refeição Cultural - Cuba (II)

Osasco, 6 de janeiro de 2023.


"Todo lo quiere para su gente Martí: libertad primero, holgura y cultura luego, felicidad finalmente" (In: "La lengua de Martí", Gabriela Mistral)


A leitura do livro de Leonardo Padura - O homem que amava os cachorros - não será fácil, é um livro grande, uma leitura que exige atenção. Além do contato com esse autor cubano moderno, também comecei a leitura sobre José Martí, escritor e político cubano do século XIX. Adquiri uma edição comemorativa de Martí, uma antologia com sua obra poética completa. Até o momento, li dois artigos sobre ele, um do nicaraguense Rubén Darío e outro da chilena Gabriela Mistral.

A passos de tartaruga, estou retomando meu contato com o idioma espanhol. A leitura dos textos em espanhol é uma estratégia importante por causa do vocabulário e da sintaxe. Também estou ouvindo mais o idioma e vendo umas aulas de língua espanhola no ICL para relembrar as formalidades gramaticais do idioma.

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JOSÉ MARTÍ

"La lengua de Martí", por Gabriela Mistral (do livro Martí en su universo. Una antología)

"Guardó a España la verdadera lealtad que le debemos, la de la lengua, y ahora que los ojos españoles peninsulares pueden mirar a un antillano sin tener atravesada la pajuela de la independencia, desde Madrid le dirán leal a este insurrecto, porque conservó una fidelidad más dificil de cumplir que la de la política, y que es esta de la expresión." 

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"Ahora que sabemos que la originalidad de Martí ha sufrido la prueba de los magisterios posibles, veamos de averiguar en qué consiste esta originalidad en sí misma. Parece ser que ella tiene estos trazos: originalidade de tono, originalidad de vocabularios, originalidad de sintaxis."

Tom - Mistral explica que Martí tinha o dom da oratória sem as características do discurso em público, não precisava gritar nem usar de gestos agressivos para dominar o público:

"El secreto de Martí orador consiste tal vez en que, manejando un género de virtudes falsas, él lo sirve con virtudes verdaderas..."

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Martí da língua espanhola culta e popular

"Martí, por el contrario, vivirá las edades formadoras, infancia y adolescencia, sumergindo en su lengua hablada por las tres castas, abonándose con el español culto de los cultos y con el gustoso y pimentado del pueblo. Cuando salió al destierro, llevaba, sólida y segura como las entrañas que no nos dejan, una lengua completa y viva, chupada veinte años en la cubana."

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Martí, sobretudo um poeta

"No olvidaremos tampoco que este hombre es sobre todo un poeta; que puesto en el mundo a una hora de necesidades angustiosas, él aceptará ser conductor de hombres, periodista y conferenciante, pero que si hubiese nacido en una Cuba adulta, sin urgencia de problemas, tal vez se hubiese quedado en hombre exclusivo de canto mayor y menor, de canto absoluto."

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As metáforas de Martí vêm do coração

"Al lado de la extraordinaria sintaxis de Martí está, pues, como el otro pilar de su magistralidad, su metáfora. La tiene impensada y no extravagante; la tiene original e no estrambótica; la tiene virgínea..."

e

"el corazón es el proveedor de la metáfora en Martí, así la tiene de espontánea, de fresca y de cándida, aun cuando le sirve a veces para la santa cólera."

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O HOMEM QUE AMAVA OS CACHORROS

A incompreensão do suicídio

"Perguntou a si mesmo que angústias podiam atormentar o cérebro de um homem sensível e expansivo como Maiakóvski para que renunciasse voluntariamente ao perfume de um guisado, à magia de um entardecer, à visão do encanto feminino, entregando-se ao mutismo irreversível da morte." (p. 69)

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A solidão do exílio

"Sentiu que, naquele preciso instante, começava o seu exílio: verdadeiro, total, sem ter onde se agarrar. Para além da família e de alguns poucos amigos que lhe tinham reiterado a sua solidariedade, era um homem aflitivamente só. Seus únicos aliados úteis numa luta que devia iniciar (como?, por onde?) continuavam isolados em campos de trabalho ou já tinham claudicado, mas permaneciam todos dentro das fronteiras da União Soviética, e a relação com eles ia se apagando com a distância, a repressão e o medo." (p. 72)

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"sentiu que nem sequer seu otimismo inabalável ou sua fé na causa podiam libertá-lo da sensação invasiva de solidão que o embargava." (p. 79)

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A morte, uma contingência da revolução

"A morte, no entanto, podia ser considerada apenas uma contingência inevitável: Liev Davidovich sempre pensara que as vidas de um, de dez, de cem, de mil homens podem e até devem ser devoradas se o turbilhão social assim o exigir para atingir seus fins transformadores, pois o sacrifício individual é muitas vezes a lenha que se queima na pira da revolução." (p. 73)

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A irracionalidade do terrorismo

"Naquela noite conversaram durante horas sobre poesia russa e francesa (coincidiam na admiração por Baudelaire) e sobre a irracionalidade dos métodos terroristas (se uma bomba resolve tudo, para que servem os partidos, para que serve a luta de classe?)..." (p. 78)

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Ditadura do proletariado

"A teoria marxista, que Lênin e ele utilizavam para validar todas as suas decisões, nunca considerara a circunstância de os comunistas, uma vez no poder, perderem o apoio dos trabalhadores. Pela primeira vez desde o triunfo de Outubro deveriam ter se interrogado (interrogamo-nos alguma vez?, perguntaria a Natália Sedova) se era justo instaurar o socialismo contra ou à margem da vontade majoritária. A ditadura do proletariado devia eliminar as classes exploradoras, mas deveria reprimir também os trabalhadores?" (p. 83)

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COMENTÁRIO FINAL

Ler, estudar, exercitar o cérebro que nos faz ser o que somos é uma obrigação e uma necessidade vital. Estudemos então.

Estou com vários textos começados, mas todos exigem pesquisa, exigem ânimo e exigem reflexão sobre a tecitura dos mesmos. Enquanto os textos não são produzidos, vamos lendo e estudando algumas coisas.

A primeira postagem dessa série de estudos sobre Cuba pode ser lida aqui.

William


Bibliografia:

MARTÍ EN SU UNIVERSO - UNA ANTOLOGÍA. Edición Conmemorativa. Real Academia Española e Asociación de Academias de La Lengua Española. Alfaguara - Lengua Viva, Madrid.

PADURA, Leonardo. O homem que amava os cachorros. Tradução de Helena Pitta. 2ª ed. - São Paulo: Boitempo, 2015.


sábado, 11 de dezembro de 2021

Leitura - Robinson Crusoé (VII) - Daniel Defoe



Refeição Cultural

Neste sábado resolvi dar uma focada na leitura de Robinson Crusoé (1719), de Daniel Defoe. Completando um mês de leitura, consegui ler vários capítulos e cheguei à metade do livro, capítulo XVIII.

O romance teve um andamento até o capítulo XIII e agora a narrativa deu uma guinada. Acabaram-se os dias de solidão. Foram 24 anos solitários na ilha, Ilha do Desespero, como Crusoé a chamou.

No capítulo XIV, o náufrago inglês sonha acontecimentos que depois ocorreriam na vida real. Lembrando que Crusoé avistou pegadas na praia alguns capítulos antes. Ele nunca mais teve sossego desde que descobriu que canibais aportavam à ilha para rituais de canibalismo. Sonhou um dia que uma das vítimas fugia dos canibais e ele dava guarida a ela. 

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CRUSOÉ, UM IMPERIALISTA, CLARO! 

O capítulo marca a bronca que passei a ter do desgraçado Robinson Crusoé. É verdade! Como leitores, sabemos que as obras literárias carregam as marcas de seu tempo, local, contexto, ideologias etc. O livro é do início do século XVIII, escrito por um inglês, período das navegações e dos impérios colonialistas. Difícil escaparmos das marcas e influências das ideias desses séculos.

O náufrago Robinson Crusoé está na situação que está porque mesmo estando bem estabelecido no Brasil como latifundiário que plantava cana-de-açúcar e tabaco, com mão-de-obra escrava, resolveu ir à Guiné buscar mais escravos e se ferrou na viagem. Então já sabemos que não se trata de um santo.

Mas o personagem carrega de forma excepcional aquele ar arrogante dos homens de seu tempo, brancos, imperialistas, que se acham superiores aos demais povos do mundo que iam descobrindo com as navegações de conquista de novas terras. Defoe é bom em transpor para Crusoé os valores ingleses.

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UM ESCRAVO, NÃO UM AMIGO

Após 24 anos de solidão na ilha, o náufrago inglês não queria uma companhia humana, um amigo, alguém para conviver de igual para igual. O desgraçado queria um escravo, um serviçal, alguém para servir a ele. E é isso que ele faz ao salvar um selvagem de ser comido pelos inimigos. Robinson Crusoé tem a partir daquele momento um serviçal, um escravo, que nomeia de Sexta-Feira.

"Sonhei que uma manhã, saindo do castelo como de costume, vi duas canoas perto da praia, das quais desembarcaram onze selvagens com um prisioneiro destinado a sua refeição canibalesca. No momento em que o iam matar, o mísero fugiu (...) ajudei-o a subir pela escada, trouxe-o para a minha habitação, e ficou sendo meu escravo. Fiquei satisfeitíssimo com este incidente, persuadido de ter adquirido um homem capaz de me servir de piloto na empresa projetada, e de dar-me os conselhos necessários para evitar todo o gênero de perigos." (p. 185)

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O SENHOR E O ESCRAVO

"A cútis não era negra, sim muito trigueira, mas nada parecida com a desagradável cor pardacenta dos habitantes do Brasil e da Virgínia..." (p. 190)

Essa foi a descrição que Crusoé fez em seu diário do homem jovem de cerca de 25 anos que fugiu dos canibais e foi salvo por ele.

"Uma das primeiras coisas que lhe ensinei foi o nome que entendi dever dar-lhe: o de Sexta-Feira, em memória do dia da semana em que o tinha salvo. Aprendeu também a chamar-me meu senhor e a dizer a propósito sim e não." (p. 190)

Sigamos adiante. Se trata de um romance, um livro clássico com trezentos anos de história.

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O DEUS DOS INGLESES É MELHOR QUE OS DEUSES DOS OUTROS

No capítulo seguinte, o XV, Crusoé ensina inglês para o jovem, ensina a sua religião e descobre que os povos locais também têm a religião deles, mas o inglês explica a Sexta-Feira que o Deus dele é melhor que o dos indígenas locais: Benamuckee.

"Aproveitei a oportunidade para o instruir nas noções do verdadeiro Deus." (p. 199)

Conversando com Sexta-Feira, consegue mais informações sobre a localização em que está, perto da desembocadura do rio Orinoco, região do Caribe.

Na página 202, sabemos pelo personagem que se passaram 3 anos amenos de convivência entre ele e Sexta-Feira. São 27 anos na ilha, os últimos 3 na companhia do seu "serviçal". 

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No capítulo XVI mais aventuras acontecessem. Vão chegando canibais e vão aumentando os "vassalos" salvos pelo "monarca" Crusoé. Agora faz parte do grupo o pai de Sexta-Feira e um espanhol naufragado.

"Eis a minha ilha povoada, e eu rico em vassalos! Era caso para ter vaidade, considerando-me um minúsculo monarca, visto que toda ela era domínio meu por títulos incontestáveis. Os súditos eram-me fiéis e submissos; eu arrogava-me como árbitro supremo e legislador despótico. Salvara-lhes a vida, e em compensação estavam prontos a arriscar a sua no meu serviço. O mais singular é que havia nos meus estados três religiões diferentes: Sexta-Feira era protestante, o pai, pagão e canibal, e o espanhol, católico romano. Eu, como príncipe sábio e justo, decretava a liberdade de consciência em todo o meu reino." (p. 219)

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Nos capítulos XVII e XVIII novas aventuras acontecessem. Um navio inglês ancora na ilha, e após diversas peripécias, inclusive tendo como herói e salvador Crusoé novamente, ele passa a ter agora um navio à sua disposição e uma tripulação. 

Agora veremos o que acontecerá a seguir...

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COMENTÁRIO FINAL

Século XVIII. Relações humanas utilitaristas, de interesses. Senhores e serviçais. 

Século XXI. Relações humanas utilitaristas mais que nunca, de interesses... senhores e serviçais.

Não mudou muita coisa em 300 anos.

William


Bibliografia:

DEFOE, Daniel. As aventuras de Robinson Crusoé. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Leitura - Robinson Crusoé (V) - Daniel Defoe



Refeição Cultural

"Agora, considerava o mundo como terra estranha, onde não existia objeto possível para as minhas esperanças e aspirações. Efetivamente faltava-me o convívio com a humanidade, e, segundo todas as aparências, não tornaria mais a tê-lo. Parecia-me que podia já encarar este mundo, como talvez no outro seja observado, isto é, um lugar onde vivemos outrora, e do qual saímos para sempre; devendo na verdade dizer dele o mesmo que Abraão ao rico orgulhoso na parábola bíblica:
'Separa-nos a nós ambos um abismo.'
" (p. 132)


Li o capítulo IX de As aventuras de Robinson Crusoé (1719), de Daniel Defoe. Como previ, a leitura será longa porque o livro é enorme, apesar de ser um romance de leitura simples, de linguagem prosaica, no formato de diário e narrado pelo próprio personagem.

Crusoé nos conta como passou o 3º e o 4º ano na ilha, chamada por ele Ilha do Desespero, mas enaltecida ao extremo em certos momentos da história. 

Enquanto lia as agruras do personagem para conseguir fabricar ferramentas e utensílios básicos da vida humana (tecnologias como panela, roupa e peneira), fiquei me lembrando o quanto somos dependentes uns dos outros, não somos nada sozinhos. Ontem, hoje e sempre.

É muito interessante uma ficção sobre um náufrago numa ilha deserta tentando produzir coisas simples que encontramos em qualquer feira ou comércio por aí.

VALOR DAS COISAS

"Em suma, as circunstâncias e a experiência convenceram-me que as coisas do mundo só têm valor aos nossos olhos conforme o uso que delas fizermos, e gozo pessoal que nos proporcionam, salvo a reserva do que podemos acumular em tempo e lugar para beneficiar o próximo com liberdade..." (p. 133)

Crusoé reflete que sem as ferramentas humanas ele seria só mais um animal naquele mundo, ou em qualquer lugar. A reflexão vem em sua mente por causa da quantidade de coisas que conseguiu retirar do navio naufragado.

Por falar em coisas especificamente humanas, o personagem nos conta como se transformou em crente, em alguém que acredita que a Providência divina foi responsável por tudo que aconteceu a ele, tanto coisas boas quanto ruins (estas para "puni-lo).

SOU O MAIS DESGRAÇADO DOS HOMENS?

"Essas reflexões tornavam-me sensível à bondade da Providência, e ao mesmo tempo grato pela minha condição atual, posto que não isenta de amarguras e misérias. Não posso deixar de recomendar esse trecho da minha história às meditações dos que, no meio das suas desgraças, atroam os ares com exclamações como esta:
'Haverá desventura e aflição comparável à minha?'
" (p. 134)

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Por fim, o capítulo termina com Crusoé dizendo que chegou à ilha com 36 anos e passaram-se 5 anos desde que chegou lá. O náufrago preencheu sua solidão com diálogos com Deus e ocupou seu tempo em ler a bíblia, cuidar da alimentação e no desenvolvimento de utensílios cotidianos sem ter condição ou habilidade adequada para isso.

"Na manufatura e conclusão das diversas obras, artefatos e alfaias que tenho mencionado, passaram-se cinco anos sem que ocorresse nada mais de notável. Nesse período a minha vida deslizou-se da forma que disse; simplesmente, além da cultura do trigo, do arroz e das vinhas, a principal ocupação foi construir uma canoa, que pus a nado, por meio de um canal de seis pés de profundidade e quatro de largura..." (p. 138)

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CRUSOÉ E NÓS: O QUE MUDOU EM 300 ANOS?

Será que existe muita diferença entre o diário do personagem Crusoé - náufrago solitário em uma ilha qualquer - e o diário de nós todos, 300 anos depois? Não sei. 

Ora o personagem se sente prisioneiro do azar e um infeliz, ora um felizardo e agraciado pela Providência. Não é assim que muitos de nós se sentem o tempo todo num mundo em crise e sem perspectivas de futuro?

Crusoé não passa fome na ilha, mesmo sem ter tecnologia adequada para prover o que precisa; por outro lado, milhões passam fome neste exato momento no mundo, mesmo com a maior tecnologia já vista pelos homens.

Crusoé atribui tudo que lhe acontece de bom ou ruim a um deus, à Providência divina; nos dias de hoje, mesmo conhecendo séculos de ciências, parte das pessoas do mundo atribue tudo que lhe acontece a alguma divindade. 

Enquanto isso, milhões de pessoas de boa-fé são manipuladas por canalhas que se passam por mensageiros de deuses.

... pensar na realidade me pesou o olho de maneira impossível de seguir na postagem. Mas tá bom por enquanto.

William


Bibliografia:

DEFOE, Daniel. As aventuras de Robinson Crusoé. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Leitura - Robinson Crusoé (IV) - Daniel Defoe



Refeição Cultural

"- Cumpriram-se agora as palavras de meu pai! A mão de Deus pesa sobre mim; não tenho ninguém para tratar-me e socorrer-me; cerrei os ouvidos à voz da Providência a qual por sua bondade infinita me concedera um estado de vida, em que podia ser feliz, mas cujo valor e gozo desprezei, contra a vontade dos meus pais que enchi de luto, e tudo por causa da minha loucura, sendo uma consequência dela a triste condição a que cheguei agora (...) Meu Deus, vinde em meu amparo, porque é grande a minha miséria!" (p. 95)


Estamos acompanhando as aventuras de Robinson Crusoé, personagem de Daniel Defoe, romance publicado há 300 anos. Sim, o jovem Crusoé deixou uma vida promissora ao lado dos pais na Inglaterra e se lançou ao mar em busca de saciar seus desejos de aventuras pelo mundo. Até agora só encontrou desventuras. Ver aqui postagem anterior.

Ele se encontra numa ilha desconhecida, nomeada por ele como "Ilha do Desespero". No capítulo VI, o náufrago nos conta que caiu doente e passou maus bocados. Nessa condição, se apegou à fé e passou a orar, clamar por Deus e ler a bíblia. Foram longos dias de febre, prostração e medo da morte solitária e sem ninguém. Crusoé nos diz que encontrou a cura através do uso de tabaco: infusões de tabaco.

FILOSOFADA

"   - O que é a terra?... O que é o mar, sobre cujas água andei a tanto tempo?... Quem produziu tudo isso?... O que sou eu mesmo, e o que são as outras criaturas domésticas e silvestres?... Qual é a nossa origem?... Não pode haver dúvida de que devemos a existência a um poder invisível, que criou o mar, a terra, o ar e os céus; mas quem é esse Poder sobrenatural?
     Então, inferi naturalmente:
     - É Deus o autor de todas as coisas...
" (p. 96)

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CAPÍTULO VII

Crusoé sobrevive às febres que teve e decide sair em excursões pela ilha para conhecer o ambiente e ver oportunidades e perspectivas para alcançar sua "liberdade": sair da ilha e da situação em que se encontra.

Descobre víveres para suprir momentos de pouca caça - uvas, cana-de-açúcar silvestre, limões - e descobre regiões muito melhores para viver do que o local onde se instalou, no litoral. Faz uma segunda casa na região melhor e pensa pra si que agora tem uma casa na praia e outra no campo.

"DE 14 A 26 DE ABRIL - (...) Regulei nesse dia as minhas refeições desta forma: para o almoço um cacho de uvas; para o jantar uma porção de cabra ou posta de tartaruga grelhada; não podia prepará-las de outra maneira, porque não tinha panela nem outro utensílio para as cozer ou estufar; para a ceia contentava-me com dois ou três ovos de tartaruga." (p. 107)

Ainda neste capítulo, Crusoé nos conta que passou a conhecer o clima da ilha, as características das quatro estações, o que lhe permitiu seguir com a experiência de produzir trigo com o pouco de sementes que tinha.

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CAPÍTULO VIII

Neste capítulo, Crusoé aumentou a "família". Além do cão (não tem nome) e das gatas, que até procriaram na ilha sem ele entender como, ele adquiriu um papagaio e um cabrito. O papagaio ele deu nome e sobrenome, e lhe ensinou a falar: papagaio loiro.

Ao completar dois anos na ilha, Crusoé vive um momento místico e em paz com a Providência, que agradece sempre por lhe prover tudo que precisa para viver.

Nosso náufrago tenta avançar nas etapas evolutivas e ser um sedentário. Sua plantação de trigos estava bem promissora quando de repente a natureza se mostra nua e crua. Pestes e animais diversos passam a devorar sua lavoura... que martírio viveu Robinson Crusoé!

A Providência o auxiliou de novo. Ele deu carga de tiros em alguns pássaros e usou seus corpos como espantalhos... segundo ele ao estilo dos reinos ingleses, pendurando os corpos dos martirizados para servirem de lição ao povo.

ESPANTALHOS - "Avancei para junto da sebe, atirei sobre eles segundo tiro e matei três, o que era o meu maior desejo, porque fui apanhar os cadáveres para os amarrar ao patíbulo depois da execução, a fim de servir de exemplo aos outros, como se faz na Inglaterra aos ladrões supliciados." (p. 120)

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FILOSOFADA QUE VALE PARA OS TEMPOS QUE ESTAMOS VIVENDO

"O que me valia eram a paciência e a resignação, os dois escudos mais poderosos contra as adversidades da vida." (p. 121)

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O capítulo termina com nosso solitário náufrago pensando formas de fabricar panelas e vasilhas para poder cozinhar e fazer pão com o trigo que está produzindo.

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COMENTÁRIO FINAL

Paciência e resignação, escudos para as adversidades da vida, como nos disse o personagem Crusoé.

Eu acrescentaria no contexto atual, nesse final de novembro de 2021, que temos que persistir em viver e mudar a situação na qual estamos: um bom começo é não se acostumar com a injustiça e com o que não está certo. 

PASSAR FOME NÃO É "NORMAL", NÃO É "NATURAL" - Não é normal passar fome e não ter condição alguma de vida após a tecnologia criada pelos homens nos últimos 10 mil anos! Não é natural, não é normal!

Temos que derrotar os donos do poder, o sistema que está destruindo a vida no planeta e escravizando os seres humanos: capitalismo. Não é justo e não é certo alguns humanos deterem toda a produção e riqueza produzida pelo conjunto da sociedade humana. 

Pensem nisso! Se posicionem! Façam algo para mudar isso! Por vocês e pelo futuro da humanidade.

William


Bibliografia:

DEFOE, Daniel. As aventuras de Robinson Crusoé. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Leitura - Robinson Crusoé (II) - Daniel Defoe



Refeitório Cultural

Estou no início das aventuras de Robinson Crusoé. Li os 3 primeiros capítulos e vou ler agora o 4º. Já sei quem é o personagem. Um jovem filho de classe média, nascido em 1632 em York, interior da Inglaterra. Seus pais queriam que ele tivesse uma vida tranquila dando sequência aos negócios da família. Mas ele tinha um impulso incontrolável de sair pelo mundo através dos mares.

Engraçado... eu tenho um impulso incontrolável de escrever o nome do personagem como "Cruzoé"... vai entender! Talvez seja porque o nome dele de família em seu condado seja Robinson Kreutznaer, como ele mesmo explica no começo "mas por corrupção de vocábulo, muito usual na Inglaterra, chamam-nos Crusoé...".

Ele saiu de casa se aventurando ao mar com 19 anos e desde que se lançou ao mar as coisas só dão errado. Quase morreu na primeira saída, mas conseguiu chegar a Londres após o naufrágio do navio em que estava. De Londres, partiu em outro navio para Guiné. Foi feito escravo por piratas. Ao conseguir fugir, começou a se dar bem no Brasil, sim!, no Brasil colônia do século XVII. Foi ser plantador de cana-de-açúcar e tabaco, com direito a escravos.

Após virar proprietário de terras - já fazia 8 anos que havia saído jovem da Inglaterra - tinha tudo para prosperar no Brasil, agora com 27 anos, mas... se aventura de novo em navio ao aceitar uma proposta de ir buscar escravos na África e... o navio afunda e todos morrem, menos ele, que chega a um lugar ainda desconhecido.

É nesse ponto que retomo a leitura e o 4º capítulo.

Depois completo esta postagem com o que veio de novidade na vida desse personagem cuja Providência só age em desfavor do indivíduo. Segundo ele mesmo, ora a Providência, ora o azar e a casualidade agem contra ele.

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CAPÍTULO IV

Robinson Crusoé dormiu em cima de uma árvore, por medo de ser devorado por alguma fera. Ao acordar, passou a se inteirar do local onde estava. Era uma ilha e pelo que pôde perceber, estava sozinho nela.

O navio naufragado estava lá no monte de areia. Crusoé nadou até a embarcação e passou a resgatar para a ilha tudo que fosse possível e útil pra ele. Alimentos, armas, ferramentas, roupas etc. Após o resgate, uma tempestade seguinte desapareceu com os destroços do navio.

Em terra, a preocupação do náufrago foi construir um abrigo que o protegesse de homens e de feras. Construiu quase uma fortaleza. E tudo isso, sozinho ao longo do tempo.

Tem um momento no qual Crusoé encontra dinheiro na cabine do capitão do navio e ele reflete sobre a inutilidade daquilo ali onde está. Me lembrei de uma camiseta que usava quando era jovem com uns dizeres em defesa da natureza: que o homem só iria perceber a cagada que fez quando visse que não seria possível comer dinheiro, ao não ter mais água, plantas e animais.

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"A vista do dinheiro fez-me sorrir e provocou-me esta apóstrofe:

- Oh! vaidade das vaidades, metal embusteiro, tens atualmente aos meus olhos um preço vil. Para que me serves? Na verdade, nem vale a pena estender o braço para te apanhar! Uma só destas facas é mais apreciável que os tesouros de Creso. Dispenso a tua inútil intervenção; fica por isso onde está, ou melhor, vai para o fundo do mar como indigno que és de ver a luz do dia!" (p. 62)

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(mas se arrependeu a tempo e levou o dinheiro para terra firme rsrs)

Nosso personagem segue alternando momentos nos quais ora culpa a Providência pelas desgraças que lhe acontecem (por desobedecer aos pais, por exemplo), ora o acaso e a sorte, incontroláveis e responsáveis por eventos não previsíveis ou sem motivações causais do tipo "punição" a ações humanas.

"(...) e às vezes deplorava também comigo mesmo que a Providência determinasse assim a ruína de uma sua criatura, negando-lhe qualquer socorro, calcando-o com a sua mão e inutilizando-o tão completamente, que lhe eliminava da alma o sentimento da gratidão." (p. 67)

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O narrador Crusoé se explica ao leitor de suas memórias:

"Agora, visto que devo expor em cena, à face dos leitores, a representação de uma existência triste e melancólica, como não houve outra ainda neste mundo, vou fazer uma espécie de razão de ordem desde o princípio, para a continuar com mais regularidade." (p. 68)

Ele nos conta, então, que colocou um grande poste na praia com o seguinte registro:

"CHEGUEI A ESTA ILHA EM 30 DE SETEMBRO DE 1659"

No inventário das coisas de Crusoé, soubemos também dos seus pertences de cultura:

"De tudo lancei mão a esmo, sem me dar o trabalho de examinar se teriam ou não algum préstimo. Achei mais três esplêndidas Bíblias que tinha recebido no Brasil juntamente com os artigos que me expediram da Inglaterra, e que na ocasião dessa minha viagem meti dentro da minha roupa no baú, além de alguns livros portugueses, entre outros dois ou três de orações segundo o rito católico romano; e muitos ainda que tive o cuidado de conservar." (p. 69)

UM CÃO COMO COMPANHEIRO FIEL

"Havia a bordo três gatas e um cão, cuja história famosa deve ter o seu lugar nesta para lhe dar relevo. As gatas trouxe-as comigo; o cão, esse saltou do navio para o mar, e veio procurar-me em terra no dia seguinte àquele em que transportei a primeira carga. Foi durante muitos anos o meu serviçal zeloso e companheiro fiel; ia buscar todas as coisas de que era capaz; empregou as aptidões e finuras do instinto em fazer-me boa companhia; a única coisa que não pude conseguir dele, apesar de muito a desejar, foi que aprendesse a falar." (p. 69/70)

Para finalizar o capítulo IV, repleto de informações, soubemos que a construção de sua fortaleza levou mais de um ano para ser concluída. 

Ele traçou um quadro comparativo baseado na razão, segundo ele, para que pudesse seguir adiante quando lembrasse seus infortúnios. O quadro se dividia: em uma coluna "O MAL", na outra "O BEM". De um lado a informação negativa, do outro a positiva, do tipo: "Estou numa ilha horrorosa" e do outro "mas estou vivo" etc.

POR FIM, UM DIÁRIO...

"Principiei então a fazer um diário de todas as ocorrências - entretenimento que não pude encetar mais cedo, atormentado como estava, não tanto pelo trabalho, mas pelas canseiras do espírito; se o tivesse feito nessa conjuntura e com as piores disposições, sairia com certeza recheado de conceitos e incidentes sem graça e insípidos, como os que vou referir." P. 74)

A seguir ele cita momentos de desespero vividos por ele no começo de sua estadia na ilha. Gritava estar perdido, chorava e chorava etc.

Faz então seu pacto com o leitor a partir daquele momento:

"O princípio há de parecer fastidioso aos leitores, que até agora têm me acompanhado; mas a exatidão força-me a repetir algumas particularidades, que já ficam relatadas." (p. 74)

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É isso, leitor William. É isso, leitores do blog do William. Agora, vamos seguir com os diários de Robinson Crusoé...

William


(ver aqui a postagem anterior)


Bibliografia:

DEFOE, Daniel. As aventuras de Robinson Crusoé. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.

sábado, 6 de novembro de 2021

39. Alguma Poesia - Carlos Drummond de Andrade



Refeição Cultural - Cem clássicos


Li mais uma vez o livro de poesia de estreia de Carlos Drummond de Andrade - Alguma Poesia -, lançado em 1930, um clássico do poeta modernista e da poesia brasileira.

Do início ao fim do livro temos 49 poemas com pernas, coxas, tetas, nádegas, olhos, bigode... "pernas brancas pretas amarelas", "coxas das romeiras", "pernas adjetivas", "coxa morena", "pernas que passam". Cito isso só para não acharmos que só os estrangeiros têm os seus joyces e suas personagens blooms na primeira metade do século vinte.

Poemas de humor, de crítica e denúncia social, poemas que anunciam os efeitos da modernidade tecnológica nas pessoas. Poemas que contrapõem a cidade e o campo, a velocidade do centro urbano e a lentidão da vida no interior.

Que livro! A gente lê os poemas e quer sair divulgando e comentando com as pessoas e com o mundo o quanto os poemas se encaixam naquilo que estamos vivendo. Os poemas falam por nós, falam de nossa angústia frente ao Brasil e ao mundo em destruição acelerada. Que livro! Caraca!

Estou lendo poesias e conhecendo autores, obras, e livros que tenho em casa. Tenho as poesias completas de Cecília Meireles, de Drummond e diversos livros de outros autores. Mas li pouca poesia em minha vida, não conheço praticamente nada de poesia. E a vida é um instante, é um sopro efêmero. Então é ler e reler e sentir as poesias que nos legaram nossos poetas.

já li os 3 primeiros livros de Meireles, lançados em 1919, 1923 e 1925. Os estilos dos livros, temas e formas são bem diferentes dos de Drummond, que também conheço pouco, praticamente só conheço os primeiros livros de poesia dele - 1930, 1934, 1940 e 1945. 

MEIRELES

- Espectros (1919), Nunca mais... e Poema dos poemas (1923), Baladas para El-Rei (1925).

DRUMMOND

- Alguma poesia (1930), Brejo das almas (1934), Sentimento do mundo (1940), A rosa do povo (1945).

Se formos sobrevivendo neste mundo, vamos conhecendo mais um pouco sobre eles - Meireles e Drummond. Estou indo na leitura por ordem cronológica, pela facilidade de ter as obras completas.

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EXÍLIO? NÃO QUERO IR PRA LUGAR NENHUM

Vivemos tempos nos quais um dos principais temas nas cabeças e corações das pessoas progressistas e decentes é o exílio, o ir-se embora daqui do Brasil destruído, seja pra Pasárgada ou qualquer outro lugar longe do bolsonarismo.

Não acho justo abrir mão de meu país por causa dessa burguesia canalha e vil, burguesia que estragou tudo que construímos ao colocar no poder o crime organizado. Não me agrada sequer pensar em mudar, em ir embora daqui. Tenho trauma de mudanças também. Contei na minha vida mais de dez mudanças em dez anos por causa da vida proletária. Minha vida era mudar de aluguel em aluguel porque era preciso.

Cara, que saco isso! Eu não quero ir embora, não quero deixar o meu país. Mas sei que tá foda! A impressão é que não recuperaremos nosso mundo, que não nos veremos livres do bolsonarismo, essa doença odiosa.

Nesse contexto de vida social do país, Drummond é tudo! Cada poema é uma crítica e um contexto, o Eu-lírico pode ser qualquer um de nós a qualquer tempo.

Mas deixo o poema "Lagoa" pra dizer que aqui é minha terra e aqui gostaria de viver e morrer.

"LAGOA

Eu não vi o mar.
Não sei se o mar é bonito,
não sei se ele é bravo.
O mar não me importa.

Eu vi a lagoa.
A lagoa, sim.
A lagoa é grande
e calma também.

Na chuva de cores
da tarde que explode
a lagoa brilha
a lagoa se pinta
de todas as cores.
Eu não vi o mar.
Eu vi a lagoa...
" (p. 29)


Aqui é minha terra e nós temos que superar o bolsonarismo, essa gente do mal, gente odiosa, e reconstruir nossa terra, nosso ambiente, nossa cultura, nossas vidas.

William


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do Mundo. 10ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2000.


sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Retrato do artista quando jovem, lendo Joyce



Refeição Cultural

Depois da postagem a respeito da leitura do capítulo 3 (ler aqui), fiz a leitura do capítulo seguinte e não fiz comentário na forma de postagem, fiz observações nas margens do próprio livro.

O jovem Stephen Dedalus desiste do sacerdócio, quer encontrar por conta própria as respostas para as perguntas filosóficas e de sentidos em relação à vida.

"A sua alma estivera lá mas não ouvira e não concordara, e sabia, agora, que a exortação que tinha escutado já tinha caído ociosamente em formal e mera conversa. Ele jamais haveria de balouçar o turíbulo diante do tabernáculo, como padre.  O seu destino era ser arredio às ordens sociais ou religiosas. A sabedoria do apelo do padre não o tocara assim tão de pronto. Ele estava era destinado a aprender a sua própria sabedoria separado dos outros, ou a aprender a sabedoria dos outros vagando, ele, por entre as armadilhas do mundo." (p. 164)

O capítulo seguinte (5) trará Stephen com colegas e ele reflete sobre a definição de "beleza" e também de "verdade". Cita Santo Tomás de Aquino e Aristóteles. 

Dedalus estava conversando com um professor em um anfiteatro antes dos alunos entrarem. O deão disse ao jovem Dedalus que por ser artista, ele tinha como objetivo "criar a beleza". Novamente, temos uma passagem bem interessante sobre o fogo, citada por Stephen:

"Mas Santo Tomás diz também: Bonum est in quod tendit appetitus. Até onde ele satisfaça o desejo animal para com o calor, o fogo é bom. No inferno, todavia, ele é um mal." (p. 186)

O fogo pode ser bom e pode ser ruim para a humanidade, para as coisas do mundo material e espiritual, nesse contexto citado.

Mais adiante, veremos novas discussões referentes à Irlanda e ao ser irlandês. Podemos perceber as críticas de Joyce através de seu alter ego, Stephen Dedalus.

Primeiro ele e os amigos discutem o que seria um irlandês com espírito nacionalista. Nosso personagem Dedalus detona seus antepassados por terem jogado fora sua língua e tomado outra pra si, a dos ingleses (p. 202). Depois, chama a Irlanda de uma porca velha.

"- Isso é profundo demais para mim, Stevie - disse ele. - Mas o país dum homem está em primeiro lugar. Em primeiro lugar, a Irlanda, Stevie. Depois, sim, podes ser um poeta ou um místico.

- Queres saber o que é que a Irlanda é? - perguntou Stephen com uma violência fria. - A Irlanda é uma porca velha que come a sua ninhada." (p. 203)

BELEZA

"- Santo Tomás de Aquino - disse Stephen - diz que o belo é a apreensão do que agrada." (p. 206)

Dessa parte até a página 212 veremos uma agradável argumentação de Stephen a respeito da beleza e da verdade citando seus estudos sobre Aquino, Aristóteles e Platão. Interessante!

Na próxima vez que pegar este livro de Joyce, finalizo a leitura.

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ATOS DE LEITURA

Durante a leitura de Joyce, nesta sexta-feira, saí para caminhar e refletir e apreciar o sol que estava fazendo por volta de meio-dia.

Queria caminhar e refletir. São tantas coisas e ideias que nos atormentam nesses dias de Brasil bolsonarista, destruído e ocupado por uma horda de bandidos e gente odiosa, país que enfrenta um genocídio do povo da classe trabalhadora com a pandemia de Covid-19, ou seja, a existência tem sido uma coisa amargurada para as pessoas com alguma instrução e consciência política.

Ao andar por minha região e olhar com atenção, me lembrei que gosto de onde moro, gosto do bairro onde vivo há décadas em Osasco. Não gostaria de ir embora daqui, de ir embora do Brasil, de deixar meu mundo num autoexílio. Mudanças cansam tanto! Após lutar para me estabelecer na vida como todo trabalhador, queria um pouco de paz. Nenhum lugar do mundo é melhor que a casa e o lugar da gente.

Essa ideia de partir, de ir embora, se tornou presente e real para uma parte do povo brasileiro depois do golpe de 2016, da destruição de tudo no país que nascemos e vivemos. E a partida se daria por diversos motivos como, por exemplo, por riscos e ameaças, insegurança e por desesperança em uma mudança e na retomada do país para nós, o povo brasileiro que ama o país e que quer o bem do Brasil e não a sua exploração pura e simples para acúmulo de suas riquezas nas mãos de uns poucos desgraçados que odeiam o país e o povo.

Cara, ao caminhar no meu mundo, fortaleceram-se os laços entre mim e minha terra. Não gostaria de ir embora daqui. Mas a leitura fria da razão tem me deixado muito desanimado em relação ao futuro imediato e de longo prazo. Nas leituras de cenários em vista, não vejo mudanças que interrompam o processo de destruição sem fim do país e dos direitos do povo após o golpe. Dessa vez está difícil salvar o país. 

Aliás, está difícil salvar a vida no planeta, é o que penso quando me lembro que o Brasil só fez parte de uma engrenagem de destruição em larga escala do planeta e da vida: o capitalismo, sistema hegemônico no mundo.

Triste tudo isso.

William


Bibliografia:

JOYCE, James. Retrato do artista quando jovem. Tradução de José Geraldo Vieira. Ediouro/92340, 1987.


segunda-feira, 14 de junho de 2021

31. Romeu e Julieta - William Shakespeare



Refeição Cultural - Cem clássicos

"Ama - Seu nome é Romeu, e é um Montéquio: filho único de seu grande inimigo.
Julieta - Meu único amor, nascido de meu único ódio! Cedo demais o vi, ignorando-lhe o nome, e tarde demais fiquei sabendo quem é. Monstruoso para mim é o nascedouro desse amor, que me faz amar tão odiado inimigo.
" (p. 43)


Eu havia lido Romeu e Julieta em 2005. Fiquei impactado pela obra na época. Antes dessa tragédia shakespeariana, já tinha lido Hamlet e Otelo, o mouro de Veneza. E depois ainda li Macbeth. Reli a história dos jovens Montéquio e Capuleto neste domingo. Meu sentimento em relação à obra neste momento de leitura foi de tristeza.

Eu poderia dizer que Romeu e Julieta não se trata de uma trama de amor, se trata de uma estória de ódio, de como o ódio domina e destrói tudo ao redor. É uma tragédia triste demais, mas é uma temática por demais atual, haja vista que a base da destruição das relações humanas no Brasil e dos direitos sociais após o golpe de 2016 é a manipulação das pessoas através do estímulo ao ódio e daí se vai às demais consequências após as pessoas terem se transformado em bichos-feras, em zumbis sem capacidade de pensamento e racionalidade.

A tragédia começa e termina com pessoas brigando e se matando porque são da parte dos Montéquio ou dos Capuleto. Até os deuses estão de saco cheio de tanto ódio de parte a parte e decidem dar uma lição nas famílias destacando o "destino" para colocar um ponto final nas desavenças na cidade com perdas terríveis para todos: as duas famílias e até a família do rei.

"Julieta - É só teu nome que é meu inimigo. Mas tu és tu mesmo, não um Montéquio. E o que é um Montéquio? Não é mão, nem pé, nem braço, nem rosto, nem qualquer outra parte de um homem. Ah, se fosses algum outro nome! O que significa um nome? Aquilo a que chamamos rosa, com qualquer outro nome teria o mesmo e doce perfume. E Romeu também, mesmo que não se chamasse Romeu, ainda assim teria a mesma amada perfeição que lhe é própria, sem esse título. Romeu, livra-te de teu nome; em troca dele, que não é parte de ti, toma-me inteira para ti." (p. 48)

Muito boa essa reflexão da personagem Julieta.

Eu me lembrei do magnífico texto de Rubem Alves sobre o nome (ler aqui). Nós usávamos esse texto nos cursos de formação que fazíamos na confederação dos bancários. Os nomes às vezes podem nos aprisionar ou podem servir para gerar falsas expectativas nos outros, ou ainda, podem nos fechar portas e oportunidades, como no caso do ódio entre os Montéquio e os Capuleto.


EXÍLIO

"Romeu - Exílio! Por misericórdia, diga morte, pois o banimento carrega muito mais terror em seu olhar do que a morte. Não diga exílio.
Frei Lourenço - Desde agora está banido de Verona. Sê paciente, pois o mundo é vasto, é amplo.
Romeu - Não há mundo fora dos muros de Verona, mas sim o purgatório, a tortura, o próprio inferno. Ser daqui banido é o mesmo que ser banido do mundo, e exílio do mundo é a morte. Estar exilado é mero eufemismo para estar morto. Quando o senhor chama a morte de exílio, está decapitando-me com machado de ouro, e o senhor carrega um sorriso no rosto quando o seu golpe me assassina.
" (p. 87)


Uma questão muito em voga por causa da tomada do país pela banalidade do mal após o golpe de Estado e a ascensão da máfia e das milícias ao poder e a desilusão que tem pautado a vida e a morte do povo brasileiro é o exílio, o ir-se daqui. Mesmo estando no século XXI das facilidades tecnológicas do mundo virtual, exílio não é qualquer coisa simples.

Eu particularmente acho algo muito complicado essa questão de exílio, de ir embora daqui, sair do Brasil. Além de não me ver morando em outro país, tem a questão de encarar a tristeza da destruição de nosso mundo por parte do bolsonarismo como algo irreversível. Essa gente pestilenta que chegou ao poder e dominou as instituições do país deve ser retirada de lá e jogada no lixo da história. Temos que recuperar o que é nosso e não podemos desistir do Brasil.


NINGUÉM SENTE A DOR DO OUTRO

"Romeu - O senhor não pode falar daquilo que não sente. Fosse jovem como eu, fosse Julieta o seu amor, estivesse o senhor recém-casado e Teobaldo morto, o senhor louco de paixão como eu e como eu banido, então sim, poderia falar, então sim, poderia arrancar os cabelos e deixar-se cair no chão, como faço eu agora, para ter as medidas de uma sepultura que só falta ser cavada." (p. 89)


Muitos intelectuais discutem essa questão da impossibilidade de se colocar no lugar do outro e de descrever a dor do outro. Muitas vezes é melhor dizer que a dor existe, mas não tentar explicar ou descrever o que os outros sentem.


AS MULHERES TRATADAS COMO COISAS

"Capuleto - (...) Sê minha filha, e entrego-te ao meu amigo; caso contrário, enforca-te, pede esmolas, passa fome, morre nas ruas, pois, pela minha alma, não mais te reconhecerei como minha filha, e nada do que é meu passará para teu usufruto. Pensa bem, reflete, que sou homem de palavra e não volto atrás." (p. 102)


Tem uma frase de Julieta, dita em um dos momentos mais dramáticos da tragédia, que achei muito forte, muito dura:

"Se nada funcionar, tenho a capacidade de morrer" (Julieta, p. 104)

Que foda!


O PIOR VENENO

"Romeu - Aqui está o seu ouro, o pior veneno para a alma humana, o que comete mais assassinatos neste mundo detestável - mais que esses pobres compostos que o senhor está impedido de vender. Sou eu quem estou lhe vendendo veneno; o senhor não me vendeu nenhum. Adeus. Compre comida, e acrescente carnes a esse seu esqueleto. - Venha, licor estimulante. Não és veneno. Vamos até à sepultura de Julieta, pois é lá que devo te usar." (p. 126)


O "DESTINO" DECIDIU

O frei mandou um mensageiro levar uma carta a Romeu, em Mântua, mas o mensageiro sequer conseguiu sair de Verona por causa de uma quarentena de uma peste. Com isso, Romeu veio atrás de Julieta, pois recebera a notícia de sua morte e enterro. Mas o amante não sabia das articulações entre o Frei Lourenço e Julieta e os desencontros se mostraram fatais.

"Príncipe - (...) Onde estão os inimigos? - Capuleto! - Montéquio! - Vejam que maldição recaiu sobre o ódio de vocês, que até mesmo os céus encontraram meios de matar, com amor, as vossas alegrias! E eu, por fechar meus olhos às vossas discórdias, também perdi dois de minha família. Fomos todos punidos." (p. 139)

É isso! Mais um clássico relido.

William 


Bibliografia:

SHAKESPEARE, William. Romeu e Julieta. In: Tragédias. Tradução: Beatriz Viégas-Faria. São Paulo: Editora Nova Cultural, 2003.


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Leitura: Historia de una mujer... Margo Glantz





Refeição Cultural

A leitura dessa obra da escritora mexicana Margo Glantz se dá no contexto de estudos de graduação em Letras da Universidade de São Paulo. 

Meu contato com a obra de Glantz se deu através da disciplina "Poéticas de autor en la Literatura Hispanoamericana", com a Professora Adriana Kanzepolsky, que definiu a temática e a autora para estudos durante o semestre.

O primeiro texto que lemos e discutimos em sala de aula foi "Zapatos: andante con variaciones", contido neste livro "Historia de una mujer que caminó por la vida con zapatos de diseñador" (2005).

Uma experiência interessante em relação a essa narrativa foi ouvir a própria autora lendo o texto, pois o áudio está disponível na internet. 

Glantz está dentro de um espectro de autores contemporâneos classificados como autores de literaturas não-específicas em relação a gêneros literários mais tradicionais. É possível identificar vários tipos de linguagens discursivas em sua obra.

Ao ouvir pela segunda vez o áudio narrado por ela, percebi um pouco da característica de Glantz de sempre reler e refazer seus textos. A edição que ela leu no áudio tem diferenças e fragmentos inteiros incluídos na narrativa em relação ao texto que tenho em mãos - Editorial Anagrama. Barcelona, edição de 2005.

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Apresentação do livro por parte da Anagrama Editorial, na parte de catálogo das obras:


"Historia de una mujer que caminó por la vida con zapatos de diseñador

Glantz, Margo

Todo acto de escritura es un acto de destrucción, y todo escritor se destruye a sí mismo al cortar paño sobre su propio traje en el acto mismo de la autobiografía. Pero ¿se tratará en verdad de una autobiografía? Nora García, la protagonista de esta Historia, es una mujer que experimenta el mundo a través de su cuerpo, es más, se conecta con él desde la punta de los pies, y si éstos van calzados con zapatos de diseñador, el camino por andar se vuelve menos arduo. El lenguaje es, quizá, otra de las vertientes de esta Historia, una exploración de las palabras que se comportan como un cuerpo femenino degradado. El cuerpo de Nora García es un cuerpo azotado, desecado (la narradora ha experimentado desde su cuerpo el mundo entero) al que se puede doblegar, vaciar, aniquilar, dejarlo listo para una cocina del texto, palabras desplumadas o destripadas como si fueran aves o bestias. La memoria se convierte en una farsa, «cae» en la farsa, en la de fragmentación del cuerpo y de la de la experiencia que posibilita destruir no sólo la historia de Nora García, sino los signos de una existencia previamente delineada, donde sólo los zapatos conectan con la realidad."

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A postagem segue depois com anotações de aulas e ou excertos e destaques de algumas das narrativas do livro.

(...)

sábado, 28 de setembro de 2019

Leitura IV: Las Genealogías (1981) - Margo Glantz




Refeição Cultural

A leitura do livro de Margo Glantz, Las Genealogías, faz parte dos estudos de uma disciplina que estamos cursando na graduação de Letras da Universidade de São Paulo. 

A matéria e as aulas da professora Adriana Kanzepolsky são muito legais. Ao lermos os textos da autora e os textos críticos, estamos atentos aos objetivos da matéria (abaixo), e as aulas nos trazem as percepções que muitas vezes não percebemos ao ler os textos.

"Objetivos

Analizar las tensiones que atraviesan una poética articulada en torno de una escritura fragmentaria y hecha de restos y que al mismo tiempo construye una totalidad autocentrada.

Estudiar los procedimientos que en este proyecto escriturario apuntan al borrado de la autoría: la cita, el plagio, la variación, la indicación de fuentes, el armado de tradiciones, la autocita y simultáneamente la persistencia de un yo que retorna de un libro a otro.

Reflexionar sobre un proyecto estético que tempranamente diluye las fronteras entre los géneros textuales y entre las diversas disciplinas artísticas, para insertarse en lo que hoy se conoce como un arte inespecífico.
" (programação desenvolvida pela professora Adriana)


Na internet é possível ver entrevistas com a autora Margo Glantz e acho bem interessante vê-la falando sobre os livros e os temas que discorre em suas obras.

Sigamos com a leitura do livro. Estou fazendo algumas postagens para facilitar minha própria leitura da obra. A primeira postagem com alguns excertos pode ser lida aqui.

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Sigo a leitura a partir do capítulo XXXVIII, na página 124.

O senhor Glantz começa a escrever em yidish quando chega ao México nos anos vinte. Na época já havia cerca de cinco mil judeus por lá. Ele criou uma revista que se chamou La Semana (Die Voj) e durou dois números. 

A autora conta que há no México dois diários para a comunidade israelense - Der Weg (El Camino) e Die Stime (La Voz). Há dois semanários em espanhol também: La Tribuna Israelita e La Prensa Israelita.

O personagem diz à filha que a primeira coisa que os judeus fazem ao chegar a um lugar é construírem uma sinagoga e um panteão.

SENHOR GLANTZ ESCREVEU POR 50 ANOS

"Mientras mi padre escribía poemas, mi madre los oía. Suena raro, pero quiere decir que todos los poemas se los leía en voz alta y ella criticaba duramente, él aceptaba las críticas con 'lágrimas en los ojos'." (p. 126)

A QUESTÃO DO EXÍLIO E A BUSCA DE UM TERRITÓRIO

Ao longo da obra, a autora vai refletindo a partir das histórias de seus pais e demais antepassados a questão sempre presente da territorialidade para os judeus.

"Comunidad judía pequeña, la de México, ni comparación siquiera con la de Nueva York y no digamos con la de Rio de Janeiro o con la de Buenos Aires. ¿Qué mueve a los judiós del exilio a ver y cultivar esas obras de teatro? ¿No será una nostalgia de un territorio que nunca les ha pertenecido, pero que sin embargo en algo fue suyo? ¿Será la creación de un espacio sagrado donde por um momento se vive en un contexto conocido porque se ha recreado en el escenario? ¿Será porque las expresiones de los rostros o el sonido de las voces resume un estremecimiento y figura una corporeidad? El caso es que toda la gente va al teatro, los teatros están llenos. ¿Cuáles?, el que se rentaba, el teatro Abreu, y, más tarde, uno propio en Leandro Valle. Quizás el teatro explique esa necesidad que tenían muchos judíos de sumergirse en un mundo sólo yidish para entenderse, como cuando iban a la casa de mi madre (que apenas sabía yidish pero hablaba en ruso), muchos jóvenes de entonces..." (p. 131)

GUARDAR A MEMÓRIA DO ATO DE RECEBER ALGO E NÃO DO OBJETO QUE RECEBEU

Achei bem interessante essa passagem da memória. A autora guardou que alguém lhe dava algo, mas não se recorda do que era. A memória saudosa é para o ato de receber um presente em si, e não do que recebeu.

"(...) cuya esposa Clara llegaba a visitarnos cuando éramos niñas trayendo siempre un hermoso regalo que aún conservo en la memoria, en su carácter sagrado de regalo y no de objeto, porque no recuerdo en absoluto qué nos regalaba. ¿Serían dulces o chocolates o algún juego? No lo sé, pero no importa, permanece en el recuerdo con la consistencia esponjosa y crujiente de una envoltura delicada y cariñosa." (p. 131/132)

CRISTÓVÃO COLOMBO OU HERNÁN CORTÉS?

"Todo emigrante que viene a América se siente Colón y si viene a México quiere ser Cortés. Mi padre prefirió a Colón y, como Carpentier, escribió un poema épico lírico sobre el navegante genovés..." (p. 136)

O senhor Glantz extraía dentes para sobreviver. Mas não gostava nem um pouco da atividade "sangrenta". Também não gostava de fazer obturações porque era algo chato. Nas horas vagas escrevia poesia, era o que gostava e preferia.

"Sacar muelas era menos aburrido pero más sangriento, lo único que importaba era leer y hacer poesía. Por eso escribió Banderas ensangrentadas, en 1936, poema político en honor de los republicanos españoles, y luego, en 1938, su gran poema dedicado a Colón..." (p. 137)

OVELHA NEGRA E FILHA PRÓDIGA

"Kzaid es el pedazo de pan que se arranca de la hogaza antes de bendecir el sábado. Luego escribió otro gran poema, Nizaión (Prueba), dedicado a mí, cuando traicioné al pueblo elegido. Fue traducido por los 50 como Cantares de ausencia y de retorno. Allí, aparezco como oveja negra, y luego, quizá también, como Hija Pródiga." (p. 138)



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