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sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Vendo filmes (XX)



Refeição Cultural

A mente humana... nada na natureza se assemelha à capacidade criativa da mente humana. Nossas ideias e pensamentos podem abrir caminhos que nos levem à glória ou ao fim de tudo


Os dois filmes que comento nesta reflexão me deixaram muito pensativo, avaliando a natureza da nossa espécie humana, a única com um cérebro dotado de razão que nos diferencia de todas as demais espécies que convivem conosco no mesmo ambiente. Jamais me esquecerei dos ensinamentos do neurocientista Miguel Nicolelis em seu livro sobre o cérebro humano (ver aqui).

Por um lado, a inteligência humana nos colocou numa condição de superioridade na luta pela sobrevivência diária na Terra, nós desenvolvemos a técnica e a criatividade, alteramos o meio em nosso benefício. Inventamos a linguagem, inclusive a escrita, e a forma de passar adiante o que cada animal sabia: a cultura.

Por outro lado, a inteligência humana não se confunde com a ética, um dos vários conceitos desenvolvidos pela espécie ao longo da existência. Seres humanos com mentes muito criativas e com muito conhecimento podem fazer as coisas mais terríveis que se possam imaginar, e com efeitos incalculáveis para as outras pessoas e espécies e para o próprio planeta no qual todas as espécies vivem juntas, coabitam. Uma pessoa pode fazer tudo o que quiser? É isso o conceito de liberdade que defendemos?

A sociedade humana, coabitante do mundo com outros milhões de espécies, está num momento decisivo de sua história: vamos mudar a tendência de destruição física do mundo no qual vivemos ou vamos deixar as coisas seguirem como estão, com algumas mentes inteligentes e sem ética alguma controlando um planeta inteiro em benefício e gozo próprio? (como fazem esses bilionários donos de tudo no mundo atual)

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Os dois filmes trabalham com enredos que destacam jogos mentais, pessoas com inteligências destacadas e sem ética alguma, pessoas que usam da inteligência da nossa espécie em benefício próprio e com atos que causam efeitos na vida das outras pessoas. 

Fiquei pensando sobre essas questões de liberdade, ética e limites individuais e empresariais ao ver os filmes "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" (2004) e "A garota exemplar" (2014), filmes com atores e atrizes excepcionais, com atuações destacadas, na minha opinião. Filmes com direção e roteiro muito inteligentes, para ficar na questão que estou abordando.

Em um dos enredos, cientistas inventam máquinas que mapeiam e apagam lembranças de seus clientes. Ao longo do filme os espectadores verão conflitos éticos dos profissionais da empresa de apagamento de memórias.

No outro enredo, uma pessoa de mente brilhante envolve e manipula tanto as pessoas na vida ficcional quanto na vida real, os espectadores. Uma mente brilhante pode atuar sem limite algum? 

O personagem Joel (Jim Carrey) percebe durante o procedimento de apagamento de suas lembranças que ele não quer mais perder aquelas memórias, pois elas fazem parte de sua vida, e eu diria inclusive que fazem parte do que ele é. 

É como nos ensina o professor Antonio Candido: "O que somos é feito do que fomos, de modo que convém aceitar com serenidade o peso negativo das etapas vencidas". Eu e vocês somos esse acumulado de experiências boas e ruins que fizeram parte de nossas vidas.

Essa questão temática do apagamento proposital de lembranças e momentos da vida que em tese nos incomodam em determinado instante da existência podem "desconfigurar" e descaracterizar o que somos. É só pensarmos o que acontece com uma pessoa que sofre uma doença degenerativa e vai perdendo a memória... é triste demais isso! Vamos deixando de ser o que somos.

Atenção: não confundo essa hipótese de apagamento proposital de memórias com o excelente trabalho que profissionais de saúde fazem para auxiliar pessoas a lidarem com seus conflitos psicológicos.

Para finalizar o comentário com uma questão que envolve a ética, eu me pergunto se seria ético uma empresa cobrar por serviços de apagar memórias das pessoas. A inteligência humana sem ética pode nos levar à extinção de nossa espécie e de outras formas de vida por causa do abuso de determinados humanos inteligentes que só pensam o mundo para si mesmos.

Vejam se não é o que estamos vivendo (ou morrendo) neste exato momento em relação à manipulação de milhões de seres humanos (como, por exemplo, por plataformas digitais) com ideologias que beneficiam alguns bilionários e seus ideólogos pra lá de inteligentes, pagos a soldo alto, em prejuízo do bem comum, do uso sustentável dos recursos escassos do planeta e em prejuízo de uma sociedade humana mais justa e igualitária.

A refletir.

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FILMES

Brilho eterno de uma mente sem lembranças (2004). Direção: Michel Gondry. Roteiro: Charlie Kaufman. Elenco: Jim Carrey, Kate Winslet, Kirsten Dunst, Mark Ruffalo, Elijah Wood, Tom Wilkinson.

SINOPSE: O filme retrata o fim da história de amor entre Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet). Impulsiva como é, Clementine decide apagar todas as memórias de seu relacionamento com Jim através de uma empresa que apaga memórias. Ao saber da atitude de Clementine, Joel se revolta, pois ainda gosta dela, e decide se expor também ao tratamento experimental de apagamento de memória. Durante a aplicação do procedimento, Joel se arrepende e tenta de todas as formas interromper o processo...

COMENTÁRIO: filme excepcional! Envolvente do início ao fim. Além do roteiro ter me deixado bolado por causa da temática desenvolvida - a possibilidade de um procedimento em clínica médica ter a capacidade de apagar memórias ruins que as pessoas avaliem que tenham -, as imagens do filme criadas para reproduzir o que se passava na mente de Joel durante o procedimento são muito bem feitas e criativas. Minha esposa me perguntou por que eu me emocionei com o filme? Porque pensei em muitas coisas com relação à temática de apagamento de nossas memórias, que na essência é o que somos. O filme me deixou muito pensativo.

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Garota Exemplar (Gone Girl), de 2014. Direção: David Fincher. Com: Rosamund Pike, Ben Affleck, Carrie Coon, Tyler Perry, Kim Dickens, Neil P. Harris e elenco.

SINOPSE: no dia de seu quinto aniversário de casamento, Amy Dunne desaparece (Pike). Quando as aparências de uma união feliz começam a desmoronar, o professor universitário Nick Dunne (Affleck), seu marido, torna-se o principal suspeito. O desaparecimento de Amy tem grande cobertura de mídia porque ela é conhecida por inspirar livros infantis cuja personagem é a "Amazing Amy" (algo como garota exemplar), de autoria de seus pais. Nick contrata um advogado especialista nestes casos, Tanner Bolt (Perry) e, com a ajuda de sua irmã gêmea Margo Dunne (Carrie Coon), Nick tenta provar sua inocência, ao mesmo tempo em que investiga o que realmente aconteceu com a mulher. 

COMENTÁRIO: o filme tem uma trama envolvente e o final deixa os espectadores surpresos. Gostei do filme! Os mais antigos acabam se lembrando de filmes como Instinto Selvagem (1992) e Atração Fatal (1987). 

O principal comentário a fazer sobre o filme e o roteiro é que gosto de filmes bem escritos e inteligentes. Nota 10 para esse filme.

Em termos de desempenho, a interpretação de Rosamund Pike é espetacular! Amig@s, que olhar é aquele de Amy Dunne! Que medo! Eu não me atreveria a passar uma noite ao seu lado (risos)...

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É isso!

Sigamos em contato com as culturas e compartilhando nossas reflexões. O texto anterior sobre filmes pode ser lido aqui.

William Mendes


quarta-feira, 15 de maio de 2024

Vendo filmes (XVI)



Refeição Cultural

Vidas passadas, vidas futuras, o presente que estamos construindo


Vi por esses dias dois filmes cujos enredos se passam nos Estados Unidos da América, ou pelo menos partes das histórias acontecem por lá. 

Estive duas vezes em Nova York e a experiência me trouxe aprendizados, inclusive me ajudou a evoluir em relação a preconceitos que tinha por confundir o povo de um país com o governo, coisas relacionadas, mas diferentes. Numa plutocracia como nos EUA, o povo pouca influência tem nos rumos da nação.

Neste artigo, comento a respeito de dois filmes muito bons, filmes que mexem com os sentimentos dos espectadores, filmes que valem a pena! Filmes com temáticas muito diferentes.

São filmes para chorar, para disparar as batidas do coração. Estórias que incomodam o espectador que, ou torce para que o desfecho seja o esperado ou se indigna pela atitude não esperada dos personagens.

O filme "Guerra Civil" nos assusta. É ficção ou é uma premonição do amanhã? E o comportamento das personagens naquele mundo sob guerra civil? Já não somos nós hoje com a indiferença na qual lidamos com todas as desgraças e injustiças ao nosso redor? Foda!

O filme "Vidas Passadas" nos envolve e nos coloca nos papéis dos jovens personagens sul-coreanos. Na vida real, os caminhos que as vidas deles tomaram seriam os caminhos meio que obrigatórios de boa parte das pessoas no mundo contemporâneo. São nossos destinos quando escolhemos as veredas que tomamos na vida? Há diferença entre escolher caminhos ou deixar que os caminhos se apresentem a nós e a gente só siga por eles?

Gostei bastante dos dois filmes. Recomendo a imersão, a viagem. O exílio por algum tempo nas ficções é perigoso como a vida real no mundo em desfazimento atual. A experiência pode nos modificar e ao final da catarse já não seremos os mesmos...

William Mendes

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FILMES

Vidas Passadas (Past Lives), 2023. Direção e roteiro: Celine Song. Elenco: Greta Lee, Yoo Teo, John Magaro.

SINOPSE: filme conta a história de Nora Moon (Na Young até os 12 anos) e Hae Sung, dois amigos de infância com uma forte conexão, que são separados quando a família de Nora decide migrar para o Canadá. Depois de muitos anos, eles retomam contato pela internet e duas décadas depois da separação se encontram em Nova York. O encontro colocará frente a frente dois adultos ligados pelo passado comum na Coreia do Sul e separados pelas veredas da vida.

COMENTÁRIO: a história de Nora e Hae Sung emocionam a gente. Nos deixam pensando na vida. Enquanto estamos na sessão, viajamos por várias reflexões sobre nossas vidas, eu vi na história dos amigos de infância sul-coreanos as veredas de minha própria história de vida. Provavelmente muitos espectadores se veem ou se recordam de alguém em contextos parecidos aos de Nora e Hae Sung. Na existência humana os exílios acabam se impondo em um momento ou noutro de nossa jornada.

Minha impressão é que a diretora e roteirista Celine Song quis nos mostrar os caminhos percorridos por duas pessoas de natureza muito diferentes, apesar da origem comum que as unia na infância. Uma pessoa, Nora, muito competitiva, sonhadora e disposta a alcançar seus objetivos, e a outra, Hae Sung, mais voltada à tradição e cultura de sua gente. Sentimentos difusos entre duas pessoas... amizade, amor, cumplicidade (a pessoa que sempre acolhia enquanto a outra chorava).

Pensei em tanta coisa durante o filme! Aos dez anos fui embora de meu mundo. Tive que me adaptar a outro mundo. Aos dezessete, voltei sozinho para aquele mundo da infância: nada mais era como antes. Exílios... Tenho na memória a lembrança de estar sempre andando em sentido contrário às gentes: aos 17 anos, quando descia para ir a outra escola - o Daniel - enquanto todo mundo subia para ir ao Adolfino. Aos 32 anos, quando descia na Franz Voegeli no final da noite, vindo da USP, e trombando com a gente subindo pela calçada, saindo da faculdade local. 

Nora e Hae Sung veem o mundo com a cultura da sua gente, com as crenças e mitologias que conformam a vida dos sul-coreanos. Como teria sido a vida deles se Nora não tivesse se mudado com os pais para outro país? Teriam ficado juntos, teriam filhos? Já estiveram juntos em vidas passadas? Em que contexto isso teria se dado? Ficariam juntos em alguma vida futura? Veredas, veredas...

O filme é lindo, muito bem montado. As cenas de lugares e tempos distintos se conectam. O monumento no qual as duas crianças brincam num encontro proporcionado por suas mães e anos depois um monumento onde se encontram em Nova York. Rostos de pedra separados por algo entre eles, como a vida deles, juntos, mas separados. Os silêncios que falam por eles, os cenários perfeitos para os momentos dos encontros. O parque e o carrossel... a cena da calçada aguardando o uber... as escolhas que Nora e Hae Sung fizeram, eu diria que de forma consciente, são as dimensões das decisões humanas a nos fazer refletir sobre a vida.

Filme para ver e rever sempre! Nos põe a pensar a vida.

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Guerra Civil (Civil War), 2024. Direção e roteiro: Alex Garland. Elenco: Wagner Moura, Kirsten Dunst, Cailee Spaeny e Stephen McKinley Henderson.

SINOPSE: o filme retrata a história de uma equipe de jornalistas e fotógrafos que viaja pelos Estados Unidos durante uma guerra civil. Joel (Moura) e Lee (Dunst) são amigos de longa jornada, estão em Nova York e pretendem chegar até Washington (DC) para entrevistarem o presidente dos EUA antes que a guerra chegue ao fim.

COMENTÁRIO: visto no cinema o filme coloca o espectador dentro do cenário de tensão da trama. Guerra é uma merda! Durante a sessão ficamos pensando como é ou seria bom vivermos em paz. E o enredo ficcional do filme nos lembra o quanto estamos a cada dia mais próximos da guerra, das guerras. Na verdade, já estamos em guerra, guerra civil, inclusive. A questão é quando as consequências das guerras se darão nas imediações de onde você e eu estamos. 

Saí do cinema meio passado. O que a ficção retrata é uma hipótese muito premonitória do que pode estar por vir. E o filme demonstra ao espectador a loucura que impera num mundo sem paz, sem contrato social, sem direitos civis, sem as conquistas civilizatórias - apesar de imperfeitas - que a espécie humana criou ao longo de sua existência no planeta. Foda isso!

Em termos de técnica, o filme é uma espécie de road movie, num cenário distópico, baseado na imagem, na fotografia. Diálogos pouco aparecem e o enredo deixa claro que o diálogo acabou, já era! Não existe mais rendição, conciliação. As coisas se resolvem na violência, na bala. Na eliminação ao diferente, divergente. Lei da selva: na guerra civil da savana, pela sobrevivência, não existem direitos de humanos, de gazelas, de cervos, de rezes e filhotes. Predação.

Algumas cenas são marcantes: belezas fugazes em meio a sangue, concreto, bombas, chumbo: umas florezinhas na grama distraem gente assustada durante tiroteio... fuligens incandescentes iluminam a noite dos mundos queimando... gente morrendo em instantes captados em preto e branco...

Como seres históricos, como seres passíveis de educação, podemos desenhar e capturar instantes melhores num futuro diferente... um mundo de paz, de tolerância à diversidade e sustentável. Queremos isso? Estamos fazendo algo por isso? Ou só queremos cliques, likes?

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É isso! Dois filmes distintos, dois enredos que se passam na terra do império atual.


Post Scritpum: o texto anterior desta série de comentários sobre filmes pode ser lido aqui. O comentário seguinte sobre filmes pode ser lido aqui.