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segunda-feira, 16 de março de 2026

Vendo filmes (XXXIV)



Refeição Cultural

A EFEMERIDADE DA VIDA HUMANA


Quatro filmes me deixaram pensativo nesses dias, quatro filmes muito diferentes em suas temáticas e enredos, mas que me chamaram a atenção para uma questão: a efemeridade da vida humana. 

As histórias do professor Marcelo ("O agente secreto"), do lenhador Robert ("Sonhos de trem") e do autor de peças teatrais William ("Hamnet") são histórias de todos nós, homens e mulheres do mundo, de hoje e de ontem. 

A história do andarilho Chris McCandless ("Na natureza selvagem") é a história de pessoas que não se encaixam na sociedade humana dominada pela lógica da posse supérflua de coisas, coisas e mais coisas, mercadorias inúteis do fetiche capitalista. 

Uma história se passa nos anos setenta, durante a ditadura no Brasil, outra se passa um século antes, ainda na expansão para o Oeste, nos Estados Unidos, e uma terceira se passa lá na Inglaterra, séculos atrás. 

A história do jovem McCandless é a mais recente, é do tempo da minha adolescência, no início dos anos noventa do século XX. 

O que é a vida humana se a compararmos com a natureza e seus elementos? 

Podemos existir por muito ou pouco tempo, fazer coisas grandes e importantes ou nada de relevância histórica, nossa lembrança pode permanecer por um breve tempo ou por um pouco mais de tempo. No entanto, estamos fadados ao esquecimento, ao desaparecimento. 

A vida e a existência são assim mesmo. E tudo bem. Quer dizer, tudo bem nada! O difícil é aceitar essa nossa pequeneza diante do mundo, da natureza em si.

Ainda estou bolado, pensando nessa questão da efemeridade natural da vida, a partir das histórias das personagens dos filmes. 

Sabedores dessa realidade, deveríamos viver de maneira mais consciente, sorvendo o que importa sem desvios de atenção para coisas irrelevantes. 

E o pior é que não fazemos isso. E a vida passa e não fizemos ou sentimos o que poderia ser feito ou sentido...

A vida é breve, é um instante, mesmo quando se vive algumas décadas... um instante. 

E como estamos vivendo? O que temos priorizado na vida? Já fizemos algo hoje que valha a pena?

Nunca se sabe se ao sair de casa um galho vá cair em nossa cabeça e o fim seja aquele instante. 

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FILMES


O agente secreto (2025)

Direção: Kleber Mendonça Filho. Com: Wagner Moura, Tânia Maria, Maria Fernanda Cândido e elenco.

Sinopse:

Ambientado no Recife, no final dos anos setenta, período de exceção da ditadura no Brasil, o filme conta a história de Marcelo, professor universitário - cujo nome verdadeiro é Armando - que retorna à terra natal após conflitos com um industrial poderoso que paga assassinos de aluguel para perseguir o professor. Marcelo quer encontrar seu filho, que está com os avós, e viver a sua vida e ser feliz.

Comentário:

A cena inicial do filme já me transportou para o passado no qual cresci: policiais bandidos e abusadores tentando receber propina dos cidadãos no cotidiano do Brasil dos anos setenta e oitenta (e ainda hoje). 

Mesmo sendo pobre de pele branca, tomei enquadro dos desgraçados da polícia desde pequeno...

Com os cidadãos afrodescendentes é mil vezes pior, a vida do pobre não vale nada para a polícia da casa-grande: matam o povo periférico mais do que se mata nas guerras. A maioria dos negros e descendentes ocupam as bases da pirâmide social. 

Gostei muito do filme! O que se passou com Armando, ou Marcelo, ser vítima de algum poderoso por qualquer motivo banal, é o retrato do Brasil do passado e do presente. 

Nossa vida pode encontrar o fim só pela casualidade de se cruzar o caminho de um fdp desses, caras do 1% ou do exército dessa casta canalha, que odeia o povo e o Brasil.

Quem nunca ouviu falar do perigo do guarda da esquina... 

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Sonhos de trem (2025)

Direção e roteiro: Clint Bentley. Com: Joel Edgerton, Felicity Jones e elenco.

Sinopse:

O filme conta a história de Robert Grainier, um lenhador do início do século XX nos Estados Unidos, desde sua adolescência, união com Gladys Olding, com quem constitui família, e suas jornadas e ausências de casa para ganhar o sustento cortando árvores centenárias para a construção de trilhos de trem rumo ao Oeste.

Comentário:

De todos os filmes dos quais teço impressões, "Sonhos de trem" é o de maior temática sobre a brevidade da vida, na minha opinião. 

Num instante, estamos e não estamos mais aqui, somos e não somos mais. 

Num instante, uma árvore com centenas de anos de existência perde a vida, morta por uns minúsculos seres com ferramentas cortantes lá no rés do chão. 

Num instante, um galho de uma árvore centenária cai na cabeça de um ser minúsculo lá no rés do chão e lá se vai a vida, num instante. 

Num instante, um incêndio pode por fim a inumeráveis formas de vida... e das cinzas novas formas de vida podem surgir. Outras vidas nunca mais serão as mesmas após um grande incêndio.

Somos natureza, somos seres quase invisíveis em nossas existências, assim somos nós. Robert é uma existência única, sua esposa e filha também, eu e vocês somos existências únicas. 

Todos somos passageiros do mesmo trem, o trem da vida, o trem da brevidade da vida. 

E todos temos nossos sonhos. E os sonhos nos movem por esses trilhos e caminhos...

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Hamnet: a vida antes de Hamlet (2025)

Direção: Chloé Zhao. Com: Jessie Buckley, Paul Mescal e elenco.

Sinopse:

O filme conta a história do casal Shakespeare, o nascimento dos filhos, a morte do filho Hamnet ainda pequeno, e o drama que essa perda trouxe à família. A tragédia inspirou o dramaturgo a escrever uma de suas peças mais famosas, Hamlet.

Comentário:

A interpretação brilhante de Jessie Buckley como Agnes Hathaway, esposa de William Shakespeare, rendeu a ela o prêmio de melhor atriz da Academia em 2026. Incrível sua performance, sem dúvida. O prêmio foi merecido.

No entanto, o filme me levou às lágrimas por uma questão sempre muito pessoal, naquilo que mais toca a cada um de nós: a morte e o sentido da vida. No meu caso, a lembrança do dilema dramático do personagem Hamlet, da clássica peça de Shakespeare. 

Ser ou não ser, eis a questão...

A reflexão completa do personagem é desconhecida por aqueles que ainda não conhecem a peça, Hamlet vive sob intensa dor ao saber das traições em família que levaram à morte seu pai. A dor lancinante aumenta ao ver sua mãe esposa de seu tio.

O filme me trouxe reflexões sobre a brevidade da vida, sobre o ser e estar por aqui ou não, me lembrou a difícil superação de não querer ser e estar por aqui por longos anos e pelas oportunidades surgidas por ter sido e ter estado por aqui nas últimas décadas... ser ou não ser... dormir, acordar, talvez sonhar...

Shakespeare, Hamlet, Hamnet... valem a pena!

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Na natureza selvagem (2007)

Direção: Sean Penn - Trilha sonora de Eddie Vedder

Com: Emile Hirsch (Chris), Jena Malone (irmã), Kristen Stewart ("crush"), William Hurt (pai), Marcia Gay Harden (mãe), e elenco. 

Sinopse:

Christopher McCandless, filho de pais ricos, se forma na Universidade de Emory como um dos melhores estudantes e atletas. Porém, ao invés de partir para uma carreira prestigiosa e lucrativa, ele escolhe doar suas economias para a caridade, livrar-se de seus pertences e viajar rumo ao Alasca.

Comentário:

Quando vi pela primeira vez o filme baseado na história real de Chris McCandless, dirigido por Sean Penn, a partir do livro de Jon Krakauer, fiquei impactado por muito tempo. 

McCandless nasceu um ano antes de mim e no início dos anos noventa estava em sua busca pessoal por liberdade, autoconhecimento e fuga de uma sociedade humana capitalista, toda ela baseada nas posses de coisas, coisas, coisas. Ele estava de saco cheio de relacionamentos humanos tóxicos e interesseiros e queria se isolar na natureza selvagem do Alasca. 

Na mesma idade e na mesma época, eu procurava respostas para as mesmas perguntas.

Ao rever o filme duas décadas depois, já sabendo da descoberta feita por "Alex Supertramp", o nome que McCandless adotou em seus tempos de andarilho, fiquei pensando em muitas coisas, muitas. 

A lição a respeito da felicidade verdadeira ser alcançada através dos relacionamentos humanos, algo que Chris compreendeu a partir da vivência de sua jornada e também pela leitura de grandes autores como, por exemplo, Tolstoi - e o livro "Felicidade conjugal" -, me pegou de jeito desde o instante que tomei conhecimento da história do jovem andarilho.

"Happiness only real when shared"... (é isso mesmo! é verdade isso! e nesse sentido, posso dizer que fui feliz... os momentos mais marcantes de minha vida foram ao lado de alguém)

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É isso, termina aqui mais um texto da série de comentários sobre filmes que me trazem reflexões sobre a vida.

O comentário anterior pode ser lido aqui

William Mendes 

16/03/26

sábado, 13 de dezembro de 2025

Vendo filmes (XXXIII)


O grito de Crisóstomo.


Refeição Cultural


O DIVERSO É O COMUM

Certa vez, quando era adolescente, cheguei numa madrugada, vindo da rua, e dei um longo grito no quintal de minha avó, onde morávamos, e assustei muita gente. Foi um ato insano. Foi um grito de dor. Não deveria ter feito aquilo, mas fiz. Devia estar numa deprê impossível de suportar.

Ao assistir ao filme "O filho de mil homens" me lembrei na hora desse episódio de minha vida ao ver Crisóstomo gritar em frente ao mar para aliviar sua dor e sua solidão.

Vi por esses dias três filmes que me deixaram pensativo, filmes cuja temática central diria ser as idiossincrasias desse fantástico animal que somos, os seres humanos, únicos na natureza enquanto espécie que cria abstrações que dominam os criadores e únicos no comportamento mesmo sendo bilhões de indivíduos da mesma espécie. 

Os filmes "O filho de mil homens" (2025), "O pior vizinho do mundo" (2022) e "Papai" (2023) se interligaram em minhas reflexões ao me fazerem pensar nas complexidades das relações humanas, nas violências dolorosas dos preconceitos humanos e nas possibilidades de mudança contidas em cada um de nós, enquanto seres incompletos e biologicamente preparados para as adaptações aos ambientes aos quais estamos inseridos como seres vivos e tentando sobreviver. 

Crisóstomo (Rodrigo Santoro), Otto (Tom Hanks), Clark (Sean Penn) e as personagens com as quais interagem e convivem ou por um curto espaço de tempo ou por toda uma vida refletem a questão que me deixou bolado nesses dias: o quanto somos diversos e o quanto a solidão de alguma forma marca a vida de boa parte da sociedade humana, muitas vezes pelo fato de não nos encaixarmos naqueles padrões violentos impostos a nós por outros.

O rapaz que gritou no quintal de casa numa madrugada lá nos anos oitenta sentia uma dor impossível de suportar no peito. Crisóstomo grita quando precisa aliviar a dor que sente no peito. A solidão nesses casos não era solitude, era incompletude. 

Otto encontrou certo dia a cor em sua vida, o motivo de seguir adiante. Depois sua vida ficou cinza, opaca. O rapaz que não se encontrava na vida, que vivia a esmo num mundo cinza, encontrou a cor nas veredas que trilhou, depois encontrou sentidos nas coisas que lhe destacaram para fazer.

Na conversa entre Clark e a jovem Girlie vemos os acasos do destino que definem as vidas de todos nós, fuck esse papo furado de controle da situação... controle o cacete! Ninguém controla nada! Assim foi minha vida também... de vereda em vereda...

Quando vi, estava fora de casa. Quando vi, brigava com todo mundo, queria viver, queria morrer, queria amar. Quando vi era pai, aventureiro, sindicalista, tinha emprego fixo quase sob tortura de um governo desgraçado.

Acho que Crisóstomo nunca foi condutor. Otto nunca foi condutor. Incrível, mas Clark não conduziu sua vida, o acaso a definiu. Nunca conduzi minha vida. Ela foi indo, indo, a esmo. Só fiz foi tentar fazer o correto da jornada.

Concluí muita coisa da existência. Vejo o diverso a cada olhar ao redor... Vejo muita dor e solidão também... Queria poder aliviar a dor de muita gente...

Hoje nem gritar eu posso...

Como nos ensina Rubem Alves em seu texto perfeito "O nome" (ler aqui), vivemos numa gaiola, o nosso nome, e já se esperam tudo de mim, e de Crisóstomo, e de Otto, e de Clark, e de cada um de vocês.

O que nos salva das gaiolas dos nomes são os imponderáveis que a existência nos apresenta a cada amanhecer e anoitecer. 

Enfim, as histórias das personagens desses filmes, suas dores, as violências e preconceitos que viveram, os encontros e as descobertas, as relações humanas pelo simples fato de existirem, me fazem encerrar de forma otimista as reflexões.

Amanhã será outro dia, por muito tempo ainda. Não só para mim, um personagem do mundo, mas para todos nós, viventes desse mundo cheio de diversidade. 

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FILMES


O filho de mil homens (2025) 

Direção: Daniel Rezende. Roteiro: Daniel Rezende, Valter Hugo Mãe, Duda Casoni. Com: Rodrigo Santoro, Miguel Martines, Juliana Caldas, Johnny Massaro, Rebeca Jamir, Grace Passô e elenco.

Sinopse (Netflix):

Em uma pequena vila, um pescador solitário (Crisóstomo) com o sonho de ter um filho se conecta, de forma extraordinária, a um grupo de pessoas e seus segredos.

Comentário: 

O filme retrata de forma surpreendente as questões complexas ligadas às relações humanas, abordando o quanto a violência e as diversas formas de preconceitos podem afetar a vida das pessoas, alterando o curso de suas histórias.

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O pior vizinho do mundo (2022)

Direção: Marc Forster. Roteiro: David Magee Com: Tom Hanks, Mariana Treviño, Rachel Keller, Manuel Garcia-Rulfo, Cameron Britton, Juanita Jeannings, Mack Bayda.

Sinopse (Netflix):

Decepcionado com o mundo e cansado da dor do luto, um aposentado rabugento planeja pôr um fim nesse sofrimento, mas tudo muda quando conhece uma família cheia de vida.

Comentário:

Filme muito bom! Otto é o vizinho ranzinza que gosta das coisas certas e das regras respeitadas em seu condomínio de casas, algo muito difícil de se ver. Ao longo da história, vamos conhecendo as particularidades de Otto e fica mais fácil entender como cada um de nós é diferente e único no tecido social chamado sociedade humana.

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Cena do filme "Daddio"

Papai (Daddio), de 2023. 

Direção: Christy Hall. Com: Sean Penn e Dakota Johnson.

Sinopse (Wikipedia):

Após aterrissar no Aeroporto Internacional John F. Kennedy, uma jovem toma um táxi para regressar ao seu apartamento em Manhattan, Nova York. Durante a corrida, e o trânsito intenso por causa de um acidente, ela e o taxista Clark conversam sobre diversos temas, inclusive os relacionados à vida pessoal deles.

Comentário:

Poderia parecer uma história sem verossimilhança o nível da conversa entre a jovem passageira e o motorista se não tivéssemos o hábito de pegar táxi ou aplicativo e de repente começar a ouvir as histórias mais absurdas ou até mesmo contar a um estranho questões de foro íntimo. Gostei do filme e fiquei pensando também sobre as idiossincrasias de cada ser humano.

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É isso! 

Essa foi mais uma postagem da série sobre filmes.

O texto anterior pode ser lido aqui.

William

terça-feira, 25 de junho de 2024

Vendo filmes (XVIII)



Refeição Cultural

Os Estados Unidos são uma nação cuja essência é a liberdade para se praticar a violência contra tudo e todos, liberdade baseada na ideia de um indivíduo não ter limites sobre o restante do universo 


Dois filmes que retratam a sociedade norte-americana me proporcionaram nesses dias momentos de catarse. Saí deles pensando a respeito da sociedade humana e concluí que não é justo e não devemos concordar com o desejo de um grupo de pessoas de um país - os bilionários norte-americanos e seus operadores - querer impor sua cultura ao mundo todo.

Um dos filmes retrata os Estados Unidos no século 21, na fase atual do capitalismo selvagem, implacável em sua fúria pelo lucro rápido e a qualquer preço, ainda mais se o preço for eliminar empregos e pessoas cujas vidas foram dedicadas a uma grande empresa norte-americana, base econômica do "país das oportunidades". Será que a terra da liberdade ainda é o país das oportunidades? 

Enquanto a "Revista Life" é reestruturada por uns executivos babacas, o personagem Walter Mitty dá o encanto ao filme ao nos lembrar que o que importa são as pessoas. Aliás, critico os governos dos EUA e não o conjunto da população, pois lá existe a classe trabalhadora oprimida e explorada como toda a classe trabalhadora do mundo capitalista. 

O outro filme retrata a origem e os motivos pelos quais os Estados Unidos sempre foram uma nação violenta, com uma cultura de só saber resolver as coisas na guerra, na bala, na eliminação do outro, supostamente inferior sob a ótica estadunidense.

Se fizermos uma linha do tempo entre o passado que definiu a essência da cultura violenta daquele povo e um hipotético futuro da sociedade norte-americana com os filmes "O Regresso" (2015) e "Guerra Civil" (2024) - que vi recentemente -, veremos o quão profético pode ser o último, pois nada mudou nesses dois séculos de pouco diálogo e muita solução na base da violência. 

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FILMES

A vida secreta de Walter Mitty (2013) - Direção: Ben Stiller. Com: Ben Stiller, Kristen Wiig, Shirley MacLaine, Sean Penn.

Sinopse: o tímido Walter Mitty está sempre sonhando acordado para escapar da sua vida monótona, mas uma aventura muito real prova que ser herói não é tão fácil quanto parece. (Netflix)

Comentário: alguns filmes pegam a gente em cheio. É o meu caso com o longa de Ben Stiller. Desde a primeira vez que o vi, fiquei encantado com diversas passagens do filme. Poucas vezes tenho contato com obras culturais que me fazem rir e chorar ao mesmo tempo. Esse filme é uma das exceções.

A estória em si já é uma tragédia do capitalismo: essas reestruturações empresariais que enxugam postos de trabalho e dispensam as pessoas como se elas não fossem nada, como se fossem jogar papel amassado no lixo. Já nos sensibilizamos com o enredo por isso.

Aí temos a questão do personagem que perdeu o pai ainda jovem, da mudança radical de vida naquela fase, da timidez que quase inviabiliza as relações de Walter Mitty.

E por fim, o roteiro, a fotografia, a trilha sonora, os efeitos nas cenas de ação. É uma soma incrível de acertos. Groelândia, Islândia, Afeganistão, Himalaia... erupções vulcânicas, skate no asfalto entre vales, uma partida de futebol nas estepes do topo do mundo... luzes e som, sombras. As imagens perfeitas. A música "Major Tom", de David Bowie, nunca mais foi a mesma para mim.

A mensagem do fotógrafo Sean O'Connell nos coloca a pensar: em alguns momentos, as imagens são tão perfeitas que nem se deve perder o instante por trás da lente de uma câmera. A pessoa deve aproveitar o momento e só estar lá, no meio e instante daquele acontecimento único.

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O Regresso (2015) - Direção: Alejandro González Iñárritu. Com: Leonardo DiCaprio e Tom Hardy.

Sinopse: filme conta a história do caçador de peles Hugh Glass (DiCaprio), que é deixado para trás para morrer após ser atacado por uma ursa parda no meio da floresta congelada. A estória se passa nos Estados Unidos do início do século XIX, pouco depois da declaração de independência formal do país. Na prática, imigrantes, colonos, escravizados e indígenas ainda disputavam espaço no território que se constituiria enquanto nação décadas depois. 

Comentário: quando vi esse filme pela primeira vez, fiquei meio passado. Que estória brutal! Mas reconheci que foi um tremendo filme. O desempenho de DiCaprio como Hugh Glass, o caçador norte-americano do início do século XIX, foi estupendo. Ele mereceu a estatueta! 

E o que mais pega o telespectador no longa é o cenário e a fotografia, uma obra de arte de Emmanuel Lubezki, que ganhou o Oscar por seu trabalho.

Após ver "O Regresso" afirmei a mim mesmo que esse não era o tipo de filme que eu assistiria de novo. Foi muito sofrimento por horas! 

Pois é, vi de novo...

Nesta segunda vez, o que não me saiu da cabeça é o quanto o filme sintetiza a gênese da natureza da sociedade norte-americana desde sua origem: a violência como base das relações dos homens com a natureza e nas relações sociais. Aquela sociedade que surgiu nas primeiras décadas desde a independência é a mesma de hoje.

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É isso! Sigamos comentando filmes que nos põem a pensar o mundo e a vida.

William Mendes


Post Scriptum: o texto anterior desta série, comentários sobre filmes, pode ser lido aqui.


sábado, 11 de setembro de 2021

Happiness only real when shared



Refeição Cultural

Em maio de 1990, eu fui demitido do Unibanco. Eu estava meio de saco cheio daquele trabalho e daquele lugar. Mandei meu chefe à merda após ele mandar eu me mudar de mesa de trabalho. Achei que era implicância dele e me neguei a mudar de lugar. Zé Fernandes era gente boa, um cara humilde, me demitiu todo sem jeito porque eu exagerei na situação. Eu tinha 21 anos. Hoje eu tenho essa leitura, era um trabalhador assim como eu.

Em setembro de 1992, eu tomei posse de minha vaga concursada no Banco do Brasil. Depois de um período de incertezas, eu me tornava um trabalhador de empresa pública e passava a vislumbrar uma vida um pouco mais estável. Um ano antes, eu havia passado no concurso e após comemorar a conquista, o concurso foi cancelado por fraude de uns filhinhos de papai em Brasília. Só seria bancário do BB se passasse de novo no concurso com um milhão de inscritos. Deu certo. Passei de novo. Eu tinha 23 anos.

Entre a adolescência e a suposta estabilidade do emprego em empresa pública, foram anos de incertezas, revoltas, desilusões na vida. Aprendi inglês pensando em ir embora do país. Pensei o que todo jovem pensava na época, ir para o Japão, trabalhar em outro país. Tentei até trabalhar na construtora Mendes Júnior, na época, e quase fui pro Iraque, mas só tinha vagas de motoristas de caminhão. A família Bush iria bombardear o país tempos depois. Os anos oitenta e noventa foram foda para a classe trabalhadora brasileira.

Essa introdução na forma de lembranças foi para situar coisas que pensei quando conheci a história de Chris McCandless após 2007. A história social dele não tem nada a ver com a minha. Ele era filho de classe média nos Estados Unidos. Tinha caminho aberto para seguir os padrões de sucesso da sociedade capitalista. Mas era jovem contestador e queria outra forma de vida, não o acúmulo de coisas do modelo capitalista.

Um dia a companheira Deise Recoaro, do movimento sindical, me sugeriu assistir ao filme sobre o jovem americano. Quando vi o filme Na natureza selvagem (2007), dirigido por Sean Penn, quando li em seguida o livro de Jon Krakauer - Na natureza selvagem (1996) - e quando passei meses ouvindo as músicas da trilha sonora do filme, produzida por Eddie Vedder, fiquei bolado, fiquei mals, fiquei muito tempo impactado pela história do jovem andarilho Alex Supertramp. 

Ao ler o livro reportagem, me lembrei de minha busca por um lugar ao sol, um lugar na sociedade daqueles anos. McCandless estava justamente fazendo isso entre maio de 1990 e agosto de 1992, quando descobriu e escreveu num livro que "Happiness only real when shared" (a felicidade só é verdadeira/real quando compartilhada). Eu fiquei muito tempo pensando nessa mensagem de McCandless, uma mensagem refletida no meio da solidão do Alasca, preso pelas condições climáticas e sem poder voltar para a sociedade, para as pessoas.

Olhei minha vida em retrospectiva e fiquei pensando sobre os momentos felizes que a gente tem nessa vida dura e normalmente difícil ao longo da maior parte do cotidiano. Apesar de ser apaixonado pela natureza, por montanhas, rios, mato e acampamento, percebi que McCandless tinha razão. Os momentos mais felizes de minha vida tiveram pessoas ao meu lado. Não foram de solidão, não foram. 

Estou pensando muita coisa nesse instante. Revi hoje o filme. Estou emotivo, olhos úmidos. Não devo escrever a outra parte dessa refeição cultural. Ela tem sentimentos de amor, filho, família, amigos, companheirismo de lutas e trabalho. Mas são muito pessoais. 

Mas realmente a mensagem do jovem McCandless - Alex Supertramp - é uma mensagem de sabedoria. Hoje tenho isso claro. 

Felicidade mesmo só é alcançada, só é verdadeira e real quando é compartilhada, até porque somos humanos.

William


terça-feira, 31 de dezembro de 2013

A vida secreta de Walter Mitty - Comentário do Blog





Refeição Cultural

Sinopse

O filme aborda a vida do personagem Walter Mitty (Ben Stiller). Ele trabalha na revista Life e é o gerente responsável pelo departamento de arquivos de fotografias. Ele foi um garoto bem ativo na infância e adolescência, era skatista, até que seu pai faleceu.

Ele está apaixonado por uma colega de trabalho, Cheryl (Kristen Wiig), e a empresa foi comprada e está enfrentando uma grave reestruturação que vai demitir muita gente e fechar a edição em papel da principal revista Life.

A principal característica de Mitty é que ele dá uns apagões e durante alguns segundos viaja em sua mente com coisas que gostaria de fazer, mas que não tem coragem.

Ele recebe um pacote com negativos do importante fotógrafo Sean O'Connell (Sean Penn), mas a foto que ele pede para ser capa da última edição da revista Life desaparece e Mitty faz o possível e o impossível para encontrar a foto e o fotógrafo.


Imagens e fotografia

O filme é belíssimo pelas imagens da Groelândia, Islândia e Himalaia.

Para mim, também foi legal ver um filme que se passa em Nova York logo depois de ter estado lá dias antes. A estadia na cidade foi a trabalho e tive contato diário com o movimento social novaiorquino. Isso me faz confessar que gostei daquela cidade e do povo de lá.


Roteiro dialoga com realidade capitalista

O drama da empresa que foi adquirida e vai sofrer reestruturação com demissão em massa e pouco respeito pela vida de dedicação de centenas de trabalhadores é uma dura realidade que acontece todos os dias nos países do mundo. Que lixo fazerem isso com as pessoas!


Emoção

“Ver o mundo e seus perigos, ver atrás dos muros, chegar mais perto, encontrar o outro e sentir. Este é o propósito da vida”

Algumas cenas me emocionaram bastante e com certeza voltarão em minhas reflexões futuras. 

Mitty precisa tomar decisões entre sair da condição de dar uns apagões da realidade e realizar aventuras em sua imaginação e precisa encarar aventuras de verdade. Foi muito legal isso e quase todo mundo precisa passar por tal coisa um dia.

A mensagem do fotógrafo no alto do Himalaia é o ponto máximo do filme para mim. Estou com aquilo na cabeça.


Bom, o filme é excelente. Vou assisti-lo novamente.

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INSTANTES... AGORA VAMOS DORMIR e acordar para meu maior desafio do ano: conseguir percorrer e completar a São Silvestre nesta manhã de 31/12/13. Só minha cabeça poderá me levar até o fim, inclusive controlando meu corpo, que não está em condições físicas. Acredito que tudo dará certo...

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Post Scriptum (madrugada de 2/11/14):

Acabei de rever o filme. A mensagem do fotógrafo na montanha me tocou novamente. Alguns instantes são para se sentir, sem necessidade inclusive de registros (para os outros). É um momento único. Alguns instantes são a essência da vida.


Sobre a São Silvestre de 2013, deu tudo certo. Foi um desses instantes únicos da vida da pessoa, da minha vida. 

domingo, 23 de setembro de 2012

Filme: “A árvore da vida” (2011) de Terrence Malick

Poster do filme.


Sentidos em “A árvore da vida” (2011) de Terrence Malick

SINOPSE (Wikipedia)

The Tree of Life é um filme estadunidense de 2011, escrito e dirigido por Terrence Malick e estrelado por Brad Pitt, Sean Penn e Jessica Chastain. O filme mostra as origens e o significado da vida através dos olhos de uma família da década de 1950 noTexas, tendo temas surrealistas e imagens através do espaço e o nascimento da vida na Terra. The Tree of Life estreou no dia 16 de maio no Festival de Cannes, vencendo a Palma de Ouro de Melhor Filme, depois de ter sido desenvolvido por Malick há décadas e ter sido adiado várias vezes. Foi lançado no dia 27 de maio de forma limitada nos Estados Unidos, recebendo críticas muito positivas e elogios aos seus aspectos técnicos e méritos artísticos.


SENTIDOS...

Imagem, imagens, sons, perguntas...


Qual seria o sentido do filme A árvore da vida? Qual seria o sentido da vida?

Eu não sei por que tanta gente não compreendeu o filme. Ou melhor, o filme é para ser sentido e, ao longo dos seus 140 minutos, o telespectador vai contatar sua árvore da vida em suas reminiscências e visões de mundo e da existência.

Foram 140 minutos em que vi imagens na tela que me levaram às imagens e perguntas de minha existência.


“Na vida há dois caminhos a seguir: o da Graça e o da Natureza” foi o que ensinaram na infância para aquela típica mulher de família (Jessica Chastain) e mãe de três filhos num Estados Unidos dos anos 50 (American way of life e self made man).


Este telespectador que vos fala ficou vidrado no filme o tempo todo.


VIAJEM NAS IMAGENS!

Espaço sideral, fundos de rios e mares, interior dos corpos, da Terra...


Durante 2/3 de minha existência, acreditei na concepção da vida com explicações metafísicas das religiões. Hoje, entendo tudo isso como mitologias necessárias aos humanos em diferentes estágios de suas vidas.

Até vinte e poucos anos, alimentei o desejo de deixar meu corpo físico e sair em busca do conhecimento de tudo, de todo o Universo. Na época, eu cria em vida após a morte, que éramos mais que corpo físico, que tinha um corpo astral etc.

O tempo inteiro, o filme me permitiu viajar – como se fosse aquele ser consciente sem corpo físico que desejei no passado. Viajar pelos lugares que sonhava. Fui no espaço, fui no interior dos corpos, viajei no tempo, vi dinossauros, mergulhei, vi vulcões, a Terra em formação. Viajei!

Poster do filme.

A ÁRVORE DA (MINHA) VIDA

Em família, em sociedade. Os porquês, why?...


Além de me proporcionar a viagem pelos mundos possíveis, durante os 140 minutos de filme também busquei respostas às perguntas ecoadas na cabeça do filho mais velho Jack (Sean Penn), da mãe (Jessica Chastain), do próprio diretor (Malick)...

Minha criação com meus pais, meus problemas adolescentes com meu pai, os problemas adolescentes de meu filho, os choros de minha mãe, de meu pai, os meus, os do meu filho, os da mãe dele... A árvore da vida segue...


A MUDANÇA TRAUMÁTICA NA INFÂNCIA

Na minha, na de meu pai, na de meu filho, na de todo mundo...


Aquela cena da família O’Brien deixando a casa e os garotos olhando para trás... o mundo deles mudando.

Meu pai já me contou isso em sua vida: a partida e a mudança na infância e adolescência.

Nunca me esqueci de minha partida deixando meu mundo aos 10 anos de idade, meus amigos, minha casa. Aos 17 anos deixei de novo meu mundo, meus pais...

Meu filho deixou seu antigo mundo aos 5 anos...

Um mundo de partidas. Uma vida de mundos partidos.

Poster do filme.

AS FRUSTRAÇÕES DE NÃO TER SIDO

O Sr. O’Brien não foi músico, não fui intelectual nem professor...


Me lembro de quando era garoto de meu pai dizendo que eu deveria sempre andar com os bons pra vencer na vida.

O conceito que aquele homem simples que fora padeiro, vendedor de enciclopédias da Barsa e taxista tinha de ‘os bons’ significava que era pra eu andar com os burgueses.

Eu tentei por algumas vezes, mas eu sempre tive nojo de burguês. Acabei indo andar com gangues e com a molecada pobre de onde vivi na adolescência.

Meu pai queria que eu fosse presidente (acho que presidente de alguma coisa). O Sr. O’Brien (Brad Pitt) queria ser músico. Eu quis ser uma espécie de intelectual (talvez um professor universitário).

Na verdade acabei sendo bancário e depois sindicalista. Não fui contador. Não fui professor de educação física. Não fui professor de letras.


O ENCONTRO DE PASSADO E PRESENTE NO FILME

Visões entre pais e filhos no ontem e no amanhã...


O filme encontra o filho Jack no presente com seus pais no passado. A busca da compreensão. A busca do perdão.

Na viagem, no tempo, na nossa árvore da vida, é possível ver meu jovem pai, meu velho filho olhando pra trás e vendo o jovem pai, as tristezas... a compreensão tardia, a dor..., o perdão. O mundo, o Universo, a eterna árvore da vida...


PS (POST SCRIPTUM)
Gostei muito de uma crítica que encontrei na internet de Thiago Siqueira do site Cinema com Rapadura. Vale a pena a leitura.
http://cinemacomrapadura.com.br/criticas/221712/a-arvore-da-vida-o-poder-da-setima-arte-em-obra-existencialista/

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

MILK – a voz da igualdade (2008 – EUA), dirigido por Guns Van Sant

Harvey Milk. Anos 70. Direitos civis. Homossexualismo. Intolerância. Respeito ao ser humano.


Foto divulgação

Assisti ao filme Milk. Uma bela interpretação de Sean Penn, como de hábito.

A pessoa que sou hoje e que assistiu ao filme é outra pessoa em relação àquela de dez anos antes. Acredito que todos somos outros dez anos depois. Digo isso porque venci o preconceito que tinha devido à minha total ignorância sobre os temas "Orientação sexual" e "Amor" - em todas as suas formas e possibilidades.

Em uma década, deixei de ser preconceituoso e acho que me tornei uma pessoa um pouco mais tolerante. O movimento sindical me mudou como pessoa. Mesmo que saia em 2011 ou mais adiante, agradeço muito ao Sindicato dos Bancários e à CUT por terem me ajudado a ser um pouco melhor como ser humano.

Aliás, quando penso em tolerância, em respeitar as diferenças e conviver com elas, penso também na corrente política e sindical que tive a sorte de conhecer e militar durante esta década – a Articulação Sindical. Nela, aprendi a buscar o consenso e evitar ter como foco a destruição de quem pensa diferente. Aprendi a buscar agregar e somar naquilo que é consenso para lidar com o diferente. Buscar a unidade por objetivos maiores.

Lembro-me de quando jovem, nos anos 80, da intolerância que todos tínhamos com os gays, bem como com qualquer grupo onde você próprio não estivesse inserido.

Que belo homem foi Harvey Milk!

Não sei se ele era determinado premeditadamente ou se apenas foi fazendo o que tinha que ser feito. Me parece mais a segunda hipótese. E essas são as grandes pessoas!

Não acredito em heróis e não acho que as pessoas nascem para serem heroínas. Mas acredito muito que todas as pessoas têm um combustível dentro de si, que após aceso, pode levá-las a lutar e lutar e lutar por aquilo que acreditam. Muitas vezes, até lutam por algo errado, moral ou eticamente, mas lutam. É uma questão de direcionamento para o bem ou o mal.

Outra coisa muito forte na mensagem de Harvey Milk é a proposta para as pessoas se assumirem como são. No caso específico da orientação sexual, que cada um nasce com ela, é uma questão de respeito ao ser humano.

Para aqueles que têm ou acham que têm a orientação sexual "padrão", estabelecida por grupos dominantes, a questão principal é de educá-los para o respeito à alteridade e ao diferente. A vida no planeta só sobrevive porque há diversidade, há diferença. Se a vida fosse de homogeneidade, já não haveria vida, pois seríamos frágeis como uma espécime toda igual que perece com qualquer mudança no seu habitat.

O filme Milk é um filme leve para um tema ainda difícil para parte das pessoas que não aceitam o diferente.

O filme é um bom momento para se lembrar que a educação para a liberdade e o respeito à diversidade pode revolucionar o nosso mundo, tão intolerante, às vezes.

Será que os milhares de militantes que se dizem progressistas, liberais e de esquerda já viram o filme? Se não viram ainda, não percam tempo e vejam. Vale a pena!

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Refeição Cultural 51

Filme "21 Gramas" e o imponderável quebrando a pretensa estabilidade


Estava ainda nesta quarta-feira almoçando com pessoas companheiras e debatendo sobre a vida, a fé e o imponderável.


Eu estava questionando a existência de um suposto deus, através da questão do imponderável nas e das existências.


No entanto, o tempo inteiro tenho concordância sobre a importância que o místico ocupa na explicação das existências: a fé em algo metafísico ajuda a dar uma conformação à nossa existência trágica.


Sem esse liame que liga passado, presente e futuro, justificando perdas e sofrimentos, bem como alegrias, o ser humano racional teria muita dificuldade em aceitar a existência trágica.


Após o almoço, encontrei em um café mais alguns companheiros que casualmente deram sequência no debate que eu já havia feito sobre o programado pela cilivização e o imponderável.


Interessante! Quando comentamos sobre a erupção do vulcão na Islândia e o caos incalculável causado a milhões de pessoas, a primeira coisa que me veio à cabeça foi a situação encaixar-se como uma luva naquilo que eu dizia sobre o imponderável ser a constante em nossas vidas supostamente programadas e estabilizadas com rotinas sociais.


O FILME "21 GRAMAS", de 2003

Assim que cheguei a casa à noite, o imponderável me pôs diante da tv e comecei a assistir ao filme com Sean Penn, Benicio Del Toro e Naomi Watts, com a direção de Alejandro González-Iñarritu.


O filme é todo fragmentado. Tem semelhanças com Crash e interliga vidas, fatos e consequências.


O filme é muito bom!


Lembrei-me do debate do dia sobre as pessoas dizerem que têm um certo controle de suas vidas e que não estão à merce do imponderável a todo instante.


Cara, assim como acontece no filme, ou seja, aquela interrupção da pretensa estabilidade em que vivia a moça protagonista, a nossa vida é toda marcada pelo imponderado. A todo instante.


A MINHA CRENÇA

Eu acredito que não há nenhuma predestinação, ou desenho inteligente, ou qualquer outra forma de organização do mundo e das pessoas e demais existências dentro do planeta que respeitem a certa ligação cármica ou dármica, de retorno ou recorrência, inerentes a vidas passadas ou futuras ou ainda a certas passagens de algum ser consubstanciado em uma matéria como essa que vos fala. Mas respeito aqueles que assim veem a existência.


Fazemos escolhas a todo instante, é verdade. Porém, não somos uma ilha e tudo que se passa ao nosso redor tem impacto em nossas vidas.


Nessa conformação real é que se encaixa a conformação mística criada pela grande maioria das pessoas.


O ser humano está a milhares de anos buscando certa estabilidade em forma de um mundo organizado onde se tenha disponível todas as maravilhas produzidas pela tecnologia humana. As religiões e crenças ajudaram na questão de formatar explicações para as tragédias existenciais.


MAS, o imponderável está a todo instante, hoje e sempre, nos lembrando que o nosso mundo "arrumadinho" é falível e que tudo o que é planejado tem uma semente de caos.

Aliás, termino lembrando de uma aula de biologia que tive onde a professora explicava o exato momento em que havia na separação e multiplicação das células o momento mágico chamado CROSS-OVER, evento da natureza que faz com que não tenhamos sempre cópias iguais de cada ser reproduzido. É O CAOS GERANDO A VARIABILIDADE GENÉTICA E RICA QUE SALVA A EVOLUÇÃO DAS ESPÉCIES DESDE SEMPRE.

Crossing-over
O sobrecruzamento dos cromossomas durante a meiose I pode fazer aumentar a variabilidade genética dos gâmetas. O cross-over permite a recombinação de genes localizados em cromossomas homólogos. Dado que cada cromossoma contém milhares de pares de bases e que o cross-over pode ocorrer entre qualquer delas, as combinações são incalculáveis.

A fecundação, o fenômeno que permite transmitir ao novo indivíduo a constituição genética dos dois gâmetas. A união de dois dos gâmetas, entre milhares deles formados ou possíveis, faz com que a constituição genética de um novo indivíduo seja totalmente imprevisível.

Resumindo, a reprodução sexuada pode contribuir para a variabilidade das populações por três vias: distribuição ao acaso dos cromossomas homólogos, sobrecruzamento e união ao acaso dos gâmetas formados. No entanto, a reprodução sexuada não cria nada de novo, apenas rearranja o que já existe nos progenitores. (fonte: portalsaofrancisco.com.br)

sábado, 25 de julho de 2009

A promessa - Filme com Jack Nicholson, dirigido por Sean Penn



Poster de divulgação do filme.

Refeição Cultural


A cada dia admiro e gosto mais dos filmes estrelados e dirigidos por Sean Penn. Ele tem sempre uma surpresa para o telespectador.

Outro dia, assisti a um filme bem antigo com ele ainda adolescente - Caminhos violentos, de 1986. Final surpreendente e inesperado.

Um filme emocionante com Sean Penn é Uma lição de amor, de 2001, onde ele interpreta um pai com deficiência mental. O nome dado em português cai bem ao filme. É uma lição de amor e de vida.

Mais recentemente, ele dirigiu um dos filmes que mais me tocaram pessoalmente: a história de Chris McCandless - Na natureza selvagem, de 2007.

Hoje, assisti novamente ao filme A promessa, com Jack Nicholson, de 2001.

A história não é coisa do outro mundo. Um detetive que, prestes a se aposentar, acaba prometendo à mãe de uma criança brutalmente assassinada descobrir o autor do crime. A partir daí a trama rola.

Os filmes de Sean Penn têm um que a mais, como se não fossem filmes "óliudianos": a fotografia, a tomada de cena. Sempre tem espaço para as expressões, o detalhe. Como também sempre vemos belas paisagens e a grandeza da natureza.

O mais interessante é que sempre que termina um filme dirigido ou protagonizado por ele, quedo pensando, ora com um soco no estômago, ora com o espanto do inesperado. É O EFEITO DA CATARSE!

Estou percebendo que quando algo tem o nome do cara envolvido, vale a pena ver.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Artigo - A pena de morte



Refeição Cultural

Assisti a outro filme sobre pena de morte que me pôs a pensar: "Os últimos passos de um homem", de 1995, com Sean Penn e Susan Sarandon, com direção de Tim Robbins. No enredo, porém, não nos é apresentado um condenado no corredor da morte que pareça ser inocente. Desde o início, sabemos que ele teve alguma participação no assassinato brutal de um casal de jovens namorados.

O filme é muito bom e mostra o sofrimento de todas as vítimas da violência - a violência humana. Sofrem todos: as vítimas, a família das vítimas, a família do acusado, o acusado...

Como esse tema é difícil!

Ao longo de minha existência, já variei entre ser favorável à pena de morte e ser contrário a ela.

A opinião das pessoas ou dos governos, em geral, é bastante influenciada por eventos pontuais que acabam exponenciando decisões no calor dos acontecimentos.

Uma pessoa humana lesada por outra tem o direito de lhe tirar a vida?

Uma pessoa jurídica como o Estado pode matar alguém para puni-lo por crimes cometidos?

Tempos atrás, escrevi um artigo me posicionando contrário à pena de morte (em 6.11.2006 no antigo blog A Categoria Bancária no provedor UOL, que deletou meu blog sem minha anuência). 

Dizia no artigo que não achava correto o Estado tirar a vida das pessoas. Mas refletindo um pouco acerca do mérito que pensei para o artigo - o fato da pena capital não ser reversível em caso de erro no julgamento do acusado, pois havia assistido ao excelente filme "A vida de David Gale", lançado em 2003 - acabo concluindo que o fato em si de se matar humanos legalmente não foi por mim repudiado.

Quando me posicionei na época, vi pouco depois uma cena que me deixara chocado: a execução do ditador iraquiano Saddan Hussein, que foi enforcado às pressas em 30.12.2006 por ordem dos EUA de George W. Bush.

A história do personagem David Gale, inclusive, acabou por balizar minha opinião sobre o "reparo impossível do equívoco possível".

Fiquei pensando em outros casos sobre penas de morte oficiais ou não-oficiais. Filmes como "Abril Despedaçado", lançado em 2001 e que trata da tradição local de "olho por olho, dente por dente"; textos maravilhosos como o julgamento de Sócrates, em Platão; julgamentos como o do homem chamado Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus...

Não é fácil decidir sobre o tema, não é fácil.


William Mendes

sábado, 1 de novembro de 2008

11'9"01 September 11 - Curta n.10 de Sean Penn



Imagem de divulgação do Wikipedia.

Esse curta-metragem de Sean Penn foi indicado certa vez por um companheiro de trabalho na Contraf-CUT, Nicolau, que trabalhou comigo quando eu era secretário de imprensa (2006/09). Estávamos falando no quanto o ator e diretor é figura destacada na sétima arte.

Comentávamos sobre "Uma lição de Amor" (I am Sam - 2001), sobre "Na natureza selvagem" (Into the Wild - 2007) etc.

Por sinal, Na Natureza Selvagem, dirigido por ele, me enche os olhos d'água só de lembrar.

Foi quando apareceu a sugestão deste curta, que faz parte de uma série sobre o 11 de setembro, lançada em 2002.

AMIGOS LEITORES: É FANTÁSTICO!!

Boa curtição!

Para saber mais a respeito do documentário completo dos 11 curtas sobre o 11 de setembro, vejam os detalhes na Wikipedia:




Post Scriptum:

Só encontrei o curta em língua italiana. Mas vale muito a pena assisti-lo e se emocionar.