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sábado, 12 de outubro de 2019

Sobre as vanguardas latino-americanas - Alfredo Bosi



Professor Alfredo Bosi. Foto: ABL.

Refeição Cultural

Este texto do Professor Alfredo Bosi é a "Introdução" ao livro "Vanguardas Latino-Americanas - Polêmicas, Manifestos e Textos Críticos", de Jorge Schwartz, publicado em 1995 pela Edusp. Bosi apresenta de forma clara o quanto foram amplos, diversos e de difícil organização de pontos comuns os movimentos de vanguardas latino-americanas na primeira metade do século XX.

Estou estudando as vanguardas em uma disciplina do curso de graduação em Letras na Universidade de São Paulo e a reprodução de partes do texto do professor Bosi tem o intuito de compartilhar conhecimento e educação de forma gratuita e como referência para outros estudos e novos conhecimentos a partir daí.

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A Parábola das Vanguardas Latino-Americanas

Bosi inicia a introdução ao livro, destacando o trabalho fantástico desenvolvido pelo crítico argentino-brasileiro e professor de Literatura Hispano-Americana Jorge Schwartz.

Depois começa a dissertar a respeito das vanguardas em si.

"Consideradas por um olhar puramente sincrônico, isto é, vistas como um sistema cultural definido no espaço e no tempo, as nossas vanguardas literárias não sugerem outra forma se não a de um mosaico de paradoxos. Causa embaraço ao seu historiador atual qualquer tentativa de exposição sintética desses movimentos, pois a busca de traços comuns esbarra a cada passo em posições e juízos contrastantes. O leitor de hoje, se interessado em detectar o caráter dessa vanguarda continental, o quid capaz de distingui-la de sua congênere europeia, colhe os defeitos de tendências opostas e, muitas vezes, repuxadas para seus extremos: as nossas vanguardas conheceram demasias de imitação e demasias de originalidade.

Quem insiste em proceder ao corte sincrônico terá que registrar, às vezes no mesmo grupo e na mesma revista, manifestos em que se exibe o moderno cosmopolita (até à fronteira do modernoso e do modernóide com toda a sua babel de signos tomados a um cenário técnico recém-importado) ao lado de exigências convictas da própria identidade nacional, ou mesmo étnica, misturadas com acusações ao imperialismo que desde sempre massacrou os povos da América Latina.

Assim, no interior da mesma corrente, como por exemplo entre os modernistas brasileiros da fase mais combativa (de 22 a 30, aproximadamente), valores estetizantes mais protestos nacionalistas pedirão a sua vez impondo-se à atenção do pesquisador que se queira analítico e isento de preconceitos. A esse historiador caberá por fim adotar a linguagem resvalante das conjunções aditivas que somam frases semanticamente disparatadas embora sintaticamente miscíveis: 'o modernismo foi cosmopolita e nacionalista'; 'as vanguardas buscaram inspiração nos ismos parisienses bem como nos mitos indígenas e nos ritos afro-antilhanos', ou ainda, 'a arte latino-americana de 20 foi não só absolutamente pura como também radicalmente engajada'...

Essa leitura estática tenderia a cair por si mesma sob o peso das antinomias que pretendesse agregar. As vanguardas não tiveram a natureza compacta de um cristal de rocha, nem formaram um sistema coeso no qual cada face refletisse a estrutura uniforme do conjunto. As vanguardas devem ser contempladas no fluxo do tempo como o vetor de uma parábola que atravessa pontos ou momentos distintos."

Mas uma visão que persiga modos e ritmos diferentes não deverá, por sua vez, camuflar a imagem de uma outra unidade, sofrida e necessariamente contraditória: a unidade do processo social amplo em que se gestaram as nossas vanguardas. As diferenças entre movimento a e movimento b, ou entre posições do mesmo movimento, só são plenamente inteligíveis quando se consegue aclarar por dentro o sentido da condição colonial, esse tempo histórico de longa duração no qual convivem e conflitam, por força estrutural, o prestígio dos modelos metropolitanos e a procura tacteante de uma identidade originária e original.

Nos escritores mais vigorosos que por sua complexidade interior se liberam mais depressa das palavras de ordem, é a busca de uma expressão ao mesmo tempo universal e pessoal que vai guiar as suas poéticas e as suas conquistas estéticas. As passagens, as mudanças aparentemente bruscas que se observam, por exemplo, em Mário de Andrade e em Borges, conheceram motivações de gosto e ideologia mais profundas do que o pêndulo das modas vanguardeiras. No entanto, como nada acontece fora da história (totalizante: pública e íntima), também as opções decisivas desses artistas tão diferenciados se inscrevem naquela dialética de reprodução do outro e auto-sondagem que move toda cultura colonial ou dependente.

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Sigo depois com o texto do Professor Bosi. Ele é muito esclarecedor para leitores amadores como nós.

É isso. Sigamos aprendendo algo novo, já que estamos vivos.

domingo, 20 de setembro de 2015

Diário - 200915



Às vezes, há caminhos. Às vezes, não há caminhos...
E mesmo assim, caminhamos!

Refeição Cultural


PRA ONDE CAMINHAMOS?

Domingo acabando.

Gostaria que amanhã fosse domingo para descansar um pouco mais.

Neste fim de semana, li um artigo muito bom de Slavoj Zizek sobre o capitalismo global, a questão dos refugiados africanos, dos países árabes e asiáticos e os portões fechados nos países da Europa para eles.

Hoje li um capítulo do livro de Alfredo Bosi, Ideologia e Contraideologia. O capítulo abordou as formas de ver o nascimento, crescimento e morte de nações, com os filósofos Condorcet, Vico e Hegel. Visões da história humana de forma mais linear, num avanço permanente; com avanços e retrocessos, voltando às barbáries ancestrais; e de forma espiral, voltando ao passado, mas com saltos para outras etapas.

Comecei a postar no Blog uma síntese do capítulo como fazia antigamente, mas o dia acabou e abortei a postagem. Não dá mais para fazer isso. Infelizmente.

Hoje corri um pouco e assisti também ao programa Planeta Terra, que sempre me põe a pensar muito sobre o mundo e os seres humanos. Depois vi outro programa sobre a origem do planeta Terra e da vida no planeta.

O sistema capitalista e os rumos que a humanidade está tomando com o esvaziamento dos valores humanos de amor, amizade, fraternidade, solidariedade e mais respeito com as diferenças, além do consumo dos recursos do Planeta, muito maior do que o necessário por causa do modelo de produção capitalista, está nos levando a uma rota perigosa de extermínio dos seres humanos e da natureza como a conhecemos.

É o que eu penso.

Vamos para mais uma semana representando nosso papel nesse planeta extenuado pelo uso inapropriado por parte dos humanos.

William Mendes

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Ideologia - As razões de ser das leis e dos discursos




"Toda lei, toda constituição e todo discurso político têm, para Montesquieu, a sua razão de ser. As instituições não nascem nem se mantêm por acaso, fora do seu tempo e lugar, sem que os costumes de um povo ou de um grupo social as produzam e reproduzam." (Alfredo Bosi, in Ideologia e Contraideologia)

COMENTÁRIO

A corrosão do caráter e a degeneração da ética e dos princípios na vida cotidiana e em todos os espaços de sociabilidade no Brasil e no mundo atual têm uma razão de ser e não são por acaso. É evidentemente uma questão ideológica.

Vivemos no mundo da internet e das redes sociais e quem domina estas ferramentas de formação ideológica, domina a mente e o pensamento dos humanos atuais... 

Sem uma reação impactante e contraideológica do pequeno segmento humano progressista e humanista, nós todos estaremos fodidos com mais alguns ciclos lunares.

William

domingo, 12 de abril de 2015

Diário - 120415 (O valor das ideias)





Refeição Cultural

O valor das ideias



Fechando mais um fim de semana. Escrever é uma necessidade. Eu quis ser professor, escritor, intelectual, filósofo, historiador e acabei não sendo nada disso. As veredas de meu sertão me levaram para onde estou.

Este espaço virtual que criei faz alguns anos é importante para mim porque além de escrever e partilhar o que penso ou o que aprendi com meus estudos vários, me obriga a manter o cérebro e meus pensamentos em funcionamento.


UM DOMINGO ENSOLARADO

O dia em Brasília, Capital do Brasil, foi de Sol. Ao acordar, abri a janela e fiquei vendo e ouvindo os pássaros nas árvores. As leituras e o filme que vi na noite anterior ficaram em minha cabeça.

Embalei uma boa sequência de páginas na obra de Victor Hugo, "Os miseráveis". Mas estou no começo e sei que a história se repetirá com a leitura: não vou terminá-la por prioridades no trabalho.

Busquei pães. Tomamos café. Acabei contaminando meu domingo vendo um pouco na internet do efeito melancólico da lavagem cerebral capitaneada pela direita brasileira, manipulando parte do povo em prol de golpismos e reacionarismos contrários aos avanços conquistados por esse mesmo povo com os governos do Partido dos Trabalhadores nos anos recentes.

Almoçamos. Assisti Planeta Terra e corri à noite. O programa mostrou a maravilha das regiões inóspitas do Canadá Setentrional. Esses programas me põem a pensar muito!


CORRIDA: MESCLA DE PRAZER E OBSTINAÇÃO

Senti um cansaço físico grande neste fim de semana. Eu tenho uma leitura do porquê. É um misto do esforço que fiz na corrida de quinta-feira com a insistência de investir energia em estudos e coisas do intelecto.

Na quinta-feira, cheguei tarde da noite de meu trabalho na Cassi e fui cumprir minha meta de treinamento. Fiz uma corrida muito prazerosa porque corri contra o relógio e diminui mais um minuto no percurso de 5 km. Parece fácil, mas não é.

Eu insisto em querer ler com intenção de estudar e acabo esgotando mais minhas energias, ao invés de descansar nos finais de semana - haja vista que meu trabalho à frente da gestão na Caixa de Assistência me exige uma energia sobre-humana, tanto nas lutas e raivas que passamos, quanto nos estudos e leituras com cargas diárias de mais de 14 horas.

Resultado: procrastinei para correr no fim de semana até à noite deste domingo. Saí e corri 6 km, num trote lento e meu corpo estava numa leseira só. Haja obstinação para completar o percurso em 40 minutos. 

Mas é isso, senti um prazer imenso na quinta e cumpri meu compromisso comigo mesmo hoje.


O VALOR DAS IDEIAS

Os dois livros que estou lendo e o filme que assisti têm relação e lidam com a questão da importância das ideias e a influência delas nas sociedades.

Na parte que li ontem do livro Ideologia e Contraideologia, saí melhor após um conceito aprendido ali. 

Quando alguns pensadores do passado se posicionaram e escreveram suas teses, defendendo posições ideológicas em prol dos status quo estabelecidos ou contrários a eles, o fizeram com muita técnica, oratória, interesses pessoais e coletivos; o fizeram com paixão, e certamente tiveram boas e más defesas de "suas" teses. As aspas é porque alguns deles defendiam as teses da classe dominante, eram ideólogos dessa classe.

Alguns filósofos e pensadores foram defensores de modelos de sociedades com poder central, monárquico, divino. Outros defenderam administrações a partir de coletividades, o povo ou parte do povo; diretamente ou por representação.


ESTADO NATURAL - SOCIEDADE CIVIL

Uma das coisas que achei interessante foi a mudança construída por nós humanos ao decidirmos sair do Estado Natural (de natureza) para o Estado Civil. O Contrato Social de Rousseau aborda isso. O Leviatã, de Thomas Hobbes também.

O percurso das sociedades ocidentais entre os séculos XV e XXI tem uma relação profunda com a história do pensamento e das ideologias e contraideologias pró-governantes no poder e contra governantes no poder.

O filme V de Vingança também aborda a questão do valor das ideias - se matam homens, mas não se matam ideias. 

A história se passa numa Inglaterra do futuro (2020), uma sociedade distópica, com um governo totalitário, que usa dos veículos de comunicação para manipular o povo, e que vai enfrentar através de um homem a volta dos ideais de quatro séculos antes de libertar o povo da tirania do governo, evento conhecido como "Conspiração da Pólvora", ocorrido em 1605, e que teve como mártir Guy Fawkes.

A parte da leitura de "Os miseráveis", de Victor Hugo, está apresentando o Bispo de Digne e seus fortes ideais de bondade absoluta, dedicação aos pobres e a Deus.


COMENTÁRIO FINAL

De minhas reflexões neste fim de semana, e mediante tudo o que tenho vivido e que vou viver no próximo período como gestor da Caixa de Assistência, eleito e representante dos trabalhadores, fica a certeza de que eu não vou desviar de minhas ideias, meus ideais, meus compromissos assumidos com os associados e com as entidades associativas que me colocaram nesta tarefa e que me apoiaram.

Eu acredito no valor das ideias. Minhas ideias são contra hegemônicas (são contraideológicas). Mas eu luto pelo que acredito ser o melhor para os trabalhadores que represento.

William

domingo, 5 de abril de 2015

Diário - 050415


Vale ou não vale a pena correr embaixo de
 uma floresta como essa?

Domingo à noite.

Acabou o feriado de Páscoa. Estive em Brasília nestes dias.

Hoje tomei chuva duas vezes. A primeira quando fui comprar pão pela manhã. Assim que saí de casa e andei uns 50 metros, tibum! Chuva forte me ensopou. Relaxei e fui fazer o que tinha que fazer. Aqui em Brasília a chuva é assim, de repente.

À tarde, saí para correr. Minha meta hoje era um longão. No meio da corrida, tibum! Uma chuvona da hora. Segui correndo até completar o percurso mentalizado - 8 km, que fiz em 51'. Fiz um percurso entre as alamedas perto de casa embaixo de muito verde. 


Curicaca comum como as que vi hoje.
Foto de Flávio Brandão (internet)

Um casal de pássaros que nunca tinha visto me chamou a atenção durante as quatro voltas. Pesquisando depois, soube que se tratava de curicacas comuns. Já tinha curtido muito as revoadas de maritacas pela manhã. Mas as curicacas comuns foram meu deslumbramento do domingo.

A corrida é uma coisa interessante. Sabe quando você está com o diabinho no cérebro falando "não corre não" ou "pra que fazer o percurso todo... já tá bom!".

Na hora que começou a chover, o bichinho ficou assim na minha orelha. Mas a pessoa que sou e que estou diariamente alimentando, não desiste de nada e não tem espaço para preguiças ou coisas do gênero.

Completei e depois a sensação é de um prazer tão grande que só quem não desiste das coisas sabe o que é isso.

Li um pouco de Alfredo Bosi e seus profundos ensinamentos sobre ideologia e contraideologia. Vivo as consequências dessa coisa de gente sendo influenciada e defendendo os interesses dos outros, que não são os de si próprios enquanto classe trabalhadora. Vivo isso o tempo inteiro!

Ao fim da tarde, assisti ao programa Planeta Terra, na TV Cultura. Foi sobre caranguejos aranha gigantes na Austrália. Eu tenho uma formação pessoal cuja forma de ver o mundo tem muita relação com a percepção do mundo animal.

SOBREVIVÊNCIA DAS ESPÉCIES TEM MELHOR PERSPECTIVA COM APOIO MÚTUO - UNIÃO GARANTE PERPETUAÇÃO DA ESPÉCIE

Quando reflito a respeito de nós, mamíferos humanos, sempre relaciono com o restante da fauna animal no planeta Terra.


Os caranguejos gigantes da Austrália se reúnem uma vez por ano nas áreas mais rasas e próximas ao litoral, no dia da lua cheia porque as ondas mais fortes serão fundamentais para o processo que vão passar de troca das cascas.

Eles se encontram às dezenas de milhares, cobrindo o fundo do mar, para poderem trocar suas cascas e perpetuarem sua espécie, porque durante uma hora eles ficam frágeis e são refeição de um sem número de predadores. Mas por uma questão de volume, se aglomeram e cumprem sua função vital e depois voltam às suas vidas por mais um ano.

Será que é tão difícil o ser humano conseguir se ver como uma espécie animal e entender que o que nos mantém, assim como a história da vida no planeta, é o trabalho em coletivo e pelo bem comum?

O ser humano se achar como o suprassumo do poder e da independência enquanto mamífero é de uma burrice e estupidez dantesca! Basta um resfriado, uma caganeira, um mosquito Aedes Aegypti para o ser humano ver como que sozinho ele não é nada!

Mas vai falar isso para os super ultra liberais que acham que o mundo gira ao redor deles...

Vamos para mais uma semana de luta em prol da nossa Cassi e por um mundo mais justo e solidário porque eu e todos nós somos animais e precisamos uns dos outros em nossa espécie.

William Mendes

Ideologia e Contraideologia - Rousseau





Alguns excertos interessantes no capítulo que aborda Rousseau

"Do homem natural ao pacto social"


"Rousseau começa a desenvolver a tese que lhe será sempre cara: a humanidade piorou à medida que a civilização foi produzindo e reproduzindo as condições de desigualdade econômica e política que, em proporções diversas, continuam vigorando em todas as sociedades".

"Em 1753 a mesma Academia lançou novo concurso, cujo tema era a pergunta: 'Qual é a origem da desigualdade das condições entre os homens? Ela é autorizada pela lei natural?'. A resposta de Rousseau está no Discurso sobre a origem da desigualdade, que não obteve o prêmio, mas, publicado em 1755, pode ser considerado o texto-matriz do pensamento democrático radical que irá inspirar os revolucionários de 1789...".

"O pensamento de Rousseau é movido por uma paixão polêmica: acusar os males da sociedade francesa, que, por sua vez, eram justificados por uma ideologia iníqua, fundamentalmente o estilo de pensar do Antigo Regime, que cristalizava os estamentos, divinizava o poder monárquico e se mostrava indiferente à distância entre o luxo dos ricos e as carências dos pobres. Contra esse estado de violenta assimetria, mascarado pelo brilho de uma civilização refinada, o pensador esboça o quadro de uma sociabilidade ideal que ama a liberdade, a igualdade e a simplicidade dos costumes.

Percorrer a obra de Rousseau é acompanhar o processo de um homem contra uma sociedade, cujos modos de pensar contrariam tanto a imagem do homem natural como o ideal do cidadão virtuoso, que só consegue viver livre e feliz na vigência plena do pacto social..."


"O sistema político dominante nos meados do século XVIII francês é hierárquico. Os estamentos ou estados (État, termo usado desde o século XIII para designar a nobreza, o clero e o povo, o qual incluía burgueses, artífices e camponeses) eram desiguais no que tocava aos bens materiais, aos privilégios e às regalias concedidas pelo tesouro real. A desigualdade é o alvo central do Contrato Social (1762)..."


DESIGUALDADE COMO TRANSGRESSÃO ÀS LEIS NATURAIS

"No Discurso sobre a desigualdade, a existência de classes opostas é vista como transgressão das leis naturais, o que parece ser uma leitura democrática em polêmica com inflexões aristocráticas do jusnaturalismo de Grotius: 'É manifestamente contra a Lei de Natureza, seja qual for a maneira como se defina, que uma criança comande um ancião, que um imbecil conduza um homem sábio, e que um punhado de gente transborde de objetos supérfluos, ao passo que falte o necessário à multidão faminta..."


ORIGEM DAS DESIGUALDADES E ASSIMETRIAS POLÍTICAS ESTÁ NA INVENÇÃO DA PROPRIEDADE PRIVADA

"Em outra passagem, conceitualmente mais densa, Rousseau estabelece firmes conexões entre as assimetrias políticas e a desigualdade socioeconômica:

              'Se nós seguirmos a progressão da desigualdade nessas diferentes revoluções, constataremos que o estabelecimento da Lei e do Direito de propriedade foi seu primeiro termo; a instituição da Magistratura, o segundo; que o terceiro e último foi a mudança de poder legislativo em poder arbitrário; de sorte que o estado de rico e de pobre foi autorizado pela primeira época, o de poderoso e de fraco pela segunda, e pela terceira o de Senhor e de Escravo, que é o último grau da desigualdade, e o termo no qual desembocam todos os outros, até que novas revoluções dissolvam completamente o governo, ou o aproximem da instituição legítima'.


A PROPRIEDADE PRIVADA NÃO É UM DIREITO PRIMITIVO, NÃO É ESTADO DE NATUREZA

"A propriedade privada não seria, portanto, um direito primitivo, inerente ao estado de natureza, mas uma instituição tardia, uma 'impostura' que acabaria sendo, por necessidade, legitimada pela 'sociedade civil' com todo o seu cortejo de desigualdades. Provavelmente nenhuma outra denúncia da ideologia liberal burguesa terá sido lançada, antes do Manifesto Comunista, de Marx e Engels, com a mesma veemência dessa diatribe do segundo Discurso".


COMENTÁRIO

Da leitura, tiro proveito em fortalecer o que tenho definido como ideologia e os porquês de minhas posições no palco social.

Sou contrário à naturalização da desigualdade social, política e econômica. Tenho claro que fatores ideológicos e ferramentas fortíssimas de manipulação colocam nosso povo defendendo os interesses dos capitalistas. Essa manipulação atinge inclusive os componentes de nossa classe social - os trabalhadores e até nossos familiares.


LEI NÃO SE DISCUTE? E ESCRAVIDÃO?

Outra coisa que sempre tive opinião clara e que a mantenho até hoje: eu não concordo com as posições que afirmam que "lei não se discute, se cumpre". Há leis iníquas, feitas em contextos contrários à classe trabalhadora a qual pertenço e não acho que leis assim devem ser cumpridas.

Quer um exemplo: a lei da propriedade de um ser humano sobre outro (escravidão).


PL 4330 DA TERCEIRIZAÇÃO TOTAL

Quer outro exemplo: se esse congresso brasileiro da legislatura 2015/18, a mais direitosa e contrária aos trabalhadores em décadas, aprovar a terceirização total que vai ser colocada em pauta nessas semanas, sou favorável a uma completa rebelião da classe trabalhadora brasileira contra os patronatos e seus lacaios no Congresso Nacional. É a minha opinião e tenho o direito de expressá-la aqui.

É isso! Acabou o fim de feriado de Páscoa e o meu direito aos estudos e às leituras.

(Isso acaba comigo, mas sigo cumprindo meu papel social enquanto for preciso)


Bibliografia:

BOSI, Alfredo. Ideologia e Contraideologia. Companhia das Letras. 2010.

sábado, 4 de abril de 2015

Leitura: Ideologia e Contraideologia





Excertos interessantes

"O mais difícil é redescobrir sempre o que já se sabe" (Elias Canetti, A província do homem)


Hipóteses semânticas para Ideologia:

"Trata-se de ideia de condição. A ideologia é sempre modo de pensamento condicionado, logo relativo".

"Os homens erram, ou porque se enganam, ou porque distorcem a verdade por força dos seus interesses: este é o sumo das críticas que Platão faz à versatilidade dos sofistas, primeiros profissionais da retórica e do mercado ideológico que a história da filosofia registra".

"Para os sofistas, o discurso tem apenas valor instrumental, pois tudo pode ser provado ou contestado, conforme os desejos do cliente".


A RENASCENÇA ENTRE A CRÍTICA E A UTOPIA

"A crítica sistemática da ligação entre discurso e poder adquire plena evidência na Idade Moderna, sobretudo a partir da luta que a cultura renascentista empreende contra a força da tradição eclesiástica e contra os preconceituosos da nobreza e da monarquia por direito divino".

"A ruptura de um grupo intelectual ou de um movimento político com o estilo de pensar dominante abre neste a ferida do dissenso. Um pensamento de oposição traz consigo o momento da negatividade, contesta a autoridade, tida por natural, do poder estabelecido, acusa as suas incoerências e, muitas vezes, assume estrategicamente o olhar de um outro capaz de erodir a pseudovalidade do discurso corrente. Os períodos de crise cultural engendram a suspeita de que pode não ser verdadeiro ou justo o sistema de valores que "toda gente" admire sem maiores dúvidas".

Citando Montaigne (Ensaios): "Cada um de nós chama barbárie aquilo que não é de seus hábitos".

E Ainda: "É também um homem que procura discernir o mal que o fanatismo estava causando a seus contemporâneos, é um pensador para quem a tolerância e a benevolência devem presidir às relações entre os homens, não importa se europeus ou ameríndios, cristãos ou pagãos, ortodoxos ou dissidentes".


OS ROBIN WOODS DOS SÉCULOS XV E XVI E O PL 4330 NO BRASIL DE 2015

Aqui é citado Horkheimer comentando a obra clássica de Thomas Morus (Utopia) e eu não resisti em comparar aquela situação com a possibilidade idêntica para os trabalhadores brasileiros no caso de o Congresso Nacional aprovar o projeto da terceirização total neste abril de 2015:

"(...) as grandes utopias do Renascimento são a expressão das camadas desesperadas, que tiveram de suportar o caos da transição entre duas formas econômicas distintas. A história da Inglaterra nos séculos XV e XVI fala-nos dos pequenos camponeses que foram expulsos por seus senhores das casas e terras que habitavam, ao transformar todas aquelas comunidades rurais em pastos de ovelhas para prover com lã as fábricas do Brabante de forma lucrativa. Esses camponeses famintos tiveram de organizar-se em bandos saqueadores, e seu destino foi terrível. Os governos mataram muitíssimos deles e grande parte dos sobreviventes foi obrigada a entrar nas fábricas nascentes em incríveis condições de trabalho. E é precisamente nessas camadas que aparece em sua forma inicial o proletariado moderno; já não eram escravos, mas tampouco tinham possibilidade de ganhar a vida por si próprios. A situação desses homens proporcionou o argumento para a primeira grande utopia dos tempos modernos, dando, por sua vez, nome a todas as posteriores: a Utopia de Thomas Morus (1516), que, depois de entrar em conflito com o rei, foi executado no cárcere".


COMENTÁRIO

Dá para perceber a profundidade do tema ao ver o início da obra do professor Alfredo Bosi ao percorrer seis séculos de história do pensamento ocidental.

Me excitou a lembrança do papel dos sofistas, os profissionais da retórica e da lábia... tão atual!

Também é muito oportuna a questão dos valores de "toda gente". Ainda mais quando o senso comum é usado em períodos de crises culturais ou morais.

Poucas páginas me fazem ter a certeza de que é preciso não aceitar facilmente ir ao sabor das correntes hegemônicas em tempos como os que vivemos.

Quer ver uma coisa que acho horrível, deprimente, já que esta postagem é feita em um Sábado de Aleluia: a chamada "malhação do Judas".

Francamente! O que é a "malhação do Judas"? É a simbologia do linchamento. Isso para mim é a barbárie! Como eu poderia ser favorável ao linchamento de uma pessoa qualquer pelo populacho? Agora, vai discutir isso com o povo...


Bibliografia:

BOSI, Alfredo. Ideologia e Contraideologia. Companhia das Letras. 2010.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Entrevista: Ideologia e Contraideologia - Alfredo Bosi


Apresentação do texto:

Eu criei este blog com o intuito de ele ser um espaço de reflexão sobre literatura e história e, sobretudo, estudos universitários na área das Letras. Depois sua utilidade foi sendo ampliada, abrangendo comentários sobre filmes, política e demais questões da sociabilidade humana.

Gosto de arquivar aqui textos que li e gostei, sempre citando a fonte. Também publico excertos de livros que venho lendo nos últimos tempos. 

O blog já ajudou várias pessoas ao longo desses anos, pois algumas delas já me agradeceram por isso. As pessoas foram buscar informações na Rede Mundial de Computadores (internet) e caíram aqui.

Dentro deste espírito de divulgação e arquivo de bons textos e boas informações, segue abaixo a entrevista do professor Alfredo Bosi, concedida à revista CartaCapital na edição 598, de 2 de junho de 2010.

É uma bela aula de saber que fala sobre Ideologia, Contraideologia, o PT dos primeiros anos, o Partido Comunista Italiano, Machado de Assis, Celso Furtado e demais autores que sempre contestaram o status quo. Também tem outras curiosidades contadas por Bosi e que estão em seu livro.

Os sublinhados no texto foram destacados pelo blog.

Boa leitura, William Mendes


Alfredo Borges.
Foto: Rede Brasil Atual.

Entrevista - Alfredo Bosi

Revista CartaCapital - 02/06/2010


PRECES DE RESISTÊNCIA

O pensador lança livro em que traça uma história dos interesses particulares apresentados como gerais e diz que o populismo foi mal necessário no Brasil 

A ampla casa de Cotia onde mora o professor emérito da Universidade de São Paulo Alfredo Bosi assistiu a momentos cruciais da história brasileira. No final dos anos 70, por exemplo, o terraço da casa abrigou reuniões fraternas com padres de esquerda, sindicalistas e intelectuais que resultariam na criação do Partido dos Trabalhadores. Desde algum tempo, portanto, o autor de Ideologia e Contraideologia (Companhia das Letras, 448 págs., R$ 58) dedica-se, como o partido em seu início, a contestar o status quo.

A nova obra de Alfredo Bosi surge como um dos mais importantes estudos sobre o combate à dominância ideológica. Para realizá-lo, o historiador descreve seis séculos de história do pensamento. Analisa, entre outras, as obras de Francis Bacon, Montesquieu, Condorcet, Hegel, Simone Weil, Antonio Gramsci, Celso Furtado, Joaquim Nabuco e Machado de Assis. Bosi os vê como opositores às ideias que construíram a escravidão, a pobreza, a incultura, o stalinismo, a estupidez. Com elegância e síntese, o professor demonstra nas entrelinhas do livro os mecanismos de sua própria resistência intelectual.

É paciente e metódica a fala desse paulistano de 73 anos que, durante entrevista de duas horas a CartaCapital, por vezes fecha os olhos na direção do interlocutor, como se meditasse ou orasse junto a ele, à procura dos termos exatos que definiriam um pensamento. Quando a frase certa lhe surge entre os retratos familiares distribuídos pela sala, especialmente os de sua mulher, a renomada pesquisadora Eclea, seus olhos se abrem e ele eventualmente sorri.


CartaCapital: Que estudos motivaram este livro? Como ele lhe surgiu?

Alfredo Bosi: O tema da ideologia e da contraideologia já aparece de outras maneiras na minha História Concisa da Literatura Brasileira, de 1970. Durante a ditadura, eu estava motivado pela ideia de que a nossa tinha sido uma cultura oprimida desde a colonização. Ao longo de 400 anos de história, eu encontraria exemplos de narrativas resistentes ao lado daquelas conformistas. Não foi difícil achar, às vezes em um mesmo texto, ambas as posições. Ao estudar os anos 30, época de ouro do romance brasileiro, verifiquei graus de tensão diferentes entre o autor e seu universo. Nos momentos de acomodação, detectei algo que denominei tensão mínima. No outro extremo, havia narrativas conflituosas, de tensão máxima, como as de Graciliano Ramos. Percebi, concomitantemente, momentos de conformismo, de reprodução da ideologia dominante, e de resposta negativa, de interrogação. A monumental História da Literatura Ocidental de Otto Maria Carpeaux me ensinou a ver assim. Por sua formação dialética na Alemanha pré-nazista, Carpeaux tinha sensibilidade para as diferenças internas dos períodos. Um segundo momento de gênese da minha pesquisa foi aquele em que escrevi O Ser e o Tempo da Poesia, em meados dos anos 70. Ainda havia ditadura. Consagro o capítulo Poesia e Resistência às formas de resistência que a poesia, sobretudo a lírica, desenvolveu. Quando os ensaios marxistas voltaram à baila, a partir dos anos 80, favoreceram a eclosão dos trabalhos sobre ideologia, contraideologia e utopia na literatura. Meu livro se situa nessa trajetória e tem motivações na realidade nacional.


CC: Que distinção o senhor faz entre ideologia e contraideologia?

AB: Ambas se articulam como um conjunto de ideias e valores. A diferença é que a ideologia generaliza interesses particulares e os dá como se fossem universais. Por exemplo, a ideologia da competitividade corresponde à luta econômica que a burguesia trava nos meios do poder financeiro e industrial. Mas os ideólogos do capitalista procuram demonstrar que a competição é uma necessidade universal, até fundada na biologia, em Darwin. Para convencer os seus destinatários retoricamente, já que se trata de uma arte de persuadir, os ideólogos criam um discurso justificador universal para esconder seus interesses. Os editoriais dos grandes jornais e das revistas de grandíssimas tiragens são peças ideológicas perfeitas. No caso da contraideologia, a intenção é o bem comum. O escritor contraideológico, que combate a ideologia da competitividade, por exemplo, procura demonstrar que ao lado do que seria o instinto competitivo existe uma tendência solidária. O discurso contraídeológico visa ao bem-comum, não particulariza interesses.


CC: O título de seu livro exclui a designação utopia. Esta é uma palavra condenada?

AB: A origem do termo, significando o não lugar, remete a um ideal extremo, que seria o oposto do lugar onde estamos. É uma forma extremada de contraideologia. Mas a contraideologia, tal como a concebo, pode ter aspectos reformistas. O economista Celso Furtado, por exemplo, tinha propostas reformistas sólidas. Defendia a reforma agrária, a intervenção do Estado na economia. Ele estudava as coisas da maneira como estavam e procurava remover as causas a médio prazo. Falava em repartição de rendas, em imposto progressivo, algo que se realizou nos países escandinavos. O pensamento reformista é também o do historiador e político Joaquim Nabuco, que mesmo dentro do liberalismo percebia a insuficiência daquele modelo e lutava contra a escravidão. Seu liberalismo já propunha leis de reforma agrária no século XIX. Nabuco pensava ser possível a união pelas leis sociais. Essas leis vieram ao Brasil somente depois da Revolução de 30, com Lindolfo Collor, um grande homem sem qualquer relação com seu desastrado neto. Como ministro do Trabalho, percebeu ser preciso outorgar leis trabalhistas como as europeias. Essas leis foram contrastadas pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a Fiesp, que não queria a implantação do salário mínimo em 1934. A contraideologia crítica, que muitas vezes nos parece pouca coisa, requer luta.


CC: Onde estariam as mentes contraideológicas reformistas na atualidade brasileira?

AB: Aqui seria preciso fazer uma análise minuciosa das iniciativas do governo nos últimos oito anos, até antes, para verificar se esta cunha contraideológica está não apenas na universidade, se ela penetrou na mentalidade de alas políticas. Conhecemos as interessantes iniciativas do governo Lula como o Bolsa Família. Agora, o Estado contempla o doador do trabalho, aquece a economia pela via do consumidor popular. Esta é uma ideia reformista, crítica da posição contrária, que contempla o empresário, o banqueiro. Não sou economista, mas vejo como as coisas estão acontecendo. E espero que continuem acontecendo.


CC: O senhor vê uma ação contraideológica do pensador Antonio Gramsci em relação ao partido que ele ajudou a fundar, o Partido Comunista Italiano?

AB: Gramsci entra em meu livro na sua aproximação com a socialista francesa Simone Weil. Ela defendia que o operário tivesse cultura para reivindicar não só melhor salário, mas outro estilo de vida e participação política. Ela era informada sobre o comunismo russo de 1933, por isso acreditava que o país não faria uma revolução do operariado, mas à custa dele. Gramsci não a conheceu, embora já dissesse que todo homem era um intelectual. Mostro, no livro, as semelhanças de seu projeto com o de Weil. Ela seria mais radical, quase utópica, ao passo que ele tinha os pés no chão. Fez a universidade popular de Turim e dava aulas para operários.


CC: Gramsci era um herético marxista?

AB: Ele ia além do marxismo. Achava que a militância, o proselitismo político, não deveria se dissociar da formação cultural operária. Outra ideia dele era que a educação não fosse muito especializada em seu início. Receava que, atuando como especialista na fábrica muito cedo, o jovem não tivesse a chance de dialogar com outras pessoas em termos de cultura. A ideia de uma formação anterior à especialização técnica é uma conquista de Gramsci. Ele contrariava a ideia capitalista de que a divisão do trabalho deveria ser feita de forma absoluta.


CC: O senhor vê o Partido Comunista Italiano e o Partido dos Trabalhadores heréticos no seu início?

AB: No caso do PCI, havia a crença de que a Revolução Russa, de 1917, seria o modelo da revolução operária. Os primeiros anos do partido, fundado em 1921, foram ortodoxos. Somente quando o stalinismo se intensificou, nos anos 30, percebeu-se que o caminho escolhido na Rússia tinha sido o da ditadura do partido. A formação do PT, que eu segui de perto, foi muito estimulante no final dos anos 70. Eu estava ligado à Pastoral Operária, próxima da esquerda católica. Trabalhei em Osasco inspirado no padre francês Domingos Barbé, que morava em uma pequena comunidade proletária na qual eu dava aulas de História. No terraço de minha casa, em 1979 e 1980, vinham aqui o padre e uma série de operários para discutir o que seria um partido de trabalhadores. De um lado havia a pastoral, de outro, os sindicatos do ABC paulista. E uma terceira força era a de intelectuais, muitos da USP. A esquerda católica, os sindicatos e os intelectuais criaram o partido. Nos anos 80, apareceu a Central Única dos Trabalhadores, um racha nos sindicatos contra o peleguismo. Essa divisão me desagradou. Sempre gostei do Leonel Brizola, o populismo foi um mal necessário para o Brasil. O PT nasceu, então, de pessoas simples que trabalhavam em creches e paróquias, que faziam "mosquitinhos", tiras de papel espalhadas pelas fábricas. Até hoje, aquelas senhoras que distribuíam os panfletos me dizem: "Nós fundamos o partido, professor! Nós jogamos os mosquitinhos!" E, agora, o partido está longe delas.


CC: Por que esse distanciamento ocorreu?

AB: O PT foi fundado como um partido democrático de esquerda, sem estrutura partidária clássica. Quando chegou ao poder, não pôde mais adotar o esquema dos pequenos grupos, já que concorria com outros partidos. Não quero dar uma mensagem pessimista neste momento eleitoral, mas o partido perdeu as características de aglutinação de forças sociais de esquerda. Ele se transformou num partido que eu diria ser de centro-esquerda, afastado da constelação que o criou. Hoje, o que importa é que aquelas mesmas forças que o constituíram estejam vivas e participantes. Estamos numa democracia representativa, não participativa. A força que fazem esses movimentos para bater à porta dos partidos mostra que eles, os movimentos, não são um partido.


CC: O senhor pode nos dar um exemplo de posições ideológicas e contraideológicas que tenha observado recentemente?

AB: Posso citar aquelas em torno da luta ambiental. Quando a expansão capitalista se tornou ameaçadora para a natureza, surgiu a contraideologia que propunha limites à expansão industrial. Celso Furtado, nos anos 70, hesitou em aderir ao ambientalismo. Como economista do desenvolvimento, teve dúvidas quanto à ideia de um crescimento com limites. Convenceu-se ao ver a violência contra a natureza aumentar. O ambientalismo, que era uma contraideologia extremada para ele, passou a ser visto como uma contraideologia racional. E ele aderiu à ideia do desenvolvimento sustentável. Hoje, fico preocupado ao ver, por parte da oposição ao atual governo e dentro dele, esses defensores do desenvolvimento econômico puro e duro colocarem em descrédito a luta ambientalista.


CC: O senhor dedica o último capítulo de seu livro a Machado de Assis. O ceticismo do escritor é um pensamento contraideológico moderno?

AB: Machado apresentou críticas agudas à rotina existencial escravista do século XIX. Mas de 1880 até 1908, ano em que morreu, a análise dos seus textos me dá a ver que detectou um limite para seu liberalismo democrático. Viu os homens como egoístas fundamentais atrás de sua conservação, de seu interesse, de suas paixões. Na maturidade, ele trabalhou de maneira jocosa, irônica, essa crítica à sociedade. O moderno em Machado pode ser observado em ambos os fios. Ele é moderno ao exercer o liberalismo democrático. E é moderno também em verificar os limites da ciência, das filosofias progressistas.


CC: Por que usamos indistintamente os termos moderno e contemporâneo para designar certas tendências do pensamento?

AB: "Contemporâneo" tem uma denotação cronológica, não diz nada do ponto de vista teórico, ao passo que o termo "moderno" se enriqueceu, sobretudo, depois da Revolução Francesa, com conteúdos ligados à emancipação das ideias feudais e dogmáticas. O moderno tem pelo menos duas conotações, de crítica ao passado e de libertação. Nós continuamos usando as duas palavras, porque suas conotações nos interessam de perto.


CC: Como o senhor vê a literatura moderna ou contemporânea?

AB: Gosto de Ferreira Gullar. Reconheço em seus poemas uma força crítica em relação aos males do presente e uma análise profunda do sentimento do homem comum. Ele verbaliza sua angústia. Mas, veja, estou falando do poeta, não do cronista, nem de suas ideias políticas.


CC: E há alguma ficção internacional contemporânea que lhe interesse?

AB: A de Julio Cortázar. Ele tem uma força dramática que não há em Jorge Luis Borges, um contemplador irônico do mundo, um homem de grande erudição. Mas o drama, que me interessa de perto, o conflito entre os personagens, Cortázar mostra de maneira experimental, como um grande escritor contemporâneo, eu diria.