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segunda-feira, 29 de junho de 2009

Leitura: Pau-Brasil, de Oswald de Andrade, de 1925



Refeição Cultural

Prefácio de Paulo Prado

No prefácio de Paulo Prado, de 1924, na apresentação da Poesia Pau-Brasil, com vários excertos do "Manifesto da Poesia Pau-Brasil", já se diz aos leitores sobre a radicalidade da obra.

TRECHOS DO PREFÁCIO

"Não só mudaram as ideias inspiradoras da poesia, como também os moldes em que ela se encerra. Encaixar na rigidez de um soneto todo o baralhamento da vida moderna é absurdo e ridículo. Descrever com palavras laboriosamente extraídas dos clássicos portugueses e desentranhadas dos velhos dicionários, o pluralismo cinemático de nossa época, é um anacronismo chocante, como se encontrássemos num Ford um tricórnio..." p. 58

-
"Sejamos agora de novo, no cumprimento de uma missão étnica e protetora, jacobinamente brasileiros. Libertemo-nos das influências nefastas das velhas civilizações em decadência. Do novo movimento deve surgir, fixada, a nova língua brasileira, que será como esse 'Amerenglish' que citava o Times referindo-se aos Estados Unidos" p. 59

-
"Nesta época apressada de rápidas realizações a tendência é toda para a expressão rude e nua da sensação e do sentimento, numa sinceridade total e sintética" p. 59

-
"Grande dia esse para as letras brasileiras. Obter, em comprimidos, minutos de poesia (...) A nova poesia não será nem pintura nem escultura nem romance. Simplesmente poesia com P grande, brotando do solo natal, inconsciente. Como uma planta" p. 59

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AGORA VAMOS APRESENTAR AOS LEITORES E LEITORAS ALGUNS TRECHOS DE PAU-BRASIL

Por ocasião da Descoberta do Brasil

ESCAPULÁRIO

No Pão de Açúcar
De Cada Dia
Dai-nos Senhor
A Poesia
De Cada Dia

FALAÇÃO (*este poema-programa é uma redução, com alterações, do "Manifesto da Poesia Pau-Brasil")

Dois momentos que gosto bastante nesta parte:

"(...)

A língua sem arcaísmos. Sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros"

(...)

Contra a argúcia naturalista, a síntese. Contra a cópia, a invenção e a surpresa." 

Comentário: a brasilidade em Oswald de Andrade, nos modernistas!

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História do Brasil

Trecho da seção "Gandavo"

PAÍS DO OURO

Todos têm remédio de vida
E nenhum pobre anda pelas portas
A mendigar como nestes Reinos


Trecho da seção "Frei Vicente do Salvador"

AS AVES

Há águias de sertão
E emas tão grandes como as de África
Umas brancas e outras malhadas de negro
Que com uma asa levantada ao alto
Ao modo de vela latina
Correm com o vento


Trecho da seção "Frei Manoel Calado"

CIVILIZAÇÃO PERNAMBUCANA

As mulheres andam tão louçãs
E tão custosas
Que não se contentam com os tafetás
São tantas as joias com que se adornam
Que parecem chovidas em suas cabeças e gargantas
As pérolas e rubis e diamantes
Tudo são delícias
Não parece esta terra senão um retrato
Do terreal paraíso


Trecho da seção "J.M.P.S (da cidade do porto)"

VÍCIO NA FALA

Para dizerem milho dizem mio
Para melhor dizem mió
Para pior pió
Para telha dizem teia
Para telhado dizem teiado
E vão fazendo telhados

Comentário: Fabuloso! A poesia está nos fatos. Este é nosso retrato. "povo burro" = povo culto, puro e sábio

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Poemas da colonização

O GRAMÁTICO

Os negros discutiam
Que o cavalo sipantou
Mas o que mais sabia
Disse que era
Sipantarrou


O CAPOEIRA

- Qué apanhá sordado?
- O quê?
- Qué apanhá?
Pernas e cabeças na calçada


RELICÁRIO

No baile da Corte
Foi o Conde d'Eu quem disse
Pra Dona Benvinda
Que farinha de Suruí
Pinga de Parati
Fumo de Baependi
É comê bebê pitá e caí

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São Martinho

O VIOLEIRO

Vi a saída da lua
Tive um gosto singulá
Em frente da casa tua
São vortas que a mundo dá

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rp 1

DITIRAMBO

Meu amor me ensinou a ser simples
Como um largo de igreja
Onde não há nem um sino
Nem um lápis
Nem uma sensualidade


NOVA IGUAÇU

Confeitaria Três Nações
Importação e Exportação
Açougue Ideal
Leiteria Moderna
Café do Papagaio
Armarinho União
No país sem pecados

Comentário: um poema substantivos...

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Postes da Light

ANHANGABAÚ

Sentados num banco da América folhuda
O cow-boy e a menina
Mas um sujeito de meias brancas
Passa depressa
No Viaduto de ferro


MÚSICA DE MANIVELA

Sente-se diante da vitrola
E esqueça-se das vicissitudes da vida
Na dura labuta de todos os dias
Não deve ninguém que se preze
Descuidar dos prazeres da alma

Comentário: e eu que deixei de exercer isso, heim!


PRONOMINAIS

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro

Comentário: - Pau-Brasil!!!


BIBLIOTECA NACIONAL

A Criança Abandonada
O Doutor Coppelius
Vamos com Ele
Senhorita Primavera
Código Civil Brasileiro
A arte de ganhar no bicho
O Orador Popular
O Pólo em Chamas

Comentário: de novo, substâncias... Pau-Brasil!!! Essas eram as leituras do Brasil de então...


DIGESTÃO

A couve mineira tem gosto de bife inglês
Depois do café e da pinga
O gozo de acender a palha
Enrolando o fumo
De Barbacena ou de Goiás
Cigarro cavado
Conversa sentada


HÍPICA

Saltos records
Cavalos da Penha
Correm jóqueis de Higienópolis
Os magnatas
As meninas
E a orquestra toca
Chá
Na sala de cocktails

Comentário: substâncias... a vida social. Este poema nos lembra o "Rondó dos cavalinhos", de Manuel Bandeira. Perfeita crítica social!

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Roteiro das Minas

PAISAGEM

Na atmosfera violeta
A madrugada desbota
Uma pirâmide quebra o horizonte
Torres espirram do chão ainda escuro
Pontes trazem nos pulsos rios bramindo
Entre fogos
Tudo novo se desencapotando

Comentário: me lembra Drummond


LONGO DA LINHA

Coqueiros
Aos dois
Aos três
Aos grupos
Altos
Baixos

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Lóide Brasileiro

CANÇÃO DE REGRESSO À PÁTRIA

Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá

Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra

Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que eu volte para lá

Não permita Deus que eu morra
Sem que eu volte para São Paulo
Sem que eu veja a rua 15
E o progresso de São Paulo

Comentário: Oswald de Andrade também tem o seu poema "Recife"... ao modo de "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias.

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LAUS DEO

Enfim, o livro de Oswald de Andrade é tudo de bom!!

William


Bibliografia:

ANDRADE, Oswald de. Pau-Brasil. 8ª edição - São Paulo: Globo, 2002. (Obras completas de Oswald de Andrade"

sábado, 27 de junho de 2009

Releitura: O Ócio Criativo - Domenico de Masi (Ed. 2000)



Refeição Cultural

Li este livro de Domenico De Masi em 2005 e, apesar de lê-lo vacinado pelas referências de que o autor seria de linha mais à direita em termos políticos, gostei do livro e das ideias contidas nele.

Um dos capítulos que já li várias vezes é o primeiro "Como os lírios do campo". Ele descreve e comenta a história do homem desde a sua criação enquanto homem, ou seja, desde 70 milhões de anos atrás até os dias atuais.

Consultei o capítulo novamente após um dos debates deliciosos que fazemos constantemente na Contraf-CUT. Tenho o hábito de fazer pequenas provocações aos meus amigos da imprensa, com os quais trabalhei em meu primeiro mandato nesta secretaria.

O tema era sobre o ser humano ser um bicho que não aprende com o passado e que nós começaríamos sempre do zero. Essa observação me levou ao capítulo em questão, pois ele fala justamente o contrário, quer dizer, o que nos diferencia dos demais animais é justamente o fato de não começarmos do zero a cada geração. Nós somos alimentados desde o nascimento pelo caldo cultural que nos antecedeu.

No fundo, não quer dizer que eu não concorde que a nossa burrice enquanto ser humano está nos levando ao limite da existência, inclusive do próprio planeta. É que não posso confundir meu pessimismo com a natureza destrutiva e imbecil de nós mesmos com conceitos mais antropológicos e sociológicos.

Mas, vamos aos excertos do capítulo e suas ideias:

ATIVIDADES "OCIOSAS" DOS GREGOS

"O ócio é um capítulo importante nisso tudo, mas para nós é um conceito que tem um sentido sobretudo negativo. Em síntese, o ócio pode ser muito bom, mas somente se nos colocamos de acordo com o sentido da palavra. Para os gregos, por exemplo, tinha uma conotação estritamente física: 'trabalho' era tudo aquilo que fazia suar, com exceção do esporte. Quem trabalhava, isto é, suava, ou era um escravo ou era um cidadão de segunda classe. As atividades não-físicas (a política, o estudo, a poesia, a filosofia) eram 'ociosas', ou seja, expressões mentais, dignas somente dos cidadãos de primeira classe" p. 17

Lembrei-me, inclusive, do período anterior ao de hoje no Brasil, livre e democrático. Até bem pouco tempo as pessoas poderiam sofrer abusos das "autoridades" e serem presas por "vadiagem". Ou seja, tem carteira assinada? Não? Então, mermão, tá em cana por vadiagem!

ATIVIDADES DA ERA INDUSTRIAL INUTILIZAVAM O CÉREBRO

"A sociedade industrial não só fez com que, para muitos, se tornasse inútil o cérebro como também fez com que somente algumas partes do corpo fossem utilizadas. Isto era diferente da sociedade rural na qual o camponês, para usar a enxada ou a pá, assim como o pescador para pescar, além de utilizar o corpo inteiro, usava talvez um pouco mais o cérebro" p. 19

"ESTAMOS NUMA FASE DE TRANSIÇÃO. COMO SEMPRE" (Ennio Flaiano)

Apesar de haver mudanças em todas as épocas, nem todas mudam com a mesma intensidade e com a mesma velocidade.

MUDANÇA DE ÉPOCA x INOVAÇÃO

"Em determinados momentos, temos a sensação de que se trata de uma mudança de época. Porém, não é apenas um fator da História que muda, mas é todo o paradigma - com base no qual os homens vivem - que se altera. Isso, acontece quando três inovações diferentes coincidem: novas fontes energéticas, novas divisões do trabalho e novas divisões do poder. Se somente um desses fatores se alterasse, viveríamos uma inovação, mas, se todos eles mudassem simultaneamente, aconteceria um salto de época. Trata-se do mesmo conceito ao qual se refere Braudel, quando fala das ondas da História, que podem ser curtas, breves, médias ou longas" p. 23

1o PERÍODO DA HISTÓRIA HUMANA

"Quais foram, então, os momentos da História nos quais nós, seres humanos, atravessamos encruzilhadas, vimos que o mundo virava de cabeça para baixo, se tornava 'um outro' mundo?

Um primeiro longo período da história humana vai de setenta milhões a setecentos mil anos atrás. Durante este período, quem vivia não percebia nenhuma mudança, se sentia sempre igual. Trata-se da longuíssima fase na qual o homem criou a si mesmo: aprendeu a andar ereto, a falar, a educar a prole" p. 24

O ELOGIA DA IMPERFEIÇÃO

"Se refletirmos bem, estas são mudanças extraordinárias, todas elas decorrentes da compensação dos nossos defeitos. Rita Levi Montalcini explicou isso muito bem no seu livro L'elogio dell'imperfezione (O elogio da imperfeição). Tínhamos um olfato fraco, portanto não podíamos perseguir a caça farejando a terra, como fazem os animais, mas tínhamos que avistá-la: para isto devíamos caminhar de pé, já que a caça frequentemente fugia, desaparecendo na vegetação. Isto fez com que se tenham salvado somente aqueles indivíduos da nossa espécie que se tornaram mais aptos para caminhar eretos.

Como caminhar ereto implicava passar a dispor dos dois membros superiores - que já não eram mais usados para caminhar -, nós liberamos e especializamos as mãos, usando-as para compensar um outro ponto fraco: o da nossa mandíbula. Não tínhamos capacidade para agarrar a presa e esquartejá-la com os dentes e, por isso, usamos as mãos para construir utensílios e instrumentos.

Eis a outra grande novidade deste período: o homem descobre que pode fabricar objetos (...) A televisão ou o míssil não são senão o resultado posterior do hábito inovador adquirido naquele período, sem o qual nós teríamos desaparecido, pois não éramos nem os mais rápidos, nem os mais fortes, nem os mais capazes.

NÓS NÃO COMEÇAMOS DO ZERO

(...) Em resumo, naquela época aumentamos e potencializamos o cérebro, aguçamos a vista e liberamos as mãos. E educamos a prole. Aí está um outro fato extraordinário. Basta lembrar os dinossauros, cuja extinção também está associada ao fato de que, quando os ovos se abriam, a prole gerada já era autônoma e, portanto, não era educada pelos genitores. Cada dinossauro recomeçava do zero." p. 25

Um filme excelente para ilustrar essa longa trajetória do ser humano é A guerra do fogo, de 1981, dirigido por Jean-Jacques Annaud.

"E somos os únicos animais que não recomeçam sempre do início, mas que, além das características hereditárias e do saber instintivo, recebem dos adultos o saber cultural" p. 25

O capítulo segue com ideias fantásticas como o primeiro motor inventado pelo homem: o cachorro (lobos e chacais). Também fala da invenção da arma revolucionária Arco e Flecha; da invenção do ato de enterrar os mortos e da ideia de seguir a vida após a morte. E por aí vai.

É muito interessante para pensarmos um filme de nossa história humana.

William Mendes


Bibliografia:

DE MASI, Domenico. O ócio criativo. Entrevista a Marisa Serena Palieri. Editora Sextante. 4ª edição (2000).

Releitura: O mundo de Sofia, de Jostein Gaarder, 1991



Refeição Cultural

Romance da história da filosofia

Li este livro na década de 90 e gostei bastante. Quando o folheio e leio certas partes destacadas por mim, vejo que o livro é uma referência para aqueles que não tinham ideia do que é a filosofia e é também um belo convite ao filosofar.

Assisti agora ao filme baseado na obra. É bem mais sucinto em termos de conteúdo, entretanto ele consegue manter o convite ao filosofar.

Refletindo sobre as características necessárias ao filósofo, percebo que desde muito novo eu as possuía.

“Quem é você?”

“De onde vem o mundo?”

“O que é filosofia?”

O ser humano traz consigo uma necessidade diferente dos demais seres da natureza, que é descobrir-se a si mesmo e também buscar compreender o porquê da existência.

O que se precisa para ser um filósofo?

“A única coisa de que precisamos para nos tornarmos bons filósofos é a capacidade de nos admirarmos com as coisas” p. 27

FILÓSOFOS E CRIANÇAS

Ambos possuem a característica de estarem receptivos e sensíveis às coisas ao seu redor.

OS MITOS

Um equilíbrio precário entre as forças do bem e do mal... (p. 34)

Os mitos têm a finalidade de (tentar) explicar o porquê de as coisas serem como são. Os povos acabam criando rituais para isso.

DEUS CRIOU O HOMEM x O HOMEM CRIOU DEUS

Xenófanes, nascido por volta de 570 a.C., ao criticar os mitos disse que o homem teria criado os deuses à sua imagem e semelhança. p. 39

O pensar filosófico vai substituindo os mitos: “O objetivo dos primeiros filósofos gregos era o de encontrar explicações naturais para os processos da natureza” p. 40

OS FILÓSOFOS DA NATUREZA

Nada pode surgir do nada... (p. 41)

ALGO SE TRANSFORMA EM ALGO

“Os primeiros filósofos tinham uma coisa em comum: eles acreditavam que determinada substância básica estava por trás de todas essas transformações” p. 44

TRÊS FILÓSOFOS DE MILETO

Tales: a água como origem de todas as coisas.

Anaximandro: as coisas surgem e se dissolvem no infinito.

Anaxímenes: o ar ou o sopro de ar era a substância básica de todas as coisas.

Parmênides (c. 540-480 a.C.) era um dos eleatas (da colônia grega de Eleia) que acreditava que tudo o que existe sempre existiu. Mas não achava que uma coisa se transformava em outra, pois isso iria contra a “razão”.

“Esta forte crença na razão humana é chamada de racionalismo. Um racionalista é aquele que tem grande confiança na razão humana enquanto fonte de conhecimento do mundo” p. 47

TUDO FLUI

Heráclito de Éfeso (c. 540-480 a.C.) dizia “tudo flui”. Por isso “não podemos entrar duas vezes no mesmo rio” p. 47

O mundo está impregnado de constantes opostos: a doença nos mostra a saúde; a fome nos dá consciência de saciá-la com o alimento; a guerra nos faz dar valor à paz etc.

RAZÃO UNIVERSAL

Para Heráclito há algo como um Deus ou logos (razão) que está subjacente a tudo no universo.

QUATRO ELEMENTOS BÁSICOS

Empédocles (c. 494-434 a.C.) acreditava que a natureza possuía ao todo quatro elementos básicos, ou raízes: a terra, o ar, o fogo e a água.

UM POUCO DE TUDO EM TUDO

Anaxágoras (c.500-428 a.C.) achava que “a natureza era composta por uma infinidade de partículas minúsculas, invisíveis a olho nu. Tudo pode ser dividido em partes menores, mas mesmo na menor das partes existe um pouco de tudo” p. 51

DEMÓCRITO (c.460-370 a.C.)

O brinquedo mais genial do mundo...

“Ele presumiu que todas as coisas eram constituídas por uma infinidade de pedrinhas minúsculas, invisíveis, cada uma delas sendo eterna e imutável. A estas unidades mínimas Demócrito deu o nome de átomos (indivisível)” p. 57

Como Demócrito não acreditava em “força” ou “inteligência” para intervir nos processos da natureza, pois para ele as únicas coisas que existem são átomos e vácuo, ele é chamado MATERIALISTA. As questões do “elemento básico” e das “transformações” foram resolvidas pela RAZÃO.

O DESTINO

O adivinho tenta adivinhar algo que na verdade não dá para adivinhar...

Os gregos eram fatalistas e achavam que o destino já vinha traçado pelos deuses. Acreditavam no ORÁCULO DE DELFOS, do deus APOLO e sua sacerdotisa PÍTIA.

Atribui-se a HIPÓCRATES a fundação da ciência médica. “O caminho para a saúde do homem está na moderação, na harmonia e ‘na mente sã e corpo são’ ” p. 68

É famoso até hoje o JURAMENTO DE HIPÓCRATES (é uma pena que raros são os médicos que o cumprem)

SÓCRATES

Mais inteligente é aquele que sabe que não sabe...

OS SOFISTAS

“O homem é a medida de todas as coisas”, disse o sofista Protágoras (c.487-420 a.C.)

AGNÓSTICO: é aquele que não é capaz de afirmar categoricamente se existe ou não um Deus.

OS TRÊS MAIORES FILÓSOFOS DA ANTIGUIDADE: SÓCRATES, PLATÃO E ARISTÓTELES

Quem foi SÓCRATES?

“Sócrates (470-399 a.C.) talvez seja a personagem mais enigmática de toda a história da filosofia. Ele não escreveu uma única linha e, não obstante, está entre os que maior influência exerceram sobre o pensamento europeu. Seu fim trágico talvez seja o que o tornou famoso até mesmo entre os que conhecem pouco de filosofia” p. 79

A técnica filosófica de Sócrates era o diálogo. Ele não assumia a posição de professor. Ele dialogava, discutia.

IRONIA SOCRÁTICA: Sócrates era capaz de se fingir ignorante, ou de mostrar-se mais tolo do que realmente era.

No ano de 399 a.C. ele foi acusado de “corromper a juventude” e de “não reconhecer a existência dos deuses” p. 81

Sócrates não se considerava um sofista, isto é, uma pessoa instruída, sábia. Ele se autodenominava filósofo, no sentido mais verdadeiro da palavra. Um “filo-sofo” é, na verdade, um “amante da sabedoria”, alguém cujo objetivo é chegar à sabedoria. p. 82

Um filósofo, portanto, é uma pessoa que reconhece que há muita coisa além do que pode entender e vive atormentado por isto.

UM FILÓSOFO SABE MUITO BEM QUE NO FUNDO SABE MUITO POUCO.

Esta característica lhe causou muitos problemas, pois “Os que questionam são sempre os mais perigosos”.

É um belo livro. Vale a pena a revisita a qualquer instante.

William

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Leitura - A importância do ato de ler, de Paulo Freire (1982)



Refeição Cultural

Um livro simples e fundamental para aqueles que buscam na leitura muito mais que ler palavras, buscam ler sentidos.

"A leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele".


O livro é constituído de três artigos do educador Paulo Freire. Artigos que elucidam questões como "o mito da neutralidade da educação"; explica sobre a ideia equivocada de acharem que o educando é uma folha em branco, sem conhecimento prévio; e um dos principais focos dos artigos é: estudar não é só um direito, mas um ato revolucionário.


Além da importância do ato de ler, Freire descreve como devemos organizar as bibliotecas para a educação conscientizadora dos povos.


Também dedica uma boa parte do livro a nos mostrar como foi o processo revolucionário de educar o povo de São Tomé e Príncipe - alfabetização e pós-alfabetização, povo recém-liberto do jugo colonialista português e em busca da "criação de uma nova sociedade".


Para nós que buscamos e pensamos um outro mundo possível, mais solidário, paritário e de respeito às diversidades, ficam da leitura ensinamentos básicos:


- a importância na forma correta de ler o texto em relação ao contexto;


- o povo tem o direito (e o dever) de ser sujeito e não objeto na construção da realidade;


- a aprendizagem da leitura e a alfabetização são atos de educação e educação é um ato fundamentalmente político;


- a insistência na quantidade de leituras sem o devido adentramento nos textos a serem compreendidos, e não mecanicamente memorizados, revela uma visão mágica da palavra escrita. Visão que urge ser superada.


"A memorização mecânica da descrição do objeto não se constitui em conhecimento do objeto. Por isso é que a leitura de um texto, tomado como pura descrição de um objeto é feita no sentido de memorizá-la, nem é real leitura, nem dela portanto resulta o conhecimento do objeto de que o texto fala" p.17


Paulo Freire nos ensina a importância fundamental de organizarmos a nossa palavra ao contexto de nossos educandos. É a ideia do universo vocabular dos grupos: "palavras do Povo, grávidas do mundo".


A leitura crítica da realidade no processo de educação associada a práticas de mobilização e organização "pode constituir-se num instrumento para o que Gramsci chamaria de ação contra-hegemônica".


O mito da neutralidade da educação leva à negação da natureza política do processo educativo.


Segundo Freire é impossível separar o inseparável: a educação da política.


"Sempre vi a alfabetização de adultos como um ato político e um ato de conhecimento, por isso mesmo como um ato criador" p.19

"A alfabetização é a criação ou a montagem da expressão escrita da expressão oral" p.19


Mas, se não é possível pensar a educação sem pensar o poder e sem pensá-la como prática autônoma ou neutra, isto não significa que a educação seja uma pura reprodutora da ideologia dominante.


Como cita o professor "o que temos de fazer então, enquanto educadores ou educadoras, é aclarar, assumindo a nossa opção, que é política, e sermos coerentes com ela, na prática".


Nessa relação dialógica, que nos inclui a todo(a)s como pais e mães, sindicalistas, educadore(a)s, devemos escutar o(a)s outro(a)s pois "cada um de nós é um ser no mundo, com o mundo e com os outros".


Toda a questão do conhecimento passa pelos princípios ensinados a nós de que há uma relação dinâmica entre a leitura da palavra e a "leitura" da realidade. Também é necessário que os povos sejam sujeitos.


Terminamos com o ensinamento sobre o ato de estudar:


"Estudar exige disciplina. Estudar não é fácil porque estudar é criar e recriar é não repetir o que os outros dizem. Estudar é um dever revolucionário!".


Leiam esse pequeno livro (87 páginas) com grandes ensinamentos.

William Mendes

(publicado originalmente como artigo meu no portal da Contraf-CUT em 26.9.08)

domingo, 14 de junho de 2009

Leitura: Estrela da manhã - Manuel Bandeira, de 1936



Refeição Cultural

Este é outro livro fantástico de Bandeira da fase modernista.

Vejam abaixo alguns poemas que eu diria serem bem duros e realistas, imagens nuas e cruas de uma época (diria até de todas as épocas):

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POEMA DO BECO

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do 
                         [horizonte?
- O que eu vejo é o beco.

1933

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Outro poema que gostei bastante é:


MOMENTO NUM CAFÉ

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo 
         [e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz 
         [e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.

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TRAGÉDIA BRASILEIRA

Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade.
     Conheceu Maria Elvira na Lapa - prostituta, com sífilis, dermite nos dedos, uma aliança empenhada e os dentes em petição de miséria.
     Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagou médico, dentista, manicura... Dava tudo quanto ela queria.
     Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado.
     Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma facada. Não fez nada disso: mudou de casa.
     Viveram três anos assim.
     Toda a vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa.
     Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bonsucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí, Niterói, Encantado, Rua Clapp, outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, , Boca do Mato, Inválidos...
     Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e de inteligência, matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la caída em decúbito dorsal, vestida de organdi azul.

1933

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E, por fim, dos poemas "duros" fecho com este:

CONTO CRUEL

A uremia não o deixava dormir. A filha deu uma injeção de sedol.
     - Papai verá que vai dormir.
     O pai aquietou-se e esperou. Dez minutos... Quinze minutos...Vinte minutos... Quem disse que o sono chegava? Então ele implorou chorando:
     - Meu Jesus-Cristinho!
     Mas Jesus-Cristinho nem se incomodou.

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Dos poemas mais leves, gosto bastante do "Trem de ferro", "Rondó dos cavalinhos" e "Os voluntários do Norte" (este dedico ao presidente Luís Inácio Lula da Silva)

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TREM DE FERRO

Café com pão
Café com pão
Café com pão

Virge Maria que foi isso maquinista?

Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força

Oô...
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
De ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!

Oô...
Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
Oô...
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matá minha sede
Oô...
Vou mimbora vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Oô...

Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente...

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RONDÓ DOS CAVALINHOS

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
Tua beleza, Esmeralda,
Acabou me enlouquecendo.

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
O sol tão claro lá fora,
E em minhalma — anoitecendo!

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
Alfonso Reys partindo,
E tanta gente ficando...

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
A Itália falando grosso,
A Europa se avacalhando...

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
O Brasil politicando,
Nossa! A poesia morrendo...
O sol tão claro lá fora,
O sol tão claro, Esmeralda,
E em minhalma — anoitecendo!

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OS VOLUNTÁRIOS DO NORTE

                     (São os do Norte que vêm!) 
                              Tobias Barreto

Quando o menino de engenho
Chegou exclamando:- “Eu tenho,
Ó Sul, talento também!",
Faria, gesticulando,
Saiu à rua gritando:
- "São os do Norte que vêm!"

Era um tumulto horroroso!
- "Que foi?" indagou Cardoso
Desembarcando de um trem.
E inteirou-se. Senão quando,
Os dois saíram gritando:
- "Ê vêm os do Norte! Ê vêm!…"

Aos dois juntou-se o Vinícius
De Morais, flor dos Vinícius
E Melo Morais também!
- "Que foi?" as gentes falavam…
E os três amigos bradavam:
- "São os do Norte que vêm!"

Nisso aparece em cabelo
O novelista Rebelo,
Que é Dias da Cruz também!
Mais uma voz para o coro!
E foi um tremendo choro:
- "Ê vêm os do Norte! Ê vêm!…"

E o clamor ia engrossando
Num retumbar formidando
Pelas cidades além…
- "Que foi?" as gentes falavam,
E eles pálidos bradavam:
- "São os do Norte que vêm!"

---

Um deles, um DA SILVA, na luta feito LULA da Silva, veio e mudou o Brasil pra melhor, como nunca se falou, como nunca se viu!

---

Bibliografia;

BANDEIRA, Manuel. Libertinagem & Estrela da manhã. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

sábado, 13 de junho de 2009

Leitura: Libertinagem - Manuel Bandeira, de 1930



Refeição Cultural

Reli hoje o livro de poemas Libertinagem, de Bandeira. Eu o releio vez por outra porque ele é muito bom e é um livro de cabeceira, em se tratando de poesia.

Lembro-me que até entrar na USP, no ano de 2001, eu não lia poesia. Eu não tinha a mínima compreensão a respeito da arte da poesia e achava que perderia tempo com aquilo.

Estou nas leituras modernistas neste feriado. Estou terminando de reler Macunaíma, de Mário de Andrade, escritor-chave da semana de arte moderna de São Paulo.

Dos poemas que mais gosto no livro, posso destacar:


CAMELÔS

Abençoado seja o camelô dos brinquedos de tostão:
O que vende balõezinhos de cor
O macaquinho que trepa no coqueiro
O cachorrinho que bate com o rabo
Os homenzinhos que jogam boxe
A perereca verde que de repente dá um pulo 
           [que engraçado
E as canetinhas-tinteiro que jamais escreverão 
           [coisa alguma.

Alegria das calçadas
Uns falam pelos cotovelos:
- "O cavalheiro chega em casa e diz: Meu filho, vai 
           [buscar um pedaço de banana pra eu acender o 
           [charuto. Naturalmente o menino pensará: 
           [Papai está malu..."

Outros, coitados, têm a língua atada.

Todos porém sabem mexer nos cordéis com o tino 
            [ingênuo de dimiurgos de inutilidades.
E ensinam no tumulto das ruas os mitos heróicos 
            [da meninice...
E dão aos homens que passam preocupados 
            [ou tristes uma lição de infância.


Comentário: décadas depois a imagem do poema é a mesma de hoje!

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O CACTO

Aquele cacto lembrava os gestos desesperados 
            [da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco Nordeste, 
            [carnaubais, caatingas...
Era enorme, mesmo para esta terra 
            [de feracidades excepcionais.

Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante 
            [vinte e quatro horas privou a cidade 
            [de iluminação e energia:

- Era belo, áspero, intratável.

(Petrópolis, 1925)


Comentário: esse seria o Bandeira da época em uma autoimagem? Belo, áspero, intratável!

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E agora, o maravilhoso poema Poética!


POÉTICA

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto 
          [expediente protocolo e manifestações 
          [de apreço ao Sr. diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar 
          [no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja 
            [fora de si mesmo

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário 
            [do amante exemplar com cem modelos 
            [de cartas e as diferentes maneiras de agradar 
            [às mulheres, etc

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

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E agora, vamos ao apaixonante Evocação do Recife!!!

EVOCAÇÃO DO RECIFE

Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritssatd dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois - 
           Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância

A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado 
     [e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê 
     [na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada 
     [com cadeiras, mexericos, namoros, risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:

              Coelho sai!
              Não sai!

A distância as vozes macias das meninas politonavam:

              Roseira dá-me uma rosa
              Craveiro dá-me um botão
              (Dessas rosas muita rosa
              Terá morrido em botão...)

De repente
                    nos longos da noite
                                                      um sino

Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era São José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia 
       [ir ver o fogo

Rua da União...
Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame de Dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
                            ...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
                            ...onde se ia pescar escondido

Capiberibe
- Capibaribe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
                          Foi o meu primeiro alumbramento

Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços 
       [redemoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro os caboclos 
       [destemidos em jangadas de bananeiras

Novenas
                      Cavalhadas

E eu me deitei no colo da menina e ela começou 
        [a passar a mão nos meus cabelos

Capiberibe
- Capibaribe

Rua da União onde todas as tardes passava 
        [a preta das bananas com o xale vistoso 
        [de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
                     que se chamava midubim e não era 
                     [torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
                       Ovos frescos e baratos
                       Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...

A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
                      Ao passo que nós
                      O que fazemos
                      É macaquear
                      A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu 
      [não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam

Recife...
               Rua da União...
                                          A casa de meu avô...

Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade

Recife...
                    Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro 
       [como a casa de meu avô.

Rio, 1925

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(Esse poema pode ser a minha oração)

ORAÇÃO NO SACO DE MANGARATIBA

Nossa Senhora me dê paciência
Para estes mares para esta vida!
Me dê paciência para que eu não caia
Pra que eu não pare nesta existência
Tão mal cumprida tão mais comprida
Do que a restinga de Marambaia!...

1926

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(Esse abaixo ofereço ao meu amigo Sérgio Gouveia, de Prudente)

ANDORINHA

Andorinha lá fora está dizendo:
- "Passei o dia à toa, à toa!"

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa...

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(Este poema Profundamente é de uma profundidade...)

PROFUNDAMENTE

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

- Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente

*

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

- Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

---

O ÚLTIMO POEMA

Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples 
      [e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem 
      [os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

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É um livro fabuloso. Quanto mais leio, mais sinto prazer em relê-lo. Sempre há um poema que serve para um tema atual. É completamente atemporal!

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Leitura: Macunaíma - Mário de Andrade, de 1928



Refeição Cultural

Junho/2009

Macunaíma, o herói sem nenhum caráter


Assisti a um programa dias atrás que me deu vontade de passear pela obra de Mário de Andrade. Já li Macunaíma (em 1999) e o livro de poesia Paulicéia Desvairada (em 2001).


Agora pela manhã, peguei pra reler Macunaíma e posso dizer: - Cara, o livro é fantástico! É ímpar!

Nosso herói sem caráter (e põe mau-caratismo nisso!), vem lá do Mucambo dos Tapanhumas, filho da índia tapanhumas, povo preto retinto.

Como sempre, o que mais gosto em certas obras clássicas é o acúmulo de referências sobre crendices populares, ditos e frases, mitos e lendas.

Aliás, Mário de Andrade pensou mesmo em reunir todo o Brasil nesta rapsódia brasileira.

"Espinho que pinica, de pequeno já traz ponta." p.13

"Sofará aguentou a sova sem falar um isto!" p.14 (essa sempre ouvi minhas tias e avós falando: e a referência não é nada legal - violência)

Em 1928, Mário já falava do nosso bem conhecido açaí (na moda hoje em dia): "todas as manhãs passava coquinho de açaí nos beiços que ficavam totalmente roxos (Iriqui)." p.17

"no capoeirão chamado Cafundó do Judas." p.19 (essa já é da minha época)

Como Macunaíma fazia malandragem de gente grande ainda menino, a cotia pegou na gameleira e jogou caldo de aipim envenenado nele. Pegou no corpo inteiro, menos na cabeça. Ficou então com corpo de homem e cabeça "com carinha enjoativa de piá." p.21

"-Mãe, sonhei que caiu meu dente.
-Isso é morte de parente..." p.21 (eita! que essa é famosa!)

Deu uma "sapituca". Cara, meu tio Léo fala isso o tempo todo! "quando o herói voltou da sapituca (desmaio)." p.22

"O pecurrucho tinha cabeça chata e Macunaíma inda a achatava mais batendo nela todos os dias e falando pro guri:
-Meu filho, cresce depressa pra você ir pra São Paulo ganhar muito dinheiro." p.28

"Macunaíma foi visitar o túmulo do filho viu que nascera do corpo uma plantinha 
(...) Foi o guaraná. Com as frutinhas piladas dessa planta é que a gente cura muita doença e se refresca durante os calorões de Vei, a Sol." p.29

"-Que é isso!
-Chouriço!
" p.32

Macunaíma rezava pro Negrinho do Pastoreio diariamente. p.36

"Lá em São Paulo, a cidade macota lambida pelo igarapé Tietê." p.37

Cresci ouvindo esta da verruga no dedo se apontar pras estrelas: "matutava matutava roendo os dedos agora cobertos de berrugas de tanto apontarem Ci estrela." p.39

NO MATO, A NATUREZA; NA CIDADE, AS MÁQUINAS.

"Eram máquinas e tudo na cidade era só máquina!" p.42

"A Máquina era que matava os homens porém os homens é que mandavam na Máquina..." p.43

"Os homens é que eram máquinas e as máquinas é que eram homens." p.43

Os irmãos tapanhumas inventaram as 3 pragas brasileiras: o bicho-do-café, a lagarta-rosada e o futebol. (quer saber como? leia o livro: p. 49-50)

Macunaíma estava cheio de bosta de urubu e a estrela disse pra ele: "-Vá tomar banho! ela fez. E foi-se embora. Assim nasceu a expressão 'Vá tomar banho!' que os brasileiros empregam se referindo a certos imigrantes europeus." p.65

"-POUCA SAÚDE E MUITA SAÚVA, OS MALES DO BRASIL SÃO!" p.68

O capítulo IX. "Carta pras icamiabas" é muito especial. Macunaíma descreve para as amazonas o que é a terra São Paulo e os paulistanos. É hilária e muito divertida. Tem que se ler inteiro pra sentir o prazer da leitura. Além disso, é um momento de linguagem escrita, o inverso à da obra, toda de representação da linguagem oral brasileira.

“Macunaíma aproveitava a espera se aperfeiçoando nas duas línguas da terra, o brasileiro falado e o português escrito.” p.83

Aqui, a referência tem tudo a ver com o que defende Marcos Bagno no livro A língua de Eulália, de 1997. O livro desmitifica a ideia errônea de língua única no Brasil e diz haver diversas variedades da língua portuguesa no País, além de dezenas de línguas indígenas, todas brasileiras também.

Depois de pensamentar pensamentar.” p.84

Quem brinca com fogo mija na cama: “Foram pra casa botar pelego por debaixo do lençol porque por terem brincado com fogo aquela noite, na certa que iam mijar na cama.” p.88

As adivinhas:

O que é que é: É comprido roliço e perfurado, entra duro e sai mole, satisfaz o gosto da gente e não é palavra indecente?
- Ah? Isso é indecência sim!
- Bobo! É macarrão!
- Ahn... é mesmo! Engraçado, não?
- Agora o que é que é: Qual o lugar onde as mulheres têm cabelo mais crespinho?
- Oh, que bom! Isso eu sei! É aí!
- Cachorro! É na África, sabe!
- Me mostra, por favor!
- Agora é a última vez. Diga o que é que é:
Mano, vamos fazer
Aquilo que Deus consente:
Ajuntar pêlo com pêlo
Deixar o pelado dentro.
E Macunaíma:
- Ara! Também isso quem não sabe! Mas cá pra nós que ninguém nos ouça, você é bem senvergonha, dona!
- Descobriu. Não é dormir ajuntando os pêlos das pestanas e deixando o olho pelado dentro que você está imaginando?
” p.99

Depois de Macunaíma viajar por toda a geografia do Brasil no capítulo XI, a velha Ceiuci dá três conselhos ao tuiuti que valem ouro:

Neste mundo tem três barras que são a perdição dos homens: barra de rio, barra de ouro e barra de saia, não caia!” p.102

Arranjava um decumê por aí...” p.109

Não me olhe de banda que não sou quitanda, não me olhe de lado que não sou melado!” p.110

De-tarde
De-noite
De-manhã

Carrapato já foi gente que nem nós: é que vendeu fiado e depois quebrou e agora se agarra cobrando as contas. p.121

No capítulo XIV "Muiraquitã", Macunaíma descreve a origem do automóvel: rixa entre onça parda e tigre, e na fuga da onça ela vai virando automóvel.

- Era uma vez uma vaca amarela, quem falar primeiro come a bosta dela!” p.133

O GRANDE AMOR DE MACUNAÍMA

Então pensou muito sério na dona da muiraquitã, na briguenta, na diaba gostosa que batera tanto nele, Ci, Ah! Ci, Mãe do Mato, marvada que tornara-se inesquecível porque fizera ele dormir na rede tecida com os cabelos dela!...” p.133

Oi que Sol de inverno chuva de verão choro de mulher palavra de ladrão, eieiei... ninguém não caia não!” p.140

PAPAGAIO COME E PERIQUITO LEVA FAMA!

Então todos os papagaios foram comer milho na terra dos ingleses. Porém primeiro viraram periquitos porque assim, comiam e os periquitos levavam a fama” p.151

A aventura de nosso herói termina quando ele se enche desta terra e decide ir pro céu. Hoje ele é a Constelação Ursa Maior (não é o saci, não!, que ainda tá por aí). Quem contou a história de nosso herói foi um papagaio - aruaí - que sobrou lá nas terras dos índios tapanhumas, no beira-rio do Uraricoera.

COMO DIZ Manuel Bandeira: "Tão Brasil!"

William

terça-feira, 9 de junho de 2009

Leitura: La Celestina - Fernando de Rojas, 1499




Os clássicos e suas existências


Minha leitura da obra clássica La Celestina foi bastante interessante. E por que digo isso?

Os livros clássicos trazem consigo uma história de leituras. Carregam uma carga de cumplicidade com os leitores de todas as épocas vindouras.

Quando alguém lê Dom Quixote espera encontrar ali aquilo que mais identifica a obra com a popularidade dela. Com a mitologia criada em torno dela.

Sem dúvida, os leitores do século XXI esperam encontrar no Quixote a famosa cena do embate do cavaleiro com os moinhos de vento. Já entram na obra encantados com seu escudeiro Sancho Pança. Têm uma ideia cristalizada do burrinho, do Rocinante e da donzela Dulcineia.

Da mesma forma, ao lermos Hamlet de Shakespeare, esperamos ansiosamente pela famosa cena do sepulcro, onde o jovem angustiado solta a famosa frase "-Ser ou não ser, eis a questão...".

Mal sabem os não leitores da obra que a frase é somente a abertura de uma angustiante reflexão filosófica sobre viver ou não viver, interromper a vida ou seguir vivendo, onde predomina a eterna dúvida cruel de não se saber se há algo além da vida terrena.

Os clássicos carregam séculos e séculos de vivência por mundos e mundos diversos, países e povos distintos, gerações e gerações de leituras e de ideias de leituras, imagens criadas e partilhadas ao longo do tempo de existência sempre crescente da obra.


Os clássicos e suas eternas surpresas nos novos leitores

Apesar da existência objetiva e cronológica de cada clássico, de sua trajetória até o novo leitor, passando por todo o conjunto de leituras já feitas, as grandes obras nunca perdem a sua capacidade de surpreender seus leitores novos.

Seja pelo prazer que a leitura fornece, seja pela surpresa de achar em coisa tão velha assunto ou tema tão atual e presente, seja por qualquer identificação nova no leitor novo.

Uma descoberta sempre agradável, na minha opinião, sobre as obras clássicas é ver que os ditos populares e frases de sabedoria vêm de nossos antepassados mais longínquos.

Eu já havia encontrado várias delas no Quixote, que é de 1605 e 1615.

Descobri na obra La Celestina, maior idade em vários ditos e frases populares. Eles envelheceram mais cem anos. Não tenho dúvida de que vão envelhecer mais, à medida que minhas leituras forem retrocedendo no tempo cronológico da história da literatura mundial.

Disse que minha leitura de La Celestina foi muito interessante porque eu não tinha imagem pré-construída ou conhecimento prévia da história da velha Celestina nem do casal Calixto e Melibeia.


A obra e seu autor

A história da obra traz consigo um dilema que perdurou durante séculos. A dúvida ou mistério da origem autoral. Chegou-se a aceitar a ideia de que até 3 autores distintos pudessem ter composto a obra.

Hoje, já há mais convicção em se dizer que seu autor é Fernando de Rojas. A primeira edição seria de 1499, com reedições e acréscimos em 1501, 1502 e 1514.

Há um livro de Stephen Gilman, La Celestina - Arte y Estructura, de 1956, com reedições e acréscimos até 1982, que traz um estudo profundo sobre o estilo de Fernando de Rojas e de toda a economia da obra La Celestina.

A edição que li e de onde retiro algumas frases e ditos populares é La Celestina – tragicomedia de Calixto y Melibea. Fernando de Rojas, Colección Austral n. 195. Undécima Edición, 1971. Espasa-Calpe, S.A. Madri.


Frases e ditos populares

1 - Diálogo de Semprônio e Celestina: Celestina relembra a importância dela como alcoviteira da região. Melhor que ela só havia sido a mãe de Pármeno - senhora Claudina.

"Su madre y yo, uña y carne. De ella aprendí todo lo mejor que sé de mi oficio"

Veja que legal ler obras do passado. Esta tem 500 anos e a expressão "unha e carne" existe até hoje.


2 - Veja esta frase falando do mal de se falar demais:

"!No se dice en vano que el más empecible miembro del mal hombre o mujer es la lengua!" p.52 (empecible = dañoso)


3 - E os ditos populares é que são muito interessantes e muitos deles são usados até hoje:

"Una alma sola, ni canta ni llora"
"Un solo acto no hace hábito"
"Una golondrina no hace verano"
"Un testigo solo no es entera fe"
"Quien sola una ropa tiene, presto la envejece" (todos na p.74)


4 - Encontrei mais dois ditos populares interessantes: da água que tanto bate até que fura e de Deus ajudar mais aos que têm fé (ou sorte) do que aqueles que cedo madrugam:

"Mucho puede el contínuo trabajo; una contínua gotera horada una piedra" p.79

"Más vale a quien Dios ayuda, que quien mucho madruga" p.79


5 - Eis mais um dito popular antiquíssimo, que temos dois ouvidos e uma só boca, então é calar e ouvir mais:

"Sempronio - Oírte ha nuestro amo; tendremos en él que amansar y en ti que sanar, según estás hinchando de tu mucho murmurar. Por mi amor, hermano, que oigas y calles, que por eso te dió Dios dos oídos y una lengua sola" p.96


6 - Quem tudo quer, nada tem!:

"Ahora que lo veo crecido, no quiere dar nada, por cumplir el refrán de los niños, que dicen: de lo poco, poco; de lo mucho, nada" p.108


7 - "¡Oh bien y gozo mundano, que mientras eres poseído eres menos preciado y jamás te consientes conocer hasta que te perdemos!" p.121

"Que cuando una puerta se cierra, otra suele abrir la fortuna" p.121

As duas frases são bem comuns até hoje e pertencem à sabedoria popular.


Observações finais

Um dos fascínios de se ler os clássicos da literatura mundial, além do próprio prazer da leitura, é nos encontrarmos conosco mesmo, ser humano, pois é fácil ver que nos reinventamos a cada momento, em cada lugar, a cada geração.

Nos reinventamos a partir do hoje e do ontem, numa eterna roda da vida.

Os clássicos têm me mostrado as frases que minha querida avó, recém-falecida, já dizia em seus quase cem anos de vida. Ela as ouvia de seus parentes ascendentes e contemporâneos.

Em momentos e lugares distintos, essas frases foram parar nas obras e/ou saíram das obras para a língua do povo, numa convivência sadia e que faz a língua viva.

O que nos reserva o amanhã senão essa mesma textura de frases de nossos jovens internautas que navegam com frases que variam desde "cair a ficha" (sendo que não existem mais fichas telefônicas) até sua recém-criada linguagem cibernética e "msmnica" ("dps", "fds", "rsrsrs...") e por aí afora?

Sem dúvida, o amanhã nos reserva a língua, a linguagem humana de amanhã.

William Mendes

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(Comentário: passei na matéria com a nota 7,0)

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Post Scriptum: para a leitura das postagens sobre a leitura da obra, é só clicar aqui e ir acessando a seguinte ao final da leitura.


BIBLIOGRAFIA:

ROJAS, Fernando de. La Celestina – tragicomedia de Calixto y Melibea. Colección Austral n. 195. Undécima Edición, 1971. Espasa-Calpe, S.A. Madri.

GILMAN, Stephen. La Celestina: arte y estructura. Taurus Ediciones, S.A. Reimpresión 1982, España.


quinta-feira, 4 de junho de 2009

Leitura: O encontro - Anne Enright, de 2007



Refeição Cultural

Como tenho um certo fascínio inexplicável pela Irlanda e tudo relacionado a ela, li o livro O encontro de Anne Enright com muita expectativa (ver sobre o livro aqui). Terminei a leitura em dezembro de 2008.

A expectativa, no meu caso, procede, pois para quem já leu Dublinenses e Ulisses, ambos de James Joyce, sempre esperará muito dos irlandeses.

Não gostei muito da leitura, não.

Confesso que não ajudou muito a forma como eu li o livro: lendo-o e parando o tempo inteiro. A leitura foi meio truncada.

Mas isso também não serve de desculpa, pois quase todos os livros que leio são assim, com muitas pausas, porque leio diversos livros ao mesmo tempo. 

Nem por isso, deixo de apreciar boa parte dos livros que leio quando termino a leitura, como aconteceu recentemente com o livro Todos os nomes, de José Saramago. Gastei um século para lê-lo e fiquei fascinado com a obra.

Mas valeu a experiência e futuramente eu o leio de novo.

William

04/06/09

terça-feira, 2 de junho de 2009

Livro: Mídia e poder político na atualidade brasileira - Bortolotti e Lima



Refeição Cultural

Formação e informação (Contribuições dos blogs)

Começo um novo desafio este ano como secretário de formação da Contraf-CUT e além dos projetos e prioridades que a diretoria da entidade definir, pois acredito muito em planejamento e construção de projetos coletivos, espero poder contribuir periodicamente com meus companheiro(a)s dirigentes e de base escrevendo textos sobre o que penso e acredito sobre formação sindical.

Um dos pilares de uma boa formação passa pela aquisição de boa informação para, a partir dela, ter-se melhor capacidade de tomada de decisão sobre os diversos fatores envolvidos nos problemas e contendas diárias.

Por exemplo, li hoje um livro organizado pelo Sindicato dos Bancários do Ceará muito interessante, fruto de um debate promovido por eles recentemente, tratando do tema da mídia e o poder político - Mídia e Poder Político na Atualidade Brasileira, de Nonato Lima e Plínio Bortolotti.

Os jornalistas nos apresentam de forma sucinta a história da imprensa mundial e brasileira e as técnicas de linguagem empregadas para informar, e muitas vezes para manipular, os leitores. O livro fala também da concentração dos veículos de informação.

Na 1ª parte, Plínio Bortolotti nos dá um breve histórico do jornalismo e nos informa sobre a concentração de poder midiático na mão de poucas famílias no Brasil e no mundo.

"Até 1990, as empresas transnacionais de comunicação, ou seja, mundializadas, eram 50. Esse número caiu para 27 em meados dos anos noventa. Ou seja, eram 27 grandes empresas de comunicação que dominavam tudo aquilo que se via, lia e ouvia: o campo da produção de discos, CDs, jornal, rádio e TV". p.16

Nos anos 2000 o número caiu para 7 empresas. São elas: Time Warner, Disney, Universal, Viacom, Bertelsmann, Sony e News Corporation.

No Brasil, dados mostram que a concentração de poder da mídia dobrou na última década: "se antes havia 20 grupos de comunicação, hoje há 10" p.14

Na 2ª parte, Nonato Lima fala dos 15 anos da Rádio Bancários do Ceará e discorre de forma brilhante sobre análise de discurso como referencial analítico.

"A mídia assume esse papel de mediação, ela se coloca como uma instituição, como uma instância social, política e histórica neutra. Ela seria capaz de dar conta desse conflito social, político e ideológico e, dando conta disso, estaria cumprindo rigorosamente seu papel social e histórico, atendendo ao conjunto da sociedade. É assim que se fala sobre ela. No entanto, é bom que a gente diga que a mídia, na verdade, mesmo arguindo para si todas essas características, ela fala sobre o mundo, sobre os fatos sociais, mas, na verdade, fala de algum lugar da sociedade e, portanto, não é neutra". p.29

Aqui vai uma reflexão que quero partilhar com todas as pessoas que militam na formação sindical e de organização de base. Todos os dias, devemos instigar nossos colegas bancários sobre a retórica alienante de suposta "imparcialidade", "neutralidade" ou "isenção" das informações que os cercam, seja vinda do banco ou dos demais veículos midiáticos.

Nós, seus representantes e colegas, também não somos imparciais. Nós temos lado, e é o da classe trabalhadora.

Se podemos indicar algumas opções de canais de informações mais fidedignos com os interesses deles, que são trabalhadores, devemos fazê-lo. Além dos veículos de informação do movimento sindical e associativo, são de destaque nacional e de fácil aquisição revistas como a CartaCapital, a Revista do Brasil (feita pelo movimento sindical), a Revista Fórum e a Caros Amigos.

Não estou fechando a indicação nessas quatro. Apenas cito essas como exemplo, pois têm circulação nacional e podem ser encontradas de forma mais fácil. Cada entidade sindical pode indicar em sua região bons veículos regionais de informação.

O que não podemos é nos calar diante da manipulação das informações promovida pela grande mídia e, o que é pior, muitas vezes nos pautarmos por essa manipulação.

"A linguagem não é um lugar neutro; não é um instrumento que mostra o mundo. A linguagem é mundo, pois o mundo se faz presente ali e, portanto, o conflito histórico-social também se materializa nos discursos". p.30

Mais adiante, Nonato deixa claro sua opinião de que não há como separar hoje política de comunicação: "Não há política sem comunicação e, hoje, mais ainda, sem meios de comunicação, porque aí se incluem rádio, televisão, jornal, Internet etc. Então, a política não se faz mais fora dos meios de comunicação". p.35

Eu aproveito a deixa para parafrasear o autor e digo:

Não há formação sem comunicação. Hoje é fundamental formar informando.


* William Mendes é secretário de Formação da Contraf/CUT.


Bibliografia:

BORTOLOTTI, Plínio e LIMA, Nonato. Mídia e Poder Político na Atualidade Brasileira. Série Debates sobre Conjuntura. Ed. UECE. Publicação: Sindicato dos Bancários do Ceará. 1ª edição 2009.