Mostrando postagens com marcador Ano 2005. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ano 2005. Mostrar todas as postagens

domingo, 26 de outubro de 2025

Entrevista: Marilena Chaui (2005)



Refeição Cultural

Ao reler a entrevista da filósofa e professora Marilena Chaui, texto que abre a série de entrevistas feitas para o livro Leituras da Crise - Diálogos sobre o PT, a democracia brasileira e o socialismo, de abril de 2006, percebo o quanto a entrevista é seminal e trabalha conceitos que me ajudaram a ser dirigente sindical por mais de uma década no dia a dia da categoria bancária. 

A militância de esquerda vivia naqueles dias as contradições políticas suscitadas com a apelidada "crise do mensalão" e a entrevista de Marilena Chaui foi muito importante para mim.

As postagens de resenhas ou comentários sobre livros dão um trabalhão por causa das citações que faço no texto. 

Como estou relendo a entrevista e não vou fazer longas citações, citarei a página na qual o tema abordado me chamou a atenção. 

---

TEMAS FILOSÓFICOS DA POLÍTICA EXPLICADOS POR CHAUI

"O neoliberalismo é a decisão política de cortar a direção dos fundos públicos no polo dos direitos sociais ou do salário indireto, dirigindo a totalidade desses fundos ao capital (que deles precisa para continuar as mudanças tecnológicas) - os direitos sociais se convertem em serviços vendidos e comprados no mercado. É também a decisão de 'enxugar o Estado', privatizando as empresas públicas e 'desregulando' a economia, isto é, permitindo a concentração oligopólica da riqueza social e dando plena liberdade ao capital financeiro (ou ao monetarismo)." (p.37/38)


- Diferença entre a técnica e a práxis, segundo Aristóteles (p. 17)

- Ética pública, na qual a virtude central é a justiça (p. 18)

- Diferença entre a justiça do partilhável ou distributiva, referindo-se a distribuição de bens, e a justiça do participável ou participativa, referindo-se ao exercício do poder e à igualdade política (p. 18 e 19)

- A ética DA política e a ética NA política (p. 20)

- Os princípios da ética pública se encontram na qualidade das instituições republicanas e democráticas, porque os governantes são humanos e têm paixões, segundo Espinosa (p. 21)

- "Só pode haver república e democracia se o que agrada ao governante não tiver força de lei." (p. 22)

- "Ou seja, o partido formulou uma cultura política orientada pelas ideias de igualdade, justiça e participação, portanto, por virtudes políticas ou uma ética DA política." (p. 22)

- Direitos econômicos, sociais e culturais não podem ser convertidos em "serviços" (p. 23)

- Controle social do poder público através da auto-organização da sociedade (p. 23)

- Conceitos sobre liberdade de pensamento e de expressão, opinião pública etc (p. 25)

- Senado brasileiro: foi inchado pela ditadura de forma absurda e desde então nenhum presidente eleito consegue governabilidade por não ter maioria parlamentar (p. 26/27)

- "A indústria política dá ao marketing a tarefa de vender a imagem do político e reduz o cidadão à figura privada do consumidor (p. 28)

- Sobre os efeitos maléficos da burocratização do partido e dos movimentos organizados, Chaui nos dá uma aula espetacular! (p. 34/35)

- A parte sobre o neoliberalismo é tão esclarecedora conceitualmente que até vou pôr uma citação na abertura da resenha (p. 36 e seguintes)

- Chaui toca no assunto da política econômica do 1° governo Lula, o tal equilíbrio fiscal era para ser política de transição e virou permanente (p. 40)

- A filósofa explica o que é totalitarismo (p. 43 e seguintes)

- "Enquanto no absolutismo a fórmula é 'o Estado sou eu' (o 'eu' é o rei), no totalitarismo a fórmula é 'a sociedade sou eu' (o 'eu' é o Estado)." (p. 44)

- A professora explica o que é populismo e caracteriza a sociedade brasileira como uma república oligárquica (p. 49)

- Ao falar das experiências da URSS e China, o chamado "socialismo real", Chaui explica que aquilo não foi socialismo, pois não havia democracia (p. 51)

- Na parte final da entrevista a professora descreve o que é o socialismo do ponto de vista econômico, político, social e esclarece por que socialismo e democracia são inseparáveis (p. 51 a 55)

---

Comentário final 

A atualidade da entrevista e os conceitos abordados pela filósofa Marilena Chaui são impressionantes!

Para fechar a releitura do livro, falta agora ler o texto que Chaui disponibilizou na edição sobre democracia e transparência. 

É isso!

É significativo ler essa entrevista no dia que rememoramos o assassinato do jornalista Vladimir Herzog há 50 anos (25/10/75).

Temos o dever de seguir na luta contra o capitalismo e por uma sociedade socialista e democrática. 

William Mendes


Bibliografia:

CHAUI, Marilena; BOFF, Leonardo; STEDILE, João Pedro; DOS SANTOS, Wanderley Guilherme. Leituras da Crise - Diálogos sobre o PT, a democracia brasileira e o socialismo. 1a edição. São Paulo, Editora Fundação Perseu Abramo, 2006.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Entrevista: Leonardo Boff (2005)



Refeição Cultural

A Fundação Perseu Abramo publicou em abril de 2006 o livro "Leituras da crise - Diálogos sobre o PT, a democracia brasileira e o socialismo". À época, a entrevista da filósofa Marilena Chaui foi fundamental para mim, dirigente sindical da categoria bancária. 

Estávamos no ano de eleições presidenciais e o primeiro governo Lula havia enfrentado uma crise política motivada principalmente pelas questões de financiamento de campanhas eleitorais, crise batizada pelos nossos inimigos de classe como crise do "mensalão", uma invenção do deputado Roberto Jefferson (PTB) em entrevista à Folha de S. Paulo, à Renata Lo Prete, em junho de 2005. 

A crise trouxe à público a questão do "caixa dois", prática de uso de recursos não contabilizados formalmente pelos partidos. Dirigentes do PT e aliados tiveram que responder a processos referentes a isso.

Feita a contextualização do momento no qual o livro foi lançado, registro a atualidade dos pensamentos e reflexões de Leonardo Boff, ao rever a entrevista. Mais ainda, a leitura de "A Carta da Terra", aprovada em 14/03/2000 pela Unesco, me fez lembrar o quanto é antigo e urgente o tema do colapso social e ambiental. O documento deveria ser adotado por todas as instituições da sociedade humana. 

Enfim, eu não teria condições de destacar na postagem tudo que considerei relevante, são dezenas de páginas de reflexões e ideias extraordinárias. 

Cito alguma coisa e sugiro aos leitores do blog que leiam na íntegra as 4 entrevistas do livro. Vocês vão se surpreender com a atualidade das reflexões de Chaui, Stedile, Wanderley Guilherme e Boff.

---

UTOPIA

"A utopia pertence à realidade. A realidade nunca é apenas o dado empírico. Ela contém dentro de si infindas virtualidades e possibilidades."

-

IMPORTÂNCIA DA BASE

"Ligados organicamente às bases, os políticos são continuamente educados, reeducados pelo povo e nele encontram mil razões para continuar a lutar por causas justas que atendam às demandas desse povo."

-

INDIVÍDUO E REVOLUÇÃO 

"A revolução, para ser radical (mudança de rumo na história para atender às demandas da população sistematicamente negadas), precisa envolver todo o homem e todos os homens." (A palavra homem está aqui como genérica de homens e mulheres)

-

"Cada sujeito deve ser envolvido nesse processo e ele mesmo mudar. Se não mudar, a revolução em algum momento mostrará seu impasse. Foi por não ter tido cuidado com esse processo global, que inclui o sujeito concreto e pessoal, que o socialismo, no meu entender, abortou seu projeto libertador."

-

"O sujeito não pode ser entendido nos moldes do liberalismo e da visão burguesa da sociedade, em seu esplêndido isolamento e independência. O sujeito é sempre e concretamente um nó de relações, não apenas sociais (a tendência do pensamento de Marx), mas de relações totais e em todas as direções, até aquelas que incluem o transcendente e a sede de infinito."

-

"Não basta que sejam transformadas apenas as relações sociais. Cada sujeito deve ser envolvido nesse processo e ele mesmo mudar."

-

"Viva de tal maneira que aquilo que você vive possa ser válido para todos os demais seres humanos." (Kant)

-

Sobre o PT 

"Pretendeu, na linha de Paulo Freire, fazer dos pobres e excluídos, uma vez conscientizados e organizados, os sujeitos do processo de libertação."

-

TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO 

Nesta parte da entrevista, Boff explica o que é a Teologia da Libertação, fala sobre o papa Wojtyla (João Paulo II, inimigo da Teologia da Libertação) e Ratzinger (Depois Bento XVI), sobre marxismo e socialismo real etc. Muita informação relevante. 

"A Teologia da Libertação é uma teologia militante. Não se contenta em pensar a ortodoxia apenas como se faz normalmente nas faculdades de teologia. Quer a ortopráxis, quer dizer, incentiva uma prática que nasce do capital religioso do cristianismo, mas visa transformar a realidade social por considerá-la dissimétrica (analiticamente), injusta (eticamente) e pecaminosa (teologicamente). Essa libertação tem de ser libertação mesmo, quer dizer, não pode ser assistencialista e paternalista - que faz para os pobres, mas não se dá conta da força histórica dos pobres. Ela somente é libertadora se tiver os oprimidos (que são pobres e simultaneamente cristãos) como sujeitos de sua libertação, libertação com os pobres e a partir dos pobres. A igreja é apenas aliada e fornece os espaços institucionais aos pobres."

-

Uma alternativa ao capitalismo 

"No fundo se pensava: o capitalismo não ocupa todo o espaço, há um antipoder, uma alternativa possível de organização das sociedades humanas, com limitações e avanços que não se podem desconhecer. Defendia-se não tanto o socialismo real, mas a oposição ao capitalismo."

-

"A derrocada do socialismo atingiu a Teologia da Libertação, pois sabíamos que sem ele começaria a barbárie do capitalismo."

-

A Teologia da Libertação e Marx

"A Teologia da Libertação nunca teve Marx como pai nem como padrinho. Ela bebeu primeiramente de sua própria fonte, que é a tradição judeu-cristã, que sempre deu centralidade aos pobres, ao tema da libertação do cativeiro egípcio e babilônico e à prática histórica de Jesus, que foi pobre e disse 'felizes de vocês pobres e ai de vós ricos'. E que não morreu tranquilamente na cama como um piedoso rabino cercado de discípulos, mas na cruz, fruto de um juízo político-religioso que o condenou com o castigo dado a revoltosos sociais."

-

"Mas ela encontrou em Marx as boas razões para entender por que o pobre não é pobre, e sim um explorado e injustiçado. Ele é um empobrecido, feito pobre por fatores de ordem econômica, social e cultural, que hoje ganham corpo especialmente no capitalismo."

-

Natureza e ambientalismo

"Precisamos de outro paradigma de civilização, que inaugure outro tipo de relação, não contra a natureza, mas em sinergia com ela."

-

RETOMAR O CONTATO VIVO COM AS BASES

"Os membros do PT encontrarão mil razões para viver, para continuar no PT, quando se ligarem à vida concreta do povo."

-

"A insensibilidade social dos estratos poderosos de nosso país é simplesmente criminosa."

-

A LUTA PELA SUPERAÇÃO DAS DESIGUALDADES 

"O que escandaliza no Brasil não é tanto a pobreza mas a desigualdade social, porque ela esconde uma grave distorção política e ética da sociedade. Politicamente, significa que a sociedade não foi pensada para todos, mas fundamentalmente para atender às demandas das elites e dos incluídos no sistema de acumulação. Eticamente, significa uma falta perversa de humanidade, de solidariedade social e de compaixão para com a desgraça dos demais concidadãos."

-

"Tudo o que se fizer para salvar vidas que estão sob risco não é assistencialismo nem paternalismo mas humanitarismo básico, em grau zero. Se falto a esse gesto me torno inumano e me faço inimigo de minha própria humanidade."

-

Fé-libertação 

"O povo é pobre e religioso. Durante séculos vivia uma fé-resignação. A partir dos anos 1960 começou a viver uma fé-libertação."

-

DEMOCRACIA SEM FIM E ÉTICA 

"Em ética não podemos ser ambíguos nem tergiversar. É de sua natureza a inteireza e a transparência."

-

"Neste ponto prefiro ser kantiano: 'Age de tal maneira que tua ação possa ser válida para todos'. Se o PT aceitar o jogo da ética dominante, utilitarista e a serviço de interesses não coletivos, ele jamais inaugurará uma ruptura ética na política e perpetuará a sociedade que queremos exatamente superar..."

-

CRISE ECOLÓGICA GLOBAL 

"A grande maioria da humanidade não se conscientizou suficientemente da singularidade do momento histórico que estamos vivendo. Nunca uma civilização como a nossa se propôs como meta explorar a Terra e seus recursos de forma ilimitada como no capitalismo..."

---

COMENTÁRIO FINAL 

Enfim, amig@s leitores, a resenha ficou grande, e deu trabalho fazê-la. 

Como digo a vocês, leiam a entrevista inteira. Nem parece que foi feita há 20 anos, de tão atual.

Sigamos estudando e compartilhando conhecimento. 

Podemos salvar a humanidade e o planeta através da educação, ciência e cultura. 

William 

sábado, 27 de setembro de 2025

Entrevista: João Pedro Stedile (2005)



Refeição Cultural

A entrevista concedida por João Pedro Stedile, liderança do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), ao professor Juarez Guimarães para a confecção do livro "Leituras da crise - Diálogos sobre o PT, a democracia brasileira e o socialismo" (2006), livro editado pela Fundação Perseu Abramo, é uma aula extraordinária sobre o nosso país e as questões centrais à nossa classe, a classe trabalhadora.

À época, as entrevistas reunidas no livro foram fundamentais para entender melhor a crise do ano de 2005 - apelidada pela oposição e pela imprensa capitalista de "crise do mensalão" -, ocorrida no primeiro mandato do presidente Lula, do Partido dos Trabalhadores. 

Eu estava no começo do segundo mandato de representação de meus colegas bancários e todas as reflexões políticas e filosóficas que li e ouvi me ajudaram no diálogo com a base, e eu estava muito envolvido no trabalho de base da categoria. 

Tanto é verdade o que afirmo que durante o ano de 2005 e 2006 os locais onde me sentia mais acolhido eram nos departamentos e agências do BB, porque os bancários e bancárias conheciam minha atuação em defesa de nossos direitos e demonstravam apoio ao meu trabalho político e organizativo, mesmo sendo um militante petista e cutista, alvos das oposições de direita e conservadoras e das oposições que se diziam "mais à esquerda" que nós (coisa questionável).

O livro foi importante para mim e segue atualíssimo em seu conteúdo neste momento da história brasileira, ano de 2025!

---

"O Estado brasileiro é um Estado montado pelas elites para unicamente garantir seus privilégios."

Essa afirmação feita por Stedile em 2006 serve para qualquer período da história do Brasil sob análise. Ela pode ser dita hoje, 2025, e poderia ser dita no passado, em 1968 ou 2016, ou ainda em 1888 ou 1889.

Seguem algumas afirmações de Stedile. 

SAIR DA CRISE COM A ENERGIA DO POVO 

"A verdadeira natureza da crise não era apenas ética; era uma disputa entre as classes dominantes para transformar o governo Lula em refém das políticas neoliberais."

-

"A nossa força não está apenas na justeza das nossas ideias, está no contingente que conseguimos organizar para as mudanças."

-

"Nós achamos que há uma alternativa para o governo; não basta o governo ficar respondendo se há ou não corrupção - isso é secundário nesta altura da luta de classes. O que é importante é o governo recuperar o debate na sociedade sobre a necessidade de um novo modelo econômico para o país." (o MST disse isso de viva voz a Lula durante a crise)

-

O DESAFIO DAS FORÇAS SOCIAIS 

"A sociedade brasileira vive uma crise de destino, uma crise de projeto."

-

"Se você parte de uma análise, como certos setores da esquerda, que estão no governo, e das classes dominantes, de que a economia brasileira vai muito bem, a sua leitura é diferente (da) dos movimentos."

Comentário: Stedile explica bem os malefícios do agro e do modelo exportador do Brasil para o povo e o país. 

-

Consequências do neoliberalismo 

"Essa crise ideológica de valores talvez seja uma das consequências mais graves do neoliberalismo. E isso vai para dentro dos movimentos também - o dirigente sindical não quer ser presidente para se transformar num líder de massas, ele quer ser presidente porque em algum momento ele vai viver - ele pessoalmente - melhor do que sua categoria, por benesses. Isso é o antivalor: eu quero resolver o meu, e não o da minha categoria."

-

Stedile explica que 1964 e 1989 foram dois momentos brasileiros de derrotas dos movimentos populares no país. E quando Lula foi eleito em 2002 era um momento de descenso dos movimentos. 

"Costumo citar uma fala do Eric Hobsbawm em que ele considerou extemporânea a vitória do PT nas condições históricas do Brasil. Por quê? Normalmente a esquerda ganha eleições, ou seja, batalhas eleitorais, como fruto do ascenso do movimento de massas. Nós aqui tivemos uma vitória da batalha eleitoral importante, que foi a vitória do Lula, mas em um momento de descenso."

-

"As esquerdas, se quiserem ser consequentes, têm que trabalhar com uma visão de longo prazo."

-

Tarefas dos movimentos sociais de esquerda 

1. Formação política da militância: preparar pessoas que interpretem a realidade e tenham capacidade de transformá-la

2. Voltar a fazer trabalho de base, o que significa organizar as pessoas nos seus locais de vivência, seja na fábrica, na comunidade rural, no colégio ou universidade 

3. A necessidade de priorizar o trabalho com a juventude pobre urbana, setor social que representa as reservas e a vontade de mudanças 

-

LUTA DE MASSAS

"Quando não se prioriza a luta de massas, abandona-se também a concepção de que o povo é e deve ser o principal ator político das mudanças."

-

"O problema não é a via institucional; ela faz parte da vida das pessoas, nós vamos debater sempre, vamos participar sempre. O problema é ter abandonado o outro lado, a luta de massas. Porque são as lutas de massa que acumulam força, que educam as massas; os militantes e os quadros são educados na formação política, mas as massas são educadas na luta. E, quando não se prioriza a luta de massas, abandona-se também a concepção de que o povo é e deve ser o principal ator político para as mudanças."

COMENTÁRIO: aqui cabe um comentário do blog, quando critico o movimento sindical por não fazer mais assembleia presencial: isso é péssimo! Não educa a base! Se o dirigente sindical não tira o trabalhador de seu trabalho sequer para ir a uma reunião para decidir seu salário e direitos, como ele quer que o trabalhador participe de uma manifestação política por democracia ou direitos políticos ou civis?

-

"As eleições não transformam o povo em agente de mudança. Nas eleições o povo é um mero ator passivo que vai até a urna e deposita o seu voto e depois não tem controle nenhum, tanto é que nem se lembra em quem votou, para quem ele deu esse poder de representação."

-

"Só haverá uma inflexão mais democratizante do governo se houver pressão das bases partidárias, dos movimentos sociais e das mobilizações de massa."

-

SOBRE O MST E A LUTA PELA REFORMA AGRÁRIA 

"O neoliberalismo afetou decisivamente a viabilidade da reforma agrária no Brasil."

-

O MST é diferente da esquerda ortodoxa 

"Incorporamos no movimento a ideia da autonomia do partido, mas incorporando no movimento social princípios organizativos que os partidos tinham preservado ao longo da luta de classes. Então, a ideia da formação de quadros, de ter os nossos jornais, de ter as nossas escolas, a ideia de núcleo de base, tudo isso aprendemos da luta de classes em geral, ou seja, que os partidos eram os condutores - e nós incorporamos no movimento. Essa é a novidade do MST."

-

"A reforma agrária no Brasil não é viável se não for parte de um projeto antineoliberal ou antiimperialista."

-

Stedile já avaliava em 2006:

"Hoje estamos vendo que o neoliberalismo no campo, na agricultura, é a subordinação completa das formas de organização da produção agrícola às transnacionais e ao capital financeiro - isso inviabiliza definitivamente a possibilidade de organizar a produção camponesa."

-

"Então, os nossos inimigos antes eram o latifúndio atrasado, patrimonialista, que reservava a terra como poder econômico e político. Desde a década de 1990, para a reforma agrária avançar precisamos enfrentar um poder muito maior, o poder do agronegócio, das transnacionais, do capital internacional e suas alianças internas, como a própria mídia."

-

Tem uma parte da entrevista na qual Stedile explica as estratégias do MST, é uma espécie de texto "O que fazer". (p. 168 e seguintes)

-

"O capitalismo (...) agora, na sua etapa monopolista, não disputa mais a propriedade da terra conosco, ele disputa o controle da produção e da comercialização."

-

"E foi aí que fomos nos abastecer não só nas obras clássicas de Marx e dos que procuraram interpretar o capitalismo depois de Marx - e fugimos do reducionismo de 'marxismo-leninismo'; a nossa visão é de que todos os pensadores vão contribuindo numa elaboração permanente da ciência e da reinterpretação da realidade."

-

Reforma agrária adequada ao caso brasileiro 

"E chegamos à seguinte síntese, que ainda está em processo de construção: evidentemente não há mais espaço no Brasil para uma reforma agrária do tipo clássico capitalista, a burguesia não precisa distribuir terra, e, ao mesmo tempo, não adianta ficarmos sonhando com uma reforma agrária socialista, a famosa tese de Lenin de nacionalizar a propriedade da terra, isso também não resolve. Temos que construir um projeto de reforma agrária que seja coadunado com um projeto popular de desenvolvimento nacional."

-

"Se você não tiver vontade, se não tiver projeto, não constrói força para mudar."

-

"O agronegócio é a remaquiagem da velha plantation do colonialismo, não traz nenhum benefício para a sociedade brasileira."

-

Stedile nos explica a Lei Kandir (governo FHC), que isenta exportações de produtos primários de ICMS e tem efeito de transferir mais-valia social aos fazendeiros do agro, exportadores e mineradoras. (p. 177/178)

-

Princípios do MST

"Que princípios são esses? A ideia da direção colegiada, de não ter presidente, secretário, tesoureiro, embora as divisões de função existam; a ideia de direção coletiva; de formação de quadros; de garantir unidade e disciplina, não disciplina hierárquica ou militar, mas disciplina da democracia - se a maioria decide, é preciso que haja unidade em torno desta decisão; a ideia do trabalho de base; da luta de massas; e a ideia de inserção dos militantes e dirigentes em todo este trabalho."

-

Simbologia 

"Ao mesmo tempo, outros sociólogos nos criticam por recuperarmos a cultura, a mística (...) Procuramos em todas as atividades do movimento incorporar essa visão pedagógica de cultivar o nosso projeto com atividades culturais, com atividades lúdicas, com a simbologia."

-

"Faz-se isso em jogo de futebol, em tudo o que tiver massa você usa o símbolo, porque ele resume, ele sintetiza e aglutina em torno do projeto, do objetivo coletivo: bandeira, hino, cantos, alegorias, passeatas, palavras de ordem, tudo isso chamamos de mística."

-

SOBRE A CONJUNTURA POLÍTICA NACIONAL 

"A classe dominante faz a disputa política e ideológica não pelo partido, mas pelos meios de comunicação."

-

"É no meio do povo, da mobilização de massas, que vão se reconstruindo forças e rearticulações de poder real que podem mudar."

-

Lição final: está desanimado ou em crise, vá para a base!

"Nós do MST, e aconselho isso a todos os amigos/as, quando desanimamos sempre nos colocamos como tarefa: voltar e passar uma semana no meio do povo, num assentamento, num acampamento, e lá nós recuperamos as energias. Porque, no fundo, é no meio do povo, da mobilização de massas, que vão se reconstruindo forças e rearticulações de poder real que podem mudar."

---

Comentário final 

Que entrevista extraordinária! Mais atual que nunca!

Essas lições são de 2006. 

Por esses dias, vi uma entrevista de Stedile à CartaCapital, e aprendi tanta coisa que nem digo aqui. Daria outro textão.

Ouçam as lideranças do MST! É muita sabedoria, amigas e amigos leitores.

William

27/09/25 (22h14)

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Entrevista: Wanderley Guilherme dos Santos (2005)



Refeição Cultural

Em 2006, a Fundação Perseu Abramo lançou o livro "Leituras da Crise - Diálogos sobre o PT, a democracia brasileira e o socialismo". O professor de economia Juarez Guimarães entrevistou 4 personalidades de diferentes áreas do conhecimento humano, uma delas o cientista político e professor Wanderley Guilherme dos Santos. 

À época, eu era dirigente sindical da categoria bancária e as entrevistas me ajudaram bastante a compreender as contradições inerentes à política partidária e oriundas da democracia e me ajudaram no diálogo com meus colegas bancários sobre a crise política (vulgo "mensalão") daquele momento em 2005 do governo Lula e do Partido dos Trabalhadores. 

Rever as entrevistas neste momento brasileiro, no qual 12 deputados do PT votaram a favor da PEC da impunidade no Congresso Nacional, não deixa de ser uma forma de tentar compreender as contradições do jogo democrático, e lembro que compreender não é concordar, é compreender. 

---

O GRANDE JOGO IMPUGNATÓRIO

Cito algumas frases e opiniões interessantes de Wanderley Guilherme dos Santos. Ele afirmava em seus artigos que a oposição tentou um golpe em 2005.

Juarez Guimarães deixou que o entrevistado argumentasse contra as ideias contrárias à sua leitura à época: que as elites econômicas eram beneficiadas e então não queriam golpe; que a oposição ao governo Lula tinha direito legítimo de tentar o golpe ou inviabilizar o governo porque o PT havia feito o mesmo; e que a crise era consequência da existência de corrupção no governo e de caixa dois. 

Ao longo das citações do professor Wanderley, teço alguns comentários.

-

"O que tivemos agora foi um caso estritamente de tentativa de golpe por parte de forças políticas fora do poder."

-

"Quando se fala em elite, se pensa logo em elite econômica. Não, elite são todos esses jornalistas que têm coluna, por exemplo."

-

"A opinião do PT e das oposições durante os oito anos do governo Fernando Henrique era totalmente irrelevante do ponto de vista parlamentar, não tinha força para fazer coisa nenhuma; se tivesse força o governo Fernando Henrique não teria aprovado 18 emendas constitucionais no seu primeiro mandato."

Wanderley disse que a oposição a FHC era de no máximo 144 deputados. 

-

RETÓRICA DA "JAGUNÇAGEM"

"Não, estou dizendo que julgamento político não é um julgamento que abdica de fatos (...) tem de haver um fato; dizer que isso não importa porque o julgamento é político é uma barbaridade, isso é nazismo, é um julgamento nazista."

-

DESQUALIFICAÇÃO DO VOTO

"Ao analisar as últimas pesquisas [de janeiro/fevereiro de 2005], que revelam a recuperação da imagem do presidente Lula, os comentaristas reacionários que participaram do grande jogo impugnativo fizeram questão de acentuar que a recuperação é entre os mais pobres e menos educados."

Achei interessante o entrevistado chamar os analistas de "semi-intelectuais".

-

"A democracia brasileira é muito forte porque é muito complexa, há muitos interesses em jogo."

-

"O que vimos foi o presidente do PFL declarar: 'Não vamos deixar o governo governar'. Isso é um absurdo."

Wanderley faleceu em 2019, aos 84 anos. Imaginem se ele tivesse visto todo o descalabro que vivenciamos após a abertura da Caixa de Pandora, com o bolsonarismo...

-

A DEMOCRACIA ASSUSTA

"A democracia é uma bagunça, por definição. Não há como organizar a democracia - só não tendo democracia."

-

"A democracia assusta aqueles que sempre foram democratas enquanto a democracia não existia."

-

"Os nossos políticos de 50 anos atrás não faziam nem ideia do que era democracia porque nunca viveram uma. Os presidentes norte-americanos do século XIX jamais souberam o que é a democracia, embora falassem o tempo todo dela, porque jamais tiveram uma - mulher não votava, negro não votava."

-

MÍDIA E DEMOCRACIA 

"J. G.: O senhor identificou também outra moeda de troca, que seria o processo de controle da agenda - a imprensa, muitas vezes, quer controlar a agenda do governo como se controlasse a pauta de seus repórteres. 

- Exatamente..." (respondeu ele)

-

PRESIDENCIALISMO E MULTIPARTIDARISMO

"Se você quer avançar mais, se seu partido é comprometido com mudanças maiores que a rotina ou a inércia, tem que contar com dificuldades e oposições maiores."

-

"Qual é a versão que o principal partido da mudança no Brasil, o PT, tem a respeito de si próprio nas suas relações com o mundo privado?"

-

Juarez Guimarães pergunta sobre custo das eleições no Brasil e financiamento delas.

Wanderley repete sua questão sobre a relação do PT com o mundo privado e sua clareza com a militância e eleitores.

"Não é possível ter simultaneamente, fazendo parte do mesmo partido, a opinião de socialistas, religiosos e pragmáticos do crescimento econômico de qualquer maneira. E a verdade é que o PT está convivendo com isso e não tem tido coragem de enfrentar este problema. Insisto que isso é crucial - e não se resolve com a reforma eleitoral. Nenhuma reforma eleitoral vai resolver isso para o PT, podem perder a esperança."

O entrevistado disse isso faz duas décadas! Eu não concordo totalmente com ele, mas debateria a questão.

-

FINANCIAMENTO DAS CAMPANHAS 

"Não sou favorável ao financiamento público de campanha..."

Ele explica que as eleições já têm alto custo público em todo o processo. 

Amig@s leitores, eu destaquei pontos da entrevista, nada substitui a leitura do texto completo.

-

O GOVERNO LULA E O ESTADO BRASILEIRO 

"Há uma parte do Estado brasileiro que sempre foi inepta e outra parte que sempre funcionou bem."

-

"O Estado brasileiro nunca foi preparado para um governo a favor da população pobre."

Wanderley avalia que o governo Lula melhorou o Estado, a máquina pública, em geral. 

-

PT E PSDB

"O Brasil passou por um marasmo durante os oito anos de FHC, nada era possível, tudo estava fora dos limites da possibilidade."

-

Gostei da explicação do entrevistado sobre a história do PMDB: "Ideologia a favor de nada".

"E também o PMDB tem uma herança do tempo em que era MDB (Movimento Democrático Brasileiro) e, na verdade, tinha uma ideologia a favor de nada, apenas de ser contra a ditadura. Todo mundo que era contra a ditadura estava no partido. Quando acabou a ditadura e foi preciso definir do que ele era a favor, aí complicou."

-

Comentário final 

Foi bom reler o professor Wanderley Guilherme dos Santos avaliando a crise política de 2005 neste momento da história do Brasil, em 2025.

Os intelectuais têm muito a nos ensinar. Sempre!

William 

25/09/25 (0h35)

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Leituras Capitais (2005)



Refeição Cultural - CartaCapital nº 356, 24/ago/2005


Memórias

Ao ler esta revista semanal de política, economia e cultura com as informações de agosto de 2005, uma leitura feita em 2024, quase duas décadas depois daqueles acontecimentos e opiniões, me lembrei com facilidade da maioria dos temas abordados no semanário. O ano de 2005 foi um ano inesquecível, para o bem e para o mal.

---

Onde estava?

Eu era dirigente sindical da categoria bancária. Havia terminado o meu primeiro mandato como diretor do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região. Nos debates sobre a formação de chapa, me lembro que cheguei a pensar em voltar para o dia a dia do Banco do Brasil. Fui convencido a continuar contribuindo com as lutas da categoria. 

Pedi ao meu grupo político que designasse outra tarefa para mim, não quis continuar na Executiva do Sindicato. Permaneci na diretoria e passei a ser o representante paulista na Comissão de Empresa do BB da Fetec CUT SP e CNB/CUT. 

Seguiria fazendo trabalho de base, a tarefa que mais me completava e que dava sentido ao meu fazer sindical. Aliás, eu estudava muito justamente para fazer um bom trabalho de formação na base.

---

Crise do "mensalão" e tentativa de golpe

A revista CartaCapital 356, do final de agosto de 2005, traz matérias sobre a questão do chamado "mensalão", crise política e primeira tentativa de golpe que o governo Lula e o Partido dos Trabalhadores enfrentaram naquele ano. Não tem como esquecer o que enfrentamos. 

---

Um militante petista acolhido pela base de trabalhadores do BB

Eu era muito conhecido na base social onde atuava, era um dirigente que fazia muito trabalho de base, nas regionais do Sindicato: Oeste, Osasco e Centro. Neste ano especificamente, eu era o responsável pelo maior complexo de funcionários do BB em São Paulo: o Complexo do BB na Av. São João, o prédio ao lado do edifício Martinelli, sede do Sindicato.

O que posso dizer em um parágrafo é que nunca vou me esquecer da forma como fui acolhido carinhosamente pelas bancárias e bancários do BB por conhecerem meu trabalho sindical e saberem o quanto estava difícil ser pessoa pública de esquerda nos espaços sociais por causa da overdose de acusações na grande imprensa a qualquer pessoa que fosse apoiadora e militante petista. As pessoas que eu representava me acolheram e apoiaram. Essa confiança no meu trabalho foi a base da minha ética sindical e da minha dedicação até o último dia de representação da classe trabalhadora.

---

A edição CartaCapital 356

Além das matérias da política, outras me chamaram a atenção.

- Sócrates - O Magrão era vivo e escrevia na revista. Duas décadas atrás, o craque já nos explicava sobre os dois tipos de técnicos de futebol mais característicos: aqueles que conquistavam seus comandados com honestidade e integridade e os que o faziam com terror e opressão. O Dr. Sócrates temia pelo futuro do esporte e de todos nós na sociedade humana.

- Viva o médico de família (artigo de Rogério Tuma) - Outra excelente matéria da revista de agosto de 2005 foi sobre um tema que eu viria a me tornar um bom conhecedor tempos depois. 

Nos anos seguintes, nós do Banco do Brasil fizemos grandes debates sobre o modelo preventivo de saúde baseado na medicina de família e comunidade. 

A Cassi, autogestão dos funcionários do BB, tinha mudado radicalmente sua concepção desde a reforma estatutária de 1996 e estava num processo de construção de um modelo próprio de atenção primária, baseado na Estratégia de Saúde da Família (ESF) com clínicas de atendimento próprias - CliniCassi - e eu acabei sendo gestor eleito do modelo de saúde entre 2014 e 2018.

---

É isso! O presidente Lula seguiu firme e até hoje o temos do nosso lado nas lutas da classe trabalhadora.

William 

11/01/24


sábado, 27 de junho de 2009

Releitura: O Ócio Criativo - Domenico de Masi (Ed. 2000)



Refeição Cultural

Li este livro de Domenico De Masi em 2005 e, apesar de lê-lo vacinado pelas referências de que o autor seria de linha mais à direita em termos políticos, gostei do livro e das ideias contidas nele.

Um dos capítulos que já li várias vezes é o primeiro "Como os lírios do campo". Ele descreve e comenta a história do homem desde a sua criação enquanto homem, ou seja, desde 70 milhões de anos atrás até os dias atuais.

Consultei o capítulo novamente após um dos debates deliciosos que fazemos constantemente na Contraf-CUT. Tenho o hábito de fazer pequenas provocações aos meus amigos da imprensa, com os quais trabalhei em meu primeiro mandato nesta secretaria.

O tema era sobre o ser humano ser um bicho que não aprende com o passado e que nós começaríamos sempre do zero. Essa observação me levou ao capítulo em questão, pois ele fala justamente o contrário, quer dizer, o que nos diferencia dos demais animais é justamente o fato de não começarmos do zero a cada geração. Nós somos alimentados desde o nascimento pelo caldo cultural que nos antecedeu.

No fundo, não quer dizer que eu não concorde que a nossa burrice enquanto ser humano está nos levando ao limite da existência, inclusive do próprio planeta. É que não posso confundir meu pessimismo com a natureza destrutiva e imbecil de nós mesmos com conceitos mais antropológicos e sociológicos.

Mas, vamos aos excertos do capítulo e suas ideias:

ATIVIDADES "OCIOSAS" DOS GREGOS

"O ócio é um capítulo importante nisso tudo, mas para nós é um conceito que tem um sentido sobretudo negativo. Em síntese, o ócio pode ser muito bom, mas somente se nos colocamos de acordo com o sentido da palavra. Para os gregos, por exemplo, tinha uma conotação estritamente física: 'trabalho' era tudo aquilo que fazia suar, com exceção do esporte. Quem trabalhava, isto é, suava, ou era um escravo ou era um cidadão de segunda classe. As atividades não-físicas (a política, o estudo, a poesia, a filosofia) eram 'ociosas', ou seja, expressões mentais, dignas somente dos cidadãos de primeira classe" p. 17

Lembrei-me, inclusive, do período anterior ao de hoje no Brasil, livre e democrático. Até bem pouco tempo as pessoas poderiam sofrer abusos das "autoridades" e serem presas por "vadiagem". Ou seja, tem carteira assinada? Não? Então, mermão, tá em cana por vadiagem!

ATIVIDADES DA ERA INDUSTRIAL INUTILIZAVAM O CÉREBRO

"A sociedade industrial não só fez com que, para muitos, se tornasse inútil o cérebro como também fez com que somente algumas partes do corpo fossem utilizadas. Isto era diferente da sociedade rural na qual o camponês, para usar a enxada ou a pá, assim como o pescador para pescar, além de utilizar o corpo inteiro, usava talvez um pouco mais o cérebro" p. 19

"ESTAMOS NUMA FASE DE TRANSIÇÃO. COMO SEMPRE" (Ennio Flaiano)

Apesar de haver mudanças em todas as épocas, nem todas mudam com a mesma intensidade e com a mesma velocidade.

MUDANÇA DE ÉPOCA x INOVAÇÃO

"Em determinados momentos, temos a sensação de que se trata de uma mudança de época. Porém, não é apenas um fator da História que muda, mas é todo o paradigma - com base no qual os homens vivem - que se altera. Isso, acontece quando três inovações diferentes coincidem: novas fontes energéticas, novas divisões do trabalho e novas divisões do poder. Se somente um desses fatores se alterasse, viveríamos uma inovação, mas, se todos eles mudassem simultaneamente, aconteceria um salto de época. Trata-se do mesmo conceito ao qual se refere Braudel, quando fala das ondas da História, que podem ser curtas, breves, médias ou longas" p. 23

1o PERÍODO DA HISTÓRIA HUMANA

"Quais foram, então, os momentos da História nos quais nós, seres humanos, atravessamos encruzilhadas, vimos que o mundo virava de cabeça para baixo, se tornava 'um outro' mundo?

Um primeiro longo período da história humana vai de setenta milhões a setecentos mil anos atrás. Durante este período, quem vivia não percebia nenhuma mudança, se sentia sempre igual. Trata-se da longuíssima fase na qual o homem criou a si mesmo: aprendeu a andar ereto, a falar, a educar a prole" p. 24

O ELOGIA DA IMPERFEIÇÃO

"Se refletirmos bem, estas são mudanças extraordinárias, todas elas decorrentes da compensação dos nossos defeitos. Rita Levi Montalcini explicou isso muito bem no seu livro L'elogio dell'imperfezione (O elogio da imperfeição). Tínhamos um olfato fraco, portanto não podíamos perseguir a caça farejando a terra, como fazem os animais, mas tínhamos que avistá-la: para isto devíamos caminhar de pé, já que a caça frequentemente fugia, desaparecendo na vegetação. Isto fez com que se tenham salvado somente aqueles indivíduos da nossa espécie que se tornaram mais aptos para caminhar eretos.

Como caminhar ereto implicava passar a dispor dos dois membros superiores - que já não eram mais usados para caminhar -, nós liberamos e especializamos as mãos, usando-as para compensar um outro ponto fraco: o da nossa mandíbula. Não tínhamos capacidade para agarrar a presa e esquartejá-la com os dentes e, por isso, usamos as mãos para construir utensílios e instrumentos.

Eis a outra grande novidade deste período: o homem descobre que pode fabricar objetos (...) A televisão ou o míssil não são senão o resultado posterior do hábito inovador adquirido naquele período, sem o qual nós teríamos desaparecido, pois não éramos nem os mais rápidos, nem os mais fortes, nem os mais capazes.

NÓS NÃO COMEÇAMOS DO ZERO

(...) Em resumo, naquela época aumentamos e potencializamos o cérebro, aguçamos a vista e liberamos as mãos. E educamos a prole. Aí está um outro fato extraordinário. Basta lembrar os dinossauros, cuja extinção também está associada ao fato de que, quando os ovos se abriam, a prole gerada já era autônoma e, portanto, não era educada pelos genitores. Cada dinossauro recomeçava do zero." p. 25

Um filme excelente para ilustrar essa longa trajetória do ser humano é A guerra do fogo, de 1981, dirigido por Jean-Jacques Annaud.

"E somos os únicos animais que não recomeçam sempre do início, mas que, além das características hereditárias e do saber instintivo, recebem dos adultos o saber cultural" p. 25

O capítulo segue com ideias fantásticas como o primeiro motor inventado pelo homem: o cachorro (lobos e chacais). Também fala da invenção da arma revolucionária Arco e Flecha; da invenção do ato de enterrar os mortos e da ideia de seguir a vida após a morte. E por aí vai.

É muito interessante para pensarmos um filme de nossa história humana.

William Mendes


Bibliografia:

DE MASI, Domenico. O ócio criativo. Entrevista a Marisa Serena Palieri. Editora Sextante. 4ª edição (2000).

domingo, 23 de março de 2008

2 Filhos de Francisco, de Breno Silveira (2005)


Poster do filme, 2005.

Refeição Cultural - 2 Filhos de Francisco

Direção: Breno Silveira - 2005

Com: Ângelo Antônio (Francisco Camargo, pai da dupla mirim), Márcio Kieling (Mirosmar ou Zezé Di Camargo), Thiago Mendonça (Welson ou Luciano), Dira Paes (Helena Camargo, a mãe), Paloma Duarte (Zilú Godói).


Confesso que sou mesmo “nacionalista da gema” parafraseando a máxima carioca.

Cada vez que assisto a um novo filme brasileiro, mais me orgulho do quanto evoluímos na sétima arte.

Alguns filmes mexem conosco por tocar lá no nosso passado, na nossa história, por nos levar às nossas origens. Este então, transportou-me para a região de minha família.

O filme, que conta a história dos filhos de Francisco, na verdade, conta também a história de um montão de brasileiros como meu pai, meus tios e dezenas de primos. 

Tem um colorido de Brasil, tem cheiro e gosto de um Brasil que talvez pensem que está no passado, mas que basta pegar um ônibus e ir até alguns rincões do país para ver que vivemos no século XXI nas grandes capitais e nos séculos XX, XIX... quando nos afastamos delas.

Por que acho que o filme é bom?

É bom porque consegue ser um filme que não idolatra a figura dos cantores retratados na história. É bom porque não é um filme-comercial de música sertaneja.

É bom porque é um filme dos franciscos, dos joões, das marias. (apesar dos Mirosmar, Wesley, Mival etc - tão nosso, tão brasileiro!! - me lembra até de meus primos Miguel, Maurílio, Marciléu, Marli, Marceli...)

É bom porque assistimos com aquele saudosismo sempre inexplicável de dizer que antes as coisas eram melhores, mesmo sem serem de forma objetiva (ou serem opiniões forçosamente pessoais) – coisa talvez de quem já passou dos trinta!

O filme é bom para aqueles que já viveram por aquelas terras de Minas e Goiás e a cada instante vai identificando a cor, a textura, o contexto daquelas regiões que, apesar de serem ricas para uns, são paupérrimas para vários.

Já havia assistido ao filme no ano passado, porém, ao vê-lo novamente, me emocionei ao lembrar do principal objetivo de Lula quando chegou ao poder: melhorar a condição de vida de milhões de miseráveis nesta terra de riqueza mal distribuída.

Dos nove filhos de minha avó paterna mais os cinco de minha avó materna, praticamente todos passaram necessidades como esta família-francisco retratada.

Se é verdade que falta muito ainda para não vermos mais famílias naquelas condições de subsistência, é verdadeiro também o fato de que a possibilidade é muito maior quando temos alguém no comando do país com vontade política de priorizar a atenção aos milhões de excluídos.

É um filme com as nossas cores.

(comentei em 27.11.06, na época não tinha ainda o blog Refeitório Cultural)

-----------------------------

Post Scriptum (02/11/19):

Pois é, quanta coisa não resiste ao tempo! 

A estória do filme é boa (enredo): dois garotos pobres, do interior de um país, conseguem vencer na vida como cantores de música sertaneja. O rapaz fica com a moça no final. E viveram felizes para sempre. 

Agora, se for para falar dos sujeitos que inspiraram os personagens do enredo do filme, lascou! O cantor trocou a mocinha - depois que ela ficou mais velha - por uma moça da metade da idade dela. Dizem as notícias de famosos que ele escondeu o patrimônio para não dividi-lo com a ex-esposa. 

Os sertanejos, que foram até um certo momento da vida do país próximos a partidos e líderes populares, depois de fortuna formada, viraram a casaca e agora estão do lado dos endinheirados, que organizaram um golpe de Estado no país. É isso! E a vida real segue...

Podem assistir ao filme como ele é e deve ser: uma estória de ficção, com final feliz.

Edison - Poder e Corrupção (2005)


Poster do filme de 2005.

Refeição Cultural - Edison

Direção: David Burke - 2005

Com: Kevin Spacey (Wallace), Morgan Freeman (Moses Ashford), Justin Timberlake (Josh Pollack), LL Cool J. (Deed), Dylan McDermott (Lazerov) e Piper Perabo (Willow).


O que separaria no jornalismo de hoje um verdadeiro repórter que investiga e busca matérias de um repórter que só faz matéria que o seu chefe ou editor manda?

Qual a diferença entre os principiantes que publicam tirinhas nas colunas sociais e escrevem em espelho o que o chefe manda, de jornalistas e repórteres que vão atrás da notícia e que veem detalhes em fatos que podem revelar o impensável?

Perspicácia...

Curiosidade...

Tino investigativo...

Desejo de ser premiado...

Vontade de aparecer para agradar a namorada...


O simples “- Obrigado” de um réu para um tira (testemunha) em um julgamento leva Josh Pollack, um jornalista em início de carreira (Justin Timberlake), a fazer o que o seu editor-chefe Ashford (Morgan Freeman) não pediu: uma matéria cheia de conjecturas e suspeições sem prova alguma, ao invés do fato: a sentença do julgamento que ele foi cobrir.

Daí adiante, a trama segue com tiras e tiros, drogas e muito dinheiro sujo nos pilares de sustentação de uma sociedade podre.

Além da trilha sonora muito boa nas horas em que Freeman aparece em sua casa, chama a atenção os ensinamentos do velho editor Moses Ashford sobre o que é usar de forma correta o chamado 4º poder, e que, muitas vezes, as decisões que um jornalista deve tomar quando descobre uma verdade podem lhe custar muito caro, incluindo a perda de vidas.

A cena que mais curti foi ver o velho Morgan Freeman dançando sozinho em seu apartamento.

Gostei do filme e recomendo ele para quem gosta do tema jornalismo e reportagem.

Ver aqui detalhes do filme na Wikipedia.

(comentei originalmente em 10.2.07, quando ainda não tinha o blog)