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sábado, 5 de abril de 2025

Uma história da leitura: Leitura das sombras



Refeição Cultural 

"No momento em que o primeiro escriba arranhou e murmurou as primeiras letras, o corpo humano já era capaz de executar os atos de escrever e ler que ainda estavam no futuro. Ou seja, o corpo era capaz de armazenar, recordar e decifrar todos os tipos de sensação, inclusive os sinais arbitrários da linguagem escrita ainda por ser inventados. Essa noção de que somos capazes de ler antes de ler de fato - na verdade, antes mesmo de vermos uma página aberta diante de nós - leva-nos de volta à ideia platônica do conhecimento preexistente dentro de nós antes de a coisa ser percebida. A própria fala desenvolve-se segundo um padrão semelhante. 'Descobrimos' uma palavra porque o objeto ou ideia que ela representa já está em nossa mente, 'pronto para ser ligado à palavra'. É como se nos fosse oferecido um presente do mundo externo (por nossos antepassados, por aqueles que primeiro falam conosco), mas a capacidade de apreender o presente é nossa. Nesse sentido, as palavras ditas (e, mais tarde, as palavras lidas) não pertencem a nós nem a nossos pais, aos nossos autores: elas ocupam um espaço de significado compartilhado, um limiar comum que está no começo da nossa relação com as artes da conversação e da leitura." (Uma história da leitura, Alberto Manguel, 1999, p. 50)


No capítulo "Leitura das sombras" Manguel nos conta a história dos estudos ao longo dos séculos para tentar entender essa capacidade extraordinária do ser humano de escrever e ler, já que somos seres falantes.

Vamos descobrindo o que a ciência de cada época humana foi apontando sobre a capacidade humana de falar, escrever e ler.

Achei muito legal a imagem final do capítulo: quando estou lendo é como se por trás de mim, lessem também as sombras dos leitores que vieram antes de nós, a ideia clara de que somos fruto de processos coletivos e compartilhados de cultura.

"(...) ao seguir o texto, o leitor pronuncia seu sentido por meio de um método profundamente emaranhado de significações aprendidas, convenções sociais, leituras anteriores, experiências individuais e gosto pessoal. Lendo na academia do Cairo, al-Haytham não estava sozinho; como se lessem por sobre seus ombros pairavam as sombras dos eruditos de Basra que haviam lhe ensinado a sagrada caligrafia do Corão na mesquita de Aristóteles e seus lúcidos comentadores, dos conhecidos casuais com quem al-Haytham teria discutido Aristóteles, dos vários al-Haythams que ao longo dos anos tornaram-se finalmente o cientista que al-Hakin convidou para sua corte." (p. 53)


Apesar de todas as convenções sociais e histórias anteriores de leituras do texto que você está lendo, sua leitura é única, é nova, é sua.

Pensa no poder disso! Pensa!

Por isso, nós leitores somos tão temidos por nazifascistas, manipuladores da fé, ignorantes em geral, governos autoritários, instituições e empresas, porque ler é poder!

William 


terça-feira, 1 de abril de 2025

Instantes de leitura (e da vida)



Refeição Cultural

"Porque pictura est laicorum literatura" (O Nome da Rosa, Umberto Eco, 2003, p. 48)


Eu já havia lido quase duzentas páginas deste clássico de Umberto Eco quando tive a consciência de que estava lendo mal o romance. Parei. 

A lição de Paulo Freire é séria: não importa a quantidade e sim a qualidade da leitura. 

Recomecei a ler e sem pressa O Nome da Rosa (1980). Ler sem me concentrar e viajar na história com Adso de Melk e o Frei Guilherme de Baskerville seria pura perda de tempo, um tempo que não tenho de sobra mais. 

Na passagem que li hoje, a dupla de personagens está admirando o portal da igreja que compõe o conjunto arquitetônico da abadia que visitam. Eles estão hipnotizados com as pinturas desenhadas no portal.

Ler com atenção é a única leitura que dá prazer. Até a citação em latim entendi sem precisar de tradução. A lição é antiga: como o povo era analfabeto, eram as pinturas que contavam as histórias e passagens dos livros sagrados.

Enquanto lia as descrições das figuras que Adso de Melk nos contava, fiquei me lembrando das pinturas e esculturas em relevo que vi em igrejas famosas na Itália e outros lugares. É algo espetacular!

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"Você não pode embarcar de novo na vida, esta viagem de carro única, quando ela termina" (p. 37/38)

Quanto ao livro de Alberto Manguel, Uma história da leitura (1999), livro que marcou minha história da leitura, o peguei pra ler como um crente com sua Bíblia. 

A mensagem acima parece ter sido escrita para mim...

Não poderia perder um segundo desta viagem única, pois não poderei embarcar nela novamente, como podemos fazer com os livros, como eu fiz com o do Umberto Eco. 

Estou vivendo esta viagem única da mesma forma que estava lendo Umberto Eco meses atrás...

Que foda.

William 

sábado, 29 de março de 2025

Leitores: seres temidos!



Refeição Cultural 

"Mas não são apenas os governos totalitários que temem a leitura. Os leitores são maltratados em pátios de escolas e em vestiários tanto quanto nas repartições do governo e nas prisões. Em quase toda parte, a comunidade dos leitores tem uma reputação ambígua que advém de sua autoridade adquirida e de seu poder percebido. Algo na relação entre um leitor e um livro é reconhecido como sábio e frutífero, mas é também visto como desdenhosamente exclusivo e excludente, talvez porque a imagem de um indivíduo enroscado num canto, aparentemente esquecido dos grunhidos do mundo, sugerisse privacidade impenetrável, olhos egoístas e ação dissimulada singular. ('Saia e vá viver!', dizia minha mãe quando me via lendo, como se minha atividade silenciosa contradissesse seu sentido do que significava estar vivo.) O medo popular do que um leitor possa fazer entre as páginas de um livro é semelhante ao medo intemporal que os homens têm do que as mulheres possam fazer em lugares secretos de seus corpos, e do que as bruxas e os alquimistas possam fazer em segredo, atrás de portas trancadas..." (Uma história da leitura, Alberto Manguel, 1999, p. 35)


Profunda a percepção de Manguel sobre essa coisa quase inominável que há entre grupos humanos quando pessoas que gostam de ler e estudar e conhecer muito começam a ser foco de alguma forma de isolamento dos demais por bullying ou por escanteamento daquele ou daquela que pode a qualquer momento questionar o líder do referido grupo ao qual pertence. 

(Também há grupos sociais que valorizam os leitores e os que sabem muito, claro!)

A partir do momento que um leitor passa a dominar um tema - um saber - que a maioria ao seu redor não sabe, ou que o tema é domínio exclusivo de determinado grupo que usa aquele saber para obter qualquer tipo de vantagem, aquele leitor passa a ser um incômodo ou se torna alguém temido ou rejeitado, a depender da própria condição do leitor no status quo de seu grupo humano. 

Isso é claro e notório para os bons leitores e leitoras, aquel@s que leem nas entrelinhas e leem mais que palavras, leem o mundo ao redor.

Se olhasse para trás, conseguiria imaginar momentos no percurso do viver que ilustrariam o excerto acima. Sempre frequentei ambientes nos quais se lia pouco, a começar pelos ambientes da infância e adolescência. E depois na vida adulta. Sou fruto da sociedade humana de onde nasci.

Enfim... se entrei para as estatísticas dos poucos que leem foi por acasos, veredas da vida. Sorte.

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Vi o filme "Dias perfeitos" (2023), de Wim Wenders. 

Cara, estou até agora bolado com a história. 

Muitas questões colocadas, nenhuma resposta dada... senão seria fácil demais!

E quanto a mim? E meus dias perfeitos? Por que não? Por quê? O que me impede?

...

William  

sábado, 22 de março de 2025

Uma história da leitura: A última página



Refeição Cultural 

"De início, mantinha meus livros em rigorosa ordem alfabética, por autor. Depois passei a separá-los por gênero: romances, ensaios, peças de teatro, poemas. Mais tarde tentei agrupá-los por idioma, e quando, durante minhas viagens, era obrigado a ficar apenas com alguns, separava-os entre os que dificilmente lia, os que lia sempre e aqueles que esperava ler..." (p. 33/34)


O livro de Alberto Manguel "Uma história da leitura" (1997) faz a gente viajar, tanto na história dos livros e suas leituras e leitores, quanto em nosso próprio passado de leituras ou não leituras. 

Fiquei tentando me lembrar de minhas primeiras leituras...

Os gibis vêm em primeiro lugar nas lembranças. Foi em uma aventura do Tio Patinhas, Pato Donald e seus sobrinhos que conheci a mosca tsé-tsé que faz suas vítimas dormirem.

Foi em Uberlândia, onde cresci e vivi entre os dez e os dezessete anos, que comecei a ler livros. Não me lembro de ter trazido livro algum para São Paulo, quando vim morar com minha avó Deolinda e primos. Vim sem nada. Ou deixei o que tinha nos meus pais ou era tudo emprestado o que li. Eu lia muitos livros do Jorge Luiz, meu primo.

"(...) era tão arbitrária ou constituía uma escolha tão aceitável quanto a literatura que eu mesmo podia construir, baseado nas minhas descobertas ao longo da estrada sinuosa de minhas próprias leituras e no tamanho de minhas próprias estantes. A história da literatura, tal como consagrada nos manuais escolares e nas bibliotecas oficiais, parecia-me não passar da história de certas leituras - mais velhas e mais bem informadas que as minhas, porém não menos dependentes do acaso e das circunstâncias." (p. 34)

O que Manguel descreve sobre o acaso das leituras é bem verdadeiro em nossas histórias de leituras.

Durante os anos de crescimento em Uberlândia, eu fui lendo os livros que tomei emprestado, a maioria do meu primo. Eu ir a uma livraria comprar um livro era algo fora de perspectiva à época.

Naquele tempo, anos oitenta, eram livros "best sellers", os mais vendidos ou lançados no "Círculo do Livro", os livros que a gente lia.

Então, li adolescente "Tubarão" (1974), de Peter Benchley, "O exorcista" (1971), de William Peter Blatty, "Os mortos vivos" (1979), de Peter Straub (ler comentário aqui), "Horror em Amityville" (1977), de Jay Anson (ler aqui), "Carrie" (1974), de Stephen King (ler aqui) e outros livros de suspense. Eram os livros da hora.

Calhou de ler alguns livros que podemos considerar clássicos da literatura universal. Li "Lolita" (1955), de Vladimir Nabokov, e "Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída" (1978) antes dos dezoito anos. Li "Mar morto" (1936), de Jorge Amado (ler aqui), um puta clássico. Li "Hamlet" (1600), de William Shakespeare (ler aqui), e gostei demais da tragédia!

Dos livros que a escola obrigava a ler, me lembro do sofrimento pra ler "O cortiço" (1890), de Aluísio Azevedo, "O Ateneu" (1888), de Raul Pompeia e "Senhora" (1875), de José de Alencar.

Li muito jovem "Enterrem meu coração na curva do rio" (1970), de Dee Brown. Que orgulho!

A história da leitura de cada leitor(a) já é uma aventura. Acredito nisso de verdade. 

Eu não fui salvo só pelos acasos, pelos anjos e pessoas queridas que passaram por minha vida e pelo movimento sindical. 

Também fui salvo pelos livros. 

William 


domingo, 16 de março de 2025

Instante (Manguel, Borges cego, tio Léo, minha avó, Chris McCandless)



Refeição Cultural

Alberto Manguel conta em seu livro Uma história da leitura que por dois anos leu para Jorge Luis Borges já quase cego. Manguel era um jovem vivendo em Buenos Aires nos anos sessenta. Borges disse ao rapaz que sua mãe de 88 anos estava com dificuldades de ler para ele.

Tenho pensado muito esses dias no tio Léo. A situação de meu quadril me faz tentar imaginar o que o tio Léo pensava ou sentia ao perceber que suas pernas começavam a falhar e deixá-lo na mão. 

Ouvindo a trilha sonora de Na natureza selvagem, história do jovem "Alex Supertramp", na verdade Chris McCandless, trilha musicada por Eddie Vedder, também fico imaginando em tudo que Chris sentiu e pensou sozinho por meses no Alasca, principalmente quando riscou as últimas palavras no ônibus mágico: "Happiness is only real when shared". Pensei muito nessa mensagem... é verdade!

A foto que está marcando as páginas do livro de Manguel é da minha avozinha Cornélia, mãe do tio Léo e de minha mãe. A vó faleceu já faz alguns anos. Minha vó e o tio Léo, o filho caçula, eram muito apegados à vida.

Borges cego, tio Léo, minha avó, Chris McCandless sozinho no Alasca...

Minha avó caiu num segundo que viu uma oportunidade de andar sozinha quando não tinha ninguém por perto... quebrou o fêmur. 

A vida é tudo isso que viveu tio Léo, minha avó, McCandless, Borges... e nós. 

William 

16/3/25 (2h49)

sábado, 9 de novembro de 2024

Dom Quixote de La Mancha - Miguel de Cervantes (Prólogo)



Refeição Cultural

Toda vez que pego um clássico da literatura mundial e o leio fico pensando na produção daquela criação humana, a condição em que ela foi feita, na pessoa que produziu aquela coisa, na época em que aquilo veio a público - ou não, só muito mais tarde -, tento imaginar o lugar do mundo onde aquilo foi produzido. Acreditem: um texto antigo tem muita história consigo, Alberto Manguel conta um pouco sobre essa história no livro "Uma história da leitura".

Quando li a história de Dom Quixote tinha pouco mais de trinta anos de idade. Havia acabado de entrar em uma faculdade de Letras e me atrevi a ler a obra em espanhol. Foi uma aventura marcante em minha vida de leitor. Eu ria, e chorava, e ficava puto, e depois inconformado, e ficava impressionado, surpreso com os ditados e sabedorias que lia, ria de novo, chorava, achava sacanagem alguns acontecimentos, outros achava inacreditáveis. Era como se não estivesse lendo uma obra ficcional. Foi uma aventura marcante a leitura do clássico de Miguel de Cervantes.

PRÓLOGO 

O prólogo da obra já é um acontecimento. A gente tenta imaginar as pessoas que sabiam ler e que tiveram acesso à leitura quatro séculos atrás lendo aquele prólogo "desocupado leitor...". 

O autor anuncia o que os leitores desocupados vão ler:

"y, pues, esta vuestra escritura no mira a más que a deshacer la autoridad y cabida que en el mundo y en el vulgo tienen los libros de caballerías..."

Cervantes faz o contrato com os leitores e avisa que a história é "una invectiva contra los libros de caballerías" e mesmo avisados de que a obra é feita para tirar um sarro daquelas histórias mirabolantes de cavaleiros da época, nós não conseguimos ver de forma fria o personagem Dom Quixote e seu fiel escudeiro Sancho Pança. 

São apaixonantes demais essas duas figuras! Nos envolvemos com elas, não tem jeito. Nos apaixonamos por aquele senhor e seu servidor e amigo, mesmo sendo eles criações para se tirar sarro dos cavaleiros ficcionais da época.

"Procurad también que, leyendo vuestra historia, el melancólico se mueva a risa, el risueño la acreciente, el simple no se enfade, el discreto se admire de la invención, el grave no la desprecie, ni el prudente deje de alabarla."

Olha eu aí na descrição de Cervantes. Ou facetas de mim, num momento ou outro da vida. Como falei no início, quando li a obra posso ter sido o melancólico que riu ou o prudente que a louvou, pois era visto pelos conhecidos como pessoa sisuda e que quase não ria.

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CONCEIÇÃO EVARISTO ME DEIXOU PENSATIVO

Enfim, fiquei pensando nas obras literárias e autores e autoras ao ver ontem uma entrevista da querida Conceição Evaristo. 

Imaginem vocês que momento ímpar eu vivi na minha vida ao passar três horas conversando com ela num voo entre o Panamá e Cuba... Foi um acontecimento na minha vida de fã e leitor.

William Mendes

09/11/24


Post Scriptum: a leitura com comentários segue aqui.


domingo, 26 de novembro de 2023

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 26 de novembro de 2023. Madrugada de domingo.


Livros e leituras

Por onde começo esta reflexão sobre livros e leituras? Que imagem poderia escolher para abrir a postagem no blog? Enquanto pensava nas primeiras palavras, pensava nas respostas às questões. A capa do livro de Alberto Manguel foi a imagem que mais rapidamente representou as questões que estou em mente. Que livro surpreendente!

Ainda sobre a questão dos livros e leituras, pensei também nos Concertos de Brandenburg, de J. S. Bach... Explico: um dos concertos, o de número 2, fez parte das músicas escolhidas pela Nasa para tentar contatos com outras formas de vida no universo. Em 1977, a Voyager foi enviada ao espaço com diversos produtos criados pelos humanos, e Bach foi um dos escolhidos para compor a lista de músicas no disco de ouro que ficou tocando dentro da espaçonave.

Voltando aos livros e leituras. O livro de Alberto Manguel foi uma das leituras mais marcantes de minha história de leitor. Antes de lê-lo, eu nunca tinha parado para pensar que a leitura tinha uma história. Que os livros nas suas mais diversas formas desde que os humanos passaram a registrar a história através de signos linguísticos tinham uma história, história de sobrevivência. E tinham! Têm!

Ao longo de minha vida de representação da classe trabalhadora, passei a escrever de forma regular. Antes eu já escrevia, para ser sincero. À medida que lia, refletia, e escrevia. À medida que fazia política junto às pessoas que representava e à militância, refletia, e escrevia. Antes do nascimento da internet com acesso para todos, escrevia em diários e brochuras, cadernos, no computador. Com a facilidade de criar uma página na internet, passei a escrever em blogs.

Cheguei a pensar em escrever sobre a história da categoria bancária, pois uma das coisas que fiz melhor na minha vida foi ser sindicalista. Conforme assumia novas tarefas no movimento, ganhava novos conhecimentos e escrevia com facilidade sobre aquilo que sabia bem. Foi assim que passei a contribuir para a confecção de matérias em páginas de comunicação sindical, revistas e teses de congressos políticos. 

E escrevendo sobre as representações eletivas, escrevi mais que boa parte dos jornalistas em atuação em suas áreas - com dedicação exclusiva - quando exerci um mandato de diretor de saúde na Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, a Cassi. Não sei se muitos jornalistas escreveram mais de 600 textos em 4 anos. Faço a comparação porque eu não ficava só por conta de escrever, pelo contrário, eu lia dezenas de documentos para reuniões semanais, tinha agendas de viagem para estar junto às bases sociais e ainda escrevia sobre tudo isso.

Alberto Manguel ao contar a história da leitura, conta cada coisa que a gente não imaginaria se ele não organizasse de forma sistematizada para revelar aos leitores. Quando o mundo todo era praticamente analfabeto, e só alguns afortunados tinham o poder da leitura dos signos registrados em materiais diversos, a leitura era em voz alta, um lendo e todos ouvindo. Depois, ele nos conta a revolução causada pela alfabetização, quando a leitura passou a ser acessível a mais gente, as pessoas passaram a ler em silêncio, e isso causou um rebuliço danado. Uma pessoa com um livro na mão parecia algo subversivo, estranho... imaginem só! O que será que aquela moça estaria lendo? E aquele rapaz no canto? Sobre o que estaria lendo e rindo tanto aquela senhora?

Faz tempo que venho refletindo sobre as tecnologias da atualidade e também sobre o comportamento humano dos dias que correm. Uma das coisas que me incomodam muito é a questão dos livros virtuais, os livros que existem em aparelhos que só funcionam com bateria e energia elétrica, conta e senha, um provedor, uma conexão com a internet etc. Suponhamos que uma pessoa tenha um acervo de mil livros, mil livros que não estão numa estante, não são físicos. São livros virtuais num aparelho tipo Kindle. Os mil livros físicos na estante estão lá, se o dono morrer, terão uma destinação qualquer, serão espólio. Serão doados, com sorte, ou o herdeiro vai usufruir deles. E os mil do acervo virtual? Espólio de algum herdeiro? Como? A herdeira pode acessar os livros no Kindle, ela sabe a senha... e se o aparelho pifar? Tem a conta na nuvem... e a herdeira tem a maldita senha de acesso a nuvem? Gente, fala sério! Os livros virtuais não existem!

Fiquei pensando na história da leitura... fiquei pensando no Concerto de Brandenburg nº 2 para contato com extraterrestres... Imaginem como deve estar difícil para um palestino que vivia em Gaza tentar ler um acervo de livros virtuais... sei que se tivesse livros físicos eles já teriam sido destruídos ou teriam sido deixados para trás (lembram o que os EUA fizeram com a Biblioteca de Bagdá? Uma das mais antigas da história humana). 

Felizmente, a história da leitura sempre teve o caso de alguém que escolheu um ou dois pergaminhos para levar consigo na fuga, tabuinhas da lei, livros excomungados ou proibidos... O que sobrou da história de tragédias humanas foram só fragmentos de registros de signos linguísticos, alguma coisa de Aristóteles, dos romanos, de escrituras sagradas, de textos escondidos como os do Mar Morto... E essas coisas virtuais guardadas em computadores em algum canto que ninguém sabe onde? A produção virtual do conhecimento humano está se perdendo há duas décadas porque só existia na forma digital... é uma tragédia! Pensem no acervo de produção intelectual de duas décadas da antiga Carta Maior... já era! Vaporizado! O provedor não recebeu mais as mensalidades e deletou tudo!

Enfim, minha reflexão iria longe se eu não interrompesse por aqui esta postagem.

Estou pensando em editar alguns textos em forma de livros. Já registrei muita coisa como um sujeito histórico, só nos blogs são mais de 5 mil postagens, talvez a metade delas com conteúdo interessante. Sou um sujeito histórico como todos nós somos, os humanos são os sujeitos da história. Em outros tempos, seria uma boa notícia pelo lugar de fala que eu ocupava. 

Conversando com a editora que vai me ajudar, escolhi minha coletânea de memórias das lutas sindicais para começar. Estava olhando hoje por curiosidade a quantidade de acessos aos textos de memórias, aos 39 textos dessa temática. Por incrível que pareça, os textos já tiveram mais de 85 mil acessos! A média é de quase 2.200 acessos por texto. Não sei como se daria a questão no caso de um livro bem editado e impresso. Não sei. De novo, pensei na história da leitura que Manguel nos conta. Os leitores de meus textos no blog são os leitores silenciosos que podem parecer subversivos lendo algo proibido ou excomungado.

Será que ter em mãos um livro impresso com as minhas memórias funcionaria como os textos no blog, que um dia desaparecerão muito mais facilmente que um livro sobrevivente numa estante qualquer num lugar qualquer?

Vamos dormir. Um abraço fraterno às leitoras e leitores silenciosos de meus blogs. Saibam vocês que tudo que escrevo é fruto de muita reflexão, estudo, experiência e é feito com muita honestidade intelectual. Obrigado pela leitura!

William Mendes


segunda-feira, 12 de abril de 2021

Livro: Memórias sentimentais de João Miramar - Oswald de Andrade



Refeição Cultural - Cem clássicos

Sigo na avaliação e contagem dos clássicos da literatura mundial que já tive o privilégio de ler. Ter contato com textos referenciais e ler os grandes autores e suas obras é um desejo antigo, desde que era adolescente e trabalhador braçal. Entre os best sellers que li naquela época, acertei na escolha de algumas obras importantes...

Ainda na adolescência fiz uma daquelas listas de metas na vida e um dos itens da lista era ler ao menos cem clássicos. O tempo passou e pouca coisa pude ler nessas décadas de vida, pouca coisa se for comparar minhas leituras de proletário com as leituras dos grandes leitores, esses eruditos que são enciclopédias ambulantes.

O interessante neste trabalho de avaliar minhas experiências com os clássicos é poder aproveitar a oportunidade para revisitar a obra, o autor, o momento de surgimento do texto e suas ideias, o contexto histórico da obra e que tais. Tenho duas referências no assunto clássicos e leituras: Italo Calvino e sua obra Por que ler os clássicos (2007) e Alberto Manguel e sua fantástica obra Uma história da leitura (1997).

Olhando na estante de casa, vi lá 4 livros do intelectual modernista Oswald de Andrade. Soube a respeito dele basicamente na ocasião em que comecei a fazer faculdade de Letras na Universidade de São Paulo, em 2001. Achei muito legal estudar as vanguardas e o Modernismo Brasileiro e assistir às aulas do professor José Miguel Wisnik. Foi uma honra para o estudante aqui manter o contato com a sabedoria do Wisnik por um semestre.

Em 2002 li 3 vezes o livro, para ter uma compreensão melhor do romance. João Miramar é um típico representante da casa-grande paulistana. Foi interessante reler o clássico agora aos 52 anos de idade. Tudo muda com o passar do tempo, mas a elite paulistana continua a mesma merda!

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O romance é composto por 163 fragmentos, como se fossem cenas de um filme. O autor usa poucos verbos e as frases são construídas com sequências de substantivos e adjetivos. E tem também muito neologismo, muita invenção de palavras.

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"42. SORRENTO

Velhas velas cigarras

Brumais no mar vesuviano

Com jardins lagartixos e douradas mulheres..." (p. 57)

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"48. CHUVA DE PEDRA

     Estiadas amáveis iluminavam instantes de céus sobre ruas molhadas de pipilos nos arbustos dos squares. Mas a abóbada de garoa desabava os quarteirões.

     E um dia o dinheiro chegou demais dentro dum telegrama com resposta paga de minha rápida volta." (p. 60)

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"132. OBJETO DIRETO

     Ao longo do longo Viaduto bandos de bondes iam para as bandas da Avenida.

     O poente secava nuvens no céu mal lavado.

     No Triângulo começado de luz bulhenta antes da perdida ocasião de ir para casa entramos numa casa de joias." (p. 91)

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"146. VERBO CRACKAR

Eu empobreço de repente

Tu enriqueces por minha causa

Ele azula para o sertão

Nós entramos em concordata

Vós protestais por preferência

Eles escafedem a massa

                              Sê pirata

                              Sede trouxas

Abrindo o pala

Pessoal sarado.

Oxalá que eu tivesse sabido que esse verbo era irregular." (p. 97/98)

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Mais um clássico da literatura a contar nas minhas leituras e na busca por conhecimento.

William


Bibliografia:

ANDRADE, Oswaldo de. Memórias sentimentais de João Miramar. 13ª edição - São Paulo: Globo, 2001.


terça-feira, 6 de abril de 2021

Moby Dick - No entanto... o leviatã deve morrer



Refeição Cultural

"Agora que os botes a encurralavam, ia mostrando mais a parte superior do corpo, que em geral mantém submersa. À maneira dessas estranhas excrescências que se formam nos magníficos carvalhos, quando derrubados, dos seus olhos, ou antes das concavidades que eles deviam ocupar, irrompiam dois bulbos mortiços cuja vista produzia uma horripilante compaixão. Mas ali já não havia piedade. Apesar da velhice, da barbatana única e dos olhos cegos, a baleia devia morrer, e morrer assassinada, para iluminar alegres núpcias e outros divertimentos humanos e iluminar ainda as solenes catedrais nas quais se prega a bondade sem limites para com todos..." (MELVILLE, 1998, p. 413)


Retomei hoje a leitura de Moby Dick, do escritor norte-americano Herman Melville. Comecei a leitura do clássico no dia 8 de março. Hoje é o 14º dia de leitura. Calculei ler essa grande obra em mais ou menos três semanas de leitura, ou seja, 21 dias. 

A leitura do dia foi muito agradável, com diversas passagens que me deixaram impressionado com as surpresas da ficção. A leitura teve momentos de ironia; o narrador se mostra muito interessante, solta suas filosofadas a todo momento. 

Ismael, o narrador personagem, um simples marinheiro do Pequod, se diz iletrado e, ao mesmo tempo, vai narrando e filosofando em momentos marcantes da obra. Cita Shakespeare, Champollion, depois clássicos gregos e romanos, é impressionante!

Teve uma passagem na narrativa que fiquei boquiaberto, foi demais. No capítulo "A fonte" o narrador faz uma marcação temporal impressionante para uma obra lançada em 1851:

"(...) o fato de que tudo isso tenha acontecido e, contudo, até este bendito instante (uma hora, quinze minutos e quinze segundos deste décimo sexto dia do mês de dezembro do ano de 1851), continue a ser um problema saber se esses jorros são realmente de água ou apenas vapor - tudo isto, pois, constitui decerto uma coisa notável." (p. 425)

Fala sério! Fiquei muito admirado com essa parte da obra. Muito legal!

Vários capítulos foram de descrição e filosofadas a respeito das descrições. Meu livro está todo rabiscado e cheio de notas de canto de páginas (rsrs). Alberto Manguel, no livro Uma história da leitura, fala sobre isso, sobre os diálogos possíveis entre os leitores que passaram pelo livro através das marcações no volume.

ACASOS: um grande amigo está lendo Moby Dick ao mesmo tempo em que estou lendo o clássico. Essas coisas do mundo da cultura e da literatura são muito legais. Já por duas vezes, o Sérgio me falou onde parou na leitura e as duas vezes eu havia parado ou no mesmo capítulo ou muito próximo. Cara, o livro tem centenas de páginas!

Ontem, ao receber uma mensagem do Sérgio, ele me disse que havia parado no capítulo "A noz". Eu havia parado a leitura num capítulo antes, comecei hoje no capítulo "O prado", 3 páginas antes dele. E dias atrás, aconteceu o mesmo. Ele me disse que havia lido até o capítulo "A hiena", o mesmo no qual havia parado! Muito louco! E legal!

Foi assim a minha manhã no convés do apartamento, navegando no Pequod e nos Mares do Sul.

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Agora, imitando o marinheiro narrador de Moby Dick, é hora de ligar o celular neste dia 6 de abril de 2021, às 14 horas e 45 minutos e saber mais uma vez das desgraças que se sucedem nas nossas relações de amizade e em nosso mundo tomado pelo mal na figura dos demônios no poder do Brasil. Pessoas queridas estão morrendo, o povo está passando fome e não tem direitos, o país está sob o poder de uma horda de bandidos.

Leviatãs, sem dúvidas, monstros colocados no poder para destruírem tudo e todos em benefício de alguns poucos demônios (de carne e osso, que, apesar de assustadores, podem sangrar e morrer!) que acumulam todos os recursos produzidos pela coletividade humana. E escravizam as pessoas. E perpetuam a miséria, a dor, e o sofrimento.

Ontem, ao ligar o celular e entrar nas redes sociais e nas informações, novas mortes e novas tragédias oriundas do mal instalado no Brasil. A pandemia e o bolsonarismo estão matando nossos amig@s. (já são 332.752 vidas perdidas para o Covid-19, dentre elas, vários amig@s). 

A pandemia não foi combatida pelo governo de maneira proposital, ela é aliada do regime fascista, por isso não temos vacina e nem campanhas pelas medidas sanitárias necessárias. A pandemia é estratégica para o governo da morte. Estimativas apontam meio milhão de mortes até o meio do ano. Nossa vida está sob risco alto de morte, de morte iminente, de morte severina.

Mas a hora desses desgraçados no poder por golpe, que destroem, que nos matam, genocidas!, a hora deles vai chegar. Espero estar aqui, vivo, para ver a queda dessa gente do mal.

William


Bibliografia:

MELVILLE, Herman. Moby Dick. Tradução de Berenice Xavier. São Paulo: Publifolha, 1998.


sexta-feira, 10 de junho de 2016

Ordenadores do Universo



Este livro é meu refúgio para os momentos
em que a vida está foda.

Refeição Cultural - Uma história da leitura

"As categorias que um leitor traz para uma leitura e as categorias nas quais essa leitura é colocada - as categorias cultas sociais e políticas e as categorias físicas em que uma biblioteca se divide - modificam-se constantemente umas às outras, de maneira que parecem, ao longo dos anos, mais ou menos arbitrárias ou mais ou menos imaginárias. Cada biblioteca é uma biblioteca de preferências e cada categoria escolhida implica uma exclusão..."


Em fevereiro de 2001, anotei em minha agenda que havia passado na Fuvest. Foi um momento de realização pessoal muito bom. Eu não aguentava mais ser caixa executivo no Banco do Brasil do desgoverno do PSDB de FHC e sofria muito ao entrar porta adentro na Agência Vila Iara - Osasco para trabalhar todos os dias. Queria iniciar vida nova como professor, assim que pudesse.

Feita a matrícula, começava ali meu curso de Letras na USP. Foi incrível o encantamento com as aulas de introdução às literaturas diversas como as gregas e romanas, depois outras escolas da linguagem. Entrava no mundo dos estudantes que vivem de ler toneladas de textos xerocados.

Em meio a tanto texto fantástico, dois capítulos de um livro me deixaram fascinado. Tratava-se de "Os leitores silenciosos" e "Ordenadores do Universo", do livro "Uma história da leitura" de Alberto Manguel. Fiquei louco com aquele conhecimento e fui em busca de comprar o livro. Até hoje, para abstrair de meus dias difíceis, de minhas tristezas, de minhas raivas do mundo e das coisas da vida e do trabalho, abro o livro para reler algum capítulo.

Fiz isso ontem à noite. Cheguei com tanto estresse do trabalho, que nem correr meia-hora resolveu. Como última alternativa para relaxar um pouco, recorri ao Manguel. Foi legal, reli o capítulo "Ordenadores do Universo" e dormi um pouco mais relaxado. 

A gente percebe o quanto a história da humanidade é incrível e o quanto a história da leitura e dos amantes da leitura ao longo da história da humanidade é feita de resistência e de insistência no ato de ler, "aunque sean los papeles rotos por la calle" como dizia Cervantes.

O capítulo fala da criação da Biblioteca de Alexandria e depois fala de várias curiosidades a respeito da luta antológica de alguns seres humanos para preservar e guardar as produções literárias de todos os cantos do mundo e de todas as épocas da humanidade.


"Os volumes tinham de ser colecionados em grande número, pois o objetivo grandioso da biblioteca era abrigar a totalidade do conhecimento humano. Para Aristóteles, colecionar livros fazia parte das tarefas do intelectual, sendo necessário 'a título de memorando'. A biblioteca da cidade fundada por seu discípulo (Alexandre, o Grande) deveria ser simplesmente uma versão mais vasta disso: a memória do mundo..."


Ordenando meu pequeno universo de conhecimento sobre o mundo sindical, o Banco do Brasil e a Cassi

Eu sempre fui um guardador de papel. Comprador de livros, revistas. Tenho TODAS as xerox de meus anos de Faculdade de Letras. Fiz este blog com o intuito de disponibilizar cada aula, cada matéria que tive o privilégio de ter em uma faculdade pública, cujo acesso para a gente de minha origem humilde sempre foi muito restrito. Isso mudou com os governos do PT depois de 2002, o acesso às faculdades públicas virou uma realidade para nós, classe trabalhadora.

Depois de iniciar o desejo de postar tudo que aprendi com as minhas contribuições de conhecimento, o tempo foi escasseando paulatinamente após ter virado representante de trabalhadores e minha vida mudou completamente. Entrei em um mundo que é uma máquina de moer gente, o mundo da política e da disputa entre capital e trabalho, onde o nosso lado é o que é moído, massacrado.

Imaginem vocês que sempre guardei recortes de jornais e revistas para um dia serem degustados por mim e interligados com outros conhecimentos. Ao virar dirigente sindical, passei a guardar cada papel que achasse que poderia ser usado como "marcos históricos" do movimento dos trabalhadores. 

Meu intuito até bem pouco tempo era catalogar, fazer livros com esses materiais. Iria fazer um livro sobre as campanhas salariais dos bancários do Banco do Brasil entre 2003 e 2013, pois eu participei da construção nacional de cada uma delas, do início da estratégia definida até a defesa em assembleia decisiva na base do Sindicato dos Bancários de São Paulo Osasco e região.

Depois queria fazer outro livro com o longo e maravilhoso percurso que fizemos na área de formação, quando estivemos responsáveis pela secretaria de formação da Contraf-CUT.

Sabem como terminou parte de todo o meu material guardado para a "ordenação deste Universo" do mundo sindical? Teve o mesmo fim que a maior parte de todo material de cultura humana produzido ao longo da história: perdido, eliminado, jogado no lixo. Por sorte, tenho parte dele comigo. Meu micro-cedoc de revistas Espelho Nacional, dos funcionários do BB.

E vocês acham que eu não fui chegando eleito à Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil com a mesma natureza de querer estudar, conhecer a história, ver os percalços e desvios de rotas ao longo do caminho daquilo que estava definido a se fazer e NÃO fizeram? Há dois anos me dedico à Cassi, com a profundidade que minha existência permite.

Apesar de parte de meus guardados sindicais não existirem mais, temos hoje o mundo digital. Através da rede mundial de computadores, acho muita coisa da história do movimento sindical bancário, ainda mais dos últimos quinze anos.

Enfim, meus blogs já estão completando dez anos, o de trabalho, e oito anos este aqui. Eu vou organizá-los, revisitá-los, melhorar conteúdos, categorizar, enfim, organizar este meu micro-universo até o dia de minha morte.

Eu quero pertencer àquela pequena legião de pessoas amantes da leitura que de alguma forma guardou, preservou, produziu algo para deixar para as gerações humanas seguintes. E eu não quero nenhum centavo por isso.

William Mendes
Um amante da leitura


Post Scriptum:

Muita tristeza pela morte dos estudantes nesta semana devido ao acidente com o ônibus vindo de Mogi das Cruzes. Minha nossa!

Antes dessa experiência da USP, eu fui estudar Educação Física em Mogi das Cruzes, no Náutico, e sei exatamente o que foram os dois anos atravessando aquela serra entre São Paulo e Mogi. 

A vida desses estudantes que saem de uma cidade para estudar em outra é muito dura. Experimentei de tudo, fui de trem, fui de moto, e por fim, acabei optando pelos ônibus fretados.

Meus sinceros sentimentos às famílias e amigos desses jovens estudantes de Mogi das Cruzes.

domingo, 25 de outubro de 2015

Uma história da leitura - Excertos e reflexões



Este livro vale a pena.

Refeição Cultural

Domingo. Estou em Brasília (DF) para recuperar o fôlego da longa semana de trabalho, que só terminou quando cheguei ao final do sábado em casa, vindo de outros estados.

Além de querer silêncio, isolamento e nenhum contato com gente, folheei dois livros: Uma história da leitura (1996) de Alberto Manguel e Don Quijote de La Mancha (1605/1615) de Miguel de Cervantes.

A vida é lutar diariamente pela própria sobrevivência e por algo que valha a pena, porque a vida é dura. Soube do resultado final no sábado das negociações salariais entre bancários do Banco do Brasil e a direção do Banco e fiquei com grande tristeza por não ver nela proposta de aportes para a nossa Caixa de Assistência, que administro como diretor eleito. Que dizer? Vida que segue na segunda-feira. Para mim, não muda nada a minha gana em realizar os projetos que defendemos que focam o modelo assistencial e a promoção de saúde. 

Evidente que não vindo aportes por parte do Banco como resultado da luta e mobilização na campanha salarial, todas as partes envolvidas terão que achar solução para o déficit do Plano de Associados, no instante seguinte a uma provável aprovação das propostas negociadas entre bancários e seus sindicatos e o patrão Banco do Brasil.

Enfim, somente nos livros e nas caminhadas e corridas é que encontro algum respiro para o viver.

Seguem alguns excertos muito legais do capítulo "Primórdios", que está na parte três do livro e que conta um pouco da origem da escrita e do ato de ler. Eu digo mais, que conta a história da comunicação humana, a qual eu não tenho dúvida que tem papel fundamental em qualquer sociedade humana, na disputa de como ela se organiza e na forma como grupos se estabelecem na disputa de hegemonia nos espaços sociais e nas estruturas de poder constituídas.

Eu recomendo a compra do livro e o deleite em sua leitura.

PRIMÓRDIOS

"No verão de 1989, dois anos antes da guerra do Golfo, fui ao Iraque para ver as ruínas da Babilônia e da Torre de Babel. Era uma viagem que eu ansiara muito fazer. Reconstruída entre 1899 e 1917 pelo arqueólogo alemão Robert Koldewey, Babilônia fica a cerca de 65 quilômetros de Bagdá - um enorme labirinto de paredes cor de manteiga que foi outrora a cidade mais poderosa da Terra, perto de um monte de argila que os guias turísticos dizem ser tudo o que resta da torre que Deus amaldiçoou com o multiculturalismo..."

(...)

"Ali (ou pelo menos não muito longe dali), têm afirmado os arqueólogos, começou a pré-história do livro. Em meados do quarto milênio a.C., quando o clima do Oriente Médio tornou-se mais fresco e o ar mais seco, as comunidades agrícolas do Sul da Mesopotâmia abandonaram suas aldeias dispersas e reagruparam-se em torno de centros urbanos maiores que logo se tornaram cidades-estados..."

INVENÇÃO DA ESCRITA: PROVÁVEL MOTIVO COMERCIAL

"Com toda a probabilidade, a escrita foi inventada por motivos comerciais, para lembrar que um certo número de cabeças de gado pertencia a determinada família ou estava sendo transportado para determinado lugar. Um sinal escrito servia de dispositivo mnemônico: a figura de um boi significava um boi, para lembrar ao leitor que a transação era em bois, quantos bois estavam em jogo e, talvez, os nomes do comprador e do vendedor. A memória, nessa forma, é também um documento, o registro de tal transação."

TABULETAS ESCRITAS

"O inventor das primeiras tabuletas escritas deve ter percebido as vantagens que essas peças de argila ofereciam sobre manter a memória no cérebro: primeiro, a quantidade de informação armazenável nas tabuletas era infinita (...); segundo, para recuperar a informação as tabuletas não exigiam a presença de quem guardava a lembrança."

E aqui Manguel nos revela O NASCER DA ESCRITA

"De repente, algo intangível - um número, uma notícia, um pensamento, uma ordem - podia ser obtido sem a presença física do mensageiro, magicamente, podia ser imaginado, anotado e passado adiante através do espaço e do tempo."

CONSEQUÊNCIAS DA INVENÇÃO DA ESCRITA

"Desde os primeiros vestígios da civilização pré-histórica, a sociedade humana tinha tentado superar os obstáculos da geografia, o caráter final da morte, a erosão do esquecimento. Com um único ato - a incisão de uma figura sobre uma tabuleta de argila -, o primeiro escritor anônimo conseguiu de repente ter sucesso em todas essas façanhas aparentemente impossíveis."

NASCE O LEITOR

"Mas escrever não é o único invento que nasceu no instante daquela primeira incisão: uma outra criação aconteceu no mesmo momento. Uma vez que o objetivo do ato de escrever era que o texto fosse resgatado - isto é, lido -, a incisão criou simultaneamente o leitor..."

(...)

"O escritor era um fazedor de mensagens, criador de signos, mas esses signos e mensagens precisavam de um mago que os decifrasse, que reconhecesse seu significado, que lhes desse voz. Escrever exigia um leitor..."

(...)

"Somente quando o escritor abandona o texto é que este ganha existência."

(...)

"Toda escrita depende da generosidade do leitor."

Manguel termina essa parte da invenção da escrita e do nascer do leitor com uma frase muito legal:

"Desde os primórdios, a leitura é a apoteose da escrita."

COMENTÁRIO DO BLOG

Este livro, que conheci quando entrei na Faculdade de Letras na USP em 2001, virou um livro de cabeceira, para ser um dos que eu levaria para uma ilha ou para o isolamento - daquelas famosas perguntas "quais livros você levaria se tivesse que ir para uma ilha...".

É isso!

William Mendes
Um leitor

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Diário - 191015



Vamos para mais uma semana sob o Sol e calor de Brasília.
Quando olho o céu daqui, lembro do "Céu que nos protege".

Refeição Cultural

Adentramos nos primeiros minutos da segunda-feira, 19 de outubro. Passamos o final de semana morgando em casa. Um calor danado em Brasília.

LEITURAS

Li uma matéria da nova edição da revista Contra Relógio que confirmou o que eu estava planejando em relação às corridas. Depois de alcançar um objetivo ou participar de uma prova longa que te exigiu tempo, dedicação e planilha de treinamento, é necessário dar algumas semanas de descanso ao corpo. Domingo passado, participei pela primeira vez e completei uma meia maratona (21K). Durante a semana, apenas andei para não perder completamente o condicionamento físico e para dar um tempo ao corpo em relação às dores de treinos puxados. Minha próxima corrida será a São Silvestre (15K) no dia 31 de dezembro.

Li dois capítulos de um livro que sou apaixonado por ele: Uma história da leitura, de Alberto Manguel. Tive conhecimento da existência do livro nos meus primeiros meses de Faculdade de Letras na USP. Um dos professores de literatura nos pediu para lermos o capítulo "Ordenadores do Universo". Eu fiquei deslumbrado com a leitura e procurei o livro para comprar. A leitura deste livro é emocionante porque é um livro de todos nós leitores, é a nossa história ao longo da história humana após a invenção da escrita e, consequentemente, dos leitores.

FILMES E SÉRIES

Assisti a um filme cuja escolha foi aleatória. Passei os canais e escolhi aquele em que estava começando um filme. A Colônia.

Sinopse (Wikipedia): 


"The Colony é um filme de ficção científica de terror canadense, escrito e dirigido por Jeff Renfroe, lançado em 2013.

No futuro, uma nova Era do Gelo afeta a Terra, destruindo quase toda a população do planeta. Os raros sobreviventes encontram abrigos subterrâneos, onde a vida é precária. Mas logo um pequeno grupo de resistentes descobre uma ameaça ainda mais perigosa do que o clima hostil"



Um filme apocalíptico, estilo distópico. Violência e barbárie é o que a história de ficção prevê para nós no futuro. Um futuro com a terra vivendo outra era glacial com falta de Sol, comida etc. 

Na condição de confinamento e de escassez geral de tudo e com poucas oportunidades de sobrevivência, a ideia transmitida pelo filme é que nós rasgamos todos os pactos sociais que construímos para o convívio em sociedade.

O interessante e triste ao mesmo tempo é que, nos dias atuais parte de nós cidadãos do mundo, aqui e acolá, principalmente os grupos de direita e fascistas, testamos o tempo inteiro a quebra das regras do convívio em sociedade, coletivo e colaborativo, por outras formas mais "naturais", ou seja, no estado de natureza, onde impera a lei do mais forte, mais adaptado e com sorte de ir vivendo pelas casualidades. Se queremos mudar as regras de civilidade atuais, depois não adiantará chorar o leite derramado.

Filme violento, mas bem real quando se trata de abrir a Caixa de Pandora e se libertar todas as maldades no mundo. Caso queiram mesmo seguir com a "Banalização do mal", tese acertadamente desenvolvida por Hannah Arendt após o evento do nazismo, será difícil a recuperação no curto prazo dos limites atuais de civilidade, construídos após séculos de tentativas e erros na melhoria do convívio social e da solução pacífica e política para as controvérsias entre povos e grupos com pensamentos distintos.

ARQUIVO X - 2X13

Também vi um episódio de Arquivo X, do segundo ano, que, da mesma forma do filme A Colônia, aborda a questão da maldade e da violência humana. 

O episódio "Irresistível" aborda o caso de um usurpador de cadáveres e assassino, colecionador de cabelos, unhas e dedos de suas vítimas. Episódio muito forte.

MAIS UMA SEMANA DE TRABALHO PELA FRENTE

Pois é, a semana que inicia ao amanhecer desta segunda-feira 19/10 será de muito trabalho, como usam ser todas as semanas. É minha tarefa vivê-la com toda a energia possível. Só de segunda para terça, tenho uma pauta de reunião de diretoria gigante. Gigante! São 42 súmulas para ler, analisar e definir meus votos e manifestações. Se for ler tudo, incluindo anexos, não se faz isso em menos de um dia todo, coisa de muitas e muitas horas. A coisa boa é que no calendário da semana estão incluídas agendas de idas às bases sociais da Cassi em dois estados brasileiros.

Vamos à luta porque a vida é viver por algo que vale a pena.

William

domingo, 18 de outubro de 2015

Diário - 181015 (O Blog Refeitório Cultural)



Um Por do Sol visto da janela de casa em Brasília.

Refeição Cultural


"Toda escrita depende da generosidade do leitor" (Manguel)

Este Blog Refeitório Cultural tem um histórico e uma funcionalidade que foram variando ao longo do tempo. Já são quase oito anos no ar.

Eu o criei porque queria escrever sobre cultura, porque queria digitar e postar minhas aulas do curso de Letras, feito na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Pensei desde o início em escrever sínteses, comentários e exegeses dos livros que sempre sonhei em ler.

Ao longo do tempo, os temas foram mudando e as funcionalidades também. O Blog assumiu um papel não muito ideal de ser personalista, abrigar mais questões pessoais do que do mundo da cultura. Mas não tenho como interromper este processo. Minha vida hoje é praticamente dedicada ao trabalho e às tarefas inerentes a ele. Não me sobra tempo para ler e fazer meus comentários sobre o que li. Muito menos para refletir sobre grandes temas da dimensão humana e escrever com a técnica adequada.

No entanto, as coisas são interessantes. Meu pai tem 73 anos e, apesar de suas dificuldades e muitos problemas de saúde, ele, com seu jeito todo esforçado de sentar em frente ao computador e se manter ativo, aprendeu a entrar em meu Blog e ler o que eu escrevo. Nós temos pouco tempo para nos falarmos e moramos a centenas de quilômetros de distância. Mas com essa nova funcionalidade de meu Blog, não quero demorar muito a escrever aqui, porque pelo menos meu pai vai ler.

É maluco tudo isso. Um blog pode ter várias funcionalidades. Este era para compartilhar conhecimento, opiniões e coisas da cultura. Acabou que, além disso, ele tem as pessoalidades normais e expositoras do autor, que não foge ao estilo comum da sociedade moderna do selfie e da disputa de espaço por atenção na rede mundial.

Como o Blog acaba sendo um pouco um diário, um monólogo de mim para comigo mesmo, é muito interessante quando leio o que o autor (eu) escreveu para o leitor do amanhã e esse leitor no amanhã sou eu mesmo.

Eu reaprendo quando releio. Eu corrijo até erros de digitação e de gramática. Eu mudo o tipo da fonte da letra utilizada. Coloco uma imagem quando estava sem nenhuma. Faço comentários no tempo presente no próprio texto feito no passado. E, o mais importante, categorizo melhor a postagem - muito ao estilo dos "Ordenadores do Universo" do Manguel. Isso facilitará a procura no meu próprio Blog, que tem quase mil e trezentas postagens.

Eu li um pouco hoje do livro de Alberto Manguel, Uma história da leitura. Li dois capítulos: o capítulo "Ordenadores do Universo" e outro capítulo que aborda a pré-história do escrever, registrar a escrita, com os antigos escribas da região da Mesopotâmia e, consequentemente, da criação do ato de ler, porque passou a ter escritos para serem lidos.

Fiquei pensando muito nisso. E lembrei que eu mesmo tenho muitos escritos para serem lidos. Escritos ao longo de décadas de vida, para serem lidos por mim mesmo, que já não sou aquele que escreveu, sou outro. No próprio Blog, ler o que registrei há quase uma década é uma experiência de conhecimento pessoal diferente.

É isso. Não vou tuitar, nem por no face essa postagem. Talvez alguém leia, além de meu pai. Provavelmente eu leia daqui a cinco anos.

William

terça-feira, 28 de maio de 2013

Jamais voltamos ao mesmo livro e à mesma página porque nós mudamos... (Alberto Manguel)


Francesco Petrarca
(Altichiero da Zefio, Wikipedia)
"No Secretum meum, Petrarca (com seu prenome cristão, Francesco) e Agostinho sentam-se e conversam em um jardim, observados pelo olhar firme da Senhora Verdade. Francesco confessa que está cansado da vã azáfama da cidade; Agostinho responde que a vida de Francesco é um livro como aqueles da biblioteca do poeta, mas um livro que ele ainda não sabe como ler, e relembra-lhe vários textos sobre o tema das multidões enlouquecidas - inclusive do próprio Agostinho. 'Eles não te ajudam?' - pergunta ele. Sim, responde Francesco, durante a leitura são muito úteis, mas 'assim que o livro deixa minhas mãos, todos os meus sentimentos por ele desaparecem'.

Agostinho: Essa maneira de ler é agora bastante comum; há uma tal multidão de homens letrados... Mas se tivesse rabiscado algumas notas no lugar adequado, poderias facilmente deleitar-te com o fruto de tua leitura.

Francesco: A que tipo de notas fazes referência?

Agostinho: Sempre que leres um livro e encontrares frases maravilhosas que te instiguem ou deleitem teu coração, não confies apenas no poder de tua inteligência, mas força-te a aprendê-las de cor e torná-las familiares meditando sobre elas, de tal forma que ao surgir um caso urgente de aflição terás sempre o remédio pronto, como se estivesse escrito em tua mente. Quando encontrares quaisquer trechos que te pareçam úteis, faz uma marca forte neles, que poderá servir de visto em tua memória, pois de outra forma eles poderão voar para longe.

O que Agostinho (na imaginação de Petrarca) sugere é uma nova maneira de ler: nem usando o livro como um apoio para o pensamento, nem confiando nele como se confiaria na autoridade de um sábio, mas tomando dele uma ideia, uma frase, uma imagem, ligando-a a outra selecionada de um texto distante preservado na memória, amarrando o conjunto com reflexões próprias - produzindo, na verdade, um texto novo de autoria do leitor. Na introdução de De viris illustribus, Petrarca observou que esse livro deveria servir ao leitor como 'uma espécie de memória artificial' de textos 'dispersos' e 'raros' que ele não apenas coletara, mas, o que é mais importante, nos quais dera uma ordem e um método. Para seus leitores do século XIV, a reivindicação de Petrarca era espantosa, pois a autoridade de um texto era auto-estabelecida, enquanto a tarefa do leitor era a de um observador de fora. Um par de séculos depois, a forma de ler de Petrarca, pessoal, recriadora, interpretadora, cotejadora, iria se tornar o método à luz do que chama de 'verdade divina': um sentido que o leitor deve possuir, com o qual deve ser abençoado, para escolher e interpretar seu caminho através das tentações da página. Mesmo as intenções do autor, quando presumidas, não têm nenhum valor no julgamento de um texto. Este, sugere Petrarca, deve ser feito mediante as lembranças que se tenha de outras leituras, para as quais dar e receber, de separar e juntar, o leitor não deve exceder as fronteiras éticas da verdade - quaisquer que sejam elas, ditadas pela consciência do leitor (pelo senso comum, diríamos). Em uma de suas muitas cartas, Petrarca escreveu: 'A leitura raramente evita o perigo, exceto se a luz da verdade divina iluminar o leitor, ensinando o que procurar e o que evitar'. Essa luz (para usar a imagem de Petrarca) ilumina de modo diferente a todos nós, e também varia nos diversos estágios de nossa vida. Jamais voltamos ao mesmo livro e nem à mesma página, porque na luz vária nós mudamos e o livro muda, e nossas lembranças ficam claras e vagas e de novo claras, e jamais sabemos exatamente o que aprendemos e esquecemos, e o que lembramos. O que é certo é que o ato de ler, que resgata tantas vozes do passado, preserva-as às vezes muito adiante no futuro, onde talvez possamos usá-las de forma corajosa e inesperada." (pág. 81-83, do capítulo O livro da memória)


COMENTÁRIO

"mas tomando dele uma ideia, uma frase, uma imagem, ligando-a a outra selecionada de um texto distante preservado na memória, amarrando o conjunto com reflexões próprias - produzindo, na verdade, um texto novo de autoria do leitor"

Este blog, desde sua criação, faz já alguns anos, tem um pouco disto que Agostinho sugeriria à Petrarca: eu vou lendo, lendo, vendo filmes, observando a vida, e vou anotando trechos ou situações e fazendo novos textos e reflexões a partir deles.

Conversando com meu sobrinho em Uberlândia neste fim de semana, fiquei encantado com o jeito que ele próprio está encantado com as aulas de filosofia e com as possibilidades que ele viu na biblioteca da UFU. Ali tem o mundo e ele me lembrou a sensação que eu sentia quando entrava na biblioteca da FFLCH na USP. Se eu pudesse, viveria ali, lendo, refletindo e escrevendo.

Graças aos governos Lula e Dilma, jovens pobres e de origem afrodescendente como meus sobrinhos estão nas universidades públicas do Brasil tendo oportunidades de estudar e acessar todo o conhecimento disponível no mundo.


Bibliografia:

MANGUEL, Alberto. Uma História da Leitura. Companhia Das Letras. Edição 1999, 4a reimpressão.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

"Scripta manent, verba volant" - O inverso do que se pensa


Capa do livro.
"As palavras escritas, desde os tempos das primeiras tabuletas sumérias, destinavam-se a ser pronunciadas em voz alta, uma vez que os signos traziam implícito, como se fosse sua alma, um som particular. 

A frase clássica scripta manent, verba volant - que veio a significar, em nossa época, "a escrita fica, as palavras voam" - costumava expressar exatamente o contrário: foi cunhada como elogio à palavra em voz alta, que tem asas e pode voar, em comparação com a palavra silenciosa na página, que está parada, morta

Diante de um texto escrito, o leitor tem o dever de emprestar voz às letras silenciosas, a scripta, e permitir que elas se tornem, na delicada distinção bíblica, verba, palavras faladas - espírito. As línguas primordiais da Bíblia - aramaico e hebreu - não fazem diferença entre o ato de ler e o ato de falar; dão a ambos o mesmo nome" (pág. 62, do capítulo "Os leitores silenciosos")


COMENTÁRIO

Sigo pensando que este livro do Alberto Manguel é uma "bíblia" do leitor, um livro de cabeceira dos amantes da leitura. Nele, vemos um diário de cada pessoa que algum dia leu neste nosso pálido ponto azul no Universo - o planeta Terra.


Bibliografia:

MANGUEL, Alberto. Uma História da Leitura. Companhia Das Letras. Edição 1999, 4a reimpressão.