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sábado, 15 de agosto de 2026

A cartomante - Machado de Assis



Refeição Cultural

Após o conto, faço um breve comentário a respeito de impressões que tive na leitura.

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A CARTOMANTE 

Hamlet observa a Horácio que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras. 

— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade... 

— Errou! interrompeu Camilo, rindo. 

— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria... 

Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois... 

— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa. 

— Onde é a casa? 

— Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca. 

Camilo riu outra vez: 

— Tu crês deveras nessas coisas? perguntou-lhe. 

Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muita coisa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranquila e satisfeita. 

Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando. 

Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga Rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela Rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda Velha, olhando de passagem para a casa da cartomante. 

Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo. 

— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo, falava sempre do senhor. 

Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição. 

Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor. 

Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela, era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femmina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as coisas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração, não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as coisas que o cercam. 

Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas. 

Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato. 

Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo. 

Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível. 

— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com as das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a... 

Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem, em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas. 

No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas coisas com a notícia da véspera. 

— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no papel. 

Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando da pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a ideia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a ideia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verossímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto. 

Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas; ou então, — o que era ainda pior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela. "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas assim, pela voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois rejeitava a ideia, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do Largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo. 

"Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim..." 

Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da Rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar, a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente Destino. 

Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O cocheiro propôs-lhe voltar à primeira travessa, e ir por outro caminho: ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa... Depois fez um gesto incrédulo: era a ideia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando a carroça: 

— Anda! agora! empurra! vá! vá! 

Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava em outras coisas; mas a voz do marido sussurrava-lhe a orelhas as palavras da carta: "Vem, já, já..." E ele via as contorções do drama e tremia. A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar... Camilo achou-se diante de um longo véu opaco... pensou rapidamente no inexplicável de tantas coisas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários: e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais coisas no céu e na terra do que sonha a filosofia..." Que perdia ele, se...? 

Deu por si na calçada, ao pé da porta: disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve ideia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para o telhado dos fundos. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio. 

A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe: 

— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto... 

Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo. 

— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma coisa ou não... 

— A mim e a ela, explicou vivamente ele. 

A cartomante não sorriu: disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez das cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela curioso e ansioso. 

— As cartas dizem-me... 

Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável muita cautela: ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita... Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta. 

— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante. 

Esta levantou-se, rindo. 

— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato... 

E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse a mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço. 

— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar? 

— Pergunte ao seu coração, respondeu ela. 

Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis. 

— Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá, tranquilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu...

A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante, alegre com a paga, tornava acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo. 

Tudo lhe parecia agora melhor, as outras coisas traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo. 

— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro. 

E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer coisa; parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz. 

A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável. 

Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela. 

— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há? 

Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensanguentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.

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COMENTÁRIO DO BLOG

Os contos de Machado de Assis são extraordinários! Fazia tempo que não relia este conto, publicado originalmente na Gazeta de Notícias, em 28 de novembro de 1884, e depois reunido a outros contos no livro Várias histórias, de 1895. As informações são de John Gledson, do livro 50 contos de Machado (2007, 14ª reimpressão).

Após descobrir o desfecho da história de Vilela, Camilo e Rita, e voltar ao texto, é muito interessante identificar as características que o escritor vai apresentando de cada um dos personagens e até os valores de época, daquela sociedade na qual os personagens estão inseridos culturalmente.

A descrição e caracterização de Rita não deixam dúvidas sobre a forma como as mulheres são vistas naquela sociedade. 

Rita: "uma dama formosa e tonta"; "era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa". Ela era mais velha que os amigos de infância, tinha 30 anos, enquanto Vilela tinha 29 e Camilo 26.

Em outro momento, quando o narrador aponta Rita como a responsável pela situação da trama, nos lembra um pouco da "mulher balzaquiana", coincidentemente nossa personagem tem 30 anos: "os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele..."

Vilela tem "porte grave", é formado em advocacia e foi da magistratura.

Já Camilo, que a família queria ver advogado, não se formou. "Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, com os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.".

A MULHER NA ÓTICA PATRIARCAL E MACHISTA

Como disse acima, o narrador dá o tom do que pensa aquela sociedade a respeito das mulheres: são serpentes, a origem do pecado e do mal.

"Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos!".

E para completar o papel das mulheres responsáveis pelos males daquela sociedade patriarcal e machista, de homens e pessoas ludibriadas pelas temíveis mulheres, quase bruxas, tem a figura da cartomante:

"era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos..."

Enfim, a história de Vilela, Camilo e Rita não poderia ter outro desfecho, sob o ponto de vista de uma sociedade que um século depois da história (1869) ainda permitia aos homens matarem mulheres por questões de honra.

Após um curto período de tempo entre o final do século XX e o ano corrente, 2026, chegou-se a mudar o código civil igualando direitos entre homens e mulheres e as leis no país, criou-se a Lei Maria da Penha, e no entanto, pasmem, vivemos uma epidemia de violência contras as mulheres no Brasil. Os índices de assassinato de mulheres crescem assustadoramente no país, principalmente em São Paulo.

A releitura do conto "A cartomante" me lembrou a universalidade dos textos de Machado de Assis, até quando ele descreve a questão da religião e a fé ou não em Deus.

AGNÓSTICO OU ATEU?

"Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando."

Me lembrei de uma palestra de Marcelo Gleiser, físico e astrônomo brasileiro, que me fez rever meu conceito sobre ser ateu, quando ele explicou exatamente o que Machado descreve sobre "negar é ainda afirmar" em relação a haver ou não um Deus. 

Gleiser explica que a ciência não pode provar a não existência de Deus, pois a ciência é baseada em afirmações categóricas, e o agnóstico não crê mas não pode afirmar que não exista um Deus de forma categórica. Foi o que entendi do vídeo que vi com ele.

Enfim, tive o prazer de reler um excelente conto de Machado de Assis hoje. Como seus textos são de domínio público, está disponível no blog para leitura.

Sigamos lendo e tentando nos fazer humanos e conhecedores de alguma coisa. Os tempos são de elogia à ignorância.

William

15/08/26

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

Diário e reflexões - Ano Novo?



Refeição Cultural

Osasco, 1º de janeiro de 2024. Noite de segunda-feira.


Ano Novo?

Primeiro dia do Ano Novo. Essa invenção do ser humano, o calendário e a contagem do tempo, é uma ferramenta extraordinária para lidar com a realidade da natureza e das coisas da sociedade humana. Ano Novo... 

As coisas da sociedade humana seguem neste dia "novo" da mesma forma que ontem. O Estado de Israel segue eliminando um segmento humano de uma certa área daquela região do mundo. Dezenas de crianças, mulheres, idosos e homens seguem sendo mortos sob ataques a bombas na Faixa de Gaza, Palestina. O povo sendo eliminado é o povo palestino. Segundo o jornalista Luis Nassif - por Twitter (X) -, Israel já destruiu 70% das casas na Faixa de Gaza. Ano Novo...

A realidade da natureza não mudou de ontem para hoje, primeiro dia do "Ano Novo". A emergência climática segue alterando a condição de vida no planeta Terra para todos os seres viventes. A humanidade não tomou consciência de ontem para hoje de que precisamos mudar agora, já, a forma como estamos destruindo todos os biomas da natureza. Alguns animais humanos detêm quase a totalidade dos recursos disponíveis e o poder econômico e estatal no mundo enquanto bilhões de seres humanos sofrem neste instante em que escrevo estas reflexões. O combate ao capitalismo não é mais sequer pauta dos poucos movimentos organizados que ainda estão por aí. Não temos tempo sobrando para isso. Ano Novo...

No entanto, tirando as coisas da sociedade humana e a realidade da natureza, a mente humana, que criou esse mundo como nós o conhecemos - como nos explica o neurocientista Miguel Nicolelis -, é uma fantástica máquina de criação de abstrações, que viram realidade, que passam a criar pensamentos e ideias e leituras de mundo (ideologias), e que sequer deixam rastros identificáveis de o que criou o que... Transformamos em normalidade qualquer coisa a partir da criação de abstrações que viram referências para os animais humanos. Uma pessoa ter 100 bilhões de dólares é tido como algo "natural" e "normal". Um animal humano destruir sozinho áreas da natureza do tamanho de estados nacionais é "normal", ao invés de se interromper na hora a destruição sem volta, se discute depois "indenizações" na "justiça". Ano Novo...

Ano Novo, sociedade humana velha, envelhecida, embrutecida, idiotizada, alienada e drogada pelos prazeres sensoriais momentâneos, sociedade humana em vias de morrer de velha... o pior é que vai morrer levando outras formas de vida.

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MEU ANO NOVO

É Ano Novo para cada ser humano na terra (cada um com seus calendários arbitrários, lógico!)

E, no entanto, inventamos o calendário e a contagem do tempo. Criamos as realidades na sociedade humana.

Durante muitos anos de vida laboral, tinha no mês de janeiro o período de férias do trabalho e ou da representação sindical. Era o período que tirava para tentar esquecer um pouco das nossas agendas de lutas da classe trabalhadora. Nos meses de janeiro, sempre procurava ler bastante, ter um pouco mais de contato com o mundo da cultura, arte, cinema, lazer.

Por serem os meses de janeiro um período de boas memórias, o desejo que senti neste primeiro dia do Ano Novo do nosso calendário arbitrário foi de ler contos e outros gêneros literários e discursivos e ver alguns filmes neste mês de "férias".

Se as coisas da sociedade humana e a realidade da natureza e o acaso me permitirem, minha intenção é ler vários contos do livro Os cem melhores contos brasileiros do século (2000), organizado por Italo Moriconi, e contos machadianos do livro 50 contos de Machado de Assis (2007), selecionados por John Gledson. Vou ler outras coisas também.

Na seleção de Italo Moricone, comecei pela seção "Anos 60 - Conflitos e desenredos", de onde havia parado quando manuseei o livro faz uns dois anos.

Li "A força humana", de Rubem Fonseca; "Amor", de Clarice Lispector; "Gato gato gato", de Otto Lara Resende; "As cores", de Orígenes Lessa; "A máquina extraviada", de José J. Veiga e "O moço do saxofone", de Lygia Fagundes Telles.

De cara, de supetão, o conto que mais me chamou a atenção pelo final da estória foi o de Otto Lara Resende. Que foda! O conto me incomodou! No geral, gostei de todos. O mais hermético para mim foi o de Clarice Lispector, como sempre! Adoro os contos de J. Veiga e não conhecia textos de Orígenes Lessa e da Lygia Fagundes Telles. O mais profundo na temática foi o de Rubem Fonseca.

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É isso! Ano Novo! A minha busca por conhecimento seguirá firme. Sou um ser incompleto como nos ensina Paulo Freire. Somos.

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Estou fazendo na postagem anterior, a última do Ano Velho, a retrospectiva e o balanço do ano de 2023. É texto que dá um trabalhão. Não terminei ainda. Estou incluindo conteúdo aos poucos.

Desejo saúde às leitoras e leitores do blog e sonho com a unidade da espécie humana na luta por uma nova forma de convivência entre os seres humanos e as demais formas de seres da natureza. 

Temos que construir unidade na luta pelo fim do capitalismo. Essa abstração vai destruir o mundo, a começar pela espécie que a criou.

William


terça-feira, 28 de setembro de 2021

Diários com Machado de Assis (IX)



Refeição Cultural

Segunda-feira, 27 de setembro.


Li dois contos de Machado de Assis publicados em 1884. São contos da fase mais madura do escritor. 

O conto "Evolução" é muito irônico, crítico, e diria hermético. Fico imaginando como teria sido a recepção da narrativa na "Gazeta de Notícias" na corte do Rio de Janeiro.

"Chamo-me Inácio; ele, Benedito. Não digo o resto dos nossos nomes por um sentimento de compostura, que toda a gente discreta apreciará. Inácio basta. Contentem-se com Benedito. Não é muito, mas é alguma coisa, e está com a filosofia de Julieta: 'Que valem nomes? Perguntava ela ao namorado. A rosa, como quer que se lhe chame, tem sempre o mesmo cheiro'. Vamos ao cheiro do Benedito." (p. 311)

Ao final da estória, descobrimos que o "cheiro" de Benedito é um fedor só, não à toa Machado mudou "perfume" da rosa para "cheiro", porque o sujeito é um chupim, um parasita que viveu às custas de se apropriar das ideias dos outros. 

A "evolução" é uma ideia pessimista do ser humano, pois a evolução da espécie homo sapiens seria através de tipos como Benedito, coisa da pior espécie, uma fraude, um espertalhão. 

Machado era contemporâneo de Charles Darwin e a Teoria da Evolução das Espécies era um acontecimento naquelas décadas do século XIX. O escritor já havia apresentado seu personagem Quincas Borba e a teoria do "Humanitismo" no Memórias póstumas de Brás Cubas (1880). Quincas ficaria famoso pela frase célebre: Ao vencedor as batatas!

O pior é que a sociedade humana em meu mundo do século XXI, o século de trumps e bolsonaros, está bem próxima disso mesmo...

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O outro conto que li é "O enfermeiro".

"Parece-lhe então que o que se deu comigo em 1860, pode entrar numa página de livro? Vá que seja, com a condição única de que não há de divulgar nada antes da minha morte. Não esperará muito, pode ser que oito dias, se não for menos; estou desenganado." (p. 318)

Nesta narrativa vamos ver a estória de Procópio José Gomes Valongo, narrador em primeira pessoa, que conta como foi que acabou sendo o enfermeiro do coronel Felisberto, no interior do Estado.

Em certo momento, a narrativa vira uma estória meio macabra e, no fim, retoma a toada do início.

De novo, fiquei pensando na leitura do conto pelos leitores contemporâneos de Machado em 1884. O escritor é bastante hermético em seus textos. A estória se desenvolve bem, envolve a gente. No final, eu fiquei sem entender o que ele quis dizer com a paráfrase da sentença de Mateus, uma passagem da Bíblia.

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O livro de Hélio de Seixas - Os leitores de Machado de Assis - é muito instigante, mas será de leitura bem lenta. Vamos considerar que será um livro de provocação para minhas leituras e releituras de Machado no próximo período. Sem pressa com ele!

William


Bibliografia:

ASSIS, Machado de. 50 contos de Machado de Assis. Seleção, introdução e notas John Gledson. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 14ª reimpressão, 2015.


quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Diários com Machado de Assis (VIII)



Refeição Cultural

Quarta-feira, 15 de setembro do 2º ano da pandemia mundial de Covid-19.


UNS CUBAS!!! AQUELA MESA DE JANTAR DE GENTE BRANCA DECRÉPITA...

Pela manhã, li a apresentação de John Gledson ao livro de Hélio de Seixas Os leitores de Machado de Assis (2004). É leitura de poucas páginas e muita reflexão. Talvez eu demore anos para ler o livro, se é que um dia termino a leitura. O que importa é cada página lida, e a reflexão.

Em minha reflexão anterior sobre Machado (ler aqui), disse que fiquei pensando como ele deveria se sentir em relação a ser amigo e apadrinhado de um escravagista como o escritor José de Alencar. Difícil essa situação para um mulato, descendente de escravos.

Gledson também imagina como deve ter sido difícil para Machado ler as críticas de seus colegas da época, porque alguns eram francos até demais no dizer o que achavam do escritor mulato:

"(...) e alguns já terão lido na biografia de Magalhães Júnior a terrível referência ao escritor mulato, autor de Ressurreição, como um 'feio candelabro que despede raios de vivíssima e deslumbrante luz' (Machado teria rido ou chorado diante disso?)." (p. 18)

Na apresentação que elogia o imenso trabalho de pesquisa feito por Hélio de Seixas Guimarães, Gledson nos lembra das "mudanças claras e consistentes" na forma como os leitores eram evocados e imaginados nos romances e contos de Machado. Também afirma que o escritor buscou experimentar o novo a cada obra após Memórias póstumas de Brás Cubas (1880).

Uma informação relevante na página 20: o censo de 1876, que revelou o analfabetismo no Brasil, mexeu com os propósitos e ideais literários dos escritores naquela época. Éramos um bando de analfabetos (éramos?).

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MÉMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS

A leitura dos capítulos XXVIII a XXXV de Memórias póstumas de Brás Cubas me deixou pensando muito a respeito do Brasil, a respeito de nós. 

Me fez pensar naquele jantar cujo vídeo circula pela internet com aqueles homens brancos e decrépitos, com o golpista Temer à frente, jantar oferecido pelo sujeito acusado de quebrar a Bolsa de valores do Rio, com o dono de um canal de TV, e aquele nojo todo que estava ali. Os donos do Brasil.

Todos eles são Cubas, todos eles. Todos eles tratam as mulheres e os pretos e as gentes como Brás Cubas trata.

E se pensarmos bem, nós todos somos as eugênias, somos os almocreves dos capítulos anteriores, somos as borboletas pretas. Todos nós que não somos aqueles Cubas da mesa de jantar. A culpa daquela gente existir e viver e viver e viver às custas da gente é nossa! A culpa é nossa. Borboletas pretas! E de almas sensíveis (uns idiotas!).

William


Bibliografia:

ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. 1ª ed. - São Paulo: Panda Books, 2018.

GUIMARÃES, Hélio de Seixas. Os leitores de Machado de Assis: o romance machadiano e o público de literatura no século 19. São Paulo: Nankin Editorial: Edusp, 2004.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Diários com Machado de Assis (VI)



Refeição Cultural

Genoveva, uma mulher livre

No diário anterior (ler aqui), falei de meu contato com a personagem Marcela, a espanhola amante de Brás Cubas - a dos "15 meses e onze contos de réis" -, seu primeiro amor de rapaz de 17 anos. A personagem é muito interessante, é uma mulher que enfrentou do seu jeito as dificuldades de seu gênero naquela sociedade de sua época - patriarcal, patrimonialista, do poder branco, sob os dogmas católicos, misógina e conservadora -, o Brasil de milhares de Brás Cubas em cada casa-grande da ex-colônia portuguesa.

Hoje pela manhã, queria ler algo novo do Bruxo do Cosme Velho, algum texto que eu não conheço ainda. Peguei o livro 50 contos de Machado de Assis, organizado por John Gledson. Li o conto "Noite de almirante", publicado originalmente na Gazeta de Notícias, em 10 de fevereiro de 1884, e depois no livro Histórias sem data.

O conto narra a estória de amor de Deolindo Venta-Grande e Genoveva. Se considerarmos a maneira como se tratam as mulheres no Brasil de 1884 e o Brasil de 2021, podemos dizer que o desenvolvimento da ficção e o final nos surpreende, tanto para a época como para o presente.

Deolindo é marinheiro. Volta do mar depois de dez meses de viagens. Está ansioso para encontrar a moça por quem jurou amores e fidelidade antes de zarpar.

"- Ah! Venta-Grande! Que noite de almirante vai você passar! ceia, viola e os braços de Genoveva. Colozinho de Genoveva..." (p. 289)

Ela, a personagem, uma moça que se enamorou do rapaz, queria fugir com ele para o interior, mas teve que aceitar ele zarpar e retornar um dia para ficarem juntos. Jurou amores e fidelidade também.

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Uma observação: é difícil fazer um comentário sobre um romance ou narrativa sem dar algum tipo de spoiler. O ideal era o leitor(a) já conhecer o conto. Então, faço o seguinte, vou demarcar abaixo a partir de onde tem spoiler e assim a pessoa para de ler, se quiser.

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Genoveva: "caboclinha de vinte anos, esperta, olho negro e atrevido" (p. 289)

OS OLHOS - Interessante o quanto Machado caracteriza seus personagens pelos olhos. Em tempos de pandemia de vírus com uso de máscaras que tampam boca e nariz e de burcas pelo mundo afora, é uma caracterização ideal essa de descrever atributos dos olhos das pessoas.

Enfim, nessa estória de amor, vai aparecer uma terceira pessoa, o mascate José Diogo, e veremos então como termina o triângulo amoroso.

COMENTÁRIO (com spoiler)

Antes de mais nada, acho bem legal a forma como se apresentam os narradores de Machado de Assis. Eles fazem diálogos francos com os leitores, fazem ironias, prestam contas de suas ações etc. É legal demais!

O narrador defende Genoveva ao relatar o que ela disse a Deolindo ao se explicar por estar com outro, ao dizer que se apaixonou pelo mascate pela insistência dele e que isso não é culpa de ninguém, é a natureza.

Genoveva:

"- Pode crer que pensei muito e muito em você. Sinhá Inácia que lhe diga se não chorei muito... Mas o coração mudou... Mudou... Conto-lhe tudo isso, como se estivesse diante do padre, concluiu sorrindo." (p. 292)

E o narrador a defende (sublinhado meu pela ironia dele):

"Não sorria de escárnio. A expressão das palavras é que era uma mescla de candura e cinismo, de insolência e simplicidade, que desisto de definir melhor. Creio até que insolência e cinismo são mal aplicados. Genoveva não se defendia de um erro ou de um perjúrio; não se defendia de nada; falava-lhe o padrão moral das ações." 

E o narrador explica o que ela disse da forma mais natural possível. Os sentimentos mudam nas pessoas, oras bolas.

"O que dizia, em resumo, é que era melhor não ter mudado, dava-se bem com a afeição do Deolindo, a prova é que quis fugir com ele; mas, uma vez que o mascate venceu o marujo, a razão era do mascate, e cumpria declará-lo." 

Deolindo, quis matá-la com as próprias mãos, depois quis matar o mascate, e a moça continuou firme e seguiu explicando a ele que as coisas são assim. Ela chegou a diminuir o ímpeto de Deolindo só com os olhos:

"Deolindo chegou a ter um ímpeto; ela fê-lo parar só com a ação dos olhos." 

A jovem Genoveva cita acontecimentos na natureza para explicar a Deolindo que as coisas são assim e que não vale a pena matar por coisas tão normais e naturais.

"Vede que estamos aqui muito próximos da natureza. Que mal lhe fez ele? Que mal lhe fez esta pedra que caiu de cima? Qualquer mestre de física lhe explicaria a queda das pedras." (p. 293)

Enfim, a estória se resolve e não tivemos um feminicídio. Gostei muito da postura de Genoveva e de Deolindo.

Na vida real, fora da ficção, o país que vivemos após o golpe de 2016 e a ascensão do mal é um país de retrocessos de séculos. Mata-se por qualquer coisa, até por uma simples ação da natureza humana, uma mudança de sentimentos, uma ira momentânea.

Essa foi minha reflexão após alguns momentos com Machado de Assis.

William


Bibliografia:

ASSIS, Machado de. 50 contos de Machado de Assis. Seleção, introdução e notas John Gledson. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 14ª reimpressão, 2015.

sábado, 28 de agosto de 2021

Diários com Machado de Assis (III)



Refeição Cultural

"Mas o desconhecido teve um assomo de raiva, que meteu medo ao pacato clérigo. Que podiam fazer ele e o preto, ambos velhos, contra qualquer agressão de um homem forte e louco? Enquanto esperava o auxílio policial, monsenhor Caldas desfazia-se em sorrisos e assentimentos de cabeça, espantava-se com ele, alegrava-se com ele, política útil com os loucos, as mulheres e os potentados." (p. 273)

 

Na sexta-feira à noite e início da madrugada, fiquei ouvindo músicas antigas e lendo a revista Carta Capital, cada notícia mais desanimadora que a outra. Ler enfileiradas as notícias de destruição do país é algo difícil de descrever. A última que li antes de dormir foi a matéria sobre a privatização dos Correios. Um escárnio, um crime de lesa-pátria, uma tortura a cada pessoa que não seja ignorante, canalha ou interessada no roubo.

No sábado pela manhã, peguei o livro organizado por John Gledson com os 50 contos de Machado de Assis e li o conto "A segunda vida", publicado primeiro na Gazeta Literária e depois no livro Histórias sem data, em 1884. A narrativa é muito doida e é sobre um doido (rsrs), como ficamos sabendo nas primeiras linhas do texto. José Maria diz ter morrido e reencarnado e está com o monsenhor Caldas naquele momento porque quer contar a ele algo que teria feito no dia anterior. 

Esse conto eu não conhecia ainda. É uma narrativa envolvente e que prende a atenção do leitor.

Depois fui ler um pouco sobre Machado, no próprio livro porque John Gledson faz uma introdução sobre o autor e os contos escolhidos por ele. Gledson nos explica um pouco a questão da ironia nos textos de Machado de Assis. Teria sido entre os anos finais de 1870 e as publicações dos anos 1880 que nosso escritor maior desenvolveria sua predileção pela ironia, algo muito refinado em sua técnica literária.

Machado de Assis é um brasileiro. Um brasileiro que viveu no século XIX, o século do Segundo Reinado (D. Pedro II). Século do primeiro de uma série de golpes de Estado perpetrados pelos militares em conluio com a casa-grande (1889 e outros até o de 2016). Machado é um escritor mestiço, neto de escravos alforriados por parte de pai. 

"jovem mestiço, de origem pobre, criado sob a proteção de uma família aristocrática dos subúrbios do Rio (...) Casara-se com uma moça acima de sua classe, uma mulher branca e portuguesa, Carolina Xavier de Novaes..." (Gledson, Introdução, p. 8 e 9)

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COMENTÁRIO

O Brasil não é para amadores! Esse é o ditado popular. O mestiço Machado de Assis conseguiu ser escritor no século cuja lei era a escravidão, sendo ele um negro ou mulato livre e casado com uma branca estrangeira, protegido por um escritor escravagista famoso, José de Alencar. "Tão Brasil!" diriam os poetas do Modernismo.

O Brasil é o país onde pessoas negras ou mestiças votam em racistas, onde mulheres votam em machistas e misóginos, onde líderes de igrejas pregam violência, armas e morte aos diferentes, onde servidores públicos votam em privatistas. "Tão Brasil!".

Nós somos isso tudo que está aí, essas coisas somos nós, brasileiros e brasileiras.

William


Bibliografia:

ASSIS, Machado de. 50 contos de Machado de Assis. Seleção, introdução e notas John Gledson. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 14ª reimpressão, 2015.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Fulano, conto de Machado de Assis (1884)



Refeição Cultural

"Trinta contos para quê? Para servir de começo a uma subscrição pública destinada a erigir uma estátua a Pedro Álvares Cabral. 'Cabral, diz ali o testamento, não pode ser olvidado dos brasileiros, foi o precursor do nosso império.' Recomenda que a estátua seja de bronze, com quatro medalhões no pedestal, a saber..." (p. 270)


Em meu contato diário com Machado de Assis, hoje li o conto "Fulano", um dos 50 contos escolhidos por John Gledson para o livro 50 contos de Machado de Assis (2007).

O conto foi publicado em 1884, na Gazeta de Notícias do dia 4 de janeiro. Depois ele saiu no livro Histórias sem data

A estória se passa no tempo presente da publicação, o personagem Fulano Beltrão faleceu no dia 2 de janeiro de 1884, com pouco mais de 60 anos de idade, e um narrador vai falar a respeito do falecido enquanto aguarda a abertura do testamento pelas autoridades competentes. 

Machado já é um escritor conceituado e muito conhecido no Brasil e já publicou obras de grande sucesso como Memórias póstumas de Brás Cubas, primeiro em folhetins (1880) e depois em livro (1881).

AMOR DA GLÓRIA, DESEJO DE NOMEADA

Machado explora magistralmente no conto a questão da vaidade e do orgulho. Na postagem que fiz anteriormente sobre os primeiros capítulos do Brás Cubas, citei o "desejo de nomeada" por trás da invenção do emplasto milagroso (ler aqui).

Outra questão em destaque são as referências em eventos ou datas históricas do Brasil. Machado cita personagens da política do Segundo Reinado, dos gabinetes liberal e conservador dos anos de 1860. Cita a Guerra do Paraguai. As notas de John Gledson são importantes para nós leitores nos situarmos no contexto da estória, do enredo.

ESTÁTUA DE PEDRO ÁLVARES CABRAL

A coincidência com os dias atuais ficou por conta da estátua em homenagem ao navegador Pedro Álvares Cabral, incendiada nesta semana no Rio de Janeiro. A estátua está no Largo da Glória e foi inaugurada em 13 de maio de 1900, em referência aos quatrocentos anos da chegada dos portugueses ao Brasil.

Por uma coincidência na leitura de Machado no dia de hoje, 26/8/2021, o conto cita um projeto para a confecção de uma estátua em homenagem a Cabral. Essas coincidências na vida dos leitores de livros são coisas pra lá de interessantes!

O projeto da estátua foi um dos desejos do personagem falecido, Fulano Beltrão, que deixou para isso trinta contos de réis.

A estátua queimada no Rio de Janeiro pode não ser a mesma da discussão interna do conto de Machado, mas o Rio inaugurou uma estátua de Cabral 16 anos depois do conto "Fulano".

Ler é isso! Ler Machado de Assis é assim, um novo conhecimento a cada leitura.

Leiam os clássicos, amigas e amigos leitores! É melhor ler do que não ler os clássicos.

William


Bibliografia:

ASSIS, Machado de. 50 contos de Machado de Assis. Seleção, introdução e notas John Gledson. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 14ª reimpressão, 2015.


domingo, 3 de dezembro de 2017

Contos de Machado de Assis - Brasil pós Golpe caminha ao passado?





Refeição Cultural

Neste final de semana tive vontade de ler Machado de Assis. Peguei o livro de coletâneas de contos do autor em seleção organizada por John Gledson.

Foquei em contos publicados pelo Mestre do Cosme Velho em jornais e revistas em 1883, depois reunidos no livro Histórias Sem Data (1884).


A IGREJA DO DIABO

Reli o conto "A igreja do Diabo", que é muito impactante, até por imaginarmos a novidade do tema ao ser publicado na capital do Império naquele ano.

Afirma o Diabo para Deus, ao contar a novidade de criar sua igreja:

"- Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazê-las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura..."

Uma das estratégias do Diabo foi desqualificar as virtudes conhecidas e reabilitar outras como a soberba, a luxúria, a preguiça, a avareza - "mãe da economia" -, gula etc.

"Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento..."

Defendeu a venalidade, porque se podemos vender coisas materiais que são nossas, têm registros e posse, que dirá sobre vender nossa palavra, nossa opinião, nosso caráter... nossa consciência é mais nossa que tudo, então podemos vendê-la.

E a solidariedade, então? Deveria se cortada de todo!

"Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição..."


COMENTÁRIO POLÍTICO: lembrei-me na hora do debate do governo Temer e seus asseclas nos ministérios e secretarias que pretendem impor mudanças nas estatais federais (minutas CGPAR) sobre os planos de saúde dos seus trabalhadores - as autogestões - onde a proposta é cortar parte da contribuição do governo e estabelecer regras que acabam com a solidariedade dos planos, inclusive onerando os mais idosos, inviabilizando a saúde dos funcionários por não conseguirem pagar. - ESSA PROPOSTA É DO DIABO, HEIM!


CONTOS DE ONTEM QUE PODERÃO RETRATAR NOSSO AMANHÃ PÓS GOLPE NO BRASIL

Outros contos que li neste fim de semana foram "Cantiga de esponsais", "Singular ocorrência", "Último capítulo", "Galeria póstuma" e "Capítulo dos chapéus".

Eu fico lendo o grande observador das personagens humanas no século XIX, nosso Machado de Assis, e pensando sobre nossa sociedade atual.

A destruição que vem ocorrendo em nosso país após o Golpe de Estado vai nos levar a uma sociedade semelhante àquela que Machado descreve no século XIX. Uma sociedade escravocrata, branca, machista, misógina, do preconceito ao diferente, autoritária, um Estado policial contra o povo, uma sociedade feita para os poucos detentores de tudo.

Os povos miseráveis terão que se virar para serem agregados de alguma casa-grande, um senhor da elite, ou fazer qualquer coisa por alguns trocados, num verdadeiro salve-se-quem-puder.

O que é pior, com uma vida cotidiana (ideologia dominante) que "normatiza" e torna "normal" toda a miséria que se vê. Ontem e hoje, temos os meios de comunicação e a estrutura da burocracia do Estado, que colocam ordem nas revoltas - imprensa, polícia, representação "política" censitária, judiciário etc.

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"O dia não acabou pior; e a noite suportou-a ele bem, não assim o preto, que mal pôde dormir duas horas..."

"Em músicas! justamente esta palavra do médico deu ao mestre um pensamento. Logo que ficou só, com o escravo, abriu a gaveta..."

("Cantiga de esponsais")
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As condições normais do século XIX batem às portas do século XXI do Brasil. Quando não são os negros, os pobres e não detentores das posses, são as mulheres que podem regredir séculos de avanços em busca de igualdades de oportunidades e tratamentos.

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"Rufina (permitam-me esta figuração cromática) não tinha a alma negra de lady Macbeth, nem a vermelha de Cleópatra, nem a azul de Julieta, nem a alva de Beatriz, mas a cinzenta e apagada como a multidão dos seres humanos. Era boa por apatia, fiel sem virtude, amiga sem ternura nem eleição. Um anjo a levaria ao céu, um diabo ao inferno, sem esforço com ambos os casos, e sem que, no primeiro, lhe coubesse a ela nenhuma glória, nem o menor desdouro no segundo. Era a passividade do sonâmbulo. Não tinha vaidades. O pai armou-me o casamento para ter um genro doutor; ela, não; aceitou-me como aceitaria um sacristão, um magistrado, um general, um empregado público, um alferes, e não por impaciência de casar, mas por obediência à família, e, até certo ponto, para fazer como as outras. Usavam-se maridos; ela queria usar também o seu. Nada mais antipático à minha própria natureza; mas estava casado."

("Último capítulo")
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Enfim, será que é assim mesmo que as coisas vão ficar no Brasil? 

Um país que após avançar em todos os quesitos sociais por mais de uma década sob governos do Partido dos Trabalhadores, regride no pós Golpe séculos de lutas e conquistas, e regride para o conjunto do povo em benefício de alguns seres humanos, que para serem derrotados (porque são humanos) só é necessário que sejam retirados do poder que tomaram por golpe.

Será que vai ficar assim mesmo como os golpistas estão deixando nosso Brasil? Desfazendo ele todo para nunca mais se recuperar?

Abraços,

William

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Diário - 050116


A natureza, uma árvore. Foto de 2009, em Torino (Itália).
Estava hoje a visitar fotos desta viagem que fiz a trabalho.

Hoje é terça-feira, 5 de janeiro. Osasco, São Paulo.

Pela manhã, li José Saramago. Comecei, há três dias, a leitura de A viagem do elefante. Saramago é tudo de bom, porque além das estórias, têm as reflexões existenciais.

Li um pouquinho de Machado de Assis ontem à noite - um conto: Na arca (1878). Comprei um livro anteontem com cinquenta contos machadianos, organizado por John Gledson. 

Machado é tudo de bom, é atemporal. Ele também tem, além das estórias, a crítica social, a crítica a tudo que era o "normal", o padrão, naquela sociedade patriarcal, machista, branca, católica, patrimonial, escravagista. Machado é o cara!

Por dever de ofício, apesar das férias, tive que ler por algumas horas, no dia de ontem, as súmulas da pauta da reunião semanal de diretoria do meu trabalho.

Estou caminhando, correndo um pouco. Preciso voltar minha saúde para o ponto de equilíbrio. Minha pressão arterial está desregulada. Está alta.

Revi papéis. Joguei fora alguns. Salvei algumas anotações. Reli postagens no Blog, fiz comentários em um monólogo comigo mesmo, o hoje com o ontem.

Vi fotos antigas. Não tão antigas assim.

Saí com minha esposa para acompanhá-la em algumas obrigações.

Fim do dia.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

O machete (1878) - Conto de Machado de Assis


Machete ou
Cavaquinho.


Violoncelo.

Publicado originalmente em "Jornal das Famílias", em 1878.


Inácio Ramos contava apenas dez anos quando manifestou decidida vocação musical. Seu pai, músico da imperial capela, ensinou-lhe os primeiros rudimentos da sua arte, de envolta com os da gramática de que pouco sabia. Era um pobre artista cujo único mérito estava na voz de tenor e na arte com que executava a música sacra. Inácio, conseguintemente, aprendeu melhor a música do que a língua, e aos quinze anos sabia mais dos bemóis que dos verbos. Ainda assim sabia quanto bastava para ler a história da música e dos grandes mestres. A leitura seduziu-o ainda mais; atirou-se o rapaz com todas as forças da alma à arte do seu coração, e ficou dentro de pouco tempo um rabequista de primeira categoria.

A rabeca foi o primeiro instrumento escolhido por ele, como o que melhor podia corresponder às sensações de sua alma. Não o satisfazia, entretanto, e ele sonhava alguma coisa melhor. Um dia veio ao Rio de Janeiro um velho alemão, que arrebatou o público tocando violoncelo. Inácio foi ouvi-lo. Seu entusiasmo foi imenso; não somente a alma do artista comunicava com a sua como lhe dera a chave do segredo que ele procurara.

Inácio nascera para o violoncelo.

Daquele dia em diante, o violoncelo foi o sonho do artista fluminense. Aproveitando a passagem do artista germânico, Inácio recebeu dele algumas lições, que mais tarde aproveitou quando, mediante economias de longo tempo, conseguiu possuir o sonhado instrumento.

Já a esse tempo seu pai era morto. — Restava-lhe sua mãe, boa e santa senhora, cuja alma parecia superior à condição em que nascera, tão elevada tinha a concepção do belo. Inácio contava vinte anos, uma figura artística, uns olhos cheios de vida e de futuro. Vivia de algumas lições que dava e de alguns meios que lhe advinham das circunstâncias, tocando ora num teatro, ora num salão, ora numa igreja. Restavam-lhe algumas horas, que ele empregava ao estudo do violoncelo.

Havia no violoncelo uma poesia austera e pura, uma feição melancólica e severa que casavam com a alma de Inácio Ramos. A rabeca, que ele ainda amava como o primeiro veículo de seus sentimentos de artista, não lhe inspirava mais o entusiasmo antigo. Passara a ser um simples meio de vida; não a tocava com a alma, mas com as mãos; não era a sua arte, mas o seu ofício. O violoncelo sim; para esse guardava Inácio as melhores das suas aspirações íntimas, os sentimentos mais puros, a imaginação, o fervor, o entusiasmo. Tocava a rabeca para os outros, o violoncelo para si, quando muito para sua velha mãe.

Moravam ambos em lugar afastado, em um dos recantos da cidade, alheios à sociedade que os cercava e que os não entendia. Nas horas de lazer, tratava Inácio do querido instrumento e fazia vibrar todas as cordas do coração, derramando as suas harmonias interiores, e fazendo chorar a boa velha de melancolia e gosto, que ambos estes sentimentos lhe inspirava a música do filho. Os serões caseiros quando Inácio não tinha de cumprir nenhuma obrigação fora de casa, eram assim passados; sós os dois, com o instrumento e o céu de permeio.

A boa velha adoeceu e morreu. Inácio sentiu o vácuo que lhe ficava na vida. Quando o caixão, levado por meia dúzia de artistas seus colegas, saiu da casa, Inácio viu ir ali dentro todo o passado, e presente, e não sabia se também o futuro. Acreditou que o fosse. A noite do enterro foi pouca para o repouso que o corpo lhe pedia depois do profundo abalo; a seguinte porém foi a data da sua primeira composição musical. Escreveu para o violoncelo uma elegia que não seria sublime como perfeição de arte, mas que o era sem dúvida como inspiração pessoal. Compô-la para si; durante dois anos ninguém a ouviu nem sequer soube dela.

A primeira vez que ele troou aquele suspiro fúnebre foi oito dias depois de casado, um dia em que se achava a sós com a mulher, na mesma casa em que morrera sua mãe, na mesma sala em que ambos costumavam passar algumas horas da noite. Era a primeira vez que a mulher o ouvia tocar violoncelo. Ele quis que a lembrança da mãe se casasse àquela revelação que ele fazia à esposa do seu coração: vinculava de algum modo o passado ao presente.

— Toca um pouco de violoncelo, tinha-lhe dito a mulher duas vezes depois do consórcio; tua mãe me dizia que tocavas tão bem!

— Bem, não sei, respondia Inácio; mas tenho satisfação em tocá-lo.

— Pois sim, desejo ouvir-te!

— Por hora, não, deixa-me contemplar-te primeiro.

Ao cabo de oito dias, Inácio satisfez o desejo de Carlotinha. Era de tarde, — uma tarde fria e deliciosa. O artista travou do instrumento, empunhou o arco e as cordas gemeram ao impulso da mão inspirada. Não via a mulher, nem o lugar, nem o instrumento sequer: via a imagem da mãe e embebia-se todo em um mundo de harmonias celestiais. A execução durou vinte minutos. Quando a última nota expirou nas cordas do violoncelo, o braço do artista tombou, não de fadiga, mas porque todo o corpo cedia ao abalo moral que a recordação e a obra lhe produziam.

— Oh! lindo! lindo! exclamou Carlotinha levantando-se e indo ter com o marido.

Inácio estremeceu e olhou pasmado para a mulher. Aquela exclamação de entusiasmo destoara-lhe, em primeiro lugar porque o trecho que acabava de executar não era lindo, como ela dizia, mas severo e melancólico e depois porque, em vez de um aplauso ruidoso, ele preferia ver outro mais consentâneo com a natureza da obra, — duas lágrimas que fossem, — duas, mas exprimidas do coração, como as que naquele momento lhe sulcavam o rosto.

Seu primeiro movimento foi de despeito, — despeito de artista, que nele dominava tudo. Pegou silencioso no instrumento e foi pô-lo a um canto. A moça viu-lhe então as lágrimas; comoveu-se e estendeu-lhe os braços.

Inácio apertou-a ao coração.

Carlotinha sentou-se então, com ele, ao pé da janela, donde viam surdir no céu as primeiras estrelas. Era uma mocinha de dezessete anos, parecendo dezenove, mais baixa que alta, rosto amorenado, olhos negros e travessos. Aqueles olhos, expressão fiel da alma de Carlota, contrastavam com o olhar brando e velado do marido. Os movimentos da moça eram vivos e rápidos, a voz argentina, a palavra fácil e correntia, toda ela uma índole, mundana e jovial. Inácio gostava de ouvi-la e vê-la; amava-a muito, e, além disso, como que precisava às vezes daquela expressão de vida exterior para entregar-se todo às especulações do seu espírito.

Carlota era filha de um negociante de pequena escala, homem que trabalhou a vida toda como um mouro para morrer pobre, porque a pouca fazenda que deixou, mal pôde chegar para satisfazer alguns empenhos. Toda a riqueza da filha era a beleza, que a tinha, ainda que sem poesia nem ideal. Inácio conhecera-a ainda em vida do pai, quando ela ia com este visitar sua velha mãe; mas só a amou deveras, depois que ela ficou órfã e quando a alma lhe pediu um afeto para suprir o que a morte lhe levara.

A moça aceitou com prazer a mão que Inácio lhe oferecia. Casaram-se a aprazimento dos parentes da moça e das pessoas que os conheciam a ambos. O vácuo fora preenchido.

Apesar do episódio acima narrado, os dias, as semanas e os meses correram tecidos de ouro para o esposo artista. Carlotinha era naturalmente faceira e amiga de brilhar; mas contentava-se com pouco, e não se mostrava exigente nem extravagante. As posses de Inácio Ramos eram poucas; ainda assim ele sabia dirigir a vida de modo que nem o necessário lhe faltava nem deixava de satisfazer algum dos desejos mais modestos da moça. A sociedade deles não era certamente dispendiosa nem vivia de ostentação; mas qualquer que seja o centro social há nele exigências a que não podem chegar todas as bolsas. Carlotinha vivera de festas e passatempos; a vida conjugal exigia dela hábitos menos frívolos, e ela soube curvar-se à lei que de coração aceitara.

Demais, que há aí que verdadeiramente resista ao amor? Os dois amavam-se; por maior que fosse o contraste entre a índole de um e outro, ligava-os e irmanava-os o afeto verdadeiro que os aproximara. O primeiro milagre do amor fora a aceitação por parte da moça do famoso violoncelo. Carlotinha não experimentava decerto as sensações que o violoncelo produzia no marido, e estava longe daquela paixão silenciosa e profunda que vinculava Inácio Ramos ao instrumento; mas acostumara-se a ouvi-lo, apreciava-o, e chegara a entendê-lo alguma vez.

A esposa concebeu. No dia em que o marido ouviu esta notícia sentiu um abalo profundo; seu amor cresceu de intensidade.

— Quando o nosso filho nascer, disse ele, eu comporei o meu segundo canto.

— O terceiro será quando eu morrer, não? perguntou a moça com um leve tom de despeito.

— Oh! não digas isso!

Inácio Ramos compreendeu a censura da mulher; recolheu-se durante algumas horas, e trouxe uma composição nova, a segunda que lhe saía da alma, dedicada à esposa. A música entusiasmou Carlotinha, antes por vaidade satisfeita do que porque verdadeiramente a penetrasse. Carlotinha abraçou o marido com todas as forças de que podia dispor, e um beijo foi o prêmio da inspiração. A felicidade de Inácio não podia ser maior; ele tinha tido o que ambicionava: vida de arte, paz e ventura doméstica, e enfim esperanças de paternidade.

— Se for menino, dizia ele à mulher, aprenderá violoncelo; se for menina, aprenderá harpa. São os únicos instrumentos capazes de traduzir as impressões mais sublimes do espírito.

Nasceu um menino. Esta nova criatura deu uma feição nova ao lar doméstico. A felicidade do artista era imensa; sentiu-se com mais força para o trabalho, e ao mesmo tempo como que se lhe apurou a inspiração.

A prometida composição ao nascimento do filho foi realizada e executada, não já entre ele e a mulher, mas em presença de algumas pessoas de amizade. Inácio Ramos recusou a princípio fazê-lo; mas a mulher alcançou dele que repartisse com estranhos aquela nova produção de um talento. Inácio sabia que a sociedade não chegaria talvez a compreendê-lo como ele desejava ser compreendido; todavia cedeu. Se acertara aos seus receios não o soube ele, porque dessa vez, como das outras, não viu ninguém; viu-se e ouviu-se a si próprio, sendo cada nota um eco das harmonias santas e elevadas que a paternidade acordara nele.

A vida correria assim monotonamente bela, e não valeria a pena escrevê-la, a não ser um incidente, ocorrido naquela mesma ocasião.

A casa em que eles moravam era baixa, ainda que assaz larga e airosa. Dois transeuntes, atraídos pelos sons do violoncelo, aproximaram-se das janelas entrefechadas, e ouviram do lado de fora cerca de metade da composição. Um deles, entusiasmado com a composição e a execução, rompeu em aplausos ruidosos quando Inácio acabou, abriu violentamente as portas da janela e curvou-se para dentro gritando.

— Bravo, artista divino!

A exclamação inesperada chamou a atenção dos que estavam na sala; voltaram-se todos os olhos e viram duas figuras de homem, um tranquilo, outro alvoroçado de prazer. A porta foi aberta aos dois estranhos. O mais entusiasmado deles correu a abraçar o artista.

— Oh! alma de anjo! exclamava ele. Como é que um artista destes está aqui escondido dos olhos do mundo?

O outro personagem fez igualmente cumprimentos de louvor ao mestre do violoncelo; mas, como ficou dito, seus aplausos eram menos entusiásticos; e não era difícil achar a explicação da frieza na vulgaridade de expressão do rosto.

Estes dois personagens assim entrados na sala eram dois amigos que o acaso ali conduzira. Eram ambos estudantes de direito, em férias; o entusiasta, todo arte e literatura, tinha a alma cheia de música alemã e poesia romântica, e era nada menos que um exemplar daquela falange acadêmica fervorosa e moça animada de todas as paixões, sonhos, delírios e efusões da geração moderna; o companheiro era apenas um espírito medíocre, avesso a todas essas coisas, não menos que ao direito que aliás forcejava por meter na cabeça.

Aquele chamava-se Amaral, este Barbosa.

Amaral pediu a Inácio Ramos para lá voltar mais vezes. Voltou; o artista de coração gastava o tempo a ouvir o de profissão fazer falar as cordas do instrumento. Eram cinco pessoas; eles, Barbosa, Carlotinha, e a criança, o futuro violoncelista. Um dia, menos de uma semana depois, Amaral descobriu a Inácio que o seu companheiro era músico.

— Também! exclamou o artista.

— É verdade; mas um pouco menos sublime do que o senhor, acrescentou ele sorrindo.

— Que instrumento toca?

— Adivinhe.

— Talvez piano...

— Não.

— Flauta?

— Qual!

— É instrumento de cordas?

— É.

— Não sendo rabeca... disse Inácio olhando como a esperar uma confirmação.

— Não é rabeca; é machete.

Inácio sorriu; e estas últimas palavras chegaram aos ouvidos de Barbosa, que confirmou a notícia do amigo.

— Deixe estar, disse este baixo a Inácio, que eu o hei de fazer tocar um dia. É outro gênero...

— Quando queira.

Era efetivamente outro gênero, como o leitor facilmente compreenderá. Ali postos os quatro, numa noite da seguinte semana, sentou-se Barbosa no centro da sala, afinou o machete e pôs em execução toda a sua perícia. A perícia era, na verdade, grande; o instrumento é que era pequeno. O que ele tocou não era Weber nem Mozart; era uma cantiga do tempo e da rua, obra de ocasião. Barbosa tocou-a, não dizer com alma, mas com nervos. Todo ele acompanhava a gradação e variações das notas; inclinava-se sobre o instrumento, retesava o corpo, pendia a cabeça ora a um lado, ora a outro, alçava a perna, sorria, derretia os olhos ou fechava-os nos lugares que lhe pareciam patéticos. Ouvi-lo tocar era o menos; vê-lo era o mais. Quem somente o ouvisse não poderia compreendê-lo.

Foi um sucesso, — um sucesso de outro gênero, mas perigoso, porque, tão depressa Barbosa ouviu os cumprimentos de Carlotinha e Inácio, começou segunda execução, e iria a terceira, se Amaral não interviesse, dizendo:

— Agora o violoncelo.

O machete de Barbosa não ficou escondido entre as quatro partes da sala de Inácio Ramos; dentro em pouco era conhecida a forma dele no bairro em que morava o artista, e toda a sociedade deste ansiava por ouvi-lo.

Carlotinha foi a denunciadora; ela achara infinita graça e vida naquela outra música, e não cessava de o elogiar em toda a parte. As famílias do lugar tinham ainda saudades de um célebre machete que ali tocara anos antes o atual subdelegado, cujas funções elevadas não lhe permitiram cultivar a arte. Ouvir o machete de Barbosa era reviver uma página do passado.

— Pois eu farei com que o ouçam, dizia a moça.

Não foi difícil.

Houve dali a pouco reunião em casa de uma família da vizinhança. Barbosa acedeu ao convite que lhe foi feito e lá foi com o seu instrumento. Amaral acompanhou-o.

— Não te lastimes, meu divino artista; dizia ele a Inácio; e ajuda-me no sucesso do machete.

Riam-se os dois, e mais do que eles se ria Barbosa, riso de triunfo e satisfação porque o sucesso não podia ser mais completo.

— Magnífico!

— Bravo!

— Soberbo!

— Bravíssimo!

O machete foi o herói da noite. Carlota repetia às pessoas que a cercavam:

— Não lhes dizia eu? é um portento.

— Realmente, dizia um crítico do lugar, assim nem o Fagundes...

Fagundes era o subdelegado.

Pode-se dizer que Inácio e Amaral foram os únicos alheios ao entusiasmo do machete. Conversavam eles, ao pé de uma janela, dos grandes mestres e das grandes obras da arte.

— Você por que não dá um concerto? perguntou Amaral ao artista.

— Oh! não.

— Por quê?

— Tenho medo...

— Ora, medo!

— Medo de não agradar...

— Há de agradar por força!

— Além disso, o violoncelo está tão ligado aos sucessos mais íntimos da minha vida, que eu o considero antes como a minha arte doméstica...

Amaral combatia estas objeções de Inácio Ramos; e este fazia-se cada vez mais forte nelas. A conversa foi prolongada, repetiu-se daí a dois dias, até que no fim de uma semana, Inácio deixou-se vencer.

— Você verá, dizia-lhe o estudante, e verá como todo o público vai ficar delirante.

Assentou-se que o concerto seria dali a dois meses. Inácio tocaria uma das peças já compostas por ele, e duas de dois mestres que escolheu dentre as muitas.

Barbosa não foi dos menos entusiastas da ideia do concerto. Ele parecia tomar agora mais interesse nos sucessos do artista, ouvia com prazer, ao menos aparente, os serões de violoncelo, que eram duas vezes por semana. Carlotinha propôs que os serões fossem três; mas Inácio nada concedeu além dos dois. Aquelas noites eram passadas somente em família; e o machete acabava muita vez o que o violoncelo começava. Era uma condescendência para com a dona da casa e o artista! — o artista do machete.

Um dia Amaral olhou Inácio preocupado e triste. Não quis perguntar-lhe nada; mas como a preocupação continuasse nos dias subsequentes, não se pôde ter e interrogou-o. Inácio respondeu-lhe com evasivas.

— Não, dizia o estudante; você tem alguma coisa que o incomoda certamente.

— Coisa nenhuma!

E depois de um instante de silêncio:

— O que tenho é que estou arrependido do violoncelo; se eu tivesse estudado o machete!

Amaral ouviu admirado estas palavras; depois sorriu e abanou a cabeça. Seu entusiasmo recebera um grande abalo. A que vinha aquele ciúme por causa do efeito diferente que os dois instrumentos tinham produzido? Que rivalidade era aquela entre a arte e o passatempo?

— Não podias ser perfeito, dizia Amaral consigo; tinhas por força um ponto fraco; infelizmente para ti o ponto é ridículo.

Daí em diante os serões foram menos amiudados. A preocupação de Inácio Ramos continuava; Amaral sentia que o seu entusiasmo ia cada vez a menos, o entusiasmo em relação ao homem, porque bastava ouvi-lo tocar para acordarem-se-lhe as primeiras impressões.

A melancolia de Inácio era cada vez maior. Sua mulher só reparou nela quando absolutamente se lhe meteu pelos olhos.

— Que tens? perguntou-lhe Carlotinha.

— Nada, respondia Inácio.

— Aposto que está pensando em alguma composição nova, disse Barbosa que dessas ocasiões estava presente.

— Talvez, respondeu Inácio; penso em fazer uma coisa inteiramente nova; um concerto para violoncelo e machete.

— Por que não? disse Barbosa com simplicidade. Faça isso, e veremos o efeito que há de ser delicioso.

— Eu creio que sim, murmurou Inácio.

Não houve concerto no teatro, como se havia assentado; porque Inácio Ramos de todo se recusou. Acabaram-se as férias e os dois estudantes voltaram para S. Paulo.

— Virei vê-lo daqui a pouco, disse Amaral. Virei até cá somente para ouvi-lo.

Efetivamente vieram os dois, sendo a viagem anunciada por carta de ambos.

Inácio deu a notícia à mulher, que a recebeu com alegria.

— Vêm ficar muitos dias? disse ela.

— Parece que somente três.

— Três!

— É pouco, disse Inácio; mas nas férias que vêm, desejo aprender o machete.

Carlotinha sorriu, mas de um sorriso acanhado, que o marido viu e guardou consigo.

Os dois estudantes foram recebidos como se fossem de casa. Inácio e Carlotinha desfaziam-se em obséquios. Na noite do mesmo dia, houve serão musical; só violoncelo, a instâncias de Amaral, que dizia:

— Não profanemos a arte!

Três dias vinham eles demorar-se, mas não se retiraram no fim deles.

— Vamos daqui a dois dias.

— O melhor é completar a semana, observou Carlotinha.

— Pode ser.

No fim de uma semana, Amaral despediu-se e voltou a S. Paulo; Barbosa não voltou; ficara doente. A doença durou somente dois dias, no fim dos quais ele foi visitar o violoncelista.

— Vai agora? perguntou este.

— Não, disse o acadêmico; recebi uma carta que me obriga a ficar algum tempo.

Carlotinha ouvira alegre a notícia; o rosto de Inácio não tinha nenhuma expressão.

Inácio não quis prosseguir nos serões musicais, apesar de lho pedir algumas vezes Barbosa, e não quis porque, dizia ele, não queria ficar mal com Amaral, do mesmo modo que não quereria ficar mal com Barbosa, se fosse este o ausente.

— Nada impede, porém, concluiu o artista, que ouçamos o seu machete.

Que tempo duraram aqueles serões de machete? Não chegou tal notícia ao conhecimento do escritor destas linhas. O que ele sabe apenas é que o machete deve ser instrumento triste, porque a melancolia de Inácio tornou-se cada vez mais profunda. Seus companheiros nunca o tinham visto imensamente alegre; contudo a diferença entre o que tinha sido e era agora entrava pelos olhos dentro. A mudança manifestava-se até no trajar, que era desleixado, ao contrário do que sempre fora antes. Inácio tinha grandes silêncios, durante os quais era inútil falar-lhe, porque ele a nada respondia, ou respondia sem compreender.

— O violoncelo há de levá-lo ao hospício, dizia um vizinho compadecido e filósofo.

Nas férias seguintes, Amaral foi visitar o seu amigo Inácio, logo no dia seguinte àquele em que desembarcou. Chegou alvoroçado à casa dele; uma preta veio abri-la.

— Onde está ele? Onde está ele? perguntou alegre e em altas vozes o estudante.

A preta desatou a chorar.

Amaral interrogou-a, mas não obtendo resposta, ou obtendo-a intercortada de soluços, correu para o interior da casa com a familiaridade do amigo e a liberdade que lhe dava a ocasião.

Na sala do concerto, que era nos fundos, olhou ele Inácio Ramos, de pé, com o violoncelo nas mãos preparando-se para tocar. Ao pé dele brincava um menino de alguns meses.

Amaral parou sem compreender nada. Inácio não o viu entrar; empunhara o arco e tocou, — tocou como nunca, — uma elegia plangente, que o estudante ouviu com lágrimas nos olhos. A criança, dominada ao que parece pela música, olhava quieta para o instrumento. Durou a cena cerca de vinte minutos.

Quando a música acabou, Amaral correu a Inácio.

— Oh! meu divino artista! exclamou ele.

Inácio apertou-o nos braços; mas logo o deixou e foi sentar-se numa cadeira com os olhos no chão. Amaral nada compreendia; sentia porém que algum abalo moral se dera nele.

— Que tens? disse.

— Nada, respondeu Inácio.

E ergueu-se e tocou de novo o violoncelo. Não acabou porém; no meio de uma arcada, interrompeu a música, e disse a Amaral:

— É bonito, não?

— Sublime! respondeu o outro.

— Não; machete é melhor.

E deixou o violoncelo, e correu a abraçar o filho.

— Sim, meu filho, exclamava ele, hás de aprender machete; machete é muito melhor.

— Mas que há? articulou o estudante.

— Oh! nada, disse Inácio, ela foi-se embora, foi-se com o machete. Não quis o violoncelo, que é grave demais. Tem razão; machete é melhor.

A alma do marido chorava mas os olhos estavam secos. Uma hora depois enlouqueceu.

FIM

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COMENTÁRIO (Post Scriptum, 4/01/16)

Reli o conto nesta manhã de janeiro de 2016. Estou em férias do meu trabalho na Cassi - Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil -, onde sou gestor eleito pelos associados.

Andando por um Shopping Center ontem, aqui em Osasco, comprei um livro que organiza 50 contos de Machado de Assis. O autor é o estudioso John Gledson. Me lembro dele de meus tempos de aluno da FFLCH-USP.

O primeiro conto do livro do Gledson é este, "O machete".