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quinta-feira, 18 de junho de 2026

Sobre esquerdismo (1) - Lendo Lênin



Refeição Cultural

Dias atrás, o presidente Lula disse a um grupo de líderes do G7, e a conversa foi captada pelos microfones, que nunca foi "esquerdista" e essa afirmação gerou algum tipo de discussão a respeito da questão.

Eu tenho a minha leitura sobre o sentido do que Lula disse, por minha experiência política de décadas de representação como dirigente da classe trabalhadora, como cutista e como petista.

Motivado por isso, acabei tendo a curiosidade de ler uma obra que nunca li de Vladimir Lênin: Esquerdismo, doença infantil do comunismo, de 1920.

Para entender Lula e o Novo Sindicalismo que surgiu nos anos setenta, e consequentemente a CUT e o PT, um dos livros que mais contribuíram para minha compreensão foi o da jornalista Denise Paraná, Lula, filho do Brasil, editado pela Perseu Abramo em 2003. A primeira edição foi em 1996 pela Editora Xamã.

Enfim, enquanto leio o livro de Lênin, vou recortando alguns trechos que acho interessantes. Já li até o capítulo 4.

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EXCERTOS DE LÊNIN

Os poucos recortes que fiz abaixo são dos capítulos I a IV, com os títulos:

I - Em que sentido podemos falar do significado internacional da Revolução Russa?

II - Uma das condições fundamentais do êxito dos Bolcheviques

III - As principais etapas da história do Bolchevismo

IV - Quais foram os inimigos que o Bolchevismo enfrentou, dentro do movimento operário, para poder crescer, fortalecer-se e temperar-se?


“É possível que os revolucionários russos já tivessem derrubado o czar há muito tempo se não fossem obrigados a lutar, ao mesmo tempo, contra o aliado deste, o capital europeu.” (de “Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo” por “Vladimir Ilitch Ulianov Lênin, UTL”)

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“Como Karl Kautsky escrevia bem, há dezoito anos!” (idem)

Comentário: Lênin diz isso em referência a uma avaliação que Kautsky fez em 1902. A frase que citei acima é dele.

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A NECESSIDADE DA DITADURA DO PROLETARIADO

“A ditadura do proletariado é a guerra mais severa e implacável da nova classe contra um inimigo mais poderoso, a burguesia, cuja resistência está decuplicada, em virtude de sua derrota (mesmo que em apenas um país), e cuja potência consiste não só na força do capital internacional, na força e na solidez das relações internacionais da burguesia, como também na força do costume, na força da pequena produção.” (idem)

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“infelizmente, continua a haver no mundo a pequena produção em grande escala, e ela cria capitalismo e burguesia constantemente, todo dia, a toda hora, através de um processo espontâneo e em massa. Por tudo isso, a ditadura do proletariado é necessária, e a vitória sobre a burguesia torna-se impossível sem uma guerra prolongada, tenaz, desesperada, mortal; uma guerra que exige serenidade, disciplina, firmeza, inflexibilidade e uma vontade única.” (idem)

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“a centralização incondicional e a disciplina mais severa do proletariado constituem uma das condições fundamentais da vitória sobre a burguesia.” (idem)

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COMO MANTER A DISCIPLINA DO PARTIDO, DO MOVIMENTO E DO PROLETARIADO?

“A primeira pergunta que surge é a seguinte: como se mantém a disciplina do partido revolucionário do proletariado? Como é ela comprovada? Como é fortalecida? Em primeiro lugar, pela consciência da vanguarda proletária e por sua fidelidade à revolução, por sua firmeza, seu espírito de sacrifício, seu heroísmo.” (idem)

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“Segundo, por sua capacidade de ligar-se, aproximar-se e, até certo ponto, se quiserem, de fundir-se com as mais amplas massas trabalhadoras, antes de tudo com as massas proletárias, mas também com as massas trabalhadoras não proletárias.” (idem)

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“Finalmente, pela justeza da linha política seguida por essa vanguarda, pela justeza de sua estratégia e de sua tática políticas, com a condição de que as mais amplas massas se convençam disso por experiência própria.” (idem)

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OS REVOLUCIONÁRIOS DE INTERNET ("DE BOCA")

“E se os bolcheviques conseguiram tal resultado foi exclusivamente porque desmascararam impiedosamente e expulsaram os revolucionários de boca, obstinados em não compreender que é necessário recuar, que é preciso saber recuar, que é obrigatório aprender a atuar legalmente nos mais reacionários parlamentos e nas organizações sindicais, cooperativas, nas organizações de socorros mútuos e outras semelhantes, por mais reacionárias que sejam.” (de “Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo” por “Vladimir Ilitch Ulianov Lênin, UTL”)

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“os bolcheviques. Estes nunca teriam conseguido eliminar os mencheviques, caso não houvessem aplicado uma tática justa, combinando o trabalho ilegal com a utilização obrigatória das "possibilidades legais". Na mais reacionária das Dumas, os bolcheviques conquistaram toda a bancada operária.” (idem)

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“a república 'operária-camponesa' soviética é melhor que qualquer república democrático-burguesa, parlamentar. Sem essa preparação prudente, minuciosa, sensata e prolongada não teríamos podido alcançar nem manter a vitória; de Outubro de 1917.” (idem)

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OS PEQUENO-BURGUESES

“0 pequeno-burguês 'enfurecido' pelos horrores do capitalismo é, como o anarquismo, um fenômeno social comum a todos os países capitalistas. São por demais conhecidas a inconstância e a esterilidade dessas veleidades revolucionárias, assim como a facilidade com que se transformam rapidamente em submissão, apatia, fantasias, e mesmo num entusiasmo 'furioso' por essa ou aquela tendência burguesa 'em moda'.” (idem)

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“Em 1908, os bolcheviques 'de esquerda' foram expulsos de nosso partido, em virtude de seu empenho em não querer compreender a necessidade de participar num 'parlamento' ultrarreacionário. Os 'esquerdistas', entre os quais havia muitos excelentes revolucionários que depois foram (e continuam sendo) honrosamente membros do Partido Comunista, apoiavam-se, principalmente, na feliz experiência do boicote de 1905.” (de “Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo” por “Vladimir Ilitch Ulianov Lênin, UTL”)

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“0 boicote dos bolcheviques ao 'parlamento' em 1905, enriqueceu o proletariado revolucionário com uma experiência política extraordinariamente preciosa, mostrando que, na combinação das formas de luta legais e ilegais, parlamentares e extraparlamentares, é, às vezes, conveniente e até obrigatório saber renunciar às formas parlamentares. Mas transportar cegamente, por simples imitação, sem espírito crítico, essa experiência a outras condições, a outra situação, é o maior dos erros” (idem)

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COMENTÁRIO FINAL

Até aqui na leitura, eu fiquei pensando nas entrevistas de Lula para a jornalista Denise Paraná, lá no início dos anos noventa.

Lula não era um "esquerdista" e esse foi um dos motivos pelos quais seu irmão Frei Chico, um "esquerdista", e seus companheiros pensaram na possibilidade de Lula entrar no movimento sindical dos metalúrgicos.

Me marcou muito como estudioso do movimento sindical cutista e como militante do PT ver o Lula dizer que aquele movimento sindical e partidário que estava surgindo no final dos anos setenta e início dos oitenta tinha claro o que NÃO queria como referência: nem a URSS, nem a China, nem Cuba, não queriam saber de partido único, de movimento sindical atrelado ao partido e ao governo e que não podia fazer greve etc.

Enfim, sigamos na leitura.

William

18/06/26

sexta-feira, 5 de julho de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 5 de julho de 2024. Madrugada de sexta-feira.


REVOLUÇÃO RUSSA

Ver imagens recuperadas do início do século passado é um privilégio. Neste documentário "Grandes dias do século XX", vemos Lênin, Trótski e Stálin em meio aos trabalhadores russos.

No vídeo anterior, o cenário eram os campos de batalha da 1ª Guerra Mundial (comentário aqui). Neste episódio, a guerra também é comentada e tem papel relevante. 

Aliás, participar ou não da guerra entre as nações era uma questão que dividia o movimento da classe trabalhadora e suas lideranças comunistas, socialistas, anarquistas e socialdemocratas.

Sinopse:

No começo do século XX, a Rússia era um país de economia atrasada, dependente da agricultura. Os trabalhadores rurais viviam em extrema miséria e pobreza, e mesmo assim pagavam altos impostos para manter a monarquia absolutista do czar Nicolau II, que só conseguia se manter à base de muita violência. A formação de conselhos de trabalhadores, os sovietes, foi o sinal de que aquele sistema estava com os dias contados. A revolução foi uma questão de tempo. E a formação de uma república socialista, inevitável.

O documentário é dividido em capítulos: "Ensaio geral", "A Revolução", "Guerra civil" e "O comunismo se consolida".

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O SOCIALISMO REAL OBRIGOU O CAPITALISMO A CONCEDER DIREITOS À CLASSE TRABALHADORA

A sociedade humana do século XXI precisa urgentemente de um contraponto à hegemonia do capitalismo neoliberal que vigora em quase todo o planeta após a queda da União Soviética. 

É claro que a China é um contraponto de peso. E os BRICS estão aí para pressionar os EUA e seus quintais a se moverem até provocarem guerras por procuração. Mesmo sem ser exemplo em direitos sociais, chineses ameaçam o poder econômico do império, que vai cair atirando. 

E temos Cuba e seu povo encantador, que já aprendi a amar e respeitar e registro todo o meu apoio à Revolução Cubana, Fidel Castro e todas as lideranças do governo socialista, incluindo Díaz-Canel, atual presidente.

O feito extraordinário do povo russo, liderado pelos bolcheviques e pelo Exército Vermelho, permitiu aos milhões de proletários dos grandes países capitalistas do mundo posterior às grandes guerras e à depressão dos anos trinta, conquistarem direitos sociais, civis e políticos que ficaram conhecidos como estado de bem-estar social, nos conhecidos anos de ouro do capitalismo.

Os revolucionários russos transformaram um país continental com mais de cem milhões de habitantes, que viviam em condições materiais semelhantes à idade média, em uma potência econômica que conseguiu resistir à ameaça constante norte-americana durante décadas de guerra fria. Nunca na história humana, uma nação agrária deu um salto tecnológico tão rápido como a União Soviética.

Eu tenho a leitura política e histórica que se não fosse a necessidade de a URSS despender boa parte de seus recursos para a iminente guerra contra seus inimigos capitalistas, os líderes revolucionários e seu povo teriam encontrado soluções para seus problemas internos cotidianos. Boa parte dos problemas de necessidades materiais e de falta de liberdade também decorreram do permanente risco de dissolução das conquistas populares advindas da revolução proletária.

Enfim, é um longo debate. Eu tenho algumas impressões a partir de tudo que já estudei e das experiências que venho acumulando nas últimas décadas como apreciador de história da classe trabalhadora. E minha impressão sobre a experiência soviética ficou mais clara após minhas duas visitas a Cuba neste ano e no ano passado.

O documentário é uma delícia para quem gosta de história.

William


segunda-feira, 29 de abril de 2024

Livro: O marxismo ainda é útil? (Frei Betto)



Refeição Cultural

Osasco, 29 de abril de 2024. Segunda-feira.


Conheci Frei Betto pessoalmente em Havana, Cuba, neste ano. Visitei a República Socialista de Cuba pela segunda vez aproveitando a realização no país da 32ª Feira Internacional do Livro de Havana, ocorrida entre os dias 15 e 25 de fevereiro. A viagem foi uma experiência muito instrutiva para mim.

Das diversas oportunidades de novos conhecimentos culturais que tive ao longo de duas semanas, uma delas foi estar em um grupo de viagem cuja organizadora - Telma Araújo - é amiga pessoal do escritor dominicano Frei Betto. Graças a isso, por três dias pude ver palestras, entrevistas e conversar um pouco com essa figura extraordinária.

Ao ouvir as palestras de Frei Betto fiquei com muita vontade de sair lendo diversas obras do intelectual. Lógico que as coisas não são assim tão simples. Leitura engajada requer planejamento. Dos livros que trouxe do escritor dominicano e a biografia sobre ele, li rapidamente esta obra sobre o marxismo, lá em Havana mesmo. E estou lendo a biografia.

A maneira didática na qual nos é apresentada a forma como as sociedades funcionam e os modos de produção das sociedades ao longo da história, dando ênfase aos modos de produção capitalista e socialista é impressionante! Não à toa, a obra foi preparada em meados dos anos oitenta para ser usada na Educação após o fim da ditadura que assolou o país por duas décadas.

Reli o livro entre ontem e hoje para fazer esta postagem: convido leitoras e leitores e lideranças sociais do campo da esquerda e progressistas a lerem o livro sobre o marxismo e trabalharem com o conteúdo nas áreas de formação política dos movimentos populares.

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"Ahora este libro llega a manos de los lectores. Espero que también lo utilicen grupos de educación popular, de trabajo de base, sindicatos y movimientos sociales. Que sirva para despertar una visión crítica de la sociedad capitalista y un protagonismo político progresista, y que contribuya en la formación de militantes adictos a la utopia libertaria."

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Na própria introdução ao livro, Frei Betto explica a origem do texto aos leitores e o porquê de realizar uma edição adaptada em 2019 a partir daquela edição dos anos oitenta - feita para a disciplina escolar de OSPB (Organização Social e Política do Brasil). Livro para se contrapor aos conteúdos que dominaram a disciplina durante os anos de chumbo. 

Minha edição, autografada, é a que trouxe da Feira do Livro de Havana, uma edição mexicana cujos dados econômicos mundiais estão atualizados até 2022.

Amigas e amigos leitores, se eu fosse fazer citações como faço às vezes em postagens sobre livros, teria que citar muita coisa porque Frei Betto tem o dom de aclarar conceitos. É incrível a capacidade comunicativa do jornalista dominicano.

Sugiro a leitura a todes. Garanto que mesmo pessoas que já lidam com os temas abordados na obra ficarão encantadas com a simplicidade da linguagem para falar de coisas complexas como economia, trabalho, modos de produção, mais-valia, organização social e política das sociedades humanas etc.

Enfim, vou avaliar se escolho algumas citações para incluir na postagem ou não. (Post Scriptum: leiam o livro, pessoal, leiam o livro ou leiam Frei Betto. Comecem por seus artigos que já será um bom começo.)

O importante é registrar para vocês a riqueza desta pequena obra sobre a importância do marxismo para a atualidade. (Eita, dei spoiler da resposta ao título do livro...)

Abraços e bons estudos!

William Mendes


Bibliografia:

BETTO, Frei. ¿Todavía es útil el marxismo? - Traducción de Paula Abramo. México, 2022. 

sábado, 2 de março de 2024

José Martí: O Apóstolo da Independência de Cuba

 


Refeição Cultural

Nesta entrevista que fiz com o senhor Luis Caballero, um cubano revolucionário e historiador, ele nos conta a história de José Martí, figura humana extraordinária, e Apóstolo da Independência de Cuba, e acabamos por conhecer a própria história do povo cubano, um povo criativo e altivo, com amor-próprio e um espírito de liberdade que incomoda os imperialismos há séculos.

Estive pela segunda vez em Cuba e, a cada visita, mais fico interessado em estudar e conhecer a história desse povo rebelde e amoroso, que só quer viver a vida do jeito que eles mesmos definirem, sem a interferência impositiva de outras culturas como fizeram e fazem os países centrais do capitalismo.

O bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos há 63 anos é um bloqueio assassino, de lesa-humanidade, e o mundo assiste a isso da mesma forma que assiste hoje ao genocídio do povo palestino por parte do governo sionista do Estado de Israel. O mundo e os povos precisam de paz, precisam de uma nova forma de relação entre as sociedades humanas e o próprio planeta Terra.

Além das dificuldades econômicas e sociais que Cuba enfrenta de falta de gêneros básicos à vida no século XXI por causa do bloqueio do império norte-americano, o país enfrenta consequências sérias da emergência climática por estar em uma região do planeta que sofre com tufões e furacões, calor extremo e todas essas questões climáticas afetam diretamente a manutenção das condições de vida na ilha.

Enfim, ouçam o senhor Luis falando um pouco da história de Martí e do povo cubano, história que está interligada com a história de Cuba, tanto a Cuba colônia espanhola quanto a Cuba revolucionária de Fidel Castro e os demais revolucionários, que antes de serem socialistas, eram martianos.

Nosso entrevistado fala o espanhol cubano e com um pouco de atenção é possível a compreensão porque o senhor Luis mantem contato com o povo brasileiro há muito tempo.

William Mendes


segunda-feira, 20 de março de 2023

Leitura: O homem que amava os cachorros - Leonardo Padura



Refeição Cultural

Osasco, 20 de março de 2023. Segunda-feira.


INTRODUÇÃO

A leitura de O homem que amava os cachorros (2009), do escritor cubano Leonardo Padura, foi uma leitura difícil para mim, considerando que tenho relativa facilidade para ler grandes romances, grandes tanto no tamanho quanto na fama que carregam. 

Peguei o livro para ler no primeiro dia do ano e achei que a leitura seria mais fácil do que foi. Demorei dois meses para ler 20 capítulos, cerca de 360 páginas, parei por duas semanas e depois decidi ler de uma vez os 10 capítulos finais, mais 230 páginas.

Um dos motivos para escolher Leonardo Padura e este livro dele para ler no início do ano foi meu desejo de conhecer um pouco mais sobre Cuba e o povo cubano sob a ótica de um escritor consagrado e da atualidade, em plena produção literária. 

Quase nada sei sobre esse encantador país socialista, país de José Martí, de Alejo Carpentier, de Fidel Castro e de um dos povos mais aguerridos do mundo. Nem a poderosa URSS resistiu aos ataques ardilosos do império norte-americano e Cuba resiste até hoje! Foda isso! Enfim, só sei de Cuba o trivial que os menos ignorantes sabem.

Na leitura adotei uma estratégia de evitar saber qualquer coisa sobre a obra. Não li o prefácio do livro antes de acabar o romance, prefácio feito por ninguém menos que o professor Gilberto Maringoni, que admiro muito. Não li nem as orelhas do livro. Não li nada na internet sobre a obra. Me lembro do amigo Coelho me dizer muitos anos atrás que eu precisava ler este livro porque ele era demais. Agora, ao postar a foto do livro na rede social, vi que muitas pessoas gostaram muito do livro. E ele é bom mesmo, muito bom!

Este comentário sobre a minha leitura do livro é mais sobre o impacto que a obra teve em mim durante a leitura do que sobre aspectos do romance. Tem muita gente boa que escreveu sobre as características impactantes da arte de Padura neste romance histórico, neste "thriller histórico", como diz o professor Maringoni. 

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OS SERES HUMANOS FAZEM A HISTÓRIA, MAS A FAZEM DE ACORDO COM AS CIRCUNSTÂNCIAS DA ÉPOCA HISTÓRICA

"Os homens fazem a sua própria história; contudo, não a fazem de livre e espontânea vontade, pois não são eles quem escolhem as circunstâncias sob as quais ela é feita, mas estas lhes foram transmitidas assim como se encontram." (Karl Marx. O 18 de brumário de Luís Bonaparte, São Paulo, Boitempo, 2011, p. 25)


Esta citação de Marx feita pelo professor Maringoni no prefácio ao livro de Leonardo Padura é central para eu tentar compreender meus sentimentos durante a leitura do romance que aborda a vida, o exílio e o assassinato de León Trótski pelo comunista espanhol Ramón Mercader a mando de Josef Stálin. O romance O homem que amava os cachorros tem esse enredo, com o acréscimo do ambiente cubano, pois a história se passa na ilha caribenha, dos anos 1970 até os anos iniciais deste século.

As leituras de História sempre são mais lentas para mim, ou as leituras de História mescladas com análises de outras ciências. O livro de Eric Hobsbawm, A era dos extremos, por exemplo, gastei um século para ler. Era foda ler mais que algumas páginas porque tomar conhecimento de tudo aquilo me estufava. Tinha que parar de ler e refletir, deglutir. O livro do filólogo sobrevivente do nazismo Victor Klemperer, LTI: A linguagem do 3º Reich, também foi dificílimo de ler. Cada capítulo era uma porrada nos sentidos e tinha que parar.

É engraçado como as coisas são meio sem padrão comigo (sem determinismos, sem certezas de resultados) porque quando li em 2021 (comentário aqui) em 15 dias as 150 páginas de trótski - a paixão segundo a revolução (1986), de Paulo Leminski, foi uma leitura rápida de um conteúdo complexo e abrangente sobre a história tanto da Rússia quanto do líder revolucionário, texto que incluiu uma análise dos personagens da obra fenomenal Os irmãos Karamázov, de Dostoiévisk. Enfim, tirando essa exceção de leitura complexa mais rápida, em geral demoro com textos que envolvem história, política, filosofia e ciências.

OS TRÊS CENÁRIOS DO ROMANCE

O romance começa introduzindo o personagem cubano Iván em sua dura vida de cidadão de país socialista vivendo as dificuldades econômicas, políticas e sociais de uma Cuba sob embargo econômico há décadas e sem os subsídios da União Soviética após o fim do regime comunista russo no início dos anos 90. A miséria cotidiana e a falta de alimentos básicos nos dão um mal-estar tremendo.

Em outro cenário e tempo histórico, vemos Liev Davidovich se deslocando no exílio pelas estepes geladas nos anos 30 e se lembrando do processo de coletivização das terras e bens dos povos que viviam na enorme extensão geográfica da Rússia. Uma frase me deixou pensando muito em como deve ter sido o processo (ver abaixo). De certa forma, o processo não foi muito diferente dos capitalistas que tomaram todas as terras dos camponeses na Inglaterra e demais países europeus nos séculos anteriores à Revolução de Outubro.

"Mas os ativistas políticos enviados por Moscou já andavam por aquelas terras, decididos a transformar as tribos nômades em trabalhadores de fazendas coletivas e suas cabras montesas em gado estatal, assim como a demonstrar a turcomanos, cazaques, uzbeques e quirguizes que o seu costume ancestral de adorar pedras ou árvores da estepe era uma atitude antimarxista deplorável a que deviam renunciar em favor do progresso de uma humanidade capaz de compreender que, ao fim e ao cabo, uma pedra é só uma pedra e que não se sente outra coisa além de um simples contato físico quando o frio e o esgotamento devoram as forças humanas e, no meio de um deserto gelado, um homem armado apenas de sua fé encontra um pedaço de rocha e o leva aos lábios." (p. 49)

Num terceiro cenário, conhecemos o jovem catalão Ramón Mercader, comunista lutando na Guerra Civil Espanhola (1936-39). Essa parte da história me enfiou nas recordações de minhas duas décadas de movimento sindical. Toda vez que o romance entrava no cenário espanhol, era só para o leitor tomar conhecimento da guerra fratricida no seio da militância da esquerda. Os "companheiros" e "companheiras" se destruíram uns aos outros, enquanto os nacionalistas, a extrema-direita e os fascistas avançavam até a vitória final e a derrota acachapante da esquerda e dos republicanos. 

Sobre o romance de Leonardo Padura, sintetizo minha opinião dizendo que a obra é fenomenal, exigiu muita pesquisa, muita amarração dos conteúdos estudados e uma criatividade de escritor que poucos teriam para preencher as lacunas que faltam nas narrativas que abordam contextos e histórias reais. Só os grandes escritores fazem isso com maestria. Machado de Assis falava sobre essa questão de preencher lacunas quando narrava histórias ou estórias ficcionais. Saramago também aborda muito isso, as lacunas preenchidas pelos escritores, é só ler A viagem do elefante (2008).

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ENTRE TROTSKISTAS, STALINISTAS E BOLHAS DIVERSAS DA ESQUERDA

Retomo a citação de Karl Marx para encerrar a postagem a respeito da leitura do livro O homem que amava os cachorros e os sentimentos diversos que senti ao longo da leitura.

"Os homens fazem a sua própria história; contudo, não a fazem de livre e espontânea vontade, pois não são eles quem escolhem as circunstâncias sob as quais ela é feita, mas estas lhes foram transmitidas assim como se encontram." (Karl Marx. O 18 de brumário de Luís Bonaparte, São Paulo, Boitempo, 2011, p. 25)


Quando cheguei ao movimento sindical como diretor eleito de um dos principais sindicatos do país, comecei a conviver com as direções do movimento, o que é diferente de pertencer às bases dos movimentos sociais. Eu já havia participado de várias ações episódicas do movimento sindical e estudantil, que também é uma experiência bem interessante. Contudo, nas cúpulas dos movimentos, a paixão e o romantismo que nos movem são intensificados até o limite do ideal.

Como não vou fazer uma retrospectiva histórica da minha experiência no movimento sindical, sintetizo um pouco pensando nas circunstâncias que não escolhemos quando fazemos parte de um período histórico, como explica Marx na citação acima.

Ao ler o romance histórico de Padura, com os personagens Iván, Liev Davidovich (Trótski), Ramón Mercader, dentre outras figuras reais ou ficcionais, o leitor se envolve com a trama, toma posição, escolhe lado, e assim também ocorre na vida real, normalmente. No romance de Padura, minha simpatia estava com Liev Davidovich, perseguido, escorraçado, exilado, humilhado, vítima de fake news, lawfare e julgamentos arbitrários e assassinado de forma covarde.

E na vida real em relação aos trotskistas, stalinistas, comunistas, socialistas, capitalistas, marxistas, fascistas, nazistas, esquerdistas, direitistas, liberais, conservadores, reacionários, privatistas, socialdemocratas, e outras nomenclaturas que têm diversas funções, para o bem e para o mal, de acordo com o uso delas? Esses nomes são parte integrante do que nós somos, homo sapiens, espécie animal que cria abstrações para organizar o mundo em tribos, em guetos, em antagonismos, e cria comunidades imaginárias o tempo todo, tanto para o bem comum quanto para o mal comum (dos outros).

Quando comecei a entender no movimento sindical a qual grupo eu pertencia, passei a compreender como as coisas funcionavam nos movimentos sociais. Do ponto de vista do grupo no qual eu estava, me lembro que ser stalinista era algo pejorativo, que remetia a autoritarismo. Ser trotskista era algo que não iria a lugar algum, porque onde houvesse mais de um militante, haveria uma divisão e fragmentação do movimento (risos). 

Como todo grupo puxa sardinha pra sua rede, bom era o grupo político ao qual eu pertencia (risos), era democrático, plural, de massas, pela base, e exercia uma forma de decisão sempre focada no convencimento e só se votava como último recurso, pois votar de cara a proposta "A" contra a proposta "B" era chance de divisão, de rachas, de ressentimentos. Convencer politicamente era melhor que simplesmente votar e pronto (contar garrafinhas, qual grupo tem mais crachás), que os derrotados aceitem e acabou (a minoria se submete e pronto?). Chamávamos isso de consenso progressivo. Minha formação política foi essa. Hoje, nem assembleias presenciais existe mais para se fazer oposição a uma proposta da direção...

As circunstâncias históricas que nos foram transmitidas eram as novidades do Novo Sindicalismo, a criação da CUT, do Partido dos Trabalhadores, as Diretas Já e a luta contra a ditadura militar, a conciliação de classes - que vigorou durante esse período que foi do final dos anos 70 até o golpe de Estado em 2016. Me politizei de forma orgânica nessa época histórica, mais especificamente a dos anos noventa adiante, do neoliberalismo dos fernandos no Brasil e depois nos governos do PT.

Quantas vezes durante a leitura do romance de Padura não me peguei olhando para trás e vendo nossas divisões e rachas por questões tanto importantes de objetivos, estratégias e táticas, quanto por questões menores, de personalismo e prioridades corporativas que superavam e muito as questões de classe... Talvez por isso a leitura tenha sido tão truncada para mim. Pelas circunstâncias históricas que nos foram legadas ontem, quando eu fiz parte daquela história e naquelas condições, e pelas que nos foram legadas hoje, em 2023, absolutamente diferentes daquelas condições nas quais me formei politicamente.

É hora de terminar a postagem. O livro do escritor cubano Leonardo Padura me convenceu da qualidade excepcional de sua arte e vou ler outros livros dele. Em relação ao tempo histórico e às circunstâncias que nos foram transmitidas, eu sigo na torcida pelo nosso governo Lula e apoiando o que eu entendo ser correto - e ainda estou calado em relação ao que julgo estar errado -, mas tem coisas que saltam aos olhos em nosso governo e precisamos contribuir para que o governo dê certo porque os inimigos estão avançados em seus projetos de nos tirar do poder e de nos eliminar, porque o mundo é assim.

William


Bibliografia:

PADURA, Leonardo. O homem que amava os cachorros. Tradução de Helena Pitta. 2ª ed. - São Paulo: Boitempo, 2015.


segunda-feira, 13 de março de 2023

Diário e reflexões - Cuba XV (13/03/23)



Refeição Cultural - Cuba (XV)

Osasco, 13 de março de 2023. Segunda-feira chuvosa.


Ao decidir no início do ano conhecer um pouco mais sobre Cuba e o povo cubano, pensei em ler livros de autores cubanos ou com a temática e história do país. Com tal estratégia definida, acabei pegando um livro clássico do autor cubano Leonardo Padura: O homem que amava os cachorros (2009). O livro já havia sido indicado a mim por vários conhecidos e como o ganhei de presente de minha esposa, escolhi ele na estante.

Registro minha opinião de leitor até aqui (não acabei a leitura): não concordo com os leitores e comentadores que disseram que a obra é de leitura fluida e fácil. Não é! A obra é maravilhosa, mas não é de leitura fácil. Imagino como deve ter sido difícil pesquisar tudo o que Padura pesquisou para construir um romance tão bem alinhavado como esse.

O romance narra a história de León Trótski, um dos líderes da Revolução de Outubro, de seu exílio nos anos trinta e de seu assassinato a mando de Stálin em 1940. 

Leonardo Padura desenvolve o romance intercalando três cenários que se imbricam ao avançar na leitura da obra. Trótski e seu percurso entre a União Soviética e o México; o espanhol comunista Ramón Mercader, da Guerra Civil Espanhola à cena do crime e o período posterior; o escritor cubano Iván no presente da narrativa, décadas depois dos fatos ocorridos nos anos 30 e 40 e 70.

A estratégia de leitura que adotei desde o início do romance havia sido uma até agora. Li sem pressa 360 páginas, 20 capítulos, entre o início do ano e duas semanas atrás. Nesse ritmo, iria acabar a leitura no dia de São Nunca. Parei a leitura e até li um livro de quase 300 páginas nesses dias. Leitura fantástica, por sinal. Ler aqui comentário sobre o livro de André Singer sobre o lulismo.

Aí, neste domingo, retomei a leitura do livro de Leonardo Padura. A estratégia mudou. Tenho que pegar firme na leitura do romance até acabar... mas a leitura é densa, é lenta, exige deste leitor um certo tempo de degustação da história. É de fato uma refeição cultural.

Cobrei de mim mesmo uma disciplina atlética na leitura. No novo ritmo, avancei 4 capítulos entre ontem e hoje e, pasmem, foram 65 páginas! Faltam 165 páginas ainda... aff!

Enfim, o romance histórico é de uma riqueza incrível, me põe a pensar. Ver o preenchimento ficcional das lacunas na história de Trótski, Stálin, da Cuba revolucionária, da guerra fria, dentre outras questões de nossa história do século XX é fascinante. Impossível não olhar para trás e ver minha vida no movimento sindical, os rachas políticos, as guerras fratricidas entre nós da esquerda etc.

Seguimos. Vamos ver se acabo a leitura nos próximos dias. Difícil... mas quem sabe, né!

William


Post Scriptum: ler aqui a postagem anterior sobre essa temática cub.ista ou cuba.ista.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Diário e reflexões - Cuba XIV (23/02/23)



Refeição Cultural - Cuba (XIV)

Osasco, 23 de fevereiro de 2023. Quinta-feira.


"Para Hilda, o livro era uma ideia maravilhosa e ela se dispôs a ajudar Ernesto. Enquanto isso, os dois estabeleceram uma rotina doméstica amigável, inspirada num programa de leituras semelhante ao que Fidel tinha com Naty. Quando não trabalhavam na magnum opus de Ernesto, os dois falavam sobre poesia: Hilda emprestou a ele uma cópia dos poemas de César Vallejo e ele dividiu com ela o grande amor que tinha por Pablo Neruda, José Hernández e Sara de Ibáñez. Juntos, eles também liam obras políticas: Engels, Marx e Sartre, acima de tudo. 'Compartilhávamos a sensação de "náusea da vida"', relembra Hilda." (Fidel e Che. Reid-Henry, p. 120)


Peguei mais algumas fitas antigas em VHS para assistir. Numa delas estava escrito "Martín Fierro". Para melhorar a experiência ao ver o filme, comecei a reler o clássico poema do gaucho argentino, escrito por José Hernández (1834-1886). A caixinha da fita estava vazia... por sorte, encontrei na internet o filme completo (2005), dirigido por Gerardo Vallejo.

Ao estudar mais a respeito de Cuba e sua história libertadora e revolucionária, vi que o jovem médico argentino, Ernesto Che Guevara era leitor de José Hernández. Que legal essa ligação entre uma leitura e outra!

Terminei a 1ª parte do livro Fidel e Che - Uma amizade revolucionária (2009), de Simon Reid-Henry. Li o livro em 2010 quando o ganhei de presente. A releitura é quase uma leitura nova.

Terminei a 1ª parte do romance do escritor cubano Leonardo Padura - O homem que amava os cachorros (2009) e já estou no terceiro capítulo da 2ª parte. A impressão que tenho é que o livro é grande demais para a história. Talvez seja porque fazer uma ficção histórica sobre León Trótski seja de fato algo enorme só de pensar, imagina então para completar as lacunas da história do assassinato do líder da Revolução Russa a mando de Josef Stálin?

Em relação ao estudo de línguas e linguagem, ando devagar. Comecei a estudar espanhol na plataforma do Instituto Conhecimento Liberta (ICL) para relembrar minhas habilidades com a língua, mas ando a passos de tartaruga na sequência das aulas. Estou devagar também com as outras línguas que me esforço no aprendizado, o inglês e o japonês. Estudar pouco é melhor do que não estudar nada. Tenho lido e ouvido muito espanhol, de diversos acentos e isso é bom. Meu ouvido já está bem aguçado para as nuanças dos falares de cada país de língua espanhola.

É isso! Aprender algo diariamente e ser menos ignorante deveria ser o objetivo de toda pessoa que queira melhorar como ser humano e que queira melhorar o mundo no qual estamos também.

William


Post Scriptum: texto anterior dessa série cub.ista pode ser lido aqui.


Bibliografia:

REID-HENRY, Simon. Fidel e Che - Uma amizade revolucionária. Tradução: Beatriz Velloso. 1ª edição. Editora Globo. São Paulo, 2010.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Diário e reflexões - Cuba XI (09/02/23)



Refeição Cultural - Cuba (XI)

Osasco, 09 de fevereiro de 2023. Fim de noite de quinta-feira.


Mais um dia de minha vida vai terminando. À minha esquerda, uma bonita lua ilumina o céu. A natureza é bela aos olhos do animal humano que pensa a respeito da lua, do sol e a respeito de tudo que está ao nosso redor. Somos natureza. Na Turquia e Síria, a natureza tremeu e mudou tudo em instantes. São mais de 20 mil mortos após o terremoto. A natureza é incontrolável! Estados Unidos e Otan querem aniquilar um país que possui bombas atômicas, a Rússia, que defende seu direito de existir. Isso pode dar uma merda global. A lua, o terremoto, a estupidez humana: tudo isso é a natureza.

Defini que iria estudar um pouco sobre Cuba e os cubanos nos primeiros meses deste ano. A história desse povo caribenho é fantástica e motivadora para nós que há séculos somos explorados pelos impérios do Norte e ainda hoje somos hegemonizados pelas ideologias dominantes desses imperialistas que pouco se importam conosco, povos do Sul, e com a vida na Terra. Estou perseguindo esse objetivo que tracei e sei um grama a mais sobre Cuba em relação ao ontem. Sei até sobre o Granma (rsrs).

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"(...) Liev Davidovitch contemplou a paisagem norueguesa e, como escreveria pouco depois, enquanto se afastavam do fiorde, fez em silêncio o balanço do seu exílio, para se certificar de que as perdas e frustrações superavam largamente os duvidosos ganhos. Nove anos de marginalização e ataques tinham conseguido transformá-lo num pária, num novo judeu errante condenado ao escárnio e à espera de uma morte infame que lhe chegaria quando a humilhação tivesse esgotado sua utilidade e sua cota de sadismo..." (p. 220/221)


Li nos últimos dias mais três capítulos do livro do escritor cubano Leonardo Padura - O homem que amava os cachorros. Foram mais de 70 páginas e o conteúdo é muito denso. A história é sobre o assassinato de Trótski. 

Já li textos parecidos sobre a história da Revolução Russa e seus líderes. Ao longo da militância no movimento sindical tive contato com diversos pontos de vista e não me censuro em relação a texto algum contra ou a favor de um ou outro grupo da esquerda mundial. 

Desde que conheci o pessoal do movimento sindical, convivi com a questão dos grupos stalinistas e trotskistas (e muitos outros), e afirmo ainda hoje que essa divisão é uma coisa que me incomoda há tempos: acho uma estupidez os rachas no campo da classe trabalhadora. 

Os caras das forças de esquerda se mataram uns aos outros ao longo da história e a direita e os capitalistas nos dominam até hoje. Vejam o exemplo do que aconteceu na Guerra Civil Espanhola! Era uma tragédia anunciada!

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É isso!

O nosso presidente Lula desembarcou nos Estados Unidos hoje para se encontrar com o presidente norte-americano, Biden. 

Que a memória de lutadores históricos como José Martí, Fidel Castro, Ernesto Che Guevara, Hugo Chávez, Leonel Brizola, Luiz Gama e tantas lideranças de Nuestra América iluminem nosso querido presidente Lula para realizarmos reuniões ativas e altivas em defesa dos interesses de nossa Pátria Grande, como Lula fez nos seus dois primeiros mandatos.

O texto anterior com a temática cubana pode ser lido aqui.

William



Bibliografia:

PADURA, Leonardo. O homem que amava os cachorros. Tradução de Helena Pitta. 2ª ed. - São Paulo: Boitempo, 2015.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Diário e reflexões - Cuba VIII (01/02/23)



Refeição Cultural - Cuba (VIII)

Osasco, 01 de fevereiro de 2023. Noite de quarta-feira.


Li mais um capítulo do livro do escritor cubano Leonardo Padura, O homem que amava os cachorros. O capítulo 10 se passa nos anos trinta e nele vemos Liev Davidovitch, Trótski, exilado de um lugar pra outro. Após uns 4 anos numa ilha em Istambul, Turquia, ele vai para uma pequena cidade da França e termina o período abordado no capítulo na Noruega.

O livro vai alternando períodos e personagens e locais da história. A cada capítulo o leitor vai aos anos 30, aos anos 70, aos anos 2000. Vai à União Soviética, vai a Barcelona, na Catalunha, e a Madri, vai aos países por onde Trótski viveu exilado, vai a Cuba no passado e no presente da narrativa. 

É um livro de ficção e de história, é um enredo fenomenal. Como disse, é uma leitura de fôlego. Quis ler 3 capítulos hoje, umas 50 páginas... Não é tão simples assim! Foi difícil ler um capítulo inteiro, esse com o foco em Trótski.

No capítulo anterior, o nono, o foco foi em Cuba nos anos 70. Também foi uma leitura concentrada. O leitor começa a conhecer mais a respeito do "homem que amava os cachorros", apelido dado por Iván ao estranho que ele conheceu na praia, que andava com dois cachorros belíssimos, galgos borzóis, Ix e Dax.

No capítulo 10, sentimos a tristeza de Trótski ao enterrar sua borzói Maya, que morreu aos 9 anos de idade. O revolucionário russo vinha de uma sequência de perdas pessoais terríveis. 

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Momentos de leitura

No capítulo 9, com foco no personagem cubano Iván, ficamos sabendo que ele tinha um irmão, William, que sofreu consequências severas em sua vida por ser homossexual. Ele era universitário e ao assumir sua orientação sexual foi apenado pelo Estado. O estudante tinha uma relação com seu professor.

"Mas William, depois de rejeitar durante semanas e com enorme veemência aquela acusação, lançou mão de uma coragem que eu desconhecia, revoltou-se contra uma clandestinidade desgastante e repressiva e disse que sim, que era homossexual, que desde os treze anos agia como tal, ativa e passivamente, embora tenha se recusado a confessar com quem tinha realizado semelhante atividade porque esse era um assunto privado que só interessava a ele e a mais ninguém. Ainda que não tenha sido possível relacionar as inclinações sexuais dos processados com suas atitudes como professor e estudante, apesar de os resultados laborais e docentes de cada um serem notáveis, a sentença estava decidida de antemão, e a comissão de representantes aplicou suas medidas: o professor seria expulso indefinidamente do Partido e do sistema nacional de ensino, e William seria afastado por dois anos da universidade, mas definitivamente dos estudos de Medicina." (p. 147/148)

Que foda! E pensar que a esquerda agiu assim por décadas!

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No capítulo 10, num certo momento, Trótski fica indignado ao saber que os comunistas apoiaram o partido nazista. A história se passa em meados dos anos trinta, Hitler já encaminhava seus projetos de poder.

"A indignação de Liev Davidovitch explodiu quando soube que o Executivo da Internacional Comunista tinha emitido uma declaração vergonhosa de apoio ao Partido alemão, qualificando sua estratégia política como irrepreensível e repetindo que a vitória dos nazis era apenas uma conjuntura transitória, da qual as forças progressistas sairiam vitoriosas. O mais preocupante era o fato de os domesticados alemães, tal como o restante dos partidos filiados ao Comintern, terem acatado em silêncio aquele documento, revelador de um suicídio político de consequências previsíveis..." (p. 155)

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BRASIL, 1º/02/23. 

ELEIÇÃO DAS MESAS DO CONGRESSO NACIONAL

Naquela hora da leitura, de manhã, fiquei pensando na votação no Congresso Nacional do Brasil para eleger o presidente da Câmara no dia de hoje, 1º de fevereiro. 

O governo Lula e quase todo mundo apoiou a reeleição do tal deputado bolsonarista Arthur Lira, o cara que comandou o orçamento secreto por anos, o cara que só está com mandato por liminar da justiça, acusado de ser ficha-suja, o cara que foi o braço direito do governo fascista dos milicianos do clã Bolsonaro até dias atrás. O cara que junto com Eduardo Cunha derrubou a presidenta Dilma e o governo do Partido dos Trabalhadores. 

É assustador! Lira foi eleito com 90% dos votos da Câmara para presidente (464 votos em 513 possíveis). 

É assustador! Isso não vai acabar bem para nós, não pode acabar bem! Tá na cara!

Sem mais comentários...

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Sigo estudando história, literatura, linguagens humanas; sigo conhecendo um pouco mais sobre Cuba e os cubanos. E, claro, sobre a história das experiências socialistas e alternativas ao capitalismo, essa desgraça que vai acabar com a humanidade.

As postagens anteriores a respeito de leituras cubanas podem ser lidas a partir daqui.

William


Bibliografia:

PADURA, Leonardo. O homem que amava os cachorros. Tradução de Helena Pitta. 2ª ed. - São Paulo: Boitempo, 2015.


domingo, 18 de setembro de 2022

A versão de Gorbachev sobre a Perestroika



Refeição Cultural

Assim que soube da morte de Gorbachev, dia 30 de agosto de 2022, acabei tendo a curiosidade de pegar seu livro Perestroika - Novas ideias para o meu país e o mundo, de 1987, e dar uma folheada, reler a parte que havia lido cinco anos antes (umas cem páginas). Cheguei à metade do livro do ex-líder soviético até agora. 

Meu sentimento até aqui é meio que de lamento por não ter sido possível que as coisas dessem certo como nos anunciava Gorbachev em meados dos anos oitenta. Foi uma pena! O mundo perdeu muito com o fim da bipolaridade mundial em relação a sistemas econômicos e políticos e formas de organizações de comunidades humanas e com o predomínio totalitário do capitalismo e neoliberalismo, representados pelos Estados Unidos ditando as regras para os duzentos países do mundo. Só perdemos com isso. 

Ainda bem que surge um mundo multipolar novamente, ainda bem. Eu não tenho preferência nem por norte-americanos, nem por russos, nem por chineses, eles que sejam felizes ou infelizes ao modo deles. Para nós dos duzentos países periféricos a eles, um mundo multipolar é bem melhor do que um mundo com um ditador só (que dita o que todos devem acatar).

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Li até agora a primeira parte do livro chamada "Perestroika". O capítulo um fala sobre "Perestroika, Origens, Conteúdo, Caráter Revolucionário". No capítulo dois, li subseções abordando a Perestroika em marcha: 1. A sociedade é colocada em movimento; 2. A nova política econômica e social em ação; 3. Caminhando pela estrada da democratização; 4. O ocidente e a reestruturação.

Como costumo fazer, rabisquei o livro todo com comentários e sublinhados de partes que chamam a atenção. Uma das ideias que mais me deixou chocado foi a defesa que Gorbachev faz de uma mudança de conceito sobre o socialismo. 

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"Queremos ser perfeitamente claros nesse ponto: o socialismo não tem nada a ver com uniformização. Ele não pode garantir condição de vida e consumo segundo o princípio 'de cada um de acordo com sua capacidade, para cada um de acordo com suas necessidades'. Isso acontecerá sob o comunismo. O socialismo tem um critério diferente relativo à distribuição de benefícios sociais: de cada um de acordo com sua habilidade, para cada um de acordo com seu trabalho. Não há exploração do homem pelo homem, nenhuma divisão entre ricos e pobres, entre milionários e mendigos; todas as nações são iguais entre os iguais; são garantidos empregos a todas as pessoas; temos educação secundária e superior gratuita, além de serviços médicos gratuitos; os cidadãos são bem amparados na velhice. Essa é a configuração da justiça social no governo socialista." (p. 114)

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Por mais que compreenda o que ele estava dizendo sobre a situação na qual o socialismo soviético se encontrava naquele momento - estagnação econômica e social, mesmice e acomodação de líderes e de parte das pessoas, corrupção interna na burocracia estatal etc -, achei que a ideia é bem perigosa, ela me pareceu muito próxima à concepção neoliberal do self-made man e base da ideologia do capitalismo. 

Hoje chamamos a coisa de meritocracia... uma mentira para encobrir o que é a exploração capitalista e a perpetuação do status quo nas sociedades injustas: quem se deu bem é porque teve mérito próprio, quem não se deu bem é porque não se "esforçou" como os 90% que não venceram na vida... em geral negros, de origens fora das elites etc.

Enfim, como sei que não sei quase nada, vamos lendo e estudando, ouvindo as ideias e opiniões tanto de pessoas que tiveram papeis relevantes na história humana quanto de pessoas comuns e de fora dos cânones e das bolhas de unanimidades artificiais, independente de qual linha política sejam elas. 

Eu defino o que acho que vale ou não vale a pena ler e estudar. Parte das leituras é roteiro próprio, parte é roteiro sugerido.

William


Bibliografia:

GORVACHEV, Mikhail. Perestroika - Novas ideias para o meu país e o mundo (1987). Círculo do Livro. Editora Nova Cultural Ltda.


terça-feira, 13 de setembro de 2022

Lendo sobre Gorbachev e a Perestroika



Refeição Cultural

O último líder da União Soviética, Mikhail Gorbachev, morreu no dia 30 de agosto de 2022. Eu pouco sei sobre ele pra ser sincero. Sei os lugares-comuns e as leituras mais gerais que fazem sobre ele.

Para líderes dos países centrais do capitalismo e do Ocidente, Gorbachev é um grande líder do século 20 e um dos responsáveis pelo fim da guerra fria e o risco de uma guerra nuclear. Sua relação próxima com os presidentes norte-americanos, Reagan entre eles, ficou marcada na história.

Para algumas lideranças comunistas e do campo da esquerda, Gorbachev é responsabilizado por ser o coveiro do socialismo real, o cara que acabou com a URSS, um traidor das causas do socialismo e comunismo. Essa análise foi a que vi de alguns intelectuais de esquerda que gosto e ouço.

A história da União Soviética e a guerra fria nos anos oitenta, a queda do Muro de Berlim, e as grandes mobilizações populares no Brasil naquela década, tudo isso, acabei estudando um pouco mais a respeito muito depois dos fatos ocorridos porque naquele período eu era um adolescente trabalhador braçal revoltado com o mundo e sem formação política.

Até hoje estudo o passado que já me envolveu como alguém que vivenciava a história e não pertencia ou atuava em movimentos sociais. O caso da União Soviética e de Gorbachev não é diferente disso. Vi o fato pela televisão como um ouvinte e não me envolvi nas discussões a respeito da mudança histórica que estava acontecendo ali.

Eu tinha o livro de Gorbachev em casa há muito tempo, o livro é de 1987. Em 2017, ou seja, 30 anos após seu lançamento, resolvi ler o que Gorbachev dizia a respeito da Perestroika e da Glasnost. Li pouco mais de cem páginas à época. 

Minhas interações com o livro - os sublinhados e os comentários ao longo da centena de páginas lidas - são mais para positivas que negativas. Eu era dirigente nacional de uma autogestão em saúde e atuava com muito esforço em dialogar com a base social que representava como eleito e me esforçava para ser transparente no que pensava e fazia. O que Gorbachev defende na Perestroika e na Glasnost é um pouco disso de participação social, democracia etc.

Após a morte de Gorbachev no dia 30 de agosto, peguei o livro para dar uma olhada e acabei relendo nesses dias a centena de páginas que havia lido 5 anos atrás. Foi uma leitura interessante. Aliás, ler é sempre uma atividade interessante. Sugeriria leituras e estudos a qualquer pessoa caso eu fosse um "influenciador digital" como os que têm por aí com milhões de seguidores. Não sou e não influencio nem os de casa...

Tanto na época como agora na releitura, percebo que o líder soviético tinha uma sinceridade ao dizer que gostaria de preservar o Estado soviético e seguir com o socialismo implantado por lá há 70 anos (Revolução de 1917). Me pareceu sincero em sua busca por democracia e participação social nos destinos do país. É o que percebi até ali nas cem páginas que li.

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"É o opressor quem define a natureza da luta" (Mandela)

INOCÊNCIA... é a palavra-conceito que usaria se eu tivesse que resumir o que penso a respeito do esforço de Gorbachev e sua Perestroika e, inclusive, é o que diria de Lula e sua forma de fazer política com amor pra todo mundo e esperança na conciliação de classes... inocência! Não rola isso no mundo! Com o fascismo, com o capitalismo, com a extrema-direita não é possível lidar com o democratismo que esses líderes defendem... não rola! Como disse Mandela em sua autobiografia: é o inimigo quem escolhe as armas...

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Interessante que minha formação política orgânica, após virar dirigente sindical eleito pela classe trabalhadora - a categoria bancária -, é uma formação baseada nos princípios, concepções e práticas sindicais da Central Única dos Trabalhadores (CUT), e também, de forma colateral e não principal, baseada nas práticas e concepções do Partido dos Trabalhadores (PT) e suas lideranças históricas como, por exemplo, nosso querido presidente Lula.

Em tese, pelo que percebi até agora nas ideias de Gorbachev e da Perestroika e Glasnost, o que ele queria para seu povo e os Estados soviéticos era aquilo que li e vi o PT e a CUT defender ao longo de duas décadas de estudos, leituras e convivência como dirigente orgânico do movimento de luta: participação social das bases, democracia, liberdade, transparência e pertencimento ao que se buscava construir: uma sociedade socialista.

Enfim, é o que penso até agora sobre essas questões que discorri acima.

William


domingo, 15 de agosto de 2021

Trótski - A paixão segundo a revolução



Refeição Cultural

"Seria o proletariado capaz de recriar a cultura a partir de zero, fundando novas formas, novos padrões formais, um novo gosto, uma nova estética, uma nova poética?

Lênin e Trótski não eram idiotas. Sabiam que isso não era possível. O comunismo teria que ser o herdeiro de toda a cultura passada, escravagista, feudal, burguesa. Os dois líderes tinham consciência muito nítida do caráter de carência da condição trabalhadora. Sabiam muito bem que o trabalhador, fabril ou agrário, caracteriza-se pela ignorância, pelo conservadorismo, mais obtuso, pela superstição, pela pobreza mental de horizontes, pelo imediatismo de visão política." (p. 368)


A leitura dessa obra de Paulo Leminski foi uma surpresa para mim. Sei que somos muito ignorantes (não sabedores) em quase tudo na vida, e não quero jamais perder a capacidade de me surpreender com as coisas. Ver Leminski escrever sobre a história da Rússia, de seu povo e de seus líderes como Liev Trótski foi uma surpresa para mim. 

Eu recém conheci Toda poesia (2013), do poeta curitibano - ver postagem aqui. Agora começo a conhecer seu lado prosaico, narrativo e historiador. Impossível não ficar curioso para ler o que Leminski nos conta sobre Jesus, Cruz e Sousa e Bashô. Qualquer hora eu descubro.

Para falar da Rússia e dos líderes da Revolução Russa, Leminski faz uma analogia interessante com a obra Os irmãos Karamázov (1880), de Dostoiévski, comparando as características do pai e dos filhos com os principais tipos característicos do povo russo e pensando a Rússia do passado e presente e com as perspectivas do que viria a ocorrer em 1917.

O velho Karamázov, os filhos Aliócha, Ivan, Dmitri e Smierdiakóv seriam os representantes bem característicos dos tipos mais comuns da Rússia milenar. Apesar de fazer muito tempo que li esse clássico, o fato de ter lido me ajudou a compreender o que Leminski quis dizer. Mas não se preocupem porque ele explica no início as características de cada um deles.

Aprendi muita coisa com a leitura, rabisquei o livro inteiro e fiz diversos comentários nas margens. Seria difícil escolher uma ou duas citações para fazer na postagem. A leitura é densa e leve ao mesmo tempo, pela forma que o poeta nos conta a história e as versões da história. Fiz um breve comentário em vídeo sobre o livro: ver aqui.

A epígrafe acima foi escolhida porque fiquei pensando no Brasil atual, após o golpe de 2016, liderado pelos tucanos com o suporte da mídia corporativa (PIG) e a operação imperialista Lava Jato, após o golpista Temer e destruído pelo regime militar e bolsonarista. 

Pensei no povo miserável que somos, povo primitivo e ignorante em diversos sentidos, mas ignorantes porque assim é melhor para as classes dominantes e não por escolha própria do povo. Leminski fala sobre uma carência do povo em relação à cultura, mas podemos estender o sentido dessa ignorância (não saber) para todos os sentidos da vida social.

Enfim, é bom aprender sobre a história humana. O texto sobre a biografia de Trótski nos ensina muita coisa. Obrigado Leminski!

William


Bibliografia:

LEMINSKI, Paulo. Vida: Cruz e Sousa, Bashô, Jesus e Trótski - 4 Biografias. 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2013.


terça-feira, 3 de agosto de 2021

Lendo biografia de Trótski, por Leminski



Refeição Cultural

Eu conhecia o lado poeta do genial Paulo Leminski, mas não conhecia o lado de grande produtor de conteúdo em prosa e seu conhecimento de história. O cara é sensacional! Francamente!

Por um total acaso, peguei na estante o livro Vida: Cruz e Sousa, Bashô, Jesus e Trótski - 4 Biografias (2013), de Paulo Leminski. Manuseei ele no fim de semana e acabei começando a leitura sobre a vida de Trótski, que na verdade fala muito sobre a história da Rússia e de seu povo. São fantásticos o conteúdo e a forma como o poeta nos apresenta a história.

Comecei a ler achando que era uma coisa simples e me deu conta de que quase a metade do livro é essa parte sobre Trótski e o povo russo. A leitura é densa, mas é muito bem narrada. 

Nas dedicatórias do livro, escrito em 1986, antes do fim da URSS, ele diz que uma das motivações para escrever a biografia de um dos líderes da Revolução de Outubro foi:

"Para minha filha Áurea que, com quinze anos, me perguntou o que tinha sido a Revolução Russa." (p. 243)

O livro dentro do meu livro na verdade se chama Trótski - a paixão segundo a revolução (1986).

Ele começa o livro citando como referência, como uma espécie de símbolo da Rússia, a grandiosa obra de Dostoiévski Os irmãos Karamázov (1880). O pai e os quatro filhos, sendo um deles bastardo, seriam os tipos característicos da Rússia. A história conta um parricídio e de certa forma Leminski diz que essa questão é central na história daquele povo e cita Freud:

"Os irmãos Karamázov não só retrata com perfeição a Rússia passada e presente, em suas estruturas mais profundas, mas ainda prefigura uma Rússia por vir." (p. 246)

E diz mais:

"Para Freud, é o parricídio primordial que funda a civilização.

 E toda revolução social de grandes proporções é uma luta dos filhos contra a tirania dos pais (pais, padres, patrões, padrões)." (p. 246)

Já li algumas dezenas de páginas e já aprendi muita coisa sobre a origem da Rússia - ele começa contando a partir de 1236 com as invasões dos mongóis -, e que ele diz que a Rússia dos últimos séculos seria uma espécie de expansão a partir de Moscou.

Leminski fala sobre os líderes que conduziram a Revolução de 1917. Ele já falou sobre os bolcheviques e os mencheviques, a origem de Lênin, do biografado Trótski e de Stálin. É como se fossem aulas de história da Rússia. No final do livro, temos a bibliografia que ele leu para tal obra.

Muito interessante!

William


Bibliografia:

LEMINSKI, Paulo. Vida: Cruz e Sousa, Bashô, Jesus e Trótski - 4 Biografias. 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2013.


quinta-feira, 11 de junho de 2009

Lendo Hobsbawm - Era dos Extremos



Refeição Cultural

A REVOLUÇÃO MUNDIAL

A Revolução Russa se deu no chamado outubro vermelho - que na verdade era o novembro vermelho, pois outubro era pelo Calendário Juliano, enquanto o mundo ocidental seguia o Calendário Gregoriano.

"A onda radicalizada de seus seguidores inevitavelmente empurrou os bolcheviques para a tomada do poder. Na verdade, quando chegou a hora, mais que tomado, o poder foi colhido. Diz-se que mais gente se feriu na filmagem da grande obra de Eisenstein, Outubro (1927), do que durante a tomada de fato do Palácio de Inverno em 7 de novembro de 1917. O Governo Provisória, sem mais ninguém para defendê-lo, simplesmente se esfumou" p.69

Esperava-se que a transformação socialista russa se transformasse em revolução mundial, destruindo totalmente a burguesia russa e europeia.

PAZ PUNITIVA DE BREST-LITOWSK

Hobsbawm diz que o novo regime aguentou firme à paz punitiva imposta pela Alemanha em Brest-Litowsk.

"Os aliados não viram motivo para ser mais generosos com o centro da subversão mundial. Vários exércitos e regimes contra-revolucionários ("brancos") levantaram-se contra os soviéticos, financiados pelos aliados, que enviaram tropas britânicas, francesas, americanas, japonesas, polonesas, sérvias, gregas e romenas para o solo russo" p.70

"As únicas vantagens importantes com que o novo regime contava, enquanto improvisava do nada um Exército Vermelho eventualmente vitorioso, eram a incompetência e divisão das briguentas forças 'brancas' " p.70

TRÊS FATORES QUE FAVORECERAM E MANTIVERAM A REVOLUÇÃO:

-Partido Comunista forte
-Não houve fragmentação da Grande Rússia
-Distribuição das terras ao campesinato

POVOS, ESCUTEM OS SINAIS...

"Uma onda de revolução varreu o globo nos dois anos após Outubro, e as esperanças dos aguerridos bolcheviques não pareceram irrealistas. 'Völker hört die Signale' era o primeiro verso do refrão da 'Internacional' em alemão" p.71

Os aliados incentivaram a criação de diversos Estados-Nação de forma a criar um "cinturão de quarentena contra o vírus vermelho".

INTERESSES DO ESTADO SOVIÉTICO PREVALECEM SOBRE A REVOLUÇÃO MUNDIAL

"No fim, os interesses de Estado da União Soviética prevaleceram sobre os interesses revolucionários mundiais da Internacional Comunista, que Stalin reduziu a um instrumento da política de Estado soviético (...) A revolução mundial pertencia à retórica do passado, e na verdade qualquer revolução só era tolerada se a) não conflitasse com o interesse de Estado soviético; e b) pudesse ser posta sob controle soviético direto" p.78

IDEÓLOGOS ORGÂNICOS E TROTSKISTAS

"Sem o 'novo tipo de partido' de Lenin, cujos 'revolucionários profissionais' eram os quadros, é inconcebível que em pouco mais de trinta anos após Outubro um terço da raça humana se visse vivendo sob regimes comunistas (...) Os partidos comunistas orientados por Moscou perderam líderes por secessão e expurgo, mas até o movimento perder o ânimo após 1956 eles não cindiram, ao contrário dos grupos fragmentários de dissidentes marxistas que seguiram Trótski e os ainda mais fissíparos conventículos 'marxistas-leninistas' do maoísmo pós-1960" p.79

3ª INTERNACIONAL DE STÁLIN e 4ª INTERNACIONAL DE TRÓTSKI

"Poucos desses centros dissidentes contavam muito do ponto de vista político. De longe o mais prestigioso dos hereges, o exilado Leon Trótski - co-líder da Revolução de Outubro e arquiteto do Exército Vermelho - fracassou por completo em seus esforços políticos. Sua 'Quarta Internacional', destinada a competir com a stalinizada Terceira Internacional, foi praticamente invisível. Quando foi assassinado por ordem de Stálin em seu exílio no México, em 1940, a importância política de Trótski era insignificante" p.80

Ainda preciso de mais estudos para diferenciar Leninismo e Trotskismo.


Bibliografia:

HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos - O breve século XX, 1914-1991. Companhia das Letras. Tradução de Marcos Santarrita, 2ª edição, 33ª reimpressão.