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terça-feira, 16 de setembro de 2025

O último poema

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O ÚLTIMO POEMA


O primeiro poema foi um balanço dos trinta anos.

A infância feliz e depois infeliz, do amor ao ódio.

Exploração infantil na venda do seu trabalho.

As relações de afeto, sempre regadas com lágrimas.


Aos trinta, já era pai e funcionário de banco público.

Formado, por acaso, em Contábeis. Não se formou

em Educação Física porque o salário não deu.

Passou no vestibular e entrou nas Letras...


A vida andou. Virou sindicalista. Se politizou.

Por duas décadas, outra vida, um novo homem.

Aos cinquenta, virada radical nos papéis sociais.

Saiu do BB. Da representação. Do espaço de atuação.


Aos cinquenta e seis anos, o mundo se desfaz.

Na política e na economia do seu país e do mundo, 

a extrema-direita e o capitalismo em crise estrutural

estão colapsando a sociedade humana e a Terra mãe.


No pessoal, o balanço da vida se parece com o mundo.

A saúde: bomba-relógio: genética e veredas da vida.

As relações: o retrato dos tempos: incomunicabilidades.

Teria contribuições a fazer... sente que não vai rolar.


William Mendes

16/09/25

sábado, 7 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (7) - Llaneza, Jorge Luis Borges



LLANEZA - JORGE LUIS BORGES

           A Haydée Lange


Se abre la verja del jardín

con la docilidad de la página

que una frecuente devoción interroga

y adentro las miradas

no precisan fijarse en los objetos

que ya están cabalmente en la memoria.

Conozco las costumbres y las almas

y ese dialecto de alusiones

que toda agrupación humana va urdiendo.

No necesito hablar

ni mentir privilegios;

bien me conocen quienes aquí me rodean,

bien saben mis congojas y mi flaqueza.

Eso es alcanzar lo más alto,

lo que tal vez nos dará el Cielo:

no admiraciones ni victorias

sino sencillamente ser admitidos

como parte de una Realidad innegable,

como las piedras y los árboles.

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COMENTÁRIO:

Fiquei dias pensando neste poema de Borges. Na minha interpretação, o poema fala de pertencimento:

"que toda agrupación humana va urdiendo."

Cada verso, cada imagem, vai nos fazendo sentir o acolhimento que eventualmente o leitor ou leitora sinta ao chegar no ambiente ao qual pertence: 

"bien me conocen quienes aquí me rodean,"

Por outro lado, se sente também o amargor de não se ver mais pertencente a um ambiente que te compõe "cabalmente en la memoria".

Me lembrei de uma cena de cinema, do filme "Highlander" (1986), do banimento de Connor MacLeod de seu clã sem que nada de errado tivesse feito para merecer a proscrição do mundo ao qual pertencia.

Ao ler o poema "Llaneza", de Borges, senti uma "nostalgia" no sentido espanhol da palavra: "tristeza o pena que se siente al estar lejos de las personas y de los lugares queridos" (Señas, Martins Fontes, 2001)

As reuniões de família na casa da vó Deolinda, da vó Cornélia, da casa de meus pais; o pertencimento ao movimento sindical. As pessoas conheciam a gente, nossos anseios e fraquezas, mas éramos admitidos como parte daquela realidade...

Hoje não tenho mais pertencimento (me falta alcançar o mais alto...). 

Nostalgia...

William Mendes 


Bibliografia:

BORGES, Jorge Luis. Antología poética 1923-1977. Biblioteca Borges, Alianza Editorial. Madri, 2005.

sexta-feira, 14 de julho de 2023

Poema do Missing You




Poema do Missing You

Pedi aos deuses do algoritmo que me enviassem um sinal (não pedi que fizessem IA blá blá blá, só pedi inspiração musical - a musa) e eles prontamente me atenderam. (Eles se lembraram do recente dia de celebração do Rock e me alertaram que os roqueiros também têm sentimentos). Vejam os poemas musicados.

Vieram de Nazareth, depois meteram uma Melissa Etheridge e emendaram aquela angústia com Dire Straits. Seguiram o desabafo com Ozzy Osborne e reafirmaram com Heart que o amor é necessário... Não deu outra, os deuses do Rock finalizaram as baladas-poemas ao som de Van Halen deixando claro que é impossível deixar de amar!

Where Are You Now
I Want To Come Over
(You) So Far Away (From Me)
Mama, I'm Coming Home
What About Love
Can't Stop Loving You.

William Mendes

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Lembranças - Capítulo 7


Aniversário de 84 anos da vovó e os 5 filhos
reunidos com suas famílias.

Refeição Cultural

Osasco, 12 de janeiro de 2023. Quinta-feira, fim de noite.


No meu fone está tocando músicas antigas, "som sobre som", como chamávamos nos anos oitenta onde morávamos lá em Minas Gerais. A cada música que toca, um arrepio, uma lembrança. Uma vez ou outra o coração aperta, os olhos se enchem d'água e um turbilhão de imagens passa pelas minhas memórias.

Neste instante, estou aqui repassando a vida em momentos, épocas, lugares, contextos. Estou refletindo sobre a minha vida, a vida das pessoas de meu relacionamento, a vida do mundo todo talvez. Deve ser essa coisa de achar sentidos e significar o viver o que estou fazendo.

Minha mãe deve estar na cozinha de casa, ouvindo suas músicas e talvez fazendo sua lição de francês. Sim, minha mãezinha tem 76 anos e gosta de estudar francês. Ela nos diz que é o momento de respiro em sua vida, sua hora de estudo do francês. Ela anota tudo num caderno. As músicas que ouve enquanto trabalha em casa são seu oxigênio também.

As músicas som sobre som que estou ouvindo me trazem à memória, inevitavelmente, o tio Jorge, irmão de minha mãe. Acho que foi ele que nos fez gostar dessas músicas, eu e os primos àquela época. Conversar com o tio Jorge quando eu tinha uns 13 ou 14 anos era uma aula musical. Teve uma época na qual moramos no mesmo terreno, o da minha avó.

Neste momento, o tio Jorge e minha prima estão lá no Mato Grosso, visitando o irmão, nosso tio e família, que vivem na Barra do Garças. Nosso tio Léo está com problemas de saúde e sempre que possível alguém da família vai até lá visitar o tio e a tia. Tive a felicidade de poder levar meus pais na Barra em julho do ano passado. Foram 5 dias de matar saudades.

Minha mãezinha tem estado muito preocupada e apreensiva com os problemas de saúde de seus irmãos. Além do tio Léo, a irmã também está passando por um momento delicado, pois caiu algumas vezes nos últimos meses e está se recuperando de fraturas no fêmur. Meu primo que é como um irmão é quem está cuidando da tia. Estivemos juntos no Natal e foi muito bom matar saudades e ver a mesa com a família reunida. Esse é um dos sentidos do Natal para alguém como eu.

O tempo está passando, as vidas estão indo e vindo. Como os povos indígenas nos ensinam, somos parte da natureza, somos a natureza. Minha avó e a tia Alice faleceram, e meus tios perderam filhos em acidentes. Por parte de pai, também já perdemos a avó, tios e demais familiares queridos.

Enquanto envelhecemos, enquanto alguns de nós vai caminhando para a partida dessa vida, outras vidas estão chegando, como é o caso de nossa mascotinha, a filha de minha sobrinha, com poucos meses de vida e cheia de energia para aprender e absorver tudo ao redor a cada dia do viver. O tempo. A natureza. A vida. A morte.

Tenho refletido bastante sobre a vida, inclusive sobre a minha vida, esse fragmento da natureza.

Ao sair de uma rotina de absorção total de meu pensar em atividades dos papeis sociais que representei ao longo de décadas, me peguei de range rede, como diz o personagem Riobaldo Tatarana (G. Rosa), sem ocupação e desafios como aqueles nos quais encontrei o melhor de mim nos tempos de labuta.

Não é fácil significar a vida depois de viver a vida que eu vivi nestas mais de cinco décadas como um ser vivo da natureza. Ao olhar para trás e refletir sobre o que vivi, tenho algumas noções sobre o que foi a minha existência. 

UM SER HUMANO ADAPTÁVEL AO VIVER

Avalio que fui uma pessoa que recebeu da natureza um cérebro bem funcional e adaptável. Só recentemente li um livro sobre o cérebro humano que me fez compreender muito do que buscava de explicações e respostas sobre a vida. O professor Nicolelis, neurocientista que passou quatro décadas estudando o cérebro humano, explicou aos seus leitores a funcionalidade incrível do cérebro do homo sapiens, e sua plasticidade.

Ao olhar para trás em minha vida, fica fácil compreender o que o professor Nicolelis explica sobre essa máquina humana, nosso cérebro e sua plasticidade.

Só de rever instantes do meu viver consigo perceber isso. Não é que eu tenha sido uma espécie de hippie ou bicho-grilo que viveu dizendo que deixaria a vida me levar. Talvez em alguns momentos da juventude pode ter sido assim, mas não a vida toda. Mas quando vejo tudo que já fiz em quatro décadas de adulto, fico impressionado ao ir de um extremo ao outro das atividades humanas.

Nasci canhoto e virei destro por causa das crendices populares dos anos 70. Fazia desenhos muito bons ainda criança, era muito bom pra copiar coisas só de ver. Fiz curso técnico de eletrônica e ia bem até mudar de ideia. Depois fiz faculdade de Ciências Contábeis e era muito bom em matemática. Fazia equações na lousa que enchiam aquela coisa de uma ponta à outra. Trabalhei criança em drogaria e aplicava injeções com 14 anos de idade. 

Fiz faculdade de Educação Física por dois anos e era muito bom em áreas médicas, só tirava notas boas em anatomia etc. Trabalhei de quebrar concreto como ajudante de encanador. Fui chapa de descarregar caminhão. Fui bancário concursado de banco público. Depois fiz faculdade de Letras. E eu que cheguei a pensar em ser monge e me retirar da vida em sociedade, virei sindicalista e fui representante eleito em vários espaços políticos por 16 anos. Se tem algumas coisas que conheço bem são aquelas nas quais atuei. Sei de gestão de saúde e da nossa Cassi, sei da história da categoria bancária e sei um pouco de política.

E nas questões de nossas dimensões psicológicas e culturais, então? Fui aculturado como católico, fui muito religioso, estudei a religião, as religiões, porque o sincretismo brasileiro nos faz transitar pela umbanda, pelo espiritismo, tomar a benção e passes etc. Hoje compreendo demais os porquês das diversas religiões e deuses que preenchem a compreensão da vida para boa parte das pessoas no mundo. Já acreditei em disco voador e extraterrestres, já acreditei em viagens astrais e tudo quanto é coisa que as sociedades humanas já pensaram.

Mas o fato é que nunca consegui encaminhar e concluir e fazer as poucas coisas que pensei que queria fazer, que planejei ou me vi fazendo. Não fui professor e queria ter sido. Queria ter sido uma espécie de intelectual, sei lá o que isso queria dizer na minha cabeça de jovem, mas não fui. Nunca trabalhei naquilo que estudei. Não fui contador e não fui professor. Até hoje tenho dificuldade de preencher cadastros que perguntem minha profissão. Não tenho! Não sou profissional de nada. Tive ocupação a vida toda, não profissão... que foda, isso! Mas a vida foi assim.

Até por esse olhar ao meu viver, concluo que tive um cérebro muito plástico, muito funcional, como é um cérebro humano!

O fato é que milhões de pessoas como nós da classe trabalhadora, pobres e que não nasceram em berços de ouro e com um destino social traçado na família bem situada na vida, vamos nos posicionando na vida e na sociedade fazendo o que é possível para sobreviver e conquistar um lugar ao sol. Milhões de nós vivem assim há séculos neste país de passado e presente desgraçados para o povo fora da casa-grande.

Enfim, chega de lembranças e memórias e reflexões por hoje. Somos o que somos. Humanos, demasiadamente humanos.

William Mendes


Para a leitura do Capítulo 6 das Lembranças, clique aqui.


terça-feira, 30 de agosto de 2022

Pai, parabéns pelos seus 80 anos! Saúde e paz!



Feliz aniversário, pai!

Hoje pela manhã fiquei olhando fotos de meu pai ao longo de décadas de vida neste nosso Brasilzão miserável e lascado desde sua invasão pelos bárbaros do Norte. 

Os brancos europeus chegaram chegando por aqui. Mataram os povos daqui, estupraram as mulheres, trouxeram escravizados povos da África. Fomos nascendo por séculos miscigenados, filhos e filhas de mulheres subjugadas por homens machistas e brutalizados pelo meio. Povo brasileiro!

Meu pai completa hoje 80 anos de idade. Não é qualquer coisa viver aqui por 8 décadas nessa terra miserável onde poucos mandam em tudo, onde uma elite má e vil subjuga milhões de homens, mulheres e crianças como se todos nós fôssemos propriedades de suas fazendas-cidades, fazendas disfarçadas de cidade, mas com um coronel que manda até hoje em tudo.

Não terá festa nem reunião de família e amigos para celebrarmos esse feito de meu pai de sobreviver 80 anos no Brasil. Estamos todos meio que afastados pelo que nos tornamos, pelo que nos tornaram. Vítimas do embrutecimento que experimentamos forçadamente. Após escrever, vou ligar pro meu pai e parabenizá-lo e agradecer por tudo que vivemos juntos até aqui. Sobrevivemos... 

(já brigamos juntos para meu pai ter atendimento médico, o pai já teve infarto, AVC... sobrevivemos)

Meu pai é de uma família de poucos recursos, meu pai e minha mãe. Foram vivendo como milhões de brasileiros das classes subalternas. Sobreviveram aos anos 40 e 50. Veio o golpe militar e a ditadura por mais de duas décadas. No conluio dos ricos com os militares, o povão se lascou por décadas.

Meus pais se casaram em 1964. Minha mãe não conseguia ter filhos como eles gostariam. A Telma chegou em 1967 e eu em 1969. Crescemos em São Paulo na década de 70. E mudamos para Minas Gerais na década de 80. A vida seguiu difícil. Ditadura militar que só fodia com os pobres. Depois os anos difíceis de Sarney e Collor etc. 

Dos anos 90 adiante tivemos o neoliberalismo dos fernandos e depois nos anos dois mil tivemos os melhores anos da vida do povo brasileiro, o povão trabalhador e pobre, os anos de governos do Partido dos Trabalhadores, os anos de Lula melhorando a vida do povão como nós. 

(como disse Lula no debate para uma candidata: o porteiro, a empregada e o motorista dela viram a vida melhorar durante os governos do PT)

Pois é, em 2016 veio o golpe de Estado que nos fez voltar ao passado, numa terra pior do que tudo que nós com mais de 50 anos conhecíamos até agora, só sabíamos da história de miséria e maldade contra o povo ao estudar a história do Brasil. E agora é só miséria desde que colocaram a máfia no poder com o presidente vampiro traidor e depois a milícia que está lá agora.

Todos nós, todos mesmo, somos sobreviventes nessa terra dominada por gente má e vil ao longo de séculos. A casa-grande e seus capitães do mato e seus ideólogos fizeram dessa terra um lugar duro de se viver. Somos sobreviventes... meu pai é um sobrevivente... eu sou um sobrevivente. E sobrevivendo nessa terra, endurecemos.

As relações familiares e entre as pessoas em geral não são mais as mesmas. Estamos todos muito difíceis para nos relacionarmos com as outras pessoas. E com isso nos afastamos das pessoas que mais amamos e dos familiares, dos amigos e conhecidos. E temos que ter humildade e coragem para desfazer toda essa distância e isolamento. 

Tenho refletido sobre isso. Ao observar e estudar o que o capitalismo, as ferramentas tecnológicas da atualidade e as redes sociais fizeram com os seres humanos, tenho clareza de que todos nós somos vítimas desses sistemas que nos tornaram de difícil convivência uns com os outros. Temos que resistir a isso. Temos que nos reunir e reaproximar uns dos outros.


Pai, feliz aniversário! Agradeço por tudo que foi possível o senhor fazer por nós ao longo dessas oito décadas de vida, seis décadas de sua vida dedicadas e vividas com a mãe, comigo e a Telma, com o Victor e a Stefani, com a Ione, o Mário e a Olga, e com as pessoas mais próximas da família.

Saúde e paciência, pai! E paz em seu coração!

Um abraço do filho que está longe fisicamente, mas que está à disposição para o que o senhor precisar.

William


sábado, 4 de setembro de 2021

040921 - Diário e reflexões


Filhos de Palmério e Dirce num momento feliz.

Refeição Cultural

Sábado, 4 de setembro. Segundo ano da pandemia mundial de coronavírus. Quinto ano do golpe de Estado no Brasil. Terceiro ano do regime militar-bolsonarista.

PANDEMIA

A infecção pelo vírus Sars-Cov-2 não é uma gripezinha. Até o momento, já foram infectados no mundo 220 milhões de pessoas, e morreram 4,6 milhões de pessoas. Aqui onde vivemos, o país jabuticaba, morreram 582.670 pessoas, e foram infectadas 20,9 milhões de vítimas. (Johns Hopkins University)

Não há cura para a infecção pelo coronavírus, mas há vacinas. Estudos diversos demonstram que a infecção pelo vírus deixa sequelas em mais de 1/4 das vítimas, que podem passar a ser doentes crônicos. 

A ampla maioria dos vacinados no mundo e no Brasil são os ricos, são os brancos (a distribuição das vacinas é para os países desenvolvidos e nos não desenvolvidos a distribuição é desproporcional, é para segmentos privilegiados). Os mortos são em sua imensa maioria os mais vulneráveis da sociedade humana: pobres e descendentes de povos africanos ou originários em terras colonizadas pelos europeus. Não estamos no mesmo barco... estamos no mesmo mar, alguns de iates e transatlânticos e a maioria em jangadas improvisadas e boiando sem nada.

ANIVERSÁRIOS SOLITÁRIOS

Minha mãe completa hoje 75 anos de vida. Uma vida brasileira, de uma mulher brasileira da base da pirâmide social. Mãe, meus parabéns pelo seu aniversário e desejo que a senhora esteja bem, na medida do possível para os dias que correm, e que continue conosco por muito tempo. Te amo.

Meu pai completou 79 anos de vida no dia 30 de agosto. Uma vida brasileira, de um homem brasileiro da base da pirâmide social. Dei os parabéns ao meu pai também desejando a ele que esteja bem na medida do possível nesses tempos. Te amo pai.

Neste sábado, que seria dia de festas e reunião com as pessoas que amamos, meus pais estão sozinhos em casa. Não haverá festa, não haverá reunião de família. Segue o amor incondicional que sentimos uns pelos outros. 

Minha mãe faz 75 anos e não teremos abraços e confraternização presencial...

Se já não bastassem as duas datas importantes na semana para mim e para nossa família, amanhã, domingo, dia 5 de setembro, é a data de casamento de meus pais. Eles se casaram em 5/9/1964, ou seja, completam 57 anos de casados. E não haverá reunião nem confraternização nenhuma.

Eu fico me perguntando se sou um idiota, se sou um cuzão ou algo parecido por seguir até hoje respeitando as recomendações da ciência em relação à pandemia. Desde que essa peste começou, nunca mais fui ver meus pais, irmã e sobrinhos. Nunca tive medo de morrer. Nunca. Mas temo pela morte das pessoas que amo. Essa abstração "amor" é uma das diversas abstrações do cérebro humano. Se importar com os outros...

Compartilhei com minha irmã e com meu filho e esposa minha angústia por não estar hoje na casa de meus pais e por deixá-los sozinhos nestas datas. Eles me confortaram e disseram que estamos fazendo o correto em não nos unirmos neste momento lá. Pior seria irmos lá, alguém morrer de Covid e depois ficarmos com o peso na consciência para sempre... Sei lá!

Estamos num fim de semana de feriado prolongado. Milhões de pessoas no Brasil estão aglomerando neste exato momento em que escrevo. O sol está forte, as praias estão lotadas, os parques idem, as pessoas estão enchendo a cara, bebendo o que podem e o que não deveriam porque a bebida alcoólica está fodendo a vida e a SAÚDE das pessoas mais que qualquer outra droga chamada de "ilícita", ou seja, droga que não foi definida pelos governos para pagar impostos. Cigarros e álcool, que matam milhões por ano, são drogas "lícitas" e tá liberado geral. Dane-se a saúde do usuário e a saúde da coletividade. 

A pessoa fuma um baseado de maconha e fica alegre ou sonolento. A pessoa ingere bebida alcoólica, fode fígado, rins e diversos sistemas a longo prazo e fica bêbada em algumas horas e causa mortes e acidentes irreversíveis e tudo bem. É uma hipocrisia desgraçada essa sociedade humana!

QUASE TODO MUNDO AGLOMERA (JOGO DE DADOS E PROBABILIDADES)

Estamos num mundo conectado pelas redes sociais e pela internet e redes de comunicação. Em minutos de pesquisas e visualização, vemos que praticamente todas as pessoas que conhecemos, que são nossos contatos, já se reuniram com seus familiares e amigos queridos nesse período de pandemia. 

Os especialistas das áreas que lidam com a ciência e a pandemia explicam os riscos de aglomeração, mesmo estando vacinada parte das pessoas, mesmo usando máscaras, porque as cepas atuais são mais contagiosas pelo ar e ao comerem e beberem juntos (sem máscara, óbvio), multiplica-se exponencialmente o risco de transmissão do vírus. E talvez, agravamento, e talvez morte da pessoa querida. Tudo são cálculos de risco, estatísticas e probabilidades...

É provável que eu e algumas pessoas como eu sejamos uns cuzões em não se encontrarem com as pessoas amadas. Também não estou acusando quem se reúne e aglomera, cada um cada um. Jogo de dados e probabilidades...

Afinal, pode ser que eu e ou as pessoas que amamos morram num segundo qualquer de qualquer coisa, afinal somos tão frágeis como animais, um coração que para, uma artéria ou veia que estoura ou entope, um câncer que nos emperre o funcionamento normal dos sistemas corpóreos. Um vírus de Covid pego mesmo com todos os cuidados que recomendam. Que dirá morrer de um tiro, uma pancada, um acidente qualquer.

RESPONSABILIDADE SOCIAL E COLETIVA 

Eu tive a oportunidade de conhecer pessoas e espaços que me transformaram politicamente. O meio me fez ser o que sou. O mundo do trabalho, o familiar e o estudantil. Meu aculturamento me fez ser o que sou. A consciência política do animal humano que sou hoje me faz ser assim.

Eu poderia ser um troglodita bolsonarista, qualquer um poderia ser um direitista no Brasil porque os ambientes em que vivemos nesta terra escravagista são propícios a isso. Acabei não sendo por acaso um direitista: veredas. 

Me tornei uma pessoa de esquerda. Isso me dá uma responsabilidade social que não tinha até uns vinte e poucos anos.

Chega de reflexões neste registro diário. Feliz aniversário, mãe! Aglomerem-se aqueles que quiserem. No Brasil, não sabemos sequer o que vai acontecer daqui a três dias...

William


sábado, 3 de outubro de 2020

A USP fez parte da minha vida

 

Entrada da Faculdade de Letras da USP.

Ontem, fui até o campus da Universidade de São Paulo. Andei por mais de uma hora pelas ruas e alamedas daquele lugar magnífico que faz parte da minha vida. Foram tantos sentimentos e sensações que dificilmente poderia descrever. Foi como se eu estivesse me despedindo da USP. Ao ver tudo deserto, tudo fechado, as alamedas tomadas pelas folhas secas, o clima era de fim de uma época, talvez da própria educação.

De certa forma, estou me despedindo mesmo. Entrei no último semestre do prazo que me foi dado para completar os créditos necessários para colar grau nas duas habilitações que fiz quando entrei na Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) no vestibular de 2.000. Meu reingresso em 2019 se deu porque houve alguma discrepância na contagem de créditos quando terminei as disciplinas do programa de Português e Espanhol da época. Ao voltar, tive que cumprir uma nova grade de matérias obrigatórias, eletivas e optativas. As coisas correram bem em 2019. Quem diria que neste ano viria a pandemia e as aulas presenciais seriam suspensas em março. Tudo ficou mais difícil. Agora faltam exatamente os 2 créditos que faltaram da primeira vez que quis colar grau e não deu certo.

A história da educação pública é uma história de lutas pelo acesso à educação, pelo financiamento da educação, pela construção de oportunidades mais equânimes para estudantes das diversas classes sociais do país. A história da educação pública é uma história de luta do povo brasileiro.

Vejam que triste: estamos hoje lutando para salvar a educação como estávamos há 20 anos: 

Dias atrás, participei de uma plenária virtual com quase cem pessoas, professores e alunos da FFLCH, para que se pensasse coletivamente as melhores formas para lidar com a situação de manutenção das aulas em tempos de pandemia de Covid-19, os problemas das aulas virtuais em substituição às aulas presenciais etc. Também há uma luta coletiva neste momento para que o governo tucano não consiga aprovar um projeto (PL 529) que retira mais de um bilhão das 3 universidades paulistas e acabe de vez com a autonomia das universidades e com o financiamento das pesquisas e bolsas de graduação.

Pois é, quando entrei na FFLCH/USP em 2001, cheio de sonhos e acreditando que me tornaria professor, comecei a me envolver nas lutas em defesa da educação pública e a tomada de consciência se deu rapidamente através da realidade que enfrentávamos: as condições dos departamentos e dos cursos eram impossíveis de seguir daquela forma. Não havia professores para as disciplinas, o governo tucano havia depauperado a faculdade. Alunos se espremiam e desmaiavam tentando assistir às aulas dos poucos professores disponíveis para as disciplinas obrigatórias. Tivemos que organizar a maior greve da história da FFLCH no ano seguinte, em 2002. Foram 104 dias de greve para conseguir que o governo se comprometesse a contratar uma centena de professores e melhorar as condições físicas da estrutura na Letras, na História, na Geografia, nas Ciências Sociais e na Filosofia. Vinte anos depois, seguimos na mesma luta pela sobrevivência da educação...

Quando olho para trás, vejo que minha relação com a FFLCH/USP é mais antiga que minha relação com o movimento sindical, pelo menos formalmente. Quando eu era militante de base do Sindicato, nos anos noventa, minha relação era esporádica. Quase entrei para a diretoria do Sindicato nas eleições de 2.000. Eu precisava de um novo desafio na minha vida, porque estava muito difícil seguir trabalhando no banco público na era tucana. Eu havia começado um curso de graduação em Educação Física numa faculdade privada e tive que desistir no meio do curso por falta de dinheiro. Foi terrível! Acabei entrando na USP no vestibular de 2.000 e iniciei o curso de Letras em 2001. Como a vida é uma jornada, e não um destino, ou ainda, a vida é a escolha das veredas que trilhamos diariamente, mal comecei meu curso de Letras, acabei virando diretor do Sindicato em 2002, e com isso, meu compromisso com os trabalhadores fez com que a faculdade ficasse em segundo plano. Foi-se o sonho de ser professor e só completei as últimas disciplinas em 2011. Ou seja, fui dirigente sindical e representante da classe trabalhadora com mandatos eletivos entre 2002 e 2018, e minha relação com a USP é de 2001 até este momento em 2020.


Corredores desertos do Crusp.

Ontem, foi a primeira vez que andei de trem e ônibus desde março, quando a pandemia de Covid-19 interrompeu nossas atividades normais de circulação. Entrei na Universidade pelo portão de pedestres da estação de trem e caminhei, caminhei, caminhei. Passei pela Educação Física, depois pelo Crusp e restaurante do Bandejão. Passei na frente do DCE Livre da USP, fui para a Praça do Relógio e para a FFLCH. Adoro esse lugar. São vinte anos de amor a nossa Universidade de São Paulo. Sempre tive o hábito de atravessar a pé o Instituto Butantan para ir embora: estava fechado o acesso ao público. Após sair da Av. Prof. Luciano Gualberto, caminhei pela Avenida Prof. Lineu Prestes. Passei pelo Instituto de Química, depois, lá em cima, passei pela rotatória ao lado do final da Rua do Matão, e fui para o Portão 3, após passar pelo Hospital Veterinário da USP.

Essa pandemia foi uma merda para o mundo, principalmente para a educação pública e para os direitos sociais do povo. Se já era difícil lutar contra o sistema de poder das elites que dominam as máquinas públicas, ficou tudo muito pior com a pandemia, ela facilitou os ataques aos direitos sociais como a educação pública como nada antes havia conseguido. Tudo muito triste. Como disse, tive uma sensação de fim de uma época ao caminhar pelas ruas e alamedas desertas de nossa querida Universidade de São Paulo.

William

domingo, 6 de setembro de 2020

Despedida - Glória Abdo


(reprodução de matéria da Rede Brasil Atual)


Aos 81, morre Glória Abdo, militante histórica da luta dos bancários e do sindicalismo cidadão


Glória Abdo – pioneira da causa feminista no mundo do trabalho, do sindicalismo cidadão, da dignidade da pessoa idosa – é parte das conquistas dos bancários e da luta democrática do Brasil


Glória abominava a expressão "melhor idade". Foi referência em
causas feministas no mundo do trabalho, mãe solteira, duas vezes,
avó orgulhosa e eternamente inquieta em defesa da vida e da dignidade.
Foto: Alessandra Anselmi.

Por Paulo Donizetti de Souza / RBA

Publicado 06/09/2020 - 16h50


São Paulo – A ex-presidenta da Associação dos Bancários Aposentados de São Paulo (Abaesp), Maria da Glória Abdo, morreu neste domingo (6) na capital paulista, aos 81 anos, depois de anos de luta contra um câncer. Glória militou no movimento sindical bancário durante toda sua trajetória profissional no setor, iniciada após ingressar por concurso na Caixa Econômica estadual. O banco de fomento fundado no início do século passado virou banco múltiplo em 1990, transformado em Nossa Caixa. Em 2008, foi adquirido pelo Banco do Brasil. Com o negócio, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva evitou a privatização do banco estadual.

Os aposentados da antiga Nossa Caixa tinham em Glória Abdo uma referência. Fosse em campanhas em defesa da população idosa ou contra ataques a direitos de trabalhadores, da ativa e aposentados – tanto nos governos neoliberais dos anos 1990 quanto no pós-golpe de 2016. Glória gostava de conversar, de namorar e festejar. Toda última sexta-feira do mês reunia companheiros de sua geração no baile dos aniversariantes do mês. Na Abaesp, ficava brava quando frequentadores afoitos passavam da hora de fechar o salão, 18h. Mas ficava feliz quando os mais jovens do sindicato, vizinho à associação, na Rua São Bento, pediam emprestada a mesa de sinuca para depois do expediente.

O movimento bancário foi passaporte para a luta política. Nascida em dezembro de 1938 em Ponta Porã (MS), Glória Abdo radicou-se em São Paulo em 1960. Ingressou no banco por concurso e lá se aposentaria três décadas depois. Começou a trabalhar em 1964 no prédio da Rua 15 de Novembro, no Centro Velho. Filiada ao Partido Comunista Brasileiro, o antigo PCB, em 1980 esteve entre os primeiros integrantes do recém-fundado Partido dos Trabalhadores. Feminista e socialista, Glória combinou ativismo político com a criação de duas filhas nascidas de “produção independente”.


Melhor idade?

Para a ex-bancária, ter sido mãe solteira por duas vezes, uma em 1967 outra em 1980, era motivo de orgulho. Adorava ser mãe e avó. E com o decorrer do tempo, a militância sindical no ramo financeiro foi ficando pequena para sua inquietude. Achava que os sindicatos podiam usar sua representatividade para influenciar a vida dos trabalhadores também fora de seus locais de trabalho. Como cidadãos. Foi, portanto, também pioneira do conceito de sindicato cidadão que marcou a reinvenção do movimento trabalhista após a redemocratização.

Em entrevista ao site do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Glória observava: “Este sindicato é um sindicato que nós podemos chamar cidadão, porque se envolve não só nas questões salariais dos bancários como também se envolve nos assuntos da cidadania e da democracia. Foi um dos que mais lutou contra a ditadura e luta ainda hoje contra este governo que está aí, de uma pessoa que não tem capacidade de governar".

Inquieta

Maria da Glória Abdo fez da Associação dos Bancários Aposentados um ponto de referência da luta em defesa da população idosa. Convidada a ajudar a organizar esse segmento dos trabalhadores nos anos 1990 – por Gilmar Carneiro, então presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo – ela construiu um grande capital político e humano. Abominava a expressão “melhor idade”, eufemismo usado pelo marketing para amenizar o momento mais delicado da vida das pessoas, justamente quando passam a ingressar numa rotina de fragilidade física, intelectual e social.

“Melhor idade?! Melhor idade é quando você passa na frente de uma construção e te assobiam. Isso sim é melhor idade. Atualmente não estão assobiando para mim, mas vão voltar a assobiar, ah, se vão…”, disse numa entrevista concedida à revista digital Longeviver. Glória fala também sobre seu engajamento na causa dos idosos em âmbito local (moradia e lazer) e federal – batalha por formulação de políticas públicas. E também nas causas das mulheres, dos jovens e da inquietude contra as injustiças que marcou sua vida.

“Perdemos uma das pessoas mais lutadoras que conheci. Fica a saudade e o bom exemplo de dignidade”, disse o ex-deputado e ex-ministro nos governos de Lula e Dilma, Ricardo Berzoini, ex-presidente do sindicato. “Lembrarei de você sempre de duas formas: incansável na luta por igualdade social e livre. Como a Glorinha era livre!!! Uma mulher sem amarras”, escreveu a atual presidenta da entidade, Ivone Silva.

Nota do Sindicato dos Bancários de S. Paulo, Osasco e Região

O Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região lamenta profundamente a morte, ocorrida na madrugada de domingo 6, de Maria da Glória Abdo, Glorinha dos aposentados.

A despedida será no Velório Tatuapé (Rua David Zeiger, 330), Quarta Parada, das 14h às 17h.


Legado para o movimento sindical e social

Muito querida por todos do movimento sindical e social, Glorinha foi bancária da extinta Nossa Caixa e ainda lá, na década de 1970, liderou a luta das funcionárias pelo direito a creche, que futuramente inspirou o auxilio creche/babá, conquistado e adicionado à CCT (Convenção Coletiva de Trabalho), em 1981.

“Conhecemos a Glorinha, em 1976. Naquele ano, entraram dois mil bancários. Éramos uma molecada cheia de gás e com muita vontade de lutar e ela nos acolheu de pronto. Fazíamos um jornal clandestino chamado de ”O Reunião” e esse jornal era a voz dos funcionários contra a direita do banco. Muitas vezes, nos reunimos na casa da Glorinha para definir e escrever o conteúdo do jornal. Nunca teve ou demonstrou medo. Corajosa, combativa e sincera, foi uma das pessoas mais engajadas na luta da categoria bancária. Não só das mulheres, mas de todos”, lembra Antonio Saboia, diretor do Sindicato e amigo de Glorinha.


Aposentados

Glorinha também foi presidente da Abaesp (Associação dos Bancários Aposentados de São Paulo) e durante sua gestão (2013 – 2017), foi grande batalhadora pelos direitos da classe trabalhadora, em particular dos aposentados, defendeu a regulamentação da profissão de cuidador de idosos e debateu sobre políticas para pessoas idosas na cidade de São Paulo, na gestão Haddad.

Nascida em Mato Grosso do Sul, Glorinha mudou-se para São Paulo. E aqui foi reconhecida pela luta por igualdade e engajamento nos movimentos sociais com o título de Cidadã Paulistana.

O Sindicato agradece o legado e estende condolências a familiares e amigos.

Maria da Glória Abdo, presente!

Fonte: RBA

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

040920 - Diário e reflexões






Hoje foi a vez do aniversário de minha mãezinha querida: 74 anos de idade. Meus parabéns e muitas felicidades, mãe! Obrigado por tudo. Meu pai e minha mãe têm uma semana toda especial porque fazem aniversário em dias próximos e também comemoram a data de casamento deles, que foi no dia 5 de setembro de 1964. Saudades de vocês! Fiquem bem!


Tirando a alegria de poder comemorar a vida de pessoas queridas, o cenário em nosso mundo é causador de sentimentos tristes. A pandemia mundial de Covid-19 segue fazendo vítimas e mais vítimas no Brasil e no mundo. Nesta semana, a mãezinha de minha tia Regina foi mais uma das vítimas dessa tragédia. Nossa solidariedade a toda a família. Nossa solidariedade às famílias das vítimas do novo coronavírus. Não perderíamos tantas pessoas caso o país não estivesse na condição em que está: entregue ao caos e ao regime do mal.

Tenho me esforçado para aprender coisas novas e ganhar novos conhecimentos, assim ocupo a mente e evito que o ódio e a depressão me dominem e com isso evito que os nossos inimigos de classe nos vençam. Se depender de minha disposição, quero estar vivo para ver a mudança. O mal ainda avança, a destruição de tudo segue com o novo regime no comando do país, mas todos os dias são novos dias e as mudanças podem ocorrer tanto pela luta e rebelião dos povos oprimidos quanto pelo imponderável, que faz parte do acaso.

É isso. Sem muitas palavras para registrar hoje neste blog, que registra instantes do que está ocorrendo no "mundo, mundo, vasto mundo", como dizia o poeta Drummond.

William

domingo, 30 de agosto de 2020

300820 (d.C.) - Diário e reflexões



Domingo, 30 de agosto, depois do aparecimento da Covid-19 (d.C.).

Hoje é aniversário de meu pai. Meus parabéns, pai! 78 anos! Sei que a vida não está fácil. Estamos vivos e isso já é alguma coisa. Resistimos até aqui ao coronavírus, mesmo com os abusos que cometemos em relação ao isolamento social: estamos o tempo todo na rua, apesar dos cuidados recomendados. Resistimos até aqui, mesmo com os abusos que cometem cotidianamente contra nós, cidadãos comuns desse país sob golpe de Estado e regime fascista, regime baseado na mentira e privilégio dos ricos. 

Sobrevivemos até aqui aos infartos, aos derrames e acidentes vasculares, depressões, cânceres, raivas e frustrações e outras merdas que nos matam de morte morrida. Que bom que estamos vivos, pois a vida é única e viver é uma oportunidade diária de acontecimentos bons para amenizar a dureza da existência. Ontem vi o nascer do sol. Hoje vi um lindo ipê branco no dia de seu desabrochar. Pai, desejo ao senhor a saúde possível, já que o senhor tem diversos desgastes da passagem do tempo. Também já tenho os meus aos 51 anos. Amo vocês, pai, mãe, irmã e sobrinhos. Se cuidem aí. A pandemia impediu que nos víssemos este ano. Mas estamos por aqui. Saudades de vocês!

Por falar em coronavírus, a pandemia mundial já infectou 25 milhões de pessoas no mundo, sendo 3,8 milhões no Brasil. Já morreram 843.826 pessoas, sendo 120.462 brasileiras e brasileiros. O inumano no poder, seus asseclas e apoiadores nazifascistas afirmam que a Covid-19 é uma "gripezinha". Além disso, o sujeito no poder por fraude e golpe diz que não é coveiro, que todo mundo vai morrer um dia e a posição do governo sobre a situação das mortes pela pandemia é "E daí?". (informações sobre a pandemia: Johns Hopkins University)

Estou às voltas com minhas coisas guardadas, materiais que acumulei para estudar e ter mais conhecimentos em diversas áreas. Nunca pude ler os materiais porque a vida de um proletário se gasta no próprio viver de jornadas de manhãs, tardes e noites na sobrevivência cotidiana. Não tenho coragem de jogar fora, a gente tenta se desfazer e fica com pena de tanta informação e conhecimento nas revistas, nas apostilas, nos livros diversos, nas mídias de cultura. E no fundo, a questão é sobre a utilidade de tudo isso para mim hoje. O que aprendi serviu para o momento que já vivi, para o que eu já fui como ator social. Meu tempo passou para a maioria dos materiais que acumulei, e as coisas são assim mesmo. O que fazer com esse conhecimento à disposição de quem queira conhecimento? Os tempos são de se enaltecer a ignorância, a força bruta, a violência das armas.

Os materiais são fascinantes. Não sei se teria agido melhor como representante de classe se tivesse lido tudo isso, mas a leitura agora tem qual sentido para a minha vida neste mês? Neste ano e nos próximos que eu possa me pegar vivendo? É tudo esquisito.



Li algumas matérias de um jornal de setembro do ano passado - A VERDADE -, que me trouxeram conhecimento novo. Gostei da matéria sobre "Milton Santos, cientista negro, latino-americano". Vi pelo texto que não conhecia absolutamente nada do professor Milton Santos. Eu só sabia que ele era um dos maiores geógrafos do país. Não sabia que ele era natural da Bahia, descendente de escravos emancipados. Formado em Direito e Doutor em Geografia pela Universidade de Estrasburgo, França. Na ditadura civil-militar de 1964, foi demitido da Universidade Federal da Bahia, onde lecionava, foi preso por 60 dias e se exilou por muito anos. O texto me deu muito orgulho de saber quem foi Milton Santos.

Também li uma matéria grande sobre "Ludwig Feuerbach, filósofo da libertação". Gostei muito da matéria. O filósofo foi referência para Marx e Engels; foi aluno de Hegel e depois se tornou um crítico dele. Em sua obra "Reflexões sobre a morte e a imortalidade", de 1830, ele se opõe à crença na imortalidade e rompe com o cristianismo. Sua principal obra "A essência do cristianismo" (1841) afirmou que Deus seria a projeção das principais qualidades humanas. Mas "Ao se projetar em Deus, porém, o homem não se reconhece mais nele. Deus é encarado como um ser externo, independente do homem e com vida própria. Embora Feuerbach não utilize este termo, ele opera aqui com o conceito hegeliano de alienação (Entfremdung), que também seria apropriado por Marx no contexto de sua crítica ao capitalismo...". Vejam quanta coisa interessante se conhece ao ler, ao estudar materiais que temos em casa.

Enfim, enquanto estamos vivos, temos que buscar ser melhores que antes. Melhores para nós mesmos, melhores para os outros, melhores para o entorno social ao qual vivemos.

William


Fonte da citação: A VERDADE, edição de 05 de agosto a 05 de setembro de 2019, nº 219, ano 19.

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

À la Benjamin Button... (2)




Refeição Cultural

Olhar para trás...

Quando criei meu perfil na rede social que viria a ser uma das maiores do mundo e que passaria a ser uma ferramenta de ódio global e manipulação de centenas de milhões de pessoas, inclusive através de mentiras em escala nunca vista na história da humanidade, eu criei o perfil pensando em me aproximar das pessoas; acredito que boa parte dos usuários de redes sociais pensou de forma semelhante: encontrar pessoas, compartilhar as coisas da vida, passatempo e distração e atividades humanas do tipo.

Hoje não temos ilusão alguma. As poucas redes sociais do mundo e seus poucos donos estão destruindo os seres humanos. Não aproximaram as pessoas, afastaram pessoas, desfizeram famílias e amizades. As sociedades permitiram que poucas pessoas detivessem poder demais num mundo com 7 bilhões de pessoas. Poucas pessoas detêm quase todo o patrimônio humano; poucas pessoas têm poder de vida e morte sobre os próprios humanos, fauna e flora, água, terras, alimento; poucas pessoas estão estragando a vida do planeta Terra, que até o momento a ciência afirma ser o único no universo com vida.

Se o tempo andasse para trás, será que faríamos as coisas diferentes? Se pudéssemos voltar no tempo, será que as coisas teriam sido melhores para a maioria dos humanos? Dificilmente. As coisas são como são, a natureza e as coisas simplesmente são. Se não fosse como são, seriam de outra forma e pode ser que fossem melhores para alguns seres e piores para outros seres. Mas não vou me enveredar por esses senões. Não vem ao caso.

Ao rever o filme O curioso caso de Benjamin Button (2008) fiquei pensando a respeito da estória. Aliás, assisti ao filme novamente porque já estava pensando nele. Acho que o bolsonarismo faz a gente querer voltar no tempo e encontrar uma forma de evitar que essa desgraça aconteça, e olha que o bolsonarismo é anterior à pandemia de Covid-19, então não serve de desculpa dizer que o mundo estragou por causa da pandemia, porque estragaram o meu país, o meu mundo, muito antes da pandemia do novo coronavírus.

Eu não estou sofrendo por mim, juro. Estou sofrendo pelos jovens que tiveram seu presente e futuro estragados por essa desgraça de golpe de Estado que fizeram no Brasil para interromper o processo de avanços para o povo miserável, processo que era tocado através da política e liderado pelo Partido dos Trabalhadores, partido com seus defeitos, mas respeitador do processo democrático. E os avanços para o povo ocorriam sob um regime de paz, temos que destacar isso. Será que eu poderia ter feito algo a mais para evitar essa desgraça em nosso país? Em nosso mundo? Onde errei? Onde erramos? É duro! Estou vivo e por isso me questiono.

Na rede social que usa meus dados para manipular o mundo publiquei postagens em agosto sobre a leitura de Hannah Arendt e sua tese da banalidade do mal, tese desenvolvida ao presenciar o julgamento do nazista Adolf Eichmann no início dos anos sessenta. Publiquei lamentos também, algo muito comum em redes sociais, algo captado pelos algoritmos da rede e utilizados contra nós mesmos e contra nossa gente e nosso lugar de viver. É um dilema o que vivemos hoje, porque a sociedade humana se moldou à tecnologia de comunicação disponível e não basta decidir apertar um botão e dizer "tô fora disso" porque o mundo é isso. Não temos que sair do mundo.

Chega por enquanto. Vamos dormir pois já são duas horas da manhã. A vida segue e a gente insiste em viver e pensar, a gente insiste em não abandonar nosso cérebro e nossa inteligência. A razão existe para ser utilizada. Seguirei pensando sobre tudo isso que estou refletindo e que está incomodando o viver.

William

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

091019 - Diário e reflexões (Fluxo de pensamento)



Meu fígado, num momento
de extremo estresse...

Refeição Cultural

E o tempo passa. Passa a cada segundo. E não volta mais. O coração batendo do jeito que pode. Não sabemos se as artérias e veias estão nos seus perfeitos estados de dutos que transportam as matérias necessárias a nossa vida a todos os pontos do corpo que alimentam: células das mais diversas funções. Ter estudado por quase dois anos as matérias teóricas e práticas das áreas biológicas de um curso de graduação de Educação Física foi algo revelador a respeito da natureza humana para este ser animal que reflete neste instante. Muito do que sou foi forjado naquele período de experiência prática da vivência diária. Quando as aulas começaram, eu não me lembrava de absolutamente nada dos velhos estudos de ciências do colegial. Já estava com vinte e sete anos e trabalhava como bancário. Havia me formado em Ciências Contábeis. Ao ouvir uma aula sobre célula fiquei perdido. Mas o ser humano é capaz de fazeres espetaculares. Qualquer ser humano. Eu busquei em casa um livro antigo daqueles de biologia para o 2º grau e li as centenas de páginas como se fosse um livro de ficção científica, um romance literário. Em poucos dias, eu já estava acompanhando as aulas no mesmo nível ou melhor um pouco em relação aos meus colegas de classe, a maioria na faixa etária dos vinte anos. Mitocôndrias, núcleo da célula, ribossomos, lisossomos e elementos do tipo já não eram bichos estranhos para mim. Depois fui conhecer o corpo humano, aprender de verdade sobre a vida de um ser animal humano. Foi algo modificador do que eu era até aquele instante. Eu me lembro da primeira vez que entramos no laboratório de anatomia. O professor fez um discurso inicial para nós, e havia um cadáver em cima de uma mesa. Estava coberto com um plástico e não dava para vê-lo. O professor nos disse que teríamos que ter muito respeito pelo corpo que ali estava. Aquele corpo havia sido uma pessoa que viveu como qualquer um de nós e que era necessário muito respeito ao estudarmos nele para conhecer o corpo humano. O professor retirou o plástico e nos deixou à vontade durante aquela primeira aula prática para tocarmos o corpo, para nos acostumarmos com aquele ambiente onde passaríamos o ano estudando anatomia humana. Quando eu olho para trás, acho que aqueles momentos foram marcantes para mim em relação a me modificar como ser humano. Eu não fazia parte ainda do movimento sindical de forma orgânica e nas aulas de Educação Física comecei a me humanizar mais que antes daquela experiência. Eu era muito duro, muito rude, como a vida havia me feito. Quanto tempo! Já se passaram mais de duas décadas. Diversas mudanças de rotas fizeram parte da minha jornada. Diversas mudanças de rotas fizeram parte da jornada do Brasil e dos brasileiros. Diversas mudanças de rotas estão a caminho de minha vida e da vida do país e do povo deste país. E isso tudo não é nada para a grandeza do planeta que habitamos, para a grandeza do tempo, para a grandeza do Universo. Tudo isso é um nada. Mas eu estou aqui. Ainda estou aqui. O sangue circula nas minhas artérias e veias. É provável que esteja mais espesso. Não sei como andam minhas células, o número de mitocôndrias nelas. Meu coração bate umas sessenta e cinco vezes por minuto. A gente diz que o coração está triste, mas na verdade esse sentimento vem de outros órgãos. Mas também é verdade que esse e outros sentimentos afetam o bater do coração e as condições das artérias e veias que transportam os materiais necessários ao funcionamento do corpo que nos mantém como seres vivos. Essa reflexão foi um pouco parecida com o fluxo de pensamento que alguns escritores diferenciados produzem com seus personagens em obras fantásticas de ficção. James Joyce fez isso em Ulisses (1922), quando Molly Bloom, a esposa de Leopold Bloom, colocou-se a pensar por quase cinquenta páginas em algo nunca visto numa obra literária. Agora estou lendo o mesmo procedimento noutra obra de um autor também diferenciado, Roberto Bolaño. Lá se vão mais de cinquenta páginas de fluxo de pensamento de um personagem na obra Nocturno de Chile (2000). Sebastián Urrutia Lacroix está refletindo sem parar, buscando lembranças e explicações nos cantos da memória ("rebuscaré en el rincón de los recuerdos aquellos actos que me justifican..."). Enfim, o sangue circula, ainda que mais espesso, circula porque o coração bate, ainda que mais triste. Estou vivo! E aprendendo ainda... quiçá buscando justificativas nos rincões da memória...

William

domingo, 22 de setembro de 2019

220919 - Diário e reflexões


A sombra da resiliência.

Post Scriptum, a título de epigrama 
(em 23/9/19, às 12h47)

"Passagem da noite

(...)
Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!"

(A rosa do povo, 1945, Carlos Drummond de Andrade)


Preciso mudar alguma coisa na minha vida. Hoje. Amanhã. Depois de amanhã. Vejo as pessoas queridas com grandes sofrimentos. Tenho que estar pronto para suportar todas as tristezas do mundo. Depressões diversas tomam conta da psique das pessoas que estimo e que me dão sentido para viver. Eu próprio convivi com os altos e baixos de algum tipo de depressão ao longo de décadas. Não penso mais em suicídio há muito tempo, desde que me engajei em projetos pessoais e coletivos de existência. Sobrevivi. Mesmo a tristeza nunca tendo me abandonado, segui realizando coisas. Acredito que valeu a pena ter sobrevivido até aqui porque não fiz mal intencional a ninguém. Quando magoei pessoas foi em meus momentos de fúria. E vivo, participei de ações coletivas que contribuíram para a vida de várias gentes, ainda que isso não seja sequer percebido pelas pessoas da classe trabalhadora onde atuei. E vivo, busquei resgatar de alguma forma os danos e mágoas que causei a pessoas em momentos de fúria. Tudo muda o tempo todo. Mudança é o instante que estamos, é o instante que vem. Se não participei do exame de faixa hoje é porque uma lesão mudou a minha agenda para o domingo que termina. Se não corro há vários dias é porque faço outro esporte que me lesionou o pé e me impediu de seguir correndo diariamente para baixar a pressão arterial que mudou por causa de vários fatores nos últimos tempos, incluindo desleixo alimentar, mudanças no corpo que envelhece e caminha para o seu fim em alguns dias, meses, anos, dezenas de anos. Tudo muda a todo instante. Se estou lendo diversos textos obrigatórios de graduação em Letras é porque a Universidade me aceitou de volta. Se não estou lendo os clássicos que gostaria é porque os textos obrigatórios dominam o meu tempo de leitura. Fazer o que? Tudo é mudança na vida, até daquilo que planejamos. Num dia você acorda e vai até a Universidade e faz um pedido e é aceito e tudo muda. Ontem, o Brasil era soberano, pesquisas apontavam o povo feliz, os governantes pensavam e reverberavam agendas de paz, de amor, de solidariedade. Distribuía-se renda. Mudou. Mudou-se tudo por golpe, envenenaram o povo com mentiras, com peçonha, com manipulação. Hoje, a agenda é ódio, é arma bala assassinato. Educação e ciência são inimigas dos homens do ódio no poder. Ironia do destino: tudo em nome de Deus: mata-se índio, criança, florestas, negros, gays, pobres; pessoas que defendem partilhar riquezas e direitos são inimigas a serem caçadas por seguidores de Deus. Amém? Amém o caralho! É preciso derrubar do poder esses fascistas desgraçados que roubaram a alegria, a esperança e o futuro dos brasileiros. Tenho que mudar algo hoje. Amanhã. Depois de amanhã. Não posso cair. Tenho que respirar, comer, acordar e deitar. Não sei como ajudar os meus entes queridos que estão sofrendo do coração, da psique, da alma. As pessoas sensíveis ao caos estão sofrendo, desiludidas com o amanhã que lhes foi roubado. Se pudesse, daria esperança a elas. Mas isso é experiência muito pessoal. Tenho que mudar. Alguma coisa é preciso mudar para seguir. Sobreviver é preciso porque amamos pessoas. Não sei, mas algo precisa mudar. Eu desejo que cada pessoa que sofre neste momento com toda a maldade e destruição que lhe tenham nublado o presente e o futuro, que resista, que respire, coma, acorde e deite. O amanhã é sempre um começar e o fim do dia pode trazer algo de mudança. Eu vi isso acontecer por décadas, vi porque sobrevivi ao tempo de cinquenta anos nesse mundo perigoso de se viver. Filho, eu te amo! Desejo a você amanhãs de alegrias, amanhãs de descobertas, dias de resistência, como seus personagens favoritos dizem. Mãezinha, siga resistente, siga agarrada à vida. Pai, resista a essas dores que lhe abatem a paciência e a tolerância. Encontre a cordialidade em meio a essas dores, mesmo sendo tão difícil. Todos estamos com muita raiva do mundo, de tudo. Resistamos todos em meio a tanta tristeza, em meio a tanta mudança em tão pouco tempo. Eu vou mudar algo. Mas não vou perder minha essência que evoluiu com a experiência da vivência. Temos que ser bons e viver para o bem. 

domingo, 25 de março de 2018

250318 - Diário e reflexões - O que o futuro me reserva?



Refeição Cultural

Domingo ensolarado em Brasília. Estou sozinho há semanas, longe da família. Estou aqui pensando na vida. Já li mais um pouco da história de Nelson Mandela, autobiografia de um grande líder do povo sul-africano. Ouvindo Pink Floyd, Metallica e outras bandas que gosto.

Estive envolvido nas últimas semanas na campanha das eleições da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, a Cassi, a maior autogestão em saúde do país. Coloquei meu nome à disposição para o processo democrático, juntamente com outras lideranças que compõem a nossa Chapa 1 Em Defesa da Cassi. As votações vão até quarta-feira, dia 28 de março, e o resultado sai após as 18 horas desse dia.

Estou terminando um mandato de quatro anos à frente da Diretoria de Saúde da entidade, e minha vida mudou completamente nesse período. Nunca me dediquei de forma tão intensa e integral ao longo de anos por uma causa como esta de defender os direitos em saúde dos associad@s e o modelo assistencial de Atenção Primária e Medicina de Família. 

Não que eu não me dedicasse com a mesma intensidade quando fui dirigente sindical eleito pelos trabalhadores, mas é que para ser o melhor representante que eu pudesse ser, sabia que teria que estudar e mergulhar nas questões técnicas da área, além de manter o punho firme que sempre tive para enfrentar patrões e capitalistas e seus representantes. A intensidade do esforço ao longo do mandato foi semelhante a tocar uma greve de 30 dias ininterruptamente por quatro anos. Minha luta foi de manhã, tarde, noite, madrugadas e finais de semana. Não poderia ser de outra forma.

O período foi de tantas mudanças que quando começamos o mandato o Brasíl não havia sofrido o golpe de Estado, as condições econômicas, políticas e sociais do país eram outras. O setor de saúde suplementar tinha mais de 52 milhões de usuários de planos de saúde. Hoje tem pouco mais de 47 milhões. Grandes do setor faliram, como a Unimed Paulistana, ou estão mal das pernas. As despesas com a compra de serviços de saúde no mercado quase cartelizado crescem cerca de 15% ao ano. As receitas dos planos de saúde não acompanham nem de perto essa conta de despesa operacional. Os patrões tentam repassar os custos somente aos trabalhadores beneficiários dos planos, tentam se ver livres dos aposentados (aqueles planos que ainda incluem aposentados), se aproveitam do desconhecimento técnico da área para estimular lugares comuns e informações equivocadas sobre a eficiência das entidades de saúde de autogestão.

No entanto, os associad@s da Cassi não perderam nenhum direito histórico em saúde. A Cassi não fez reduções de sua estrutura própria de atenção à saúde, o que seria um erro fatal, porque provamos que a estrutura própria de Atenção Primária e Medicina de Família faz mais com menos. Todo o mercado está tentando fazer o que a Cassi faz. A solução para usar melhor os recursos arrecadados pelo sistema de saúde Cassi é investir mais em promoção e prevenção, programas de saúde e monitoramento de populações assistidas ao longo do tempo. Desfizemos interpretações equivocadas e lugares comuns faladas sobre a Caixa de Assistência por total desconhecimento da área. Incomodamos bastante o outro lado da representação, a patronal.

Bom, minhas reflexões não são sobre o que fizemos pela Cassi e pelos associad@s. Estou aqui pensando no momento seguinte após o resultado das eleições. Estarei à frente da Diretoria de Saúde da Cassi no período mais desafiador de sua história ou não estarei.

Fico pensando em minha família, fico pensando em minha visão de mundo social mais justo e solidário, voltado para o povo brasileiro e não para uma pequena parcela de privilegiados (o 1% dono de tudo). Fico pensando em como aguentar tanta iniquidade, tanta injustiça contra o povo. A Cassi foi minha cachaça nestes últimos 4 anos. Não fiz outra coisa que lutar para defender a entidade e seus associados.

Amanhã cedo estarei junto aos associad@s nas bases fortalecendo a democracia na Cassi e estimulando tod@s a votarem porque a participação massiva vai fortalecer as negociações sobre o futuro da entidade e dos direitos dos trabalhadores associados.

Quinta-feira 29 verei minha família. Depois vem o feriado (ufa!). Depois vem a segunda-feira 2 de abril. E depois vêm os meses seguintes. Meu futuro será de lutas, isso eu sei, afinal de contas eu pertenço à classe trabalhadora. O que não faltam são frentes de lutas, a da Cassi que estamos preparados, e as diversas frentes de lutas por uma vida melhor das pessoas.

Boa semana a todas e todos.

William

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Poema - Saudades




Saudades de meu filho.
Saudades de meus pais.
Saudades de minha avó.
Saudades de minha tia.
Saudades de uma família.

Saudades do sindicalismo que vivi.
Saudades do país que ajudei a construir.
Saudades dos tempos de convívio estudantil.

Estou com saudades.

Não tenho saudades de minhas ignorâncias.
Não tenho saudades de minha alienação.
Não tenho saudades das ilusões.

Saudades é um sentimento.
Então vamos sentir.
E resistir.

A luta segue!

William

domingo, 4 de junho de 2017

Diário e reflexões - 040617 (Plantar o bem para além de nosso tempo)



Primeiro ipê que vi em 2017 aqui na Asa Sul DF.
A beleza da natureza no Plano Piloto nos encanta.

Refeição Cultural

Fim de semana em Brasília. Estou contente porque o filho está nos visitando e eu não o via há semanas. Saudades! Minha sobrinha também deu uma rápida passada por aqui no sábado.

Tenho pensado tanta coisa nos poucos minutos em que não estou quase como um autômato, como máquina de guerra no cumprimento de minhas tarefas na direção de uma entidade de saúde de autogestão dos trabalhadores do Banco do Brasil. Meu mandato exige uma vigilância quase que no ritmo de um front de batalha na defesa dos direitos dos associados e da própria entidade.

Em relação à minha paixão por leituras, tenho feito o que posso. No mês de maio, consegui ler dois livros e quase terminei outro de setecentas páginas. A leitura da obra Distraídos Venceremos (1987), de Paulo Leminski (ler AQUI), foi importante para oxigenar meu cérebro com poesia. A leitura de primeiro contato com a escritora Conceição Evaristo, Ponciá Vicêncio (2003), me encantou (ler AQUI). E o livrão que pretendo acabar neste mês é o de Hemingway - Por quem os sinos dobram (1940). Mas o desejo de leitura é tão maior que a capacidade de realização, que estamos sempre tristes por isso.

Em relação à prática de esportes e saúde, as coisas estão bem aquém do que deveriam. Apesar de considerar uma façanha ter corrido 9 vezes em maio, além de pedalar 3 vezes e caminhar 3 vezes no mês passado, minha saúde está bastante afetada pela minha carga de trabalho e pelo "estresse de front" ininterrupto que vivo. Tenho preocupação com o amanhã.

Finalizo minhas reflexões pensando muito num programa que vi nesta madrugada sobre a vida de Sebastião Salgado, um documentário feito por seu filho, em parceria com o cineasta alemão Wim Wenders - O sal da Terra (2014). Ao ver os trabalhos realizados pelo fotógrafo brasileiro, fiquei muito impactado, olhos cheios d'água, fiquei cabisbaixo. Fiquei pensando nas contribuições que este ser humano já deixou para a humanidade e para o Planeta.


Um instante em Brasília. Cada dia um céu, uma luz solar.

E pensar que tão pouca gente no mundo assiste a um documentário deste, se comparado ao arsenal de merdas produzido pelos empresários dominadores dos meios de comunicação, merdas cujo efeito é emburrecer os seres humanos, desviar a atenção deles daquilo que realmente importaria em suas vidas, porque os meios de comunicação públicos nas mãos de empresários são instrumentos de manipulação de massa, de pregação de suas ideologias de classe dominante.

Sebastião Salgado relata que voltou tão destruído da experiência de ir até Ruanda e ver a tragédia da guerra civil e extermínio entre Rutus e Tutsis, ou de ver a tragédia nos Bálcãs, que ficou com sua alma doente. Perdido. Conseguiu superar com muito engajamento em seu trabalho de semear uma floresta e fotografar a natureza e os animais para presentear a nós todos com seus trabalhos.

Fiquei pensando no ódio plantado no Brasil por causa de derrotas políticas seguidas de um segmento social que sempre mandou em tudo aqui, a elite branca escravagista da Casa Grande secular. O Brasil foi destruído pelo conluio do candidato derrotado do PSDB, Aécio Neves, com toda a quadrilha de políticos e empresários que lhe apoiavam, como os empresários dos meios de comunicação (PIG). Tanta destruição por não aceitarem a decisão do voto popular nas eleições presidenciais de 2014. Que absurdo isso!

O ódio e o envenenamento do povo brasileiro pode nos levar a uma guerra civil e de extermínio. E mesmo que hoje começássemos a reverter o quadro de ódio e intolerância para um novo momento de fraternidade, solidariedade e bem querer reciproco, levaríamos décadas de construção. Mas nem esperança tenho neste momento, porque o golpe segue, o sangue envenenou e quase todo mundo se odeia ou não se tolera.

Estou ciente de minha condição de cidadão do mundo, e atuo em função de meus compromissos políticos com a classe social a qual pertenço. O mundo passa por um momento triste. Enfim, é fazer o que tem que ser feito. Sem esmorecer nem desistir.

William


Post Scriptum:

Foi tão legal receber um e-mail de um leitor do Blog perguntando sobre minhas leituras de José J. Veiga, porque ele não viu mais as postagens das leituras que estava fazendo ano passado e que ele sabe que meu desejo é ler toda a obra do autor goiano. Essa relação com as pessoas do nosso mundo é o que mais nos dá ânimo de seguir escrevendo, por mais dificuldades que tenhamos. Gabriel, obrigado pelo contato. Consegui te responder hoje. Abraços pra ti.