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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019
Releitura: O último leitor (2005) - Ricardo Piglia
Refeição Cultural
"Um território devastado no qual alguém reconstrói o mundo perdido a partir da leitura de um livro. Melhor seria dizer: a crença no que está escrito num livro permite manter e reconstruir o real perdido..." (Piglia, na página 145 de O último leitor)
Li este livro do professor e escritor argentino Ricardo Piglia em 2008. É um livro de reflexões sobre leitores e leituras. Sobre atos de leituras. O autor faleceu no início de 2017 aos 75 anos de idade.
Ao reler dias atrás uma postagem minha sobre um conto de Piglia - "A ilha" -, texto contido em seu livro "Cuentos Morales" (1995), acabei pegando em minha estante "O último leitor" (2005), livro muito reflexivo.
Nesta obra, Piglia nos leva a pensar sobre o mundo dos escritores e, consequentemente, nos leva ao mundo dos leitores, que complementam e dão sentido à produção literária, que nada seria sem o leitor.
Piglia aborda os atos de leitura de nada mais nada menos Franz Kafka, Jorge Luis Borges, Ernesto Che Guevara, James Joyce, Liev Tolstói, dentre outros. Cada capítulo é uma viagem de conhecimento para nós leitores.
Não vou falar sobre cada um dos capítulos do livro, pois a intenção da postagem é despertar nos leitores do blog o interesse nas reflexões que Piglia registrou naquele que ele afirma ser seu livro mais pessoal, como leitor, inclusive.
Neste leitor que vos fala, a releitura do livro uma década depois da primeira leitura reacendeu algumas preocupações e sentimentos que trago comigo desde o fim da adolescência: meu tempo está passando e sigo sem ter lido grandes clássicos da literatura mundial. É desesperadora a tomada de consciência disso.
Quando Piglia aborda James Joyce, fico leve e transito bem pelo capítulo, afinal li "Ulisses" (1922) e "Dublinenses" (1914). Por outro lado, quando Piglia fala de Borges e de Raymond Chandler, me sinto mal, porque não conheço suas obras.
Dois livros centrais nos ensaios de Piglia e de quase toda crítica literária que conhecemos, eu nunca acabei de ler, porque sabemos o final e isso dificulta muito a minha leitura de algum clássico: "Madame Bovary" (1857), de Flaubert, e "Anna Kariênina" (1877), de Tolstói. É um absurdo eu não ter terminado a leitura, mas não terminei.
Me lembro da birra que tive para terminar a leitura do clássico de Guimarães Rosa - "Grande Sertão: veredas" (1956) - porque quando adolescente tive acesso ao segredo de Reinaldo (Diadorim), segredo que o autor esconde dos leitores até as últimas páginas do relato do jagunço Riobaldo Tatarana.
Vejam abaixo um exemplo das questões abordadas por Piglia num dos capítulos do livro:
ANNA KARIÊNINA E TOLSTÓI
No capítulo "O lampião de Anna Kariênina", Piglia faz uma bela análise e reflexão sobre a leitura de literatura dentro da própria literatura. Grandes personagens da história literária nos são apresentadas como leitoras nos enredos de romances.
A personagem Anna lê romances ingleses no livro de Tolstói, publicado em 1877. Da mesma forma Emma Bovary é leitora de romances no clássico "Madame Bovary", de Flaubert, publicado em 1857. Piglia não faz referência a autores brasileiros, mas quem nunca leu em Machado de Assis ou José de Alencar personagens femininas que são leitoras incansáveis de romances?
Outra característica deste capítulo é pontuar a importância da luz e da forma de iluminação possível para os leitores de romances nos séculos passados - velas, lampiões, lamparinas, luzes fugazes em geral. Legal a ideia de uma luz que ilumina o romance assim como uma história de ficção que pode iluminar a nossa vida.
Neste sentido de busca existencial, Piglia cita Sartre, que diz: "Por que se leem romances? Falta alguma coisa na vida da pessoa que lê, e é isso que ela procura no livro. O sentido, evidentemente, é o sentido de sua vida, dessa vida que para todo mundo é torta, mal vivida, explorada, alienada, enganada, mistificada, mas acerca da qual, ao mesmo tempo, aquele que a vive sabe muito bem que poderia ser outra coisa.".
Não precisamos generalizar a tese de Sartre, pois muitos leitores leem por distração e simples prazer na leitura, mas que parte dos leitores leem com um sentido muito mais profundo, isso é fato.
Outro ponto muito atual sobre leitoras de romances é a questão que Piglia nos traz sobre como eram vistas as mulheres leitoras durante muito tempo e que reflete sobre o papel e o lugar das mulheres na sociedade machista:
"De alguma maneira, a feminização do leitor de romances confirma os preconceitos dominantes sobre o papel da mulher e da inteligência feminina. Os romances eram considerados adequados para as mulheres, vistas como criaturas de capacidade intelectual limitada, imaginativas, frívolas e emotivas. Os romances, circunscritos ao reino da imaginação, eram o oposto da leitura prática e instrutiva.".
É mole! Que sacanagem a sociedade machista passar séculos tratando as mulheres dessa forma.
POR FIM
O livro "O último leitor" é um livro de leitura para sempre, ou seja, para a vida inteira para aquele ou aquela que o tem na estante.
É inevitável ler um capítulo sobre Kafka e querer ler ou reler tudo que você tem dele e ir atrás do que falta das obras publicadas por ele ou postumamente.
É impossível não ficar martirizado com o peso na consciência de leitor por não ter lido clássicos como "Robinson Crusoé" (1719), de Daniel Defoe, ou "As viagens de Gulliver" (1726), de Jonathan Swift, ou ainda "Moby Dick" (1851), de Herman Melville. Sim, amig@s, eu ainda não li estes três livros!
Percebem como é difícil pegar para ler um livro de economia, história e política, como li recentemente "A desordem mundial" (2016), de Luiz Alberto Moniz Bandeira, um catatau de 600 páginas (ler sobre AQUI), e não ficar com certo remorso caso a maioria dos livros que eu optar por ler não sejam os clássicos que me faltam? Posso morrer sem ter lido grandes feitos literários da humanidade.
Enfim, sigamos adiante com as leituras, com os atos de leitura e como últimos leitores que estão sempre em busca das descobertas e, quem sabe, das respostas para as perguntas que temos ou que não sabemos que temos, apesar de elas estarem em nós.
William
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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019
Leitura: Um artista da fome, seguido de Na colônia penal (1924) - Franz Kafka
Refeição Cultural - Mundo kafkiano
"Esta é a situação. O capitão me procurou há menos de uma hora, tomei o depoimento dele e no instante seguinte lavrei a sentença. Tudo foi muito simples. Se eu o tivesse chamado para um interrogatório, só haveria confusão..." (Na colônia penal, 1919)
Ao ler sobre leitores e leituras, e atos de leitores, e atos de leituras, e consequentemente, atos de escritores leitores, cheguei a este pequeno livro de Franz Kafka, dado de presente a mim por minha esposa já faz alguns anos.
Estava lendo a respeito de leitores no livro do escritor argentino Ricardo Piglia - O último leitor (2005) - livro no qual ele dedica capítulos de reflexão a escritores e livros clássicos. Um dos capítulos é sobre Kafka - "Uma narrativa sobre Kafka" - e ao ler o ensaio de Piglia aprendemos tanto sobre o escritor tcheco que o desejo é sair lendo e relendo tudo o que temos dele ou sobre ele.
Do escritor já li duas obras - "O processo" e "A metamorfose" -, esta publicada em vida e aquela após sua morte precoce por tuberculose em 1924. Fuçando em minha estante, encontrei edições de outras obras de Kafka, ainda por serem lidas: "O castelo", "América" e esta coletânea com 4 contos "Um artista da fome", junto com "Na colônia penal".
Fiz uma postagem sobre minha 3ª leitura do livro "A metamorfose", realizada em março de 2016. Aos interessados é só clicar AQUI. Sobre o livro "O processo", que peguei para reler em 2015, fiz postagens naquele ano, associadas ao que estava acontecendo no Brasil, mas não terminei a releitura ainda.
Amig@s, como é interessante ler a respeito do autor e de seu contexto para complementar a nossa leitura crítica de suas obras!
A leitura dos textos do livro "Um artista da fome, seguido de Na colônia penal & outras histórias" foi de boa compreensão porque já entrei na leitura com algum conhecimento prévio sobre eles e sobre o autor.
As estórias "Primeira dor", "Uma pequena mulher", "Um artista da fome", "Josefine, a cantora ou O povo dos ratos" e "Na colônia penal" são de leitura difícil, na minha opinião. O da ratinha cantora, por exemplo, foi um desafio, pois em determinado momento senti que não estava entendendo nada. Fiz uma pesquisa na rede mundial e encontrei um trabalho acadêmico sobre esse conto e foi muito legal a análise feita pelo autor do trabalho.
PRIMEIRA DOR
"Um trapezista - sabe-se que essa arte praticada nas alturas da cúpula dos grandes teatros de variedades é uma das mais difíceis ao alcance do homem - havia, a princípio apenas como um esforço em busca de aperfeiçoamento, mais tarde também por um costume tirânico, ordenado sua vida de modo que, enquanto trabalhasse em uma única temporada, pudesse passar dia e noite em cima do trapézio..."
A ideia de isolamento, de viver numa caverna, para poder escrever e produzir ininterruptamente, está clara neste personagem de Kafka. Sobre essa questão, foi muito interessante a leitura que já havia feito de Piglia sobre o autor tcheco.
UMA PEQUENA MULHER
"(...) Essa pequena mulher está muito insatisfeita comigo, tem sempre algo a criticar em mim, sempre uma injustiça a me imputar, irrito-a por tudo e por nada; se alguém pudesse separar a vida em suas menores partes e analisar cada uma das partezinhas isoladas, sem dúvida cada partezinha da minha vida seria motivo de irritação para ela. Muitas vezes perguntei-me por que a irrito tanto; pode ser que tudo em mim contrarie seu senso estético, seu sentimento de justiça, seus hábitos, suas tradições, suas esperanças, existem naturezas assim, contrárias, mas por que ela sofre tanto com isso? Não existe relação nenhuma entre nós que pudesse levá-la a sofrer por minha causa. Bastaria ela decidir me encarar como um estranho total, o que afinal sou, e eu sequer me oporia a essa decisão, pelo contrário, recebê-la-ia de braços abertos, bastaria ela decidir esquecer minha existência, que eu jamais impus nem seria capaz de impor a ela - e todo o sofrimento desapareceria..."
Ao ler esse excerto, já é possível avaliar como Kafka aborda temáticas de difícil manuseio como a questão da mulher. Na minha leitura de século 21, por exemplo, não gostei do termo usado por ele no conto (se a tradução estiver fiel) ao se referir à mulher como "mulherzinha". Mas literatura tem dessas coisas.
UM ARTISTA DA FOME
"Nas últimas décadas o interesse pelos artistas da fome diminuiu bastante. Enquanto antes era um bom negócio organizar grandes apresentações do tipo por conta própria, hoje em dia é totalmente impossível. Os tempos eram outros. Naquela época a cidade inteira se ocupava com o artista da fome; a cada dia de jejum o público aumentava; todos queriam ver o artista da fome pelo menos uma vez por dia; nos últimos dias havia quem passasse o dia inteiro sentado diante da pequena jaula; à noite também havia visitação, à luz de tochas, para aumentar o efeito; nos dias bonitos a jaula era transportada ao ar livre, e então eram principalmente às crianças que exibiam o artista da fome; enquanto para os adultos ele não era mais do que um passatempo, com o qual se entretinham porque era moda, as crianças olhavam-no impressionadas, de boca aberta, com as mãos dadas para vencer o temor, enquanto o homem, pálido, vestindo um abrigo escuro, com costelas muito protuberantes, desprezando até mesmo uma cadeira, ficava sentado na palha, com um aceno polido de cabeça, respondia perguntas com um sorriso forçado e estendia o braço por entre as barras, para que pudessem sentir com as mãos sua magreza, quando então ele se recolhia uma vez mais em si mesmo, não se preocupava com mais ninguém, nem mesmo com as graves badaladas do relógio, que era o único móvel no interior da jaula, mas apenas olhava para o vazio com os olhos semicerrados e de vez em quando bebericava um gole d'água para umedecer os lábios."
Esse é o longo primeiro parágrafo do conto. A cena é bem forte. Chamativa.
"O artista poderia jejuar tão bem quanto quisesse, e era o que fazia, mas nada mais poderia salvá-lo; passavam por ele sem ao menos notá-lo. Tente explicar a alguém a arte da fome! Não há como torná-la compreensível a alguém que não a sente..."
Sentiram a pegada do conto? Muitos críticos apontam esse conto como um dos contos mais autobiográficos de Kafka.
Além disso, é um conto bastante metafórico.
JOSEFINE, A CANTORA OU O POVO DOS RATOS
"Nossa cantora chama-se Josefine. Quem nunca a ouviu não conhece a força do canto. Não existe quem não fique deslumbrado com o canto dela, um fato ainda mais admirável porque, em geral, nossa espécie não aprecia a música. A música que mais apreciamos é a paz silenciosa; nossa vida é dura, por mais que tentemos deixar de lado as preocupações do dia a dia, não conseguimos elevar-nos a coisas tão afastadas do nosso cotidiano como a música..."
Esse é outro conto bastante metafórico e hermético, na minha opinião. Após a leitura, fiquei com dúvidas de entendimento. Ao ler um trabalho de interpretação sobre o conto, fiquei com uma compreensão melhor. Terei que reler o conto mais vezes.
NA COLÔNIA PENAL
"O explorador queria fazer várias perguntas, mas ao ver o homem perguntou apenas: 'Ele conhece a sentença?' 'Não', disse o oficial e tentou dar prosseguimento à explicação, mas o explorador interrompeu-o: 'Ele não conhece a própria sentença?' 'Não', disse mais uma vez o oficial, deteve-se por um instante, como se exigisse do explorador uma fundamentação mais precisa para a pergunta, e então disse: 'Seria inútil comunicá-la. A sentença é aplicada ao corpo' (...) 'Mas ele sabe ao menos que foi condenado?' 'Também não', disse o oficial e abriu um sorriso ao explorador, como se esperasse dele mais alguns questionamentos estranhos. 'Ora', disse o explorador e passou a mão pela testa, 'então este homem também não sabe como sua defesa foi recebida?' 'Ele não teve nenhuma oportunidade de apresentar uma defesa', disse o oficial e desviou o olhar, como se falasse consigo próprio e não quisesse constranger o explorador com explicações sobre coisas tão evidentes. 'Mas ele precisa de oportunidade para apresentar uma defesa', disse o explorador e levantou-se da cadeira..."
Essa é a condição dos condenados na novela de Kafka. Os condenados não sabem que estão condenados, não sabem a sentença e não têm a menor chance sequer de se defenderem. Já viram algo parecido no mundo real? Algum processo entre o Estado e o cidadão, onde o cidadão não tem a menor chance de se defender do sistema?
O melhor vem agora, o juiz e sua postura e seu poder ilimitado, parecendo um caso recente na república bananeira em que vivemos.
"A coisa funciona do seguinte modo. Fui nomeado juiz aqui na colônia penal. Apesar da minha pouca idade. Porque estive ao lado do antigo comandante em todas as ocorrências criminais e sou quem melhor conhece o aparelho. O princípio que guia as minhas decisões é: a culpa é sempre indubitável. Outras cortes podem não se pautar por esse princípio, porque são compostas por muitos membros e também porque têm cortes mais altas acima de si. Não é o que acontece aqui, ou ao menos não era o que acontecia com o antigo comandante..."
Amig@s leitores, apesar da semelhança com fatos reais, isso não é uma descrição do dia a dia do Brasil com seu novo regime de lawfare, é um texto ficcional publicado em 1919 por Kafka.
A novela é chocante, é o cenário típico e constante nos textos de Franz Kafka. Um mundo angustiante, um mundo distópico, com processos absurdos e totalitários contra os frágeis humanos frente a sistemas opressores e aniquiladores.
Enfim, leitura feita e cinco novas estórias de Kafka na bagagem. Recomendo o livro aos leitores e leitoras.
William
quinta-feira, 10 de abril de 2008
La Isla - Ricardo Piglia (leituras, reflexões)
(os sublinhados e as observações no texto são do blog)
1
Añoramos* un lenguaje más primitivo que el nuestro. Los antepasados hablan de una época donde las palabras se extendían con la serenidad de la llanura. Era posible seguir el rumbo y vagar durante horas sin perder el sentido porque el lenguaje no se bifurcaba y se expandía y se ramificaba hasta convertirse en este río donde están todos los cauces y donde nadie puede vivir porque nadie tiene patria. El insomnio es la gran enfermedad de la nación. El rumor de las voces es continuo y sus cambios suenan noche y día. Parece una turbina que marcha con el alma de los muertos dice el viejo Berenson. No hay lamentos, sólo mutaciones interminables y significaciones perdidas. Virajes microscópicos en el corazón de las palabras. La memoria está vacía porque uno olvida siempre la lengua en la que ha fijado los recuerdos.
(*Añorar: ter/sentir saudades, sentir falta)
2
Cuando decimos que el lenguaje es inestable no estamos hablando de una conciencia de esa modificación. Es necesario salir de allá para percibir el cambio. Si uno está adentro cree que el lenguaje es siempre el mismo, una especie de organismo vivo que sufre metamorfosis periódicas. La imagen más divulgada es la de un pájaro blanco que en el vuelo va cambiando de color. El aletear profundo del pájaro en la transparencia del aire da una falsa ilusión de unidad en el pasaje de los tonos. El dicho dice que el pájaro vuela interminablemente y en círculos porque le han vaciado el ojo izquierdo y busca ver la otra mitad del mundo. Por eso nunca va a poder aterrizar, dice el viejo Berenson y se ríe con la jarra de cerveza otra vez contra los bigotes, porque no encuentra un pedazo de tierra donde apoyar la pata derecha. Tuerto habría de ser el tero dijo después, para perderse en el aire y venir a parar a esta isla de mierda. No empieces, Shem, le dice Teynneson tratando de hacerse oír en el barullo del bar, entre los acordes del piano y las voces de los que cantan Three quarks for Muster Mark!, todavía tenemos que ir al entierro de Pat Duncan y no quiero tener que llevarte en carretilla. Ese es el sentido del diálogo, que se repite como un chiste privado cada vez que están por irse, pero no siempre usan el mismo lenguaje. Se sostienen del brazo y cruzan muy erguidos el salón para salir. La escena se repite, pero sin saberlo hablan del pájaro tuerto y del entierro de Pat a veces en ruso, a veces en un francés del siglo XVIII. Dicen lo que quieren y lo vuelven a decir pero ni sueñan que a lo largo de los años han usado cerca de siete lenguas para reírse del mismo chiste. Así son las cosas en la isla.3
“El lenguaje se transforma según ciclos discontinuos que reproducen la mayoría de los idiomas conocidos (registra Turnbull). Los habitantes hablan y comprenden instantáneamente la nueva lengua pero olvidan la anterior. Los idiomas que se han podido identificar son el inglés, el alemán, el danés, el español, el noruego, el italiano, el francés, el griego, el sánscrito, el gaélico, el latín, el sajón, el ruso, el flamenco, el polaco, el esloveno, el húngaro. Dos de las lenguas usadas son desconocidas. Pasan de una a otra pero no las pueden concebir como idiomas distintos sino como etapas sucesivas de una lengua única.” Los ritmos son variables, a veces un idioma permanece semanas, a veces un día. Se recuerda el caso de una lengua que se mantuvo quieta durante dos años. Después se sucedieron quince modificaciones en doce días. Habíamos olvidado las letras de todas las canciones, dijo Berenson, pero no la melodía y no hubo modo de cantar una canción. Se veía a la gente en los pubs silbando a coro como guardias escoceses, todos borrachos y alegres, marcando el ritmo con las jarras de cerveza mientras buscaban en la memoria alguna letra que coincidiera con la música. La melodía persiste y es un aire que cruza la isla desde el principio de los tiempos pero de qué nos sirve la música si no podemos cantar, un sábado a la noche, en el bar de Humphery Chimden Earwicker cuando todos estamos borrachos y ya nos olvidamos de que el lunes hay que volver al trabajo.
4
En la isla se cree que los ancianos se encarnan al morir en los nietos, razón por la que no pueden encontrarse los dos vivos al mismo tiempo. Como ocurre a pesar de todo algunas veces, cuando un anciano se encuentra con su nieto, antes de poder hablar con él, debe darle una moneda. En esa teoría de las reencarnaciones se ha fundado la lingüística histórica. La lengua es como es porque acumula los residuos del pasado en cada generación y renueva el recuerdo de todas las lenguas muertas y de todas las lenguas perdidas y el que recibe esa herencia ya no puede olvidar el sentido que esas palabras tuvieron en los días de los antepasados. La explicación es simple pero no resuelve los problemas que plantea la realidad.
5
El carácter inestable del lenguaje define la vida en la isla. Nunca se sabe con qué palabras serán nombrados en el futuro los estados presentes. A veces llegan cartas escritas con signos que ya no se comprenden. A veces un hombre y una mujer son amantes apasionados en una lengua y en otra son hostiles y casi desconocidos. Grandes poetas dejan de serlo y se convierten en nada y en vida ven surgir otros clásicos (que también son olvidados). Todas las obras maestras duran lo que dura la lengua en la que fueron escritas. Sólo el silencio persiste, claro como el agua, siempre igual a sí mismo.
6
La vida del día empieza al amanecer y si ha habido luna hasta el alba los gritos de los jóvenes en la ladera pueden oírse ya antes de la aurora. Inquietos en la noche poblada de espíritus, se gritan unos a otros tratando de adivinar qué sucederá con el sol alto. La tradición dice que el lenguaje se modifica en las noches de luna llena pero ésa es una creencia desmentida por los hechos. La lingüística científica no acepta ninguna relación entre los fenómenos naturales como las mareas o los vientos y las mutaciones del lenguaje. Los hombres del pueblo siguen sin embargo acatando los viejos rituales y cada noche de luna esperan que llegue por fin la lengua de su madre.
7
En la isla no conocen la imagen de lo que está afuera y la categoría de extranjero no es estable. Piensan a la patria según la lengua. (“La nación es un concepto lingüístico.”) Los individuos pertenecen a la lengua que todos hablaban en el momento de nacer, pero ninguno sabe cuándo volverá a estar ahí. “Así surge en el mundo (le han dicho a Boas) algo que a todos se nos aparece en la infancia y donde todavía no ha estado nadie: la patria.” Definen el espacio en relación con el río Liffey que atraviesa la isla de norte a sur. Pero Liffey es también el nombre que designa al lenguaje y en el río Liffey están todos los ríos del mundo. El concepto de frontera es temporal y sus límites se conjugan como los tiempos de un verbo.
8
Nos encontramos en Edemberry Dubblenn DC, dijo el guía, la capital que combina tres ciudades. En el presente la ciudad cruza de Este a Oeste siguiendo la margen izquierda del Liffey por los barrios y los ghettos japoneses y antillanos, desde el nacimiento del río en Wiclow hasta Island Bridge, un poco más abajo de Chapelizod, donde sigue su curso. La ciudad próxima se va abriendo, como si estuviera construida en potencial, siempre futura, con calles de fierro y lámparas de luz solar y androides desactivados en los galpones de la Scotland Yard. Los edificios surgen de la niebla, sin forma fija, nítidos, cambiantes, casi exclusivamente poblados por mujeres y mutantes.
Del otro lado, hacia el Oeste, subiendo por la zona del puerto, está la ciudad vieja. Al mirar el mapa hay que tener en cuenta que la escala está construida a la velocidad media de un kilómetro y medio por hora de marcha. Un hombre sale de 7 Eccles Street a las ocho de la mañana y sube por Westland Row y a cada lado del empedrado están las acequias que llegan hasta la orilla del río por donde sube el canto de las lavanderas. El que avanza por la calle empinada hacia la taberna de Baerney Kiernam trata de no oír el canto y golpea con el bastón el enrejado de los sótanos. Cada vez que entra en una calle nueva las voces envejecen, las palabras antiguas están como grabadas en las paredes de los edificios en ruinas. La mutación ha ganado las formas exteriores de la realidad. “Lo que todavía no es define la arquitectura del mundo”, piensa el hombre y desciende a la playa que rodea la bahía. “Está ahí, en el borde del lenguaje, como la casa de la infancia en la memoria.”
9
La lingüística es la ciencia más desarrollada en la isla. Durante generaciones los investigadores han trabajado en el proyecto de fijar un diccionario que incorpore las variantes futuras de las palabras conocidas. Necesitan fijar un léxico bilingüe que permita comparar una lengua con otra. Imagínense (dice el informe de Boas) a un viajero inglés que llega a un país extranjero y en el hall de la estación de ferrocarril, perdido en medio de una multitud desconocida, se detiene a revisar un pequeño diccionario de bolsillo buscando una expresión correcta. Pero la traducción es imposible porque sólo el uso define el sentido y en la isla conocen siempre una lengua por vez. Los que persisten en la elaboración del diccionario lo consideran ya un manual de adivinación. Un nuevo Libro de las Mutaciones concebido, explicó Boas, como un diccionario etimológico que hace la historia del porvenir del lenguaje.
Hubo un solo caso en la historia de la isla de un hombre que conoció dos idiomas al mismo tiempo. Se llamaba Bob Mulligan y decía que soñaba con palabras incomprensibles que tenían para él un sentido transparente. Hablaba como un místico y escribía frases desconocidas y decía que ésas eran las palabras del porvenir. En los Archivos de la Academia han quedado algunos fragmentos de los textos que escribió e incluso se puede oír la grabación de la voz aguda y lunática de Mulligan que cuenta un relato que empieza así: “Oh New York city, sí, sí, la ciudad de Nueva York, la familia entera se fue para allá. El barco se había llenado de piojos y hubo que quemar las sábanas y bañar a los chicos con agua mezclada con acaroína. Cada bebé tenía que estar separado de los otros porque el olor los hacía llorar si estaban cerca. Las mujeres usaban un pañuelo de seda en la cara igual que damas beduinas, aunque todas tenían el pelo colorado. El abuelo del abuelo fue police-man en Brooklyn y una vez mató de un tiro a un rengo que estaba por degollar a la cajera de un supermarket.” Nadie sabía lo que estaba diciendo y Mulligan escribió ese relato y otros relatos en esa lengua nueva y después un día dijo que la había dejado de oír. Venía al bar y se sentaba en esa punta del mostrador a tomar cerveza, sordo como una tapia, y se emborrachaba despacio, con la cara avergonzada de un hombre arrepentido de haberse hecho notar. Nunca más quiso hablar de lo que había dicho y vivió siempre un poco apartado hasta que murió de cáncer a los cincuenta años. Pobre Bob Mulligan, dijo Berenson, de joven era un tipo expansivo y muy popular y se casó con la Belle Blue Boylan y al año la mujer se murió ahogada en el río y su cuerpo desnudo apareció en la ribera del este del Liffey, en la otra orilla. Mulligan nunca se repuso, ni volvió a casarse y vivió solo toda la vida. Trabajaba de linotipista en la imprenta del Congreso y venía con nosotros al bar y le gustaba apostar a los caballos hasta que una tarde empezó a contar esas historias que nadie entendía. Yo creo, dijo el viejo Berenson, que la Belle Blue Boylan fue la mujer más hermosa de Dublin.
Todos los intentos de construir una lengua artificial se han visto perturbados por una experiencia temporal de la estructura. No han podido construir un lenguaje exterior al lenguaje de la isla porque no pueden imaginar un sistema de signos que persista sin mutaciones. Si a + b es igual a c, esa certidumbre sólo sirve un tiempo porque en un espacio irregular de dos segundos ya a es -a y la ecuación es otra. La evidencia vale lo que tarda una proposición en ser formulada. En la isla ser rápido es una categoría de la verdad. En esas condiciones los lingüistas del Area-Beta del Trinity College alcanzaron lo que parece imposible: casi fijan en un paradigma lógico la forma incierta de la realidad. Definieron un sistema de signos cuya notación se transforma con el tiempo. Hemos logrado establecer un campo unificado, le han dicho a Boas, ahora sólo nos falta que la realidad incorpore al lenguaje alguna de nuestras hipótesis. Hasta el momento saben que han transcurrido diez y siete ciclos, pero suponen que existe una potencialidad casi infinita, calculada en ochocientos tres (porque ochocientas tres son las lenguas conocidas en el mundo). Si en casi cien años, desde que en 1939 empezó el registro de los cambios, se han detectado diez y siete formas distintas, los más optimistas imaginan que el círculo puede completarse en otros cien años. Ningún cálculo es seguro, porque la duración irregular de los ciclos forma parte de la estructura de la lengua. Existen tiempos lentos y tiempos rápidos, como el cauce* del Liffey. Los más afortunados, dice el proverbio, navegan en aguas tranquilas, los mejores viven en tiempos veloces, donde el sentido dura lo que dura la cólera de un gallo. Los jóvenes más radicalizados del grupo Trickster del Area-Beta del Trinity College se ríen de esos proverbios idiotas. Piensan que, mientras el lenguaje no encuentre su borde final, el mundo será sólo un conjunto de ruinas y que la verdad es como los peces que boquean en el barro hasta morir cuando el caudal del Liffey baja con la sequía del verano, hasta transformarse en un riacho de aguas oscuras.
(*el cauce: o leito)
10
He dicho que la tradición dice que los antepasados hablan de un tiempo en el que la lengua era un llano por el que se podía andar sin sorpresa. Las generaciones, afirman los antiguos, heredaban los mismos nombres para las mismas cosas y podían legarse documentos escritos con la certeza de que todo lo que escribían sería legible en los tiempos futuros. Algunos repiten (sin comprenderlo) un fragmento de aquella lengua original que ha sobrevivido a lo largo de los años. Boas dice que los escuchó recitar ese texto como si fuera un chiste de borrachos, de modo que la vocalización era pastosa y las palabras estaban cortadas por risas y expresiones que nadie sabía ya si formaban o no parte del antiguo sentido. El fragmento llamado Sobre la serpiente, dice Boas que era así: “Empezó la época de los grandes vientos. Ella siente que le arrancan el cerebro y dice que su cuerpo está hecho de tubos y conexiones eléctricas. Habla sin parar y a veces canta y dice que me lee el pensamiento y sólo pide que yo esté cerca y que no la abandone en la arena. Dice que es Eva y que la serpiente es Eva y que nadie en los siglos de los siglos se ha atrevido a decir esa verdad tan pura y que sólo María Magdalena se lo dijo al Cristo antes de lavarle los pies. Eva es la serpiente, la mutación interminable, y Adán está solo, siempre ha estado solo. Dice que Dios es la mujer y que Eva es la serpiente. Que el árbol del bien y del mal es el árbol del lenguaje. Recién cuando se comen la manzana empiezan a hablar. Eso dice ella cuando no canta”. Para muchos es un texto religioso, un fragmento del génesis. Para otros se trata sencillamente de un rezo que persistió en la memoria a la permutación de las lenguas y que fue recordado como un juego adivinatorio. (Los historiadores afirman que se trata de un párrafo de la carta que Nolan dejó antes de matarse.)
11
Algunas sectas genealógicas aseguran que los primeros habitantes de la isla son desterrados, que fueron enviados hacia aquí remontando el río. La tradición habla de doscientas familias confinadas en un campo multirracial en los arrabales de Dalkey, al Norte de Dublin, detenidos en una redada en los barrios y los suburbios anarquistas de Trieste, Tokyo, México DF y Petrogrado.
Embarcados en el Rosevean, un tres palos, con hélice Pohl-A, en la bahía del norte, fueron enviados por el río hacia atrás en el tiempo, según Teynneson, bajo las ráfagas heladas del viento de enero.
El experimento de confinar exiliados en la isla ya había sido utilizado otras veces para enfrentar rebeliones políticas, pero siempre se usó con individuos aislados, en especial para reprimir a los líderes. El caso más recordado fue el de Nolan, un militante del grupo de resistencia gaélico-celta que se infiltró en el gabinete de la reina y llegó a ser el hombre de confianza de Möller en el comando de planificación propagandística. Lo descubrieron porque usaba los informes meteorológicos para cifrar mensajes destinados a los pobladores de los ghettos irlandeses de Oslo y de Copenhague. La historia cuenta que Nolan fue descubierto por azar, cuando un investigador del MIT de Boston procesó en una computadora los mensajes emitidos durante un año por la oficina meteorológica, con la intención de estudiar las modificaciones infinitesimales del clima en el Este de Europa. Nolan fue desterrado y llegó a la isla después de navegar cerca de seis días a la deriva y vivió absolutamente solo casi cinco años, hasta que se suicidó. Su odisea es una de las grandes leyendas en la historia de la isla. Sólo un hijo de puta empecinado irlandés pudo sobrevivir todo ese tiempo aislado como una rata en esta inmensidad y cantando contra las olas, Three quarks for Muster mark, a los gritos, en la playa, buscando siempre la huella de una pata humana en la arena, dijo el viejo Berenson. Sólo alguien como Jim pudo fabricarse una mujer con la que hablar en esos años interminables de soledad.
El mito dice que con los restos del naufragio construyó un grabador de doble entrada, con el que era posible improvisar conversaciones usando el sistema de los juegos lingüisticos de Wittgenstein. Sus propias palabras eran almacenadas por las cintas y reelaboradas como respuestas a preguntas puntuales. Lo programó para hablar con una mujer y le habló en todas las lenguas que sabía y al final era posible pensar que la mujer había llegado a amar a Nolan. (Por su parte él la quiso desde el primer día porque pensaba que ella era la mujer de su amigo Italo Svevo, Livia Anna, la más bella de las madonas de Trieste, con ese hermosísimo pelo colorado que hacía pensar en todos los ríos del mundo.)
A los tres años de estar solo en la isla, las conversaciones se repetían cíclicamente y Nolan se aburría y la grabadora empezó a mezclar las palabras (“Heremon, nolens, nolens, brood our pensies, brume in brume”, le decía por ejemplo) y Nolan le preguntaba “¿Cómo?” “¿Qué?” y en esa época empezó a llamarla Anna Livia Plurabelle. Al final del sexto año de exilio, Nolan perdió las esperanzas de ser rescatado y empezó a no dormir y a tener alucinaciones y a soñar que se pasaba la noche en vela escuchando el susurro inalámbrico y la dulce voz de Anna Livia.
Tenía un gato y cuando el gato se metió una tarde en el monte y no volvió más, Nolan escribió una carta de despedida, apoyó el codo derecho en la mesa para que no le temblara el pulso, y se pegó un tiro en la cabeza. Los primeros que desembarcaron del Rosevean se encontraron con la voz de la mujer que seguía hablando en el grabador bifocal. Apenas si mezclaba las lenguas, según Boas, y era posible comprender perfectamente la desesperación que le había producido el suicidio de Nolan. Estaba sobre una piedra, frente a la bahía, hecha de alambres y de cintas rojas y se lamentaba con un suave murmullo metálico.
He tejido y destejido la trama del tiempo, decía, pero él se ha ido y ya no va a volver. Un cuerpo es un cuerpo, sólo las voces sirven para amar. Desde hace años estoy sola aquí, en la ribera de todos los ríos y espero que llegue la noche. Siempre es de día, en esta latitud todo es tan lento, nunca llega la noche, siempre es de día, el atardecer tarda tanto, estoy ciega, al sol, quiero arrancar “la venda de hierro” que me ciñe la frente, quiero traer aquí “la oscuridad concentrada del África”. La vida está siempre amenazada por los cazadores (ha dicho Nolan), instintivamente hay que fabricar, como las abejas sus alvéolos, un sentido. Incapaz de considerar mi propio enigma, digo: no es su propio yo el que cuenta, sino su Musa, su canto universal.
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Si la leyenda es cierta la isla ha sido un gran asentamiento de exiliados en la época de la represión política que siguió a la contraofensiva del IRA y a la caída del Pulp-KO. Pero ninguno de los historiadores tiene el menor vestigio de ese pasado o del tiempo en que Anna Livia estuvo sola en la ribera o de la época en que llegaron las doscientas familias y no se encuentra ningún rastro que atestigüe los hechos. La única fuente escrita en la isla es el Finnegans Wake al que todos consideran un libro sagrado porque siempre pueden leerlo sea cual sea el estado de la lengua en que se encuentren.
En realidad el único libro que dura en esta lengua es el Finnegans, dijo Boas, porque está escrito en todos los idiomas. Reproduce las permutaciones del lenguaje en escala microscópica. Parece un modelo en miniatura del mundo. A lo largo del tiempo lo han leído como un texto mágico que encierra las claves del universo y también como una historia del origen y la evolución de la vida en la isla.
Nadie sabe quién lo escribió, ni cómo llegó hasta aquí. Nadie recuerda si fue escrito en la isla o si estaba en el equipaje de los primeros exiliados. Boas vio el ejemplar que se conserva en el Museo, encerrado en una caja de vidrio y como suspendido en una luz nuclear. Es una viejísima edición numerada de Faber and Faber, que tiene más de cien años y en la que hay notas manuscritas y un calendario con la lista de los muertos de una familia irlandesa del siglo XX. Ese ejemplar sirvió para hacer todas las copias que circulan en la isla.
Muchos creen que el Finnegans es un libro de ceremonias fúnebres y lo estudian como el texto que funda la religión en la isla. El Finnegans es leído en las iglesias como una Biblia y es usado para predicar en todas las lenguas por los pastores presbiterianos y por los sacerdotes católicos. En el Génesis se habla de una maldición de Dios que provocó la Caída y transformó el lenguaje en el paisaje abrupto que es hoy. Borracho, Tim Finnegan se cayó al sótano por una escalera, que inmediatamente pasó de ladder a latter y de latter salió litter y del desorden la letter, el mensaje divino. La carta es encontrada en un vaciadero de basura por una gallina que picotea. Está firmada con una mancha de té y la prolongada permanencia en el basurero ha dañado el texto. Tiene agujeros y borrones y es tan difícil de interpretar, que los eruditos y los sacerdotes conjeturan en vano sobre el sentido verdadero de la Palabra de Dios. La carta parece escrita en todas las lenguas y cambia continuamente bajo los ojos de los hombres. Ese es el Evangelio y el basurero de donde viene el mundo.
Los comentarios del Finnegans definen la tradición ideológica de la isla. El libro es un mapa y la historia se transforma según el recorrido que se elija. Las interpretaciones se multiplican y el Finnegans cambia como cambia el mundo y nadie imagina que la vida del libro se pueda detener. Sin embargo en el fluir del Liffey hay una recurrencia hacia Jim Nolan y Anna Livia, solos en la isla, antes de la carta final. Ese es el primer núcleo, el mito de origen tal cual lo transmiten los informantes (según Boas).
En otras versiones el libro es la transcripción del mensaje de Anna Livia Plurabelle, que lee los pensamientos de su marido (Nolan) y le habla después que él está muerto (o dormido), única en la isla durante años, abandonada en una piedra, con las cintas rojas y los cables y el armazón metálico al sol, murmurando en la playa vacía hasta que llegan las doscientas familias.
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Todos los mitos terminan ahí y también este informe. Hace dos meses que salí de la isla, dijo Boas, y todavía resuena en mí la música de esa lengua que es como un río. El que oiga el canto de las lavanderas en las orillas del Liffey no se podrá ir, dicen allá, y yo no he podido resistir la dulzura de la voz de Anna Livia. Por eso he de volver a la ciudad de los tres tiempos y a la bahía donde reposa la mujer de Bob Mulligan y al Museo de la Novela donde está el Finnegans, solo en la sala, en una caja negra de cristal. También yo voy a cantar en la taberna de Humphery Earwicker, golpeando el puño contra la madera de la mesa y tomando cerveza, una canción que habla del pájaro tuerto que vuela sin parar sobre la isla.
In: Cuentos Morales - Antología (1961-1990)
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Extractos del muy interesante cuento de Piglia:
1. Añoramos un lenguaje más primitivo que el nuestro... El insomnio es la gran enfermedad de la nación. El rumor de las voces es continuo y sus cambios suenan noche y día... La memoria está vacía, porque uno olvida siempre la lengua en la que ha fijado los recuerdos...
2. Cuando decimos que el lenguaje es inestable, no estamos hablando de una conciencia de esa modificación. Es necesario salir de allá para percibir el cambio. Si uno está adentro, cree que el lenguaje es siempre el mismo...
3. "El lenguaje se transforma según ciclos discontinuos que reproducen la mayoría de los idiomas conocidos (registra Turnbull)...
4. En la isla se cree que los ancianos se encarnan, al morir, en los nietos... en esa teoría de las reencarnaciones se ha fundado la lingüística histórica. La lengua es como es, porque acumula los residuos del pasado en cada generación y renueva el recuerdo de todas las lenguas muertas y de todas las lenguas perdidas...
5. El carácter inestable del lenguaje define la vida en la isla. Nunca se sabe con qué palabras serán nombrados en el futuro los estados presentes... Todas las obras maestras duran lo que dura la lengua en la que fueron escritas. Sólo el silencio persiste, claro como el agua, siempre igual a sí mismo.
6. ... La tradición dice que el lenguaje se modifica en las noches de luna llena, pero ésa es una creencia desmentida por los hechos. La lingüística científica no acepta ninguna relación entre los fenómenos... Los hombres del pueblo siguen sin embargo acatando los viejos rituales...
7. ... Piensan a la patria según la lengua. ("La nación es un concepto lingüístico.")... El concepto de frontera es temporal y sus límites se conjugan como los tiempos de un verbo.
8. ... Cada vez que entra en una calle nueva, las voces envejecen, las palabras antiguas están como grabadas en las paredes de los edificios en ruinas... "Se ve ahí, en el borde del lenguaje, como la casa de la infancia en la memoria."
9. La lingüística es la ciencia más desarrollada en la isla. Durante generaciones los investigadores han trabajado en el proyecto de fijar un diccionario que incorpore las variantes futuras de las palabras conocidas... Pero la traducción es imposible (de un viajero con un diccionario de bolsillo), porque sólo el uso define el sentido y en la isla conocen siempre una lengua por vez...
Todos los intentos de construir una lengua artificial se han visto perturbados por una experiencia temporal de la escritura... La evidencia vale lo que tarda una proposición en ser formulada... inventaron un lenguaje que muestra cómo es el mundo, pero que no permite nombrarlo...
10. He dicho que la tradición dice que los antepasados hablan de un tiempo en el que la lengua era un llano por el que se podía andar sin sorpresa... Algunos repiten (sin comprenderlo) un fragmento de aquella lengua original que ha sobrevivido a lo largo de los años... "(...) Dice que Dios es la mujer y que Eva es la serpiente. Que el árbol del bien y del mal es el árbol del lenguaje..."
11. Algunas sectas genealógicas aseguran que los primeros habitantes de la isla son desterrados, que fueron enviados hacia aquí remontando el río. La tradición habla de doscientas familias confinadas en un campo multirracial en los arrabales de Dalkey, al Norte de Dublín...
12. Si la leyenda es cierta, la isla ha sido un gran asentamiento de exiliados, en la época de la represión política que siguió a la contraofensiva del IRA y a la caída del Pulp-KO... La única fuente escrita en la isla es el FINNEGANS WAKE, al que todos consideran un libro sagrado, porque siempre pueden leerlo, sea cual fuere el estado de la lengua en que se encuentren... porque está escrito en todos los idiomas...
Nadie sabe quién escribió, ni cómo llegó hasta aquí...
En el Génesis se habla de una maldición de Dios que provocó la Caída y transformó el lenguaje en el paisaje abrupto que es hoy. Borracho, Tim Finnegan se cayó al sótano por una escalera, que inmediatamente pasó de ladder a latter y de latter salió litter y del desorden la letter, el mensaje divino... Tiene agujeros y borrones (la carta) y es tan difícil de interpretar, que los eruditos y los sacerdotes conjeturan en vano sobre el sentido verdadero de la Palabra de Dios...
13. Todos los mitos terminan ahí y también este informe...
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Post Scriptum (25/01/19):
O escritor argentino Ricardo Piglia faleceu em 6 de janeiro de 2017, aos 75 anos de idade. Quando fiz esta postagem em abril de 2008, era estudante de Letras na Universidade de São Paulo.
Ao revisitar a postagem mais de uma década depois, vejo que pouco assimilei de conhecimento a respeito de Piglia. Isso aconteceu de certa forma em relação a parte das literaturas novas apresentadas a mim durante o curso porque ao longo de quase uma década de frequência à USP fui também dirigente sindical dos bancários e na divisão das tarefas e obrigações a prioridade foi a luta sindical, relegando a segundo plano os estudos e objetivos pessoais.
Na mesma época desta postagem, abril de 2008, terminei a leitura do livro "O último leitor", de Piglia, publicado em 2005. É um livro que gostaria de reler, pois o tema é dos mais atrativos para mim: ensaios e reflexões sobre o ato de ler e sobre leitores e leituras. Quem sabe releia ao revisitar esta postagem agora em 2019.
Por fim, tenho também de Piglia um filme lançado em 2000, baseado em seu romance de 1997, "Plata quemada". Vou revê-lo.
Em relação à postagem em si - "La isla" -, não basta somente ler novamente, porque o texto é complexo. É necessário reler, estudar, interpretar, refletir. Exigir de meu cérebro a compreensão do texto. Vou fazer isso.
Afinal de contas, sou um dos últimos leitores ou não?
William
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Post Scriptum (27/01/19):
Nos últimos dois dias busquei ler e ver materiais relativos a Piglia.
Como disse acima, assisti ao filme "Plata quemada", história baseada em fatos reais ocorridos na Argentina e no Uruguai em 1965. Piglia buscou informações adicionais sobre os fatos e narrou a história em romance publicado em 1997. O filme foi lançado em 2000 e é muito ousado para a época, na minha opinião. Se trata de um assalto praticado por um grupo de bandidos, dentre eles os chamados "irmãos gêmeos", jovens apaixonados e violentos. O filme tem muita violência, sangue, cenas de sexo e tensão do início ao fim.
Busquei na estante o livro "O último leitor" (2005) e comecei a lê-lo. Li o prólogo e o primeiro capítulo: "O que é um leitor?". Piglia nos põe a pensar. Lembrei-me do também argentino Alberto Manguel, nos contando "Uma história da leitura" (1996).
Por fim, reli o texto da postagem - "La isla" -, contido no livro de Piglia "Cuentos Morales" (1995). A releitura por duas vezes, uma delas em voz alta para treinar meu castelhano, foi com atenção e com pesquisa. O texto é hermético, na minha opinião. Faz referência à Irlanda, James Joyce e sua obra mais enigmática "Finnegans wake" (1939). Após a primeira releitura do texto, fui buscar informações na rede mundial e assisti a uma entrevista no programa Literatura Fundamental (Univesp/TV Cultura) que me esclareceu bastante coisa. Na segunda releitura de La isla foi mais fácil identificar nomes e referências à obra de Joyce.
Vale citar aqui que tenho o privilégio de ter lido "Dublinenses" (1914) e "Ulisses" (1922) de James Joyce, na tradução de Antônio Houaiss. Foi uma experiência única. Tenho também "Retrato do artista quando jovem" (1916), mas não li ainda.
A revisita à postagem valeu a pena, fiquei mais informado a respeito de Piglia, a respeito do próprio texto e das referências contidas na obra. Acredito que voltarei a esta postagem no blog.
William
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