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segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Leitura: Memória de minhas putas tristes - G. G. Márquez



Refeição Cultural

"Comecei a ler para ela O pequeno príncipe de Saint-Exupéry, um autor francês que o mundo inteiro admira mais que os franceses. Foi o primeiro que a distraiu sem despertá-la, a ponto de eu precisar ir até lá dois dias seguidos para acabar de lê-lo..."

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"Toda sombra de dúvida desapareceu então da minha alma: eu a preferia adormecida."

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Mais uma vez desacatei a mim mesmo em minha determinação de não ler literatura neste ano enquanto não encaminhar as prioridades que tenho que resolver e não resolvo (me fazendo um perdulário) e li entre ontem e hoje o romance maduro de Gabriel García Márquez Memória de minhas putas tristes (2004). Gabo se aproximava dos oitenta anos quando escreveu esse romance.

Que delícia ler romances latino-americanos! Que delícia ler García Márquez! 

O tema é pesado: um homem de 90 anos e uma jovem menor de idade. A narrativa, no entanto, é leve e nos emociona. Um homem tipicamente latino-americano - com todas as contradições que nos moldam e que carregamos por pertencermos a esses países colonizados, explorados e embrutecidos - um homem que descobre o amor aos 90 anos de idade.

A partir dessa condição de apaixonado, o homem que sempre pagou pelo sexo se vê, pela primeira vez, fazendo coisas de pessoas apaixonadas... andar de bicicleta cantando por aí, comprar caixas de bombons para presentear a amada e ter ciúmes de uma forma que o deixa alucinado.

Ou seja, o escritor é nada mais nada menos que Gabo, que até num enredo tão complicado como esse, com temática que aborda a condição de exploração da mulher - prostituição e abuso de menores -, García Márquez consegue construir uma história que destaca o amor.

A leitura do livro foi sugestão de um jovem conhecido da família. Acho muito legal quando jovens sugerem leituras de livros que eles descobrem interessantes. Outro dia, uma filha de uma prima também me sugeriu a leitura de um romance - A hora da estrela -, de Clarice Lispector, que já havia lido e que acho muito bom. 

Enfim, seguem abaixo algumas passagens que nos fazem pensar:

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AS DORES DAS IDADES

"Aos quarenta e dois anos havia acudido ao médico por causa de uma dor nas costas que me estorvava para respirar. Ele não deu importância. É uma dor natural na sua idade, falou.

- Então - eu disse -, o que não é natural é a minha idade.

(...) E me acostumei a despertar cada dia com uma dor diferente que ia mudando de lugar e forma, à medida que passavam os anos."

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OS AMORES INFELIZES MOVEM O MUNDO

"Virei outro. Tratei de reler os clássicos que me mandaram ler na adolescência, e não aguentei. Mergulhei nas letras românticas que tanto repudiei quando minha mãe quis me forçar a ler e gostar, e através delas tomei consciência de que a força invencível que impulsionou o mundo não foram os amores felizes e sim os contrariados."

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O SEXO COMO CONSOLO DA FALTA DE AMOR

"Atropelei: O sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança."

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O ESCREVER APAIXONADO

"Foi como uma beberagem peçonhenta:  cada palavra era ela. Eu sempre havia precisado de silêncio para escrever porque minha mente atendia mais à música que à escrita. E então aconteceu o contrário: só conseguia escrever à sombra dos boleros. Minha vida encheu-se dela. As crônicas que escrevi naquelas duas semanas foram modelos em código para cartas de amor. O chefe da redação, contrariado com a avalanche de respostas, me pediu que moderasse o amor enquanto pensávamos num jeito de consolar tantos leitores apaixonados."

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A GENTE SE VESTE PARA ALGUÉM

"Passei uma semana inteira sem tirar o macacão de mecânico nem de dia nem de noite, sem tomar banho, sem fazer a barba, sem escovar os dentes, porque o amor me mostrou tarde demais que a gente se arruma para alguém, se veste e se perfuma para alguém, e eu nunca tinha tido para quem."

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COMENTÁRIO FINAL

A literatura e a cultura são essenciais na vida das pessoas. Desde os tempos mais imemoriais, as narrativas humanas nos mais diversos gêneros e estilos nos fornecem experiências e possibilidades que nos fazem refletir sobre o viver em sociedade e sobre nós mesmos.

Em dois momentos desse romance pensei sobre essa questão da ficção que nos traz referências de situações do viver e das sociedades humanas. 

Num deles, uma prostituta sugere ao seu velho conhecido de décadas que se ele tivesse oportunidade na vida, que não morresse sem experimentar o sexo feito com amor e com alguém que se ama: "não vá morrer sem experimentar a maravilha de trepar com amor".

Num outro momento, foi inevitável pensar em nosso país após o golpe de Estado e após a ascensão do regime fascista atual, o poder do crime organizado ocupando os espaços de poder do Brasil e as consequências dessa tragédia.

"Em tempos melhores, o governador tinha feito a oferta tentadora de me comprar em bloco os livros dos clássicos gregos, latinos e espanhóis para a Biblioteca Estadual, mas não tive coração para vendê-los. Depois, com as mudanças políticas e a deterioração do mundo, ninguém do governo pensava nas artes nem nas letras...".

É isso! Mais um livro lido, mais um grande romance de um grande autor, Gabriel García Márquez.

William


Bibliografia:

GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Memória de minhas putas tristes. Tradução de Eric Nepomuceno. 34ª edição, Rio de Janeiro: Record, 2022.


sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Tempo (III)



"Enquanto Macondo festejava a reconquista das lembranças, José Arcadio Buendía e Melquíades sacudiram a poeira da velha amizade. O cigano estava disposto a ficar no povoado. Tinha estado à morte, realmente, mas tinha voltado porque não pôde suportar a solidão. Repudiado pela sua tribo, desprovido de toda faculdade sobrenatural como castigo pela sua fidelidade à vida, decidiu se refugiar naquele cantinho do mundo ainda não descoberto pela morte, dedicado à exploração de um laboratório de daguerreotipia. José Arcadio Buendía nunca tinha ouvido falar desse invento. Mas quando se viu a si mesmo e a toda a sua família plasmados numa idade eterna sobre uma lâmina de metal com reflexos, ficou mudo de espanto..." (MÁRQUEZ, Record-Altaya, p. 52/53)


Refeição Cultural

"Tinha estado à morte, realmente, mas tinha voltado porque não pôde suportar a solidão."

Que expressão profunda essa! Fiquei imaginando as vítimas da pandemia de Covid-19 isoladas em biombos, com toda a parafernália tecnológica que salva vidas, ou sem elas, se não houver recursos, a suportar a solidão, e lidando com o risco de morte. Dura realidade que poderia ocorrer em quantidade menor de casos, se as vítimas não estivessem em grandes países sob controle político de trogloditas "liberais" de direita.

E pensar que os políticos de direita que causam a morte de milhares de pessoas por Covid-19, por fazerem o oposto das recomendações das autoridades de saúde, são os legítimos representantes das elites e das casas grandes que simbolizam séculos de exploração e dominação das maiorias de pessoas sem posses, sem direitos e sem cidadania.

Estou lendo o livro O tempo na narrativa, de Benedito Nunes, é já tomei conhecimento de diversos conceitos a respeito do tempo. Já fazia um certo tempo que havia estudado a temática e a leitura está me trazendo de volta conceitos e reflexões que vieram em momento muito pertinente, tanto para a minha vida pessoal, quanto para o momento social e coletivo em que nos encontramos.

Na Poética, de Aristóteles, temos uma rara referência ao espaço em relação ao tempo: "Silencia a respeito do espaço, e apenas uma vez, para reforçar a distinção entre epopeia e tragédia, refere-se expressamente ao tempo. Enquanto a tragédia limita-se, tanto quanto possível, ao período de um dia, a epopeia tem duração ilimitada." (NUNES, 1995, p. 7)

Na sequência da citação acima, o texto segue apresentando conceitos e referências. Uma tragédia, apresentação dramática através de personagens e com público presente, não deve passar de algumas horas de apresentação. Mas tanto a tragédia quanto a epopeia são gêneros que se baseiam na mimese: "a mímesis praxeos, imitação ou representação da ação, que cada uma realiza de forma diferente, a primeira pela atuação dos personagens, e a segunda pela narração." (p. 7)

Depois, vimos os conceitos de tempo físico e psicológico, tempo cronológico e tempo histórico, tempos linguísticos e tempos verbais. Aqui podemos lembrar rapidamente de temas como a hora que não passa quando estamos no aguardo de algo que queremos; as eras que já marcaram a vivência dos povos do mundo; as diversas formas que as línguas têm de marcar os tempos como modo, pessoas, aspectos etc.

Leitura do capítulo três, "Os tempos da narrativa". Em relação à obra literária de caráter épico ou narrativo, existem 3 planos: "o da história, do ponto de vista do conteúdo, o do discurso, do ponto de vista da forma de expressão, e o da narração, do ponto de vista do ato de narrar." (p. 27)

Citando Todorov, Nunes nos explica a diferença entre o tempo do discurso e o tempo da história, podendo ser o tempo da história pluridimensional. A história, o enredo, pode ter diversos eventos ao mesmo tempo, mas todos devem ser apresentados de forma linear no tempo do discurso.

(É um saco quando eventos externos, do ambiente externo em relação ao local onde estamos concentrados na leitura, nos atrapalham a leitura. encerro o estudo neste momento)

William


Bibliografia:

MÁRQUEZ, Gabriel García. Cem anos de solidão. Tradução de Eliane Zagury. Coleção Mestres da Literatura Contemporânea. Editora Record/Altaya.

NUNES, Benedito. O tempo na narrativa. Série Fundamentos. Editora Ática, São Paulo, 1995.


quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Cem anos de solidão: Macondo e a pandemia



Refeição Cultural

Cem anos de solidão... O tempo de cem anos poderíamos contar como um tempo físico ou natural, cósmico, de cem movimentos de translação da Terra sobre o Sol. Mas imaginem um tempo desse na condição que o qualifica: de solidão. É um tempo psicológico duríssimo! É muita solidão!

Ao reler algumas dezenas de páginas do clássico de Gabriel García Márquez, voltei a sentir a emoção que nos abraça a cada página da história dos Buendía. A ficção nos põe a todo instante em contato com situações e contextos que espelham a nossa dura realidade num mundo de pandemia mundial de Covid-19, num mundo de ignorância e misérias impensáveis para uma época posterior a séculos de ciências e avanços nas culturas humanas.

Por mais que José Arcadio Buendía altere momentos de completa loucura e alucinações e momentos nos quais ele é o líder e a referência de toda sua aldeia - Macondo -, gostaríamos de um comportamento minimamente responsável como o dele por parte de nossos governantes no caso da pandemia do novo coronavírus, que virou disputa política e dane-se a população. O personagem teve um comportamento digno ao lidar com a peste da insônia. Infectada toda a família Buendía, e depois toda Macondo, ele tentou evitar que a peste se alastrasse para outras pessoas e outras comunidades.

"Quando José Arcadio Buendía percebeu que a peste tinha invadido a povoação, reuniu os chefes de família para explicar-lhes o que sabia sobre a doença da insônia, e estabeleceram medidas para impedir que o flagelo se alastrasse para as outras povoações do pantanal..." (MÁRQUEZ, Record-Altaya, p. 49)

Após as medidas de isolamento social e quarentena feitas pela comunidade de Macondo, foi possível que os locais tentassem retornar a sua vida cotidiana e desenvolvessem técnicas para conviver com as consequências da peste da insônia. Os forasteiros não podiam comer e beber em Macondo, para não se contaminarem e espalharem a doença para outras localidades... juro pra vocês, esse romance foi escrito e publicado em 1967 e reflete nesta passagem o que estamos enfrentando mundialmente com os piores líderes que poderíamos ter em grandes países.

"(...) Não se lhes permitia comer nem beber nada durante a sua estada, pois não havia dúvidas de que a doença só se transmitia pela boca, e todas as coisas de comer e de beber estavam contaminadas pela insônia. Desta forma, manteve-se a peste circunscrita ao perímetro do povoado. Tão eficaz foi a quarentena, que chegou o dia em que a situação de emergência passou a ser encarada como coisa natural e se organizou a vida de tal maneira que o trabalho retomou o seu ritmo e ninguém voltou a se preocupar com o inútil costume de dormir." (p. 50)

Assim são os clássicos da literatura universal.

William



Bibliografia:

MÁRQUEZ, Gabriel García. Cem anos de solidão. Tradução de Eliane Zagury. Coleção Mestres da Literatura Contemporânea. Editora Record/Altaya.

domingo, 18 de outubro de 2020

6. Cem anos de solidão - Gabriel García Márquez



"Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos..." (MÁRQUEZ, Record-Altaya, p. 7)


Refeição Cultural - Cem clássicos

Uma das lembranças que mais se destacam em minhas memórias quando penso no clássico de Gabriel García Márquez, Cem anos de solidão (1967), é a ressonância que o nome da obra estabelecia dentro de mim desde muito cedo em minha vida. Acho que o nome já me impactava desde que era trabalhador braçal até uns vinte anos de idade. 

A ideia de uma solidão secular martelava dentro de minha cabeça... cem anos de solidão... eu me identificava muito com essa ideia, com esse conceito, mesmo sem saber ao certo o porquê.

Na edição que tenho está registrada a data de novembro de 1999 como data final da leitura do livro. Eu tinha 30 anos de idade. 

Me lembro de uma frase em inglês que de vez em quando vinha em minha mente quando o sentimento de solidão aparecia: "alone in the crowd". A sentença era de um livro de inglês no qual estudei na adolescência e o texto vinha ilustrado com a foto de uma mulher numa mesa de café entre diversas mesas de café em uma calçada dessas de lugares turísticos. Estar sozinho mesmo em meio à multidão...

Cem anos de solidão... o conceito é profundo! Acho que a ideia pode sintetizar o que nós latino-americanos sentimos ao longo de nossas vidas de cidadãos de países subdesenvolvidos e explorados pelos imperialismos seculares. 

Aquele tipo de solidão que significa impotência, desesperança, fundo do poço. Solidão é a coisa que poderia sintetizar aquilo que sentimos neste momento da história, vivendo sob a pandemia mundial de Covid-19 que desgraçou a vida dos mais pobres e da classe trabalhadora e vivendo sob a eterna dominação do imperialismo do Norte, que destrói há séculos a todos nós, como denuncia Eduardo Galeano em As veias abertas da América Latina.

Estamos sós, talvez como nunca antes. Não temos um Estado que nos apoie, não temos um governo que esteja ao nosso lado. As instituições do Estado, do Estado burguês, elas não funcionam mais. Tudo se desfez após o golpe de 2016. As organizações formais que deveriam nos dar alguma esperança ou noção de não estarmos sós, elas também estão burocratizadas, endurecidas, anos-luz de nós, inclusive os partidos, sindicatos e organizações coletivas. Estamos sós... parece uma solidão como o nome da obra de García Márquez.

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"Por fim, numa terça-feira de dezembro, na hora do almoço, soltou de uma vez todo o peso do seu tormento. As crianças haviam de recordar pelo resto da vida a augusta solenidade com que o pai se sentou na cabeceira da mesa, tremendo de febre, devastado pela prolongada vigília e pela pertinácia da sua imaginação, e revelou a eles a sua descoberta:

- A terra é redonda como uma laranja...

Úrsula perdeu a paciência. 'Se você pretende ficar louco, fique sozinho', gritou. 'Não tente incutir nas crianças as suas ideias de cigano'. José Arcadio Buendía, impassível não se deixou amedrontar pelo desespero da mulher que, num impulso de cólera, destroçou o astrolábio contra o solo" (p. 11)

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Como leitor e cidadão do mundo que se acaba no século XXI, só posso concordar com Úrsula ao achar que José Arcadio Buendía era louco mesmo... qualquer um hoje em dia sabe que a Terra é plana como nos ensinam os líderes de direita e as seitas que infestam o mundo físico e virtual que habitamos.

Ironias à parte, a literatura e as ficções são criações tão maravilhosas que muitas vezes autores e estórias superam temporalidades, épocas, estilos, modelos, geografias, e se perpetuam como narrativas a serem lidas para sempre (enquanto durem ou enquanto dure o mundo dos humanos).

Cem anos de solidão é uma das obras clássicas que me marcaram muito antes de ler, durante a leitura e nestes anos todos após a leitura. Gostaria de reler o clássico, inclusive tenho uma bela edição comemorativa de 40 anos da publicação, na língua original, e quem sabe um dia eu não releia essa estória fantástica.

William


Bibliografia:

MÁRQUEZ, Gabriel García. Cem anos de solidão. Tradução de Eliane Zagury.  Coleção Mestres da Literatura Contemporânea. Editora Record/Altaya.


domingo, 6 de outubro de 2019

Vanguardas e contemporaneidades hispano-americanas (II)


Veredas uspianas. Foto de William.

Refeição Cultural

Esta postagem se refere a anotações feitas por mim em sala de aula, aulas com a Professora Doutora Idalia Morejón Arnaiz, da disciplina de Vanguardia y Contemporaneidad, matéria na qual estudaremos um panorama crítico da narrativa e da poesia hispano-americana, desde as vanguardas dos anos 1920 até o presente, através da leitura e análise de textos literários e ensaísticos que colocam em evidência as propostas de ruptura e continuidade estética e cultural ao longo de um século.

As anotações são de minha inteira responsabilidade. Qualquer equívoco conceitual pode ser corrigido pelo(a) leitor(a) buscando outras fontes sobre o tema conflitante. Aqui é um espaço de compartilhamento gratuito de informações e conhecimento, dentro do conceito Wiki: What I Know Is.

Durante as postagens, vou variar os textos entre português e espanhol, e as não conformidades formais das duas línguas são de minha responsabilidade também. Combinado?


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Aula de 20/8/19

Esta foi a segunda aula que pude assistir. A professora nos falou um pouco a respeito da geração de escritores latino-americanos e suas obras do período conhecido como o "Boom", dos anos 60 a 80. Fiz uma pesquisa a respeito para complementar meus parcos rabiscos durante a aula.

Assim como as vanguardas latino-americanas da primeira metade do século XX vieram depois de autores como José Martí e Rubén Darío, o Boom também teve uma referência nesses autores da segunda metade do século XIX e, claro, são autores herdeiros das vanguardas latino-americanas.

O "Boom" Latino-Americano

Características gerais:

- tratamento do tempo de forma não linear, os romances começam pelo fim, pelo meio, vão e voltam, pode-se ler capítulos e segmentos de forma aleatória etc.
- utilização de várias perspectivas ou vozes narrativas.
- uso de neologismos, jogos de palavras e toques de fantasia.
- circularidade narrativa e polifonia.
- predominância de histórias que se passam em espaços urbanos ou rurais, influenciadas pelas condições sociais e políticas locais.
- histórias com expressão ou manifestação de identidades regionais ou nacionais.
- utilização de linguagens não-padrão e blasfêmias.
- os autores combinam dados reais com ficcionais, gerando dúvidas nos leitores a respeito das histórias serem verídicas ou apenas obras de ficção.
- formas fantasiosas ou irreais como estratégias narrativas de explicação de eventos sociais, políticos e econômicos nas histórias dos romances, contos e novelas (realismo mágico). 

Contexto histórico:

- período da Guerra Fria, polarização entre sistemas capitalista e socialista, Estados Unidos e aliados de um lado e União Soviética e demais países socialistas de outro.
- vários países da América Latina e Caribe estão sob regimes ditatoriais.
- momento de muita agitação política e social.
- Revolução Cubana em 1959.

Principais autores e algumas obras:

- "Rayuela" (1963), do argentino Julio Cortázar, traduzida como "O Jogo da Amarelinha" no Brasil.
- "Cien Años de Soledad" (1967), do colombiano Gabriel García Márquez. Outra obra dele importante é "Crónica de una muerte anunciada" (1981). Essa obra, por ser menor em número de páginas, será lida no contexto da disciplina cursada.
- "La ciudad e los perros" (1963), do peruano Mario Vargas Llosa.
- "Aura" (1962), do mexicano Carlos Fuentes. Ele foi também um grande ensaísta latino-americano. Também iremos ler esta obra para a discussão em sala de aula.

Outros autores: Jorge Luis Borges, Jorge Amado, Miguel Ángel Asturias, Alejo Carpentier, Juan Rulfo, Juan Carlos Onetti, dentre outros.

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O "Boom" é uma onomatopeia de explosão. O período entre os anos sessenta e setenta vivia um "Boom" econômico, era o período posterior à 2ª Guerra Mundial. Foi um período de "Boom" demográfico também. Aliás, o mercado editorial e literário vivia um bom momento, um "Boom" na época.

Foi um período que contou com muitos escritores e intelectuais de língua espanhola vivendo na condição de exilados de seus países. De outras nacionalidades também.

Os jornais e diários contavam com cadernos especiais de cultura e grandes escritores e poetas publicavam nesses periódicos. Esses veículos de comunicação eram portas de entrada para intelectuais e literatos.

O romance "Cem anos de solidão" (1967) de G. G. Márquez foi lançado em Buenos Aires pela Editorial Sudamericana.

Julio Cortázar publicou "Rayuela" (1963) com diversas inovações na obra. A possibilidade de leitura tanto de forma linear, do primeiro ao último capítulo, como também com outras trajetórias de leituras pelo leitor. O cenário da história é Paris e o enredo apresenta diversas temáticas como ocultismo, arte, tarô, as vivências dos povos de língua espanhola exilados em Paris, dentre outras.

Cortázar nasceu na Embaixada da Argentina na Bélgica. Foi com 3 anos para a Argentina e viveu lá até o início dos anos 50. Mudou-se para Paris por divergências com o governo de Perón.

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"GRAN TOUR" francês: na época, a formação cultural da juventude burguesa latino-americana se dava em Paris.
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A professora nos fala de algumas obras da época como "Aura" de Carlos Fuentes, com uma narrativa atípica e um relato bem interessante. Fala também de "Bestiário", livro de contos de Cortázar. "Crônica de uma morte anunciada" de García Márquez. Nesta última, o nome "crônica" já remete ao periodismo.

Arte contemporânea

O valor das obras de arte não se dá mais pela obra de arte em si e sim pelo valor das ideias, pelo ato de fazer arte. Uma obra muito conhecida e polêmica foi "Fonte" (1917), na qual Marcel Duchamp utiliza um mictório ou urinol com a assinatura R. Mutt 1917. Nela temos o conceito dos "ready-made" (já pronto) nas obras de arte.

A arte contemporânea busca romper com as linguagens tradicionais tanto nas técnicas, quanto nas formas, nas temáticas, nos materiais etc.

Vários autores e estéticas foram citados ainda na aula e serão retomados depois, inclusive nos textos críticos que vamos avaliar.

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(Postagem difícil de se fazer porque são diversas citações em uma aula e para não escrever coisas sem sentido algum é preciso pesquisar minimamente cada autor ou movimento para fazer essa síntese de fixação dos conceitos que estamos vendo)


segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Cem anos de solidão




Diários e reflexões - 291018

"O mundo terá acabado de se foder no dia que os homens viajarem de primeira classe e a literatura no vagão de carga" (Cem anos de solidão, G. G. Márquez)

Quando despertei nesta manhã de pesadelo, fiquei na cama pensando e buscando explicações de por que as coisas são como são. 

Fiquei pensando em que instante de minha vida meu destino se separou do restante da ampla maioria das pessoas de meu ambiente familiar. Por que motivo me salvei e fiquei do lado certo da história e não me transformei num pobre ou remediado ignorante apoiador do fascismo?

Eu tinha tudo para me transformar em mais um membro da classe trabalhadora imbecilizado. Não faltou em mim o ódio que cega, que tira a razão, que nos faz gado. Não faltou o medo, o medo que temos todos nós que não somos cínicos, amorais ou em menor caso, psicopatas. Não faltou a miséria, que nos desespera e nos exige a prioridade da sobrevivência à qualquer outra coisa. Eu poderia ter sido mais um deles ontem, como quase todos em minha família.

Fui até minha estante de livros e fiquei olhando para ela. Quantas histórias e estórias e conhecimento humano há ali! Já li um pouco daqueles livros, e ainda há muito por ler, se a vida me permitir.

Eu poderia ter sido mais um a ficar do lado errado da história ontem, caso eu não tivesse adentrado o mundo transformador e salvador da leitura das obras clássicas. Em especial das obras clássicas.

Os clássicos da literatura universal acabam virando clássicos e ficando ao longo de décadas e séculos em evidência porque têm algo que nos toca e transforma de maneira definitiva. A partir da leitura daquela obra, algo dentro de você vai ficar marcado como experiência, mesmo sem o leitor ter vivido aquela experiência, boa ou ruim.

A partir do acesso ao ensino superior formal, aos educadores intelectuais, mas também pelo acesso aos educadores e formadores do meu lado da classe trabalhadora, através de formação política, pude melhorar meu roteiro de leituras desde os vinte e poucos anos, porque as veredas e caminhos apresentados a mim fizeram toda a diferença em ser letrado e não ser imbecilizado, sair do analfabetismo funcional, não ser um analfabeto político como parte de nossa "classe média", este conceito pra lá de esquisito.

Acredito que ter me transformado em um leitor, mesmo com a vida me forçando a não sê-lo, por causa da prioridade da sobrevivência do pobre e remediado, deve ter sido um dos motivos de minha salvação em ter ficado do lado certo ontem e não ter optado pelo lado vencedor, lado contrário as liberdades, lado que promete calar e eliminar o que pensa diferente, lado de ultra direita e com ideais fascistas. Mas sei que não foram só as leituras que me salvaram, a criação de meus pais e outras sortes na vida também pesaram.

Com raras exceções, não me lembro de ter grandes leitores em meu ambiente familiar - de pobres e remediados -, familiares que venceram na vida com as oportunidades que o país, os deuses, os pais, tios, irmãos e primos lhes deram (eles acham que é só por meritocracia), e que foram vitoriosos ontem ao apoiarem a candidatura que escandalizou o mundo civilizado.

Espero que o destino do Brasil e do povo brasileiro não esteja traçado há séculos como foi o caso de Macondo, que viveu cem anos de solidão, como previsto pelo sábio Melquíades.

"O primeiro da estirpe está amarrado a uma árvore e o último está sendo comido pelas formigas".

Espero que o Brasil não termine como Macondo. Existem livros e filmes que passei anos com seus nomes martelando em meu cérebro desde a infância, nomes atiçando a nossa curiosidade. Este livro do colombiano García Márquez foi um deles. Esses cem anos de solidão se encaixam como uma luva para o que eu estou sentindo neste momento de minha vida e da vida de meu país. 

Que destino desgraçado o desse povo brasileiro miserável, ignorante e conciliador com a casa-grande que o devora como as formigas de Macondo!

Talvez eu tenha me salvado em estar do lado derrotado ontem, do lado certo da história, não só por ter tido a oportunidade de marcar em mim grandes passagens dos clássicos que já pude ler e me moldar um ser humano melhor, mas também pela oportunidade de conhecer o movimento social organizado, que me tirou o preconceito, os cabrestos da doutrina da casa-grande e os ódios vários que carregava em mim.

Espero que o nosso lado derrotado eleitoralmente mas vitorioso politicamente - o lado certo da história -, recomece hoje mantendo a unidade popular, intelectual e progressista que fez bonito na luta antifascista e que a educação política e libertadora seja um dos pilares da resistência.

Os clássicos da literatura mundial e as novas leituras científicas e sociais estão aí, disponíveis para libertar as pessoas da classe trabalhadora da ignorância, do ódio e do medo.

William

domingo, 6 de outubro de 2013

O Tempo e o Vento, O Continente I – Érico Veríssimo




O Tempo e o Vento – Érico Veríssimo

O Continente I


Literatura Brasileira – 1948


Apresentação

Pois é, a obra do escritor Érico Veríssimo (1905-1975) é totalmente desconhecida para mim. É um grande autor brasileiro e faz parte das minhas inúmeras lacunas culturais.

Dias atrás, deram-me aqueles cinco minutos de querer ler o grande clássico O Tempo e o Vento. Acredito que o motivo maior foi o lançamento recente de um filme baseado na história.

Saí em busca da obra. Após a pesquisa para comprá-la, descobri que são 3 livros em sete volumes e que cada um custava entre 50 e 55 reais. Para piorar, não achei o primeiro volume.

Recorri a alguns sebos e finalmente encontrei os sete tomos relativamente conservados da 31ª edição da Editora Globo, de 1995. Paguei 15 reais por volume e economizei uns 200 reais.

O meu eterno problema (eterno enquanto dure) é a falta de tempo para leituras literárias. Estamos em plena campanha nacional dos bancários e no meio de uma greve que já dura dezenove dias nesta segunda-feira 7/10.

Consegui ler até este fim de semana os quatro primeiros capítulos e fiz a leitura do jeito que gosto. Parei para pesquisar sobre a história do local onde a estória se passa – o Rio Grande do Sul – e sobre o autor também. Foi uma delícia!


Sumário do primeiro tomo

O sobrado – I...............................................1
A fonte......................................................21
O sobrado – II............................................67
Ana Terra...................................................73
O sobrado – III.........................................159
Um certo capitão Rodrigo............................171
O sobrado – IV..........................................317


COMENTÁRIOS

Civilização versus Barbárie

Ao ler os primeiros capítulos de O tempo e o vento (O Continente, 1948), é impossível não comparar com a história de Gabriel García Márquez – Cem anos de solidão (1967). Eu diria que é uma história de 150 anos de solidão.

Lendo o capítulo Ana Terra, fiquei pensando na questão da dicotomia Civilização versus Barbárie, tão utilizada nos séculos passados pelos colonizadores europeus para invadir as terras de outros povos “bárbaros” e matá-los ao apresentarem resistência aos “civilizados” europeus, utilizando o argumento de que os povos europeus estariam levando a civilização aos bárbaros.

Mas não foi sob esse ponto de vista das invasões imperialistas que fiquei pensando na questão da Civilização versus Barbárie. Fiquei pensando mais especificamente sob o ponto de vista discutido por Thomas Hobbes em sua obra O Leviatã (1651), onde há uma descrição da necessidade de construir sociedades e comunidades com regras que limitem a liberdade total dos homens em estado de natureza e lhes impor limites sobre sua liberdade em nome de certa paz e regras de sobrevivência coletiva. As pessoas que aceitam viver nestas sociedades aceitam abrir mão de sua liberdade total em troca de segurança e proteção.

Pensei nisso durante a leitura da parte violenta e sanguinária do ataque dos castelhanos à estância da família de Maneco Terra lá em 1789. Durante dezenas de anos, foram comuns na região os ataques recíprocos entre castelhanos, portugueses, índios e bandos diversos.

Desde tempos imemoriais os homens vivem sob a ameaça de ataques de forasteiros em seus vilarejos, cidades, estados, vilas etc. A ideia de Civitas (Cidades ou Estados) tem a concepção de proteção às pessoas que nessas comunidades ou estados habitam sob determinadas regras limitadoras da liberdade total (em estado de natureza) de cada animal humano – indivíduos.

Estamos na segunda década do século XXI e após milhares de anos de experiência humana em constituir sociedades, ainda não resolvemos o problema Civilização versus Barbárie. Atualmente, temos diversos países, em diversos continentes, com cidades e vilarejos que vivem a barbárie exatamente como foi descrita por Érico Veríssimo na estória de Ana Terra.


“E a arte vai mais longe ainda, imitando aquela criatura racional, a mais excelente obra da natureza, o Homem. Porque pela arte é criado aquele grande Leviatã a que se chama Estado, ou Cidade (em latim Civitas), que não é senão um homem artificial, embora de maior estatura e força do que o homem natural, para cuja proteção e defesa foi projetado.” (O Leviatã, Thomas Hobbes)


Bibliografia:



VERÍSSIMO, Érico. O Tempo e o Vento – O Continente I. Editora Globo. 31ª edição. 1995

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Crónica de una muerte anunciada - Gabriel García Márquez


Capa da edição que li.

Crónica de una muerte anunciada – Gabriel García Márquez


CLÁSSICO COLOMBIANO de 1981


Li este livro de García Márquez em 2005. Reli agora.

“El día en que lo iban a matar, Santiago Nasar se levantó a las 5.30 de la mañana para esperar el buque en que llegaba el obispo. Había soñado que atravesaba un bosque de higuerones donde caía una llovizna tierna, y por un instante fue feliz en el sueño, pero al despertar se sintió por completo salpicado de cagada de pájaros. ‘Siempre soñaba con árboles’, me dijo Plácida Linero, su madre, evocando 27 años después los pormenores de aquel lunes ingrato. ‘La semana anterior había soñado que iba solo en un avión de papel de estaño que volaba sin tropezar por entre los almendros’, me dijo. Tenía una reputación muy bien ganada de intérprete certera de los sueños ajenos, siempre que se los contaran en ayunas, pero no había advertido ningún augurio aciago en esos dos sueños de su hijo, ni en los otros sueños con árboles que él le había contado en las mañanas que precedieran a su muerte” (Fortes traços iniciais na obra de G. G. Márquez)


Antes da leitura desta obra curta, porém de forte impacto, havia lido o mais clássico dos clássicos do autor – Cem anos de solidão, de 1967.

Assim como sempre me chamou a atenção o nome de sua maior história, pois me remete a uma solidão imensa, dolorosa e profunda – e que sempre senti -, “Crônica de uma morte anunciada” também tem um nome muito chamativo.

Quantos de nós não vemos situações que, no fundo, já sabemos que o final será a morte ou evento catastrófico?

Por exemplo, quanto tempo fiquei esperando por aquele telefonema que recebi dizendo que meu pai havia sofrido um infarto? Tudo na crônica de sua vida indicava aquilo. Tudo!

Agora mesmo, a crônica da sobrevida de meu pai, e a crônica da vida cotidiana daquela casa onde meus pais vivem é algo anunciado.


Fui estudante de letras e terminei o bacharelado. Apesar disso, a crônica de minha vida torta levou-me a outros destinos que não fossem viver e apreciar o mundo das letras. Os acasos não me levaram a viver e me sustentar em função das letras.

Como leitor amador, partilho com os leitores do blog minha impressão sobre a leitura desta crônica funérea de Santiago Nasar.

O LIVRO É MUITO BOM!

A história

O narrador-personagem volta a sua cidade natal, muitos anos depois do assassinato de Santiago Nasar, para buscar informações e tentar reconstituir o crime que marcou sua infância, pois ele narrador era membro daquela comunidade que presenciou evento tão bárbaro. Mais que isso, havia relação de amizade entre a vítima e as pessoas de seu relacionamento.

Os personagens da comunidade se conhecem. Uns são meio aparentados dos outros. É fácil visualizar isso para aqueles que cresceram ou já viveram em cidades pequenas ou de interior.

Onde cresci, em Uberlândia, nos anos oitenta, vi assassinatos a facadas assim. Esses crimes de armas brancas eram comuns. É horrível a cena deste tipo de crime!

Pelo que pude averiguar, a história se trata de caso verídico ocorrido na comunidade onde viveu Gabriel García Márquez.

A técnica narrativa

O mais fascinante na obra é a forma como García Márquez reconstitui o assassinato, buscando entender e deixando pistas de que as casualidades foram determinantes para que efetivamente Santiago Nasar fosse morto pelos irmãos Vicario.

Para os estudantes de letras, com tempo e foco no estudo literário, sugiro a leitura tranquila e crítica, que permita avaliar a técnica do tempo narrativo e do formato pouco comum de história que começa do fim para o começo.

Não é qualquer escritor que alcança o objetivo de cativar o leitor já dizendo de cara o desfecho da história e, dali, começar a voltar passo a passo até finalizar no evento que já sabemos.

Essa técnica de García Márquez é demais. Alguém se lembra de como começa a saga secular da família Buendía em “Cem anos de solidão”?

“Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo…”

É isso!

Ler é uma das melhores aptidões do ser humano. É pena que seja a minoria no mundo que tenha o hábito deste prazer.


Bibliografia:

MÁRQUEZ, Gabriel García. Crónica de una muerte anunciada. DeBolsillo, 7ª edición. Editorial Sudamericana S.A. Buenos Aires, 2005.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Refeição Cultural - Ansiedade Nauseante


Capa francesa:
La Nausée by Jean-Paul Sartre

A NÁUSEA – JEAN-PAUL SARTRE, 1938
Trouxe dias atrás, alguns livros de meu primo Jorge Luiz. Ele iria desfazer-se deles e perguntou-me se não queria dar uma olhada e pegar aqueles que eu quisesse.
Dentre vários volumes que peguei por afinidade e valor afetivo, haja vista que foram livros que marcaram minha iniciação ao mundo da literatura, trouxe também alguns que nunca li, mas que os nomes ou os autores sempre ficaram a martelar em minha cabeça.
A NÁUSEA de Sartre era um deles. Como pode um livro chamar-se A Náusea! Não é possível que qualquer pessoa, mesmo que não seja amante da leitura, não fique ao menos instigada a folhear ou saber do que se trata um livro com um nome desses.
A minha história da leitura é marcada por várias situações de nomes que ficaram martelando em minha cabeça por longo tempo até o dia em que se deu o momento da apresentação entre aquele nome martelado e a minha pessoa.
Um dos nomes mais apaixonantes da minha vida foi CEM ANOS DE SOLIDÃO! Obra magistral de Gabriel García Márquez. Só de escrevê-lo aqui neste momento de enunciação, eu me arrepiei. Aliás, lembrando agora da história daquela família - os Buendía -, e de Macondo, continuo arrepiado. Essa é a típica declaração de amor à literatura. Meu corpo declara amor à literatura. Além do arrepio, meus olhos se umedeceram.
Ainda em relação aos nomes que viveram martelando em minha cabeça, assisti na sexta-feira ao filme O CÉU QUE NOS PROTEGE, de 1990, de Bernardo Bertolucci. Também é um nome que me emociona. Tanto a ideia de solidão do livro, quanto a ideia do céu que nos protege, me remetem automaticamente ao que fico pensando naquelas longas noites que passo uma vez por ano na minha caminhada de 85 quilômetros lá em Minas Gerais e que já viraram uma necessidade em minha vida. Só eu mesmo para saber a síntese da minha caminhada com a ideia daquela solidão e com aquele céu que encontro tão estrelado e, às vezes, com a Lua-sol, às vezes, no breu total.
Tenho vivido com grande dificuldade de tempo para ler. Com o passar dos anos e o avanço do tempo de existência, percebo que passei a começar vários livros que acalento o desejo de ler e leio um tanto e acabo não finalizando a leitura. É a ansiedade do tempo passando e de ver que não avancei nas leituras que sempre desejei.
A ansiedade se repetiu neste feriado. Eu poderia ter lido um livro nestes quatro dias e, no entanto, fiquei olhando na estante e nas pilhas espalhadas por todos os lados e as horas passaram, os dias passaram e iniciei várias coisas e não acabei nenhuma. 

No sábado de manhã, peguei MEMORIAL DE AIRES, de Machado de Assis. À tarde, após achar em uma banca de revistas um mangá sobre O CAPITAL, de Marx, o li de uma sentada.
No domingo, peguei FAUSTO, de Goethe, o volume antigo que trouxe de meu primo Jorge Luiz. Na segunda-feira, não li dezenas de páginas de nada, porque liguei o computador para trabalhar. Minto: à tarde, após o trabalho, achei um volume que nem me lembrava de tê-lo e comecei a ler. Tratava-se de O QUE É IDEOLOGIA, de Marilena Chauí, da coleção “Primeiros Passos”. Por fim, hoje, catei o volume de Sartre e já li mais de setenta páginas.
Essa ansiedade em ler tudo que gostaria e não conseguir, com o passar do tempo, virou um ciclo vicioso e negativo para mim.
Para finalizar essa ansiedade da minha incompletude nauseante, assisti ontem na TV à primeira parte do filme CHE, de 2009, de Soderbergh. Por sinal, tenho o DVD em minha estante, mas também nunca peguei para assistir de uma sentada só.

É isso!


Post Scriptum (31/1/16):

Interessante e triste. O drama em relação à dificuldade de leituras literárias segue exatamente o mesmo cinco anos depois. E enquanto isso, a idade da existência vai aumentando, a visão já não é mais a mesma... mas o desejo de leitura continua do mesmo tamanho, imenso!