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domingo, 5 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (35) - Desacordo, Marili Santos



DESACORDO - MARILI SANTOS

 

À revelia

 

dessa nova ortografia

 

para, já disse

 

pára porque eu quero

 

ver o vôo das palavras,

 

com trema e

 

que tremam os gramáticos!

 

Pelo menos largaram

 

o circunflexo da sequência;

 

que faço com as saudades do

 

éi- ói, terrível epopeia;

 

À queima-roupa arrancaram

 

do pé de moleque e do olho da sogra

 

o tal do hífen e a exceção ficou

 

ao deus-dará.


Do blog Valsa Literária (valsaliteraria.blogspot.com)

---

COMENTÁRIO:

Completei a leitura das primeiras cem publicações do blog da professora e escritora Marili Santos. Como já comentei em textos anteriores, a autora desenvolve suas criações literárias em diversas formas discursivas.

Gostei bastante dos contos "A espera da personagem" e "A face azul". Os temas foram bem desenvolvidos e a contista consegue manter a curiosidade das leitoras e leitores sobre o que vem no episódio seguinte. Marili publicou na forma de folhetim, capítulo por capítulo.

Lembro aqui aos leitores e leitoras do blog Refeitório Cultural que estou lendo as criações literárias da poeta, cronista e contista Marili Santos desde o início da página dela em 2011.

Me identifiquei com o tema do poema "Desacordo" porque também tive minhas discordâncias com as reformas impostas pelo Novo Acordo Ortográfico. Escrevi sobre isso algumas vezes no blog.

"o tal do hífen e a exceção ficou / ao deus-dará."

Além de muita coisa ter ficado "ao deus-dará" na língua portuguesa, ainda tenho outras teorias sobre a linguagem humana e as consequências das novas tecnologias do século XXI: avalio que a humanidade vai perder parte considerável de sua capacidade de escrever e manter a linguagem escrita.

Enfim, sigamos lendo poesia e outras formas de linguagem literária e de cultura.

William


terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Presidenta, sim! - Artigo de Marcos Bagno


Marcos Bagno é autor do clássico romance contra o
preconceito linguístico "A língua de Eulália".

Artigo de Marcos Bagno

Se uma mulher e seu cachorro estão atravessando a rua e um motorista embriagado atinge essa senhora e seu cão, o que vamos encontrar no noticiário é o seguinte: “Mulher e cachorro são atropelados por motorista bêbado”. 

Não é impressionante? Basta um cachorro para fazer sumir a especificidade feminina de uma mulher e jogá-la dentro da forma supostamente “neutra” do masculino. 

Se alguém tem um filho e oito filhas, vai dizer que tem nove filhos. 

Quer dizer que a língua é machista? Não, a língua não é machista, porque a língua não existe: o que existe são falantes da língua, gente de carne e osso que determina os destinos do idioma. E como os destinos do idioma, e da sociedade, têm sido determinados desde a pré-história pelos homens, não admira que a marca desse predomínio masculino tenha sido inscrustada na gramática das línguas.

Somente no século XX as mulheres puderam começar a lutar por seus direitos e a exigir, inclusive, que fossem adotadas formas novas em diferentes línguas para acabar com a discriminação multimilenar. 

Em francês, as profissões, que sempre tiveram forma exclusivamente masculina, passaram a ter seu correspondente feminino, principalmente no francês do Canadá, país incomparavelmente mais democrático e moderno do que a França. 

Em muitas sociedades desapareceu a distinção entre “senhorita” e “senhora”, já que nunca houve forma específica para o homem não casado, como se o casamento fosse o destino único e possível para todas as mulheres. É claro que isso não aconteceu em todo o mundo, e muitos judeus continuam hoje em dia a rezar a oração que diz “obrigado, Senhor, por eu não ter nascido mulher”.

Agora que temos uma mulher na presidência da República, e não o tucano com cara de vampiro que se tornou o apóstolo da direita mais conservadora, vemos que o Brasil ainda está longe da feminização da língua ocorrida em outros lugares. 

Dilma Rousseff adotou a forma presidenta, oficializou essa forma em todas as instâncias do governo e deixou claro que é assim que deseja ser chamada. Mas o que faz a nossa “grande imprensa”? Por decisão própria, com raríssimas exceções, como CartaCapital, decide usar única e exclusivamente presidente. 

E chovem as perguntas das pessoas que têm preguiça de abrir um dicionário ou uma boa gramática: é certo ou é errado? Os dicionários e as gramáticas trazem, preto no branco, a forma presidenta. Mas ainda que não trouxessem, ela estaria perfeitamente de acordo com as regras de formação de palavras da língua.

Assim procederam os chilenos com a presidenta Bachelet, os nicaraguenses com a presidenta Violeta Chamorro, assim procedem os argentinos com a presidenta Cristina K. e os costarricenses com a presidenta Laura Chinchilla Miranda. Mas aqui no Brasil, a “grande mídia” se recusa terminantemente a reconhecer que uma mulher na presidência é um fato extraordinário e que, justamente por isso, merece ser designado por uma forma marcadamente distinta, que é presidenta. 

O bobo-alegre que desorienta a Folha de S.Paulo em questões de língua declarou que a forma presidenta ia causar “estranheza nos leitores”. Desde quando ele conhece a opinião de todos os leitores do jornal? E por que causaria estranheza aos leitores se aos eleitores não causou estranheza votar na presidenta?

Como diria nosso herói Macunaíma: “Ai, que preguiça…” 

Mas de uma coisa eu tenho sérias desconfianças: se fosse uma candidata do PSDB que tivesse sido eleita e pedisse para ser chamada de presidenta, a nossa “grande mídia” conservadora decerto não hesitaria em atender a essa solicitação. Ou quem sabe até mesmo a candidata verde por fora e azul por dentro, defensora de tantas ideias retrógradas, seria agraciada com esse obséquio se o pedisse. 

Estranheza? Nenhuma, diante do que essa mesma imprensa fez durante a campanha. É a exasperação da mídia, umbilicalmente ligada às camadas dominantes, que tenta, nem que seja por um simples -e no lugar de um -a, continuar sua torpe missão de desinformação e distorção da opinião pública.


Marcos Bagno é professor de Linguística na Universidade de Brasília

Fonte: CartaCapital


Post Scriptum do blog: por uma questão de apresentação visual no blog, dividi em mais parágrafos as orações originais do autor, sem alterar o conteúdo.


COMENTÁRIO:

Olá prof. Marcos Bagno. PARABÉNS PELO TEXTO! Quando entrei na USP em 2001, passei o primeiro semestre reprogramando a mente em relação à línguas e literatura. Seus textos abriram minha visão sobre a  língua e a linguística. 

Como militante de esquerda e sindicalista, sempre digo que TODAS AS ESCOLHAS SÃO POLÍTICAS, INCLUSIVE AS TÉCNICAS! O resto é tecnicalidades e blá-blá-blá usadas pelo status quo contra o povo... As chamadas decisões "técnicas" nunca olham o que deveria ser o mais importante na vida e na sociedade - a humanidade toda.

Como sindicalista, nunca gostei dessa ideia de ficar pondo "a" em tudo e duplicando palavras em dois gêneros, pois já vi delegações passarem horas em congressos de trabalhadores discutindo isso e deixando a pauta em segundo plano. Mas, pelos argumentos de seu texto, somados ao desejo de nossa presidente Dilma, e lembrando que a língua é fato social, passo a chamar a partir de agora as presidentas de "presidenta tal". Obrigado pela aula, William Mendes

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Rotacização do L nos encontros consonantais


Estou relendo o livro de Marcos Bagno - A língua de Eulália, de 1997. A importância dele para mim é muito grande.

Quando entrei na USP em 2001, foi uma das questões que mais me marcaram o fato dos professores de língua portuguesa insistirem para que os alunos perdessem o preconceito linguístico. É como se dissessem a eles: mudem o programa de seu computador-cérebro.

As pessoas não falam errado, ou "não sabem falar". Elas falam variedades de língua.

A questão da língua única no Brasil também é outra balela, é mito.


ROTACISMO

Marcos Bagno nos explica que existe na língua portuguesa uma tendência natural em transformar em R o L dos encontros consonantais.

Quem diz broco em lugar de bloco não é "burro", não fala "errado" nem é "engraçado", mas está apenas acompanhando a natural inclinação rotacizante da língua.

Vejam abaixo como funciona isso através da etimologia das palavras. O que era L em latim permaneceu L em francês e em espanhol, mas em português se transformou em R.


LATIM..... FRANCÊS...... ESPANHOL.... PORTUGUÊS

ecclesia- ....église .........iglesia ...........igreja
Blasiu- .......Blaise .........Blas ..............Brás
plaga- ........plage ..........playa ............praia
sclavu- ......esclave .......sclavo ...........escravo
fluxu- ........flou .............flojo .............frouxo

O português não-padrão também é coerente às tendências da língua.

"Os falantes do português não-padrão só conhecem encontros consonantais com R. Na variedade deles simplesmente não existem encontros consonantais com L", nos diz Bagno.

Para finalizar o tema, vejamos duas frases com a mesma explicação histórica, onde uma achamos "correta" e a outra "ridícula e engraçada":

- "Cráudia fala ingrês e gosta de chicrete"

- "A igreja de São Brás é perto da praia"


E aí, que tal termos menos preconceito linguístico? Basta entendermos que o objetivo da língua é comunicar e que as pessoas se comunicam de acordo com a variedade vigente no meio onde vivem ou de onde vieram.

William

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Novas regras ortográficas (que não concordo)




Entenda as principais regras do novo Acordo Ortográfico 

Documento unifica a Língua Portuguesa em todos os países que a adota e começa a valer no dia 1º de janeiro de 2009 

Brasília - Pelo novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa essas são as novas formas de se escrever. O documento unifica o idioma em todos os países que o adota e começa a valer na quinta, dia 1º de janeiro, no Brasil. Até dezembro de 2012, a forma atual também é aceita. O resumo tem como colaboradora a professora Stella Bortoni, linguista da Universidade de Brasília (UnB): 

ALFABETO - Hoje tem 23 letras, agora passa a ter 26. O k, w e y voltam ao alfabeto oficial, porque o Acordo entende que é um contrassenso haver nomes próprios e abreviaturas com letras que não estavam no alfabeto oficial (caso de Kg e Km). Além disso, são letras usadas pelo Português para nomes indígenas (as línguas indígenas são ágrafas, mas os linguistas estudiosos desses idiomas assim convencionaram). Na prática: nenhuma palavra passa a ser escrita com essas letras - "quilo" não passa a ser "kilo" - por serem "pouco produtivas" ao português, na opinião da linguista. 

TREMA - somem de toda a escrita os dois pontos usados sobre a vogal "u" em algumas palavras, mas apenas da escrita. Assim, em "linguiça", o "ui" continua a ser pronunciado. Exceção: nomes próprios, como Hübner. (ACHO ISSO UM ABSURDO! NÃO VOU ADOTAR) 

ACENTO DIFERENCIAL - também desaparece da escrita. Portanto, pelo (por meio de, ou preposição + artigo), pêlo (de cachorro, ou substantivo) e pélo (flexão do verbo pelar) passam a ser escritos da mesma maneira. Exceções: para os verbos pôr e poder - do contrário, seria difícil identificar, pelo contexto, se a frase "o país pode alcançar um grande grau de progresso" está no presente ou no passado. (ESSE FIM DO ACENTO DIFERENCIAL É O MAIOR DOS ABSURDOS!) 

ACENTO CIRCUNFLEXO - Desaparece nas palavras terminadas em êem (terceira pessoa do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo de crer, ver, dar...) e em oo (hiato). Caso de crêem, vêem, dêem e de enjôo e vôo. 

ACENTO AGUDO 

1 - Nos ditongos abertos éi e ói, ele desaparece da ortografia. Desta forma, "assembléia" e "paranóia" passam a ser assembleia e paranoia. No caso de "apóio", o leitor deverá compreender o contexto em que se insere – em "Eu apoio o candidato Fulano", leia-se "eu apóio", enquanto "Tenho uma mesa de apoio em meu escritório" continua a ser escrito e lido da mesma forma. 

2 - Desaparecem no i e no u, após ditongos (união de duas vogais) em palavras com a penúltima sílaba tônica (que é pronunciada com mais força, a paroxítona). Caso de feiúra. 

HÍFEN - Deixa de existir na língua em apenas dois casos: 

1 - Quando o segundo elemento começar com s ou r. Estas devem ser duplicadas. Assim, contra-regra passa a ser contrarregra, contra-senso passa a ser contrassenso. Mas há uma exceção: se o prefixo termina em r, tudo fica como está, ou seja, aquela cola super-resistente continua a resistir da mesma forma. 

2 - Quando o primeiro elemento termina e o segundo começa com vogal. Ou seja, as rodovias deixam de ser auto-estradas para se tornarem autoestradas e aquela aula fora do ambiente da escola passa a ser uma atividade extraescolar e não mais extra-escolar. (ACABOU-SE A DÚVIDA COM AUTOATENDIMENTO) 

PORTUGUAL - Caem o "c" e o "p" mudos, como "óptimo" e "acto". Passam a ser grafadas como o Brasil já fazia. Palavras como "herva" e "húmido" também passam a ser escritas como aqui: erva e úmido. 

Fonte: SEEB SP/André Rossi - 02/01/2009

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Domingos Paschoal Cegalla - In: Aliás - Estadão




Voz ativa

Aos 88 anos, o pioneiro da gramática brasileira quer mais ousadia na reforma ortográfica

Mônica Manir - O Estado de S.Paulo

Marcos D'Paula/AE

In medio virtus. Em outras palavras, nem muito ao mar nem muito à terra. Eis a cordilheira sobre a qual se instala Domingos Paschoal Cegalla, gramático que atravessou quase cinco gerações de estudantes brasileiros, quando avalia o caminho que traçou para chegar ao Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa: "Nem demasiada condescendência com os desvios da boa norma, nem caturrice vernaculista".

Não consta, face a face, que o professor Cegalla seja um senhor caturra - a não ser que eu escrevesse tête-à-tête agorinha mesmo, como, enfim, acabo de fazer. Para esse catarinense de 88 anos, voz pausada, olhar etéreo e mãos doces, não devemos nos deixar contaminar por termos peregrinos. Por que hall, se temos vestíbulo? Por que trupe se temos elenco? Por que complô se grassa a conspiração? Aos estrangeirismos que se apegaram ao português feito nhacas, ele propõe um reboco na forma vernácula. Recorde, xorte e imbrólio, no seu ângulo de visão, seriam preferíveis a record, short e imbroglio.

Já diante da possibilidade de confusão que se avizinha com o novo acordo ortográfico, previsto para entrar em vigor nos países lusofalantes a partir de 2009, Cegalla reage com certo agastamento. "Essa reforma é muito tímida e superficial." Queria mais punch, ops!, ousadia para atingir não somente os sinais diacríticos (entre eles o trema, o acento agudo de jibóia e o circunflexo de vôo) como também certas incoerências que se notam no sistema ortográfico brasileiro. Uma desumanidade, por exemplo, é escrever desumano sem h e co-herdeiro com o dito cujo". Ninguém hesitaria em pronunciar corretamente co-herdeiro sem este h, que me parece inútil." Pode parecer perseguição, mas lá vai Cegalla propor a guilhotina nas palavras que começam exatamente com essa mísera letra. Hesitaria seria esitaria; hoje, oje. Assim, de supetão, parecem casos de anencefalia. "Grafa-se hoje porque vem do latim hodie." A bem da simplificação ortográfica, portanto, o h etimológico inicial perderia o emprego.

A bem de romper a estranheza com mudanças, o professor lembra o sistema ortográfico de 1943. Iniciativa da Academia Brasileira de Letras, causou rebuliço porque, entre outras medidas, trocou officio por ofício, psalmo por salmo, attento por atento, rhinoceronte por rinoceronte. "Por ter abolido o th, o ph e as consoantes geminadas inúteis, nossa ortografia, com a espanhola, é das mais avançadas no mundo", categoriza. Sobre sua atração pela língua em si, ele bota o indicador na testa para recobrar o que Eça disse ao amigo Eduardo Prado: "Os brasileiros falam português com açúcar".

Cegalla nasceu duplo "l" em Tijipió, com j e acento no ó, distrito de Tijucas, a cerca de 50 quilômetros de Florianópolis. Lidava com cana-de-açúcar na fazenda do pai, mas o apetite voraz pela leitura não teria vindo da sacarose, e sim de um dom inato. Até os 12 anos deu expansão às suas energias. A partir de então foi enviado a Curitiba para estudar no Colégio Santa Maria, dos irmãos maristas, tradicionalmente dedicados ao ensino. Ainda na capital formou-se em Letras Clássicas pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, não sem antes passar pela hedionda tarefa de trancar a matrícula por quase dois anos para servir no Exército, quando esteve cotado para ser pracinha da FEB. Protocolista na ocasião, enviou um pedido de dispensa ao então ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, e ganhou o aval para voltar aos estudos.

ESTRANGEIRISMOS

"Por que hall se temos vestíbulo"

Passada a guerra, o Paraná ficou pequeno para suas ambições profissionais. Rasgou então a estrada até São Paulo, onde deu aulas de português no Colégio Marista do Carmo, perto da Av. Rangel Pestana, até 1952. Amante da beleza, seja na mulher, seja na natureza, virou e revirou um mapa do Rio até pontuar a zona sul. Mudou-se em 1953, decidido a ficar. No Colégio Rio de Janeiro, em Ipanema, ensinou latim e português a turmas do ginásio. No Santo Inácio, em Botafogo, foi mestre de português e também de literatura, com um diferencial: passou a usar a si mesmo nas aulas. Explica-se. Angustiado com o material didático disponível na época, limitado e sem ilustrações, recheado de textos arcaicos e enfadonhos, Cegalla organizou as anotações feitas durante anos em cadernos de brochura até chegar à Novíssima Gramática da Língua Portuguêsa, que levava circunflexo na época. Era já uma gramática normativa, publicada pela Companhia Editora Nacional e abonada por trechos de obras de autores modernos, como Drummond, Cecília Meireles e Luís Jardim. "As frases não podiam ser muito longas e tinham de oferecer um conteúdo ideológico, um colorido poético." Nananinanã, portanto, para "A mulher pôs a água no fogão e começou a mexer a comida". Prefere "Obelisco não é mourão em que se amarram cavalos" ou "Não se atravessam oceanos só para dançar valsas", cujas autorias aqui não revelamos para quiçá atiçar a curiosidade do leitor.

Confessa que o Novíssima da gramática foi idéia dele, tão-somente dele, inspirado nos Novíssimos Estudos da Língua Portuguesa, do gramático Mário Barreto. O superlativo absoluto poderia se configurar um tiro no pé, não fosse Cegalla pioneiro na tarefa de promover uma arrumação tranqüilizadora e consistente nos fatos gramaticais. "Considero a obra dele de grande respeitabilidade dentro da época em que trabalhou com isso", afirma Maria Helena de Moura Neves, livre-docente da Unesp e da Universidade Presbiteriana Mackenzie, autora entre outros de A Gramática Funcional (Martins Fontes) e usuária da gramática de Cegalla quando deu aulas no ensino fundamental e médio há mais de 20 anos.

O sucesso da obra foi tamanho que o professor repousou o giz na lousa após 35 anos de magistério para se dedicar exclusivamente aos pedidos da editora. Além da Novíssima, em sua 47ª edição, assina a Nova Minigramática, o Dicionário Escolar, dois livros de poesia (Canção de Eurídice e Um Brado no Deserto), o Dicionário de Dificuldades (Lexicon Editora) e traduções de Édipo Rei e Antígona diretamente do grego, essa última, premiada com o Jabuti, que Cegalla, aliás, não foi receber. "Estudei grego na faculdade e depois li a gramática grega sete vezes até assimilar a conjugação". No prelo estão os episódios, segundo ele, mais bonitos da Eneida, de Virgílio, dados à luz em português há seis meses por meio do latim. Também está a caminho a Novíssima Gramática já adaptada ao novo acordo ortográfico.

Pelos números da editora, Cegalla vendeu aproximadamente 16 mil exemplares da Novíssima no ano passado, enquanto seu dicionário com mais de 20 mil verbetes, incorporado pelo Programa Nacional do Livro Didático, porém não organizado por ele, chegou a 1,5 milhão de exemplares. Com os direitos autorais acumulados por décadas ele ergueu seu patrimônio, que abraça um imóvel em condomínio fechado no Leblon para uso próprio, da mulher e de um dos quatro filhos, mais apartamentos que aluga a turistas no Rio. Não obstante, ser gramático normativo não lhe rende atualmente verdes louros na academia, avessa a descritivismos tradicionais e defensores arraigados da língua. Seu isolamento também o afastou das rodas lingüísticas, que Cegalla, com toda a delicadeza, considera pouco funcionais. "A prática da língua se aprende na gramática.

"No terceiro andar da casa do Leblon, ele respira imperativos, concordâncias verbais, vozes passivas, sufixos nominais e superlativos absolutos sintéticos eruditos que emanam de aproximadamente 5 mil seletos títulos, a saber, obras completas de Machado, Bandeira, Vinicius, Drummond, Alexandre Herculano e outros que pinça de acordo com a necessidade e o humor. Do último livro que leu, não se lembra. Era autor português novo, e são muitos os autores novos de qual língua quer que seja. As histórias, na verdade, lhe são secundárias.

Escarafuncha a estrutura das frases e, por isso, considera-se moroso na leitura. Leva de uma a duas semanas para terminar um romance médio, também porque as pelejas de futebol roubam algumas de suas noites e tardes. Impossível saber se sempre andou com vagar ou se é a idade que dita seu ritmo. Mas é lépido no gatilho para perceber que alguém se constrange ao se sentar ante um gramático: "Sempre evitei corrigir as pessoas quando falam por outra cartilha". Logo diz para os convivas se acalmarem e conversarem naturalmente, para não terem receio, que não é nenhum bicho-papão. Mas ai de ti se disser cataclisma ou se pedir que coloque menas água no copo. "Aí eu não resisto."

Fonte: O Estado de SP, 5/10/08



Post Scriptum (5/4/20):

Em geral, quando releio textos anteriores ao novo padrão ortográfico da Língua Portuguesa, eu corrijo as palavras. Mas não teria sentido fazer isso neste texto com o Cegalla porque o texto inclusive aborda mudanças que vão ocorrer ou que deveriam ocorrer - na opinião dele - no ano seguinte a esta entrevista. Cegalla faleceu em 2013. 

sábado, 6 de dezembro de 2008

Inglês 5


Fotografia: Urubu na janela. De: William.

Acabei de ver a lição número 5 do CD-Rom. Vamos tentar amanhã fazer minhas lições de Morfologia do Português. Hoje só rolou na parte da manhã.

É o prego. O prego que estou.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Morfologia - A flexão nominal de número




Oposição entre um indivíduo e mais de um indivíduo.


Como diz Saussure (1922) na língua tudo é oposição.

A situação especial fica por conta dos COLETIVOS, em que a forma singular envolve uma significação de plural. Como se trata de uma UNIDADE homogênea, vem no singular.

Mattoso nos diz sobre alguns casos particulares:

Tanto o plural para a indecomposição linguística de uma série de partes componentes (núpcias, exéquias, funerais), como para a expressão da amplitude (trevas, céus, ares) foram reunidos na gramática greco-latina sob a designação de PLURALIA TANTA, ou, menos adequadamente, PLURAL MAJESTÁTICO.


MORFEMA FLEXIONAL DE PLURAL

O morfema flexional de plural, oposto a um zero (0 singular), é fonologicamente o arquifonema /S/ das 4 fricativas não-labiais (sibilantes: /s/-/z/; chiantes: /s'/-/z'/) em oposição pós-vocálica final.

A sua representação fonológica como /S/ corresponde à realização do morfema diante de pausa. Esta posição parece a mais natural, desde que estejamos focalizando o vocábulo formal isolado. Ela está implícita na letra -s como signo de plural na língua escrita.


OU SEJA, o que verificamos é que há dentro de um dialeto regional, três ou pelo menos dois fonemas possíveis para o morfema flexional de plural em português.


O MORFEMA FLEXIONAL DE PLURAL SE REALIZA COM DOIS OU TRÊS ALOMORFES.

ALOMORFIAS:

1- Alomorfe zero (0) para os nomes paroxítonos terminados em /S/.

Ex.:

- flor simples (simples singular), flores simples (simples plural);
- ourives perito (ourives singular), ourives peritos (ourives plural).

2- Nomes terminados por consoantes no singular que seriam formas teóricas com um tema de vogal -e.

Ex.:

- mar(e)s;
- animal(e)> anima(l)es> animais;
- paz(e)s.


3- Caso mais complexo é o dos nomes de singular em -ão, tônico ou átono. O singular neutraliza 3 estruturas radicais distintas, ou antes, uma estrutura de tema em -e e outra, que ora tem o tema em -e, ora tem o tema em -o. Nesta última a forma teórica coincide com a forma concreta singular e o plural se faz regularmente pelo acréscimo de /S/ do plural:

Ex.:

- irmão-irmãos;
- órfão-órfãos.

Já a vogal do tema em -e se combina com uma estrutura terminada em -ã/aN/ e outra terminada em -õ/oN/. A vogal do tema se incorpora como assilábica à sílaba de travamento nasal e este passa a travar o tema:

Ex.:

- pãe/pa'N/ > pães;
- leõe/leo'N/ > leões.

Donde:

1) -ão: -ãos; -ãe: -ães. (só em mãe o tema teórico se realiza no singular: mãe:mães); -õe: -ões.

-ÕE: -ÕES é a estrutura mais frequente, ou antes, a estrutura geral, de sorte que a maioria dos singulares em -ão, sendo teoricamente õe, forma o plural em -ões.

As duas outras estruturas são tão reduzidas que se podem esgotar em pequenas listas.

É bom lembrar que existe variação livre de duas ou três estruturas teóricas para vários nomes:

Ex.:

- aldeão = aldeões, aldeãos e aldeães.


Bibliografia:

CÂMARA Jr., J. Mattoso: Estrutura da Língua Portuguesa, 23ª edição, Editora Vozes, Petrópolis 1995.

Regras básicas na descrição do gênero nominal




Um resumo básico de Mattoso Câmara nos ajuda bastante na descrição do gênero nominal:

1) Nomes substantivos de gênero único.

Ex.: (a) rosa, (a) flor, (a) tribo, (a) juriti, (o) amor, (o) livro, (o) colibri, (o) homem, (a) mulher.


2) Nomes de dois gêneros sem flexão.

Ex.: (o,a) artista, (o,a) intérprete, (o,a) mártir.


3) Nomes substantivos de dois gêneros, com uma flexão redundante.

Ex.: (o) lobo, (a) loba, (o) mestre, (a) mestra, (o) autor, (a) autora.


O ARTIGO:

O artigo, que, como partícula pronominal adjetiva, tem uma função significativa bem definida, tem a mais a função de marcar, explícita ou implicitamente, o gênero dos nomes substantivos.


Bibliografia:

CÂMARA Jr., J. Mattoso: Estrutura da Língua Portuguesa, 23ª edição, Editora Vozes, Petrópolis 1995.

A flexão de gênero e seus alomorfes




Relembrando...

A flexão de gênero é uma só, com pouquíssimos alomorfes: o acréscimo, para o feminino, do sufixo flexional -a (/a/ átono final) com a supressão da vogal temática, quando ela existe no singular: lob(o) + a = loba; autor + a = autora.


ALOMORFIAS NA FLEXÃO DO GÊNERO:

1- o par opositivo avô-avó.

2- as formas teóricas em /oN/
Ex.: bom /boN/ = boa; leão /leoN/ = leoa.

3- o sufixo derivacional aumentativo /oN/ vai para a sílaba seguinte como consoante /n/ acrescido da desinência –a: valentão /valeNtoN/ = valentona.

4- os radicais em /aN/ com tema em -o suprimem a vogal do tema no feminino: órfão-órfã; irmão-irmã.

5- o sufixo derivacional -eu suprime a vogal do tema -o /u/ e se ditonga ao acrescentar a desinência -a: europeu-europeia.

6- alternância da tonicidade, além do acréscimo da desinência -a:
Ex.: -oso /ôz/ = -osa /óz/ gostoso-gostosa
grosso /ôs/ = grossa /ós/

Segundo Mattoso Câmara, essas alomorfias se resolvem pelo dicionário, em que basta haver uma entrada para a forma teórica, em vez de se averbar simplesmente a forma de masculino.

Diz ainda: da mesma sorte, é ao dicionário que cabe informar sobre a chamada heteronímia no gênero, que não é mais do que a restrição a um gênero único de determinado membro de um par semanticamente opositivo. Por exemplo: homem, registrado como masculino, com uma remissão a mulher, por sua vez registrada como feminino.


Bibliografia:

CÂMARA Jr., J. Mattoso: Estrutura da Língua Portuguesa, 23ª edição, Editora Vozes, Petrópolis 1995.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Morfologia - O nome e suas flexões




(muitas frases aqui são citações do texto do professor Mattoso Câmara)


Relembrando...

Radical e tema são distintos. O tema vem a ser o radical ampliado por uma vogal determinada, que entra na flexão dos nomes e dos verbos.

Além dos verbos em temas 'a', 'e' e 'i', há nos nomes os temas em -a (rosa, poeta, planeta), os temas em -o /u/ átono final (livro, tribo, cataclismo) e os temas em -e /i/ átono final (dente, ponte, análise).

Assim, não se confunde a desinência de feminino -a, que aparece especialmente nos temas em -o (lobo, loba) e a vogal temática em -a, que não é marca de gênero (cf. poeta, masculino; artista, masculino ou feminino, conforme o contexto).


Os NOMES se dividem em SUBSTANTIVOS e ADJETIVOS. O contexto mostra qual é determinado e qual é determinante.

Ex.:
- marinheiro brasileiro = marinheiro (subst.) de nacionalidade brasileira (adj.);
- brasileiro marinheiro = brasileiro (subst.) de profissão marinheiro (adj.).


ADJETIVOS: a maioria tem temas em -o e -e. Os em -o têm a flexão de feminino em -a e os em -e não têm flexão, são neutros.

Ex.:
- homem corajoso, mulher corajosa;
- homem grande, mulher grande.


SUBSTANTIVOS: podem ter feminino em -a quando são de tema em -e ou quando são atemáticos.

Ex.:
- mestre-mestra; autor-autora; peru-perua.


INCOERÊNCIA NA APRESENTAÇÃO TRADICIONAL DAS GRAMÁTICAS

A flexão de gênero é exposta de uma maneira incoerente e confusa nas gramáticas tradicionais do Português. É ruim a forma de associação ao sexo dos seres para se falar da natureza semântica das palavras.

O gênero abrange todos os nomes no Português e não só os nomes de seres e, mesmo nestes, há problemas, pois para os animais temos os chamados substantivos EPICENOS, como cobra, sempre feminino, e tigre, sempre masculino.

Na realidade, o gênero é uma distribuição em classes mórficas, para os nomes, da mesma sorte que o são as conjugações para os verbos.

O mais que podemos dizer, porém, em referência ao gênero, do ponto de vista semântico, é que o masculino é uma forma geral, não-marcada, e o feminino indica uma especialização qualquer (jarra é uma espécie de jarro, barca um tipo especial de barco, como ursa é a fêmea do animal chamado urso)


NÃO É COERENTE confundir com flexão a RELAÇÃO SEMÂNTICA entre as palavras HOMEM e MULHER. Aqui, não se trata de flexão de gênero como afirmam as gramáticas.

O processo nesse caso é lexical ou sintático e não de flexão.


Na descrição da flexão de gênero em português não há lugar para os chamados 'nomes que variam em gênero por heteronímia'. O que há são substantivos privativamente masculinos, e outros, a eles semanticamente relacionados, privativamente femininos.

Nos casos de imperador-imperatriz, galo-galinha, perdigão-perdiz, o que ocorre não é um processo de flexão de gênero e sim um caso de derivação com os sufixos -TRIZ, -INHA, -ÃO.

IMPORTANTE: 

A flexão de gênero é uma só, com pouquíssimos alomorfes: o acréscimo, para o feminino, do sufixo flexional -a (/a/ átono final) com a supressão da vogal temática, quando ela existe no singular: lob(o) + a = loba; autor + a = autora.


Bibliografia:

CÂMARA Jr., J. Mattoso: Estrutura da Língua Portuguesa, 23ª edição, Editora Vozes, Petrópolis 1995.

Procrastino, pois estou cansado




Confesso que estou procrastinando em relação a estudar para minha prova de Morfologia.

E olha que o tema é interessante. Mas estou destruído de cansaço devido ao trabalho sindical diário...

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Aula de Morfologia do prof. Emilio - Derivação




(eventuais equívocos conceituais são de minha responsabilidade)

DERIVAÇÃO - tipos de situação

1) alteram a categoria da palavra
prefixos: não sufixos: sim

2) apresentam as categorias nominais (gênero/número)
prefixos: não sufixos: sim

3) alteram o acento primário
prefixos: não sufixos: sim

SUBCATEGORIZAÇÃO

verbo: crer (em) descrer (de)
verbo: pensar (em) repensar (vazio)

AFIXOS - são eles que selecionam a base e não o inverso (selecionam adjetivos, substantivos e verbos)

base[categ]x = [afixo + base]y


NOMINALIZAÇÃO

bases: adjetiva, substantiva, verbal

adjetiva: -dade [x]n+dade = [[x]n dade]subst.
ex.: bom + dade = bondade

substantiva: -al [x]n+al = [[x]n al]subst.
ex.: banana + al = bananal

verbal: -ção [x]v+ção = [[x]v ção]subst.
ex.: realizar + ção = realização

ADJETIVAÇÃO

bases: adjetiva, substantiva, verbal

adjetiva: -íssimo [x]n+íssimo = [[x]n íssimo]adjetivo
ex.: bonito - bonitíssimo

nome: -oso [x]n+oso = [[x]n oso]adjetivo
ex.: bom + oso = bondoso

verbo: -vel [x]v+vel = [[x]v vel]adjetivo
ex.: lavar + vel = lavável

VERBALIZAÇÃO

bases: adjetiva, substantiva, verbal

adjetiva: -ec(er)
derivação parassintética, duas partes que fazem parte do mesmo processo: em[branqu]ecer

branqu=branc (a mesma raiz, só mudou a grafia)

en[gord]ar / a[vermelh]ar

substantivas:
cola > colar (subst. criou o verbo. o subst. é mais concreto)
data > datar (idem)

OBSERVAÇÕES IMPORTANTES DA AULA:

A CLASSE na derivação quem dá é o SUFIXO. Ex.: tudo que tem -OSO é adjetivo.

Substantivo pode ser usado como adjetivo. Veja os exemplos: navio-escola; sofá-cama; couve-flor

Aqui, o segundo qualifica o primeiro.

TOME uma base de natureza nominal, aplique o afixo -OSO e tem-se então um adjetivo. Esta é uma regra de formação de palavras. Alguns sufixos são produtivos (disponível para formar palavras novas). Outros não (ou menos).

Às vezes, os afixos selecionam também por certas características semânticas (além de categoria)

OU SEJA, o sufixo: qual a categoria seleciona? Tem algo mais semântico? Que categoria gera?

Em situações como:
pular > o pulo
comprar > a compra
perder > a perda

Muitos linguistas defendem que o verbo gerou o substantivo e não o inverso. As palavras derivadas manteriam "o processo" contido na palavra primitiva.



terça-feira, 18 de novembro de 2008

Estudos de Português histórico




Leitura do texto "Breve notícia da ortografia portuguesa", de Antonio Martins de Araújo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil. 

1 - Nos labirintos da 'Scriptologia' Medieval 

A existência de grande número de variantes léxicas é fruto dos dilemas dos 'manuscritores' desde 1200. 

Ou se grafava as palavras cunhadas a partir de matrizes da língua-mãe, ou se grafava a partir da impressão auditiva vinda da emissão dos novos vocábulos. 

Só a palavra IGREJA, por exemplo, já conta nas pesquisas filológicas com mais de 50 variantes morfológicas e/ou meramente gráficas. 

Ex.: ecclesia, egleja, eglesa, eglessa, eglisa (...) eigleja, eygreya, eygreygya, igleja, igrejja, iglisa, igriga. 


2 - O dilema inicial: conservar ou inovar? 

Há posições antagônicas desde os séculos XVI, XVII etc. 

"em guardar a orthographia cõforme à ethymologia & pronunciação dos vocábulos" (Gândavo, Regras que ensinam a maneira de escrever a orthographia da língua portuguesa - 1574

"o escrever como se pronuncia, he com a penna imittar a língua, estampar com letras aquillo, que declaramos com palavras (não acrescentando, nem diminuindo, pois não he necessario, antes fiqua sendo mais perfeito o modo de aquelle, que cõ esta arte imittar a natureza)" (Álvaro Ferreira de Vera, Orthographia ou modo para escrever certo na língua portuguesa - 1631

Outros autores, apesar de irem na linha conservadora e latinista, acabam aceitando mudanças linguísticas como, por exemplo, Bento Pereira em Regras gerais, breves e comprehensivas da melhor orthographia com que se pódem evitar erros no escrever da língua latina, & Portuguesza. Para se ajuntar à Prosodia. Coimbra, Joseph A. da Sylva, 1733. (A 1a ed. é de 1666) 

"Para que guardemos certeza ou verdade em nossa escritura, assim devemos escrever, como pronunciamos, & pronunciar como escrevemos. D'outra maneyra será nosso escrever mentiroso" 

Bibliografia: 

PEREIRA, Cilene da Cunha & PEREIRA, Paulo Roberto Dias. ORG. e COORD. Miscelânea de estudos linguísticos, filológicos e literários in Memoriam Celso Cunha. Ed. Nova Fronteira, 1995, RJ.

Morfologia - Morfemas




MORFEMAS são unidades significativas mínimas. 

Ex.: 'ruas' = 'rua' + '-s' 

Os morfemas podem ser livres ou presos: 

LIVRES - figuram sozinhos como vocábulos. Ex.: 'rua' 

PRESOS - não se encontram isolados e com autonomia vocabular. Ex.: morfema de plural 's' 

Quanto à natureza, podem ser: 

LEXICAIS - significação externa: relação com o mundo extralinguístico. É uma classe aberta, infinita. Ex.: porta; ódio; curupira. 

GRAMATICAIS - significação interna, pois deriva das relações e categorias levadas em conta pela língua. É uma classe fechada. É finito e restrito no idioma. Ex.: artigos, preposições, vogais temáticas, marca de plural '-s'. 

Bibliografia: 

CUNHA, Celso & CINTRA, Lindley. A nova gramática do português contemporâneo. 3a edição revista. Ed. Nova Fronteira, 2001, RJ.

domingo, 16 de novembro de 2008

O mecanismo da flexão portuguesa (4)




CONCLUSÃO DO ASSUNTO NO TEXTO DE MATTOSO: 

"Uma complexidade da língua portuguesa, que prolonga uma situação latina, é a distinção que convém fazer entre radical e 'tema'. O tema vem a ser o radical ampliado por uma vogal determinada, que entra assim na flexão dos nomes e dos verbos. 

Em vez de CANT-, FAL-, GRIT-, por exemplo, temos os temas em -a: CANTÁ-, FALÁ-, GRITÁ-, que colocam esses verbos numa classe morfológica, dita 1a conjugação. Analogamente, temos a classe dos verbos de tema em -e- (2a conjugação) e a dos de tema em -i- (3a conjugação). 

Não é costume das nossas gramáticas estabelecer a mesma distinção para os nomes. Mas a conveniência de fazê-lo me parece inegável. Há nos nomes os temas em -a (rosa, poeta, planeta), os temas em -o /u/ átono final (livro, tribo, cataclismo) e os temas em -e /i/ átono final (dente, ponte, análise). Assim não se confunde a desinência de feminino -a, que aparece especialmente nos temas em -o (lobo, loba) e a vogal temática -a, que não é marca de gênero (cf. poeta, masculino; artista, masculino ou feminino conforme o contexto). 

Nos nomes, a ausência da vogal temática cria as formas que podemos chamar atemáticas e se circunscrevem, a rigor, aos oxítonos em -á, ou -ê, -ó, ou -ô, -u e -i (alvará, candomblé, noitibó, urubu, tupi). Os nomes terminados no singular em consoante pós-vocálica têm uma forma teórica em -e /i/ átono final, que se deduz dos plurais. Compare-se: feliz - felizes, mar - mares, e assim por diante (nos nomes terminados em /l/ há regras especiais que alteram superficialmente o resultado)." 

Bibliografia: 

CÂMARA Jr., J. Mattoso: 

.Estrutura da Língua Portuguesa, 23a. edição, Editora Vozes, Petrópolis 1995.

O mecanismo da flexão portuguesa (3)




A rigor, só se encontram em português SUFIXOS FLEXIONAIS nos nomes e nos verbos. 

NOMES - em GÊNERO e NÚMERO. 


VERBOS - TEMPO E PESSOA GRAMATICAL 


NOMES 

GÊNERO - oposição entre forma masculina e feminina. Flexão básica: um sufixo ou desinência -a (átono final) para marcar o feminino. 

NÚMERO - contraste entre a forma singular e plural. Presença de um sufixo flexional ou desinência /S/ no final da última sílaba. 

"o masculino e o singular se caracterizam pela AUSÊNCIA das marcas de feminino e de plural" (morfena gramatical ZERO - 0) 

O CASO DOS PRONOMES: 

O que diferencia no caso dos pronomes (em relação aos nomes) são 3 noções gramaticais: 

PESSOA GRAMATICAL - referência no âmbito do falante (1a pessoa), no ouvinte (2a pessoa) ou fora da alçada dos dois interlocutores (3a pessoa). A referência também pode ser pra uma ou mais pessoas (4a, 5a e 6a, ou seja, 1a, 2a e 3a do plural) 

Aqui, esta noção não se trata de flexão e sim de vocábulos lexicais. 

GÊNERO NEUTRO para PRONOMES em FUNÇÃO SUBSTANTIVA - referência a coisas inanimadas (isto, isso, aquilo) ou formas específicas para humanos (alguém, ninguém, outrem) 

CATEGORIA DE CASOS para PRONOMES - diversos vocábulos de pronomes para formas retas e oblíquas. 

"As três noções gramaticais características dos pronomes NÃO ENTRAM NO MECANISMO FLEXIONAL da língua portuguesa." 

SÃO EXPRESSAS LEXICALMENTE por mudança de vocábulo. 

"Em relação aos nomes e pronomes, as noções gramaticais que se expressam por flexão são apenas as do gênero masculino e feminino e as de número singular e plural. E tanto para os nomes como para os pronomes, o mecanismo flexional é aí o mesmo." 

VERBOS 

Há duas noções muito diferentes que se completam para flexionar o vocábulo verbal. 

TEMPO - para designar a ocasião da ocorrência do que o verbo refere, do ponto de vista do momento da comunicação. Aqui acumula-se a noção de MODO (indicativo, subjuntivo, imperativo) e ASPECTO completo ou incompleto (perfeito/imperfeito). 

PESSOA GRAMATICAL DO SUJEITO - noção contida no vocábulo formal. 

Bibliografia: 

CÂMARA Jr., J. Mattoso: 

.Estrutura da Língua Portuguesa, 23a. edição, Editora Vozes, Petrópolis 1995.

O mecanismo da flexão portuguesa (2)




O QUE DIZEM NOSSAS GRAMÁTICAS PORTUGUESAS... 

Costuma-se chamar de FLEXÃO DE GRAU, ocorrências como: 

fácil - facílimo 
triste - tristíssimo 
negro - nigérrimo 

Faltam no processo, para MATTOSO, entretanto, as condições para tal. 

Não há obrigatoriedade no emprego do adjetivo com esse sufixo de superlativo (é mais uma questão de estilística) e não há uma sistematização coerente para todos os adjetivos (paradigma exaustivo e exclusivo) 

O QUE OCORRE COM OS SUPERLATIVOS É UMA DERIVAÇÃO. 

"Em outros termos. A expressão de grau não é um processo flexional em português, porque não é um mecanismo obrigatório e coerente, e não estabelece paradigmas exaustivos e de termos exclusivos entre si" 

CONFUSÃO COM AS REGRAS DO LATIM: 

No latim havia morfemas gramaticais para graus (complexo flexional). Em português, o processo comparativo é SINTÁTICO e não de morfemas. 

Ex.: 

HOMO FELIX - homem feliz 
HOMO FELICIER LUPO - o homem é mais feliz do que o lobo 
HOMO FELICISSIMUS ANIMALIUM - o homem é o mais feliz dos animais 

Ou seja, mecanismos sintáticos no português: 

... mais do que... 
... o mais... dos... 

Varrão, diria aqui "DERIVATIO VOLUNTARIA" 

Bibliografia: 

CÂMARA Jr., J. Mattoso: 

.Estrutura da Língua Portuguesa, 23a. edição, Editora Vozes, Petrópolis 1995.

O mecanismo da flexão portuguesa




O termo FLEXÃO é a tradução do alemão BIEGUNG 'flexão, curvatura', introduzido pelo velho filólogo Schlegel (1772-1829) e serve para indicar que UM DADO VOCÁBULO SE DOBRA A NOVOS EMPREGOS. 

Em Português equivale a segmentos fônicos pospostos ao radical - ou sufixos. São os SUFIXOS FLEXIONAIS, ou DESINÊNCIAS, que não se devem confundir com os sufixos derivacionais, destinados a criar novos vocábulos. 

Para Varrão (116 a.C. - 26 a.C.) se trata de DERIVATIO NATURALIS, para indicar modalidades de uma dada palavra e DERIVATIO VOLUNTARIA, que cria novas palavras. 

No caso das DERIVAÇÕES, os morfemas gramaticais não constituem um quadro regular, coerente e preciso. 

Na FLEXÃO há OBRIGATORIEDADE E SISTEMATIZAÇÃO COERENTE: É naturalis. Os morfemas flexionais estão concatenados em paradigmas coesos e com pequena margem de variação. 

Na língua portuguesa também há a necessidade da CONCORDÂNCIA. 

Na FLEXÃO existe uma RELAÇÃO FECHADA: "a lista de termos é exaustiva, 'cada termo exclui os demais' e não está na nossa vontade introduzir um novo termo no quadro existente" (Halliday). 

AO CONTRÁRIO, para cada vocábulo, há sempre a possibilidade, ou a existência potencial, de uma DERIVAÇÃO. A lista dos seus derivados não é nem exclusiva nem exaustiva. 

Bibliografia: 

CÂMARA Jr., J. Mattoso: 

.Estrutura da Língua Portuguesa, 23a. edição, Editora Vozes, Petrópolis 1995.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Leituras sobre Chris McCandless e Tolstói




Refeição Cultural


Ontem, terminei a leitura do livro de Krakauer sobre a aventura de Alexander Supertramp, ou seja, McCandless, o jovem da história "Na natureza selvagem".

Continuo ouvindo a trilha sonora do filme na voz de Eddie Vedder todos os dias.

Fiquei pensando nos livros que ele leu e carregou por suas andanças. Comprei hoje e estou terminando o romance de Tolstói "A morte de Ivan Ilitch", na tradução de Boris Schnaiderman, pela Editora 34.

Tudo bem! Também estou tentando me preparar para a difícil prova de Morfologia que farei em breve (o mesmo que física quântica pra mim).

Também tenho a matéria de Filologia pra fazer um trabalho nos próximos dias.

Estou focando meu objetivo de estar no início de minha caminhada na Espanha em maio do ano que vem.

William


POST SCRIPTUM (2014)

Pois é, a vida e suas surpresas... eu tive que abortar a minha peregrinação no Caminho de Compostela pela 2ª vez. Quem sabe um dia eu a faça... (enquanto isso, vou fazendo a minha caminhada em MG todo ano como fiz novamente em 2014, onde tive a grata surpresa de fazê-la na companhia de meu filho)

As matérias da faculdade em questão foram finalizadas bem. Só descobri agora que o sistema da FFLCH acusa que devo uma matéria de Literatura Portuguesa para completar as duas grades - Português e Espanhol... é mole?

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Vocábulos formais e análise mórfica (2)




Vamos lá! 

Na questão dos vocábulos formais temos as formas livres, presas e dependentes: 

FORMAS LIVRES: constituem uma sequência que pode funcionar isoladamente como comunicação suficiente. Ex.: luz, proscrever, cachorro. 

FORMAS PRESAS: sequência que só funciona ligada a outra(s). Ex.: o 'pro' de proscrever; o 'in' de infeliz; etc. 

FORMAS DEPENDENTES: é uma forma que não é livre, porque não pode funcionar isoladamente como comunicação suficiente, mas também não é presa, porque pode se disjungir da forma livre a que está ligada. 

Ex.: o artigo 'a' em "a lei" porque pode-se intercalar mais vocábulos entre eles, ou seja, "a grandiosa lei". 

Também é possível alternar a posição da forma dependente em relação a forma livre (o que não ocorre com a forma presa). É o caso dos pronomes átonos junto aos verbos. Ex.: "fala-se" pode ocorrer na forma "se fala". 

"São por isso vocábulos formais, porque são formas dependentes, em português, as partículas proclíticas átonas, como o artigo, as preposições, a partícula QUE e outras mais. São-no igualmente, como acabamos de ver, as variações pronominais átonas junto ao verbo, em vista de poderem ficar com ele em próclise ou em ênclise." 

Bibliografia: 

CÂMARA Jr., J. Mattoso: 

.Estrutura da Língua Portuguesa, 23a. edição, Editora Vozes, Petrópolis 1995.