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sábado, 14 de novembro de 2009

Refeição Cultural 38 - Simbolismo (VI)

A questão da saudade na literatura e nação portuguesa

Psicanálise mítica do destino português - Eduardo Lourenço, de 1978

Pela leitura que já pude fazer do texto, notei o quanto ele é complexo, daqueles de difícil leitura onde você volta ao parágrafo várias vezes. Entretanto, o texto é muito esclarecedor em relação a uma possibilidade de leitura do que seria a alma portuguesa, o viver português.

De maneira geral, o entendimento que tenho é de que o povo português conviveu sempre com uma ideia de si próprio, em relação à sua história e seu passado, mais idealizada do que real, de maneira que ele está sempre buscando construir um presente e futuro gloriosos de acordo com um passado nunca realizado.

A questão do Saudosismo Português viria desta matriz mental inserida no cotidiano da lusitaneidade.

A HISTÓRIA DE PORTUGAL - ROBINSONADAS

Uma autópsia da nação portuguesa revelaria "o irrealismo prodigioso da imagem que os Portugueses se fazem de si mesmos".

"As 'Histórias de Portugal', todas, se exceptuarmos o limitado mas radical e grandioso trabalho de Herculano, são modelos de 'robinsonadas': contam as aventuras celestes de um herói isolado num universo previamente deserto".

VISÃO MÍTICA DE PORTUGAL: OBRA DA PROVIDÊNCIA DIVINA

"A mistura fascinante de fanfarronice e humildade, de imprevidência moura e confiança sebastianista, de 'inconsciência alegre' e negro presságio, que constitui o fundo do carácter português, está ligada a esse acto sem história que é para tudo quanto nasce o tempo do seu nascimento. Através de mitologias diversas, de historiadores ou poetas, esse acto sempre apareceu, e com razão, como da ordem do injustificável, do incrível, do milagroso, ou num resumo de tudo isso, do providencial".

PORTUGAL FOI AOS MARES, ESPANHA FICOU COM A GLÓRIA

De certa maneira podemos ver a idade média como a Europa liquidando o feudalismo e criando o mundo moderno (capitalismo, protestantismo, ciência), Portugal ampliando o mundo conhecido e depois, com Colombo, a Espanha assumindo a fama.

OS LUSÍADAS - PASSADO GLORIOSO "MÍTICO"

O autor nos cita Os Lusíadas da seguinte maneira: "Da nossa intrínseca e gloriosa ficção Os Lusíadas são a ficção".

Sobre o período de 60 anos de convívio Portugal-Espanha, o que ficaria aos portugueses seria: "que nos descobríssemos às avessas, que sentíssemos na carne que éramos (também) um povo naturalmente destinado à subalternidade".

Depois dessa descoberta, de onde podemos dar como exemplo a eterna espera de um milagre redentor no sebastianismo, "tornou-se então claro que a consciência nacional (nos que a podiam ter) que a nossa razão de ser, a raiz de toda a esperança, era o termos sido. E dessa ex-vida são Os Lusíadas a prova do fogo".

PORTUGAL INVENTA O PASSADO E O FUTURO

"Orienta-se nessa época para um futuro de antemão utópico pela mediação primordial, obsessiva, do passado".

"Nunca se meditou a sério em actos tão significativos como os da invenção de falsos documentos pelos monges de Alcobaça para provar a nossa existência legal no passado, assim como, já depois da ressurreição, no labor incrível dos nossos juristas para justificar o nosso direito a um lugar ao sol entre os povos livres".

SÉCULO XIX PORTUGUÊS: ALGE DA ESQUIZOFRENIA

"Os começos do século XIX, momento em que o raio da História nos caiu em casa, na sossegada e sonambúlica casa portuguesa, farão desse processo uma estrutura que se manifesta sem falhas há cento e oitenta anos. Em nenhum tempo do seu percurso a existência nacional foi vivida em termos tão esquizofrênicos como no século XIX".

"Aberto com a fuga da família real para o Brasil, o século liberal termina com a liquidação física, se não moral, de uma monarquia a quem se fazia pagar, sobretudo, uma fragilidade nacional que era obra da nação inteira".

No século XIX alguns portugueses "puseram em causa, sob todos os planos, a sua imagem de povo com vocação autónoma, tanto no ponto de vista político como cultural (...) Interrogávamo-nos apenas pela boca de Antero (de Quental) e de parte da sua geração, para saber se éramos ainda viáveis, dada a, para eles, ofuscante decadência".

OBRA DE EÇA: MELANCOLIA AO COMPARAR EUROPA E PORTUGAL

A Europa da época "exemplo de civilização, cuja comparação connosco nos mergulhava em transes de melancolia cívica e cultural, tais como a obra de Eça os exemplificará para o nosso sempre".

FOCO NO IMPERIALISMO (O DO SÉCULO XVI E NÃO O DO XIX)

Com a ideia de Civilização que veio com a Revolução Industrial e com a Revolução Cultural do século XIX - cuja geração de Setenta portuguesa fez parte - "começou então a doer-nos não o estado de Portugal, as suas desgraças ou catástrofes políticas, mas a existência portuguesa, pressentida, descrita, glosada, como existência diminuída, arremedo grosseiro da existência civilizada, dinâmica, objecto de sarcasmos e ironias, filhos do amor desiludido que se lhe votava".

MAS, Portugal descobre a África, ao invés da revolução industrial. "A tentativa de recriar uma alma 'à século XVI' não foi longe".

SAUDOSISMO

"O fim do século XIX, por reacção ao criticismo devastador e imponente da década de Setenta, mass também como resposta à agressão do monstro civilizado (Inglaterra) verá eclodir a mais nefasta flor do amor pátrio, a do misticismo nacionalista, fuga estelar a um encontro com a nossa autêntica realidade, mas, ao mesmo tempo, expressão profunda sob a sua forma invertida, de uma carência absoluta que é necessário compensar desse modo".
(...)
"O Saudosismo (grifo meu) será, mais tarde, a tradução poético-ideológica desse nacionalismo místico, tradução genial que representa a mais profunda e sublime metamorfose da nossa realidade vivida e concebida como irreal".

PS: As partes em negrito nas citações pertencem ao autor do texto.

Bibliografia:
LOURENÇO, Eduardo. O labirinto da saudade - Psicanálise Mítica do Destino Português. 3a edição. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1988.

Refeição Cultural 38 - Simbolismo (V)

Lendo D. Duarte (Leal Conselheiro, 1431) e Sigmund Freud (início do século XX).

Em foco a saudade, o luto e a melancolia

"Do nojo, pesar, desprazer, aborrecimento e saudade


(a natureza psicológica da saudade)

E a suidade nom descende de cada hua destas partes, mes he huu sentido do coraçom, que vem da sensualidade (sensibilidade) e nom da razom, e faz sentir aas vezes os sentidos da tristeza e do nojo. E outros veem daquellas cousas que a homem praz que sejam, e alguus com tal lembrança, que traz prazer e nom pena. E em casos certos se mestura com tam grande nojo, que faz ficar em tristeza".

D. Duarte nos explica os sentimentos de saudades, dando alguns exemplos. Quando você pede para alguém viajar e fazer algo para ti, a falta deste alguém nesse período traz-lhe o sentimento de saudade, e não quer dizer que seja algo ruim, haja vista que a pessoa está em viagem por uma demanda sua.

Mas veja que não é uma ausência em definitivo. Não haverá a perda do objeto de apego para sempre (em tese), como ocorre no luto (nojo) ou como poderia haver na tristeza ou melancolia.

Lendo a explicação de Freud para a questão da perda do objeto libidinal, que pode acarretar o sentimento de luto e de melancolia (e vejo aqui até relação com a questão do exílio) percebemos que não ocorre o mesmo na questão da saudade citada no exemplo da ausência provisória por D. Duarte:

"Em que consiste, portanto, o trabalho que o luto realiza? Não me parece forçado apresentá-lo da forma que se segue. O teste da realidade revelou que o objeto amado não existe mais, passando a exigir que toda a libido seja retirada de suas ligações com aquele objeto".

COMENTARIO: vendo na Larousse o que é libido, diz lá: para Freud existe a libido do ego (narcísica) e a libido objetal, se investida em um objeto exterior. Quanto maior a libido objetal, menor a do ego e vice-versa.

Mais adiante, Freud nos explica que, seja mais ou menos penoso o processo de substituição da posição libidinal, o fato é que uma hora ele cessa:

"É notável que este penoso desprazer seja aceito por nós como algo natural. Contudo, o fato é que, quando o trabalho do luto se conclui, o ego fica outra vez livre e desinibido".

D. Duarde ao explicar que a saudade vem do coração e que é possível intervir com a razão em alguns casos, nos diz que não controlá-la pode nos trazer inconvenientes morais.

"De se aver algüas vezes com prazer e outras com nojo ou tristeza, esto se faz, segundo me parece, por quanto suidade propriamente he sentido que o coraçom filha por se achar partido da presença dalguã pessoa ou pessoas que muito per afeiçom ama, ou o espera cedo de seer".

A saudade vem do coração: "Digo afeiçom e deleitaçom, por que som sentimentos que ao coraçom perteencem, donde verdadeiramente nace a suidade, mais que da razom nem do siso".

Quando a razão consegue intervir e dominar a situação, a saudade pode ser prazerosa. Caso contrário "com esta suidade vem nojo ou tristeza mais que prazer".

E, por fim, os inconvenientes oriundos da saudade que não se tem controle e os conselhos que D. Duarte está fornecendo através de sua obra:

"E, por que sobr'esta lembrança que traz suidade muitos encorrem em pecado, tristeza e desordenança da voontade, lembrando-lhes por vista d'homeës e molheres casadas, cantigas, cheiros (ou per saltamento doutras fallas e cuidados), algüas pessoas com que ouverom algüas folganças quaaes nom deviam, ou poderom compridamente aver como desejavam e o leixaram de fazer, e por ello lhes vem desejo de tornar a tal estado e conversaçom, nom avendo reprendimento do mal que fezerom, mas ham desprazer do que nom comprirom - estes proveitosos avisamentos pensei declarar, da boa maneira que devemos teer em tal caso".

COMENTÁRIO: estou usando o sinal trema (¨) no lugar do til (~) em cima das vogais que vêm marcadas com o til na grafia do texto de 1431.

Bibliografia:
FREUD, Sigmund. Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Volume XIV (1914-1916). Imago Editora Ltda, Rio de Janeiro.
DOM DUARTE. Leal Conselheiro e Livro da ensinança de bem cavalgar toda sela. Colecção Literária 'Atlântida'. 1973, 2a edição.

Refeição Cultural 38 - Simbolismo (IV)

Lendo D. Duarte (Leal Conselheiro, 1431) e Sigmund Freud (início do século XX).

Em foco a saudade, o luto e a melancolia

"Do nojo, pesar, desprazer, aborrecimento e saudade

Antre nojo e tristeza eu faço tal deferença, por que a tristeza, per qual quer parte que venha, assi embarga sempre continuadamente o coraçom, que nom dá spaço de poder em al (outra coisa) bem pensar nem folgar. E o nojo he a tempos, assi como se vee na morte d'alguus parentes e amigos, onde, aquel tempo que per justa falla ou lembrança se sente, o sentimento he muito rijo. Porem taaes hi ha que, passado o dia, logo riim (riem), fallam, e despachadamente no que lhes praz pensom."

Vemos aqui uma conceituação muito interessante de D. Duarte para a palavra nojo como aquele sentimento de pena que séculos depois Freud iria identificar como um sentimento natural de pesar presente nos estados de luto. Sofrimento momentâneo e diferente daquela tristeza continuada que seria identificada como melancolia por Freud.

Identificamos a conceituação de luto por Freud como "afeto normal do luto" [O alemão 'Trauer', como o inglês 'mourning' (luto), pode significar tanto o afeto da dor como sua manifestação externa] (aqui temos uma nota presente na edição que estou usando dos textos de Freud).

Freud em seu estudo sobre luto e melancolia nos avisa que há várias formas somáticas e não psicogênicas de melancolia, mas que o estudo em questão tratará dos casos de natureza psicogênica indiscutivel.

Na época de D. Duarte, idade média, dizia-se que as pessoas estavam afetadas por um líquido interno denominado como humor merencório.

"O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante. Em algumas pessoas, as mesmas influências produzem melancolia em vez de luto; por conseguinte, suspeitamos que essas pessoas possuem uma disposição patológica."

Freud considera o estado de luto como normal e até necessário, porém, passageiro. Já a melancolia é fruto de alguma tendência patológica da pessoa.

Vemos assim a mesma descrição feita por D. Duarte quatro séculos antes: "E o nojo he a tempos, assi como se vee na morte d'alguus parentes e amigos, onde, aquel tempo que per justa falla ou lembrança se sente, o sentimento he muito rijo. Porem taaes hi ha que, passado o dia, logo riim (riem), fallam, e despachadamente no que lhes praz pensom". Finaliza depois explicando que "E o nojo nom continuadamente se sente".

Freud descreve as características comuns do estado de luto e melancolia:

"Os traços mentais distintivos da melancolia são um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima".

Todos estes sentimentos estão presentes no luto. A diferença entre eles é: "A perturbação da auto-estima está ausente no luto."

COMENTÁRIO: ao final das leituras talvez consiga compreender um pouco mais a minha melancolia ou meu luto por perdas de ideais ou sei lá o que... bom, ao final posso não ter parido um trabalho de literatura até porque preciso achar um liame entre este estudo e pelo menos o Saudosismo Português, sem falar no Simbolismo, mas quem sabe não descubra meu humor merencório.


Bibliografia:
FREUD, Sigmund. Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Volume XIV (1914-1916). Imago Editora Ltda, Rio de Janeiro.
DOM DUARTE. Leal Conselheiro e Livro da ensinança de bem cavalgar toda sela. Colecção Literária 'Atlântida'. 1973, 2a edição.

Refeição Cultural 38 - Simbolismo (III)

Parir um trabalho de Literatura Portuguesa

É amigos!, a questão é: parir um trabalho de Literatura Portuguesa ou desistir mais uma vez de terminar as matérias sempre começadas e nunca concluídas de meu sofrido percurso inútil de quase uma década na Universidade de São Paulo...

O que fiz mais uma vez neste semestre foi sindicalismo e não estudo de Letras.

Já não pretendo escolher um tema e fazer o trabalho final da matéria de Literatura Espanhola cujo tema interessantíssimo é a questão do exílio no temário dos autores do período da ditadura de Franco no pós Guerra Civil Espanhola.

Um tema possível a desenvolver no trabalho sobre o Simbolismo e a questão da Saudade e/ou Saudosismo seria uma leitura comparativa das definições de D. Duarte, infante e depois rei de Portugal e de Sigmund Freud, cientista, médico e psicanalista austríaco.

D. Duarte inova no século XV, em 1431, a língua romance, ou seja, a Língua Portuguesa em seu nascedouro, com uma obra que conceitua e interpreta os diversos sentimentos e questões d'alma, e inclusive, recomenda como evitá-las ou superá-las.

Quatro séculos depois, o psicanalista e cientista Sigmund Freud vai analisar a questão do luto e da melancolia de maneira mais correspondente aos avanços científicos e sociológicos do século XIX.

A obra de D. Duarte em questão é "Leal Conselheiro". Em seu Capítulo XXV - Do nojo, pesar, desprazer, avorrecimento e suydade - o autor nos explica as diferenças inerentes a cada sentimento.

Eu confesso que a leitura do capítulo é bastante interessante. Fiquei imaginando um jovem monarca filosofando sobre sentimentalidades e buscando interpretar os males d'alma da lusitaneidade. Quando lemos hoje, século XXI, os conceitos dados por ele ficamos estupefatos porque têm sentido ainda.

É isso! teria que ser sábio o suficiente para pôr em cinco folhas um ensaio convincente a respeito do assunto.

SERÁ?...

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Refeição Cultural 38 - Simbolismo (II)

Literatura Portuguesa IV - Poesia Simbolista

1-Conceito de simbolismo europeu. Simbolismo na literatura francesa: Baudelaire, Rimbaud, Verlaine e Mallarmé. Simbolismo e decadentismo. Dandismo fin-de-siècle.

HISTÓRICO E CARACTERÍSTICAS

A partir de 1881, na França, poetas, pintores, dramaturgos e escritores em geral, influenciados pelo misticismo advindo do grande intercâmbio com as artes, pensamento e religiões orientais - procuram refletir em suas produções a atmosfera presente nas viagens a que se dedicavam.

Marcadamente individualista e místico, foi com desdém apelidado de "decadentismo" - clara alusão à decadência dos valores estéticos então vigentes e a uma certa afetação que neles deixava a sua marca. Em1886 um manifesto traz a denominação que viria marcar definitivamente os adeptos desta corrente: simbolismo.

PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS

Subjetivismo

Os simbolistas terão maior interesse pelo particular e individual do que pela visão mais geral. A visão objetiva da realidade não desperta mais interesse, e sim está focalizada sob o ponto de vista de um único indivíduo. Dessa forma, é uma poesia que se opõe à poética parnasiana e se reaproxima da estética romântica, porém mais do que voltar-se para o coração, os simbolistas procuram o mais profundo do "eu", buscam o inconsciente, o sonho.

Musicalidade

A musicalidade é uma das características mais destacadas da estética simbolista, segundo o ensinamento de um dos mestres do simbolismo francês, Paul Verlaine, que em seu poema "Art Poétique", afirma: "De la musique avant toute chose..." (" A música acima de tudo..."). Para conseguir aproximação da poesia com a música, os simbolistas lançaram mão de alguns recursos, como, por exemplo, a aliteração, que consiste na repetição sistemática de um mesmo fonema consonantal, e a assonância, caracterizada pela repetição de fonemas vocálicos.

Transcendentalismo

Um dos princípios básicos dos simbolistas era sugerir através das palavras sem nomear objetivamente os elementos da realidade. Ênfase no imaginário e na fantasia. Para interpretar a realidade, os simbolistas se valem da intuição e não da razão ou da lógica. Preferem o vago, o indefinido ou impreciso.

O fato de preferirem as palavras névoa, neblina, e palavras do genêro, transmite a idéia de uma Obsessão pelo branco (uma característica não tão importante do simbolismo) como podemos observar no poema de Cruz e Sousa:

"Ó Formas alvas, brancas, Formas claras De luares, de neves, de neblinas!... Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas... Incensos dos turíbulos das aras..." [...]

Dado esse poema de Cruz e Sousa, percebe-se claramente uma obsessão pelo branco, sendo relatado com grande constância no simbolismo.

COMENTÁRIO - não ouvi em minhas aulas nenhuma referência específica ao branco e sim ao VAGO, AO INDEFINÍVEL.


LITERATURA DO SIMBOLISMO

Os temas são místicos, espirituais, ocultos. Abusa-se da sinestesia, sensação produzida pela interpenetração de órgãos sensoriais: "cheiro doce" ou "grito vermelho", das aliterações (repetição de letras ou sílabas numa mesma oração: "Na messe que estremece") e das assonâncias, repetição fônica das vogais: repetição da vogal "e" no mesmo exemplo de aliteração, tornando os textos poéticos simbolistas profundamente musicais.

O Simbolismo em Portugal liga-se às atividades das revistas Os Insubmissos e Boêmia Nova, fundadas por estudantes de Coimbra, entre eles Eugênio de Castro, que ao publicar um volume de versos intitulado Oaristos, instaurou essa nova estética em Portugal. Contudo, o consolidador estará, a esse tempo, residindo verdadeiramente no Oriente - trata-se do poeta Camilo Pessanha, venerado pelos jovens poetas que irão constituir a chamada Geração Orpheu.O movimento simbolista durou aproximadamente até 1915, altura em que se iniciou o Modernismo.

Escritores simbolistas

Pode-se dizer que o precursor do movimento, na França, foi o poeta francês Charles Baudelaire com "As Flores do Mal", ainda em 1857.

Mas só em 1881 a nova manifestação é rotulada, com o nome decadentismo, substituído por Simbolismo em manifesto publicado em 1886. Espalhando-se pela Europa, é na França, porém, que tem seus expoentes, como Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e Stéphane Mallarmé.

Portugal

Os nomes de maior destaque no Simbolismo Português são: Camilo Pessanha, António Nobre, e Eugénio de Castro. Eu destacaria também Teixeira de Pascoaes.

Brasil

No Brasil, dois grandes poetas destacaram-se dentro do movimento simbolista: Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens. No primeiro, a angústia de sua condição, reflete-se no comentário de Manuel Bandeira: "Não há (na literatura brasileira) gritos mais dilacerantes, suspiros mais profundos do que os seus".

Fonte: wikipédia

Refeição Cultural 38 - Simbolismo

Literatura Portuguesa IV - Poesia Simbolista

1-Conceito de simbolismo europeu. Simbolismo na literatura francesa: Baudelaire, Rimbaud, Verlaine e Mallarmé. Simbolismo e decadentismo. Dandismo fin-de-siècle.

Ao avaliar meus conhecimentos práticos e imediatos acerca do movimento simbolista, desde o conceito do que seja até o conhecimento de seus principais representantes, posso afirmar com tristeza que ainda não sei nada. Sou um ignorante no tema!

Além de não ter conseguido ler praticamente nada da bibliografia básica do curso, estive ausente das aulas por cerca de dois meses, período em que estive em um curso da OIT na Itália e Espanha sobre a crise mundial e os reflexos para os trabalhadores. Depois disso, estive na coordenação de um dos complexos do Banco do Brasil em São Paulo durante a greve dos bancários deste ano, que durou quinze dias para os bancos em geral.

Este dilema de ser sindicalista e estudante de Letras da Usp me perseguiu desde 2002, quando fui eleito diretor do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região. A partir de então, foi natural que eu buscasse me dedicar mais ao sindicato e aos trabalhadores do que ao curso de Letras. Posso afirmar que foi minha natureza que determinou esta tendência de escolha de prioridade.

Bom, vendo agora o programa da matéria de Literatura Portuguesa do semestre, faltando uma aula para terminar o curso e um trabalho a entregar, percebo o meu total fracasso no desejo que alimentei em ser professor de Letras - "um acadêmico".

Vamos ligar o computador - após o apagão de horas e horas da última noite em 18 estados do País - então, vamos à internet - que é útil quando bem aproveitada - consultar no wikipédia (What I Know Is...) o que tem sobre este primeiro item do programa - Simbolismo Europeu, conceito e autores franceses.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Simbolismo Português (II)

Simbolismo. Com relação à Literatura Portuguesa.

Se não é o dinheiro que me interessa,
Por que a pressa?
É porque as contas clamam, pipocam, inflamam.

Mas eu queria tempo livre...
...o meu tempo livre.
Pra fazer o que bem entender.

Sempre quis ser pensador, escritor, professor...
wmofox


(aulas de 2003 - a interpretação é de minha responsabilidade)

Tenho gostado do Simbolismo. Seu significado. Seu momento.

O clamor dos autores em oposição ao fetichismo da matéria, à reificação de tudo e de todos.

Sinto que caso tivesse tido contato com esse conhecimento na época, teria me considerado um simbolista. Sou fragmento. Sempre me achei fragmento. Penso até que em alguns textos escritos por mim, como aquele do objeto inanimado fazendo suas reflexões e conjeturas acerca de voltar à natureza enquanto fragmento, tem muito dessa filosofia.

Continuando a análise do poema “Correspondência” de Baudelaire, vemos que no primeiro terceto há uma quebra daquela ligação mais pura e espiritual causada (evocada) pela natureza para começar uma ligação mais carnal: “Há perfumes tão frescos como a jovem carne,”. Ocorre um apelo sexual.

Há dois perfumes: um mais sensível, mais material. Outro, mais espiritual, que mesmo corrompido canta o arroubo da alma.

Tudo que está no mundo material está corrompido, porque nos lembra que somos fragmentados.
Spleen – o homem no século XIX é melancólico, desiludido, desencantado. Então, diziam que o baço produzia um líquido negro que, no sangue, causava um desencanto absoluto. Dominava seu espírito.

Lembrar que no Simbolismo toda palavra é escolhida de forma que seu significado tenha mais de uma leitura, que evoque estados de alma, que coloque o homem em contato com o mundo espiritual. (sentido, aliás, diferente do tradicional de símbolo, que nos remete a um significado mais imediato, o qual se opõe ao de alegoria)

Para os simbolistas, quanto mais for sugerido e evocado para o leitor, maior sucesso alcançado.

Esse uso da palavra enquanto símbolo, é uma ruptura com a tradição. Aqui, ela não tem objetivo clarificador. Consequentemente, ela se torna excluidora e não reificadora, ou seja, é feita só para pessoas especiais, preparadas.

A obra simbolista, mais refinada, não é passível de fácil coisificação, é dessa forma, tornada mais aristocrática, elitizada. Não é facilmente tornada mercadoria.

Essa concepção é oposta ao Romantismo, que queria democratizar a arte através do uso de palavras mais populares. No Simbolismo, através do sentido das palavras, somos evocados, ocorre sugestão para um mundo espiritual e então, vemos a correspondência entre o mundo físico e aquele outro metafísico.

Meio - Fim
Relação entre
Matéria e espírito

Os simbolistas criaram o alexandrino trímetro (4a, 8a, 12a) que é diferente do tradicional.

Música -> gera sugestão -> percepção sensorial

A música

Arrasta-me por vezes como um mar, a música!
Rumo à minha estrela,
Sob o éter mais vasto ou um tecto de bruma,
Eu levanto a vela;

Com o peito pra frente e os pulmões inchados
Como rija tela,
Escalo a crista das ondas logo amontoadas
Que a noite me vela;

Sinto vibrar em mim as inúmeras paixões
De uma nau sofrendo;
O vento, a tempestade e as suas convulsões

Sobre o abismo imenso
Embalam-me. Outras vezes é a calma, esse espelho
Do meu desespero!


(BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. Lisboa: Assírio & Alvim,1996)

Alguns simbolistas alternavam versos inteiros com seus quebrados: octossílabos-tetrassílabos; decassílabos-redondilhas menores.

Aqui, Baudelaire alterna o mais tradicional com o mais popular: o alexandrino e a redondilha menor. E é ainda um soneto.

Os simbolistas inovaram tanto (renovando a Lírica, com os princípios de construção do poema, mas, com relação ao passado) que abriram caminho para os modernistas.

“Arrasta-me” – já traz toda a força semântica do verbo.

A música tem esse poder de arrastar o homem para seu interior, para suas percepções sensoriais.

O formato dos versos (expansão, retração) também acaba apresentando materialmente aquilo que se quer sugerir. Temos também palavras cujo significado semântico também nos lembra expansão e retração: na primeira estrofe – mar (com seu movimento constante); na segunda estrofe – peito (com seu vai e volta que nos dá a vida).

A música vai causando um desligamento lento e também um religamento mais extra-sensorial.

O homem fica sujeito às intempéries da vida e do destino, assim como a nau às tempestades. O homem está perdido no contexto simbolista como a nau na imensidão do mar (sob as forças que os submetem)


Sobre o texto de Walter Benjamim, algumas frases marcam bem o seu significado para uma reflexão quase que imediata do que foi e é até hoje o entrelaçamento do capitalismo burguês com a arte.

“...a arte põe-se a serviço do comerciante”, referindo-se a Paris ser a capital do século XIX e sobre a criação das galerias parisienses de ferro e vidro em seus centros.

“Cada época sonha a seguinte”, de Michelet . Aqui também vemos um quadro que começou no passado e que é a pura realidade nos dias atuais. A propaganda cria as necessidades de consumo e cria o sonho de consumo de amanhã, já que tudo é mercadoria.

“As Exposições Universais transfiguram o valor de troca das mercadorias. Criam uma moldura em que o valor de uso da mercadoria passa para segundo plano. Inauguram uma fantasmagoria a que o homem se entrega para se distrair. A indústria de diversões facilita isso, elevando-o ao nível da mercadoria. O sujeito se entrega às suas manipulações, desfrutando a sua própria alienação e a dos outros”.

“...a moda prescreve o ritual segundo o qual o fetiche mercadoria pretende ser venerado. Grandville estende tal pretensão aos objetos de uso cotidiano e inclusive ao cosmos”.

“Em Baudelaire ou as ruas de Paris, vemos o engenho dele, nutrindo-se da melancolia. É alegórico. Pela primeira vez, com Baudelaire, Paris se torna objeto da poesia lírica. O flâneur ainda está no limiar tanto da cidade grande quanto da classe burguesa. Nenhuma delas ainda o subjugou. Em nenhuma delas ele se sente em casa. A multidão é o véu através do qual a cidade costumeira acena ao flâneur enquanto fantasmagórica. Na multidão, a cidade é ora paisagem, ora ninho acolhedor. O decisivo em Baudelaire, no entanto, um substrato social, no ‘idílio fúnebre’ da cidade: o moderno. O moderno é um acento primordial de sua poesia. Como o spleen ele deixa o ideal em pedaços”. (tudo citações de Benjamim)

No último poema das Flores do mal, “a viagem”, vemos a derradeira viagem do flâneur: a morte. Sua meta: o novo. “Ao fundo do desconhecido para encontrar o novo!”

Haussmann deu a si mesmo o nome de “artista demolidor”. Sentia-se como que chamado para a sua obra, o que enfatiza em suas memórias. Assim, ele faz com que Paris se torne uma cidade estranha para os próprios parisienses. Não se sentem mais em casa nela. Começa-se a tomar consciência do caráter desumano da grande metrópole.

Wmofox, 14.9.03

Simbolismo Português

Simbolismo em Literatura Portuguesa

(aulas da profa. Annie em 2003 - a interpretação é de minha responsabilidade)


Experiência supernatural das coisas, palavras consideradas sempre enquanto símbolo, ou seja, significado e significante. Temos então, no simbolismo, duas vertentes da palavra: uma, como poder de evocação, sugestão; outra, como poder de musicalidade da palavra.

Toda palavra é um símbolo.

Normalmente, em literatura, símbolo é o oposto da alegoria, ou seja, o símbolo tem valor imediato, é pronto e acabado. Seu significado está em si próprio. Ex: cruz = Cristo; balança = justiça.

Já na alegoria, o significado vai se construindo. É preciso somar passagens para se chegar ao significado (idéia-mãe).

No Simbolismo, a palavra evoca. O sentido é bem maior que o símbolo oposto ao da alegoria. A imagem não é tão imediata assim.

Correspondências

A Natureza é um templo onde vivos pilares
Pronunciam por vezes palavras ambíguas;
O homem passa por ela entre bosques de símbolos
Que o vão observando em íntimos olhares.

Em prolongados ecos, confusos, ao longe,
Numa só tenebrosa e profunda unidade,
Tão vasta como a noite e como a claridade,
Correspondem-se as cores, os aromas e os sons.

Há perfumes tão frescos como a jovem carne,
Doces como oboés e verdes como prados,
- E há outros triunfantes, ricos, corrompidos,

Que se expandem no ar como coisas sem fim
Como o âmbar, o almíscar, o incenso e o benjoim,
E cantam os arroubos da alma e dos sentidos.

(BAUDELAIRE, Charles. As Flores do Mal. Lisboa: Assírio & Alvim, 1996)

Este poema é como que um manifesto simbolista.

A Natureza aqui, como substantivo próprio e não comum, tem um significado bastante amplo. É o mundo no sentido de universo. É um templo.

O homem em sua existência terrena é um exilado. Está sempre a buscar sua origem, o divino. Está exilado da condição original (na perspectiva cristã).

No Simbolismo existe a condição primacial, primigênica. Antes de nascermos, estamos em comunhão perfeita com o universo. Estamos diluídos no mundo natural.

Ao sairmos desta condição plena primigênica, entramos num mundo marcado pela tragicidade. Então, a existência é a busca de se voltar à condição de comunhão com o universo.

Parece antagônico, mas, a existência terrena, na perspectiva simbolista, causa um individualismo que nos torna seres fragmentados.

O texto de Schopenhauer “O mundo como vontade e representação” foi o texto filosófico fundamental do Simbolismo. O homem é um exilado que busca sua condição primigênica. Ele é um ser fragmentado.

O que move o homem é recuperar a condição primeira e não, aquele monte de vontades, que pensamos que temos”. Essas são pequenas representações de vontade. A única vontade verdadeira é deixar a existência e voltar ao mundo natural.

“Bosques de símbolos” são coisas naturais que mostram ao homem a possibilidade de reintegração (elementos que evoquem aquele mundo primeiro – a água e a terra).

Qual a forma de deixar a existência?

Morrendo.

Ao sermos enterrados, somos amparados pela terra. Nossa mãe. (tem-se aqui a reintegração)
Os nossos românticos queriam a morte para se livrar da existência trágica. Os simbolistas, não. Estes, queriam a reintegração à natureza.

A morte na água era a maior possibilidade de reintegração. Ofélia com sua morte na água, tem esse sentido. Essa falta de adaptação à sociedade. Por isto, os simbolistas tomaram Ofélia em pintura como o ideal de decomposição e reintegração no Simbolismo (nesta morte já se refaz em natureza).

Vigora a idéia de desaparecimento do fragmentário e a união na totalidade cósmica.

Fragmentário/totalidade
Cisão/união

Não é antítese, é um processo.
No iluminismo, tínhamos o seguinte silogismo:

Mais ciência = iluminação = mundo melhor = mais encantamento = mundo mais igualitário

No Romantismo e no Realismo isso se mostrou o inverso do ideal. A ascensão da burguesia mostrada na literatura, seja num Almeida Garret ou num Eça de Queiroz (“Viagens da minha terra” ou “O crime do padre Amaro”, respectivamente), busca-se mostrar a decepção, por isso expressões como “regeneração” bastante comum em Portugal na segunda metade do século XIX. Temos então, nesse século, um homem desencantado, seja no período romântico, seja no realista e naturalista.

A Revolução Industrial trouxe a fragmentação e uma reificação do ser (processo pelo qual se objetivam as relações sociais, as relações humanas, os produtos do trabalho, transformando-os efetivamente em “coisas sociais” – conceito introduzido por Marx).

Antes, o homem participava de todo o processo de criação e produção. Depois, o homem foi retirado do processo totalitário e se tornou apenas uma engrenagem. Agora, o homem só vale pelo que produz e pode ser vendido.

Perdemos o conceito humanista do homem e a totalidade. O homem se tornou uma coisa facilmente substituível. Um fragmento.

O homem vai, então, se tornando cada vez mais fechado em si mesmo.

Encanto – (des) encanto
Ilusão – (des) ilusão

Aquela ilusão de que a Revolução Industrial traria mais felicidade aos homens foi pro espaço.
O homem do Simbolismo é o homem do desencanto, da desilusão. Já viu tudo isso e já passou por tudo isso.

Mas o suicídio não serve para o simbolista. Isto seria a desistência. Ele, então, se fecha em suas “torres de marfim” e procura no mundo natural sua reintegração, ou, busca nas coisas naturais a evocação deste mundo primevo que espera voltar um dia. Ele espera passivamente pela sua reintegração (pela morte). Busca no mundo natural, coisas que sugiram aquele estado natural primeiro e universal.

“Em prolongados ecos, confusos, ao longe,”

Existem elementos no mundo material (ecos, cores, aromas, sons) sempre em correspondência, e, que evocam unidade com o universo, com o mundo natural.

Sensações cinestésicas (constatações materiais) que são apreendidas pelos sentidos. Quanto mais se misturar essas sensações, mais evocações para o mundo integral.

Temos nos dois primeiros quartetos uma referência aos desejos íntimos dos humanos. Depois, no primeiro terceto, já aparece uma perspectiva mais sensual, mais material. Há uma queda: primeiro, ascensão mais metafísica. Depois, queda ao desejo mais carnal, material (necessidades materiais da existência – representação da vontade superficial) em detrimento da vontade verdadeira (reintegração universal).

Há um movimento de ascensão e queda e, no fim, nova ascensão “E cantam os arroubos da alma e dos sentidos”

Wmofox, 6.9.03

Poema - Simbolismo


Simbolismo...
diferente dos outros ismos (como as escolas políticas
[ideolossociais)
este tem a ver com o movimento literário
              [do 19º para o 20º século,
desencanto, desilusão, des des des... (tão atual!)

Inconformados com a modernidade 
                                               [chegante e reinante,
alguns...
diferentemente dos românticos que viam na
         [trágica morte uma solução,
viam na vida uma espera (sem suicídios)
viam na morte uma solução...
mas diferente.
Para essa, esperavam... eram ânsias.

A morte, o fim... o começo.
O desintegrar-se para a integração... total.

O desfazer-se para se refazer na totalidade
                                              [da natureza,
lugar benfazejo,
lugar das sensações totais... abissais... florais...
                                      [podridões sensacionais...

Enquanto o eu-puro de Fitche era 
                                     [o absinto dos românticos;
o desmanchar-se para a interação 
                                     [ontológica dos simbólicos
(que nem deveriam ser simbólicos, haja vista que as construções 
nada instantâneas e nada coletivas tudo levavam de pessoais, desvirtuando o próprio princípio simbológico)

E hoje...
Século depois...
Desilusão, desencanto, des des des...
(e ainda bem que a esperança venceu o medo!)

Mesmo assim...
desesperança.
São tantas mortes, tantas vidas-subvidas, vidas 
                                                    [severinas...
mas também tantas gravatas... (pensam com as 
                      [gravatas – não importa a idade...)
pensam com o ódio, com a não-vida, com o ópio,
com o ócio, com o sem-valor (sem calor)
na verdade... sem amor.

Eh!
A continuar...
O debate... o embate...
Vida e morte, morte e vida...
Ter ou ser, ser sem ter?! (será possível?)
...


Wmofox (13.11.03)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Literatura Portuguesa IV - A questão da Saudade

Textos de referência:

- "Psicanálise mítica do destino português", de Eduardo Lourenço;
- "Saudosismo como movimento", de Afonso Botelho;
- Trechos de Leal Conselheiro, de D. Duarte (século XV);
- Poemas de Teixeira de Pascoaes;
- Teixeira de Pascoaes, "As sombras".

Aula do professor doutor Horácio de 3/11/09
(a interpretação é de minha responsabilidade)

TÓPICOS:
- Saudade
- Saudosismo
(Os termos não se confundem)

A questão da Saudade existe há 600 anos como forma conceitual na Língua Portuguesa (na verdade, a busca da forma conceitual). Para uma língua que tem cerca de 1000 anos é muito tempo para se buscar o conceito de um tema.

É natural que uma hora ou outra o tema iria se encontrar com o movimento simbolista, pois ambos trabalham com o inefável, o indefinível, aquilo que é difícil de se descrever.

(Perguntei se a questão da definição semântica e conceitual da palavra "saudade" é uma temática especificamente da Língua Portuguesa porque em outras línguas como, por exemplo, o inglês o termo usado é "missing", o que seria algo bem mais definido como "sentir falta de")

O professor explicou que sim, que a busca do conceito é algo bem marcado na história da nossa língua. Veja o caso do país vizinho a Portugal - a Espanha-, onde um termo em castelhano que se aproximaria da nossa palavra "saudade" seria a palavra "nostalgia". Mesmo assim, o conceito que esta palavra castelhana carrega é diferente de "saudade". Tanto que em português temos as duas: "saudade" e "nostalgia".

Já a questão do Saudosismo é outra coisa.

O Saudosismo em Portugal é um movimento para além da questão poética. É cultural, é filosófico e também político.

A QUESTÃO POLÍTICA
O ditador Antônio Salazar usou o Saudosismo como algo que definiria a "lusitaneidade", a raça portuguesa.

Durante boa parte do século XX houve um movimento por parte da intelectualidade em Portugal anti- várias coisas: antiSalazar, antiEstado, antiguerras coloniais, anticolônias etc.

Com isso, o uso político do termo por Salazar atrelou de certa forma aos poetas criadores do Movimento Saudosista uma pecha de serem estes de direita, por falarem de temáticas como raça portuguesa, lusitaneidade etc.

Teixeira de Pascoaes é um desses casos.

O professor citou como referência ao termo "saudade" no Brasil, a mesma questão do seu significado meio vago, sem definição muito clara. A música "Chega de saudade", um hino da Bossa Nova, quer dizer o que? Que quer dizer essa "saudade" que se quer findar?

ORIGEM DA PALAVRA, APARIÇÃO

O professor nos cita a obra de D. Duarte - Leal Conselheiro, de 1431 -, como sua primeira aparição na língua Portuguesa (língua que na época ainda estava em formação).

Literatura Portuguesa IV - A questão da Saudade

Teoria Ontológica

Queda e esperança

(texto de Teixeira de Pascoaes: "Os Poetas Lusíadas". Porto, 1919. Cap. VI)

A Saudade inclui a esperança; e por isso, a lembrança visa também o futuro. Estas duas forças (uma criadora e outra perpetuadora) são a essência e o corpo da Saudade. Várias vezes aludimos a este facto que nos deixa pressentir o sentido da nossa Elegia nevoenta e misteriosa, como a ilha do Encoberto. Sendo a Saudade uma força criadora (esperança) e perpetuadora (lembrança) a Saudade é a própria Natureza afeiçoada ao sentimento lusitano, porque esta é absolutamente redutível àquelas duas forças, razão e efeito de tudo quanto existe. Em tudo se revela uma força invisível, num sentido superior e divino, mas logo decaída e aprisionada em aparências inertes e corpóreas. É a esperança e a sua materialização ou decadência em formas de lembrança: a Aparição e a Aparência, Deus e o Mundo.

Se o Universo é a infinita lembrança da esperança, ele é, por isso mesmo, a expressão cósmica da Saudade.

Também a consciência humana resulta dum movimento reflexo do espírito criador sobre as suas formas já criadas, da esperança espiritual sobre a lembrança espiritual , da imaginação revolucionária sobre a memória conservadora. E, por isso, a alma, como síntise daquelas duas forças, é a expressão transcendente da Saudade.

(segue...)

Bibliografia:
DALILA L. P. da Costa e PINHARANDA Gomes. "Introdução à Saudade" (antologia Teórica e Aproximação Crítica). Lello & Irmão - Editores. 1976, Porto.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Camilo Pessanha e o Simbolismo Português

Aula de 13.10.09 - Prof. Dr. Horácio Costa

(a interpretação da aula é de minha responsabilidade)

Camilo Pessanha é o mais importante e surpreendente dos simbolistas portugueses. Sua fama começou ainda em vida.

Podemos dizer que ele é um clássico moderno, ou seja, ainda é muito lido e relido.

Pessanha pertence a uma família de origem aristocrática. Uma família com seis séculos de história portuguesa. Apesar disso, ele era um filho bastardo.

Ao invés de fazer sua vida em Portugal, ele preferiu ir viver em Macau, colônia portuguesa na China. Parte de sua obra foi escrita lá.

(Macau só foi devolvida à China em 1999)

O professor explicou que a China da época era um "lixo" em termos de corrupção estatal ao extremo, pestes diversas que dizimavam o povo etc, além de ser um império em decadência.

Foi falado sobre a Guerra dos boxers (1899-1900) perdida pelos chineses.

Nessa época e com a derrota na guerra a China vira um grande consumidor mundial de ópio.

Camilo Pessanha estuda a China como poucos e se interessa por ela, passando a traduzir a poesia chinesa. Ele viveu como aristocrata a vida toda. Sua casa era repleta de coleções de objetos chineses. Também teve diversas amantes chinesas e um filho bastardo (como ele). Doou toda a sua coleção para a Universidade de Coimbra.

Tanto Camilo Pessanha como seu filho eram consumidores contumazes de ópio.

Ele não foi o único poeta de fala portuguesa na China. Venceslau de Morais também viveu lá. Sua simpatia pelo Japão é tão grande que ele o apresenta aos portugueses como um povo de cultura superior.

O terceiro português que viveu no oriente foi Alberto Castro Osório, em Timor.

O obra de Pessanha vai dialogar com os modernistas. Fernando Pessoa era um admirador do poeta. Lhe escreveu mais de uma vez elogiando sua obra. No entanto, Camilo não quis saber de se corresponder nem com Pessoa.

Uma característica do poeta é que ele nunca fez nada em vida com relação a sua obra. Nunca quis publicá-la. Ele também era um dândi.

Seu único livro "Clepsidra" foi publicado por uma parenta e ele nem lhe agradeceu.

Enfim, foi um poeta que não se importou de entrar para a poesia.

Sua obra não surpreende pelas grandes inovações formais. Verbo é muito decantado.

POESIA E DROGA

A relação entre poesia e droga é tão velha quanto a própria poesia. Temos aqui a questão dos "estados alterados de consciência".

Os autores ingleses e franceses também consumiam drogas. Pessanha não tomou droga como remédio (comum na época). Consumiu droga como droga mesmo.

DICAS de leitura: Pessanha não se lê uma única vez. Tem que se ler ler e ler. Ler sem pressa. Ler com bastante atenção.

Atentar para a questão da Saudade em sua obra.

domingo, 27 de setembro de 2009

Literatura Portuguesa IV - Poesia Simbolista

Prof. Dr. Horácio Costa

(aula de 25.8.09)

Poesia francesa – Baudelaire

Ele é o divisor de águas entre os poetas do mundo ocidental.

1. Primeiro poeta a deixar claro nos poemas que não pertence à ordem burguesa.

2. Ele é o poeta moderno de recepção internacional – ele faz a ponte entre o norte e o sul da Europa.

Ele deixa claro que ele e sua obra saem do centro para a margem.

Antes, o poeta era acolhido na ágora, na sociedade, nos castelos, na burguesia, ou seja, nas instâncias do poder. Por milênios, eles - os poetas - tinham guarida na sociedade.

Na segunda metade do século XIX ocorre a criação da nova cultura de massas. O velho pacto entre sociedade e poeta se rói, finda.

Esse é um dos motivos de sua modernidade.

O 2º motivo de sua modernidade é o seu texto ser moderno. A tematização e o produto de Baudelaire são específicos e inovadores para a época.

A obra Flores do mal, de 1857, foi perseguida e teve que ser reeditada depois.

A Poética de Baudelaire é outra característica moderna. Ele é tanto fundador do Simbolismo como também será um parnasiano. Ele consegue casar os dois modelos. Essa é a 3ª originalidade do poeta.

DESTAQUE em sua obra, sua tematização: um olhar de liberdade, no sentido da arte.

(leitura do poema “O albatroz”)

O ALBATROZ (tradução Delfim Guimarães)

Às vezes no alto mar, distrai-se a marinhagem
Na caça do albatroz, ave enorme e voraz,
Que segue pelo azul a embarcação em viagem,
Num vôo triunfal, numa carreira audaz.

Mas quando o albatroz se vê preso, estendido
Nas tábuas do convés, — pobre rei destronado!
Que pena que ele faz, humilde e constrangido,
As asas imperiais caídas para o lado!

Dominador do espaço, eis perdido o seu nimbo!
Era grande e gentil, ei-lo o grotescio verme!...
Chega-lhe um ao bico o fogo do cachimbo,
Mutila um outro a pata ao voador inerme.

O Poeta é semelhante a essa águia marinha
Que desdenha da seta, e afronta os vendavais;
Exilado na terra, entre a plebe escarninha,
Não o deixam andar as asas colossais!

No poema original em francês é possível perceber a importância da EUFONIA, o valor do som na poesia simbolista. Na tradução é muito difícil manter a sensação transmitida pelo poema.

L'Albatros
Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers.

À peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l'azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à côté d'eux.

Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid!
L'un agace son bec avec un brûle-gueule,
L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait!

Le Poète est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l'archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l'empêchent de marcher.

— Charles Baudelaire

Temos uma imagem comum do século XIX: as navegações, um barco que vai singrando o mar, os albatrozes que vão acompanhando o barco etc.

Às vezes, um cai ou para no barco, outro é pego pelos marinheiros.

ALEGORIA do poema:

O POETA está para a SOCIEDADE como o ALBATROZ está para os MARINHEIROS.

Há uma impossibilidade de visão ou compreensão dos leigos, dos comuns, para o que veem ou para a beleza que existe na natureza e na poesia.