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quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 13 de agosto de 2025. Quarta-feira.


Durante muito tempo, neste período do ano, especificamente na primeira quinzena de agosto, eu vivenciava uma experiência impactante ao realizar a romaria entre a cidade de Uberlândia e Água Suja, no Triângulo Mineiro. 

Cada romaria é única, o percurso é quase o mesmo, mas a pessoa que vai é outra, sempre. Minha caminhada tinha um percurso que variava entre 73 e 85 Km, de acordo com o ponto de saída. 

Ano passado fui para lá e acabei não fazendo a romaria. Neste ano, já tinha claro que não faria o percurso, um momento de introspecção para o romeiro. Sou um elemento da natureza e meu corpo sentiu os efeitos do tempo e do percurso realizado até aqui.

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Pensando na natureza do meu corpo, e me conhecendo um pouco há décadas, dormi pensando em atitudes e ações que poderia desenvolver para alongar minha permanência por aqui.

Ao confirmar por exames clínicos que meus níveis de colesterol continuam a subir, isso já faz alguns anos, e saber os principais motivos dessas mudanças em meu corpo animal, preciso definir estratégias para lidar com a questão.

A existência dos seres vivos é uma somatória diária de eventos casuais e planejados, uma miscelânea de instantes caóticos, que vai fazendo os seres permanecerem vivos ou deixarem de existir, o tempo todo, todo tempo, com tudo e com todos.

Ao saber por acaso da minha condição de hipertenso há uma década, e seguir os procedimentos da ciência, alonguei a permanência na Terra. Poderia ter infartado.

Correr desde muito jovem e ter bons níveis de HDL pesou de alguma forma para não piorar uma condição hereditária e de exageros que fiz nas veredas do viver.

Aí meu corpo passa a ter dificuldades de seguir correndo, um dos maiores prazeres da minha vida. Sem correr, meu HDL foi pro saco, e meus níveis de LDL seguem crescendo, mas sem o equilíbrio do bom colesterol... que foda!

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Decidi que vou tentar correr do jeito que meu corpo permitir, e vou correr de preferência em percursos com aclives, pois o impacto na estrutura musculoesquelética é menos pior do que em planos e descidas, dependendo da forma como me movimento, claro.

Eu sei também de muita coisa que deveria comer e não comer, beber e não beber, mudanças de hábitos etc, hábitos são difíceis de mudar, não é?

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Tenho refletido sobre outras decisões que preciso tomar, decisões que só competem a mim e a mais ninguém, já que não sou mais uma pessoa com representação de pessoas. Tenho contratos sociais, tenho consciência social, e só. De verdade, não sinto mais pertencimento a grupos sociais como pertenci. Era para pertencer e contribuir com a experiência que acumulei na prática da militância nesta fase da vida. Não aconteceu. Cada vez que vou fazer número em algum evento político, mais me questiono o que fui fazer lá. Sei da importância de fazer volume, já que somos tão poucos na esquerda. Mas preciso chegar a um termo comigo mesmo sobre isso. Para me sentir como me sinto, preciso avaliar a continuidade disso. Não estou acrescentando nada à coletividade fazendo volume nos eventos que participo. Até valeu bastante contribuir nas eleições majoritárias e proporcionais nos últimos anos, mas isso é pouco comparado à contribuição que dei às causas nas quais me envolvi. Enfim... as coisas são como são.

Sigo com a consciência social de minhas responsabilidades e contratos sociais. Sigo fazendo o esforço de permanecer por aqui.

William

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

79 de 100 dias


Meu mundo...

79. Voltei de Uberlândia. Cheguei a São Paulo pela tarde. Queria ter chegado a tempo de ir a uma roda de conversa à noite com Frei Betto em homenagem aos seus 80 anos. Não deu tempo. Bom, pelo menos vim no voo lendo a biografia dele, livro que adquiri em Havana, Cuba.

Faltam três semanas desse período de cem dias que iniciei em 26 de maio em busca de sentidos e mudanças para a minha existência atual.

Voltei de Minas Gerais com um fracasso num projeto pessoal: não fiz minha caminhada anual de 80 Km. Não fiz por diversos motivos, avalio. Chegar e encontrar meus pais com a saúde debilitada pesou. Ocupar meu cunhado estando ele com os problemas dele, inclusive de saúde de minha irmã, também. Sentir minha condição do quadril ruim, me deixou pra baixo. Acabei desistindo. Depois, avaliei sem ter estado na estrada que eu estaria ferrado porque não levei roupa adequada para o frio que fez. 

Diria que voltei com mais fracassos da visita aos meus pais. Não tivemos um clima amistoso, meu pai e eu. Depois dos primeiros dias na boa, não aguentei sem falar pra ele sobre o que via o tempo todo na casa. Que clima pouco amistoso da porra! Aff, que difícil as relações humanas hoje!

A parte boa dessa estadia nos meus pais foi ter a oportunidade de passar algumas horas com a pequena filha de minha sobrinha. Interagimos bastante. É muito legal dar atenção a uma criança e ver o desenvolvimento e a inteligência das crianças. 

CRIANÇAS SÃO INTELIGENTES, MÁQUINAS NÃO!

Me lembrei de uma roda de conversa que tivemos com o professor da Universidade Federal do ABC, Sérgio Amadeu (ver aqui), explicando porque as "Inteligências Artificiais" (AI ou IA) não são nem inteligentes, nem artificiais. 

O professor nos explicou que essas "Machine Learning" precisam de milhares e milhares de dados sobre algo para criar padrões, são máquinas que fazem cálculos estatísticos. E precisam de muita gente por trás dessas programações. Não são nem inteligentes, nem artificiais.

Uma criança precisa de duas ou três repetições de alguma coisa (dados) para compreender o padrão e então ela já passa a repetir e criar a partir dali, as crianças são inteligentes e só animais podem criar, a inteligência é analógica, não é digital. 

Observem uma criança de dois ou três anos por alguns dias e vocês verão a inteligência e a criatividade em estado puro...

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E agora, José?

É seguir, andando e escolhendo veredas, ou deixando as veredas me escolherem como aconteceu a vida toda.

William


sábado, 3 de agosto de 2024

70 de 100 dias



70. Superação... superar a preguiça de praticar atividades físicas... superar as dores de um corpo que já não acompanha os mandos da razão... superar o pessimismo da razão!

Eu vou encarar a estrada na semana que vem. Não seria nada de excepcional se fossem outros tempos. Natureza. Agora andar 80 Km se tornou algo temerário pra quem isso era coisa comum. Natureza!

Dez semanas depois que demarquei uma centena de dias para viver diariamente buscando sentidos e mudanças, fiz alguns exames médicos, vi como meu corpo de mamífero está, fiz algumas atividades de aquisição de conhecimentos, abracei algumas pessoas queridas... e nada mais.


Pensei algumas coisas sobre a sequência do viver. Mas não defini nada. 

Tentar manter meu sistema locomotor funcionando é uma prioridade. Não sei como agiria sem mobilidade...

É isso, por enquanto. 

William 


sexta-feira, 2 de agosto de 2024

69 de 100 dias



69. Os acasos moldam nossos dias, diria até nossas vidas. Quem já leu textos meus sabe que falo sobre os acasos da existência. São as veredas deste grande sertão que é a vida.

Hoje era pra eu ter andado umas dezenas de quilômetros. Havia planejado isso, fazer mais um teste físico para mensurar minha energia para andar os 80 Km da semana que vem. Andei 31,5 Km na semana passada. Os acasos mudaram meu dia (risos). Tudo bem! 

Ao aceitar o convite da companheira Lina Noronha para fazer uma live sobre política (ver aqui), cuja pauta central foi a eleição presidencial na Venezuela, senti a necessidade de organizar meu dia para ler boas fontes sobre o tema.

Deu tudo certo, acho que o programa foi legal. Agradeço a Lina pelo convite. Nos conhecemos em Havana, na Casa de Isabel. Sigo à disposição das causas da esquerda, do mundo do trabalho e do socialismo. 

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Acho que vou aproveitar que não andei uns 50 Km e vou dormir mais cedo. Ando cansado.

Amig@s leitores, um outro mundo é possível. Para mudarmos a tendência de fim do mundo, temos que apostar na educação e na cultura, para mudarmos as pessoas e com isso mudarmos o mundo. O conhecimento liberta, como ensina José Martí!

William Mendes 


sábado, 27 de julho de 2024

63 de 100 dias



63. Sábado. Hoje vou caminhar alguns quilômetros e ler meu corpo e minha energia. Preciso avaliar se tenho condições de fazer a romaria de 80 Km daqui a alguns dias. 

11h06

Escolhi o tênis do ano passado. Já está velho, mas vamos ver se dá certo. Tirei e coloquei ele duas vezes até sentir a pisada confortável. 

Vamos lá. Meu quadril não parou mais de doer. Por isso meu receio. Vamos caminhar enquanto posso.

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6K (1h17')

Primeira caminhada do dia. Calor de 27° e baixa umidade do ar (32%). Ruim pra saúde e condição parecida à da estrada.

Parei pra um café em casa e vamos pro segundo trecho. Vou andar mais de dez quilômetros agora. 

13h32

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Meus pés e pernas. 
Essenciais para um caminhante.

16K (3h30')

Ufa! Fiz uma boa caminhada nesta tarde de sábado. Estou bem. O tênis deu certo e não tive bolhas nos pés.

Estou fazendo uma refeição em casa e vou sair para andar mais uns dez quilômetros. 

Ponte de Osasco.

Fiz um roteiro saudosista. Fui rever o passado. 

Andei pelo Parque dos Príncipes, Vila São Francisco, Vila Dalva, Jardim Adalgisa e Rio Pequeno.

Aqui terminei o Ensino Médio. 

Passei no Colégio onde fiz o 3° ano, o Daniel V. Pontes.

Morei nesta casa à esquerda
até os 10 anos.

Depois fui à rua onde nasci, Sérgio Ruiz de Albuquerque. Passei na padaria Cinco Quinas.

A escola da minha infância. 

Por fim, fui ao colégio onde ne alfabetizei, o Adolfino de Arruda Castanho. 

Por sorte, encontrei meu tio em casa e conversamos por uma hora. O tio está se recuperando de problemas de saúde. Fiquei feliz em vê-lo bem.

Voltando pra casa.

Voltei para Osasco após andar os 16K. 

Hora de sair de novo e sentir um pouco mais minha energia.

19h45

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9,5K (2h05')

Finalizei a caminhada de hoje. Foram 31,5 Km e correu tudo bem.

Meus pés estão ótimos, sem bolhas.

Meu corpo resistiu bem. A dúvida é se eu iria mais 50 Km noite adentro, como ocorre na romaria. 

O ideal seria andar 50K na semana que vem. Mas tudo é mais difícil na cidade. Tem os perigos da violência urbana etc.

Enfim, missão cumprida hoje.

William (um caminhante com receio de perder a mobilidade)


terça-feira, 23 de julho de 2024

59 de 100 dias



59. Enquanto caminhava rumo ao supermercado senti um cansaço estranho. Dormi bem, não foi noite mal dormida. Hoje meu quadril me lembrou o tempo todo que ele existe. Mal isso. Saúde é não lembrar que o corpo existe.

Foi um dia triste logo do início. Ao acordar, soube do falecimento de uma companheira do movimento sindical, a Dani, uma jovem mulher de 49 anos. A vida é um instante, um instante. Triste demais ver partir uma pessoa do nosso lado, uma lutadora da classe trabalhadora. Foi um dia triste.

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DEVO CAMINHAR?

Faltam duas semanas para fazer ou não fazer a romaria de Uberlândia a Água Suja. Durante muito tempo em minha vida, eu prometia a mim mesmo não fazer mais a caminhada sempre que estava sofrendo na estrada. Depois que alcançava o objetivo de chegar à igreja, de me sentir capaz de ainda fazer aquele esforço sobre-humano, não descartava voltar no ano seguinte. Aí, faltando alguns meses, começava a comichão de vontade de pôr os pés na estrada e saber se ainda era capaz de tal coisa.

Em 2018 vieram as dores no quadril. Um exame apontou que havia desgastes na estrutura. Toquei a vida. Fiz a romaria em 2019 e correu tudo bem. O mundo parou a partir de 2020 com uma pandemia mundial que mudou tudo por um tempo.

Ano passado, deu a comichão uns meses antes de agosto. Fazer ou não fazer a romaria? Será que eu daria conta de andar 80 quilômetros ainda? Fiz umas caminhadas preparatórias antes, em julho. Acertei um tênis. Entendi que conseguiria pôr os pés na estrada. Fiz a caminhada que não fazia desde 2019. Deu tudo certo. Foi incrível! Incrível por diversos motivos. Muitos deles indescritíveis. Fiz os 80 Km.


Um homem na estrada...

Hoje me pergunto: faço ou não faço? Tento ou não tento andar por um dia os 80 Km que separam Uberlândia de Água Suja? Esses são os dias nos quais a comichão borbulha o sangue dentro da gente... por que fazer isso? Não tem explicação. É muito sofrimento andar aquilo. 

Mas o não fazer por achar que nem isso eu posso mais fazer é um troço fodido demais... eu já tive que aceitar tanta coisa nos últimos anos, tomar aquela merda de comprimido diário por ter pressão alta... depois descobrir que meu quadril já não me permitiria correr uma maratona... que merda de vida é essa que a gente sonha a vida toda correr uma maratona e quando para de trabalhar jornadas de dez a quinze horas de trabalho não pode mais fazer uma coisa simples como correr... caralho!

Enfim, hoje foi um dia triste para mim. O que farei nesses próximos dias e semanas? Terei caminhado pelas estradas da vida? 

William


domingo, 7 de julho de 2024

43 de 100 dias



43. Uma das questões relativas ao meu período de 100 dias de existência é se vou ou não vou fazer a caminhada de 80 Km entre Uberlândia e Água Suja em agosto deste ano. Já fiz alguns exames para saber a quantas andam minhas estruturas de locomoção: estão meio fodidas. 

Já sei que as dores não deixarão de existir em minha vida. Foram confirmados os desgastes que tenho em cartilagens, ossos do quadril e fêmur. Se for possível, seria bom melhorar a estrutura muscular da região. Porém, na minha idade é possível ganhar ou recuperar massa muscular? Sem usar hormônios? Sei que entupir-se de proteína tem efeitos colaterais horríveis, não faria isso. Seria idiotice. Entretanto, vou tentar melhorar um pouco minha massa muscular.

Para avaliar se vou ou não fazer a caminhada, farei como no ano passado. Farei umas caminhadas longas progressivamente para testar a estrutura de locomoção, a minha energia interna e o tênis adequado para preservar meus pés. Experiência de romeiro eu tenho, felizmente.

Hoje, fiz o primeiro teste de caminhada, para avaliar um tênis e para sentir minha energia. Andei 10 Km em 130'. O tênis foi reprovado. O que usei amassa os calcanhares, só esse pouco que andei, deu bolha nos dois pés. Sem chance. Tenho que testar outro. A energia foi tudo bem. As dores também foram normais. (doido isso, né? "dores normais...")

Vamos andar uns 20 Km nos próximos dias e ver como as coisas se desenvolvem.

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Não trabalhei nos meus materiais de cultura. Quer dizer, vi mais um documentário da Coleção História Viva. Foram quase duas horas sobre a 2ª Guerra Mundial. Imagens necessárias a todas as pessoas do mundo atual. Pena que pouca gente se interesse por história. Fiz postagem sobre o material: ver aqui.

Domingo chegando ao fim. Vou brindar com uma dose de cachaça ou rum a vitória do povo francês que se uniu para derrotar os extremistas xenófobos e fascistas na França. Grande vitória do povo que não compactua com a extrema-direita. Viva a democracia francesa!

William


quinta-feira, 4 de julho de 2024

40 de 100 dias


Documentário sobre a Revolução russa.

40. Hoje trabalhei bastante no blog. Escrevi alguns textos culturais após ler Victor Hugo e ver documentários sobre história. 

Em relação ao trabalho de organização de meus materiais de história e cultura, meu centro de documentação (cedoc), peguei agora para ver a coleção História Viva "Grande Dias do Século XX". Os documentários são extraordinários, com imagens de época que pouco se vê por aí.

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CONSIGO FAZER ROMARIA DE 80 KM?

Agora à noite, enquanto conversava com minha irmã, dando notícias a ela sobre minha condição de desgastes na região do quadril, ela me lembrou de algo importante sobre minha intenção de fazer romaria em agosto: será que eu consigo fazer o percurso ainda?

Boa questão a se avaliar. Ano passado, tive os mesmos receios e dúvidas sobre fazer ou não fazer a romaria de Uberlândia a Água Suja.

Ou seja, dentro das questões de coisas a fazer e sentidos a se encontrar nesses 100 dias de vida, uma a racionalizar é se farei a romaria, e se for fazer, terei que proceder como no ano passado. Terei que fazer umas longas caminhadas neste mês de julho, de uns 15 Km, de uns 25 Km e talvez uma até de uns 40 Km.

Tenho que refletir e me organizar.

William


sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Diário e reflexões


Vila Caiçara, Praia Grande, SP.

Refeição Cultural

Osasco, 26 de janeiro de 2024. Noite de sexta-feira.


Vou dormir daqui a pouco em casa. Estávamos na Praia Grande, litoral paulista, nos últimos dias. Corpo cansado, por fazer atividades físicas. Consciência leve, porque faço a minha parte como animal racional para alongar minha existência, prorrogando a atuação do tempo e os efeitos do desgaste natural por sermos natureza. Minha herança genética e a forma intensa como vivi exponenciam meus riscos de interrupção da existência a qualquer momento (todos nós, mas alguns mais).

Estivemos na colônia dos professores do Sinpro São Paulo, um lugar simples, pequeno e que adoramos. Sentimos a ausência do filho, que não foi desta vez, mas conhecemos pessoas muito legais, professoras e professores. Enquanto a minha razão matuta ideias de fim das relações humanas - o tal pessimismo da razão -, a realidade nos apresenta pessoas que teimam em fazer a vida valer a pena. Muito interessante essa nossa espécie! Esperançar...

Colônia dos professores do
Sinpro São Paulo.

Correndo com um corpo gasto

Posso avaliar de diversas formas as coisas da vida. 

Um novo amigo, o professor Enrique, disse, por exemplo, que Deus (talvez a natureza) estragou os ossos do fêmur e quadril dele. Sob certo ponto de vista, poderíamos dizer que foi a vontade de Deus, dos deuses, do destino, da natureza etc. Aí vieram os animais humanos, a espécie animal que tem capacidade de alterar e controlar a natureza, que tem inteligência para criar coisas, e deram a ele nova estrutura de locomoção, próteses de cabeça de fêmur e encaixes no quadril. Achei a hipótese dele interessante. 

Qual foi a vontade de Deus e qual foi a do homem? A resposta depende das concepções de mundo de cada pessoa. O que posso dizer, por ser testemunha ao ouvir as pessoas, é o quanto a intervenção humana devolvendo a mobilidade e ou saúde a uma pessoa pode ser algo maravilhoso! O professor Enrique e várias pessoas que conheço estão felizes por voltarem a ter mobilidade.

No meu caso, estou com desgastes na estrutura locomotora também. Faz alguns anos que o prazer da corrida passou a ser uma mescla de dor e prazer ao me esforçar para correr, coisa que faço desde adolescente. E posso refletir sem falsa modéstia que, no mínimo, sou esforçado há décadas, e disciplinado, e pessoa com firmeza de propósito. 

Vamos tentando alongar a existência...

Não é pouca coisa! Se eu não fizesse atividade física, aeróbica, talvez eu já tivesse sido vítima de eventos cardiovasculares ou cerebrovasculares aos 54 anos (as maiores causas de mortes no Brasil). É minha natureza genética. Ao correr, adio os efeitos da natureza em relação ao meu colesterol ruim (LDL) e triglicérides, pressão alta, níveis de glicose, sobrepeso e obesidade, fatores centrais de doenças crônicas.

Nunca fui pessoa de aceitar com tranquilidade intervenções cirúrgicas. Entendo que intervenções invasivas em nossos corpos, só em último caso. Nem a cirurgia de miopia quis fazer tempos atrás, mesmo sendo moda e todo mundo fazendo. Aliás, se for falar de moda de cirurgia... fodeu! Eu gostava de práticas esportivas meio radicais, diriam, saltar de paraquedas, cachoeiras, cavernas etc e decidi não me arriscar a entrar para a estatística da pequena porcentagem de cirurgias de miopia que poderiam não dar certo. 

E depois de estabelecer minhas convicções e tendências sobre intervenções invasivas em meu corpo, ainda tive a oportunidade de ser gestor de saúde, de um modelo assistencial baseado em atenção primária e medicina de família: prevenção, promoção de saúde, controle de riscos, visão holística da pessoa etc. Aí que passei a ser mais cuidadoso ainda com essa questão de qualquer capitalista com diploma na área da saúde sugerir fazer uma "operaçãozinha" em você. Existem as intervenções necessárias e as desnecessárias... o difícil é saber como anda a ética do capitalista que vende essas intervenções cirúrgicas.

Enfim, toda essa verborragia acima é para dizer que se puder adiar fazer operações para colocação de próteses disso e ou daquilo, farei isso!

Depois que fiz a romaria de 80 Km ano passado (ler aqui), e depois que achei que não daria para correr a São Silvestre (15 Km) e corri, com uma história de superação incrível (ler aqui), entrei o Ano Novo imaginando coisas, esperançando ideias de corridas (já falei o quanto é fantástica essa invenção humana: o calendário e a contagem do tempo). Ano Novo, esperanças novas!

Vila Caiçara, Praia Grande.
Foto: William


Voltei com as corridas longas

Então, vou dormir com a sensação de dever cumprido em relação à minha saúde e às pessoas que são de minhas relações de afeto. Corri 10 Km na Praia Grande hoje, para me despedir da semana de férias na colônia dos professores. Foi incrível porque foi uma corrida bem tranquila. Minha energia estava ótima!

No domingo, saí para correr no calçadão da praia e não consegui fazer um longão. Depois de correr 5 Km, tive que parar porque se continuasse poderia me prejudicar. Foi ruim.

Eu já tinha corrido uma distância de 10 Km em janeiro, depois de correr a São Silvestre. Mas naquele dia na praia não deu.

Aí durante a semana no litoral choveu a cântaros. Mais de 300 mm de chuvas em quatro dias. Eu não me arriscaria a correr com chuva forte porque nos dias que ficamos na Praia Grande um raio matou uma senhora e feriu mais pessoas.

Como hoje era o último dia, a chuva virou chuvisco e a temperatura melhorou, saí para me despedir da praia. Que corrida gostosa! Que semana gostosa na colônia!

É isso! De volta a Osasco!

Seguimos a vida!

William


terça-feira, 3 de outubro de 2023

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 3 de outubro de 2023. Terça-feira, fim de noite.


Primeiro registro do mês de outubro. Sobre o que poderia escrever e refletir aqui no blog?

SÃO SILVESTRE

Me inscrevi para participar da 98ª Corrida de São Silvestre. Faltam três meses para a prova de 15 Km. Faz alguns anos que não corro a mais tradicional corrida brasileira. 

Depois de dez participações, a inscrição neste ano foi uma ideia que tive para desafiar a mim mesmo depois de conseguir fazer a romaria de quase 80 Km em agosto (ler aqui). Só que a corrida de 15 Km vai ser bem mais difícil que a caminhada da romaria.

Não estou com condicionamento físico adequado para a prova neste momento. Tenho corrido poucas vezes por mês e os percursos são pequenos, de até 5 Km.

Além disso, minha resistência física está ruim. Este mês de outubro será importante para avaliar se meu corpo está em condições de se adaptar para correr 15 Km ou não. 

Minha ideia é correr umas 8 vezes em cada um dos meses de adaptação. O normal é que ocorra uma melhora de condicionamento físico ao treinar, se alimentar e descansar adequadamente. Se isso não ocorrer, algo não vai bem comigo.

Eu não estou velho em termos de idade, mas minha vitalidade mudou nos últimos anos. A natureza segue seu percurso, mudanças diárias.

Hoje corri 4,5 Km em 33' com dia quente e percebi que o treinamento será duro para sair da condição atual para a condição ideal para mim até 31 de dezembro. 

Tenho que intercalar uma corrida rápida e uma de resistência semanal com atividade de reforço muscular nas pernas e na estrutura do tronco. E tenho aquele desgaste infeliz no quadril, que me traz dor e limitações.

Vamos ver o que eu arranjo nas próximas semanas... vamos ver onde meus pés me levam...

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CONDICIONAMENTO MENTAL

Além de estabelecer um objetivo esportivo para me disciplinar a ter uma rotina de treinamento para melhorar meu condicionamento físico até o fim do ano, também decidi desenvolver meu cérebro e ver se ainda é possível melhorar meu condicionamento mental.

Sendo assim, decidi estudar por conta própria algumas matérias que exigirão de mim melhora na capacidade de memória e criatividade.

LÍNGUA ITALIANA

Estou estudando um idioma novo, o italiano. Vamos ver se aprendo as quatro habilidades: ler, escrever, falar e ouvir a língua italiana. Trouxe um livro de literatura da Itália, quando estive lá em 2009. 

Se aprender a língua, pretendo visitar a Itália de novo e desta vez quero me comunicar normalmente por lá, como faço quando vou a um país de língua castelhana.

E pretendo ler meu romance I Malavoglia, de Giovanni Verga.

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É isso! 

William


quinta-feira, 31 de agosto de 2023

Diário e reflexões - Agosto



Refeição Cultural - Agosto

Osasco, 31 de agosto de 2023. Quinta-feira.


Introdução

Criei neste ano aqui no blog uma categoria de postagem de final de mês para registrar alguma coisa que tenha me chamado a atenção naquele período. Quando olhar para trás relendo o blog, terei a memória registrada sobre minhas impressões do mundo no qual existo.

Vai terminando o mês de agosto. Pensando sobre o que me chamou a atenção, ou que fatos marcaram a minha vida ou a vida do mundo onde habito, ou ainda decisões que eventualmente tenha tomado, posso deixar registrado o seguinte:

1. 

É no mês de agosto que os sabiás aqui da região onde moro começam a sinfonia de cantos nas madrugadas afora. É algo fantástico! Mesmo estando numa zona urbana, ouvimos durante semanas a cantoria dos sabiás. Some a esse espetáculo a beleza da floração dos ipês rosas, amarelos e brancos, que se juntam às patas-de-vaca para deixarem nosso ambiente humano mais bonito. Nossos agradecimentos aos sabiás, aos bem-te-vis e aos joões-de-barro de nossa região!

2. 

Fiz a romaria entre Uberlândia e Água Suja neste mês de agosto. Deu tudo certo. Completei o percurso de quase 80 Km em 25 horas, e de forma admirável não tive nenhuma bolha nos pés, mesmo sem usar esparadrapos como faço há anos. Foi a 1ª vez que usei um aparelho que marca distâncias (um Huawei Band 8). Minha última romaria havia sido feita em 2019, antes da pandemia mundial de Covid. Cheguei a Uberlândia com muitas dúvidas na minha capacidade de ainda fazer a romaria. Tive medo de não conseguir. Meu corpo já não é o mesmo de antes. No entanto, o treinamento que fiz semanas antes da caminhada e a concentração no que estava fazendo durante o percurso foram fundamentais para que meu corpo ainda respondesse aos meus comandos. Mais uma vez, contei com a assistência de meu cunhado na estrada: ter alguém acompanhando o romeiro é um diferencial positivo na realização do projeto. A romaria foi um fato intenso em minha vida neste mês de agosto. Clique aqui para ler a postagem sobre essa experiência de peregrino.

3.

Aceitei neste agosto o fato de que algumas lideranças atuais da direção não me queriam mais na Articulação Sindical, tendência política da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Dediquei a maior parte de minha vida à militância política no movimento sindical bancário. Ao olhar para trás e ver as lutas realizadas e as etapas vencidas pela categoria, sei que deixei a minha contribuição em momentos importantes e decisivos de nossa história de luta de classes. Quanto mais estudo e busco conhecimento, mais claro fica para mim por que as coisas são como são e hoje tenho uma ideia melhor dos porquês de meu apagamento e cancelamento por parte de algumas lideranças da corrente política que ajudei a construir e fortalecer por cerca de três décadas - a CUT fez 40 anos e a Articulação quase isso, sou cutista há uns 35 anos. Fiz um texto de reflexões sobre essa decisão (ler aqui), aliás, as postagens sob a categoria "Memórias" é praticamente um livro publicado. É um momento de luto para mim, apesar de não significar nada para a corrente e a política atual. Nunca consegui colocar nada pessoal nas minhas prioridades, as prioridades do meu viver sempre foram as causas sociais e políticas que o movimento dos trabalhadores tinha na agenda. É um luto. Mesmo vivendo um duro processo de cancelamento por quase 5 anos, reconhecer o fim de meu pertencimento à Articulação é um desafio pessoal. Vou sobreviver a isso e vou me reinventar.

4.

O que sou no mundo neste momento, neste agosto? Não tem sido fácil viver sem função social definida. Se é frescura ou cacoete ser "útil" no mundo, não sei, mas o aculturamento enfiado em meu cérebro cobra que alguém seja algo. Apesar de nunca ter exercido profissão nas graduações que fiz - Ciências Contábeis e Letras - até pouco tempo eu era um "trabalhador", vendia meu corpo - as horas de meu dia - e minha força de trabalho para sobreviver, era bancário, era dirigente político, e isso alimentava minha psique formada através das décadas de existência num canto do mundo chamado Brasil... De repente, entre 2018 e 2019, me peguei sem resposta ao ser questionado sobre o que andava fazendo, quem eu era e coisas do tipo. "E aí, tá onde? Que anda fazendo? O que você faz? Qual sua ocupação?". O que sou no mundo neste momento? Nem "aposentado" sou, haja vista que pagarei a previdência pública até a morte pelo andar da carruagem. Avaliei que talvez seja razoável preencher essa resposta com algo parecido à função de "escritor". Eu escrevo. Estudo e escrevo a partir das reflexões que faço sobre o que leio e estudo. Eu escrevo. Em tese, quem escreve pode ser considerado um "escritor". Não tenho nenhum livro publicado. Mas poderia dizer que existem alguns livros nas quase duas décadas de textos publicados em meus blogs. São mais de 5 mil postagens e mais de 2 milhões de acessos. Talvez eu possa me identificar como um escritor...

5.

Tive um agosto de poucas leituras. Este foi o primeiro mês do ano no qual não li um livro por inteiro. Estou lendo alguns livros, dentre os quais cito Os miseráveis - Victor Hugo, Os mortos vivos - Peter Straub, Cuba insurgente - Maria Leite, Vaga Música - Cecília Meireles, mas as leituras seguem em ritmo lento. Sendo assim, li até o momento 23 livros no ano. As leituras que fiz até agora me fizeram refletir muito sobre a vida e o mundo. Isso é bom. Calculo que diminuirei o ritmo de leitura de livros nos próximos meses. Decidi lançar novos desafios ao meu cérebro, já que tenho andado preocupado com a alta incidência de problemas mentais na população mundial. As doenças degenerativas do cérebro têm aumentado assustadoramente. O que posso fazer para postergar alguma doença ou falência de meu cérebro eu tento fazer. Atividade física aeróbica, atenção no que como com frequência, e estímulos ao cérebro. Vou fazer um experimento comigo mesmo: vou adicionar uma carga diária de estudos de línguas e linguagem para estimular meu cérebro, ver se recupero e melhoro minha memória, e ver se realizo um sonho juvenil de saber algumas línguas. Aliás, gostaria de saber a gramática de nossa língua, pois nunca soube. Escrevo desde jovem com qualidade razoável por causa daquilo que chamamos de gramática internalizada da língua, por ser leitor e escritor praticante. Em resumo, vou ler menos livros e estudar linguagem e línguas.

6.

O mês de agosto na política pode ter sido bom ou pode ter sido ruim, depende do ponto de vista do observador. Decidi já faz algumas semanas usar menos tempo de meu tempo ocioso com o acompanhamento da política nacional. Eu não sou mais dirigente político e não consegui entender isso nos últimos cinco anos. O que falo ou penso ou escrevo sobre política não tem relevância alguma, sou um nada nessa área da política e não quis entender isso. O mundo atual vive uma esquizofrenia total. Um sujeito ou uma sujeita qualquer abre um perfil em alguma rede social, faz alguma coisa que dê relevância a ele ou ela, passa a ter milhões de seguidores e vira influenciador(a), e sem saber tecnicamente nada de porra nenhuma passa a ser a pessoa que faz milhões de pessoas pensarem como ele ou ela. Enquanto isso, um cientista ou profissional com uma vida de dedicação e estudos a determinada área de saber não consegue ser visto nem por centenas de pessoas, não influencia ninguém e ainda pode ser cancelado se contrariar um mané desses com milhões de seguidores. Uma esquizofrenia total. Postar opinião sobre as merdas de decisões do novo ministro do STF indicado por Lula? Falar da eterna impunidade dos caras que destruíram o país e o povo? Comentar sobre uma pauta política bombando na semana? Que diferença faria um comentário meu sobre isso? Se eu tiver o cuidado necessário, me informo rapidamente sobre as coisas e foco meu tempo ocioso em estudar algo que definir como relevante a mim. Tenho que ter a sabedoria de me colocar no meu lugar no mundo neste momento da vida e da história.

7.

E assim, fecho o registro do mês de agosto. Neste último item coloco um desafio que seria bobo anos atrás, mas que agora é um desafio grande para mim. Me inscrevi na 98ª Corrida de São Silvestre. Depois de 10 participações, não corro a prova faz alguns anos. Neste momento, não tenho condições de correr 15 Km, não tenho condicionamento físico para isso. Tenho 4 meses para me preparar. Minha condição de saúde atual para correr um percurso desses é ruim. Ontem mesmo, fiz um trote de 5K e sempre fico com dores no dia seguinte, principalmente nas minhas estruturas musculares e esqueléticas. Vamos ver o que programo para esses meses. Enquanto estiver treinando e me preparando, estarei ajudando meu coração e meu sistema respiratório e circulatório. Meu cérebro também agradece por isso.

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O que é a vida?

A vida é oportunidade. Estar vivo é estar no mundo e estar no mundo é uma chance de poder aprender algo novo e criar e estar sob o imponderável a cada momento, a cada manhã que acordamos. Então, felizes ou tristes, com muitas ou poucas dificuldades, penso que temos que viver, e penso que temos que viver não de qualquer jeito, temos que viver com ética, com caráter, com solidariedade, com humanismo e com consciência social de que não somos nada sozinhos, somos seres sociais e precisamos das pessoas que estão no mundo como nós estamos. Somos natureza! Somos parte da natureza, não estamos acima dela em escala hierárquica. Nossa potência de fazer esbarra na impotência de não poder intervir em tudo. É isso que penso neste momento do meu viver.

William


Post scriptum: minha reflexão sobre julho pode ser lida aqui.


quarta-feira, 16 de agosto de 2023

Romaria a Água Suja (2023)



Refeição Cultural 

Uberlândia, Minas Gerais, Brasil. 


"Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás,
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.
" (Antonio Machado)


Quando peguei a estrada na sexta-feira 11, por volta de duas horas da tarde, imaginei que passaria horas pensando na vida e no mundo.

Quando digo que cada romaria é uma experiência única, não é apenas por dizer uma frase de efeito. Cada experiência é única mesmo. 

Achava que faria longas reflexões sobre a vida e o mundo no qual existimos como parte integrante da natureza porque nas caminhadas preparatórias que fiz foi assim que ocorreu: pensei muito sobre muita coisa.

Na estrada (BR 365), naquele momento do início da caminhada, com aquele calor de fim dos tempos (e de agosto), senti que minha concentração em mim mesmo teria que ser total. Dominar meu corpo era a única meta até o fim. As elucubrações sobre a vida ficariam para depois.


E assim ocorreu. Ao longo de 70 Km foquei em cada passo dado, cada mensagem interna de meu corpo, cada mudança de piso, relevo ou luminosidade do ambiente, e fui indo, indo, indo. Por um instante, vi o efeito da displicência, e ela quase me tirou do caminho... (metáforas da vida) 

Sendo conhecedor antigo do trajeto entre Uberlândia e Água Suja, e sabendo os pontos de referência para possíveis paradas para descanso, fiz cada trecho ser uma etapa vencida da caminhada. Novamente, podemos pensar numa metáfora da vida com isso, etapas a superar, isso é o viver.


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NINGUÉM ANDA O MESMO PERCURSO DUAS VEZES...

Ninguém entra duas vezes no mesmo rio (como nos ensinou Heráclito), ou ninguém anda o mesmo percurso duas vezes... O rio muda, a estrada muda e nós mudamos.

Já faço essa caminhada entre Uberlândia e Água Suja desde os anos oitenta, desde adolescente. Os motivos e as condições nas quais fiz a romaria já foram os mais diversos. Já fiz a romaria sendo muito religioso e a caminhada é um tipo de experiência.


Hoje faço a romaria com outros propósitos como, por exemplo, viver um momento de introspecção intensa. E a experiência também é algo para muito além da razão, pois não se anda 70 Km em um dia só de forma racional, não se anda. O componente emocional e psicológico é fundamental para uma pessoa andar dezenas de quilômetros.

O rio Araguari continua lindo, mas os relevos mudaram ao longo do caminho. Continua-se vendo grandes fazendas, mundo agro pop, muita terra de poucos donos (Brasil injusto e desigual). Quilômetros de desertos verdes, eucaliptais que não acabam nunca. Poucos bichos, pouca diversidade.

Só as sombras são parecidas...

Os caminhantes nunca são os mesmos. A caminhada nunca é igual, nem pra quem está acostumado. O rio e os caminhos nunca são os mesmos, os caminhantes também.

Este caminhante que reflete sobre a experiência é outro, tudo foi diferente das vezes anteriores. A começar que nunca tive tanto receio de não completar o percurso, receio de passar mal, medo de descobrir que não poderia mais fazer o que estava acostumado a fazer. A natureza está em mudança acelerada. Sou natureza.

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OS PREPARATIVOS PARA O CAMINHO

Cheguei a Uberlândia determinado a fazer a romaria até a cidade de Água Suja. Nas semanas anteriores, administrei meus receios e medos de não ter condições de percorrer todo o caminho. 

Na preparação física e psicológica, fiz umas caminhadas progressivas: andei 10 Km, depois andei 20 Km, depois 30 Km e, por fim, na semana anterior, andei 48 Km, o que seria equivalente a chegar até a Antena no caminho de Água Suja. Na última caminhada, decidi qual tênis seria usado.

Trabalhei mentalmente a hipótese de só conseguir chegar até a Antena e ter que voltar de lá. Uma de minhas preocupações era ter queda de pressão e algum apagão por desidratação ou cansaço extremo. Ou até o quadril com desgaste me impedir de seguir adiante.

Um homem na estrada...

Uma peregrinação como essa é uma boa metáfora da vida: é preciso inteligência para ler a realidade e lidar com ela. 

Antes de chegar a Uberlândia, havia planejado sair bem cedo, umas 9h30 da manhã, para andar o dia todo de sol escaldante estando descansado. Já que a caminhada leva cerca de 24 horas, no meu caso atual, achava melhor lidar com o calor intenso ainda descansado. É inevitável ter que andar um dia inteiro de sol e uma noite inteira.

No entanto, a realidade material e objetiva se impõe em nossas vidas. Treinei em SP andar sob um calor de 30º... só que bastou andar menos de 2 Km ao meio-dia de Uberlândia no dia anterior à romaria para perceber que seria loucura me expor ao sol ininterrupto do início da manhã ao fim do dia. O calor de 30º de lá é muito maior que o de onde moro. Imaginem na estrada... O corpo me avisou sobre isso.

Após definir o novo horário de saída - a vida é assim, traçamos objetivos, fazemos planejamentos, definimos estratégias e táticas - tinha outra questão a resolver: se iria sozinho ou se teria a assistência de alguém para me acompanhar de carro ao longo do trajeto e para voltar mais rápido quando chegasse a Água Suja.

Paisagens do caminho... ipês.

Até 2016, nunca tive assistência nas romarias. Saía sozinho e após percorrer o percurso e chegar à cidade, ainda tinha algumas horas pela frente para conseguir voltar a Uberlândia: esperar horas por um ônibus na rodoviária, achar uma van que estivesse oferecendo serviço etc. Numa romaria dessa a gente fica acordado 30 horas. Ir com alguém dando assistência na estrada é um privilégio, pois além de diminuir o peso da mochila, chega-se a cidade e volta para casa mais rápido.

Por saber das dificuldades pessoais de meu cunhado e irmã, que estão lidando com suas cronicidades, estava sem jeito para perguntar se meu cunhado poderia me dar uma assistência. Nas últimas romarias, ele nos fez essa gentileza, digo no plural porque ele já deu assistência até para meu filho e o amigo dele. Imagino que deva ser muito cansativo ficar num carro por 24 horas andando e parando, é cansaço pra todo mundo, pra quem anda, pra quem dá assistência. Mais uma vez, meu cunhado e minha irmã se colocaram à disposição e eu sou muito grato por isso. O receio de fazer o caminho diminuiu muito ao saber que seria acompanhado.

Agora era fazer o caminho e atingir meu objetivo. Na noite anterior à romaria, fiz um texto reflexivo sobre a experiência do caminho, anseios e expectativas (ler aqui).

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O CAMINHO

Neste ano, estava com um marcador de distâncias no pulso. Nunca tive muito entusiasmo por essas modas tecnológicas. Pra se ter uma ideia de como evito muitos aparatos tecnológicos, ainda levo nas romarias meu Aikman de 1987 e algumas fitas cassete. 

No entanto, ganhei da esposa um Huawei Band 8 e o trequinho é bem interessante. Na romaria deste ano, o aparelho contribuiu muito para minhas etapas a superar e no efeito psicológico. 

Nas etapas mais difíceis, cada vibração em meu pulso era um Km superado... gostei do aparelho.

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14,01 Km

Saí do Trevo para Araxá e andei até a ponte do Rio Araguari. Meus pais me levaram até o trevo. Que calor absurdo! A concentração na pisada foi total. Tinha que estabilizar meus pés dentro do tênis e evitar qualquer pisada forte com o pé cozido. Sabia que se não machucasse os pés nas primeiras horas, a tendência era ter pés sãos para a noite toda.



Na mochila levei muita água para não desidratar. Marquei de encontrar meu cunhado lá no Rio Araguari. Deu certo. Andei 3h15 e parei uns 30 minutos. Comi um pão com carne. Coloquei um esparadrapo no dedinho do pé, pois a costura da meia estava incomodando. Saí para a próxima etapa. Iria escurecer logo e queria andar bem na subida do rio.

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9,86 Km

Saindo do Rio Araguari, o romeiro enfrenta um longo percurso em subida na BR 365. Uns quilômetros adiante tem o Trevo de Miranda e 7,8 Km depois um antigo posto de gasolina desativado, que se chamava Posto Triângulo. Ali os romeiros param um pouco, encontram as assistências etc.


Fiz esse percurso em 2h36. O tempo que era marcado no relógio do pulso ao longo da caminhada acabou não sendo o tempo só andando porque com o cansaço a gente esquece de dar pausa quando para para urinar, para pegar uma sopa, um pão etc. Neste dia, tinha muita gente no acostamento dando água e outras coisas aos romeiros.

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8,81 Km

Saí do antigo Posto Triângulo por volta de 22h para andar até o Posto N. Sra. da Guia, este em funcionamento. Até lá eu já teria andado cerca de 36 Km pelas distâncias marcadas num antigo panfleto que carrego comigo.

Pelo relógio da Huawei, quase todas as distâncias tiveram alguma diferença em relação ao panfleto antigo. Andei por 2h10 até o ponto de referência que mentalizei. Meus quilômetros em pisada de romeiro foram entre 13' e 15' conforme o trecho.

A noite de 11 para 12 de agosto foi de breu total. A lua cheia havia sido na semana anterior. Sem um farol de carro indo ou vindo e sem uma luz de lanterna o peregrino não consegue visualizar onde pisa. É tenso! Imaginem só, basta somar o fator pisar no breu com o fator cansaço e talvez com o fator sono... resultado: risco.

DISPLICÊNCIA - O caminho da gente pode ser interrompido por um vacilo, um instante que defina uma vida. Na estrada quase não havia sinal da operadora do meu celular. Foi a 1ª vez que levei celular na romaria por causa dos receios que falei de minha condição atual. Então, andando naquele breu total, num trecho alto da estrada, o celular vibra várias vezes. Por impulso, tiro o celular do bolso e tento ver o que era. Fiz isso andando... em poucos passos, saí do acostamento e meu pé esquerdo caiu na valeta de uns 40 cm ou mais de profundidade... por pouco eu não me quebro todo! A caminhada poderia ter terminado ali. Sou um homem de sorte... I'm Lucky Man... valeu a lição!

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11,72 Km

Saí do Posto N. Sra. da Guia para andar até a barraca de ajuda aos romeiros na Antena pouco antes das duas horas da manhã. Não estava com sono. Fui tomando bastante café no caminho. Meus pés estavam bem. A noite estava incrivelmente quente.

Eu e o cunhado

Este foi o único trecho no qual o odômetro do Huawei marcou mais que a distância que estava registrada no panfleto. Quase um quilômetro a mais. No entanto, o fator psicológico de o relógio vibrar no pulso a cada 1 Km foi muito estimulante. Pensava ao andar: "daqui a pouco andei um terço", "daqui a pouco andei a metade", "faltam só x quilômetros". E o som rolando no meu toca-fita...

Andei 3 horas. Durante o percurso, entrei em algumas barracas de ajuda e comi alguma coisa, sentei uns minutos. 

Barraca da Antena.

Cheguei a Antena melhor do que imaginava. Que bom! Como havia muita gente e não tinha lugar nas mesas, tomei minha sopa em pé mesmo.

Para não acontecer de ficar mal durante o percurso seguinte, decidi ficar um tempo na Antena. Pensei em cochilar uma hora. Não deu certo, não cochilei mais que vinte minutos. Saí umas 7 horas da manhã sem tomar café direito porque o estômago estava embrulhando com qualquer coisa. Comi meio pão.

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A alvorada.

9,86 Km

O trecho até o Posto Santa Fé foi o mais surpreendente desta romaria. Saí 7 horas da manhã pensando em andar mais de 3 horas porque imaginava andar mais de 12 Km e, no entanto, tive a grata surpresa de numa das curvas da estrada ver o posto. Achei que era miragem (risos).

Deu menos de 10 Km pelo odômetro no pulso e eu estava relativamente inteiro. Andei por 2h23 e o calor estava ficando insuportável.

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8,77 Km

E quem disse que seria fácil?

Deste ponto em diante, após andar uns 55 Km, é que começa a etapa mais difícil da romaria entre Uberlândia e Água Suja, é aquele momento do sol escaldante, corpo extenuado, e cada quilômetro andado é mais difícil que vários andados anteriormente.

Antigamente, andávamos 6 Km até o Atalho no eucaliptal. Hoje ele não existe mais. O proprietário proibiu os romeiros de atravessarem por ali. Agora é pela estrada mesmo que se vai. Deu quase 9 Km. Gente, como foi difícil! Foi um esforço tremendo manter o foco para não ficar parando a cada Km.

Os peregrinos andam andam e andam e tudo o que veem é plantação de florestas de eucaliptos. Os pássaros que ouvi cantarem foram os pássaros-pretos. Pouca diversidade ali.

Grato pela galinhada, mas não
consegui comer... estômago ruim.

Cheguei na barraca de ajuda que fizeram para os romeiros na entrada da estrada de terra para a cidade. Estava bem cansado. Não consegui engolir a comida que peguei: uma tradicional galinhada mineira. Nossa, estava uma delícia, só experimentei! Tive que descansar uma meia hora e decidir sair sem comer. Apostei nas barras de cereais que tinha comigo pra não faltar carboidratos no fim.

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6,67 Km

O percurso final é sempre uma etapa à parte da romaria. É um misto de dor e alegria que se vive durante os quilômetros finais. O peregrino deve estar com o corpo repleto de hormônios por ter andado até ali e sua chegada à cidade e à igreja tem todo um componente psicológico.

O terrão vermelho do último trecho, misturado ao sol e ao suor, dão a imagem final ao romeiro ao chegar à cidade. 

Peregrinos chegam à Basílica de
N. Sra. da Abadia de Água Suja.

Depois daquela imensa descida e subida de terra e cascalho, não atravessamos mais o pasto que tinha antes da cidade. Os romeiros agora devem seguir pelas ruas de terra até entrar em Água Suja.

Mentalizei muito nesta etapa final. Administrei a energia vital já que não estava conseguindo comer. Fui bebendo líquidos e mastigando alguma coisinha.

Cheguei umas 15 horas. Completei o caminho. Pelo odômetro do Huawei, andei 70 Km. As maiores paradas foram de 1h30 na Antena e 1h no Santa Fé. Saí de Uberlândia, do trevo para Araxá às 14h20 e cheguei às 15h20. (o vídeo sobre o caminho pode ser visto aqui)

Incrível eu não ter tido nenhuma bolha nos pés. Pela primeira vez em décadas eu sequer fiz o preparo de meus pés com esparadrapos. Nenhuma bolha! Pisei por 70 Km como se fora uma pluma. Como se fora carregado por anjos ou por Deus. Nem vermelhos meus pés ficaram. 

Completei o Caminho.

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SE FAZ O CAMINHO AO ANDAR

A estrofe do poeta espanhol Antonio Machado que abre esta postagem é muito profunda para mim. É de uma simbologia incrível! Quase vejo a minha vida nela. 

Antes de iniciar o caminho, pensei comigo que iria refletir muito sobre a vida porque vinha fazendo isso antes de pegar a estrada para Água Suja. Escrevi que tinha umas coisas pra digerir e queimar dentro de mim.

Entretanto, a realidade do caminho se impôs e tudo o que fiz foi concentrar minha atenção em mim mesmo, dialogar com o meu corpo e fazer com que ele me levasse até o objetivo final. Consegui.

As coisas a digerir e queimar dentro de mim continuam aqui dentro do meu ser, do caminhante, do peregrino. Mas tudo bem. A vida é como uma romaria dessas que fiz. Vamos indo passo a passo até chegar no destino que mentalizamos.

E se não chegarmos, tudo bem. Tudo bem. Cada pessoa chega até onde dá. A vida também é assim.

Vou digerir as coisas que seguem entaladas no meu sistema digestório e que não me permitem sequer me alimentar direito certas horas. A comida não desce...

Aprendi muito nesta nova caminhada, aprendi sobre mim, sobre esse ser que sou neste momento. As coisas estão tão claras pra mim que até fico chocado.

Foi uma experiência muito importante para mim sair de Osasco, ter medo e receio de não conseguir fazer o que fazia antes, encarar meus medos, encarar minhas dores e dificuldades, e chegar!

É isso!

William


Post Scriptum: Ao analisar o aplicativo do aparelho Huawei Band 8, em relação às distâncias percorridas por mim na sexta 11 e no sábado 12, fiquei tentando entender por qual motivo o registro no aplicativo é de 34,73 Km + 44,58 Km, o que daria um percurso de 79,31 Km andados por mim. De fato, essa distância é mais condizente com a realidade do que os 70 Km computados por mim manualmente, pois posso ter deixado de registrar alguma distância percorrida por cansaço, por esquecimento etc. 

Quando eu começava uma etapa, eu clicava o início do "treino" de caminhada ao ar livre e o correto era sempre dar pausa quando parava. Acontece que com o tempo, o romeiro vai cansando, começa a parar e não dá pausa, ou o contrário, dá pausa e esquece de dar play novamente etc. Eu fiquei encafifado com o fato de dar mais de 2 Km de diferença entre a Antena e o Posto Santa Fé na distância que marquei no relógio. No antigo panfleto da Polícia Rodoviária Federal (PRF-MG) consta como 12,5 Km e no meu marcador manual deu menos de 10 Km. Cansado como estava, pode ser que tenha deixado de marcar algum momento do caminhar, em alguma parada que fiz.

Se as distâncias anotadas entre o Trevo para Araxá (saída de Uberlândia) e a igreja de N. Sra. da Abadia de Água Suja, pelo antigo Desvio ou Atalho, davam 73,5 Km e agora o romeiro tem que andar mais uns 3 Km até a nova entrada para a cidade e andar mais um tanto até onde se saía pelo Atalho e ainda seguir só pela estrada de terra até a cidade, o mais provável é que eu tenha andado uns 77 ou 78 Km mesmo e não "só" 70 Km como as marcações manuais que fiz.

É isso, o registro é mais para constar mesmo. Neste blog eu sempre trabalhei com as informações o mais fidedignas possíveis. Aliás, quando faço consulta no meu WIKIpedia do William, conto com a informação cuidadosa postada no blog.