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sábado, 19 de abril de 2025

Hereges



Umberto Eco ambientou um romance no século XIV, na região de reinos que viria a ser a Itália no século XXI. Falo do livro "O Nome da Rosa", de 1980.

Naquele tempo, se queimavam pessoas em praça pública. Os inquisidores tinham poder de vida ou morte sobre os seres humanos. 

Um dia, no caixa da agência do Banco do Brasil, estava conversando com uma colega de trabalho, quando disse a ela que era ateu (herege). Ela me olhou com os olhos vidrados, estupefata, e depois do choque, me disse que até então eu era uma pessoa muito legal. Era o ano dois mil, fim do século XX.

Da ambiência do romance de Umberto Eco, na idade média, até o século XXI, os seres humanos desenvolveram ciências por quase 700 anos. Criamos tecnologias antes impossíveis sequer de imaginar. 

No entanto, pelas consequências do que fizemos nesses séculos de ciência, e por sermos o que somos, seres dotados de um cérebro altamente desenvolvido, mas crédulos em qualquer abstração inventada por um de nós, vamos desaparecer da Natureza.

As pombas, as galinhas, baratas, quiçá animais mais complexos, que já habitavam a Natureza antes de nós, talvez sigam por aqui, nos destroços que deixarmos.

A Terra voltará a ser habitada somente por hereges. Os deuses já se empapuçaram desses crentes que matam, enganam e destroem em nome deles.

William 


terça-feira, 1 de abril de 2025

Instantes de leitura (e da vida)



Refeição Cultural

"Porque pictura est laicorum literatura" (O Nome da Rosa, Umberto Eco, 2003, p. 48)


Eu já havia lido quase duzentas páginas deste clássico de Umberto Eco quando tive a consciência de que estava lendo mal o romance. Parei. 

A lição de Paulo Freire é séria: não importa a quantidade e sim a qualidade da leitura. 

Recomecei a ler e sem pressa O Nome da Rosa (1980). Ler sem me concentrar e viajar na história com Adso de Melk e o Frei Guilherme de Baskerville seria pura perda de tempo, um tempo que não tenho de sobra mais. 

Na passagem que li hoje, a dupla de personagens está admirando o portal da igreja que compõe o conjunto arquitetônico da abadia que visitam. Eles estão hipnotizados com as pinturas desenhadas no portal.

Ler com atenção é a única leitura que dá prazer. Até a citação em latim entendi sem precisar de tradução. A lição é antiga: como o povo era analfabeto, eram as pinturas que contavam as histórias e passagens dos livros sagrados.

Enquanto lia as descrições das figuras que Adso de Melk nos contava, fiquei me lembrando das pinturas e esculturas em relevo que vi em igrejas famosas na Itália e outros lugares. É algo espetacular!

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"Você não pode embarcar de novo na vida, esta viagem de carro única, quando ela termina" (p. 37/38)

Quanto ao livro de Alberto Manguel, Uma história da leitura (1999), livro que marcou minha história da leitura, o peguei pra ler como um crente com sua Bíblia. 

A mensagem acima parece ter sido escrita para mim...

Não poderia perder um segundo desta viagem única, pois não poderei embarcar nela novamente, como podemos fazer com os livros, como eu fiz com o do Umberto Eco. 

Estou vivendo esta viagem única da mesma forma que estava lendo Umberto Eco meses atrás...

Que foda.

William 

domingo, 16 de março de 2025

O nome da rosa: não cuspam nos livros



Refeição Cultural 

Umberto Eco, um grande pensador 


Estou lá no meio do livro, pela edição dos Mestres da Literatura Contemporânea, da Editora Record, e no recomeço, pela edição da Biblioteca Folha. 

Comecei a reler o clássico porque percebi que estava lendo mal.

Como sinto a urgência do instante, preciso dar qualidade a qualquer coisa que decida fazer. 

Das citações da postagem, a lição: não molhem o dedo no cuspe e coloquem o dedo no papel do seu livro, ou de qualquer livro ou material gráfico. 

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Releitura 

Ao reler o começo da história, captei melhor a origem da parceria do noviço beneditino Adso de Melk com o sábio franciscano frei Guilherme de Baskerville, mais ou menos entre 1324 e 1327. (no Prólogo)

O pai do noviço lutava ao lado de Ludovico da Bavaria, que disputava a coroa de imperador de Roma com Frederico de Áustria, derrotado na disputa.

Ludovico representava o grupo que era adversário do papa João XXII, Jacques de Cahors, eleito em Avignon, em 1316. Ludovico foi excomungado por Cahors, o papa.

Teses sobre a igreja de Cristo

"É preciso dizer que, justamente naquele ano, tivera lugar em Perúgia o capítulo dos frades franciscanos, e o geral deles, Michele de Cesena, acolhendo as instâncias dos 'espirituais' (sobre os quais terei ainda ocasião de falar) proclamara como verdade de fé a pobreza de Cristo, que, se tinha possuído coisa com seus apóstolos, Ele a tivera apenas como usus facti..." (p. 21, da edição da Folha)

Local

"Acontece que dobramos para ocidente enquanto nossa meta última ficava a oriente, quase seguindo a linha dos montes que de Pisa leva em direção aos caminhos de San Giacomo, parando numa terra em que os terríveis acontecimentos que lá ocorreram depois me desaconselham a identificar melhor, mas cujos senhores eram fiéis ao império e onde os abades de nossa ordem opunham-se de comum acordo ao papa herege e corrupto. A viagem durou duas semanas, entrecortadas por vários acontecimentos, e nesse tempo tive oportunidade de conhecer (nunca o suficiente, como sempre me convenço) meu novo mestre." (p. 22)

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O CONHECIMENTO HUMANO DEVE SER PRESERVADO EM MEIOS FÍSICOS

"(...) Eis, eu me disse, a grandeza de nossa ordem: durante séculos e séculos homens como esses viram irromper as ordas dos bárbaros, saquear suas abadias, precipitar os reinos em vórtices de fogo, e, no entanto, continuaram a ler à flor dos lábios palavras que eram transmitidas há séculos e que eles, por sua vez, transmitiam aos séculos vindouros. Continuaram a ler e a copiar enquanto se aproximava o milênio, por que não deveriam continuar a fazê-lo agora?" (p. 215)

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"(...) O saber não é como a moeda, que permanece fisicamente íntegra mesmo através das mais infames trocas: ele é antes como um hábito belíssimo, que se consome através do uso e da ostentação. Não é assim de fato o próprio livro, cujas páginas esfarelam-se, as tintas e os ouros se tornam opacos, se muitas mãos o tocam? Bem, estava vendo a pouca distância de mim Pacífico de Tivoli que folheava um volume antigo, cujas folhas estavam como que grudadas umas às outras por causa da umidade. Ele molhava o indicador e o polegar na língua para folhear seu livro, e a cada toque de sua saliva aquelas páginas perdiam em vigor, abri-las queria dizer dobrá-las, oferecê-las à severa ação do ar e da poeira, que teriam roído as sutis veias que no esforço encrespavam o pergaminho, teriam produzido novos mofos lá onde a saliva tinha amolecido e enfraquecido o canto da folha. Como um excesso de doçura torna mole e inábil o guerreiro, este excesso de amor possessivo e curioso predisporia o livro à doença destinada a matá-lo." (p. 217)

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Não cuspam nos livros...

William 


quarta-feira, 12 de março de 2025

O nome da rosa: o poder de enganar os crédulos



Refeição Cultural 

Umberto Eco, um grande pensador 


"Digamos que teriam medo, sabeis... às vezes as ordens dadas aos simples são reforçadas com uma ameaça, como o presságio que a quem desobedecer pode acontecer alguma coisa de terrível, e por força sobrenatural. Um monge, ao contrário..." (p. 41)


Como fui um crédulo por décadas, fui aculturado no catolicismo, sei exatamente o que o abade Abbone está insinuando ao frei Guilherme de Baskerville no diálogo acima.

A base das religiões monoteístas está assentada no medo, na invenção do pecado, na ameaça ao crente se "perder", se lascar, se ele não cumprir alguma coisa dos textos "sagrados", textos escritos por homens de carne e osso. Alguns podem até ter tido inspiração divina, mas outros...

Sei como é forte a influência do medo para os simples... 

Já para aqueles que sabem como se dão as coisas dos homens dentro das burocracias das igrejas...

Foi isso que Abbone disse ao frei Guilherme de Baskerville.

No início do diálogo, ao se conhecerem, a primeira coisa que o chefão daquela abadia disse ao visitante foi: se descobrir algo, encubra... (ler aqui)

É isso, né!

William 


Bibliografia:

ECO, Umberto. O nome da rosa. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade. Rio de Janeiro: O Globo; Folha de São Paulo, 2003.

sexta-feira, 7 de março de 2025

O nome da rosa: os segredos da igreja



Refeição Cultural 

Umberto Eco, um grande pensador


"Aconteceu uma coisa nesta abadia, que pede a atenção e o conselho de um homem prudente e agudo como vós. Agudo para descobrir e prudente (se for o caso) para encobrir." (p. 37)


Ao reler com atenção o que havia lido de forma displicente, vou percebendo as nuanças da história e do enredo em O nome da rosa (1980). 

O sábio franciscano frei Guilherme de Baskerville vai à abadia do romance por missão dada a ele pelo imperador. 

O abade local, na primeira conversa com o visitante, já dá a ele a determinação que se espera de qualquer investigação ou tarefa a cumprir: encubra seja lá o que descobrir...

É mole?

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Palavras, palavras, palavras... ler sem atenção nos tira a essência da leitura.

Quantas vezes interrompi leituras de clássicos da literatura universal para recomeçar com mais sentido!

A primeira vez que li Ulisses (1922), de Joyce, comecei diversas vezes o livro e voltei ao início, até que peguei o ritmo.

Não foi diferente com Os Lusíadas (1572), de Camões. E com a Odisseia, atribuída ao aedo Homero, se passou a mesma coisa quando a li em versos.

O nome da rosa deve ser lido com atenção, pois tem muita coisa a cada página da obra.

A estratégia do abade Abbone foi interessante, mas a postura escorregadia do frei também surpreendeu. 

Ao saber que o frei Guilherme de Baskerville foi um inquisidor que livrou da fogueira alguns acusados, saiu com um discurso malicioso ao sugerir que ele reconhecia que alguns acusados eram inocentes por ser culpado o diabo...

Frei Guilherme respondeu ao abade Abbone que o diabo era tão esperto que poderia até influenciar o inquisidor... 

É lição para quem sabe ler além das palavras. 

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A igreja encobre os erros de seus membros 

"(...) Frequentemente, de fato, é indispensável provar a culpa de homens que deveriam sobressair por sua santidade, mas de modo a poder eliminar a causa do mal sem que o culpado seja relegado ao desprezo público. Se um pastor falha, deve ser isolado dos outros pastores, mas ai se as ovelhas começam a desconfiar dos pastores." (p. 37)

Sigamos, de forma perspicaz, pelos cantos sombrios da vida.

William 


Bibliografia:

ECO, Umberto. O nome da rosa. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade. Rio de Janeiro: O Globo; Folha de São Paulo, 2003.

sábado, 1 de março de 2025

O nome da rosa: arquitetura



Refeição Cultural 

Umberto Eco, um grande pensador


"Pois a arquitetura é dentre todas as artes a que mais ousadamente busca reproduzir em seu ritmo a ordem do universo, que os antigos chamavam de kosmos, isto é, ornado, enquanto parece um grande animal sobre o qual refulge a perfeição e a proporção de todos os seus membros. E seja louvado o Nosso Criador que, como diz Agostinho, estabeleceu as coisas em número, peso e medida." (p. 34)


O noviço beneditino Adso de Melk estava impressionado com o conjunto arquitetônico que via na abadia que acabara de adentrar em companhia de seu mestre, o sábio franciscano frei Guilherme de Baskerville, mais ou menos entre 1324 e 1327 quando pensou a ideia acima.

Ao pegar o clássico de Umberto Eco para ler semanas atrás, parei quando estava chegando à metade do livro. Percebi que não estava lendo com a devida atenção. 

Paulo Freire nos ensina lição importante sobre leitura: devemos prestar atenção e compreender cada palavra e sentença do texto que estamos lendo. Ler é compreender o texto lido, é refletir sobre a leitura e seu significado. Não importa a quantidade de leitura, mas a qualidade da leitura. 

Para se ter uma ideia do quanto minha leitura anterior estava inadequada, ao ler a descrição sobre a impressão que os personagens tiveram ao se depararem com a abadia, eu não havia criado em minha mente a imagem da descrição que Adso fez da entrada pelo único portal da muralha, não tinha imaginado a alameda até a igreja, o horto à esquerda e outras descrições do cenário. Eu havia lido sem ler.

Adso diz ser a abadia em questão a mais bela que viu na vida, citando outras famosas para comparar. 

Enfim... se for para ler, devemos ler corretamente. 

William 


Bibliografia:

ECO, Umberto. O nome da rosa. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade. Rio de Janeiro: O Globo; Folha de São Paulo, 2003.

domingo, 23 de fevereiro de 2025

O nome da rosa: frases e ideias



Refeição Cultural 

Umberto Eco, um grande pensador


Ao longo da leitura do magistral livro O nome da rosa (1980) vamos nos deparando com frases e conceitos incríveis, ideias que são atemporais.

Eis algumas delas:

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"Porque, como diz Boecio, nada é mais fugaz que a forma exterior, que perde o viço e muda como as flores do campo com o aparecimento do outono." (p. 22)

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"Os homens de outrora eram grandes e belos (agora são crianças e anões), mas esse fato é apenas um dos muitos que testemunham a desventura de um mundo que vai envelhecendo. A juventude não quer aprender mais nada, a ciência está em decadência, o mundo inteiro caminha de cabeça para baixo, cegos conduzem outros cegos e os fazem precipitar-se nos abismos..." (p. 22)

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"A beleza do cosmos é dada não só pela unidade na variedade, mas pela variedade na unidade." (p. 24)

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"As máquinas, afirmava, são efeito da arte, que é macaco da natureza, e dela, reproduzem não as formas mas a própria operação. Assim me explicou ele as maravilhas do relógio, do astrolábio e do ímã. Mas no início pensei tratar-se de bruxaria..." (p. 24)

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Reflexão

A primeira frase me convém, meu corpo perdeu o viço, meu quadril se decompõe, e estou como as flores do campo no outono...

William


Bibliografia:

ECO, Umberto. O nome da rosa. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade. Rio de Janeiro: O Globo; Folha de São Paulo, 2003.

sábado, 15 de fevereiro de 2025

Poema 17: Ler à flor dos lábios


LER À FLOR DOS LÁBIOS


"E, no entanto,

continuaram

a amar os pergaminhos

e as tintas

e continuaram

a ler à flor dos lábios

palavras

que eram transmitidas

há séculos

e que eles, por sua vez,

transmitiam aos séculos

vindouros.

Continuaram

a ler e a copiar

enquanto se aproximava

o milênio,

por que não deveriam

continuar a fazê-lo

agora?"


Sábias palavras de

Umberto Eco no clássico

O nome da rosa. 


Devemos continuar

guardando as palavras,

seguir lendo e escrevendo

e transmitindo o saber

por séculos e séculos. 


Impressos! Não em nuvens

de big techs, como agora.

Nuvens se dissipam com o vento.

(e com as tormentas)


Ler e copiar,

imprimir e distribuir,

guardar o saber

para podermos amanhã

ler à flor dos lábios.


William 

15/02/25


quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Leitura - O Nome da Rosa - Umberto Eco (1)



Refeição Cultural 

Quinta-feira, 23 de janeiro de 2025.


"Porque esta é uma história de livros, não de misérias quotidianas, e a sua leitura pode nos inclinar a recitar, com o grande imitador de Kempis: 'In omnibus requiem quaesivi, et nusquam inveni nisi in angulo cum libro' - 5 de janeiro de 1980*." (p. 16)

*Procurei descanso em tudo e não encontrei em lugar nenhum senão num canto com um livro (tradutor do Google)


São tantos os clássicos que não conheço ainda que fico meio perdido quando penso na escolha de um livro para me sentar num canto do mundo e descansar. 

Descansar do ódio da política dos homens. Descansar da falta de consideração. Descansar das mentiras como armas fascistas na guerra de dominação. 

Um livro para descansar a alma, para alimentar a alma e dar algum sentido na aventura humana. 

Das várias lacunas culturais, escolhi desta vez o clássico de Umberto Eco: O Nome da Rosa, de 1980.

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RESENHA DURANTE A LEITURA 

Divisões do tempo: cada dia na abadia ou mosteiro onde se passa a história é dividido em períodos determinados do dia: Matinas (de 2h30 a 3h), Laudes (entre 5 e 6h), Primeira (em torno de 7h30), Terceira (por volta de 9h), Sexta (meio-dia), Nona (14 a 15h), Véspera (16h30 ou perto do pôr do sol) e Completas (em torno das 18h, até umas 19h).

O livro começa com os seguintes textos: "Um manuscrito, naturalmente", "Nota" e o "Prólogo".

Pelos textos iniciais, o leitor fica sabendo que vai ler os relatos de Dom Adson (ou Adso) de Melk, do século XIV, sobre a missão do frade franciscano inglês Guilherme de Baskerville em uma abadia italiana. Adso era seu ajudante.

"(...) Quanto à época em que se desenvolvem os eventos descritos, estamos em fins de novembro de 1327; quando porém tenha escrito o autor é incerto. Calculando que se diz noviço em 1327 e já próximo da morte quando escreve suas memórias, podemos conjecturar que o manuscrito tenha sido elaborado nos últimos dez ou vinte anos do século XIV" (p. 14)

O livro é dividido em partes representadas pelos dias: primeiro dia, segundo dia etc.

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PRIMEIRO DIA

O frei Guilherme de Baskerville e seu ajudante Adso de Melk vão a uma abadia para tratativas políticas, mas acabam por investigar a estranha morte de um monge, Adelmo de Otranto.

Depois, o leitor fica sabendo que frei Guilherme está incumbido de organizar na abadia um encontro "diplomático" entre representações do imperador e do papa. (A partir da p. 172)

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CENA DE LEITURA: Li o começo da obra sob o silêncio da madrugada, na Colônia do Sinpro da Praia Grande, a descrição feita por Adso de Melk sobre a primeira visita dele e do frei Guilherme de Baskerville à igreja da abadia. 

Enquanto Adso descrevia uma cena demoníaca em pinturas e esculturas, eu ouvia vez por outra os medonhos sons da noite... 

O livro me apresentava os personagens Salvatore e o monge Ubertino de Casale. (p. 66)

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Na cena de leitura acima, faltou dizer que, de vez em quando, uma coruja começava a piar sem parar... São os sons da noite.

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Diálogo entre frei Guilherme e Ubertino

Inquisição - Foi um debate interessante. Sobre influências do demônio e inquisições. Guilherme era inquisidor e desistiu da função. Ubertino era a favor de queimar na fogueira algumas pessoas inocentadas por Guilherme. 

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Frei Guilherme e Adso conhecem o bibliotecário Malaquias de Hildeshein e seu ajudante, Berengário de Arundel, no scriptorium. Antes, conversaram com o padre herborista Severino de Sant'Emmerano (p. 85 adiante).

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Já no fim do primeiro dia (Vésperas), frei Guilherme faz uma discussão com o vidreiro Nicola de Morimondo muito interessante sobre a ciência na mão de pessoas não sábias. (A partir da p. 106)

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SEGUNDO DIA

O segundo dia na abadia começou com a descoberta de mais um corpo - o monge Venâncio de Salvamec -, encontrado de cabeça para baixo numa pocilga de sangue de porcos.

Há um bom resumo da conversa do dia anterior, que contou com a participação do falecido monge Venâncio, na p. 136 da minha edição. É citada, nos debates, a obra "Poética", de Aristóteles.

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O RISO - Debate entre frei Guilherme de Baskerville e o ancião cego Jorge de Burgos sobre o gênero comédia e o riso (p. 158):

Jorge: "(...) O riso sacode o corpo, deforma as linhas do rosto, torna o homem semelhante ao macaco."

Guilherme: "Os macacos não riem, o riso é próprio do homem, é sinal de sua racionalidade."

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GUERRA É GUERRA: Na p. 182, o abade diz não se importar com o assassinato de toda uma comunidade por suspeita de heresia.

"(...) E, quanto aos hereges, também tenho uma regra, e se resume na resposta que deu Arnaldo Amalrico, abade de Citeaux, a quem lhe perguntava o que fazer dos cidadãos de Béziers, cidade suspeita de heresia: matai-os todos, Deus reconhecerá os seus."

Frei Guilherme relembrou, constrangido, que foram mortos quase vinte mil pessoas a fio de navalha incluindo mulheres e crianças... depois a cidade foi saqueada. 

(COMENTÁRIO: Alguma semelhança com um certo massacre atual numa terra chamada Faixa de Gaza, Palestina?)

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NOS LABIRINTOS DA BIBLIOTECA 

"(...) Este lugar de sabedoria proibida é protegido por muitos e sapientíssimos achados. A ciência usada para ocultar, ao invés de iluminar. Não me agrada. Uma mente perversa preside à santa defesa da biblioteca..." (p. 206)


O segundo dia chegou ao fim. Frei Guilherme e Adso visitaram a biblioteca da abadia no meio da noite. 

Quase ficaram perdidos por lá em seus labirintos. 

Ao voltarem do primeiro escrutínio à biblioteca, às escondidas, encontram o abade naquela madrugada (matinas). O abade diz que Berengário, o ajudante do bibliotecário, está desaparecido.

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Frases para reflexão 

A EFEMERIDADE DAS COISAS E DA VIDA

"(...) Nada é mais fugaz que a forma exterior, que perde o viço e muda como as flores do campo com o aparecimento do outono." (p. 25)

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O DIABO PODE TENTAR A TODOS 

"'Mesmo um inquisidor pode ser impelido pelo diabo', disse Guilherme." (p. 44)

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A BIBLIOTECA DA ABADIA 

"Sei que tem mais livros que qualquer outra biblioteca cristã. Sei que diante de vossas estantes as de Bobbio ou de Pomposa, de Cluny ou de Fleury parecem o quarto de um menino que mal se inicia no ábaco. Sei que os seis mil códices de que se vangloriava Novalesa há mais de cem anos são poucos diante dos vossos, e talvez muitos deles agora estejam aqui. Sei que a vossa abadia é a única luz que a cristandade pode opor às trinta e seis bibliotecas de Bagdá, aos dez mil códices do vizir Ibn al-Alkami, que o número de vossas bíblias iguala-se aos dois mil e quatrocentos corões de que dispõe o Cairo, e que a realeza de vossas estantes é luminosa evidência contra a soberba lenda dos infiéis que há anos queriam (íntimos que são do príncipe da mentira) a biblioteca de Trípoli rica em seis milhões de volumes e habitada por oitenta mil comentadores e duzentos escribas." (p. 51)

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AINDA A BIBLIOTECA DA ABADIA 

O abade não quer permitir o acesso de frei Guilherme de Baskerville. A biblioteca é tão protegida que só o bibliotecário a conhece.

"(...) Somente o bibliotecário, além de saber, tem o direito de mover-se no labirinto dos livros, somente ele sabe onde encontrá-los e onde guardá-los, somente ele é responsável pela sua conservação (...) Porque nem todas as verdades são para todos os ouvidos, nem todas as mentiras podem ser reconhecidas como tais por uma alma piedosa, e os monges, por fim, estão no scriptorium para levar a cabo uma obra precisa, para a qual devem ler alguns e não outros volumes, e não para seguir qualquer insensata curiosidade que porventura os colha, quer por fraqueza da mente, quer por soberba, quer por sugestão diabólica." (p. 54)

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MAGIAS DE DEUS E DO DIABO

"(...) Porém existem duas formas de magia. Há uma magia que é obra do diabo e que visa a ruína do homem através de artifícios de que não é lícito falar. Mas há uma magia que é obra divina, lá onde a ciência de Deus se manifesta através da ciência do homem, que serve para transformar a natureza, e um de cujos fins é prolongar a vida humana..." (p. 109, sobre os óculos)

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A CIÊNCIA E A QUESTÃO DA ÉTICA: DEVE HAVER LIMITE NA CIÊNCIA?

"Porque a ciência não consiste só em saber aquilo que se deve ou se pode fazer, mas também em saber aquilo que se poderia fazer e que talvez não se deva fazer. Eis por que hoje eu dizia ao mestre vidreiro que o sábio deve guardar de todos os modos os segredos que descobre, para que outros não façam mau uso deles, mas é preciso descobri-los, e esta biblioteca me parece mais um lugar onde os segredos permanecem encobertos." (p. 120)

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O POVO É MASSA DE MANOBRA NAS RELIGIÕES

"Estou dizendo que muitas dessas heresias, independentemente das doutrinas que sustentam, encontram sucesso junto aos simples, porque lhes sugerem a possibilidade de uma vida diferente. (...) Os simples são carne de matadouro, de se usar para colocar em crise o poder adverso, e para sacrificar quando não prestam mais." (p. 180/181)

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COMENTÁRIO FINAL

Sigamos na leitura e releitura dessa obra monumental de Umberto Eco. Finalizei os dois primeiros dias da história.

Antes de seguir adiante, acho que vou reler alguns diálogos que ocorreram nas primeiras duzentas páginas.

É isso. O mundo anda o caos com a ascensão do nazifascismo no século XXI. Vamos procurar algum descanso pegando um bom livro e achando um canto para desfrutar dessa maravilhosa invenção do ser humano: os livros.

William


Bibliografia:

ECO, Umberto. O nome da rosa. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade. Coleção Mestres da Literatura Contemporânea. Editora Record/Altaya. Rio de Janeiro: 1986.


segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 20 de janeiro de 2025. Segunda-feira. Fim de noite.


Estou refletindo diariamente sobre a necessidade de mudança de algumas coisas em minha vida. Mudar hábitos e rotinas não é fácil. Conviver com a infelicidade também não é fácil, é bem difícil ser infeliz.

Mudança se começa pelo começo, mudando alguma coisa, qualquer que seja ela.

Tenho evitado nos últimos dias ouvir programas de política na hora das refeições. Isso é uma merda! Não há notícias boas e a pessoa que não é viciada em notícias ruins deveria dar um tempo a si mesma e evitar essas torturas na hora da refeição.

MÚSICA BRASILEIRA

Hoje ouvi três álbuns de música brasileira durante minhas refeições. Eu não conheço música brasileira (como poderia). Teria que nascer outra vez e ouvir músicas brasileiras desde jovem para mudar essa realidade. 

Entretanto, posso optar por ouvir neste ano ou nos próximos tempos um pouco de música brasileira e diminuir minha ignorância nessa cultura nossa.

Ao ver ontem alguns minutos de uma entrevista na TV com a cantora e compositora Marina Lima, que perdeu um pouco a voz, pensei que poderia começar por ela a prática de ouvir músicas nacionais e busquei alguns álbuns de sua carreira musical. 

Ouvi dela "Fullgás", de 1984, destaque para a música "Veneno", e ouvi "Virgem", de 1987.

Também ouvi o álbum "Memórias, Crônicas e Declarações de Amor", de Marisa Monte, do ano 2000.

Cantoras e vozes maravilhosas. Músicas com letras, com histórias, com sentidos vários.

LEITURA DE POESIA

Estou tentando ter disciplina para ler poesia, pois também não sou um leitor acostumado a poesia. Comecei tarde a ler esse gênero literário. 

Do mês passado para cá, tentei conhecer poetas que não conhecia ainda. 

Aos poucos, vamos lendo novos poemas e novas poéticas, conhecendo poetas novos para mim.

CLÁSSICOS DA LITERATURA

Outra questão que preciso ter disciplina é com relação a leitura de obras literárias clássicas, pelo menos os livros que acumulei em casa desde a adolescência e que nunca consegui ler por causa de minha vida proletária e militante.

Comecei dias atrás a leitura do livro O nome da rosa, de Umberto Eco. Achei que seria possível ler o livro em poucos dias... impossível para mim. 

Aliás, ler rápido livros assim é uma merda. Já sinto necessidade de voltar a ler vários diálogos centrais nas quase duzentas páginas que já li.

Enfim, é ter disciplina e foco.

GUERRA MUNDIAL

Preciso acelerar a revisão e encadernação dos milhares de textos de meus blogs. As guerras por hegemonia global vão se intensificar e com o papel central das big techs na guerra do império fascista norte-americano contra o mundo nada mais é seguro em relação a todas as plataformas que passaram a dominar o mundo humano nas últimas décadas.

Eu venho escrevendo sobre isso faz tempo. Fiz texto falando sobre a necessidade de países como o Brasil criarem suas próprias plataformas de informação e comunicação nacional e global e cheguei a ouvir de líderes políticos que isso era impossível... pois é, quero ver um país sobreviver com soberania dependendo das plataformas dos aliados de Trump a partir de hoje...

Enfim, tenho que mudar. Tenho que reconhecer as coisas que mudaram e não têm volta, as coisas que podem ser mudadas e como proceder para mudar o que pode ser mudado.

Não se conseguirá nada novo fazendo o mesmo que se fazia antes e que não está mais dando resultado.

William


quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Diário e reflexões - Uma semana de paz



Refeição Cultural 

Praia Grande, 16 de janeiro de 2025. Quinta-feira.


Os dois lugares que considero o paraíso na terra são dois lugares simples e de acesso a pessoas comuns da classe trabalhadora: o Parque do Sabiá, em Uberlândia, e a Colônia do Sinpro SP, na Praia Grande. 

Passamos uma semana de paz e tranquilidade na Colônia dos Professores aqui na Praia de Caiçara. Caminhei, dei uns trotinhos no calçadão e nadei um pouco todos os dias.

Comecei a leitura do clássico de Umberto Eco, "O nome da rosa". Repito o que digo sempre que começo a leitura de um livro bem escrito: escritores são pessoas incríveis! É extraordinário o que supera um escritor para nos legar um bom livro!

Até onde li, já vi grandes reflexões sobre os livros, sobre a mentira, sobre os dogmas e opressões das religiões inventadas pelos homens. Sim, pelos homens!

A história se passa no século 14. Era prática queimar pessoas, torturar pessoas, oprimir a maioria através da força e da superstição. Século 14.

E pensar que no século 21 é prática oprimir a maioria das pessoas através da força e da superstição... setecentos anos de ciência e estamos no mesmo ponto na sociedade humana...

Nesta semana, o governo Lula voltou atrás numa medida que visava identificar grandes sonegadores e gente que lava dinheiro sujo (sobre movimentações altas por Pix). Uma mentira disseminada pelos dominadores dos meios de manipulação de massas derrotou o governo, que, humilhado, voltou atrás... vitória dos manipuladores!

Que dizer?

William