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quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Livro: LulaLivre * LulaLivro (2018)



Refeição Cultural

Osasco, 18 de janeiro de 2024. Quarta-feira de calor cozinhante.


O primeiro livro do ano me trouxe muitas emoções, recordações e reflexões sobre as coisas dos homens. Dos humanos é o sentido geral do que quero dizer, no entanto "dos homens" é apropriado porque via de regra a sociedade humana é patriarcal, machista, misógina e dominada pelo universo masculino.

O livro LulaLivre * LulaLivro foi confeccionado e publicado em julho de 2018, no calor do processo kafkiano do qual o presidente Lula foi vítima, sendo ele acusado, julgado e condenado num tempo absurdamente rápido para os padrões normais do judiciário brasileiro, processo forjado pela quadrilha da chamada "República de Curitiba", uma organização liderada por um juiz considerado suspeito pelo STF. 

Lula foi preso no dia 7 de abril e passou 580 dias naquela masmorra. O objetivo político daquela tal operação Lava Jato foi alcançado, Lula foi retirado do processo eleitoral em 2018 e o monstro fascista foi eleito presidente para destruir o país e os direitos do povo nos quatro anos seguintes.

Prédio da Polícia Federal, onde 
mantiveram Lula preso (PR).

Durante os 580 dias de prisão política do presidente Lula, o líder do povo brasileiro - preso sem crime algum - ouvia de manhã, na hora do almoço e no final da tarde uma multidão de apoiadores gritarem "Bom dia, presidente Lula!", "Boa tarde, presidente Lula!", "Boa noite, presidente Lula!". Estive no Acampamento Marisa Letícia no dia 25 de abril de 2018, dias depois da criação da Vigília Lula Livre e pude acompanhar o coro de militantes no "- Boa tarde, presidente Lula!".

Lula foi solto no dia 08 de novembro de 2019, após o STF corrigir o abuso inconstitucional que ele mesmo permitiu anteriormente, levando uma pessoa à prisão antes de condenação definitiva como estabelece a Constituição Federal de 1988. O que vimos até então, desde o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, foi uma Suprema Corte covarde e omissa em relação às ilegalidades cometidas contra Dilma e Lula.

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GANHEI O LULALIVRE * LULALIVRO DE PRESENTE

"Seja bem-vind@!!!
Este é um pequeno carinho da Fetec-CUT/PR para você.
"


Quando cheguei a Curitiba, Paraná, em 28 de junho de 2019, para participar do Encontro Estadual do BB e Caixa (postagem aqui), ganhei um dos melhores presentes do mundo, um livro, da dirigente Dani, em nome da Fetec-CUT/PR. O livro é maravilhoso!!!

A edição é da Fundação Perseu Abramo, e foi organizado por Ademir Assunção e Marcelino Freire. 

"Joseph K., o conhecidíssimo personagem de Franz Kafka, se vê enredado em um processo judicial, cujas origens desconhece e cujo desenrolar vai se tornando cada vez mais obscuro, sórdido e absurdo.

O processo a que assistimos no Brasil contemporâneo, contra uma figura pública central da história política dos últimos 40 anos, guarda semelhanças e dessemelhanças com o enredo kafkiano: se o seu desenrolar expõe uma lógica absurda, suas origens e fins são muito delineáveis..."

Assim começa a apresentação do livro. É um livro-manifesto, dizem os organizadores.

"Os 90 poetas, prosadores e cartunistas aqui reunidos - de todas as regiões do país - atenderam ao chamado, na urgência dos fatos em curso no Brasil, para manifestar seu inconformismo com a prisão política do ex-Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva."

É uma delícia cada um dos 90 textos!

O livro é tão bom, que ficaria difícil apresentar aqui alguns dos poemas que adorei!

Amig@s leitores, à medida que vamos lendo cada poema, crônica, cartum, quadrinho, carta, memória, saudação, depoimento, documento, tudo relativo a Lula e sua história conosco, a história do Brasil de Lula e seu povo trabalhador, a gente vai se sentindo representado por aquele ou aquela autora do texto.

E mais!

Os textos são visionários! São registros da certeza que tínhamos da injustiça e da armação que estava ocorrendo naquele momento.

O tempo é o senhor da razão, dizem os ditos populares...

Lula é o Presidente do Brasil pela terceira vez! Aquela gente lesa-pátria, aquela quadrilha da República de Curitiba está sendo desmascarada a cada dia que passa.

A história está seguindo seu curso. Luiz Inácio falou, Luiz Inácio avisou aquele juizeco que um dia a verdade viria à tona...

É isso!

William


terça-feira, 12 de maio de 2020

Leitura: A carruagem dos espelhos (2019) - Sandro Sedrez dos Reis




Refeição Cultural

"- Mesmo que isso doa, ninguém deveria acusar o espelho de ingratidão. Ao contrário, é por estar muito agradecido que ele não poderia agir de outra forma, senão nos mostrando o que temos feito de nossas vidas. Até porque não é pelas coisas terem saído diferente do pretendido que elas não valem. O que não vale é querer prender o mundo e nós mesmos em uma imagem congelada. Isso cabe à fotografia. E serve para lembrar. O espelho precisa mostrar as verdades de nossa vida em movimento. E serve pra ensinar, alertar e, às vezes, fazer-nos tomar decisões." (p. 211)


A leitura do livro A carruagem dos espelhos, do amigo e colega da comunidade Banco do Brasil, é um ato de prazer. A leitura é leve, as personagens são gente como a gente, as estórias são como as nossas histórias de vida.

O início do livro traz narrativas deliciosas como a do garoto Alessandro e a professora Dona Dalva ("A queda"). Algumas nos emocionam muito como as estórias de Mayumi em "Voo cego" e de Aurora em "Quebra-cabeça". Os contos todos são muito bons. Nos envolvem bastante.

A novela, então, é uma surpresa muito agradável. Uma trama que não nos deixa parar de ler do início ao fim. Durante a leitura, pude descansar meu coração apertado e amargurado pelo contato permanente com a desgraça lá fora, num mundo com pandemias várias, a da Covid-19, a da ignorância bárbara bolsonarista que infectou o nosso país, a do necrocapitalismo que destrói vidas e o mundo.

Descansei coração e mente durante a leitura das narrativas que Sandro nos presenteou com A carruagem dos espelhos. Recomendo a leitura! É uma terapia de prazer pela leitura e uma oportunidade de algumas viagens ficcionais em tempos de quarentena e recolhimento.

William
Um leitor

REIS, Sandro Sedrez dos. A carruagem dos espelhos. São Paulo: Recanto das Letras, 2019.

domingo, 30 de junho de 2019

Conversa com os bancários do Paraná



Mesa de saúde e previdência do Encontro
do BB e da Caixa da Fetec CUT PR.

Neste sábado 29, tive a oportunidade de participar do Encontro Estadual do BB e Caixa em Curitiba, Paraná. Foi minha primeira participação como convidado de um evento dos bancários desde que exerci meu último mandato em nome da classe trabalhadora. Havia decidido me afastar das discussões relativas à nossa entidade de autogestão em saúde para cumprir uma quarentena posterior ao mandato. Assim o fiz. Fiquei um ano longe de qualquer debate.

Antes de comentar de forma sucinta sobre as questões que abordamos no encontro, quero agradecer aos dirigentes paranaenses pelo convite, em especial à companheira Ana Busato, e por extensão agradecer aos organizadores do encontro: Fetec Paraná, Sindicato dos Bancários de Curitiba e região e demais sindicatos cutistas do Estado.

O convite foi para falarmos um pouco sobre a Cassi, aproveitando nossas experiências adquiridas através do mandato eletivo que exercemos na Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil entre 2014 e 2018. A Caixa de Assistência é a mais antiga autogestão do país, completou 75 anos, e cuida da saúde de quase 700 mil vidas.  

Na oportunidade, também foi pedido que eu falasse um pouco sobre um dos eixos temáticos do Encontro, a Organização do Movimento, por causa da experiência que tivemos nas negociações coletivas dos bancários, a partir da Contraf-CUT e das Comissões Organizadoras dos Empregados (COE) de cada um dos bancos, comissões que assessoram a Confederação e o Comando Nacional dos Bancários nas negociações coletivas. Na corporação do Banco do Brasil, os trabalhadores chamam a COE de Comissão de Empresa dos Funcionários do Banco do Brasil (CEBB).

Antes das reuniões por banco, tivemos uma excelente palestra da deputada federal Érica Kokay (PT/DF), companheira com grande história de lutas em defesa dos direitos dos trabalhadores. Também tivemos palestra da companheira Paula Goto, diretora eleita de nossa Caixa de Previdência, a Previ. Obtivemos esclarecimentos importantes sobre o tema.

ORGANIZAÇÃO DO MOVIMENTO

Fizemos uma breve retrospectiva histórica das últimas décadas de organização sindical dos bancários, tanto do Banco do Brasil quanto da categoria em geral. Os bancários brasileiros construíram uma unidade nacional bastante exitosa e que fortalece a luta por direitos coletivos.

A organização de vanguarda da categoria bancária permite a construção de processos maduros de negociação coletiva com os bancos em geral, através das mesas com a Fenaban, e negociações específicas banco a banco, e o resultado é termos uma Convenção Coletiva de Trabalho que abrange diversos bancos em todas as unidades da federação.

Falamos um pouco da importância dos representantes sindicais de base, também conhecidos como delegad@s sindicais e as possibilidades de atuação dessas lideranças bancárias. Esses trabalhadores podem auxiliar na mediação de conflitos nos locais de trabalho.

CASSI - PERTENCIMENTO É A CHAVE PARA O FORTALECIMENTO DA AUTOGESTÃO EM SAÚDE

Para proteger e ampliar os direitos em saúde da comunidade Banco do Brasil - os trabalhadores da ativa, aposentados e beneficiários da Previ e seus respectivos familiares - é essencial que os associados saibam o que é a Cassi, como ela funciona ou deveria funcionar e os objetivos do modelo assistencial. 

Também é necessário que associados, participantes e patrocinador defendam a Cassi na relação com o mercado privado de saúde, onde a autogestão compra serviços. A nossa Caixa de Assistência precisa ser defendida inclusive de equívocos ou decisões governamentais que ponham em risco sua existência.

Em linhas gerais, explicamos como funciona o modelo assistencial da Cassi, de Atenção Integral à Saúde, organizado a partir da Estratégia Saúde da Família (ESF), das CliniCassi e dos programas de saúde que acompanham e monitoram os participantes já acometidos de alguma comorbidade. A prevenção de doenças e a promoção de saúde são a base do modelo assistencial da entidade.

É necessário ampliar a escala de cobertura do modelo, cuja eficiência comprovamos em estudos e por números durante os quatro anos em que estivemos à frente da Diretoria de Saúde. 

A solidariedade no custeio do sistema por parte dos associados é fundamental para que a Cassi siga sendo a maior autogestão do país, para que ela continue cuidando de todos os trabalhadores da ativa e dos aposentados e beneficiários da Previ, e não somente de parte da comunidade.

Temos que reverter as consequências de medidas recentes que excluíram o acesso à Cassi aos novos bancários. Também temos que retomar os debates entre os associados e suas entidades representativas para pensar alternativas que reequilibrem a Caixa de Assistência. Após definidas propostas por parte dos associados, buscar negociações com o patrocinador.

É isso. A Cassi é um patrimônio dos trabalhadores da comunidade Banco do Brasil e vamos atuar para fortalecer a autogestão, construindo unidade e mobilização como historicamente fazemos para encontrar soluções para os problemas que nos desafiam.

William

domingo, 20 de agosto de 2017

Leitura: Cataratas e a Floresta Iguaçu (2008) - Alex P. Schorsch



Conhecimento não ocupa espaço.
É sempre bom um novo saber.

Refeição Cultural

Este cidadão que vos fala passou 46 anos de sua vida sem conhecer a exuberância das Cataratas do Iguaçu. Quando estive lá em 2015, senti uma das maiores emoções de minha vida no que diz respeito à relação entre homem e natureza. Aquele mundo das águas é demais.

O passeio naquela primeira ida a Foz do Iguaçu não havia sido completo porque ficamos lamentando o fato de nosso filho não estar lá para apreciar conosco toda aquela emoção. Voltamos em 2017 com a presença de nosso jovem estudante de Biologia, e a visita de poucos dias foi completa.

Desta vez, além da visita ao Parque das Aves, ao Parque Nacional do Iguaçu (Brasil), ao Parque Nacional del Iguazú (Argentina) e à Usina Hidrelétrica de Itaipu Binacional, compramos dois livros sobre as Cataratas. Um deles é mais de fotos e o outro tem um texto bastante esclarecedor sobre a história da região, sobre a fauna, a flora e a geologia do local.

Li os dois livros nesta manhã de domingo. Eu fiz muitas fotos nas duas viagens que fizemos ao local, e tenho fotos bem legais.

Vejam algumas fotos de nossa visita em 2017 clicando AQUI.

O livro de Alex P. Schorsch vai contextualizar bastante as pessoas que quiserem ir além das imagens fantásticas da natureza local.

Esta postagem, no entanto, é mais para sugerir aos nossos amig@s leitores que ainda não conheceram essa maravilha do planeta Terra que se programem para visitar as Cataratas do Iguaçu. A energia que vocês sentirão na experiência será única, independente do tipo de visão de mundo que cada um tenha.

Abraços,

William

domingo, 18 de junho de 2017

Livro: Toda poesia (2013) - Paulo Leminski



Refeição Cultural


"depois de muito meditar
  resolvi editar
  tudo o que o coração
  me ditar"


"   leite, leitura
letras, literatura,
     tudo o que passa,
tudo o que dura
     tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
     tudo, tudo, tudo,
não passa de caricatura
     de você, minha amargura
de ver que viver não tem cura"

(Paulo Leminski)


Ao terminar a leitura das obras poéticas de Paulo Leminski, reunidas no livro Toda poesia, pela Companhia das Letras, fiquei pensando no quanto não conheço nada de nada em relação à literatura e produção literária do mundo, independente dos diversos tipos de gêneros, autores e países. Essa tomada de consciência é sempre dura, e deve-se ter humildade para lidar com o fato, senão ficaríamos deprimidos.

Eu tenho 48 anos de idade. Sou bancário concursado do Banco do Brasil. Já fiz muita coisa na vida desde a adolescência. Vendi minha força de trabalho desde criança, lá nos anos oitenta. Fui lendo o que deu e do jeito que deu. Cursei Ciências Contábeis e Letras. Depois que passei a ter um pouco mais de formação política e experiência de vida foi que percebi o quanto era ignorante em relação às boas obras da literatura mundial.

Desde então, vou descobrindo autores, gêneros, temas, estilos, vidas, poéticas, e definindo minha própria poética, mesmo que em prosa bancária, de trabalhador, amador no escrever.

Olha, que legal!

Paulo Leminski foi um grande conhecedor da palavra, da poesia, do manuseio da língua, da linguagem. O cara foi um gênio naquilo que fez. Estou impressionado com sua obra e foi uma pena não ter conhecido o autor antes de meus quarenta e tantos anos de idade, inclusive porque fiz faculdade de letras nos anos dois mil. Mas como escrevo aqui há tantos anos, sou (somos) lacunas culturais.

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"a hora do tigre

um tigre
    quando se entigra
não é flor 
    que se cheire
não é tigre
    que se queira

    ser tigre
dura a vida
               inteira"

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Agora, após leitura de apresentação (e não de exegese), haja vista que só passei pela obra entre a compra do livro em 2013 e a leitura dos poemas ao longo deste período, posso dizer que passei a ter uma leve noção do que é Paulo Leminski. Mas isso não é pouco, porque estamos num mundo onde as pessoas ao nosso redor muitas vezes sequer têm noção de quase nada.

O livro Toda poesia (2013) reuniu em quatrocentas páginas poesias de vários livros de Leminski:

- quarenta clics em curitiba (1976)
- caprichos & relaxos (1983)
- distraídos venceremos (1987)
- la vie en close (1991)
- o ex-estranho (1996)
- winterverno (2001)
- poemas esparsos

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"no campo
em casa
no palácio
está nas últimas
a última flor do lácio

cretino
beócio
palhaço
dê o último adeus
à última flor do lácio

a fogo
a laço
ninguém segura
a queda da última flor do lácio"

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Uma leve conclusão

O livro passa a ficar disponível e com fácil acesso em minha casa, assim como ficam os livros de Drummond e Bandeira, para aqueles momentos duros dos dias de lutas em que chego desesperado, angustiado, com raiva ou tristeza ou coisa do tipo e necessito abrir algo para ler ou declamar, buscando um conforto ou alívio mental.

Abraços, leitores amig@s.

William
(em busca de noções)

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Leitura: La vie en close (1991) - Paulo Leminski



Paulo Leminski.

Refeição Cultural

A poesia é um inutensílio, dizia o poeta.

Um orgasmo não tem que ter um porquê; a poesia não tem que ter um porquê. Um gol do Zico não tem que ter um porquê... (Leminski)

mas...

"O poeta é uma necessidade orgânica das sociedades"

Terminei a leitura deste livro de poesia de Leminski, la vie en close (1991), em um hotel lá em Belo Horizonte, na madrugada de 7 de junho. Estava lá para participar de uma conferência de saúde. Cansadíssimo naquele instante, peguei as poesias para mudar minha onda cerebral e dormir.

Nesta madrugada de quinta-feira, 15, feriado nacional, reli poesias diversas de la vie en close. Novamente, estou cansado de tanto trabalhar um trabalho que é militância pela Caixa de Assistência em saúde, que administro como eleito por associados. Tenho trabalhado até a exaustão!

Não adianta conselhos de gente bem-intencionada para que a gente trabalhe menos. Meu trabalho é guerra. É frente de batalha. Ou se luta ou não se luta pela saúde, pelo modelo de saúde, pela nossa entidade de saúde, pelos direitos em saúde dos associados que se representa. É assim pra mim.

Enfim, na inutilidade da poesia, no inutensílio, segundo o poeta, sinto uma utilidade imensa em me desligar nas leituras, uma vez ou outra, de minha quase condenação às militâncias em que me meti ao longo de minha existência.

Saboreiem abaixo alguns poemas de Leminski e embarquem na viagem dos seus livros de poemas.


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      um bom poema
leva anos
      cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
      seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
      sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
      três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
      uma eternidade, eu e você,
caminhando junto

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estupor

esse súbito não ter
esse estúpido querer
que me leva a duvidar
quando eu devia crer

esse sentir-se cair
quando não existe lugar
aonde se possa ir

esse pegar ou largar
essa poesia vulgar
que não me deixa mentir

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mais ou menos em ponto

     Condenado a ser exato,
quem dera poder ser vago,
      fogo-fátuo sobre um lago,
ludibriando igualmente
      quem voa, quem nada, quem mente,
mosquito, sapo, serpente.

      Condenado a ser exato
por um tempo escasso,
      um tempo sem tempo
como se fosse o espaço,
      exato me surpreendo,
losango, metro, compasso,
      o que não quero, querendo.

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      atrasos do acaso
cuidados
      que não quero mais

      o que era pra vir
veio tarde
      e essa tarde não sabe
do que o acaso é capaz

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suprassumos da quintessência

      O papel é curto,
Viver é comprido.
      Oculto ou ambíguo,
Tudo o que digo
      tem ultrassentido

      Se rio de mim,
me levem a sério,
      Ironia estéril?
Vai nesse ínterim,
      meu inframistério.

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      Andar e pensar um pouco,
que só sei pensar andando,
      Três passos, e minhas pernas
já estão pensando.

      Aonde vão dar estes passos?
Acima, abaixo?
      Além? Ou acaso
se desfazem ao mínimo vento
      sem deixar nenhum traço?

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    textos textos textos

      malditas placas fenícias
    cobertas de riscos rabiscos
como me deixastes os olhos piscos
    a mente torta de malícias
                   ciscos

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      quem chega tarde
deve andar devagar
      andar como quem parte
para nenhum lugar

      vida que me venta
sina que me brisa
      só te inventa
quem te precisa

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      o bicho alfabeto
tem vinte e três patas
      ou quase

      por onde ele passa
nascem palavras
      e frases

      com frases
se fazem asas
      palavras
o vento leve

      o bicho alfabeto
passa
      fica o que não se escreve

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Comentário final

O relançamento das obras completas de Paulo Leminski pela Companhia das Letras é uma oportunidade de ouro para nós que não conhecemos o autor em sua época. Eu me incluo no "nós" porque só muito tarde em minha vida passei a apreciar poesia, depois dos trinta anos de idade.

Os livros contidos no volume "Toda poesia" são muito bons. Fica a sugestão aos leitores amigos.

William

sábado, 13 de maio de 2017

Leitura: Distraídos venceremos (1987) - Paulo Leminski




Olá amig@s leitores!

Em relação aos meus objetivos de leitura para o mês de maio, a principal e mais densa é a obra de Ernest Hemingway - Por quem os sinos dobram (1940). Até que avancei bem e já li duzentas páginas, apesar do pouco tempo para me dedicar ao livro.

Uma leitura mais leve e para relaxar um pouco nossa essência foi a retomada do livro de Paulo Leminski - Toda poesia (2013). Minha semana foi de tanto trabalho que não pude escrever nada neste Blog de cultura. No domingo passado, 7 de maio, li duas vezes o livro de poesia de 1987 de Leminski - Distraídos venceremos -, sendo a segunda leitura de um jeito que gosto muito: declamando.

É muito gostoso ler Paulo Leminski e deixo abaixo alguns exemplos para instigar leitores de gostos variados.

Ler é sempre uma ótima opção para lidar com as nossas crises momentâneas e com as crises da sociedade humana em que vivemos.


Vejam esse poema sobre a cidade de Brasília:

claro calar sobre uma cidade sem ruínas
(ruinogramas)

     Em Brasília, admirei.
Não a niemeyer lei,
     a vida das pessoas
penetrando nos esquemas
     como a tinta sangue
no mata-borrão,
     crescendo o vermelho gente,
entre pedra e pedra,
     pela terra adentro.

     Em Brasília, admirei.
O pequeno restaurante clandestino,
     criminoso por estar
fora da quadra permitida.
     Sim, Brasília.
Admirei o tempo
     que já cobre de anos
tuas impecáveis matemáticas.

     Adeus, Cidade.
O erro, claro, não a lei.
     Muito me admirastes,
muito de admirei.


E por falar nos problemas que temos, que tal esse poema?

bem no fundo

     no fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
     a gente gostaria
de ver nossos problemas
     resolvidos por decreto

     a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
     é considerada nula
e sobre ela - silêncio perpétuo

     extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás
     lá pra trás não há nada,
e nada mais

      mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
      e aos domingos saem todos passear
o problema, sua senhora
      e outros pequenos probleminhas


Vejam esse, leitores, sobre os "pequenos probleminhas" do amor:

      o amor, esse sufoco,
agora há pouco era muito,
      agora, apenas um sopro

      ah, troço de louco,
corações trocando rosas,
      e socos


Este poema abaixo, eu dediquei à personagem do seriado "13 reasons why", Hannah Baker (2017, Netflix). Eu havia acabado de assistir ao último episódio e fiquei muito mal. Nem consegui escrever a respeito do seriado.

a lua no cinema

      A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
      a história de uma estrela
que não tinha namorado.

      Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
      dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!

      Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava pra ela,
      e toda luz que ela tinha
cabia numa janela.

      A lua ficou tão triste
com aquela história de amor,
      que até hoje a lua insiste:
      - Amanheça, por favor!


É isso, prezados amantes da leitura. Gostei de muitos outros poemas dessa obra de Leminski de 1987.

Recomendo a leitura.

William


Post Scriptum:

Ontem, 12 de maio, faleceu aos 98 anos o querido professor Antonio Candido. Que figura admirável! Eu tive o privilégio de ser da geração que chegou a vê-lo proferir palestras e abordar temas diversos como literatura, poesia, história, política e cultura. Já era aposentado, mas nunca deixou de se envolver com os temas do Brasil e dos homens.

Lembro-me que quando cheguei à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP) eu era um homem completamente avesso à poesia. Eu era muito diferente. Alguns textos do professor, como o livro "Na sala de aula" (1985) abriram para mim o mundo da poesia. Pouco sei ainda hoje sobre o tema, mas o aprender-a-gostar-de-poesia sei que devo um pouco ao professor Antonio Candido. E também ao amigo Sérgio Gouveia, que ainda no início dos anos dois mil, acabou me fazendo conhecer o fantástico mundo dos saraus.