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sexta-feira, 5 de julho de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 5 de julho de 2024. Madrugada de sexta-feira.


REVOLUÇÃO RUSSA

Ver imagens recuperadas do início do século passado é um privilégio. Neste documentário "Grandes dias do século XX", vemos Lênin, Trótski e Stálin em meio aos trabalhadores russos.

No vídeo anterior, o cenário eram os campos de batalha da 1ª Guerra Mundial (comentário aqui). Neste episódio, a guerra também é comentada e tem papel relevante. 

Aliás, participar ou não da guerra entre as nações era uma questão que dividia o movimento da classe trabalhadora e suas lideranças comunistas, socialistas, anarquistas e socialdemocratas.

Sinopse:

No começo do século XX, a Rússia era um país de economia atrasada, dependente da agricultura. Os trabalhadores rurais viviam em extrema miséria e pobreza, e mesmo assim pagavam altos impostos para manter a monarquia absolutista do czar Nicolau II, que só conseguia se manter à base de muita violência. A formação de conselhos de trabalhadores, os sovietes, foi o sinal de que aquele sistema estava com os dias contados. A revolução foi uma questão de tempo. E a formação de uma república socialista, inevitável.

O documentário é dividido em capítulos: "Ensaio geral", "A Revolução", "Guerra civil" e "O comunismo se consolida".

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O SOCIALISMO REAL OBRIGOU O CAPITALISMO A CONCEDER DIREITOS À CLASSE TRABALHADORA

A sociedade humana do século XXI precisa urgentemente de um contraponto à hegemonia do capitalismo neoliberal que vigora em quase todo o planeta após a queda da União Soviética. 

É claro que a China é um contraponto de peso. E os BRICS estão aí para pressionar os EUA e seus quintais a se moverem até provocarem guerras por procuração. Mesmo sem ser exemplo em direitos sociais, chineses ameaçam o poder econômico do império, que vai cair atirando. 

E temos Cuba e seu povo encantador, que já aprendi a amar e respeitar e registro todo o meu apoio à Revolução Cubana, Fidel Castro e todas as lideranças do governo socialista, incluindo Díaz-Canel, atual presidente.

O feito extraordinário do povo russo, liderado pelos bolcheviques e pelo Exército Vermelho, permitiu aos milhões de proletários dos grandes países capitalistas do mundo posterior às grandes guerras e à depressão dos anos trinta, conquistarem direitos sociais, civis e políticos que ficaram conhecidos como estado de bem-estar social, nos conhecidos anos de ouro do capitalismo.

Os revolucionários russos transformaram um país continental com mais de cem milhões de habitantes, que viviam em condições materiais semelhantes à idade média, em uma potência econômica que conseguiu resistir à ameaça constante norte-americana durante décadas de guerra fria. Nunca na história humana, uma nação agrária deu um salto tecnológico tão rápido como a União Soviética.

Eu tenho a leitura política e histórica que se não fosse a necessidade de a URSS despender boa parte de seus recursos para a iminente guerra contra seus inimigos capitalistas, os líderes revolucionários e seu povo teriam encontrado soluções para seus problemas internos cotidianos. Boa parte dos problemas de necessidades materiais e de falta de liberdade também decorreram do permanente risco de dissolução das conquistas populares advindas da revolução proletária.

Enfim, é um longo debate. Eu tenho algumas impressões a partir de tudo que já estudei e das experiências que venho acumulando nas últimas décadas como apreciador de história da classe trabalhadora. E minha impressão sobre a experiência soviética ficou mais clara após minhas duas visitas a Cuba neste ano e no ano passado.

O documentário é uma delícia para quem gosta de história.

William


segunda-feira, 20 de março de 2023

Leitura: O homem que amava os cachorros - Leonardo Padura



Refeição Cultural

Osasco, 20 de março de 2023. Segunda-feira.


INTRODUÇÃO

A leitura de O homem que amava os cachorros (2009), do escritor cubano Leonardo Padura, foi uma leitura difícil para mim, considerando que tenho relativa facilidade para ler grandes romances, grandes tanto no tamanho quanto na fama que carregam. 

Peguei o livro para ler no primeiro dia do ano e achei que a leitura seria mais fácil do que foi. Demorei dois meses para ler 20 capítulos, cerca de 360 páginas, parei por duas semanas e depois decidi ler de uma vez os 10 capítulos finais, mais 230 páginas.

Um dos motivos para escolher Leonardo Padura e este livro dele para ler no início do ano foi meu desejo de conhecer um pouco mais sobre Cuba e o povo cubano sob a ótica de um escritor consagrado e da atualidade, em plena produção literária. 

Quase nada sei sobre esse encantador país socialista, país de José Martí, de Alejo Carpentier, de Fidel Castro e de um dos povos mais aguerridos do mundo. Nem a poderosa URSS resistiu aos ataques ardilosos do império norte-americano e Cuba resiste até hoje! Foda isso! Enfim, só sei de Cuba o trivial que os menos ignorantes sabem.

Na leitura adotei uma estratégia de evitar saber qualquer coisa sobre a obra. Não li o prefácio do livro antes de acabar o romance, prefácio feito por ninguém menos que o professor Gilberto Maringoni, que admiro muito. Não li nem as orelhas do livro. Não li nada na internet sobre a obra. Me lembro do amigo Coelho me dizer muitos anos atrás que eu precisava ler este livro porque ele era demais. Agora, ao postar a foto do livro na rede social, vi que muitas pessoas gostaram muito do livro. E ele é bom mesmo, muito bom!

Este comentário sobre a minha leitura do livro é mais sobre o impacto que a obra teve em mim durante a leitura do que sobre aspectos do romance. Tem muita gente boa que escreveu sobre as características impactantes da arte de Padura neste romance histórico, neste "thriller histórico", como diz o professor Maringoni. 

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OS SERES HUMANOS FAZEM A HISTÓRIA, MAS A FAZEM DE ACORDO COM AS CIRCUNSTÂNCIAS DA ÉPOCA HISTÓRICA

"Os homens fazem a sua própria história; contudo, não a fazem de livre e espontânea vontade, pois não são eles quem escolhem as circunstâncias sob as quais ela é feita, mas estas lhes foram transmitidas assim como se encontram." (Karl Marx. O 18 de brumário de Luís Bonaparte, São Paulo, Boitempo, 2011, p. 25)


Esta citação de Marx feita pelo professor Maringoni no prefácio ao livro de Leonardo Padura é central para eu tentar compreender meus sentimentos durante a leitura do romance que aborda a vida, o exílio e o assassinato de León Trótski pelo comunista espanhol Ramón Mercader a mando de Josef Stálin. O romance O homem que amava os cachorros tem esse enredo, com o acréscimo do ambiente cubano, pois a história se passa na ilha caribenha, dos anos 1970 até os anos iniciais deste século.

As leituras de História sempre são mais lentas para mim, ou as leituras de História mescladas com análises de outras ciências. O livro de Eric Hobsbawm, A era dos extremos, por exemplo, gastei um século para ler. Era foda ler mais que algumas páginas porque tomar conhecimento de tudo aquilo me estufava. Tinha que parar de ler e refletir, deglutir. O livro do filólogo sobrevivente do nazismo Victor Klemperer, LTI: A linguagem do 3º Reich, também foi dificílimo de ler. Cada capítulo era uma porrada nos sentidos e tinha que parar.

É engraçado como as coisas são meio sem padrão comigo (sem determinismos, sem certezas de resultados) porque quando li em 2021 (comentário aqui) em 15 dias as 150 páginas de trótski - a paixão segundo a revolução (1986), de Paulo Leminski, foi uma leitura rápida de um conteúdo complexo e abrangente sobre a história tanto da Rússia quanto do líder revolucionário, texto que incluiu uma análise dos personagens da obra fenomenal Os irmãos Karamázov, de Dostoiévisk. Enfim, tirando essa exceção de leitura complexa mais rápida, em geral demoro com textos que envolvem história, política, filosofia e ciências.

OS TRÊS CENÁRIOS DO ROMANCE

O romance começa introduzindo o personagem cubano Iván em sua dura vida de cidadão de país socialista vivendo as dificuldades econômicas, políticas e sociais de uma Cuba sob embargo econômico há décadas e sem os subsídios da União Soviética após o fim do regime comunista russo no início dos anos 90. A miséria cotidiana e a falta de alimentos básicos nos dão um mal-estar tremendo.

Em outro cenário e tempo histórico, vemos Liev Davidovich se deslocando no exílio pelas estepes geladas nos anos 30 e se lembrando do processo de coletivização das terras e bens dos povos que viviam na enorme extensão geográfica da Rússia. Uma frase me deixou pensando muito em como deve ter sido o processo (ver abaixo). De certa forma, o processo não foi muito diferente dos capitalistas que tomaram todas as terras dos camponeses na Inglaterra e demais países europeus nos séculos anteriores à Revolução de Outubro.

"Mas os ativistas políticos enviados por Moscou já andavam por aquelas terras, decididos a transformar as tribos nômades em trabalhadores de fazendas coletivas e suas cabras montesas em gado estatal, assim como a demonstrar a turcomanos, cazaques, uzbeques e quirguizes que o seu costume ancestral de adorar pedras ou árvores da estepe era uma atitude antimarxista deplorável a que deviam renunciar em favor do progresso de uma humanidade capaz de compreender que, ao fim e ao cabo, uma pedra é só uma pedra e que não se sente outra coisa além de um simples contato físico quando o frio e o esgotamento devoram as forças humanas e, no meio de um deserto gelado, um homem armado apenas de sua fé encontra um pedaço de rocha e o leva aos lábios." (p. 49)

Num terceiro cenário, conhecemos o jovem catalão Ramón Mercader, comunista lutando na Guerra Civil Espanhola (1936-39). Essa parte da história me enfiou nas recordações de minhas duas décadas de movimento sindical. Toda vez que o romance entrava no cenário espanhol, era só para o leitor tomar conhecimento da guerra fratricida no seio da militância da esquerda. Os "companheiros" e "companheiras" se destruíram uns aos outros, enquanto os nacionalistas, a extrema-direita e os fascistas avançavam até a vitória final e a derrota acachapante da esquerda e dos republicanos. 

Sobre o romance de Leonardo Padura, sintetizo minha opinião dizendo que a obra é fenomenal, exigiu muita pesquisa, muita amarração dos conteúdos estudados e uma criatividade de escritor que poucos teriam para preencher as lacunas que faltam nas narrativas que abordam contextos e histórias reais. Só os grandes escritores fazem isso com maestria. Machado de Assis falava sobre essa questão de preencher lacunas quando narrava histórias ou estórias ficcionais. Saramago também aborda muito isso, as lacunas preenchidas pelos escritores, é só ler A viagem do elefante (2008).

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ENTRE TROTSKISTAS, STALINISTAS E BOLHAS DIVERSAS DA ESQUERDA

Retomo a citação de Karl Marx para encerrar a postagem a respeito da leitura do livro O homem que amava os cachorros e os sentimentos diversos que senti ao longo da leitura.

"Os homens fazem a sua própria história; contudo, não a fazem de livre e espontânea vontade, pois não são eles quem escolhem as circunstâncias sob as quais ela é feita, mas estas lhes foram transmitidas assim como se encontram." (Karl Marx. O 18 de brumário de Luís Bonaparte, São Paulo, Boitempo, 2011, p. 25)


Quando cheguei ao movimento sindical como diretor eleito de um dos principais sindicatos do país, comecei a conviver com as direções do movimento, o que é diferente de pertencer às bases dos movimentos sociais. Eu já havia participado de várias ações episódicas do movimento sindical e estudantil, que também é uma experiência bem interessante. Contudo, nas cúpulas dos movimentos, a paixão e o romantismo que nos movem são intensificados até o limite do ideal.

Como não vou fazer uma retrospectiva histórica da minha experiência no movimento sindical, sintetizo um pouco pensando nas circunstâncias que não escolhemos quando fazemos parte de um período histórico, como explica Marx na citação acima.

Ao ler o romance histórico de Padura, com os personagens Iván, Liev Davidovich (Trótski), Ramón Mercader, dentre outras figuras reais ou ficcionais, o leitor se envolve com a trama, toma posição, escolhe lado, e assim também ocorre na vida real, normalmente. No romance de Padura, minha simpatia estava com Liev Davidovich, perseguido, escorraçado, exilado, humilhado, vítima de fake news, lawfare e julgamentos arbitrários e assassinado de forma covarde.

E na vida real em relação aos trotskistas, stalinistas, comunistas, socialistas, capitalistas, marxistas, fascistas, nazistas, esquerdistas, direitistas, liberais, conservadores, reacionários, privatistas, socialdemocratas, e outras nomenclaturas que têm diversas funções, para o bem e para o mal, de acordo com o uso delas? Esses nomes são parte integrante do que nós somos, homo sapiens, espécie animal que cria abstrações para organizar o mundo em tribos, em guetos, em antagonismos, e cria comunidades imaginárias o tempo todo, tanto para o bem comum quanto para o mal comum (dos outros).

Quando comecei a entender no movimento sindical a qual grupo eu pertencia, passei a compreender como as coisas funcionavam nos movimentos sociais. Do ponto de vista do grupo no qual eu estava, me lembro que ser stalinista era algo pejorativo, que remetia a autoritarismo. Ser trotskista era algo que não iria a lugar algum, porque onde houvesse mais de um militante, haveria uma divisão e fragmentação do movimento (risos). 

Como todo grupo puxa sardinha pra sua rede, bom era o grupo político ao qual eu pertencia (risos), era democrático, plural, de massas, pela base, e exercia uma forma de decisão sempre focada no convencimento e só se votava como último recurso, pois votar de cara a proposta "A" contra a proposta "B" era chance de divisão, de rachas, de ressentimentos. Convencer politicamente era melhor que simplesmente votar e pronto (contar garrafinhas, qual grupo tem mais crachás), que os derrotados aceitem e acabou (a minoria se submete e pronto?). Chamávamos isso de consenso progressivo. Minha formação política foi essa. Hoje, nem assembleias presenciais existe mais para se fazer oposição a uma proposta da direção...

As circunstâncias históricas que nos foram transmitidas eram as novidades do Novo Sindicalismo, a criação da CUT, do Partido dos Trabalhadores, as Diretas Já e a luta contra a ditadura militar, a conciliação de classes - que vigorou durante esse período que foi do final dos anos 70 até o golpe de Estado em 2016. Me politizei de forma orgânica nessa época histórica, mais especificamente a dos anos noventa adiante, do neoliberalismo dos fernandos no Brasil e depois nos governos do PT.

Quantas vezes durante a leitura do romance de Padura não me peguei olhando para trás e vendo nossas divisões e rachas por questões tanto importantes de objetivos, estratégias e táticas, quanto por questões menores, de personalismo e prioridades corporativas que superavam e muito as questões de classe... Talvez por isso a leitura tenha sido tão truncada para mim. Pelas circunstâncias históricas que nos foram legadas ontem, quando eu fiz parte daquela história e naquelas condições, e pelas que nos foram legadas hoje, em 2023, absolutamente diferentes daquelas condições nas quais me formei politicamente.

É hora de terminar a postagem. O livro do escritor cubano Leonardo Padura me convenceu da qualidade excepcional de sua arte e vou ler outros livros dele. Em relação ao tempo histórico e às circunstâncias que nos foram transmitidas, eu sigo na torcida pelo nosso governo Lula e apoiando o que eu entendo ser correto - e ainda estou calado em relação ao que julgo estar errado -, mas tem coisas que saltam aos olhos em nosso governo e precisamos contribuir para que o governo dê certo porque os inimigos estão avançados em seus projetos de nos tirar do poder e de nos eliminar, porque o mundo é assim.

William


Bibliografia:

PADURA, Leonardo. O homem que amava os cachorros. Tradução de Helena Pitta. 2ª ed. - São Paulo: Boitempo, 2015.


segunda-feira, 13 de março de 2023

Diário e reflexões - Cuba XV (13/03/23)



Refeição Cultural - Cuba (XV)

Osasco, 13 de março de 2023. Segunda-feira chuvosa.


Ao decidir no início do ano conhecer um pouco mais sobre Cuba e o povo cubano, pensei em ler livros de autores cubanos ou com a temática e história do país. Com tal estratégia definida, acabei pegando um livro clássico do autor cubano Leonardo Padura: O homem que amava os cachorros (2009). O livro já havia sido indicado a mim por vários conhecidos e como o ganhei de presente de minha esposa, escolhi ele na estante.

Registro minha opinião de leitor até aqui (não acabei a leitura): não concordo com os leitores e comentadores que disseram que a obra é de leitura fluida e fácil. Não é! A obra é maravilhosa, mas não é de leitura fácil. Imagino como deve ter sido difícil pesquisar tudo o que Padura pesquisou para construir um romance tão bem alinhavado como esse.

O romance narra a história de León Trótski, um dos líderes da Revolução de Outubro, de seu exílio nos anos trinta e de seu assassinato a mando de Stálin em 1940. 

Leonardo Padura desenvolve o romance intercalando três cenários que se imbricam ao avançar na leitura da obra. Trótski e seu percurso entre a União Soviética e o México; o espanhol comunista Ramón Mercader, da Guerra Civil Espanhola à cena do crime e o período posterior; o escritor cubano Iván no presente da narrativa, décadas depois dos fatos ocorridos nos anos 30 e 40 e 70.

A estratégia de leitura que adotei desde o início do romance havia sido uma até agora. Li sem pressa 360 páginas, 20 capítulos, entre o início do ano e duas semanas atrás. Nesse ritmo, iria acabar a leitura no dia de São Nunca. Parei a leitura e até li um livro de quase 300 páginas nesses dias. Leitura fantástica, por sinal. Ler aqui comentário sobre o livro de André Singer sobre o lulismo.

Aí, neste domingo, retomei a leitura do livro de Leonardo Padura. A estratégia mudou. Tenho que pegar firme na leitura do romance até acabar... mas a leitura é densa, é lenta, exige deste leitor um certo tempo de degustação da história. É de fato uma refeição cultural.

Cobrei de mim mesmo uma disciplina atlética na leitura. No novo ritmo, avancei 4 capítulos entre ontem e hoje e, pasmem, foram 65 páginas! Faltam 165 páginas ainda... aff!

Enfim, o romance histórico é de uma riqueza incrível, me põe a pensar. Ver o preenchimento ficcional das lacunas na história de Trótski, Stálin, da Cuba revolucionária, da guerra fria, dentre outras questões de nossa história do século XX é fascinante. Impossível não olhar para trás e ver minha vida no movimento sindical, os rachas políticos, as guerras fratricidas entre nós da esquerda etc.

Seguimos. Vamos ver se acabo a leitura nos próximos dias. Difícil... mas quem sabe, né!

William


Post Scriptum: ler aqui a postagem anterior sobre essa temática cub.ista ou cuba.ista.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Diário e reflexões - Cuba XIV (23/02/23)



Refeição Cultural - Cuba (XIV)

Osasco, 23 de fevereiro de 2023. Quinta-feira.


"Para Hilda, o livro era uma ideia maravilhosa e ela se dispôs a ajudar Ernesto. Enquanto isso, os dois estabeleceram uma rotina doméstica amigável, inspirada num programa de leituras semelhante ao que Fidel tinha com Naty. Quando não trabalhavam na magnum opus de Ernesto, os dois falavam sobre poesia: Hilda emprestou a ele uma cópia dos poemas de César Vallejo e ele dividiu com ela o grande amor que tinha por Pablo Neruda, José Hernández e Sara de Ibáñez. Juntos, eles também liam obras políticas: Engels, Marx e Sartre, acima de tudo. 'Compartilhávamos a sensação de "náusea da vida"', relembra Hilda." (Fidel e Che. Reid-Henry, p. 120)


Peguei mais algumas fitas antigas em VHS para assistir. Numa delas estava escrito "Martín Fierro". Para melhorar a experiência ao ver o filme, comecei a reler o clássico poema do gaucho argentino, escrito por José Hernández (1834-1886). A caixinha da fita estava vazia... por sorte, encontrei na internet o filme completo (2005), dirigido por Gerardo Vallejo.

Ao estudar mais a respeito de Cuba e sua história libertadora e revolucionária, vi que o jovem médico argentino, Ernesto Che Guevara era leitor de José Hernández. Que legal essa ligação entre uma leitura e outra!

Terminei a 1ª parte do livro Fidel e Che - Uma amizade revolucionária (2009), de Simon Reid-Henry. Li o livro em 2010 quando o ganhei de presente. A releitura é quase uma leitura nova.

Terminei a 1ª parte do romance do escritor cubano Leonardo Padura - O homem que amava os cachorros (2009) e já estou no terceiro capítulo da 2ª parte. A impressão que tenho é que o livro é grande demais para a história. Talvez seja porque fazer uma ficção histórica sobre León Trótski seja de fato algo enorme só de pensar, imagina então para completar as lacunas da história do assassinato do líder da Revolução Russa a mando de Josef Stálin?

Em relação ao estudo de línguas e linguagem, ando devagar. Comecei a estudar espanhol na plataforma do Instituto Conhecimento Liberta (ICL) para relembrar minhas habilidades com a língua, mas ando a passos de tartaruga na sequência das aulas. Estou devagar também com as outras línguas que me esforço no aprendizado, o inglês e o japonês. Estudar pouco é melhor do que não estudar nada. Tenho lido e ouvido muito espanhol, de diversos acentos e isso é bom. Meu ouvido já está bem aguçado para as nuanças dos falares de cada país de língua espanhola.

É isso! Aprender algo diariamente e ser menos ignorante deveria ser o objetivo de toda pessoa que queira melhorar como ser humano e que queira melhorar o mundo no qual estamos também.

William


Post Scriptum: texto anterior dessa série cub.ista pode ser lido aqui.


Bibliografia:

REID-HENRY, Simon. Fidel e Che - Uma amizade revolucionária. Tradução: Beatriz Velloso. 1ª edição. Editora Globo. São Paulo, 2010.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Diário e reflexões - Cuba XI (09/02/23)



Refeição Cultural - Cuba (XI)

Osasco, 09 de fevereiro de 2023. Fim de noite de quinta-feira.


Mais um dia de minha vida vai terminando. À minha esquerda, uma bonita lua ilumina o céu. A natureza é bela aos olhos do animal humano que pensa a respeito da lua, do sol e a respeito de tudo que está ao nosso redor. Somos natureza. Na Turquia e Síria, a natureza tremeu e mudou tudo em instantes. São mais de 20 mil mortos após o terremoto. A natureza é incontrolável! Estados Unidos e Otan querem aniquilar um país que possui bombas atômicas, a Rússia, que defende seu direito de existir. Isso pode dar uma merda global. A lua, o terremoto, a estupidez humana: tudo isso é a natureza.

Defini que iria estudar um pouco sobre Cuba e os cubanos nos primeiros meses deste ano. A história desse povo caribenho é fantástica e motivadora para nós que há séculos somos explorados pelos impérios do Norte e ainda hoje somos hegemonizados pelas ideologias dominantes desses imperialistas que pouco se importam conosco, povos do Sul, e com a vida na Terra. Estou perseguindo esse objetivo que tracei e sei um grama a mais sobre Cuba em relação ao ontem. Sei até sobre o Granma (rsrs).

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"(...) Liev Davidovitch contemplou a paisagem norueguesa e, como escreveria pouco depois, enquanto se afastavam do fiorde, fez em silêncio o balanço do seu exílio, para se certificar de que as perdas e frustrações superavam largamente os duvidosos ganhos. Nove anos de marginalização e ataques tinham conseguido transformá-lo num pária, num novo judeu errante condenado ao escárnio e à espera de uma morte infame que lhe chegaria quando a humilhação tivesse esgotado sua utilidade e sua cota de sadismo..." (p. 220/221)


Li nos últimos dias mais três capítulos do livro do escritor cubano Leonardo Padura - O homem que amava os cachorros. Foram mais de 70 páginas e o conteúdo é muito denso. A história é sobre o assassinato de Trótski. 

Já li textos parecidos sobre a história da Revolução Russa e seus líderes. Ao longo da militância no movimento sindical tive contato com diversos pontos de vista e não me censuro em relação a texto algum contra ou a favor de um ou outro grupo da esquerda mundial. 

Desde que conheci o pessoal do movimento sindical, convivi com a questão dos grupos stalinistas e trotskistas (e muitos outros), e afirmo ainda hoje que essa divisão é uma coisa que me incomoda há tempos: acho uma estupidez os rachas no campo da classe trabalhadora. 

Os caras das forças de esquerda se mataram uns aos outros ao longo da história e a direita e os capitalistas nos dominam até hoje. Vejam o exemplo do que aconteceu na Guerra Civil Espanhola! Era uma tragédia anunciada!

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É isso!

O nosso presidente Lula desembarcou nos Estados Unidos hoje para se encontrar com o presidente norte-americano, Biden. 

Que a memória de lutadores históricos como José Martí, Fidel Castro, Ernesto Che Guevara, Hugo Chávez, Leonel Brizola, Luiz Gama e tantas lideranças de Nuestra América iluminem nosso querido presidente Lula para realizarmos reuniões ativas e altivas em defesa dos interesses de nossa Pátria Grande, como Lula fez nos seus dois primeiros mandatos.

O texto anterior com a temática cubana pode ser lido aqui.

William



Bibliografia:

PADURA, Leonardo. O homem que amava os cachorros. Tradução de Helena Pitta. 2ª ed. - São Paulo: Boitempo, 2015.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Diário e reflexões - Cuba VIII (01/02/23)



Refeição Cultural - Cuba (VIII)

Osasco, 01 de fevereiro de 2023. Noite de quarta-feira.


Li mais um capítulo do livro do escritor cubano Leonardo Padura, O homem que amava os cachorros. O capítulo 10 se passa nos anos trinta e nele vemos Liev Davidovitch, Trótski, exilado de um lugar pra outro. Após uns 4 anos numa ilha em Istambul, Turquia, ele vai para uma pequena cidade da França e termina o período abordado no capítulo na Noruega.

O livro vai alternando períodos e personagens e locais da história. A cada capítulo o leitor vai aos anos 30, aos anos 70, aos anos 2000. Vai à União Soviética, vai a Barcelona, na Catalunha, e a Madri, vai aos países por onde Trótski viveu exilado, vai a Cuba no passado e no presente da narrativa. 

É um livro de ficção e de história, é um enredo fenomenal. Como disse, é uma leitura de fôlego. Quis ler 3 capítulos hoje, umas 50 páginas... Não é tão simples assim! Foi difícil ler um capítulo inteiro, esse com o foco em Trótski.

No capítulo anterior, o nono, o foco foi em Cuba nos anos 70. Também foi uma leitura concentrada. O leitor começa a conhecer mais a respeito do "homem que amava os cachorros", apelido dado por Iván ao estranho que ele conheceu na praia, que andava com dois cachorros belíssimos, galgos borzóis, Ix e Dax.

No capítulo 10, sentimos a tristeza de Trótski ao enterrar sua borzói Maya, que morreu aos 9 anos de idade. O revolucionário russo vinha de uma sequência de perdas pessoais terríveis. 

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Momentos de leitura

No capítulo 9, com foco no personagem cubano Iván, ficamos sabendo que ele tinha um irmão, William, que sofreu consequências severas em sua vida por ser homossexual. Ele era universitário e ao assumir sua orientação sexual foi apenado pelo Estado. O estudante tinha uma relação com seu professor.

"Mas William, depois de rejeitar durante semanas e com enorme veemência aquela acusação, lançou mão de uma coragem que eu desconhecia, revoltou-se contra uma clandestinidade desgastante e repressiva e disse que sim, que era homossexual, que desde os treze anos agia como tal, ativa e passivamente, embora tenha se recusado a confessar com quem tinha realizado semelhante atividade porque esse era um assunto privado que só interessava a ele e a mais ninguém. Ainda que não tenha sido possível relacionar as inclinações sexuais dos processados com suas atitudes como professor e estudante, apesar de os resultados laborais e docentes de cada um serem notáveis, a sentença estava decidida de antemão, e a comissão de representantes aplicou suas medidas: o professor seria expulso indefinidamente do Partido e do sistema nacional de ensino, e William seria afastado por dois anos da universidade, mas definitivamente dos estudos de Medicina." (p. 147/148)

Que foda! E pensar que a esquerda agiu assim por décadas!

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No capítulo 10, num certo momento, Trótski fica indignado ao saber que os comunistas apoiaram o partido nazista. A história se passa em meados dos anos trinta, Hitler já encaminhava seus projetos de poder.

"A indignação de Liev Davidovitch explodiu quando soube que o Executivo da Internacional Comunista tinha emitido uma declaração vergonhosa de apoio ao Partido alemão, qualificando sua estratégia política como irrepreensível e repetindo que a vitória dos nazis era apenas uma conjuntura transitória, da qual as forças progressistas sairiam vitoriosas. O mais preocupante era o fato de os domesticados alemães, tal como o restante dos partidos filiados ao Comintern, terem acatado em silêncio aquele documento, revelador de um suicídio político de consequências previsíveis..." (p. 155)

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BRASIL, 1º/02/23. 

ELEIÇÃO DAS MESAS DO CONGRESSO NACIONAL

Naquela hora da leitura, de manhã, fiquei pensando na votação no Congresso Nacional do Brasil para eleger o presidente da Câmara no dia de hoje, 1º de fevereiro. 

O governo Lula e quase todo mundo apoiou a reeleição do tal deputado bolsonarista Arthur Lira, o cara que comandou o orçamento secreto por anos, o cara que só está com mandato por liminar da justiça, acusado de ser ficha-suja, o cara que foi o braço direito do governo fascista dos milicianos do clã Bolsonaro até dias atrás. O cara que junto com Eduardo Cunha derrubou a presidenta Dilma e o governo do Partido dos Trabalhadores. 

É assustador! Lira foi eleito com 90% dos votos da Câmara para presidente (464 votos em 513 possíveis). 

É assustador! Isso não vai acabar bem para nós, não pode acabar bem! Tá na cara!

Sem mais comentários...

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Sigo estudando história, literatura, linguagens humanas; sigo conhecendo um pouco mais sobre Cuba e os cubanos. E, claro, sobre a história das experiências socialistas e alternativas ao capitalismo, essa desgraça que vai acabar com a humanidade.

As postagens anteriores a respeito de leituras cubanas podem ser lidas a partir daqui.

William


Bibliografia:

PADURA, Leonardo. O homem que amava os cachorros. Tradução de Helena Pitta. 2ª ed. - São Paulo: Boitempo, 2015.


sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Diário e reflexões - Cuba VI (27/01/23)



Refeição Cultural - Cuba (VI)

Osasco, 27 de janeiro de 2023. Fim de noite de sexta-feira.


Neste início de ano incluí em meus temas de interesse conhecer mais sobre Cuba e o povo cubano, sua história, seus momentos marcantes, suas personalidades, sua cultura, seu sistema político e social. 

Tenho comigo que é melhor estudar e conhecer mais sobre o mundo e a vida do que não estudar. Observo que o ser humano está emburrecendo. A espécie homo sapiens deixará de existir. Não me dobro a essa lógica, vou até o fim de meus dias tentando ser menos ignorante em todos os sentidos.

Estou lendo um livro de um autor cubano, Leonardo Padura, autor da atualidade, que se encontra na plenitude de sua produção literária. O livro O homem que amava os cachorros é um romance que aborda a vida de Trótski. A leitura vai demorar bastante. 

Estou lendo José Martí e sobre José Martí. Comprei um livro de antologia de seus textos, porém comprei a edição virtual. Já me arrependi por não ter adquirido a edição impressa. Dá até vontade de deixar a virtual de lado e comprar de novo em papel. Não me adapto a essa forma de mídia.

A data é comemorativa do aniversário de 170 anos do nascimento de José Martí, o apóstolo da liberdade cubana. Ainda não entendi se ele nasceu no dia 27 ou 28 de janeiro de 1853, mas as comemorações estão acontecendo entre hoje e amanhã.

Estou lendo matérias jornalísticas sobre o dia a dia de Cuba em dois veículos de informação de lá: cubadebate.cu e granma.cu e tenho gostado bastante dos conteúdos.

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Eu tenho uma certeza: sou anti-imperialista e anticapitalista. 

O capitalismo será o responsável pelo fim da possibilidade de vida no planeta Terra.

A espécie humana se quiser seguir existindo terá que superar essa forma de organizar as sociedades humanas. 

Minha postagem anterior sobre o tema Cuba pode ser lida aqui.

William


terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Diário e reflexões - Cuba V (17/01/23)


Seguem os estudos sobre Cuba.

Refeição Cultural - Cuba (V)

Osasco, 17 de janeiro de 2023. Noite de terça-feira.


Li hoje mais um capítulo do livro do escritor cubano Leonardo Padura. A cada capítulo que leio, percebo o quanto a leitura é densa. Li o capítulo 8. Esse que li e o capítulo 6 se passam num cenário espanhol, anos trinta, e a Espanha está em guerra civil. O personagem focado é Ramón Mercader.

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DIGRESSÃO DE LEITOR

Antes de seguir com algum comentário ou anotação sobre a leitura do romance de Padura, fiquei pensando numa questão de leitor: cara, não sou leitor pra essas coisas digitais e virtuais, o Kindle. Não sou! Que saco! Até estou me esforçando, mas como é ruim não ter o livro impresso na mão!

Já li alguns livros que acabei comprando ou baixando gratuitamente no Kindle, mas é como se eu não tivesse o livro. O último que adquiri foi o livro comemorativo com textos do escritor cubano José Martí (1853-95), uma antologia. Já me arrependi. Deveria ter comprado o livro impresso. Que saco!

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REVOLUÇÕES

Voltando à leitura do livro O homem que amava os cachorros, o romance alterna idas e vindas no tempo histórico, e a parte que conta a história da revolução russa e demais revoluções em andamento e seus personagens é uma parte fascinante e me lembra um pouco o excelente texto "Trótski - A paixão segundo a revolução", do poeta e intelectual paranaense Paulo Leminski. (ler comentário aqui)

Aliás, a difícil questão das divisões históricas entre nós do campo da esquerda é bem retratada na obra de Padura e me faz lembrar o tempo todo os mais de 20 anos envolvidos na militância sindical bancária, inclusive como dirigente eleito por 16 anos, atuando na corrente Articulação Sindical da CUT. 

Ontem e hoje, me parece não haver mudanças significativas nas concepções e práticas das mais diversas correntes políticas no campo da esquerda brasileira e mundial. A divisão é a regra, é quase como a lei da gravidade na Física...

Nos capítulos já lidos, relativos ao cenário espanhol dos anos trinta, o embate entre a direita e os fascistas versus a esquerda e um conjunto de grupos diferentes - republicanos, anarquistas, socialistas, comunistas, trotskistas - me passa a impressão que a história da esquerda no mundo nunca mudou: a unidade é impossível, quando é construída a duras penas tem duração pequena, é uma unidade efêmera.

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Alguns excertos interessantes do romance O homem que amava os cachorros:

ESPANHA: ANOS 30

"A orientação partidária do momento era primeiro consolidar uma república para mais tarde radicalizá-la, e por isso, os jovens comunistas apoiaram naquele instante crítico as acanhadas medidas do governo contra os latifundiários e o poder da Igreja, pela igualdade entre mulheres e homens, pelos direitos dos trabalhadores e, sobretudo, da grande massa camponesa espanhola, atrasada e paupérrima..." (p. 102)

TROTSKISTAS X COMUNISTAS

"(...) afirmou sua convicção de que os trotskistas eram os mais sibilinos inimigos dos comunistas e de que anarquistas e sindicalistas só podiam ser encarados como companheiros de viagem descartáveis na escalada em direção aos grandes objetivos, que seriam divergentes quando eles, comunistas, estivessem em condições de promover a verdadeira Revolução, que conduziria a uma necessária ditadura do proletariado." (p. 103)

REVOLUÇÃO NO AR

"(...) Madri, onde os partidos da Frente Popular tinham organizado uma grande manifestação para comemorar a vitória e a formação do novo governo. Na capital, encontraram aquele ambiente festivo e nervoso que imperou na Espanha até o início da guerra. Os galões de vinho saltavam das calçadas para os caminhões dos recém-libertados, as moças atiravam-lhes flores, cruzavam-se vivas à liberdade e morte à monarquia, à burguesia, aos latifundiários e à Igreja. Podia-se sentir a revolução no ar." (p. 108)

BARCELONA

"Ser trabalhador, militante, miliciano ou soldado da República transformara-se num sinal de distinção..." (p.130)

DIVISIONISMO

"O maior perigo que as forças republicanas enfrentavam, segundo a jovem, era o divisionismo, exacerbado desde o início da guerra. Nacionalistas catalães, sindicalistas de tendência anarquista ou de filiação socialista e renegados trotskistas como os do Partido Operário de Unificação Marxista (Poum) - à frente do qual estava agora a espinha atravessada do obstinado Andreu Nin, membro do próprio governo da Generalitat - já se opunham à estratégia comunista e tinham colocado sobre a mesa a questão mais transcendente do momento: a guerra com revolução ou a guerra com vitória mas sem revolução." (p.130/131)

Enfim...

O capítulo descreve as divisões, as desconfianças e as traições que iriam movimentar o atribulado campo da esquerda naquele período.

Os comunistas sob ordens diretas dos soviéticos estavam insatisfeitos com o governo socialista de Largo Caballero, etc.

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ESTUDAR É MELHOR QUE NÃO ESTUDAR, SEMPRE!

Seguimos lendo e estudando e observando o que ocorre no mundo da política em nosso Brasil do governo Lula. E a cada dia vou conhecendo um pouco mais sobre Cuba e o povo cubano. Já estou ouvindo, também, canções de Pablo Milanés, recém-falecido. 

Estudos cubanos anteriores podem ser lidos aqui. Meu blog é uma espécie de fichário de estudos, consigo rever várias coisas nele. Estudar é sempre melhor que não estudar. 

Não consigo entender a perda de interesse nos estudos como vejo ao meu redor nos tristes dias que correm. Há uma espécie de incentivo à ignorância! É assustadora a ignorância (não saber) em tanta gente por aí.

William


Bibliografia:

PADURA, Leonardo. O homem que amava os cachorros. Tradução de Helena Pitta. 2ª ed. - São Paulo: Boitempo, 2015.


domingo, 15 de janeiro de 2023

Diário e reflexões - Cuba IV (15/01/23)


Trótski, capa interna do livro de Padura.

Refeição Cultural - Cuba (IV)

Osasco, 15 de janeiro de 2023. Manhã ensolarada. Li com a pálpebra pesada pela sonolência de uma noite mal dormida.


Defini que nestes primeiros meses do ano irei ler e estudar um pouco a respeito da história de Cuba, de seu povo e de figuras destacadas da ilha caribenha ao longo do tempo. Hoje já sei alguma coisa a mais do que sabia ontem sobre esse país fantástico, sobre seu povo aguerrido que resiste ao embargo imperialista de décadas, povo que persegue os objetivos históricos de construir uma sociedade mais justa e igualitária.

Optei por começar a leitura de um livro que já é considerado um clássico da literatura, apesar de ser um romance contemporâneo, lançado em 2009 pelo escritor cubano Leonardo Padura. O livro O homem que amava os cachorros é um livro que mescla história com ficção, e temos no enredo a lendária figura de um dos líderes da Revolução de Outubro, Trótski. É um livrão, denso, de leitura lenta. Levarei semanas na leitura.

Também decidi ler José Martí, figura histórica e muito importante na história de Cuba, na história de Nuestra América e na história da intelectualidade porque ele é escritor, ensaísta, poeta, político, diplomata e um dos líderes da independência da ilha caribenha em relação à Espanha no final do século XIX. Adquiri uma obra comemorativa organizada pela Real Academia Espanhola (RAE) e demais academias da Língua Espanhola (ASALE). Se trata do livro Martí en su universo. Una antología (2021). Já li os ensaios que abrem o livro e agora vou começar a leitura de seus textos. É leitura pra muito tempo também.

Estou pra receber um terceiro livro com a temática relativa a Cuba. Se trata do livro reportagem de nosso querido escritor Fernando Morais - A ilha (1976). Assim que chegar eu começo a leitura também. Dessa maneira, vou alternando diferentes visões a respeito de Cuba e de sua história, visões de hoje e do passado.

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AOS HUMANOS O QUE SÃO DOS HUMANOS: OS SENTIMENTOS DIVERSOS, AS CONTRADIÇÕES, ESPERANÇAS E DESESPERANÇAS, UTOPIAS E DECEPÇÕES

Cenário 1 - No romance que estou lendo - li os capítulos 6 e 7 -, o personagem Liev Davidovitch vive dramas pessoais como quaisquer dos mortais humanos. Para a história das sociedades humanas dos séculos XX e XXI, Trótski foi uma figura lendária, foi um dos artífices de uma das maiores revoluções da história humana. Um pensador, articulador, organizador das massas. Em um momento, estava numa condição de liderança e condução da revolução. Noutro momento, estava exilado, expurgado, perseguido. Era mantido vivo para ser a justificativa de seu perseguidor em aprofundar o expurgo e a repressão contra ideias dissonantes do regime socialista: o ex-líder seria uma espécie de "contrarrevolucionário". Liev Davidovitch viu sua família se dividir, filhos e filhas e netos sofrerem as consequências de sua vida política. Esse homem sofreu as dores e alegrias de conciliar sua vida com a vida de seu personagem na história.

Cenário 2 - Após uma noite mal dormida, preocupado com o filho que não voltou pra casa, vejo pela manhã diversas mensagens e tentativas de ligações de minha mãe informando a piora do estado de saúde do irmão, nosso tio. Nesse meio tempo, o filho chega e vai dormir. A manhã se consome entre decidir viajar ou não para a cidade onde está o familiar adoecido e de que forma. Meu papel é mais ou menos o de tentar ajudar a família da forma mais adequada. As tratativas do que fazer são tensas porque a cada dia está mais difícil lidar com os seres humanos, além da dificuldade das dores e tristezas que deixam a todos sem saber o que fazer, temos a intolerância que nos dominou como animais humanos. As casas brasileiras nas quais não são as mulheres que suportam e sustentam tudo - nestas, os ambientes são mais tolerantes e acolhedores -, é comum haver machos alfa cheios de intolerância e de comportamento opressor. É o caso da casa de meus pais. A família está toda distante uns dos outros, centenas de quilômetros (distância física e psicológica). Decidir se alguns viajam, quem, quando é um quebra-cabeça. Nenhum humano escapa dessas horas na vida.

Cenário X - Para cada ser humano tem-se um cenário de situações complexas, contraditórias, difíceis de se resolver. Esteja a pessoa bem-posicionada na escala social, esteja na pior das condições sociais, o viver é uma complexidade sem tamanho. O presidente Lula viveu um dos momentos inesquecíveis de sua vida no domingo 1º de janeiro, dia de sua posse do mandato popular e com a população no comando, inclusive na transmissão da faixa presidencial. No domingo seguinte, o homem e o político sentiram uma dor inenarrável, pois é difícil imaginarmos o que sentiu Lula ao ver toda aquela destruição dos símbolos dos poderes da república e saber que aquilo contou com a organização e conivência de certas autoridades do Estado nacional que deveriam proteger aquelas instituições. 

E assim é a vida para cada ser humano, liderança política ou pessoa simples do povo, rico ou pobre. Um bilionário pode se achar grande coisa e num instante sofrer uma tragédia pessoal indescritível. Às vezes, nem o dinheiro, essa criação humana, tira a sensação de impotência e miséria dos seres humanos.

Citei esses cenários comuns dos contextos humanos porque a vida me parece ser exatamente isso o tempo todo - oportunidades de acontecimentos bons e situações difíceis a todo momento do viver - e desde que nós homo sapiens passamos a existir e observar e tentar racionalizar a vida e o ambiente onde vivemos lidamos com os antagonismos, as contradições, as alterações de bons e maus momentos e situações.

PRA FINALIZAR O REGISTRO DO INSTANTE

Eu, por exemplo, tento racionalizar o viver. Compreendo bem melhor a existência hoje do que ontem. Neste instante, já não tenho tantas perguntas sem respostas como tive por décadas. Não acharia que isso fosse possível se me colocasse no meu lugar tempos atrás.

Apesar de não concordar com um monte de coisas e não aceitar as coisas como elas são, tenho uma compreensão melhor do porquê as coisas são como são. A busca de sabedoria no existir do ser humano é seguir tentando identificar o que é passível de mudança e o que não é...

É isso! Sigo estudando, observando, quando possível interferindo nas coisas.

Sigo lendo sobre Cuba e os cubanos. A postagem anterior está aqui. Ao final das leituras saberei um pouco mais do que sei hoje.

William (revisão final do texto às 15h23)


sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Diário e reflexões - Cuba II (06/01/23)


José Martí.

Refeição Cultural - Cuba (II)

Osasco, 6 de janeiro de 2023.


"Todo lo quiere para su gente Martí: libertad primero, holgura y cultura luego, felicidad finalmente" (In: "La lengua de Martí", Gabriela Mistral)


A leitura do livro de Leonardo Padura - O homem que amava os cachorros - não será fácil, é um livro grande, uma leitura que exige atenção. Além do contato com esse autor cubano moderno, também comecei a leitura sobre José Martí, escritor e político cubano do século XIX. Adquiri uma edição comemorativa de Martí, uma antologia com sua obra poética completa. Até o momento, li dois artigos sobre ele, um do nicaraguense Rubén Darío e outro da chilena Gabriela Mistral.

A passos de tartaruga, estou retomando meu contato com o idioma espanhol. A leitura dos textos em espanhol é uma estratégia importante por causa do vocabulário e da sintaxe. Também estou ouvindo mais o idioma e vendo umas aulas de língua espanhola no ICL para relembrar as formalidades gramaticais do idioma.

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JOSÉ MARTÍ

"La lengua de Martí", por Gabriela Mistral (do livro Martí en su universo. Una antología)

"Guardó a España la verdadera lealtad que le debemos, la de la lengua, y ahora que los ojos españoles peninsulares pueden mirar a un antillano sin tener atravesada la pajuela de la independencia, desde Madrid le dirán leal a este insurrecto, porque conservó una fidelidad más dificil de cumplir que la de la política, y que es esta de la expresión." 

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"Ahora que sabemos que la originalidad de Martí ha sufrido la prueba de los magisterios posibles, veamos de averiguar en qué consiste esta originalidad en sí misma. Parece ser que ella tiene estos trazos: originalidade de tono, originalidad de vocabularios, originalidad de sintaxis."

Tom - Mistral explica que Martí tinha o dom da oratória sem as características do discurso em público, não precisava gritar nem usar de gestos agressivos para dominar o público:

"El secreto de Martí orador consiste tal vez en que, manejando un género de virtudes falsas, él lo sirve con virtudes verdaderas..."

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Martí da língua espanhola culta e popular

"Martí, por el contrario, vivirá las edades formadoras, infancia y adolescencia, sumergindo en su lengua hablada por las tres castas, abonándose con el español culto de los cultos y con el gustoso y pimentado del pueblo. Cuando salió al destierro, llevaba, sólida y segura como las entrañas que no nos dejan, una lengua completa y viva, chupada veinte años en la cubana."

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Martí, sobretudo um poeta

"No olvidaremos tampoco que este hombre es sobre todo un poeta; que puesto en el mundo a una hora de necesidades angustiosas, él aceptará ser conductor de hombres, periodista y conferenciante, pero que si hubiese nacido en una Cuba adulta, sin urgencia de problemas, tal vez se hubiese quedado en hombre exclusivo de canto mayor y menor, de canto absoluto."

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As metáforas de Martí vêm do coração

"Al lado de la extraordinaria sintaxis de Martí está, pues, como el otro pilar de su magistralidad, su metáfora. La tiene impensada y no extravagante; la tiene original e no estrambótica; la tiene virgínea..."

e

"el corazón es el proveedor de la metáfora en Martí, así la tiene de espontánea, de fresca y de cándida, aun cuando le sirve a veces para la santa cólera."

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O HOMEM QUE AMAVA OS CACHORROS

A incompreensão do suicídio

"Perguntou a si mesmo que angústias podiam atormentar o cérebro de um homem sensível e expansivo como Maiakóvski para que renunciasse voluntariamente ao perfume de um guisado, à magia de um entardecer, à visão do encanto feminino, entregando-se ao mutismo irreversível da morte." (p. 69)

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A solidão do exílio

"Sentiu que, naquele preciso instante, começava o seu exílio: verdadeiro, total, sem ter onde se agarrar. Para além da família e de alguns poucos amigos que lhe tinham reiterado a sua solidariedade, era um homem aflitivamente só. Seus únicos aliados úteis numa luta que devia iniciar (como?, por onde?) continuavam isolados em campos de trabalho ou já tinham claudicado, mas permaneciam todos dentro das fronteiras da União Soviética, e a relação com eles ia se apagando com a distância, a repressão e o medo." (p. 72)

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"sentiu que nem sequer seu otimismo inabalável ou sua fé na causa podiam libertá-lo da sensação invasiva de solidão que o embargava." (p. 79)

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A morte, uma contingência da revolução

"A morte, no entanto, podia ser considerada apenas uma contingência inevitável: Liev Davidovich sempre pensara que as vidas de um, de dez, de cem, de mil homens podem e até devem ser devoradas se o turbilhão social assim o exigir para atingir seus fins transformadores, pois o sacrifício individual é muitas vezes a lenha que se queima na pira da revolução." (p. 73)

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A irracionalidade do terrorismo

"Naquela noite conversaram durante horas sobre poesia russa e francesa (coincidiam na admiração por Baudelaire) e sobre a irracionalidade dos métodos terroristas (se uma bomba resolve tudo, para que servem os partidos, para que serve a luta de classe?)..." (p. 78)

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Ditadura do proletariado

"A teoria marxista, que Lênin e ele utilizavam para validar todas as suas decisões, nunca considerara a circunstância de os comunistas, uma vez no poder, perderem o apoio dos trabalhadores. Pela primeira vez desde o triunfo de Outubro deveriam ter se interrogado (interrogamo-nos alguma vez?, perguntaria a Natália Sedova) se era justo instaurar o socialismo contra ou à margem da vontade majoritária. A ditadura do proletariado devia eliminar as classes exploradoras, mas deveria reprimir também os trabalhadores?" (p. 83)

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COMENTÁRIO FINAL

Ler, estudar, exercitar o cérebro que nos faz ser o que somos é uma obrigação e uma necessidade vital. Estudemos então.

Estou com vários textos começados, mas todos exigem pesquisa, exigem ânimo e exigem reflexão sobre a tecitura dos mesmos. Enquanto os textos não são produzidos, vamos lendo e estudando algumas coisas.

A primeira postagem dessa série de estudos sobre Cuba pode ser lida aqui.

William


Bibliografia:

MARTÍ EN SU UNIVERSO - UNA ANTOLOGÍA. Edición Conmemorativa. Real Academia Española e Asociación de Academias de La Lengua Española. Alfaguara - Lengua Viva, Madrid.

PADURA, Leonardo. O homem que amava os cachorros. Tradução de Helena Pitta. 2ª ed. - São Paulo: Boitempo, 2015.


terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Diário e reflexões - Cuba I (03/01/23)



Refeição Cultural - Cuba

Osasco, 3 de janeiro de 2023. Terça-feira.


(atualizado em 06/01/23, às 19h10)

Para o ano que se inicia, defini que vou estudar um pouco sobre a história de Cuba e de seu povo. Conheço pouca coisa sobre Cuba. Diria que tenho noções, mas são noções muito vagas. Revolução cubana, Fidel Castro e Che Guevara, socialismo, embargo econômico há décadas etc. Sei muito pouco. Espero ter noções melhores nos próximos meses.

Iniciei a leitura de um romance que me recomendaram a leitura muitas vezes. Vários companheiros do movimento sindical sempre me perguntaram se eu havia lido o livro O homem que amava os cachorros (2009), do cubano Leonardo Padura. E eu dizia... "ainda não", como a maioria dos livros que me perguntavam. 

Agora vou conhecer essa obra. Já saí do movimento e sigo sem ter lido uma quantidade enorme de livros e autores que me citavam nas rodas de conversa. Sem problema. Calhou que o autor é cubano e que agora vou me envolver um pouco com a história de Cuba e dos cubanos e assim a vida segue, sigo lendo e estudando.

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O HOMEM QUE AMAVA OS CACHORROS

Quatro cachorros em três capítulos...

Até agora, já conheci Tato e Truco, dois cachorros do casal cubano Ana e Iván. Tato foi salvo por Iván no início de sua relação com Ana e depois da morte de Tato - aos 16 anos - eles pegaram um cachorrinho sarnento na rua e cuidaram dele, Truco, que viu Ana falecer.

Depois conheci Maya, a cadela de Liev Davidovitch, um cachorro galgo russo, vivendo em meio ao gelo do Quirguistão, nos anos vinte do século passado. Liev Davidovitch é conhecido pelo nome de Trótski.

Por fim, conheci o cachorro Churro, um cãozinho peludo que acompanhava Ramón ao ir se encontrar com a camarada Caridad, na região da Catalunha. Caridad é mãe de Ramón e ela não é nada "caridosa" com os animais, que o diga o cãozinho peludo Churro.

Em todos os cenários onde estão personagens humanos e cachorros - Cuba, Quirguistão e Espanha -, muita escassez de recursos e fome.

Não quis ler nada sobre o romance para não me atrapalhar a leitura, não li sequer as notas nas orelhas do livro, nem o prefácio de Gilberto Maringoni. A narrativa aborda a figura lendária de Trótski. Mas não quero ser antecipado em nada na leitura.

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FRASES E IDEIAS VIBRANTES

"fileiras de campas e jazigos, carcomidos pelo sol, pela intempérie e pelo esquecimento, tão mortos como seus inquilinos..." (p. 32)

Jazigos carcomidos pelo esquecimento...

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"a dor e a miséria figuram entre aquelas poucas coisas que, quando repartidas, tornam-se sempre maiores." (p. 33)

Ou seja, se possível, guarde pra si sua dor e sua miséria...

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"Mas, enquanto não acontecia o que desejavam, seus adversários tinham decidido aproveitar o tempo e dedicaram-se a liquidá-lo da história e da memória, que também tinham se tornado propriedade do Partido." (p. 41)

Caralho... já vi isso! A história e a memória como propriedade do partido, do sindicato etc.

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"foi obrigado a responder a si próprio que o ódio é uma doença incontrolável." (p. 51)

Sabemos disso... nós, brasileiros, sabemos disso.

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BRASIL, RECOMEÇO COM LULA

O presidente Lula teve uma agenda intensa nos dois primeiros dias de mandato. Já desfez algumas merdas do regime anterior (fascista) como, por exemplo, cancelar as portarias que permitiam armamento pesado na mão de civis. Também expediu ordens em favor do meio ambiente e dos povos indígenas. E já está recolocando o Brasil no mapa do mundo diplomático.

É isso. Será um desafio diário reconstruir o Brasil e a cidadania do povo. A imagem do governo Lula para mim é sem dúvida a imagem da subida dele na rampa com o povo brasileiro representado por aquelas pessoas lindas que entregaram a faixa presidencial ao Lula. 

Chorei ao ver o líder indígena Raoni entre as representações. Uma catadora de materiais recicláveis entregar a faixa a Lula é algo muito simbólico do fim do regime daquele ser repugnante e do Mal que ocupou a cadeira da presidência de nosso país durante a longa noite de terror que vivemos até 31 de dezembro.

William


Bibliografia:

PADURA, Leonardo. O homem que amava os cachorros. Tradução de Helena Pitta. 2ª ed. - São Paulo: Boitempo, 2015.


domingo, 15 de agosto de 2021

Trótski - A paixão segundo a revolução



Refeição Cultural

"Seria o proletariado capaz de recriar a cultura a partir de zero, fundando novas formas, novos padrões formais, um novo gosto, uma nova estética, uma nova poética?

Lênin e Trótski não eram idiotas. Sabiam que isso não era possível. O comunismo teria que ser o herdeiro de toda a cultura passada, escravagista, feudal, burguesa. Os dois líderes tinham consciência muito nítida do caráter de carência da condição trabalhadora. Sabiam muito bem que o trabalhador, fabril ou agrário, caracteriza-se pela ignorância, pelo conservadorismo, mais obtuso, pela superstição, pela pobreza mental de horizontes, pelo imediatismo de visão política." (p. 368)


A leitura dessa obra de Paulo Leminski foi uma surpresa para mim. Sei que somos muito ignorantes (não sabedores) em quase tudo na vida, e não quero jamais perder a capacidade de me surpreender com as coisas. Ver Leminski escrever sobre a história da Rússia, de seu povo e de seus líderes como Liev Trótski foi uma surpresa para mim. 

Eu recém conheci Toda poesia (2013), do poeta curitibano - ver postagem aqui. Agora começo a conhecer seu lado prosaico, narrativo e historiador. Impossível não ficar curioso para ler o que Leminski nos conta sobre Jesus, Cruz e Sousa e Bashô. Qualquer hora eu descubro.

Para falar da Rússia e dos líderes da Revolução Russa, Leminski faz uma analogia interessante com a obra Os irmãos Karamázov (1880), de Dostoiévski, comparando as características do pai e dos filhos com os principais tipos característicos do povo russo e pensando a Rússia do passado e presente e com as perspectivas do que viria a ocorrer em 1917.

O velho Karamázov, os filhos Aliócha, Ivan, Dmitri e Smierdiakóv seriam os representantes bem característicos dos tipos mais comuns da Rússia milenar. Apesar de fazer muito tempo que li esse clássico, o fato de ter lido me ajudou a compreender o que Leminski quis dizer. Mas não se preocupem porque ele explica no início as características de cada um deles.

Aprendi muita coisa com a leitura, rabisquei o livro inteiro e fiz diversos comentários nas margens. Seria difícil escolher uma ou duas citações para fazer na postagem. A leitura é densa e leve ao mesmo tempo, pela forma que o poeta nos conta a história e as versões da história. Fiz um breve comentário em vídeo sobre o livro: ver aqui.

A epígrafe acima foi escolhida porque fiquei pensando no Brasil atual, após o golpe de 2016, liderado pelos tucanos com o suporte da mídia corporativa (PIG) e a operação imperialista Lava Jato, após o golpista Temer e destruído pelo regime militar e bolsonarista. 

Pensei no povo miserável que somos, povo primitivo e ignorante em diversos sentidos, mas ignorantes porque assim é melhor para as classes dominantes e não por escolha própria do povo. Leminski fala sobre uma carência do povo em relação à cultura, mas podemos estender o sentido dessa ignorância (não saber) para todos os sentidos da vida social.

Enfim, é bom aprender sobre a história humana. O texto sobre a biografia de Trótski nos ensina muita coisa. Obrigado Leminski!

William


Bibliografia:

LEMINSKI, Paulo. Vida: Cruz e Sousa, Bashô, Jesus e Trótski - 4 Biografias. 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2013.


sábado, 7 de agosto de 2021

34. Distraídos venceremos - Paulo Leminski



Refeição Cultural - Cem clássicos

"razão de ser

     Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
     preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
     Escrevo porque amanhece,
e as estrelas lá no céu
     lembram letras no papel,
quando o poema me anoitece.
     A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
     Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
"


Reli os poemas de Leminski contidos no livro Distraídos venceremos, de 1987. Tomei contato com a poesia dele quando ganhei o livro Toda poesia (2013), um tempo atrás.

O poeta morreu aos 44 anos de idade. Morreu cedo. Ele foi um fenômeno da natureza. Estou lendo trabalhos em prosa dele e o cara é muito bom. Ele fez um livro sobre a história da Revolução Russa porque a filha havia perguntado a respeito da questão. E o texto é muito denso e escrito de forma leve. O foco do livro é Trótski e a história da Rússia.

Eu aprendi a gostar de poesia depois dos trinta anos de idade e ainda sou um aprendiz do gostar dessa forma de linguagem. Não sou nenhum especialista no tema. Sou esforçado e quero aprender a ler poesia. Mas vai longe esse aprendizado ainda. Vai até o fim de minha existência.

CENAS INTERESSANTES

O poema "Arte do chá" nos transmite uma imagem fantástica. Coisa maravilhosa, e quase utópica. Duas pessoas se encontram pra ficarem em silêncio e tomarem um chá. Cara, que demais! Poucos sabem o quanto o silêncio comunica. Quantas pessoas já ficaram horas em silêncio, só olhando e curtindo?

"arte do chá

     ainda ontem
convidei um amigo
     para ficar em silêncio
comigo

     ele veio
meio a esmo
     praticamente não disse nada
e ficou por isso mesmo
"

Adorei esse poema, essa ideia.

O poema "claro calar sobre uma cidade sem ruínas (ruinogramas)" me deixou saudoso de Brasília. Quem já passou por lá sabe o que Leminski está falando. Outra bela imagem poética da cidade cravada no Planalto Central.

"(...)

     Em Brasília, admirei.
O pequeno restaurante clandestino,
     criminoso por estar
fora da quadra permitida.
     Sim, Brasília.
Admirei o tempo
     que já cobre de anos
tuas impecáveis matemáticas.
"

Resumindo, dos 67 poemas contidos no livro, citaria mais alguns que me pegaram e nos encaixamos na imagem e na linguagem: "bem no fundo", "como pode?", "desencontrários", "litogravura", "merda e ouro", "pareça e desapareça", "rimas da moda", "rosa rilke raimundo correia", "sem budismo", "último aviso", "um metro de gritos (máquinas líquidas)", "voláteis" e "volta em aberto".

É isso! Vamos lendo, vamos lendo os livros que temos em casa. A vida é um instante, e uma oportunidade. É melhor ler do que não ler.

William


Bibliografia:

LEMINSKI, Paulo. distraídos venceremos. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.


terça-feira, 3 de agosto de 2021

Lendo biografia de Trótski, por Leminski



Refeição Cultural

Eu conhecia o lado poeta do genial Paulo Leminski, mas não conhecia o lado de grande produtor de conteúdo em prosa e seu conhecimento de história. O cara é sensacional! Francamente!

Por um total acaso, peguei na estante o livro Vida: Cruz e Sousa, Bashô, Jesus e Trótski - 4 Biografias (2013), de Paulo Leminski. Manuseei ele no fim de semana e acabei começando a leitura sobre a vida de Trótski, que na verdade fala muito sobre a história da Rússia e de seu povo. São fantásticos o conteúdo e a forma como o poeta nos apresenta a história.

Comecei a ler achando que era uma coisa simples e me deu conta de que quase a metade do livro é essa parte sobre Trótski e o povo russo. A leitura é densa, mas é muito bem narrada. 

Nas dedicatórias do livro, escrito em 1986, antes do fim da URSS, ele diz que uma das motivações para escrever a biografia de um dos líderes da Revolução de Outubro foi:

"Para minha filha Áurea que, com quinze anos, me perguntou o que tinha sido a Revolução Russa." (p. 243)

O livro dentro do meu livro na verdade se chama Trótski - a paixão segundo a revolução (1986).

Ele começa o livro citando como referência, como uma espécie de símbolo da Rússia, a grandiosa obra de Dostoiévski Os irmãos Karamázov (1880). O pai e os quatro filhos, sendo um deles bastardo, seriam os tipos característicos da Rússia. A história conta um parricídio e de certa forma Leminski diz que essa questão é central na história daquele povo e cita Freud:

"Os irmãos Karamázov não só retrata com perfeição a Rússia passada e presente, em suas estruturas mais profundas, mas ainda prefigura uma Rússia por vir." (p. 246)

E diz mais:

"Para Freud, é o parricídio primordial que funda a civilização.

 E toda revolução social de grandes proporções é uma luta dos filhos contra a tirania dos pais (pais, padres, patrões, padrões)." (p. 246)

Já li algumas dezenas de páginas e já aprendi muita coisa sobre a origem da Rússia - ele começa contando a partir de 1236 com as invasões dos mongóis -, e que ele diz que a Rússia dos últimos séculos seria uma espécie de expansão a partir de Moscou.

Leminski fala sobre os líderes que conduziram a Revolução de 1917. Ele já falou sobre os bolcheviques e os mencheviques, a origem de Lênin, do biografado Trótski e de Stálin. É como se fossem aulas de história da Rússia. No final do livro, temos a bibliografia que ele leu para tal obra.

Muito interessante!

William


Bibliografia:

LEMINSKI, Paulo. Vida: Cruz e Sousa, Bashô, Jesus e Trótski - 4 Biografias. 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2013.