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segunda-feira, 21 de julho de 2025

Livro: Deuses humanos - H. G. Wells



Refeição Cultural

"Isso é o que fazemos agora habitualmente neste mundo. Pensamos diretamente uns para os outros. Determinamos transmitir o pensamento e é transmitido imediatamente, contanto que a distância não seja grande demais. Agora usamos sons neste mundo apenas para poesia e para o prazer e nos momentos de emoção ou para gritar de longe, ou com animais, não para a transmissão de ideias da mente humana para outra mente irmã. Quando eu penso para você, o pensamento é refletido em sua mente, desde que encontre ideias correspondentes e palavras adequadas em sua mente. Meu pensamento se reveste de palavras em sua mente, palavras que vocês parecem ouvir - e naturalmente em sua própria língua e com suas frases habituais. Muito provavelmente, os membros de seu grupo estão ouvindo o que estou dizendo a você cada um com suas próprias diferenças de vocabulário e sintaxe." (p. 50)


O livro de Herbert George Wells, Deuses humanos, veio até mim de forma casual, o vi numa banquinha de livros num shopping center. Paguei por ele quinze reais.

Pelo que pesquisei, o livro não é daqueles mais conhecidos do autor inglês como Guerra dos mundos, A ilha do Dr. Moreau, O homem invisível, A máquina do tempo e outros. 


LIVRO 1 - A IRRUPÇÃO DOS TERRÁQUEOS 

No enredo, o senhor Barnstaple, um trabalhador do periódico Liberal - um subeditor e um faz-tudo -, reflete sobre a necessidade de férias, ele está esgotado pela rotina no trabalho e também em casa. Quer férias até da família. 

Sendo assim, ele pega o carro e sai escondido por uns dias. Dirige a esmo e numa derrapada se vê em outro mundo. Começa aí sua experiência em "Outro Lugar", um lugar chamado Utopia.

Outro carro com um grupo eclético, incluindo um político do partido Conservador inglês, foi parar naquele mundo também. Personagens: sr. Cecil Burleigh, líder Conservador; sr. Rupert Catskill, secretário de Estado para a Guerra; temos ainda o chofer, Lady Stella, Freddy Mush (secretário de Rupert) e o padre Amerton.

O senhor Barnstaple é um liberal, mas:

"De fato, o sr. Barnstaple estava deixando de ter esperanças, e para tipos como ele, esperança é o solvente essencial sem o qual a vida não pode ser digerida. Sua esperança sempre havia sido o liberalismo e o generoso esforço liberal, mas ele começava a achar que o liberalismo jamais faria nada além de se sentar curvado com as mãos no bolso, resmungando e implicando com as atividades de homens mais vulgares, porém mais enérgicos, cujas atividades iriam, inevitavelmente, acabar com o mundo." (p. 12/13)

O senhor Barnstaple tem um pequeno automóvel:

"Era um carro de dois lugares. Era conhecido na família como Banheirinha, Mostarda Colman e Perigo Amarelo. Como esses nomes sugerem, era um carro baixo, conversível, de uma cor amarela clara. O sr. Barnstaple o usava para ir de Sydenham ao escritório, porque fazia cinquenta quilômetros por galão e era muito mais barato do que uma passagem de temporada." (p. 15)

Uma ideia é destaque na saída furtiva do senhor Barnstaple de casa para descansar uns dias:

"(...) Mas não importava muito. Qualquer caminho levava para Outro Lugar, e ele podia seguir para o norte depois." (p. 18)

Localização temporal

"O dia era um desses dias de sol claro característicos da grande seca de 1921 (...) enquanto estivesse dando as costas para Sydenham e o escritório do Liberal, não importaria para qual direção seguiria." (p. 18)

Outro Lugar

O grupo de terráqueos estabelece uma troca de informações e conhecimentos com os indivíduos daquele mundo e assim segue o enredo do romance ficcional. 

Serviço Universal

A base da organização social em Utopia é um novo método de cooperação econômica: o serviço universal para o bem comum.

O novo modelo social surgiu lentamente após a última Era de Confusão. Não houve revolução. Foram séculos de educação e ciência. 

Personagens utopianos até esta parte da leitura (livro um): sr. Serpentine, sr. Urthred, Lion, Lychnis.

Mais personagens

Mais adiante, aparecem novos personagens: Lorde Barralonga, o chofer Ridley, a srta. Greta Grey, Hunker - o rei do cinema -, o francês Emile Dupont e Penk. O bando chegou atropelando e matando um cidadão de Utopia. 

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LIVRO 2 - A QUARENTENA

A segunda parte do romance começa anunciando uma epidemia na população de Utopia causada pelos germes trazidos pelos estrangeiros terráqueos. 

Os utopianos eram como os povos originários das terras invadidas pelos homens brancos europeus em meados do segundo milênio da chamada era cristã. 

De forma sintética, resumiria que o grupo de terráqueos foi isolado num castelo no alto de uma montanha. Os doze humanos discutem sobre o que fazer, sendo o sr. Barnstaple o único divergente na proposta do grupo.

O subeditor do Liberal não vê sentido na ideia do grupo de se contrapor aos utopianos e fazer de Utopia o que seria a sociedade humana naquele momento em 1921. Os utopianos estavam séculos à frente em avanços sociais, pensava o sr. Barnstaple. 

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LIVRO 3 - UM NOVATO EM UTOPIA

"- Aqui - disse ela - não há descanso. Todos os dias homens e mulheres acordam e dizem: 'Que coisa nova faremos hoje? O que vamos mudar?'.

- Eles transformaram um planeta selvagem, com doenças e desordem, numa esfera de beleza e segurança. Fizeram a selva das motivações humanas conter união, conhecimento e poder." (p. 192)


Nesta parte da história veremos o desfecho da aventura do sr. Barnstaple. 

Para mim, como leitor, foram esclarecidas várias dúvidas em relação ao enredo do romance de H. G. Wells.

Certas afirmações pejorativas feitas pelos utopianos sobre a raça humana me deixaram perplexo, no sentido de que poderiam ser ditas hoje, um século depois do enunciado, e não como ficção, mas como descrição do que somos.

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COMENTÁRIO FINAL 

"Em Utopia, assim como na Terra, houvera pessoas escuras e morenas, e permaneciam distintas. As várias raças interagiam socialmente, mas não procriavam muito entre elas; em vez disso, purificavam e intensificavam suas belezas e dons raciais (...) Houvera uma certa eliminação deliberada de tipos feios, malignos, estreitos, estúpidos e soturnos durante os doze anos anteriores." (p. 197)


Esse enunciado é de um século atrás. Chocante, não? Porém, as ideias contidas no texto fazem parte de um romance ficcional. 

No entanto, ideias semelhantes foram ditas faz poucos anos, já no século XXI, por um deputado federal à época para uma entrevistadora negra. Bolsonaro disse para Preta Gil que seus filhos não tinham risco de namorar negras porque foram bem-educados...

Preta Gil processou o sujeito por racismo e teve ganho de causa. Infelizmente, a cantora faleceu ontem. (Preta Gil, presente!)

O livro de H. G. Wells, de 1923, traz uma temática absurdamente atual um século depois. 

A ficção traz de volta o tema da existência de um não lugar, um lugar nenhum idealizado, assim como fez Thomas More em 1516, com sua célebre obra "Utopia".

Nessas idealizações de mundos imaginários entram de tudo: socialismo ou comunismo, eugenia, tecnologias impossíveis etc.

Quando peguei o livro na banca de promoções de livros baratos não imaginava do que se tratava o enredo. Foi sorte minha, li um livro muito bom!

Recomendo a leitura dessa obra posterior ao período mais notabilizado do autor, entre 1895 e 1905, quando saíram seus grandes clássicos de ficção. Dessa fase eu li "A guerra dos mundos" (1898) e achei o enredo fascinante (comentário aqui). 

Seguimos lendo porque a leitura é uma das maravilhas da espécie animal homo sapiens. Como diz Paulo Freire, só se educa gente! Leitura educa as pessoas.

William Mendes


Bibliografia:

WELLS, H. G. Deuses humanos (Men like Gods). Tradução de Santiago Nazarian e Thelma Nóbrega. Barueri, SP: Amoler, 2022.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Livro: Poemas - T. S. Eliot



Refeição Cultural 

Janeiro de 2025


O livro Poemas, de 1920, é o segundo livro de T. S. Eliot. Estou lendo uma bela e bem-acabada edição da Companhia das Letras, organizada, traduzida e com posfácio do professor Caetano W. Galindo.

Registro o mesmo sentimento que tive ao ler o primeiro livro dele Prufrock e outras observações, de 1917: não é uma poética de fácil compreensão para mim, prefiro outros autores. Mas estou firme na leitura. 

Deste livro o poema que mais gostei foi "Lune de Miel" (comentário aqui).

T. S. Eliot é contemporâneo de James Joyce. Deve ser por isso que os versos sem muito sentido para mim sejam meio doidos como algumas passagens de Ulysses, de Joyce, também traduzido por Galindo (comentário aqui).

Meu desejo é conhecer mais autores e suas poéticas. É reduzir minhas lacunas culturais. 

O próximo livro de Thomas Stearns Eliot é um dos mais aclamados da crítica: A terra devastada, de 1922. Vamos ver se os poemas me agradam mais.

Eu tenho um compromisso com a sinceridade e a honestidade na produção de meus textos aqui no blog. Por isso sou sincero em dizer como foi a leitura de autores e suas obras. 

Enfim, mais um livro lido neste início de ano.

William 


Bibliografia:

ELIOT, T. S. Poemas. Org. tradução e posfácio Caetano W. Galindo. - 1a ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


Leitura de poesia (50) - Gerontion, T. S. Eliot



GERONTION - T. S. ELIOT


     Thou hast nor youth nor age

But as it were an after dinner sleep

Dreaming of both


Eis-me aqui, um velho num mês seco,

Um menino lê em voz alta, espero a chuva.

(...)


Depois de tal saber, qual perdão? Pense agora

Que a história abunda em passagens ardilosas, corredores engenhosos

E saídas, ilude em sussurrantes ambições,

Nos guia por vaidades. Pense agora

Que ela dá quando nos vemos distraídos

E o que dá, dá com tão amplas confusões

Que dar mata de fome o desejo. Dá tarde demais

O em que não se crê mais, ou caso ainda,

Somente na memória, paixão repensada. Dá cedo demais

A mãos fracas, o que se pensa ser supérfluo

Até que recusar propaga um medo. Pense

Que medo nem coragem salvam. Perversos vícios

São cria de nosso heroísmo. Virtudes

Nos são impostas por nossos impudentes crimes.

Tais lágrimas colhem-se da árvore que dá fúria.

(...)


Versos do Poema "Gerontion" de 1920

Tradução de Caetano W. Galindo.

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COMENTÁRIO:

Ao ler este poema, fiquei pensando no acontecimento no dia de hoje nos Estados Unidos: a posse de Trump e aquela corja de gente no evento, com direito a saudação nazista e tudo.

É interessante reproduzir a nota de Galindo sobre este poema:

"Thou hast nor youth nor age: O título grego do poema significa 'velhinho'. A epígrafe shakespeariana vem de Medida por medida (ato III, cena I). Na cena um personagem diz a outro que a morte é consequência natural de uma vida que é por definição passageira. 'Tu não tens juventude nem idade,/ Mas como se fosse mera sesta depois da refeição/ Sonhando com essas duas coisas.'" (p. 370)

-

"Depois de tal saber, qual perdão? Pense agora

Que a história abunda em passagens ardilosas, corredores engenhosos"


Pois é, a história abunda de passagens ardilosas...

Estamos vendo o repeteco da história e suas passagens ardilosas com o que vem se passando com os Estados Unidos e com o mundo prestes a conhecer o resultado por sermos guiados por vaidades... E sabendo como foi a história, como perdoar?


"Guides us by vanities."

Aquele ajuntamento de feras humanas no evento de hoje me parece ter relação com a epígrafe shakespeariana do poema:

"Tu não tens juventude nem idade,/ Mas como se fosse mera sesta depois da refeição/ Sonhando com essas duas coisas."


Guiados por vaidades... Que cena dantesca: o velho irado, os donos das big techs, o manipulador nazista...

Estejamos preparados...

William


Bibliografia:

ELIOT, T. S. Poemas. Org. tradução e posfácio Caetano W. Galindo. - 1a ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (36) - Lune de Miel, T. S. Eliot



LUNE DE MIEL - T. S. ELIOT


Viram os Países-Baixos, voltam em Terre Haute;

Mais uma noite, e chegam a Ravena bela,

Lassos entre lençóis, com seus duzentos percevejos;

O suor estival e um forte odor de cadela.

Descansam de costas, joelhos abertos,

As quatro pernas moles bem inchadas de picadas.

Ergue-se o lençol para coçar melhor. 

A menos de uma légua, Saint Apollinaire

En Classe, basílica famosa entre os que adoram

Capitéis de acanto que o vento torneia.


Vão pegar o trem das oito horas 

Prolongar suas dores de Pádua a Milão,

Onde fica a Ceia e um restaurante nada caro.

Ele pensa nas gorjetas, mede o quanto gastarão.

Terão visto a Suíça e cruzado toda a França. 

E Saint Apollinaire, rígida e ascética,

Velha fábrica por Deus abandonada, guarda ainda

Em suas pedras arruinadas a forma exata de Bizâncio.


Do livro Poemas (1920)

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COMENTÁRIO:

Vi no poema certa semelhança com a temática dos poemas anteriores que escolhi, do livro de 1917: gente da classe trabalhadora e seu mundo do prazer carnal. 

A empregada da Tia Helen no colo do lacaio após a morte da patroa.

A sensualidade da boca da mulher na mesa de um café ou restaurante e os seios em movimento, no poema "Histeria". 

O casal em lua de mel proletária, com suor, percevejos, pernas picadas inchadas e coçando, e contando os tostões pra economizar o que puder. 

Aos poucos, vou conhecendo a poética de T. S. Eliot. 

Sigamos lendo poesia. 

William 


Bibliografia:

ELIOT, T. S. Poemas. Org. tradução e posfácio Caetano W. Galindo. - 1a ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


Livro: Prufrock e outras observações - T. S. Eliot



Refeição Cultural 

Janeiro de 2025


Li e reli o primeiro livro de poesias de T. S. Eliot, de 1917. São doze poemas, alguns deles longos.

Thomas Stearnes Eliot nasceu em St. Louis, Missouri, nos Estados Unidos. 

A edição que tenho das poesias de Eliot é organizada e traduzida pelo professor Caetano W. Galindo, da Universidade Federal do Paraná. 

Dele, já li a excelente edição de Ulysses, de James Joyce. Galindo é tradutor excepcional de romances e poesias. 

Eu tenho grandes lacunas culturais em relação a romances clássicos e obras poéticas. Não conhecia ainda T. S. Eliot. 

Seu primeiro livro foi de leitura difícil para mim. Vamos ver os seguintes, se me identifico mais com o poeta ganhador do Nobel de Literatura de 1948.

Sigamos em busca de novos conhecimentos. 

William 


Bibliografia:

ELIOT, T. S. Poemas. Org. tradução e posfácio Caetano W. Galindo. - 1a ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


segunda-feira, 26 de junho de 2023

53. A megera domada - William Shakespeare



Refeição Cultural - Cem Clássicos

Osasco, 26 de junho de 2023. Segunda-feira.


Entre ontem e hoje li mais uma peça de William Shakespeare - A megera domada (1594), em inglês "The taming of the Shrew". Não gostei da estória. No entanto, li mais um clássico. Novo conhecimento...

Pelo que vi num pequeno texto de apresentação do autor inglês - "Vida e obra" -, texto de uma coleção da Nova Cultural com dezenas de obras-primas da literatura universal:

"A obra de Shakespeare é dividida em quatro períodos: o primeiro, até 1594; o segundo, de 1594 a 1600; o terceiro, de 1600 a 1608; e o quarto, após 1608. Ao longo desse tempo o estilo de Shakespeare evoluiu da retórica barroca ao lirismo despojado." 

Após ler essa segunda peça da coletânea que adquiri com 27 obras, fiquei pensando a respeito da qualidade das obras do autor inglês. As 4 tragédias que já li são fantásticas! Falo de Hamlet, Romeu e Julieta, MacBeth e Otelo, o mouro de Veneza

Talvez as peças dramáticas mais famosas sejam o ápice do dramaturgo, algo normal que se conheça o que de melhor ele tenha produzido. 

Dias atrás, quando li A comédia dos erros (comentário aqui), uma das primeiras de Shakespeare, até gostei da trama, e relevei o forte machismo e preconceito de época.

O texto da Nova Cultural diz ainda sobre essa primeira fase:

"O primeiro período foi caracterizado, até certo ponto, pela construção formal e versos estilizados. Estava em voga na época o gênero de peça histórica, e Shakespeare escreveu os afrescos Henrique VI entre 1589 e 1592 e Ricardo III entre 1592 e 1593. Também se destacam nesse período as comédias ligeiras A comédia dos erros, de 1592, A megera domada, escrita entre 1593 e 1594, e Os dois cavalheiros de Verona, de 1594, além da tragédia Tito Andrônico, de 1593/1594."

Bom, desses citados acima, minha coletânea só não tem Henrique VI. Talvez eu leia essas peças primeiro. Acho interessante ler a obra de escritores de forma cronológica de criação e ou lançamento, pois é possível ver a evolução ou mudança do estilo ou fases do autor ou autora.

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A MEGERA DOMADA

"Tenho meios, Petrucchio, de ensejar-te uma consorte bastante rica, mui formosa e jovem, e educada no jeito de fidalga. Seu único defeito — e que defeito! — é ser intoleravelmente brava, teimosa e cabeçuda sem medida, a tal ponto que, embora meus haveres fossem menores, não a desposara por uma mina de ouro." (from: "Box Grandes Obras de Shakespeare (27 peças: Hamlet, Rei Lear, Romeu e Julieta, Otelo, O Mercador de Veneza, Sonho de uma Noite de Verão...)" by: William Shakespeare)


A peça contém 5 atos e se passa em Pádua.

No começo, achei bem interessante ver que a trama teria uma história dentro de outra história, mas no final a moldura não se completou e o dramaturgo não retomou ou finalizou da forma que iniciou o enredo.

Explico: no prólogo, um lorde volta de uma caçada e ao ver um bêbado dormindo ao relento, decide brincar com ele, mandando seus criados recolherem o sujeito e fingirem que ele acordou dum longo pesadelo onde era um ninguém e agora voltava a ser um lorde com posses, esposa e criados. O bêbado se chama Sly.

A peça que o lorde verdadeiro e o bêbado achando que era lorde assistem se chama "A megera domada". E a peça começa com os 5 atos.

A peça: duas irmãs, Catarina e Bianca, filhas de um homem de posses em Pádua - Batista -, são pretendidas em casamento. Bianca é disputada por vários pretendentes. Catarina é considerada uma jovem de difícil trato, brava até falar chega. Entre os pretendentes à mão de Bianca está Lucêncio, filho de um nobre de posses em Pisa, Vicêncio. Aí a trama se desenvolve.

Escravidão - Assim como a peça anterior que li dias atrás, o cotidiano da idade média é muito complicado para nossa consciência do século 21. A escravidão e a compra e venda de pessoas é algo comum. Além da violência nas relações hierárquicas.

Em A comédia dos erros, os irmãos gêmeos Drômio de Éfeso e Drômio de Siracusa, criados dos também gêmeos Antífolo de Éfeso e Antífolo de Siracura, foram comprados para servir aos filhos do casal de posses assim que eles nasceram.

Em A megera domada, vemos a mesma relação de poder com senhores espancando criados a todo momento.

As mulheres são coisas, compradas e negociadas da mesma forma. 

Essas primeiras peças de Shakespeare não trazem questões filosóficas ou críticas sociais como vi nas tragédias que já conheço. Essa é a minha opinião.

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LER OS CLÁSSICOS É MELHOR QUE NÃO LER OS CLÁSSICOS (CALVINO)

É isso! Com essa leitura, conheci mais uma obra de William Shakespeare. 

Sigamos lendo os clássicos. Como nos ensina Italo Calvino é melhor ler que não ler os clássicos.

Esse foi o 18º livro lido no ano.

William


Bibliografia:

SHAKESPEARE. William. As grandes obras. Capa, paginação e tradução: Mimética. Imagem da capa: John Taylor: retrato de Chandos (1610). Copyright: Mimética, 2019.

Vida e Obra: Shakespeare. Fascículo da coleção Obras-Primas da Nova Cultural.

sexta-feira, 9 de junho de 2023

52. A comédia dos erros - William Shakespeare



Refeição Cultural - Cem clássicos

Osasco, 09 de junho de 2023.


Meu conhecimento de Shakespeare se resume à leitura de quatro tragédias dele que já li em algum momento da vida: Romeu e Julieta (1592), Hamlet (1599), Otelo, o mouro de Veneza (1604) e MacBeth (1606). São peças extraordinárias! Nunca li uma comédia ou outra peça do escritor inglês.

Por não ter obras de Shakespeare em casa, acabei adquirindo por R$ 1,99 uma coletânea virtual com 27 peças teatrais do dramaturgo e poeta inglês. Como ando meio parado na leitura de obras clássicas, preciso retomar esse objetivo e, de vez em quando, intercalar um clássico entre os livros que estou lendo neste ano.

Para começar a série de peças de Shakespeare, li hoje a primeira da coletânea: A comédia dos erros (1591). Pelo que pude pesquisar, a peça é uma das primeiras feitas pelo escritor. Gostei da obra! Gostei! Ler Shakespeare é realmente uma leitura diferente do que estamos acostumados a ler.

Esta foi a 14ª obra que li neste ano. Se der, quero ler 18 até o fim do mês para ficar com uma média de 3 livros por mês.

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A COMÉDIA DOS ERROS

A peça tem 5 atos e tem como cenário a cidade de Éfeso. Siracusa é a outra cidade de referência da peça. Os personagens são originários dessas duas cidades inimigas.

O núcleo da peça envolve uma família que tem irmãos gêmeos e que se separam após um naufrágio. O destino vai se encarregar de colocar irmãos e demais personagens de seus entornos no mesmo lugar e época e a partir daí se darão os acontecimentos.

Os irmãos se chamam Antífolo de Éfeso e Antífolo de Siracusa e seus criados, gêmeos também, se chamam Drômio de Éfeso e Drômio de Siracusa.

Por que o velho mercador de Siracusa, Egeu, pai dos meninos separados pelo naufrágio, foi até Éfeso, sabendo que isso poderia lhe condenar à morte por serem inimigos os Estados e seus cidadãos serem proibidos de ir até o país uns dos outros?

"EGEU - Meu caçula, o mais velho nos cuidados, aos dezoito anos revelou desejo de procurar o irmão, tendo insistido junto de mim, para que seu criado - que, como ele, privado também fora de um irmão cujo nome ele levava - nas investigações o acompanhasse. Assim, porque sofria de saudades de meu filho perdido, pus em risco vir a perder o que ainda me restava. Cinco estios passei na extrema Grécia; vasculhei os confins da Ásia distante; e, ao costear, já de volta para a pátria, a Éfeso vim ter, sem esperança nenhuma, é certo, de poder achá-los, mas porque não deixasse inexplorado nenhum lugar capaz de abrigar homens...

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COMENTÁRIOS

A tradução da edição que tenho é boa, na minha opinião. Os textos estão numa linguagem de fácil leitura, temos frases rimadas e com bom ritmo e sonoridade.

Durante a leitura me lembrei do pobre Sancho Pança, que sempre passou maus bocados ao lado de seu cavaleiro e senhor Dom Quixote de La Mancha. Os criados de seus senhores, os irmãos Drômio, são espancados sem dó alguma... que merda isso!

Aliás, eles foram comprados já no nascimento para serem criados das crianças gêmeas nascidas, os irmãos Antífolo.

"Na mesma hora, na mesma hospedaria, uma mulher do povo de igual fardo se livrou, dando à luz dois filhos gêmeos também mui parecidos, que por serem de gente muito pobre eu comprei logo, para que a servir viessem meus dois filhos..."

A MULHER E O MACHISMO: "LUCIANA - A liberdade indócil é domada pela própria desgraça. Não há nada sob a vista do céu que não se mova num limite restrito, assim na terra como no ar e no mar. Todas as fêmeas dos animais, dos pássaros, dos peixes seguem ao macho e em tudo lhe obedecem. O homem, ser mais divino, senhor deles, dono do mundo todo, do mar vasto, que a superioridade do intelecto pôs acima de pássaros e peixes, da esposa é dono e mestre. Assim, alegre, com ele em tudo concordar te cumpre."

A peça seguiu os desfechos que conheço das tragédias que já havia lido de Shakespeare, as tensões vão aumentando e se cruzando até o clímax final. Eu me surpreendi com o final da estória. Gostei! Arrepiei!

É isso. Mais um clássico da literatura mundial.

William


Bibliografia:

SHAKESPEARE. William. As grandes obras. Capa, paginação e tradução: Mimética. Imagem da capa: John Taylor: retrato de Chandos (1610). Copyright: Mimética, 2019.


quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Leitura: Stephen Hawking - A life from beginning to end, Hourly History



Refeição Cultural

Osasco, 8 de dezembro de 2022. Quinta-feira.


"“Hello. My name is Stephen Hawking: physicist, cosmologist and something of a dreamer. Although I cannot move, and I have to speak through a computer, in my mind I am free.” —Stephen Hawking" (from "Stephen Hawking: A Life From Beginning to End (Biographies of Physicists Book 4) (English Edition)" by Hourly History)


Terminei a leitura da biografia de Stephen Hawking. Que história incrível de superação pessoal e busca de conhecimento! 

Li através do Kindle, aparelho ao qual estou tentando me adaptar para ler alguns livros. Sou um leitor que prefere as obras impressas. 

A biografia de Hawking, de autoria de Hourly History, publicada em 2019, tem os seguintes capítulos:

Introduction, Early Years, Studies at Oxford and Cambridge, Hawking's Terminal Illness, Playing the Game of the Universe, Hawking Radiation and Black Holes, The Hawking Family, Information Loss, A Brief History of Time, A Gambling Man, Late Life and Death, Conclusion.

A leitura foi de muito proveito para mim. Além de conhecer a história do grande cientista Stephen Hawking que dedicou sua vida a pesquisar o Universo, nossas origens, Cosmologia, Física, Astronomia, o funcionamento do mundo, os buracos negros e outras áreas afins, sua vida é inspiradora porque ele desafiou o senso comum e a medicina ao não aceitar que morreria em dois anos após ser diagnosticado ainda jovem com ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica).

Ler em inglês me fez dedicar algumas horas na revisão da língua estrangeira, usando o próprio dicionário do Kindle e outras fontes de pesquisa. Tenho consciência da importância de exercitar meu cérebro todos os dias, o tempo todo. Eu sou meu cérebro de 86 bilhões de neurônios como nos ensina o neurocientista Miguel Nicolelis.

FRASES E INFORMAÇÕES MARCANTES

Algumas ideias de Hawking são dignas de muita reflexão. Tanto aquelas que falam sobre a forma de encarar a vida cotidiana quanto as ideias a respeito do Universo e do funcionamento das coisas no mundo.

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A CURIOSIDADE FILOSÓFICA

"I am just a child who has never grown up. I still keep asking these how and why questions. Occasionally I find an answer." ( do 1º capítulo, Early Years)

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ATMOSFERA DOMÉSTICA À LA DICKENS

A família de Hawking, tanto a de seus pais quanto a própria família depois de adulto, nunca teve muita folga de recursos financeiros, apesar de serem da classe média. Era uma família da classe trabalhadora. Veja essa passagem que fala sobre o uso de estantes de livros para ajudar no aquecimento do ambiente interno nos invernos:

"In the post-war years, most families, even those who were once wealthy, lived frugaly. The Hawkings took this to the extreme. In the place of central heating, bookshelves stacked with books lined the walls. There was no carpet, broken windows, few electric lights, and an overall atmosphere of Dickensian gloom." (1º capítulo)

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MATA-BORRÃO SORVENDO TUDO

O jovem Stephen não ligava muito para tirar as melhores notas nas classes, mas era um garoto que absorvia tudo que podia.

"Stephen had no desire to prove that he already understood what they trying to teach him"

mas...

"he was 'like a bit of blotting paper, soaking it all up'" (1º capítulo)

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PESSOAS QUIETAS TÊM MENTES BARULHENTAS

"Quiet people have the loudest minds." (2º capítulo)

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SEJA CURIOSO, QUESTIONE A EXISTÊNCIA OLHANDO AS ESTRELAS NO CÉU

"Remember to look up at the stars and not down at your feet. Try to make sense of what see and wonder about what makes the universe exist. Be curious." (Cap. 4)

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O BIG BANG

"However, as Hawking pointed out, time does have boundaries, a beginning, and an end. If Friedmann's first model of the universe was correct, then the universe began with a Big Bang, with zero space between galaxies." (Cap. 4)

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A VIDA É UMA OPORTUNIDADE

O pensamento abaixo de Stephen Hawking é muito ilustrativo do que tenho pensado a respeito da vida desde que superei a forma negativa com a qual eu via a vida até uns trinta anos de idade. Após me tornar um dirigente da classe trabalhadora passei a ver a vida de uma forma mais positiva.

"However bad life may seem, there is always something you can do, and succeed at. While there's life, there is hope." (Cap. 6)

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CRIATURAS INSIGNIFICANTES DEMAIS PARA TERMOS A ATENÇÃO DE DEUS

"He once said, 'We are such insignificant creatures on a minor planet of a very average star in the outer suburbs of one of a hundred thousand million galaxies. So it is difficult to believe in a God that would care about us or even notice our existence'." (Cap. 6)

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PODE HAVER VIDA EXTRATERRESTRE, MAS É POUCO PROVÁVEL QUE ELA SEJA INTELIGENTE

"He offered his opinion that although the probability of life existing on other planets is high, the probability that the life is inteligent is low." (Cap. 10)

Nesta parte do livro, é dito que após essa afirmação de Hawking algumas pessoas na plateia fizeram um comentário irônico dizendo que a probabilidade de encontrar inteligência aqui na Terra também é pequena.

Hoje, após o aparecimento dos seguidores de Trump e a pandemia de demência coletiva dos brasileiros seguidores do inominável (bolsonaristas) tivemos reforçada a dúvida a respeito da inteligência da espécie humana, ao menos parte dela.

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UM CONCEITO DE LIBERDADE, A DE NOSSO ESPÍRITO

"Hawking's fierce intellect and sharp sense of humor reminded everyone that 'people need not be limited by physical handicaps as long as they are not disabled in spirit.'" (nas Conclusões)

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É isso!

Mais uma leitura, mais um momento de aprendizagem e ginástica para meu eu, meu cérebro.

O livro de Hourly History sobre a biografia de Stephen Hawking pode ser adquirido sem custos no site da Amazon. Pelo menos foi assim que adquiri.

William


Post Scriptum (08/01/23):

Assisti ao filme sobre a vida de Stephen Hawking - A teoria de tudo (2014), filme baseado em um livro escrito por sua ex-esposa, Jane Hawking. A interpretação do ator Eddie Redmayne é espetacular e lhe rendeu o Oscar de melhor ator! Outra interpretação brilhante foi a de Felicity Jones como Jane Hawking. Gostei do filme, sensível e cuidadoso em relação à vida do casal. Eles tiveram três filhos, viveram casados entre 1965 e 1991. O cientista depois viveu uma década com outra esposa - Elaine (1995 a 2006) - e, após a 2ª separação, ele e Jane voltaram a ter uma boa relação de trabalho e apoio. Hawking faleceu em 2018 e Jane é casada até hoje com um amigo comum da família Hawking. (informações Wikipedia)


Bibliografia:

HISTORY, Hourly. Stephen Hawking - A life from beginning to end. 2019.


sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

44. Razão e sensibilidade - Jane Austen



Refeição Cultural - Cem clássicos

Terminei a leitura do 4º livro do ano. Após ler um autor afegão, um autor russo, um autor indiano, agora li uma autora inglesa, Jane Austen, escritora que viveu entre o final do século XVIII e o início do XIX, falecendo relativamente jovem, aos 41 anos de idade.

Peguei o romance Razão e sensibilidade para ler no início de 2019 e após ler mais da metade do livro parti para outras leituras sem finalizar a obra. O romance é dividido em três partes e eu estava terminando a parte dois. Neste início de ano decidi pegar alguns livros de leitura inacabada e finalizá-los. O livro de Austen foi um deles.

Achei uma anotação interessante nas páginas do livro. Disse que era importante ler Jane Austen dentro de meus objetivos de ler os clássicos, mas que sentia uma necessidade grande de ler Moby Dick, Gulliver e Robinson Crusoé. Não larguei Austen no meio para lê-los em 2019, mas ano passado li dois deles. Agora falta Gulliver.

RAZÃO E SENSIBILIDADE

O romance narra a estória da família Dashwood, mãe e três filhas, tendo como protagonistas Elinor e Marianne. Além da sra. Dashwood e da filha Margaret, as irmãs têm um meio irmão, John Dashwood, do primeiro casamento do pai delas. Quando o pai das meninas morre, a propriedade e as rendas dele ficam para o filho homem e as quatro mulheres têm que deixar a casa da família e mudar o estilo de vida.

Austen, que assina seus romances com o pseudônimo de "By a Lady", descreve como é a vida das mulheres naquela sociedade inglesa. As mulheres são coisas, são mercadorias para arranjos entre famílias para manutenção e ampliação de propriedades e rendas através de casamentos. 

Pela literatura podemos conhecer um pouco das características das sociedades. Foi essa a impressão que tive através deste clássico inglês e das leituras anteriores, quando mergulhei no Afeganistão da 2ª metade do século XX (Khaled Hosseini), na Rússia do final do século XIX (Anton Tchekhov) e na Índia atual (Aravind Adiga).

A Razão

"Elinor, a filha mais velha cujo conselho fora tão acertado, tinha um poder de compreensão e uma firmeza de julgamento que a haviam tornado, apesar de ter apenas dezenove anos, conselheira da mãe e a qualificavam para contrabalançar, em proveito das quatro, a ligeireza de raciocínio da sra. Dashwood, que comumente a levava a cometer imprudências. A srta. Dashwood tinha excelente coração - era afetuosa e de sentimentos fortes, mas sabia como controlá-los. Esta era uma sabedoria que a mãe dela ainda estava por adquirir e que nenhuma de suas duas irmãs se mostrava interessada em aprender." (p. 12)

A Sensibilidade

"As habilidades de Marianne eram, em alguns aspectos, quase iguais às de Elinor. Era sensível e inteligente, mas descontrolada: suas tristezas e suas alegrias eram intensas e sem a menor moderação; generosa, amável e atenciosa, ela era tudo, menos prudente. A semelhança física entre Marianne e a irmã impressionava.

Elinor via com grande consternação o excesso de sensibilidade da irmã, porém a sra. Dashwood valorizava e estimulava esse traço de caráter..." (p. 12/13)

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Curiosidades e costumes

PALITEIRO DE DENTES

"No entanto, a correção dos olhos e a delicadeza do gosto desse senhor situavam-se muito aquém do cavalheirismo. Ele queria adquirir alguns estojos para palitos de dentes com determinados tamanhos, formas e ornamentos...

(...)

Afinal, a decisão foi tomada. O marfim, o ouro, e a madrepérola foram os escolhidos e o cavalheiro informou qual seria o dia máximo até o qual sua existência poderia continuar sem os estojos de palitos de dentes." (p. 210/211)

Perceberam a ironia de Austen?

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MULHER MERCADORIA

"(...) Acredito que ele deve encontrar-se indeciso até o presente momento; a pequena fortuna que você tem como dote deve estar fazendo com que ele hesite; os amigos devem tê-lo advertido a respeito. Mas algumas daquelas simples atenções e encorajamento em que as mulheres são tão hábeis irão fisgá-lo, apesar de ele mesmo." (p. 213/14)

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UMA SOCIEDADE DE GENTE DESQUALIFICADA

"(...) Contudo, não existia uma desgraça particular nisso, uma vez que era esse o caso da maioria dos convidados; quase todos deixavam de ser agradáveis por apresentar uma dessas desqualificações: falta de razão, natural ou adquirida, falta de elegância, falta de espírito e falta de caráter." (p. 223)

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FAMÍLIA, PROPRIEDADE E ESTADO (COMO JÁ DIZIA ENGELS)

"(...) A mãe explicou-lhe suas generosas intenções, se ele se casasse com lady Morton; disse-lhe que, quando casados, se instalarão na propriedade de Norfolk que, livre de impostos territoriais, rende bem umas mil libras por ano; quando o caso tornou-se desesperado, ofereceu-lhe uma pensão de mil e duzentas libras. Em oposição a tanta generosidade, caso ele persistir naquele relacionamento inferior, a penúria irá esperar pelo casal. Suas próprias duas mil libras é tudo que ele terá; a mãe nunca mais quererá vê-lo e, além de não lhe oferecer a menor assistência, caso ele venha a dedicar-se a qualquer profissão, a sra. Ferrars fará o que puder para impedir que ele progrida no trabalho." (p. 257)

Entenderam como vive essa burguesia nojenta, ontem e hoje? De rendas, de propriedades, do Estado e da exploração daqueles que produzem essas riquezas todas.

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BIBLIOTECAS, LEITORAS E LEITURAS

"(...) e Marianne, que sempre tinha o dom de descobrir a biblioteca em qualquer casa que se encontrasse, mesmo que não costumasse ser utilizada pela família, não demorou a estar com um livro nas mãos." (p. 293)

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VOU SEGUIR LENDO OS CLÁSSICOS

Enfim, mais uma lacuna cultural preenchida. Agora já conheço pelo menos uma obra de Jane Austen. Espero conhecer ao menos uns 20 autores e autoras e obras clássicas neste ano de leituras.

William


Bibliografia:

AUSTEN, Jane. Razão e sensibilidade. Tradução: Therezinha Monteiro Deutsch. São Paulo: Editora Nova Cultural, 2002.


segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

42. As aventuras de Robinson Crusoé - Daniel Defoe



Refeição Cultural - Cem clássicos

Concluída a leitura de Robinson Crusoé. Mais um clássico da literatura mundial lido e incluído em meus conhecimentos literários.

Encerro este ano de leituras literárias com algumas realizações importantes em meu percurso de leitor. Agora conheço dois clássicos que por muito tempo me incomodou muito o desconhecimento de ambos: Moby Dick e Robinson Crusoé. Dois livrões enormes!

Uma postagem como essa contém algum tipo de spoiler. Então, caso alguém não queira saber sobre a obra porque vá ler o romance, é melhor não ler a postagem.

ROBINSON CRUSOÉ

Li o clássico de Daniel Defoe entre os dias 11 de novembro e hoje, 27 de dezembro. O livro foi publicado em 1719. Achei que a estória não acabaria nunca mais depois da metade do livro. Aquilo que imaginava a respeito do romance - um náufrago perdido numa ilha deserta - foi até a metade da história do personagem. Agora sei o quanto foram longas as aventuras de Crusoé.

Antes de mais nada, é necessário registrar sempre minha admiração por alguém conseguir escrever um romance e publicá-lo séculos atrás. As dificuldades de sobrevivência do próprio escritor, de confecção de textos literários ou filosóficos, de publicação dos textos e ideias do escritor são coisas quase inimagináveis para um cidadão do mundo no século XXI. E não quero dizer com isso que não existam dificuldades hoje para se produzir e publicar um livro.

O livro é dividido em 36 capítulos. A técnica narrativa é no formato de diários e memórias do personagem principal, Robinson Crusoé, um cidadão inglês dos séculos XVII e XVIII. Ao longo das narrativas, Crusoé fala com o leitor, antecipa que vai contar tal coisa mais pra frente e deixa claro que narra de forma cronológica as aventuras.

Entre os capítulos I e XVIII conhecemos as desventuras de Crusoé, que deixa a casa de seus pais de classe média para se aventurar pelos mares do mundo. Crusoé atribui à Providência tudo que lhe ocorre, tanto de bom quanto de ruim. Naufraga algumas vezes, até que se vê sozinho numa ilha na região do Caribe. 

Depois de muitos anos sozinho, passa a conviver com um nativo local, ao qual lhe dá o nome de Sexta-Feira. Aos poucos vão aparecendo mais personagens em "sua" ilha.

Na outra metade do livro, do capítulo XIX ao XXXVI, Crusoé nos conta sobre suas aventuras ao redor do mundo. O inglês foi para Madagascar, para o Oriente e para a Ásia. Visitou a China, a Rússia, Camboja e vários lugares do mundo até os 72 anos de idade.

A obra toda foi marcada por um ponto de vista religioso, o olhar de um protestante. Uma visão cultural de superioridade de determinada crença religiosa, o cristianismo, em relação às demais formas de mitos e crenças de diversos povos do mundo.

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"Imaginava eu durante a viagem que ao passo que nos avizinhássemos da Europa, encontraríamos povos mais civilizados e regiões mais povoadas. Não sucedeu como eu julgava. Passamos ainda pela região dos tártaros tongues, onde vimos os mesmos vestígios de paganismo grosseiro, em algumas partes talvez mais pronunciado do que o outro que nos causou tanta náusea. Diferenciam-se apenas dos mongóis em ser menos insolentes e perigosos; mas em compensação não cedem a nenhum outro povo bárbaro do mundo na grosseria das maneiras, na idolatria e no número das suas divindades, que é prodigioso..." (p. 507)

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LUGAR DE FALA - Uma característica marcante no romance e no personagem é o lugar de fala deles: Crusoé (e eu diria seu autor) é um homem branco inglês, protestante, oriundo de um país colonizador na época das grandes navegações e descobrimentos de novas terras no mundo por parte dos europeus. 

Sim, é uma obra de ficção, mas quem disse que obras ficcionais não têm lugar de fala, ou do autor, ou da personagem, ou da época, do contexto, do lugar de origem etc. Robinson Crusoé é um romance inglês do início do século XVIII.

O leitor vai lendo o romance e conforme sua formação intelectual e política vai tomando birra do personagem, o náufrago inglês. Robinson Crusoé se acha representante do melhor e mais evoluído povo do mundo. São melhores que tudo e que todos, o mundo para além da Inglaterra é lixo pra ele (eles).

Sexta-Feira, o nativo, nunca foi mais que um mero serviçal, escravo de Crusoé. As aventuras vão ocorrendo e o cara se vê na China falando mal dos chineses e falando que as muralhas da China são uma merda. Depois ele vai falar a mesma coisa do povo russo, tudo gente bárbara pra ele. Durante seus acessos de arrogância e intolerância, destrói ídolos religiosos de outros povos, e a justificativa é que a abstração religiosa do povo dele - a fé cristã - é a verdadeira (!?).

Em termos de construção narrativa e de conteúdo histórico gostei bem mais de Moby Dick, do norte-americano Melville. Ele traz mais curiosidades históricas do que o romance de Defoe. 

Os dois romances são enormes, envolvem aventuras pelos mares do mundo e são bem diretos ao demonstrarem como nós humanos lidávamos (e lidamos) com a natureza (nós, os bárbaros): somos uns destruidores de tudo. Nesse sentido, a leitura vale muito a pena.

As aventuras de Robinson Crusoé não foi uma leitura prazerosa. Mesmo assim, valeu a leitura do romance. Vamos adiante lendo e conhecendo os clássicos.

William


Bibliografia:

DEFOE, Daniel. As aventuras de Robinson Crusoé. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Leitura - Robinson Crusoé, 30 capítulos lidos




Refeição Cultural

"Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé.
Comprida história que não acaba mais.
" ("Infância", C.D.A.)


(Contém spoiler)

Ufa! Ô vida longa essa do Robinson Crusoé! O cara passou vinte e oito anos na ilha onde naufragou. Sua história na ilha foi até a metade do livro. Agora sei que As aventuras de Robinson Crusoé vão muito além dos anos que passou na ilha.

O personagem já é um sexagenário e não perdeu seu espírito irrequieto, que não consegue ficar quieto em lugar nenhum e quando acha que vai parar em algum lugar, algo o chama para partir.

Depois de visitar sua ilha por quase um mês, saiu pelos mares do mundo de novo. Lá na ilha, alguns capítulos de seu diário trataram dos arranjos que fez para deixar todo mundo arrebanhado pela religião cristã, parte "papista" (ou seja, católicos) e parte protestante.

Andando a bordo de navio cujo capitão é um sobrinho, viajou para mares distantes e na ilha de Madagascar a tripulação se pôs em guerra com os nativos e a diferença de tecnologia armamentista a favor dos europeus foi responsável por um massacre local.

Crusoé passou um tempão acusando a tripulação de assassina e com isso foi expulso e deixado em terras distantes. As aventuras seguiram e o inglês se tornou grande comerciante naquela região do mundo.

Ufa! O cara é sexagenário e suas aventuras são de alguém no auge do vigor adulto.

Faltam 6 capítulos. 

Daqui um pouquinho terei preenchido mais uma lacuna cultural e saberei da história de Robinson Crusoé, aquela que o Eu-Lírico de Drummond cita no poema "Infância".

Sigo lendo os clássicos. Sempre lembrando de Italo Calvino: é melhor ler que não ler os clássicos.

William


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond. Nova Reunião: 23 livros de poesia - volume 1. 3ª edição - Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

DEFOE, Daniel. As aventuras de Robinson Crusoé. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

211221 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Ontem li mais um capítulo do clássico de Daniel Defoe - As aventuras de Robinson Crusoé (1719). Gostaria de terminar a leitura do livro ainda este ano, mas não será fácil. Faltam dez capítulos.

RELIGIÕES

O capítulo XXVI tem uma longa abordagem sobre religião, apontando divergências e convergências entre a religião católica e a religião protestante, a católica dos personagens espanhóis e do padre francês que acompanha Crusoé em uma visita a sua ilha e a protestante dos ingleses.

A convergência de ambas seria a fé cristã, como descreve o padre católico que acompanha Crusoé:

"Embora não professemos a mesma religião, estou todavia seguro de que nós, como cristãos que somos, teríamos o maior prazer em ver as pobres escravas do demônio instruídas nos preceitos do cristianismo, na crença do Redentor, na Ressurreição, na vida eterna e no Juízo final, dogmas estes sobre que não há divergências de doutrina." (p. 373)

A divergência seria a própria estrutura de poder e hierarquia da igreja católica frente ao modelo protestante.

"Na minha qualidade de católico, conheço suficientemente a diferença radical que há entre um protestante e um pagão, entre aquele que invoca o nome de Jesus, embora de uma forma que julgo não ser de acordo com a verdadeira fé, e um bárbaro ou selvagem, que desconhece por completo Deus e o seu Cristo, Redentor da humanidade. Se os protestantes não estão dentro dos umbrais da igreja, pelo menos estão mais perto do que aqueles que nunca ouviram falar dela..." (p. 386)

Enquanto lia, refletia e me lembrava de uma vida longa que tive acreditando nessas abstrações da mente e cultura humanas: o meu ambiente de criação foi o católico apostólico romano. Essas criações dos seres humanos são muito poderosas, tenho plena clareza a respeito disso. E tenho plena compreensão da necessidade humana de encontrar pontos de apoio e suporte para significar a vida e suportar as dificuldades existenciais percebidas pelo animal humano.

Cada pessoa e cada sociedade tem sua cultura e seu momento na busca de consciência e compreensão da vida na Terra.

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KARL MARX

Li mais um pouco do primeiro capítulo do livro de José Paulo Netto sobre a vida de Karl Marx. Muito interessante a forma leve com que Netto nos conta a respeito do grande pensador Marx.

O capítulo I. ADEUS À MISÉRIA ALEMÃ (1818-1843) nos conta o ambiente onde a família de Marx viveu.

Na parte que fala de sua adolescência, crescimento e conclusão de sua educação fundamental - "Os primeiros anos: 1818-1835" - gostei muito de um trecho de um de seus trabalhos de conclusão de curso, um texto com o título "Reflexão de um jovem em face da escolha de uma profissão".

"Se [o homem] trabalha apenas para si mesmo, poderá talvez tornar-se um célebre erudito, um grande sábio ou um excelente poeta, mas nunca será um homem completo, verdadeiramente grande [...]. Se escolhermos uma profissão em que possamos trabalhar ao máximo pela humanidade [...] não fruiremos uma alegria pobre, limitada, egoísta, mas a nossa felicidade pertencerá a milhões [de pessoas]. (NETTO, 2020, p. 42)

Que coisa linda! Um jovem de 17 anos!

Demais!

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Na parte "Dois semestres de boêmia: Bonn, 1835-1836" o leitor fica sabendo das loucuras do jovem estudante Marx, loucuras muito semelhantes às dos jovens estudantes de hoje e de sempre.

O rapaz não faltava a um rolê regado a bebida e tabaco. A faculdade tinha os grupos de afinidades dos filhos dos ricos e os dos não ricos, onde se situava Marx. Ele chegou a duelar com sabre com um rapaz e por pouco não deu merda. Feriu-se apenas acima do olho esquerdo.

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Na parte seguinte - "Os anos de Berlim: de 1836-1837 a meados de 1841) - que estou lendo ainda, já soube da paixão entre Marx e Jenny, mais velha que ele 4 anos. Ao ler sobre o amor e a vida que tiveram juntos, me lembrei de Machado de Assis e sua companheira de toda a vida, Carolina Augusta Xavier de Novais. Marx sentiu muito a morte da esposa em 1882. Machado idem, a morte da esposa em 1904 abalou muito o nosso escritor.

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Enfim, paro por aqui minhas reflexões e registros após meus estudos.

Seguimos em busca de conhecimento, em busca de consciência de classe e na expectativa de contribuir de alguma forma para o fim do regime capitalista e pela construção de um mundo melhor para a humanidade e para o planeta Terra.

William


Bibliografia:

DEFOE, Daniel. As aventuras de Robinson Crusoé. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.

NETTO, José Paulo. Karl Marx: uma biografia. 1ª ed. - São Paulo: Boitempo, 2020.

domingo, 19 de dezembro de 2021

Leitura - Robinson Crusoé (VIII) - Daniel Defoe



Refeição Cultural

(contém spoiler)

Avancei na leitura de Robinson Crusoé desde a última postagem no blog (ler aqui). Daquele dia até hoje li dos capítulos XIX ao XXV. A história teve mudanças importantes de onde havia parado na semana passada. Quando terminou o capítulo XVIII, Crusoé havia ajudado o capitão de um navio inglês a se livrar de rebeldes que se insubordinaram e lhe tomaram o navio.

A história de Crusoé toma outro rumo. Após 28 anos, 2 meses e 19 dias na ilha, o náufrago inglês vai embora, levando consigo seu escravo e serviçal Sexta-Feira. Como eu não conhecia o clássico, me surpreendi pelo fato de o livro não acabar aí. Imaginem vocês que o livrão enorme está na metade...

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Nos capítulos XIX e XX Crusoé vai para a Inglaterra, descobre que quase todos os seus parentes já faleceram. Vai a Lisboa resolver questões relativas a suas propriedades e bens no Brasil. Volta para a Inglaterra por via terrestre a maior parte do tempo e enfrenta grandes alcateias de lobos nas montanhas geladas. Casa-se e constitui família, tendo três filhos.

A característica inglesa do homem branco de tratar como coisas outros povos e mulheres segue impecável:

"(...) e eu resolvi aumentar a minha criadagem com um marinheiro inglês para me servir de lacaio durante a jornada, atendendo a que Sexta-Feira não era suficiente para o meu serviço, em países de que apenas tinha uma leve ideia." (p. 260)

Com a morte da esposa, decide viajar novamente e visitar sua ilha. Crusoé estava com 62 anos em 1694.

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Nos capítulos XXI e XXII Crusoé volta aos mares. Salva tripulação de navio avariado e aporta em sua ilha.

TÉCNICA NARRATIVA:

"Creio que vale a pena narrar a história da sua chegada e permanência na ilha, tão cortada foi de incidentes de todo gênero, os quais têm ligações com outros fatos já por mim relatados. Por isso vou descrevê-la aqui com as particularidades que julgar mais interessantes, consoante me ocorrerem à memória, e em narração seguida, para não perturbar a cabeça dos leitores com os 'disse eu, replicou ele, perguntei eu, respondeu ele', que servem somente para tornar a dicção fastidiosa." (p. 304)

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Nos capítulos XXIII, XXIV e XXV, soubemos dos eventos ocorridos na ilha durante a ausência de Robinson Crusoé. Conhecemos os desentendimentos entre seus "súditos" espanhóis e ingleses, os confrontos com tribos canibais que invadiram a ilha algumas vezes, o povoamento da "colônia" etc.

Em uma das aventuras na ilha, três dos ingleses que só arrumavam confusão com os demais, foram embora e depois voltaram com nativos escravizados, tendo entre eles 5 índias. Elas foram divididas entre os ingleses. O tratamento delas foi o de sempre: coisas. 

O capítulo XXV termina com a vitória dos colonos após grande batalha com centenas de canibais. O narrador nos conta sobre a colonização que vai se fazendo na ilha por conta das mulheres índias que passaram a conviver com os colonos ingleses.

"A mais velha dessas crianças tinha seis anos de idade, na época da minha visita à ilha; e havia sete anos que os ingleses tinham para lá levado as mulheres. Foram todas fecundas, umas mais que as outras; a que coube ao segundo-cozinheiro estava grávida pela sexta vez. Eram meigas, modestas e laboriosas, sempre prontas a auxiliar as companheiras, e de obediência rara aos seus senhores, aos quais só impropriamente posso chamar maridos. Faltava-lhes apenas a educação no cristianismo e o casamento legítimo; o que afinal obtiveram, por minha intervenção, ou pelo menos como consequência da visita aos meus antigos domínios." (p. 357)

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COMENTÁRIO FINAL

Esse final de capítulo na ficção de Daniel Defoe foi realidade ao longo de séculos de invasão e colonização nas Américas e nas demais terras que foram sendo alcançadas pelos europeus.

É isso. Aos poucos vou avançando para o final da história de Robinson Crusoé, que não conhecia, apesar de seus 300 anos de existência na cultura ocidental.

William


Bibliografia:

DEFOE, Daniel. As aventuras de Robinson Crusoé. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.


quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

151221 -- Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 15 de dezembro do ano de 2021.


Está acabando mais um ano de acordo com os calendários de referência. Na verdade, eu diria que não vai acabar nada no dia 31 de dezembro e nada novo vai começar no dia seguinte. Vivemos no Brasil o mesmo ano de 2016, desde que mais um golpe de Estado foi efetivado contra o povo brasileiro, o povo pobre, o povo da classe trabalhadora, o povo preto pardo ou descendente de escravos ou povos originários de nossas terras. Seguimos e me parece que seguiremos em 2016 por um longo tempo ainda, maior do que os dias corridos do calendário de 2022. Eu não compartilho do otimismo esperançoso de meus pares da classe que veem mudanças no Brasil porque o homem Lula está disparado nas pesquisas eleitorais neste momento da história. Acho de uma inocência quase infantil acharem que os golpistas nos deixarão retomar por conciliação e sem violência o caminho das lentas mudanças que vínhamos fazendo em favor do povo antes do golpe. Meus pares ainda acreditam em conciliação de classes, entre nós e o 1%. Ou não aprenderam nada com a história recente ou preferem o conforto do autoengano. O tempo é um marco. As pessoas preferem olhar o tempo de suas vidas ao invés do tempo histórico de nossa classe. (Se olharmos qualquer notícia sobre a política sob o governo Bolsonaro, veremos que cada milímetro de espaço das instituições do Estado nacional está sendo ocupado pela canalha toda da mesma forma que fizeram os regimes de Hitler, Mussolini, Stalin, Salazar, Franco etc. Não vamos nos livrar do regime bolsonarista dos golpistas retirando Bolsonaro do poder formal)

Estou lendo um livro clássico que estava nos meus objetivos de leitura: As aventuras de Robinson Crusoé (1719), do inglês Daniel Defoe. Que dureza! Não estou gostando do romance, e não vou deixá-lo pela metade, vou ler até o fim. Mas vai ser foda acabar a leitura. Que personagem símbolo dessa merda toda que o mundo humano está vivendo nesse momento da história! Trezentos anos depois da publicação do romance de Defoe, nada mudou! A mentalidade do homem branco do Norte é a mentalidade que vigora destruindo o mundo todo. Crusoé é a representação do imperialismo, do racismo, da xenofobia, o personagem é a cara dos brancos que dominaram o mundo nos últimos séculos e que neste momento não se importam em acabar com a vida e o planeta. Eu não sei por que tomei tanta birra do personagem arrogante, sendo que conheço outros do mesmo tipo, personagens são personagens, ficção é ficção, eu sei disso. Brás Cubas, por exemplo, nos dá muito nojo porque ele é a representação da burguesia tacanha do país, mas sei que o romance é uma crítica e a técnica machadiana é a ironia feroz. Não acho que esse seja o caso do romance e do personagem do inglês Daniel Defoe. Mas vou até o fim na leitura. Estou me arrastando pelas páginas. Cada página me dá mais cansaço, e ainda faltam 200 páginas... 

Registro feito. Muitas coisas aconteceram e seguem acontecendo na vida pessoal. Mas tenho que parar de escrever a respeito disso. Isso não deveria interessar a ninguém. (seria uma contradição escrever diários sem falar de coisas pessoais? É. Mas o animal humano é contradição pura)

William


sábado, 11 de dezembro de 2021

Leitura - Robinson Crusoé (VII) - Daniel Defoe



Refeição Cultural

Neste sábado resolvi dar uma focada na leitura de Robinson Crusoé (1719), de Daniel Defoe. Completando um mês de leitura, consegui ler vários capítulos e cheguei à metade do livro, capítulo XVIII.

O romance teve um andamento até o capítulo XIII e agora a narrativa deu uma guinada. Acabaram-se os dias de solidão. Foram 24 anos solitários na ilha, Ilha do Desespero, como Crusoé a chamou.

No capítulo XIV, o náufrago inglês sonha acontecimentos que depois ocorreriam na vida real. Lembrando que Crusoé avistou pegadas na praia alguns capítulos antes. Ele nunca mais teve sossego desde que descobriu que canibais aportavam à ilha para rituais de canibalismo. Sonhou um dia que uma das vítimas fugia dos canibais e ele dava guarida a ela. 

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CRUSOÉ, UM IMPERIALISTA, CLARO! 

O capítulo marca a bronca que passei a ter do desgraçado Robinson Crusoé. É verdade! Como leitores, sabemos que as obras literárias carregam as marcas de seu tempo, local, contexto, ideologias etc. O livro é do início do século XVIII, escrito por um inglês, período das navegações e dos impérios colonialistas. Difícil escaparmos das marcas e influências das ideias desses séculos.

O náufrago Robinson Crusoé está na situação que está porque mesmo estando bem estabelecido no Brasil como latifundiário que plantava cana-de-açúcar e tabaco, com mão-de-obra escrava, resolveu ir à Guiné buscar mais escravos e se ferrou na viagem. Então já sabemos que não se trata de um santo.

Mas o personagem carrega de forma excepcional aquele ar arrogante dos homens de seu tempo, brancos, imperialistas, que se acham superiores aos demais povos do mundo que iam descobrindo com as navegações de conquista de novas terras. Defoe é bom em transpor para Crusoé os valores ingleses.

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UM ESCRAVO, NÃO UM AMIGO

Após 24 anos de solidão na ilha, o náufrago inglês não queria uma companhia humana, um amigo, alguém para conviver de igual para igual. O desgraçado queria um escravo, um serviçal, alguém para servir a ele. E é isso que ele faz ao salvar um selvagem de ser comido pelos inimigos. Robinson Crusoé tem a partir daquele momento um serviçal, um escravo, que nomeia de Sexta-Feira.

"Sonhei que uma manhã, saindo do castelo como de costume, vi duas canoas perto da praia, das quais desembarcaram onze selvagens com um prisioneiro destinado a sua refeição canibalesca. No momento em que o iam matar, o mísero fugiu (...) ajudei-o a subir pela escada, trouxe-o para a minha habitação, e ficou sendo meu escravo. Fiquei satisfeitíssimo com este incidente, persuadido de ter adquirido um homem capaz de me servir de piloto na empresa projetada, e de dar-me os conselhos necessários para evitar todo o gênero de perigos." (p. 185)

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O SENHOR E O ESCRAVO

"A cútis não era negra, sim muito trigueira, mas nada parecida com a desagradável cor pardacenta dos habitantes do Brasil e da Virgínia..." (p. 190)

Essa foi a descrição que Crusoé fez em seu diário do homem jovem de cerca de 25 anos que fugiu dos canibais e foi salvo por ele.

"Uma das primeiras coisas que lhe ensinei foi o nome que entendi dever dar-lhe: o de Sexta-Feira, em memória do dia da semana em que o tinha salvo. Aprendeu também a chamar-me meu senhor e a dizer a propósito sim e não." (p. 190)

Sigamos adiante. Se trata de um romance, um livro clássico com trezentos anos de história.

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O DEUS DOS INGLESES É MELHOR QUE OS DEUSES DOS OUTROS

No capítulo seguinte, o XV, Crusoé ensina inglês para o jovem, ensina a sua religião e descobre que os povos locais também têm a religião deles, mas o inglês explica a Sexta-Feira que o Deus dele é melhor que o dos indígenas locais: Benamuckee.

"Aproveitei a oportunidade para o instruir nas noções do verdadeiro Deus." (p. 199)

Conversando com Sexta-Feira, consegue mais informações sobre a localização em que está, perto da desembocadura do rio Orinoco, região do Caribe.

Na página 202, sabemos pelo personagem que se passaram 3 anos amenos de convivência entre ele e Sexta-Feira. São 27 anos na ilha, os últimos 3 na companhia do seu "serviçal". 

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No capítulo XVI mais aventuras acontecessem. Vão chegando canibais e vão aumentando os "vassalos" salvos pelo "monarca" Crusoé. Agora faz parte do grupo o pai de Sexta-Feira e um espanhol naufragado.

"Eis a minha ilha povoada, e eu rico em vassalos! Era caso para ter vaidade, considerando-me um minúsculo monarca, visto que toda ela era domínio meu por títulos incontestáveis. Os súditos eram-me fiéis e submissos; eu arrogava-me como árbitro supremo e legislador despótico. Salvara-lhes a vida, e em compensação estavam prontos a arriscar a sua no meu serviço. O mais singular é que havia nos meus estados três religiões diferentes: Sexta-Feira era protestante, o pai, pagão e canibal, e o espanhol, católico romano. Eu, como príncipe sábio e justo, decretava a liberdade de consciência em todo o meu reino." (p. 219)

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Nos capítulos XVII e XVIII novas aventuras acontecessem. Um navio inglês ancora na ilha, e após diversas peripécias, inclusive tendo como herói e salvador Crusoé novamente, ele passa a ter agora um navio à sua disposição e uma tripulação. 

Agora veremos o que acontecerá a seguir...

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COMENTÁRIO FINAL

Século XVIII. Relações humanas utilitaristas, de interesses. Senhores e serviçais. 

Século XXI. Relações humanas utilitaristas mais que nunca, de interesses... senhores e serviçais.

Não mudou muita coisa em 300 anos.

William


Bibliografia:

DEFOE, Daniel. As aventuras de Robinson Crusoé. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.