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segunda-feira, 16 de junho de 2025

Bloomsday



Refeição Cultural 

O dia 16 de junho é uma efeméride que homenageia o clássico Ulisses, de James Joyce. É uma data comemorativa tanto para a Irlanda quanto para os amantes da literatura. 

O livro retrata um dia na vida do personagem judeu Leopold Bloom andando pelas ruas da Dublin do início do século XX.

A obra de 900 páginas é uma epopeia literária para qualquer leitor(a). Imagino não ser Ulisses um dos clássicos mais lidos do mundo. 

Sou um privilegiado neste caso, pois se poucas pessoas leram o romance uma vez na vida, eu li a obra duas vezes, aos trinta e aos cinquenta anos. 

Quando venci o desafio da primeira leitura, confesso que me senti como o super-homem, porque para pegar o ritmo lia e voltava dezenas de páginas, até que peguei o jeito e fui até o fim, ao antológico fluxo de pensamento de Molly Bloom.

Ler Ulisses foi uma realização literária em minha modesta vida de leitor. 

Viva o Bloomsday!

William Mendes 

16/06/25 (23h02)

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

A alucinação de Ulisses - Joseph Strick



Refeição Cultural

O filme de Joseph Strick - A alucinação de Ulisses (1967) é uma adaptação para o cinema do clássico Ulysses (1922), de James Joyce. Gostei demais do filme por ver na tela o resultado do esforço de Strick em ser fiel à obra.

Li o livro de Joyce pela primeira vez em 2002, numa tradução de Antônio Houaiss. Foi uma façanha e tanto para mim à época. Reli o clássico neste ano pandêmico, agora na versão traduzida por Caetano Galindo. Minha compreensão da obra foi bem melhor desta vez, talvez por ser duas décadas mais vivido que antes.

Ao assistir ao filme, eu não esperava uma adaptação tão esforçada em ser fiel ao livro. Em geral, diretores e roteiristas fazem versões bem diferentes do texto original.

Gostei das interpretações de Milo O'Shea como Leopold Bloom, Barbara Jefford como Molly Bloom e Maurice Roeves como Stephen Dedalus.

O filme é rodado em preto e branco. As imagens e cenários nos transportam para o cenário da Dublin de Bloom e Joyce nos anos vinte. Me identifiquei com o filme desde o primeiro minuto ao ver a cena da torre que abre a estória.

Depois vemos diversas cenas muito legais. Para quem leu a obra a identificação é imediata. O enterro de Dignam, as cenas na praia - tanto do monólogo de Dedalus no início, quanto de Bloom e a menina "coxa" no final do dia -, "coxa" como diz o personagem e nosso Brás Cubas (a respeito de Eugênia).

E o fechamento com o monólogo de Molly Bloom: é demais!

Adorei o filme! Filme para rever!

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RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM (1977)

A adaptação para o cinema do romance sobre o jovem Stephen Dedalus, alter ego de Joyce, livro lançado em 1916, anterior ao romance Ulysses, também foi bem fiel à obra. Gostei.

Rodado na Irlanda, o filme nos leva ao cenário descrito por Joyce. 

A cena da palmatória no jovem Dedalus nos revolta, uma violência absurda enquanto regra educacional e mais absurda ainda por ser aplicada de forma injusta ao garoto por causa de seus óculos quebrados, razão para não fazer as lições e com autorização do professor em sala de aula. Mesmo assim, foi punido pelo carrasco...

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Praticamente completei meu percurso com James Joyce. Não pretendo ler Finnegans Wake. Tenho muita coisa na frente para ler e acho que não volto ao escritor para essa tentativa de leitura, até porque sei que a obra é maluca demais para essa fase que estou de leituras na vida. 

Os filmes foram verdadeiros achados (em casa!) porque os comprei faz muito tempo e nem me lembrava direito que tinha filmes baseados na obra de Joyce.

Enfim, seguimos lendo e vendo adaptações para o cinema e televisão de clássicos literários.

William


1. Postagem final sobre a leitura de Ulysses, na tradução de Galindo. Clique aqui.

2. Postagem sobre a leitura de Retrato do artista quando jovem. Clique aqui.

3. Postagem sobre a leitura do Ulisses, na tradução de Houaiss. Clique aqui.


quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Ulysses - Penélope (A Cama)



Refeição Cultural

"(...) aí ele não ia acreditar no outro dia que a gente não fez alguma coisa marido tudo bem mas amante não dá pra enganar depois de eu dizer pra ele que a gente não faz mais nada claro que ele não acreditou..." (p. 1052)


Quinta-feira, 30 de setembro. Segundo ano da pandemia mundial de Covid. 

Terminei a releitura de Ulysses (1922), do escritor irlandês James Joyce. Essa experiência foi feita numa edição publicada em 2012, traduzida por Caetano W. Galindo. Foi presente do amigo Sérgio Gouveia.

A primeira vez que li este clássico da literatura mundial foi em 2001. Desta vez, a leitura foi bem melhor, aproveitei mais cada capítulo do livro. Mas foi cansativo, confesso. Foram 5 meses! Comecei a ler a obra dia 1º de maio, dia dos obreiros (rsrs). Não terminei a leitura pedindo mais. Terminei com um sentimento de missão cumprida.

PENÉLOPE (A CAMA) - CAPÍTULO 18

O último capítulo é demais, é um feito na história da literatura de todos os tempos. Setenta páginas em fluxo de pensamento, sem pontuação, a transcrição de uma pessoa pensando livremente madrugada afora, Marion Bloom, Molly. 

Por ser um monólogo interior, não tem censuras. E então lemos as coisas mais surpreendentes, escandalosas, livres que poderíamos imaginar em páginas de um livro de literatura.

Ler hoje é surpreendente, então imagino ler os pensamentos de Molly em 1922. Não à toa, há registros da época de queima de volumes do livro em alguns lugares do mundo.

"(...) ia ser muito melhor pro mundo ser governado pelas mulheres do mundo você não ia ver as mulheres saírem se matando e chacinando quando é que a gente vê uma mulher rolando por aí de bêbada que nem eles fazem ou jogando a última moedinha que têm e perdendo nos cavalos sim porque uma mulher não importa o que ela faça ela sabe quando parar claro que eles nem iam estar no mundo se não fosse a gente eles não sabem o que é ser mulher e ser mãe e como é que eles iam saber onde é que eles iam estar todos se não tivessem todos eles uma mãe pra cuidar deles..." (p. 1099)

Além de ser uma personagem livre em todos os seus atos e pensamentos, Molly pensa nas grandes questões de gênero que já se discutiam e que seriam bandeiras importantes nas lutas das causas das mulheres e dos movimentos libertários e progressistas.

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COMENTÁRIO FINAL

Essa releitura foi muito interessante. Por mais que tenhamos alguma lembrança de uma leitura feita duas décadas antes, a leitura de Ulysses foi praticamente uma leitura nova. O leitor de 52 anos é absolutamente outro leitor que aquele de 32 anos.

A tradução de Caetano W. Galindo também é muito diferente da tradução do Antônio Houaiss, edição que li na primeira vez. São diferentes, não me cabe dizer que uma é melhor que a outra.

Outro salto de qualidade nesta leitura foi aproveitar a oportunidade para ler em versos a obra referência do Ulysses de Joyce, a Odisseia de Homero. Li a tradução ("transcriação" segundo Campos) do maranhense Manuel Odorico Mendes, numa edição especial do professor Antonio Medina.

Também reli contos de Dublinenses (1914) e finalmente li Retrato do artista quando jovem (1916), a obra que introduz o personagem Stephen Dedalus, ainda jovem. Muitos críticos consideram tanto Dedalus quanto Bloom alter egos de Joyce.

SEGUIMOS LENDO OS CLÁSSICOS

Enfim, mais um clássico lido durante esta pandemia mundial de Covid. Li alguns clássicos exigentes neste ano e meio: ao Ulysses, de Joyce, somam-se: Decamerão (1353), de Boccaccio; Moby Dick (1851), de Herman Melville; O processo (1925), de Franz Kafka; e Madame Bovary (1856), de Gustave Flaubert.

Com o mundo como está, afirmo e reafirmo com muita convicção o pensamento de Italo Calvino: é melhor ler do que não ler os clássicos.

William

Um leitor


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.


sábado, 25 de setembro de 2021

250921 - Diário e reflexões


Vivi muitas histórias aqui na Letras-FFLCH.


Refeição Cultural

Sábado, 25 de setembro.

Que tenho a registrar nesta página de blog?

LITERATURA

Estou terminando a releitura do clássico Ulysses (1922), de James Joyce. Li a obra pela primeira vez duas décadas atrás, na tradução de Antônio Houaiss. A leitura foi difícil. Comecei diversas vezes e recomecei a leitura por não entender nada. Desta vez, estou relendo uma edição traduzida por Caetano W. Galindo, presente do amigo Sérgio Gouveia. Cheguei ao último capítulo, o monólogo interior de Molly Bloom. Agora meu entendimento da obra foi bem melhor. 

De novidade, li também o livro sobre o personagem Stephen Dedalus, Retrato do artista quando jovem (1916), publicado antes de Ulysses. Quando terminar a leitura, vou ver os dois filmes que tenho em casa e considero que minha missão com James Joyce estará concluída. Não pretendo ler Finnegans Wake (1939). O livro de contos de estreia do autor irlandês - Dublinenses (1914) -, já li várias vezes alguns dos contos.

Vi hoje uma entrevista muito esclarecedora com o professor Caetano Galindo, tradutor da edição que estou lendo. Ele fala sobre Joyce e Shakespeare. Muito interessante!

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LETRAS NA FFLCH-USP

Após vinte anos, vai chegando ao fim a minha relação formal com a Universidade de São Paulo. Entrei na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas no vestibular de 2000 e comecei o curso de bacharel em Português e Espanhol em 2001. Quando entrei minha vida era uma, meu projeto era ser professor, mas "no meio do caminho tinha uma pedra..." e de repente as veredas do grande sertão vida me levaram para outros destinos. Virei dirigente sindical no ano seguinte e a prioridade em minha agenda passou a ser as lutas dos trabalhadores. 

Após uma década tentando fazer as matérias obrigatórias, achei que havia concluído os créditos necessários ao bacharelado nas duas disciplinas. Fui trabalhar em Brasília. Voltei para São Paulo em 2018 e fui pedir minha colação de grau e meu diploma. Descobri que faltava fazer uma matéria obrigatória na grade curricular de minha época e precisei retornar ao curso e fazer mais dois anos de matérias pela grade atual e, quase quarenta créditos depois, concluí o percurso e me parece que agora chegou a hora de colar grau e pegar o diploma de bacharel para guardar em casa.

Confesso que ao perceber nesta semana o fim de meu cadastro nos sistemas da USP fiquei meio deprimido, senti um vazio dentro de mim, algo estranho. Acho que sempre senti um amor profundo pela Universidade, queria ser professor lá. A vida caminhou diferente. É isso. Vou sentir falta de ser "da USP".

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TODO CAMBIA (TUDO MUDA)

Andei refletindo a respeito de mudanças. Como nos lembra Mercedes Sosa: "Todo cambia". As veredas de minha vida me exigiram muitas mudanças e isso deve ter influenciado quem sou e o que sou porque somos hoje o resultado de todo o percurso que já fizemos.

Mudei de São Paulo aos 10 anos. Depois mudei de Minas Gerais aos 17 anos. Até os 30 anos de idade, precisei mudar do local onde vivia quase todo ano (contei na memória 10 mudanças!). Isso me fez sofrer muito. Morei em cada lugar... 

Ter que sair de um lugar logo que se adapta a ele é foda! E alguns lugares eram terríveis, tanto que tenho uma relação ruim com baratas por isso. Dia desses, ouvi a excelente entrevista do Mano Brown com Lula. Mano Brown, eu sei o que é morar num quintal com um monte de casas e um banheirinho em comum... é foda!

A mudança para Brasília por 4 anos foi uma situação difícil para minha família. As pessoas acabam tendo que viver a vida dos outros e as consequências vêm. A volta para São Paulo foi difícil também por causa do contexto no qual as coisas se deram. Três anos depois, ainda não consegui me ver livre dessa mudança inacabada. Juntou um monte de coisas. Para dar algum conforto aos que sofreram por minha causa, acabei deixando coisas inacabadas. 

Para tornar as coisas mais difíceis, vieram as mudanças radicais no nosso mundo, o golpe de Estado, a ascensão do Mal, a destruição de tudo.

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Fim das reflexões. Preciso providenciar a papelada pedida pela USP para concluir essa relação de amor que tive com a nossa querida FFLCH. Saio da Universidade aos 52 anos de idade, mas acho que a Universidade nunca vai sair de mim. Tenho muito amor pela USP, pela FFLCH, pelas Letras e pela educação.

William


Ulysses - Ítaca (A Casa), parte II



Refeição Cultural

"O que continha a primeira gaveta destrancada?

(...) dois preservativos de borracha parcialmente desenrolados com espaço para emissão, adquiridos pelo correio na Caixa 32, C.P., Charing Cross, London, W.C. (...) 2 cartões fotográficos eróticos que mostravam: a) coito bucal entre señorita nua (vista de costas, posição superior) e torero nu (visto de frente, posição inferior): b) violação anal por figura religiosa do sexo masculino (integralmente vestido, olhar abjetado) de figura religiosa do sexo feminino (parcialmente vestida, olhos diretos), adquiridos por correio na Caixa 32, C.P., Charing Cross, Londres, W.C." (p. 1016)


Vencidas as cem páginas do capítulo 17 de Ulysses, de James Joyce. Agora faltam os fluxos de consciência de Molly Bloom, naquela madrugada de 17 de junho de 1904.

Imaginem como foi para os leitores e comunidades a recepção de Ulysses na Irlanda, na Inglaterra e nas demais partes do mundo no ano de 1922 ao lermos acima essa pequena amostra do conteúdo da obra. Interessante, não é?

Após o fim da leitura do capítulo "Ítaca" nesta manhã de sábado, vi na internet uma entrevista muito esclarecedora do professor Caetano W. Galindo, tradutor desta versão que estou lendo. Ele fala sobre James Joyce e William Shakespeare e as explicações de Galindo são imperdíveis para os amantes de literatura e dos dois autores comentados.

Apesar do cansaço que me deu neste momento de proximidade do fim da leitura, uma obra como essa vale a pena ler, vale sim. Também acho interessante e válido buscar informações a respeito da repercussão da obra ao longo do tempo. As grandes obras literárias se incorporam às culturas das sociedades humanas.

Ulysses tem uma história de leitura com a comunidade internacional após 1922 assim como O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha a tem após 1605. Idem para Moby Dick após 1851, assim como Decameron após 1353. Para mim, leitor, é um privilégio ter tido a oportunidade na vida de ler tais clássicos.

Joyce concentrou em Ulysses muitas informações do mundo, da Irlanda, da literatura de Shakespeare e da literatura clássica; e mais: religião, política, imperialismo, capitalismo, linguagem, psicologia e comportamento humano, sociedade.

UM DIA NA VIDA DE UM TRABALHADOR


A contabilidade de Bloom nos mostra um pouco a respeito do personagem e do próprio cotidiano dos cidadãos dublinenses. O que comem, como se comportam, como funciona a sociedade em que vivem.

O dia do publicitário Bloom teve contato com a morte no enterro do Dignam, e teve contato com a vida, quando passou pela maternidade do hospital; conhecemos as preferências alimentares dele; vimos que ele se banha em locais públicos; e percebe-se que o dinheiro que tem é contado, os trabalhadores vivem no limite do ter e não ter dinheiro. Vimos isso no começo da obra, quando Stephen Dedalus e amigos contaram as moedas no bolso para saber como passariam o dia.

Outro momento interessante do capítulo foi quando vimos a descrição dos livros constantes na estante de Bloom, entre eles livros de Shakespeare, Spinosa e A. Conan Doyle (p. 998). Bloom poderia ser considerado um "homem cultivado" como diz Eliade, pois tem livros de Astronomia, Geometria, Geografia, História, Psicologia, Filosofia etc.

O capítulo tem de tudo. Do nobre e sagrado ao profano e tosco. Por exemplo: Enquanto mijam na grama, Bloom e Dedalus observam uma estrela cadente (p. 992).

Enfim, agora vamos para o fechamento com Molly Bloom.

William


Post Scriptum: a postagem anterior pode ser vista aqui.


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.


quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Preguiça



Refeição Cultural

Quinta-feira, 23 de setembro, dias de Primavera do 2º ano da pandemia.


Dizem que a Preguiça é um dos sete pecados capitais. Sei lá se essa merda é pecado, sei lá. Antigamente eu me vangloriava em dizer que esse era um dos pecados capitais que menos me afetava. Vai saber se era verdade! Tudo na vida humana são construções de narrativas. A vida é um palco e as pessoas são personas.

É provável que a Preguiça seja hoje uma das principais aliadas da Ira. Essas duas pragas foram muito bem usadas pelo capitalismo e pelos donos do capital e de todos os meios de produção nas sociedades modernas para manipular as massas humanas. Ira e Preguiça. Só de pensar a respeito dá uma preguiça desgraçada. A vontade é de deixar quieto e partir para alguma coisa mais fácil do que pensar.

A Preguiça é grande responsável pela pós-verdade, pelo mundo hoje ser um faz de conta onde a mentira, a fake news, se tornou a verdade do mundo paralelo. Se as pessoas não fossem preguiçosas, as de boa-fé, elas não seriam manipuladas e feitas de idiotas, zumbis ambulantes, semoventes dos donos dos pastos humanos.

É fácil inventar mentiras porque os inventores e manipuladores sabem que as pessoas não vão averiguar nada, só vão receber a mentira e gostar do que a mentira afirma, e assim vão comprar a ideia e repassar a fake news adiante. O animal humano, a espécie homo sapiens, faz isso desde que é gente. O que mudou com o passar do tempo humano na terra foi a tecnologia que aumentou a capacidade de ampliar o alcance da mentira. 

E assim chegamos aonde chegamos. 

Já deu preguiça de continuar desenvolvendo em texto tudo o que eu gostaria.

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Preguiça? Razão? Talvez eu tenha tosado a cabeleira por preguiça, um sentimento inconfesso. A razão me fez achar que se gasta um tempo enorme para tratar cabelos grandes, e tem a falta de água, e os apagões que vêm por aí, e longas esperas pra dormir quando se lava o cabelo. Sei não, pode ser preguiça mesmo.

Preguiça? Cansaço? Cheguei na página 1000 do Ulysses. Mas tá foda pra acabar a leitura do livro. Estou indo de umas 20 em 20 páginas agora. Já cheguei a ler 200 páginas em dois dias. Faltam umas 30 para chegar ao final do penúltimo capítulo e entrar no capítulo final do monólogo interior de Molly Bloom. Ai... já não vejo a hora de acabar a releitura. Já tive bons e maus momentos na leitura. 

Preguiça? Desânimo? Nunca tive preguiça de fazer exercícios físicos. A vida toda corri, fiz musculação, fiz outras atividades esportivas. Agora preciso fazer de verdade. Se não correr, morro. Sangue engrossa, pressão explode, colesterol e outras merdas me matam. Mas não tem sido fácil sair para os trotes. Correr e pedalar... Comecei pedalando mais forte. Agora o eu interior deixa a marcha ficar na levinha só para curtir o vento e o sol. Musculação então... 1000 vezes penso antes de ter coragem de pegar as anilhas em casa pra uma simples rosca direta. Flexões... antes da pandemia fazia umas dezenas... agora... Seria efeito da idade? (não, faixas dos quarenta, cinquenta e sessenta são jovens na atualidade. Não é idade). Seria a situação política terminal do Brasil? (não. Isso não é desculpa. Não é).

Chega. Já despreguicei demais.

William


quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Ulysses - Ítaca (A Casa)



Refeição Cultural

E então começamos o penúltimo capítulo do livro Ulysses, de James Joyce, a epopeia de Leopold Bloom pela Dublin de um dia comum de junho de 1904, uma quinta-feira, dia 16. De Bloom e de Stephen Dedalus. E também, de Molly Bloom, que aparece mais na primeira parte da obra e que fecha a epopeia de Bloom num monólogo interior surpreendente (isso não é um spoiler, seria se eu dissesse a vocês o que ela pensa durante 70 páginas rsrs).

Já estamos na madrugada de 17 de junho. Bloom está em casa na companhia de Stephen. Nessa parte, um narrador descreve as cenas para nós, leitores. Muito interessante! O narrador faz perguntas e ele mesmo as responde.

"Que cursos paralelos seguiram Bloom e Stephen ao voltar?" (p. 942)

"Sobre o que deliberou o duunvirato durante seu itinerário? (p. 943)

Bloom esqueceu a chave de casa no bolso da outra calça... e o narrador nos conta isso. É muito engraçado! Bloom teria ficado puto da vida porque ele pensou duas vezes que não podia esquecer a chave e esqueceu a chave. Acabou pulando o muro para entrar.

E as perguntas do narrador e as respectivas respostas seguem:

"O que Bloom viu no fogão?" (p. 949)

" O que Bloom fez no fogão?" (Bloom pegou a chaleira e foi até a torneira para pegar água. Na pergunta e resposta seguinte por parte do narrador, ficamos sabendo que o período é de estiagem e que há racionamento de água)

"E fluiu?

Sim. Do Reservatório Roundwood (...) ainda que devido à prolongada estiagem de verão e a um suprimento diário de 47,3 milhões de litros a água houvesse caído abaixo da linha do vertedouro de transbordamento razão pela qual o responsável pela municipalidade e engenheiro de saneamento, senhor Spencer Harty, C. E., sob instruções do comitê de saneamento, proibira o uso de água do município para propósitos outros que não os de consumo (vislumbrando a possibilidade de se ter de recorrer à água impotável dos canais Grand e Royal como em 1893)..." (p. 949)

COMENTÁRIO: um século atrás já era sabido por autoridades públicas de cidades e países do mundo que é necessário regrar o uso de água em períodos de estiagem. MENOS NO BRASIL DE TEMER E BOLSONARO! Não teremos água e luz porque não há planejamento algum focado na população do país. Enquanto as águas secam nos reservatórios, vemos o prédio ao lado gastando o resto da água potável lavando o chão e o parquinho da área comum...

AS PROPRIEDADES DA ÁGUA

Uma das partes mais legais até agora no capítulo, é a descrição das propriedades da água, nas páginas 950 e 951 da edição que estou lendo. Como no Ulysses tudo é muito grande, não dá para colocar o excerto aqui, só citar as páginas.

Aliás, o capítulo no qual estou tem cem páginas, é um livro!

Vejam só o começo:

"O que na água Bloom, aguamante, extrator de água, aguatransportante, retornando ao fogão, admirava?

Sua universalidade: sua equanimidade democrática e constância e sua natureza ao buscar seu próprio nível (...) sua preponderância de 3 para 1 sobre a terra firme do globo (...) sua violência em maremotos, trombasdágua, poços artesianos, erupções, torrentes, redemoinhos, inundações, enchentes, tsunamis, divisores de água, diques, gêiseres, cataratas, turbilhões, maelstroms, alagamentos, dilúvios, clataclismos..." (p. 950/951)

9 MESES SEM BANHO

Fecho a postagem com uma curiosidade sobre o jovem Stephen Dedalus. O rapaz não toma um banho desde outubro do ano anterior. Ele é hidrófobo, nos diz o narrador. Aff... cada lugar do mundo com seus costumes!

"Que razão Stephen forneceu para declinar da oferta de Bloom?

Ser ele hidrófobo, odiando o contato parcial por imersão ou total por submersão em água fria (tendo seu último banho tido lugar no mês de outubro do ano anterior), opondo-se às substâncias aquosas do vidro e do cristal, desconfiando de aquosidades de pensamento e de linguagem." (p. 952)

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É isso! Seguimos lendo os diversos livros produzidos pelas diversas culturas da sociedade humana. 

William

Post ScriptumA última postagem pode ser acessada clicando aqui.


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.

domingo, 12 de setembro de 2021

Ulysses - Eumeu (O Abrigo)



Refeição Cultural

"Olhava de lado de modo amistoso para o lado do rosto de Stephen, a cara da mãe, o que não era bem a mesma coisa que o tipinho bonito traiçoeiro de sempre que elas inquestionavelmente procuravam de forma insaciável já que ele talvez não fosse desse jeito mesmo." (p. 938)


Foram necessários três dias para ler o capítulo 16 do Ulysses. Já estou cansado da leitura. Cada capítulo é do tamanho de um livro. Aliás, o anterior, que se passa no prostíbulo em meio a alucinações, teve duzentas páginas (ler postagem aqui). Já estou louco pra acabar a leitura, mas ainda tenho cem páginas do penúltimo capítulo e umas setenta do clássico monólogo interior de Molly Bloom.

Neste capítulo, eu diria que temos a representação de Ulisses e Telêmaco, personagens da Odisseia grega.

Já passa da meia-noite na Dublin de 1904 - 17 de junho -, Bloom não quis deixar Stephen sozinho, já embriagado após sua passagem pelo prostíbulo. Eles vão juntos a um abrigo onde ficam os cocheiros das carruagens-táxi da cidade. Bloom dá um jeito de fazer o rapaz comer alguma coisa e tomar um café para passar a embriaguez.

Na Odisseia homérica, Eumeu é o porqueiro de Ulisses (Odisseu), que o recebe em sua casa quando volta a Ítaca disfarçado de velho, uma magia da deusa Palas Atena. Ali no abrigo, pai e filho se encontram e planejam a forma de retomar a propriedade invadida pelos pretendentes de Penélope.

A BEBIDA ALCOÓLICA E A EXPOSIÇÃO AOS RISCOS DIVERSOS

Num certo momento, me lembrei de nossos jovens, bebendo mais do que seria o "beber socialmente", um conceito próximo a beber sem ficar alcoolizado, perder o estado de alerta e a consciência do que está fazendo. Bloom está com Stephen um pouco por causa disso, ele está meio fora de si e pode acontecer algo de ruim a ele. Tanto é que ele se envolveu em uma briga e levou um soco que o deixou prostrado no chão.

COMENTÁRIO - O ideal seria que as pessoas bebessem e parassem antes de se embriagarem e ficarem expostas aos riscos mais diversos que a bebedeira causa, riscos a si, aos outros e a eventos trágicos e sem volta. É o que eu diria às pessoas que gosto, após meu meio século de vida. Bebam, mas parem antes de perderem a consciência e ficarem expostos aos outros.

"(...) ainda assim jamais além de um certo ponto onde invariavelmente traçava um limite na medida em que isso simplesmente criava problemas de toda espécie para nada dizer de você ficar exposto à mercê dos outros praticamente." (p. 871)

A MISÉRIA DA CLASSE TRABALHADORA

Neste capítulo tem alguns momentos de clara referência à miséria em que se encontra a classe trabalhadora. Como disse em postagens anteriores, desde o início da obra vemos como pano de fundo do romance a miséria e a falta de dinheiro e recursos básicos da gente comum retratada num dia comum de um homem comum, o publicitário Leopold Bloom. Além, é claro, das críticas de Joyce às crendices de sua sociedade.

"(...) Eu bem que topava carregar uma placassanduíche só que a menina do escritório me disse que eles estão lotados pelas próximas três semanas, amigo (...) Eu não estou nem aí desde que eu consiga trabalho, até de varredor de rua." (p. 875)

É o capitalismo inglês e mundial... aos proletários, mesmo que educados, só a miséria!

"(...) A pobreza mais violenta tinha mesmo esse efeito e ele mais que conjecturava que, conquanto possuidor de grandes habilidades educacionais, ele tivesse não pouca dificuldade em pagar as contas." (p. 879)

COMENTÁRIO - O que vemos no Brasil no século XXI após um golpe de Estado que destruiu completamente a economia do país e as oportunidades da classe trabalhadora? A mesma situação dos trabalhadores do cenário de Os miseráveis do século XIX e dos trabalhadores do Ulysses, do século XX.

PATRIOTISMO: DISTRIBUIR MELHOR A RIQUEZA ENTRE OS CIDADÃOS

"(...) quero ver todos eles, concluía ele, todos os credos e raças pro rata com uma renda confortável de bom tamanho, sem nada de avaro não, coisa na casa de £300 por ano. Esse é o ponto vital em questão e é factível e ocasionaria relações mais amigáveis entre os homens. Pelo menos é essa a minha ideia, boa ou má. Eu chamo isso de patriotismo. Ubi patria, como nós aprendemos uns fumos nos nossos dias clássicos em Alma mater, vita bene. Onde você pode viver bem, é o sentido, se você trabalhar." (p. 912)

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LEITURA DOS CLÁSSICOS

Enfim, lido mais um capítulo de Ulysses. Caminhamos para o fim, para os dois últimos capítulos, mais umas duzentas páginas.

Não há que se discutir a qualidade das inovações desenvolvidas por James Joyce neste romance - são fantásticas -, mas ao ler algum romance de linguagem prosaica mais regular, a gente acaba se perguntando sobre um dos papeis da literatura, que é o prazer. 

A maior parte do romance Ulysses, com suas diversas técnicas narrativas a cada capítulo, não foi prazerosa; foi curiosa, foi desafiadora, mas pouco prazerosa.

Ler os clássicos vale a pena, repito sempre, porque a leitura tem consequências diversas em nosso ser: além do ponto de vista cultural, evoluímos do ponto de vista cerebral, físico. 

Saímos de um clássico diferentes, mesmo quando não gostamos da obra, o que não é o caso aqui. Eu gosto de Ulysses.

William


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Ulysses - Circe (O Bordel)



Refeição Cultural

Terminei o capítulo 15 de Ulysses arrepiado. Foi esquisito porque estava esgotado pela leitura de 200 páginas feita em dois dias; bunda quadrada por ficar horas sentado envolvido com as alucinações joyceanas. 

A técnica do capítulo foi a "Alucinação", segundo Joyce. E realmente foi foda transitar pelas alucinações do capítulo, que se passa em um prostíbulo, já na madrugada de 17 de junho, pós meia-noite na Dublin de 1904.

A cena que me arrepiei foi a cena da alucinação de Bloom, que viu seu filho morto (morreu aos 11 dias de vida) e que estaria com 11 anos de idade naquele dia. Bloom está na rua, ao lado de Stephen Dedalus, bêbado, meio desacordado no chão após levar um murro na cara por discutir com um policial que também estava se divertindo no prostíbulo.

"BLOOM

(Comunga com a noite) O rosto me lembra o da coitada da mãe...

(silente, pensativo, alerta monta guarda, dedos nos lábios na atitude do mestre secreto. Contra a parede escura uma figura surge lenta, um menino encantado de onze anos, um bebê trocado, raptado, vestindo um terno de Eton com sapatos de cristal e um pequeno elmo de bronze, segurando um livro. Ele lê da direta para a esquerda, inaudivelmente, sorrindo, beijando a página)

BLOOM 

(maravilhado, chama inaudivelmente) Rudy!" (p. 863)

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O CAPÍTULO 15 - ALGUNS MOMENTOS

O capítulo mescla uma miscelânea incrível de coisas. Apesar de ler pela segunda vez, e ter um aproveitamento muito melhor desta vez, diria que é impossível ler as duas centenas de páginas sem se pegar... como diria... da mesma forma que os personagens, alucinado, perdido, sem saber o que está acontecendo... sei lá o que mais eles consumiram além de Absinto, mas tudo é doido, dos personagens no prostíbulo se vai para personagens imaginários e deles para as falas e cenas dessas coisas imaginárias, coisas falam, intervêm nas cenas. A gente vai junto... mesmo sem saber o que é e o que não é... creio que alucinação deve ser assim mesmo.

Vejam alguns exemplos de momentos do capítulo. A parte com letras maiúsculas é a personagem que fala ou pensa, na escrita sem itálico. A parte em itálico é a descrição da cena ou da situação. Como são grandes alguns textos, coloco (...) pra dizer que só citei um pedaço do texto e deixei pra trás um trecho. Só reticências no fim é sinal que o texto continua.

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"SENHORA BREEN

(Ansiosamente) Sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim.

(Ela some ao lado dele. Seguido pelo cão choramingas ele caminha na direção das portas do inferno. Em uma arcada uma mulher de pé, dobrada para a frente, pés separados, mija vacalmente..." (p. 688)

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Bloom resolve seguir Stephen noite afora, pois aparenta alguma preocupação com ele. Eles já saíram da taverna meio bêbados.

"BLOOM

(...) O segundo drinque é que deixa assim. Um já basta. Pra que é que eu estou seguindo ele? Ainda assim ele é o melhor daquela turma..." (p. 690)

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Como eu disse, até as coisas e os animais se manifestam no capítulo.

"BLOOM

(Gagueja) Eu estou fazendo o bem pros outros.

(Uma revoada de gaivotas, trintarréis, eleva-se faminta do lodo do Liffey com bolos nos bicos.)

AS GAIVOTAS

Qá qé qais qolo." (p. 692)

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Agora o defunto enterrado pela manhã se manifesta:

"PADDY DIGNAM

(Com franqueza) Outrora estive empregado junto ao senhor J. H. Menton, advogado, comissionado para juramentos e declarações juramentadas, de 27 Bachelor's Walk. Agora estou defunto, hipertrofiada a parede do coração. Maus bocados. A coitada da patroa sofreu horrores. Como é que ela está aguentando? Não deixem ela ficar muito amiga daquela garrafa de xerez..." (p. 715)

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Joyce não economizou na linguagem chula. Imaginem na época da publicação!

"BLOOM

(Pondo a mão direita nos testículos, jura) Que consoantemente trate-me o criador. Tudo isso prometo fazer." (p. 714)

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Neste capítulo, vemos a expressão "homem feminil" que Kiberd atribui ao herói grego Odisseu (Ulisses), no ensaio introdutório da edição que estou lendo.

"DOUTOR DIXON

(Lê um atestado de saúde) O professor Bloom é um exemplo acabado do novo homem feminil. Sua natureza moral é simples e cativante. Muitos descobriram ser um homem querido, uma pessoa querida. Trata-se de um camarada bem esquisito no todo, retraído ainda que não fraco mentalmente no sentido médico..." (p. 737)

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Circe é o nome do capítulo. Stephen cita Circe num texto complexo e quase incompreensível (para mim). Na Odisseia de Homero, Ulisses e sua tripulação desembarcam na ilha onde vive Circe. Ela é uma feiticeira e transforma a tripulação em porcos. Após Ulisses derrotá-la com suas artimanhas, ela devolve a tripulação do herói e lhe dá instruções para eles atravessarem a ilha das sereias.

"STEPHEN

(...) Ela aceita nodos e modos tão divergentes quanto sacerdotes circundando o altar de Davi ou seja Circe ou onde é que eu estou com a cabeça altar de Ceres e a dica preciosa de Davi para seu fagotista principal sobre sua todopoderosidade..." (p. 748)

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Joyce parafraseando o personagem Hamlet, de Shakespeare, que na tragédia diz "Fragilidade, teu nome é mulher" ao observar sua mãe e seu tio. (Citei de lembrança)

"BLOOM

(...) Deveras, que sempre assim foi. Fragilidade, teu nome é casamento." (p. 796)

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E pra fechar, mais umas obscenidades do capítulo:

"O REVERENDO SENHOR HAINES LOVE

(Ergue bem alto por trás a anágua do celebrante, revelando suas nádegas peludas grisalhas e nuas entre as quais está enfiada uma cenoura) Meu corpo." (p. 853)

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COMENTÁRIO FINAL

Terminei a parte II do livro. Faltam agora 3 capítulos para terminar a epopeia de um dia comum na vida do cidadão comum Leopold Bloom pela Dublin de 1904.

Esse capítulo foi bem difícil. Mas consegui superá-lo. De certa forma, os últimos capítulos foram mais complexos que os anteriores. Faz parte. A postagem da leitura do capítulo 14 pode ser lida clicando aqui.

É isso. Seguimos lendo, exercitando o cérebro e buscando novos conhecimentos e novas culturas.

William


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.

Diários com Machado de Assis (V)



Refeição Cultural

Brás Cubas e Leopold Bloom

Machado de Assis e James Joyce são dois importantes escritores da literatura mundial. Machado, um brasileiro que nunca saiu do Rio de Janeiro; Joyce, um irlandês que viveu a maior parte de sua vida fora de sua terra natal. 

Joyce nasceu em 1882, pouco tempo depois do lançamento machadiano de Memórias póstumas de Brás Cubas. Machado faleceu em 1908, quando Joyce já estava burilando seus textos, publicando Dublinenses em 1914, Retrato do artista quando jovem em 1916 e Ulysses em 1922.

Brás Cubas e Leopold Bloom são dois personagens que marcaram as carreiras de seus criadores e marcaram, sobretudo, a literatura mundial pelo vanguardismo de suas criações. Ambos são personagens complicados, fora do padrão usual em suas épocas, em seus mundos, em seus contextos. Isso é muito interessante!

Brás Cubas é um "defunto autor", um típico representante da casa-grande brasileira. Um branco de posses, canalha, vil, que vive da riqueza que não é produzida por ele e sim fruto da exploração do Brasil e dos brasileiros. O personagem poderia ser qualquer um dos caras brancos da elite golpista de hoje.

Leopold Bloom é um típico cidadão irlandês, publicitário, casado com uma artista, frequenta os espaços que os amigos e conhecidos frequentam, as tavernas e prostíbulos. Ele é judeu e corno. Todos os conhecidos falam mal dele pelas costas. A sociedade em que ele vive é a pura hipocrisia e contradição. Qual a diferença de 1904 (ou 1922) e hoje?

Os personagens são caracteres de seus tempos e isso é notável porque seus criadores não escondem nada do público leitor. Eles são nojentos, politicamente incorretos. São asquerosos, machistas, racistas, misóginos e imorais. Um nos diz em suas Memórias todas as merdas que fez na vida, o outro nos mostra em ações e pensamentos as merdas que os homens de seu tempo fazem e pensam.

Estou relendo os dois clássicos universais. Memórias já li algumas vezes; Ulysses, li duas décadas atrás.

A leitura desses livros hoje, agosto de 2021, me faz pensar muitas coisas, muitas! Me faz pensar na importância da literatura, das artes, da cultura, mais que nunca! Me faz lembrar que vivemos um período de fim de mundo (do ponto de vista da destruição da vida pelo capitalismo) e de tempos de domínio das extremas-direitas como o bolsonarismo no Brasil. Tempos de negacionismo. Tempos de queimar e censurar o diferente, a alteridade.

Ontem, 30 de agosto, li 120 páginas do Ulysses, justamente o capítulo que se passa no prostíbulo - "Circe" (O Bordel). Queria terminar o capítulo, mas após horas de leitura, vi que não acabaria porque são 200 páginas. Texto complexo, doido demais! Pra vocês terem uma ideia, Joyce diz que a técnica desenvolvida no capítulo é a "Alucinação". Entendem?

Para descansar do dia passado na "zona" ficcional joyceana (rsrs), peguei o Memórias... pra que (rsrs)! Coincidiu de ler justamente as Memórias do defunto autor com a espanhola Marcela.

"... Marcela amou-me durante 15 meses e 11 contos de réis; nada menos."

Descansei da "alucinação" das mais de cem páginas no prostíbulo na Dublin de 16 de junho de 1904 lendo as Memórias de Brás Cubas com seu primeiro amor, seu primeiro beijo, sua primeira relação amorosa com uma moça "amiga de dinheiro e de rapazes" (rsrs).

Por fim, acho importante lembrar que textos de literatura são textos de ficção e existem diversas discussões sobre autores e personagens, se eles pensam a mesma coisa ou não, se o personagem é alter ego do autor ou não etc. Mas um livro de ficção é uma obra em si mesma.

A canalhice de Cubas e de Bloom é a canalhice de Cubas e de Bloom, independente do que pensam seus criadores, que podem pensar como os personagens ou o oposto. Enfim, essa é uma discussão antiga e ela segue valendo.

É isso.

William


sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Ulysses - Gado ao sol (O Hospital)



Refeição Cultural

Nesta quinta-feira fiz a leitura do capítulo 14 de Ulysses. Cara, que leitura difícil! Foi trabalhoso ler as 63 páginas do capítulo. Tive que ler a metade de manhã e a outra metade à noite.

No capítulo anterior, Leopold Bloom estava na praia durante o entardecer. Foi um momento surpreendente na narrativa porque conhecemos o lado obsceno do personagem. Fiz uma postagem com alguns comentários, mas ela tem spoiler do capítulo: ler aqui a postagem.

O capítulo 14 é muito doido. Tem uma linguagem complicada em vários momentos. Tem que ter uma concentração absoluta pra avançar no texto.

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BLOOM NO HOSPITAL APÓS A SEM-VERGONHICE DA PRAIA

"E o viandante Leopold Bloom entrou no castelo por se repousar entrementes mal podendo já aturar o peso dos membros depois de muitas marchas em torno de terras várias e algum goivo venério." (p. 607)

LEMBRANÇAS DA MORTE DO FILHO

"Mas dom Leopoldo era mui mal andante apesar de seu dito porque ainda era teúdo de sentir mercê pela grita formidável das mulheres que davam altas vozes durante o parto e porque lembrava de sua boa senhora dele que tinha nome Marion que lhe dera um único filho homem que no seu dia décimo primeiro na vida havia morrido e nenhum homem de arte podido salvar, tão tristos são os fados." (p. 612)

E ENTÃO CHOVEU EM DUBLIN

"Mas dentro em breve, conforme ficou dito, hoje à noite depois do sol poente, havendo vento estável de Oeste, nuvens plenas de considerável tamanho se fizeram à vista no que a noite escurecia e aqueles versados no clima minuciosamente as estudaram e de início alguns relâmpagos e, depois, passadas as dez horas da noite, uma grande rajada com um longo trovão e num piscar de olhos correm todos em grande confusão para dentro das casas fugindo da tromba dágua enfurecida, os homens fabricando cobertas para seus chapéus de palha com um trapo ou um lenço, as filhas de Eva saltitando com vestidos arrepanhados no momento em que caiu o aguaceiro." (p. 620)

JOYCE TAMBÉM FALA COM LEITORES (sublinhado meu)

"Jamais ele esquecerá o nome, para sempre recordará a noite, primeira noite, a noite nupcial. Estão enroscados na mais funda escuridão, cobiçador e cobiçada, e em um instante (fiat!) a luz inundará o mundo. Saltou um coração para o outro? Não, cara leitora. Em um átimo estava feito mas - calma! Para trás! Não pode ser! Aterrorizada a pobre moça foge através do nevoeiro. Ela é a noiva das trevas, uma filha da noite. Não ousa portar o solar bebê dourado do dia. Não, Leopoldo. Nome e memória te não trazem solaz. A juvenil ilusão de tua força de ti foi tirada e em vão. Filho algum de tuas entranhas é contigo. Não há ninguém que agora seja para Leopoldo o que Leopoldo foi para Rodolfo." (p. 644)

MORREMOS DE DIVERSAS MORTES SEVERINAS

"É interessante porque, como ele pertinentemente observa, nascemos todos da mesma maneira mas todos morremos de maneiras diferentes. O senhor M. Mulligan (Hyg. et Eug. Doc.) culpa as condições sanitárias em que nossos cidadãos de alento gris contraem adenoides, males pulmonares etc. ao inalar as bactérias que se emboscam na poeira..." (p. 651)

POR QUE ALGUMAS CRIANÇAS MORREM?

"Contudo a simples e direta questão de por que uma criança de pais com saúde normal e aparentemente saudável ela também e adequadamente tratada sucumbe incompreensivelmente na tenra infância (conquanto outros filhos do mesmo casamento não sucumbam) deve certamente, nas palavras do poeta, dar o que pensar." (p. 652)

DARWINISMO?

"A natureza, com isso podemos contar, tem suas próprias razões boas e relevantes para o que quer que faça e com toda probabilidade tais mortes são devidas a alguma lei de antecipação pela qual organismos (...) tendem a desaparecer em um estágio cada vez mais precoce do desenvolvimento, uma disposição que, embora produza dores para alguns de nossos sentimentos (destacadamente o maternal), é não obstante, acreditam alguns de nós, a longo prazo benéfica à raça em geral ao garantir de tal maneira a sobrevivência do mais forte." (p. 652)

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ENFIM, vencido mais um capítulo de Ulysses. Ainda faltam quase 500 páginas... sério mesmo! É uma senhora tarefa a leitura desse clássico que dizem que revolucionou a literatura no século vinte.

Leiam, leitoras e leitores. Por mais difícil que seja a leitura de alguns livros clássicos, saímos melhores e diferentes após a aventura.

William


Bibliografia:


JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.

domingo, 22 de agosto de 2021

Ulysses - Nausícaa (As Pedras)



Refeição Cultural

No sábado à noite, retomei a leitura de Ulysses. Meu hábito é ler pela manhã, mas como não foi possível, mudei a rotina de leitura. Li até umas duas horas da manhã, mas o sono me pegou no final e ficaram faltando umas dez páginas para terminar o capítulo, que deixei para o dia seguinte. 

Posso dizer que o capítulo foi um dos mais "extravagantes" até agora. Eu imagino a recepção dos leitores e da crítica daquela época em relação aos usos e costumes vigentes nos anos vinte do século XX, num mundo conservador e orientado por crenças religiosas.

O capítulo 13 traz como referência ao clássico Odisseia a personagem Nausícaa, a filha de Alcínoo e Arete, reis dos Feácios. Na odisseia homérica, a jovem princesa está com suas criadas na praia quando é surpreendida por Ulisses, que havia naufragado ali, vindo de sua longa permanência na ilha de Calipso. Nausícaa ajuda o herói, levando-o até seus pais no palácio real.

Na leitura do capítulo, vamos entender por que Joyce fez referência a Nausícaa e Ulisses (Odisseu), o nosso Leopolp Bloom irlandês.

Atenção: informo que o comentário abaixo terá spoiler do capítulo.

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JOYCE ME SURPREENDEU

O capítulo começa com moças e crianças brincando na praia ao anoitecer.

"Gerty MacDowell, que estava sentada junto de suas companheiras, absorta em seus pensamentos, olhar perdido longe na distância, era com toda a justiça o mais belo espécime da cativante feminilidade irlandesa que se pode desejar. Era declarada linda por todos que a conheciam muito embora..." (p. 553)

Joyce mescla no capítulo muita alternância de narrador. Ora é o narrador onisciente que descreve personagens e seus sentimentos, ora é o fluxo de consciência dos personagens que nos deixam ver o que eles pensam.

A jovem Gerty pensa na vida, no rapaz com quem flerta e gostaria de namorar, pensa nas decepções, sonha com amores e com o futuro na companhia de um grande amor, talvez alguém mais maduro e viril que um jovem na idade dela.

"Seu ideal de admirador não era algum príncipe encantado que depusesse um raro e fantástico amor a seus pés mas sim um homem viril com um rosto forte e tranquilo que não houvesse encontrado o seu ideal, talvez com os cabelos levemente marcados por fios grisalhos, e que a compreenderia, tomá-la-ia em seus braços protetores, a apertaria contra si com toda a força de sua profunda natureza passional para consolá-la com um beijo bem comprido. Seria o paraíso. Por alguém assim ela suspira neste ameno crepúsculo de verão." (p. 558)

Nas lembranças da jovem Gerty, o autor nos fala de novo sobre a "praga da Irlanda", a bebida alcoólica, e a jovem se lamenta pelo fato do pai não ter conseguido superar o vício do álcool. Ela se lembra inclusive das violências domésticas que sua mãe sofria. (p. 562)

Na cena da praia há um homem sentado adiante. Durante todo o tempo em que as moças e as crianças estão lá, ele também está. Com o passar do tempo, vemos que a jovem está flertando ou se mostrando para o homem, que é bem mais velho que ela. A jovem Gerty sonha longe, imagina o cara sendo o herói viril que a salvaria de seu mundo.

A cena retrata a referência à personagem Nausícaa e o herói Ulisses. Só que Joyce faz de seu personagem o oposto do de Homero, seu herói é um anti-herói, cheio de vícios humanos e sem nobreza alguma.

"Ele olhava com tamanha intensidade, tão imóvel e ele a viu chutar a bola e talvez pudesse ver as brilhantes fivelas de aço de seus sapatos se ela os balançasse assim pensativa com os dedos apontando pra baixo (...) Ele era o que importava e havia alegria em seu rosto porque o desejava por ter instintivamente sentido que ele era diferente de todos. O coração da meninamoça corria todo para ele, seu marido ideal, porque ela soube de pronto que era ele..." (p. 567)

E ao final de toda a cena entre a "meninamoça" e o homem "viril" na praia, a surpresa para o leitor:

"(...) Ah! Ela lançou-lhe um olhar no que se dobrou rápida para a frente, um patético olharzinho de protesto pio, de tímida censura sob o qual ele corou como uma moça. Ele estava recostado à rocha atrás de si. Leopold Bloom (pois é ele) está calado, de cabeça baixa, diante desses jovens olhos cândidos. Mas que monstro havia sido! De novo com isso! Uma alma pura imaculada o havia invocado e, desgraçado que era, como respondera? Um completo canalha! Logo ele! Mas havia um infinito sortimento de misericórdia naqueles olhos, também para ele uma palavra de perdão mesmo tendo ele errado, pecado e se extraviado. As mocinhas têm de contar? Não, mil vezes não. Era o segredinho deles, só deles, sós no crepúsculo ocultante e não havia quem soubesse ou contasse senão pelo pequeno morcego que voava tão delicado pelo entardecer para lá e para cá e morceguinho não fala." (p. 579)

A SURPRESA MAIOR DO CAPÍTULO

Instantes depois da cena obscena anterior, do "viril" adulto Leopold Bloom se satisfazendo atrás da rocha ao flertar com a "meninamoça" Gerty, vem a surpresa maior: Joyce nos conta que a jovem na praia é "coxa" e o pior é o comportamento de Bloom ao perceber isso: 

"(...) Ela caminhava com certa dignidade tranquila característica sua mas com cuidado e muito lentamente porque Gerty MacDowell era...

Bota apertada? Não. Ela é coxa! Oh!

O Senhor Bloom ficou olhando enquanto ela saía coxeando. Coitadinha! Por isso que ela ficou largada e as outras saíram correndo. Achei que tinha alguma coisa errada pelo jeito dela. A bela desprezada. Um defeito é dez vezes pior em uma mulher. Mas ficam educadas. Que bom que eu não sabia quando ela estava se exibindo. Diabinha assanhada mesmo assim. Não ia me importar. Curiosidade como uma freira ou uma negra ou uma moça de óculos. Aquela de olhinho apertado é delicada. Perto das regras, imagino, ficam todas sensíveis." (p. 580)

O BLOOM É O NOSSO BRÁS CUBAS

Cara, Machado nos apresentou um personagem o mais canalha possível, típico representante das elites coloniais do século XIX, meio século antes de Joyce nos apresentar o Bloom, que veremos ainda no mesmo capítulo ser um canalha de marca maior, que tem fetiches por meninas e jovenzinhas (p. 593). O personagem de Joyce é o Humbert Humbert, de Vladimir Nabokov (Lolita, de 1955).

A Eugênia de Brás Cubas

"O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza é às vezes um imenso escárnio. Por que bonita, se coxa? por que coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar para casa, de noite, sem atinar com a solução do enigma." (ASSIS, 2018, p. 109)

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COMENTÁRIO FINAL

É isso! Mais um capítulo do clássico de Joyce. Minha releitura está sendo infinitamente melhor que a primeira leitura, feita duas décadas atrás.

Amig@s leitores, imaginem o quanto o nosso Machado de Assis foi inovador, revolucionário com sua obra literária. Nosso Bruxo do Cosme Velho é um dos maiores escritores da literatura mundial. Seu alcance nunca foi maior por ser ele um autor de língua portuguesa, de um país colonial.

Confesso a vocês que esta postagem deu trabalho! Gastei um bom tempo para produzir o texto como queria.

No entanto, estive pensando a respeito das mais de duas mil postagens que tenho neste blog: elas têm que ser bem-feitas! Caso contrário, não teriam sentido. 

Diariamente, algumas dezenas de pessoas chegam aos meus textos procurando alguma informação ou conhecimento. Fazer textos bem-feitos e compartilhar conhecimento ou opiniões é uma questão de respeito com os leitores e com a verdade.

Abraços,

William


Bibliografia:

ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. 1ª ed. São Paulo: Panda Books, 2018.

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.


quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Ulysses - Ciclope (A Taverna)



Refeição Cultural

"- Um lobo em pele de cordeiro, o cidadão falou. Isso é que ele é. Virag da Hungria! Ahas Verus é o meu nome pra ele. Amaldiçoado por Deus." (p. 541)


Lido mais um capítulo de Ulysses, de James Joyce. Capítulo longo, umas 70 páginas. Os acontecimentos se passam no final da tarde de 16 de junho de 1904, por volta de 17 horas. Diversos personagens estão reunidos na taverna, entre eles Leopold Bloom. Todos bebem, menos Bloom, que aceita um charuto no lugar da bebida.

Em linhas gerais, resumiria o capítulo assim: os caras estão bebendo e falando um monte de porcarias sobre várias coisas. Há uma predominância no final a falar mal de judeus e a falar mal de Bloom, que é judeu. Falam mal dele principalmente quando ele dá uma saída rápida da taverna. Eles acham que ele foi apostar numa corrida de cavalo, à escondida, para não dividir o prêmio com ninguém.

PRECONCEITO A JUDEUS

"Aí eles começaram a falar da pena capital e é claro que o Bloom me aparece com o por quê e o pra quê e toda a peixemortice do negócio todo e o cachorro velho cheirando a perna dele o tempo todo dizem que esses judeuzinhos têm lá um tipo de cheiro estranho pros cachorros que sai deles sobre sei lá qual efeito inibitório e por aí vai." (p. 495)

Leopold Bloom é considerado pelos demais um metido a besta, "Senhor sabetudo" (p. 509). Ele começa a explicar o que acontece quando alguém é enforcado, a questão do pênis duro etc.

CERVEJA, A PRAGA DA IRLANDA

Joyce aproveita para tecer suas críticas a respeito dos costumes irlandeses. A cerveja, por exemplo, é chamada de "a praga da Irlanda" num certo momento do capítulo (p. 504).

A DOS "SEIOS GENEROSOS"

Outro tema que não escapa aos personagens bebendo na taverna é a esposa de Bloom, Molly. Assim como já vimos nos capítulos anteriores, as falas pelas costas dele são as piores possíveis. Um exemplo do que pensam dela, seja falando, seja em fluxo de consciência dos personagens: "Casta esposa de Leopold é ela: Marion dos seios generosos." (p. 516)

BLOOM, O SÁBIO

"- Tem gente, o Bloom falou, que repara no cisco no olho dos outros mas não consegue ver a trave que está no seu próprio olho." (p. 524)

O PAI NOSSO DOS MARINHEIROS BRITÂNICOS AÇOITADOS

"Creem em Dê os Paus, todolaceroso, criador do inferno na terra e em Marujo Tristo, esse filho da luta, que foi concebido pelo escândalo tanto, nasceu da viagem marinha, padeceu o serviço completo, foi cicatrizado, exposto e bem sovado, gritou como um danado, e no terceiro dia relevantou da cama, voltou aos seus, está sentado a boreste de seu país de onde há de vir penar na vida e a postos." (p. 529)

AMOR, A VIDA DE VERDADE

"- Mas não adianta, ele falou. Força, ódio, história, isso tudo. Isso não é vida pros homens e mulheres, ódio e xingamento. E todo mundo sabe que é exatamente o contrário disso que é a vida de verdade.

- O quê? o Alf falou.

- Amor, o Bloom falou. Ou seja, o contrário do ódio." (p. 534)


AHAS VERUS

Deixei para o final da postagem, uma questão que me deixou impressionado, uma coincidência danada o que aconteceu comigo, coisas que só acontecem com quem lê, com leitores.

Dias atrás, decidi ler mais um livro de poesia em voz alta, como fiz ano passado com A rosa do povo, de Drummond. Defino quantos poemas vou ler por dia e quantos dias pra ler o livro. A cada dia, escolho um dos lidos e gravo a leitura em vídeo.

Fui até a estante e escolhi a esmo o autor que iria ler. Escolhi Castro Alves e o livro Espumas flutuantes, de 1870, uma edição velha velha que tenho. O livro está se desfazendo ao ler. Comecei a leitura dia 10 de agosto e termino o livro amanhã, dia 20.

Num dos dias, escolhi para gravar o poema "Ahasverus e o gênio" (ver aqui). Como o livro tem notas explicativas, tomei conhecimento sobre a personagem. Cito a nota da minha edição do livro:

Ahasverus: "um dos diversos nomes pelos quais é conhecido o judeu errante, condenado a errar pelo mundo, sem lugar para descansar, por ter negado descanso a Jesus na porta de sua casa, quando este caminhava ao Calvário." (ALVES, 1997, p. 163)

Ao ler dias depois um dos desafetos de Leopold Bloom chamando ele de Ahas Verus, fiquei impressionado com a coincidência! Tanto meu entendimento foi perfeito na leitura de Ulysses, quanto ficou melhor meu entendimento do poema de Castro Alves.

Fiquei muito feliz pela coincidência. A leitura nos traz conhecimento! Isso já aconteceu comigo inúmeras vezes durante as leituras.

É isso! Seguimos sobrevivendo à pandemia, à destruição trágica do Brasil após o golpe e aprendendo algo novo todos os dias, tentando ser uma pessoa melhor em todos os sentidos.

William


Bibliografia:

ALVES, Castro. Espumas Flutuantes. O Estado de São Paulo/Klick Editora, 1997.

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.

sábado, 14 de agosto de 2021

Ulysses - Sereias (A sala de concertos)



Refeição Cultural

Retomei a leitura de Ulysses, de James Joyce, na tradução de Caetano W. Galindo. Hoje li o capítulo 11, foram 50 páginas.

A leitura foi difícil, mais que a de outros capítulos. O pessoal está bebendo num local e cantando. Joyce nos faz perceber o quanto é complicado entender tudo que pessoas bebendo falam. As palavras ficam pela metade, as frases não se concluem etc.

Cenas literárias

BLOOM PUBLICITÁRIO

Bloom, que é publicitário, observa um cartaz na porta de entrada do ambiente, uma propaganda de marca de cigarro:

"(...) o sábio Bloom olhava na porta um cartaz, sereia estirada fumando onde as ondas são belas. Fume Sereia, a mais refrescante tragada." (p. 440)

ALITERAÇÕES

"O calvo Pat que é mouco mitrava os guardanapos. Pat é um garçom ruim das oiças. Pat é um garçom que só serve para servir. Rii rii rii rii. Ele serve para servir. Rii rii. Um servo só serve. Rii rii rii rii. Ele só serve para servir. Serve para servir como um serve que serve. Rii rii rii rii. Ro! Servir como um servo." P. 464)

OUVIR O BARULHO DO MAR NAS CONCHAS

Eu já tive uma concha gigante e vivia ouvindo o barulho do mar dentro dela, ao colocar o ouvido.

"Bloom pela porta do bar viu uma concha segurada em seus ouvidos. Ouviu mais vagamente o que ouviam elas, cada uma por si própria só, e então cada uma pela outra, ouvindo o marulho das ondas, alto, um rugido silente." (p. 464)

COM O FILHO MORTO, ÚLTIMO VARÃO DE SUA RAÇA

"Eu também, último da minha raça. Milly estudante. Bom, culpa minha quem sabe. Sem filho. Rudy. Tarde demais agora. Mas e se não? Senão? Se ainda?" (p. 469)

BLOOM AVALIA SE...

"Uma puta rançosa com um chapéu de marinheiro de palha preta enviesado vinha lustrosa dia afora cais adentro na direção do senhor Bloom. Quando primeiro viu aquela forma encantadora. É, é ela. Estou tão só. Noite úmida na alameda. Duro. Quem estava? Unzurro. Aí ó. Fora da jurisprudência dela por aqui. O que é que ela? Espero que ela. Psst! Por acaso precisa de roupa lavada. Conhecia a Molly. Me derrubou. A senhora cheinha que estava com você com a roupa marrom. Te pega no contrapé. Aquele encontro que a gente marcou. Sabendo que nós nunca, bem, quase nunca. Perto demais do meu caro demais o meu lar doce lar. Está me vendo, ou não? Feia de dar medo à luz do dia. Rosto de patê. Dane-se! Ah, bom, ela tem que viver que nem todo mundo. Olhar aqui pra dentro." (p. 476)

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Havia parado a releitura do Ulysses porque a ideia era ler junto com o meu amigo que me presenteou a edição traduzida por Galindo. Como meu amigo não vai conseguir ler agora e eu já havia lido bastante, vou até o fim do clássico.

A sugestão de ler o principal clássico de Joyce foi muito produtiva para mim. Por causa da releitura, acabei lendo Odisseia em versos, na tradução de Odorico Mendes, e li também Retrato do artista quando jovem (1916), o livro anterior a este e que retrata o personagem Stephen Dedalus na infância e adolescência.

É isso. Seguimos lendo e dando algum sentido à vida neste momento tão sem sentido da história humana. O homem está acabando com a possibilidade de vidas no planeta e não me parece que algo vá deter isso.

William



Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Retrato do artista quando jovem, James Joyce



Refeição Cultural

De maneiras distintas, planejadas ou por acaso, as leituras diárias de livros seguem acontecendo em minha vida, felizmente. Terminei a leitura de Retrato do artista quando jovem (1916), do escritor irlandês James Joyce.

Este livro não estava em meus planos de leitura atual. A edição que tenho estava lá, quietinha na estante, comprada em um sebo por 7 reais há muito tempo. Aí um amigo me convidou para lermos juntos Ulisses (1922). Eu havia lido esse clássico duas décadas atrás, na tradução de Antônio Houaiss. Topei reler o clássico joyceano. (Houaiss adotou o nome com "i" e Galindo com "y")

Meu amigo Sérgio Gouveia me deu de presente a bela edição de Ulysses, traduzida por Caetano Galindo. Começamos a ler a obra, mas como usa acontecer na leitura por prazer, às vezes as questões do cotidiano de vida nos pegam pelo caminho e não conseguimos seguir na leitura. Comigo já aconteceu isso dezenas de vezes.

Meu amigo não está conseguindo se dedicar no momento à leitura do Ulysses e com isso vou avaliar se sigo adiante ou não. Já li mais de 400 páginas da edição e provavelmente vou terminar a leitura.

Da releitura de Ulysses (uma leitura gera outras), reli alguns contos de Dublinenses (1914) e acabei pegando o livro que nos apresenta o jovem Stephen Dedalus, personagem no Ulysses de Joyce que representa Telêmaco, filho do herói Ulisses, da Odisseia de Homero, obra referência para o clássico joyceano. Leopold Bloom e Molly Bloom completam o trio moderno na reinterpretação da odisseia grega.

STEPHEN DEDALUS, ALTER EGO DE JOYCE

"- Olha aqui, Cranly - disse ele. - Tu me perguntaste o que eu faria e o que eu não faria. Vou te dizer o que farei e o que não farei. Não servirei aquilo em que não acredito mais, chame-se isso o meu lar, a minha pátria, ou a minha igreja: e vou tentar exprimir-me por algum modo de vida ou de arte tão livremente quanto possa, e de modo tão completo quanto possa, empregando para a minha defesa apenas as armas que eu me permito usar: silêncio, exílio e sutileza." (p. 244)

Aí está uma coisa que realmente Joyce decidiu fazer na vida e fez: exprimiu-se de modo tão inovador e tão livremente em relação à arte literária que produziu romances com técnicas e linguagens que marcaram a literatura mundial a partir dos anos vinte do século passado.

Como disse no início da postagem, seja de forma planejada ou por acaso, da sugestão de releitura do Ulysses, acabei lendo a Odisseia em versos. Da Odisseia, li 3 clássicos gregos - Prometeu Acorrentado, Édipo Rei e Antígona. E finalmente conheci o romance - Retrato do artista quando jovem - que apresenta o jovem Dedalus, uma espécie de alter ego do próprio autor.

Seguimos lendo e buscando na cultura alguma satisfação nesse momento existencial de tanta tragédia como vivemos no Brasil, destruído por um golpe de Estado em 2016, golpe tão devastador ou mais que os efeitos da pandemia mundial de Covid. Após Temer e Bolsonaro, é como se o país tivesse sido queimado e jogado sal para que nada mais voltasse a germinar um dia. 

Espero que possamos recomeçar após a passagem desse mal no Brasil, mal causado pelo capitalismo e pelo imperialismo, mal que destruiu o nosso mundo, matou o nosso povo e tirou de nós as condições de nos refazermos para o futuro.

William



Post Scriptum (30/10/21): assisti ontem ao filme Retrato do artista quando jovem (1977), de Joseph Strick, uma adaptação ao livro de Joyce. Enfim, começo a ler e ver as diversas obras adquiridas décadas atrás e guardadas em casa. A adaptação do diretor foi bem fiel ao livro, não foi uma daquelas adaptações psicodélicas que alguns diretores fazem de obras clássicas. Novamente, causou revolta as cenas de violência contra alunos por parte do sistema educacional: ajoelhar no meio da sala, espancar as crianças com palmatória etc. Outra coisa que me chamou atenção são as cenas de pregações de religiosos aterrorizando fiéis a respeito dos pecados, dos mandos de deus e dos martírios eternos do inferno. Que foda isso! Eu me lembro perfeitamente disso em minha infância e adolescência como jovem que acreditava nessas abstrações humanas. E pensar que isso move o mundo e as sociedades desde que o homo sapiens é homo sapiens...


Bibliografia:

JOYCE, James. Retrato do artista quando jovem. Tradução de José Geraldo Vieira. Ediouro/92340, 1987.