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terça-feira, 24 de outubro de 2023

Leitura: Banzeiro òkótó: uma viagem à Amazônia centro do mundo - Eliane Brum



Refeição Cultural

Osasco, 24 de outubro de 2023. Terça-feira. (as guerras seguem: na Ucrânia, na Palestina, na Amazônia...)


"Aqueles que têm se mostrado tão competentes em imaginar o fim do mundo — do apocalipse bíblico aos filmes de zumbi, dos vírus a ataques alienígenas, do domínio da inteligência artificial ao holocausto nuclear e agora climático — precisam se tornar capazes de imaginar o fim do capitalismo. Temos de nos tornar capazes, principalmente, de imaginar um futuro onde possamos e queiramos viver. Imaginar é ação política. Imaginar é instrumento de resistência. Imaginar o futuro é agir sobre o presente." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

A leitura de Banzeiro òkótó (2021), da escritora, jornalista e documentarista Eliane Brum, foi difícil para mim. Cada capítulo era uma porrada e tinha que parar para recuperar o fôlego e o ânimo. Foi uma leitura deprê. No entanto, foi uma leitura necessária! Terminei a jornada emocionado, com lágrimas nos olhos.

A indicação de leitura do livro foi do curso"13 livros para compreender o Brasil", curso presencial que fiz no Instituto Conhecimento Liberta (ICL). Agradeço aos professores Suze Piza e Lindener Pareto pela referência de leituras que eu não escolheria por conta própria. Estou lendo cada um dos livros que não havia lido ainda. E a cada leitura, mudo, saio diferente.

O primeiro excerto que citei acima, é central! Ou a gente imagina um mundo livre do capitalismo ou não haverá mais mundo para vivermos, nem nós, nem as formas de vida que habitam o planeta Terra.

Eliane Brum nos mostra tanta coisa, tanta coisa, que a gente fica tonto! 

Durante os anos trágicos do mandato canalha e genocida do clã miliciano do Rio de Janeiro, eu pensava em termos exércitos armados para lutar contra os destruidores da Amazônia e Pantanal e biomas do litoral brasileiro. A guerra sempre foi desproporcional, os defensores dos biomas entram com os corpos e os exploradores entram com as balas. Só morrem pessoas de um lado. Matam indígenas, quilombolas e brancos que defendem a natureza. Depois destroem a natureza para sempre... e fica por isso mesmo!

Durante a leitura do livro-denúncia de Brum, a gente descobre que tem parlamentar petista que homenageia o maior grileiro do Brasil... puta que pariu! A gente descobre a extensão da destruição da usina hidrelétrica de Belo Monte, não feita durante a ditadura e feita por governos de esquerda de Lula e Dilma... puta que pariu!

O mundo é um lugar foda! E nem dá para desistir de lutar ou de viver porque ao desistir o inimigo do mundo, dos povos e da natureza ganha sem a gente lutar, ganha por WO, que foda!

Amig@s leitores, não adiantaria eu ficar falando sobre o livro ou os capítulos do livro de Eliane Brum. O que posso dizer é que a leitura deveria ser obrigatória para gerar algum incômodo e constrangimento em cada pessoa que lesse o que ela nos conta ali.


"É necessário agora redesenhar o movimento feito ao longo deste livro, para que o conceito seja estabelecido. O banzeiro dá mais algumas voltas, mas agora no sentido de “òkòtó”, palavra na língua iorubá que compõe o título deste livro. Ela me foi dada num jogo de búzios com Pai Rodney de Oxóssi, babalorixá, antropólogo e escritor. Ela veio e tomou conta de minha percepção sobre o movimento e também da capa deste livro. Assoprada por Exu, esta foi mais do que uma volta. Òkòtó é um caracol, uma concha cônica que contém uma história ossificada que se move em espiral a partir de uma base de pião. A cada revolução, amplia-se “mais e mais, até converter-se numa circunferência aberta para o infinito”. Amazônia Centro do Mundo é banzeiro em transfiguração para òkòtó." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

É isso! Abaixo cito algumas passagens que marcaram este leitor que vos fala.

Leiam o livro, se revoltem, saiam do conforto que talvez tenham adquirido. Poucos brancos bilionários estão destruindo o mundo de bilhões de pessoas humanas e bilhões de outres seres.

A vontade de mudar o rumo do mundo é enorme depois que lemos Banzeiro òkótó... não é possível se sentir à vontade com essa merda toda que está rolando neste exato momento.

William

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BANZEIRO ÒKÓTÓ

O privilégio e a violência por ser um branco no Brasil


"Por mais éticos que nós, brancos, possamos ser no plano individual, a nossa condição de brancos num país racista nos lança numa experiência cotidiana em que somos violentos apenas por existir. Quando eu nasço no Brasil, em vez de na Itália, porque as elites brasileiras decidiram branquear o país importando homens e mulheres brancos como meus bisavós, já sou violenta ao nascer. Quando ao meu redor os negros têm os piores empregos e os piores salários, a pior saúde, o pior estudo, a pior casa, a pior vida e a pior morte, eu, na condição de branca, existo violentamente mesmo sem ser uma pessoa violenta." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

Ao ler essa afirmação de Brum, fiquei pensando nas pessoas do meu cotidiano, estejam elas nas ruas e nos faróis pedindo uma ajuda, ou nos postos de trabalho que me atendem de alguma forma, peles de tons diversos entre o pardo e o preto. Brasil.


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Os capitalistas responsáveis pela destruição do mundo


"Quando a pandemia começou, apenas 2153 pessoas — às vezes esquecemos que bilionários são pessoas, têm nome e sobrenome — concentravam mais riqueza material do que 60% de quase 8 bilhões de seres humanes que habitam o planeta. Bilionários representam uma fração tão insignificante no conjunto da população global que os números falham em torná-los visíveis como porcentagem: menos de 0,00003% — ou 1 bilionário para cada 3,7 milhões de pessoas. A desigualdade racial, social, de gênero e de espécie que provocam, porém, é brutalmente visível." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

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Nós somos a maior praga do planeta Terra


"Diz Antonio Nobre: 'A floresta sobreviveu por mais de 50 milhões de anos a vulcanismos, glaciações, meteoros, deriva do continente. Mas em menos de cinquenta anos, encontra-se ameaçada pela ação de humanos.'" (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

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O negacionismo ao lidar com a questão da emergência climática


"O que nos causa mais terror, porém, é o fato de que mesmo diante de evidências tão eloquentes, da enormidade da ameaça, a maioria da população siga negando a realidade que também construiu. Mesmo com a água faltando nas torneiras, com a temperatura mais alta a cada ano, com a vida sendo mastigada dia a dia, a alienação é assombrosa. Padecemos de desconexão com o mundo justamente na época mais conectada da história humana, na qual a maioria vive em rede quase todas as horas de vigília." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

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Eliane Brum assumiu seu posto na guerra climática e foi para o front de batalha onde se definirá a história da humanidade e do planeta Terra. Que ato nobre da porra!


"Eu escolhi meu lado na guerra climática, o que levou meu corpo a Altamira, uma das múltiplas linhas de frente do planeta. Meu desafio, como branca, é aprender a pensar e me pensar a partir de relações radicalmente diferentes com humanes e mais-que-humanes. Meu desafio é me desbranquear — ou fazer o movimento do desbranqueamento, que nunca serei capaz de completar. É essa travessia que vocês fizeram comigo no lento caminhar deste livro. Busquei compartilhar o processo que me trouxe até o agora, que me lançou no banzeiro e talvez me lance no òkòtó." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

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O fim do mundo não é um fim, mas um meio


"Altamira é uma ruína. É, como o Brasil, uma constante construção de ruínas sobre a mais monumental de todas as ruínas, a da floresta que antes havia ali. Como toda fronteira simbólica, Altamira é vanguarda do mundo. Finalmente compreendi ali, com todo o meu corpo, que o fim do mundo não é um fim, mas um meio." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

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Gaúchos: gafanhotos da Amazônia: onde pousam, não sobra nada vivo na natureza...


"Na conversa, apresentou-me, e eu disse, toda animada: 'Ah! Eu também sou gaúcha. De onde tu é?'. A conversa foi rápida e, quando seguimos pelas prateleiras, meu companheiro de compras informou: 'É um grileiro'. E eu, ainda ingênua: 'Puxa, um gaúcho, que vergonha'. Ele então esclareceu: 'É importante que você entenda que os gaúchos são conhecidos como os gafanhotos da Amazônia'." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

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O planeta Terra não é nem uma fazendona nem uma espaçonave. O único caminho é se florestar


"Suspeito que todo astronauta será caubói um dia, e não o contrário. Minha proposta e de outras pessoas é que viremos todes indígenas, no sentido de nos compreender como parte orgânica de um planeta vivo e compreender a vida como essa relação fascinante de intercâmbios e de dependência mútua entre diferentes formas de ocupar o mesmo corpo. Me parece que o único caminho é se florestar." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

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De novo: a Terra não é um pasto para bandeirantes e terraplanistas explorarem


"O economista inglês, naturalizado estadunidense, Kenneth Boulding (1910-93) criou uma distinção entre o que chamou de a economia do caubói e a do astronauta. Os caubóis — e claramente ele fazia referência aos homens que colonizaram o Velho Oeste dos Estados Unidos e foram mitificados por Hollywood — enxergam o planeta como terra plana: vastos espaços abertos com recursos infinitos, à espera de que os mais fortes os dominem, destruindo os povos originários, os não gente, e a natureza. No Brasil, esse conceito poderia ser chamado de economia do bandeirante e apelidado de Borba Gato. Ou então de economia do pioneiro e apelidada de gafanhoto. Podemos pensar que não é um acaso que na época de déspotas eleitos como Bolsonaro o terraplanismo esteja tão em voga." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

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Maior grileiro do país homenageado por parlamentar do PT do Paraná é excomungado por padre na Amazônia


"Padre Patrício foi particularmente iluminado naquela festa. Em seu sermão evocou toda a história de resistência da comunidade na Terra do Meio e excomungou o grileiro Cecílio do Rego Almeida sem nenhuma misericórdia. Lá do fundo um beiradeiro gritou para atualizar o piedoso sacerdote: 'Ele já morreu, padre!'. E padre Patrício ecoou em altos brados, com as mãos levantadas para o céu em júbilo divino: 'Graças a Deus!'." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

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Os piores destruidores do mundo são os maiores "cidadãos de bem" do mundo...


"A Amazônia é destruída primeiro para especular, depois, ocasionalmente, alguns vão cogitar produzir soja para o gado comer ou gado para os humanes comerem. O roubo, devidamente lavado e legalizado, vira então “agronegócio”, os criminosos se tornam “cidadãos de bem”, alguns se tornam prefeitos, são reconhecidos nas sociedades locais como “pioneiros” e, com algum empenho, quando morrem, viram nome de rua e estátua na praça." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

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O que é um desgraçado de um grileiro?


"Grileiros são pessoas que tomam ilegalmente, em geral pela força, milhares, às vezes milhões, de hectares de terra pública. Na Amazônia, para consolidar seu domínio, usam milícias formadas por pistoleiros para expulsar os povos-floresta — indígenas, beiradeiros e quilombolas. Nesse processo, povos-floresta são assassinados, dando ao Brasil, ano após ano, o pódio dos países onde mais morrem defensores do meio ambiente. Os grileiros derrubam as árvores chamadas nobres, por ter valor no mercado nacional e internacional, e queimam o restante da vida, provocando as queimadas que assombraram o mundo em 2019. Depois, colocam bois apenas para garantir a posse. Com frequência, o trabalho ilegal é realizado por homens escravizados. Caso se revoltem, são enterrados ali mesmo, em covas que jamais serão encontradas." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

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Por que "grileiros"? Porque colocam grilos para cagarem em papéis para parecerem papéis antigos e velhos


"A especulação com a terra é o principal objetivo de parte dos grileiros, que ganharam esse nome porque no passado a fraude era consumada colocando-se papéis novos com grilos vivos numa caixa. Os excrementos desses insetos tão mimosos nas produções da Disney, mas conhecidos na Amazônia por outros talentos, forjavam a aparência amarelada típica de antigos títulos de terra, tornando-os portanto mais verossímeis." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

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Povos indígenas, beiradeiros e quilombolas são povos da resistência


"É preciso subverter esse olhar para enxergar melhor. O que chamamos de Brasil é um monumental exemplo de resistência. Ou, dito pelo avesso para voltar ao lado certo, o Brasil foi jogado contra indígenas — e os negros foram jogados no Brasil. E ainda assim indígenas e negros têm resistido por séculos. Não só têm resistido, como têm desformado o Brasil." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

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As resistências possíveis contra o fim do mundo


"Mas não é sobre isso que escrevo — ou é, mas não principalmente. Escrevo sobre resistência. Sobre como tornar a vida possível apesar de todas as formas de morte — ou, no caso dos povos originários no Brasil, apesar de tentarem matá-los de todas as formas há mais de quinhentos anos. Essa jornada pela Amazônia, para muito além da geografia, é também uma investigação sobre as resistências possíveis no momento em que vivemos o impossível da emergência climática e da sexta extinção em massa de espécies." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

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Bibliografia:

BRUM, Eliane. Banzeiro òkótó: uma viagem à Amazônia centro do mundo. Companhia das Letras: 2021.


sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Leitura: O genocídio do negro brasileiro - Abdias Nascimento



Refeição Cultural

Osasco, 6 de outubro de 2023. Sexta-feira.



"GENOCÍDIO – geno-cídio: O uso de medidas deliberadas e sistemáticas (como morte, injúria corporal e mental, impossíveis condições de vida, prevenção de nascimentos), calculadas para o extermínio de um grupo racial, político ou cultural ou para destruir a língua, a religião ou a cultura de um grupo. Webster’s Third New International Dictionary of the English Language, Springfield: G&C Merriam, 1967.

GENOCÍDIO – geno-cídio: Genocídio s.m. (neol.). Recusa do direito de existência a grupos humanos inteiros, pela exterminação de seus indivíduos, desintegração de suas instituições políticas, sociais, culturais, linguísticas e de seus sentimentos nacionais e religiosos. Ex.: perseguição hitlerista aos judeus, segregação racial etc. Dicionário Escolar do Professor, organizado por Francisco da Silveira Bueno. Brasília: Ministério da Educação e Cultura, 1963, p. 580." (from: "O Genocídio do negro brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado" by: Abdias Nascimento

REFLEXÃO

A leitura do livro O genocídio do negro brasileiro - Processo de um racismo mascarado (1978), do grande intelectual Abdias Nascimento (1914-2011), foi uma leitura que me trouxe grandes reflexões e novos conhecimentos. A obra de Abdias se incorpora aos textos que tenho lido recentemente que têm impactado profundamente minha forma de ver o mundo. 

Ao ler esse texto-denúncia de Abdias, ficou muito mais claro como eu - um branco - fui enganado ao longo de minha vida sobre o mito da "democracia racial" no Brasil. Como nós fomos enganados! Além de denunciar a mentira da "igualdade" de tratamento aos afrodescendentes, Abdias faz propostas de solução para o problema, propostas que seriam abraçadas pelas lutas antirracistas tempos depois. 

Quando leio e ouço os estudos e reflexões do intelectual Jessé Souza, nos explicando sobre o racismo estrutural na sociedade brasileira, compreendo cada dia mais por que as coisas são como são por aqui. Antes de Jessé, Abdias já nos alertava para a mentira da "democracia racial" para os afrodescendentes no Brasil. 

Devo agradecer ao Instituto Conhecimento Liberta (ICL), e especialmente aos professores Lindener Pareto e Suze Piza, a oportunidade que me deram da referência a Abdias Nascimento, pessoa incrível que eu nem conhecia para ser bem sincero como costumo ser. O livro de Abdias fez parte dos "13 livros para compreender o Brasil", curso que fiz no ICL (ler comentário aqui).

A busca pelo conhecimento é muito facilitada quando temos à disposição boas trilhas de estudos, caminhos a percorrer nas leituras e reflexões. É assim quando entramos em uma graduação de nível superior. As disciplinas e os mestres constroem listas e roteiros de leituras para percorrermos e galgarmos novos conhecimentos.

Escrevo há quase vinte anos que reconheço a minha ignorância (não saber) em quase todas as dimensões do conhecimento humano. Nunca neguei isso. Sou todo lacunas culturais e por isso leio, estudo e escrevo, para tentar melhorar como um ser vivo na natureza, ser que vive em sociedade, e melhorar como homo sapiens.

Os textos do livro são tão profundos - cada capítulo, cada ideia e cada argumento de Abdias Nascimento - que não adiantaria eu fazer diversas citações aqui no blog. E os textos complementares? Um melhor que o outro. Um dos prefácios, por exemplo, é feito por Florestan Fernandes!

No entanto, para deixar a curiosidade aguçar o desejo de leitura da obra, cito abaixo os capítulos do livro:

I. Introdução

II. Escravidão: O mito do senhor benevolente

III. Exploração sexual da mulher africana

IV. O mito do "africano livre"

V. O branqueamento da raça: uma estratégia de genocídio

VI. Discussão sobre raça: proibida

VII. Discriminação: realidade racial

VIII. Imagem racial internacional

IX. O embranquecimento cultural: outra estratégia de genocídio

X. A perseguida persistência da Cultura Africana no Brasil

XI. Sincretismo ou Folclorização?

XII. A bastardização da Cultura Afro-Brasileira

XIII. A estética da brancura nos artistas negros aculturados

XIV. Uma reação contra o embranquecimento: o Teatro Experimental do Negro

XV. Conclusão


Como nos ensinam os bons mestres, nenhuma crítica ou comentário sobre um livro substitui a leitura do próprio livro. LEIAM essa obra de Abdias, é o que posso deixar como sugestão aos que não desistiram de estudar e buscar compreensão da realidade do mundo.

Deixo abaixo, algumas citações só para instigar leitoras e leitores a lerem a obra de Abdias.

Antes disso, comento que achei emocionante ver que o 3º Governo Lula retomou o programa de bolsas de estudos Abdias Nascimento, criado no Governo Dilma em 2015, antes do golpe de Estado, e sem recursos desde então. Lula retomou o programa em junho de 2023 e hoje há recursos para as bolsas de estudos para afrodescendentes, indígenas e pessoas com deficiência. 

Lindo isso! Fizemos o L para isso, para criar oportunidades para tod@s no Brasil.

William

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A MENTIRA MITOLÓGICA DA "DEMOCRACIA RACIAL"

"O preconceito de cor, a discriminação racial e a ideologia racista permaneceram disfarçados sob a máscara da chamada “democracia racial”, ideologia com três principais objetivos: 1. impedir qualquer reivindicação baseada na origem racial daqueles que são discriminados por descenderem do negro africano; 2. assegurar que todo o resto do mundo jamais tome consciência do verdadeiro genocídio que se perpetra contra o povo negro do país; 3. aliviar a consciência de culpa da própria sociedade brasileira" (from: "O Genocídio do negro brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado", by: Abdias Nascimento)

A MENTIRA DA "LIBERTAÇÃO" DOS ESCRAVIZADOS

"Teoricamente livres, mas praticamente impedidos de trabalho, já que o imigrante europeu tinha a preferência dos empregadores, o negro continuou o escravo do desemprego, do subemprego, do crime, da prostituição, e principalmente, o escravo da fome: escravo de todas as formas de desintegração familiar e da personalidade." (from: "O Genocídio do negro brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado", by: Abdias Nascimento)

GENOCÍDIOS DE INDÍGENAS E AFRODESCENDENTES TRAVESTIDOS DE NOMES BONITOS

"A sociedade dominante no Brasil praticamente destruiu as populações indígenas que um dia foram majoritárias no país; essa mesma sociedade está às vésperas de completar o esmagamento dos descendentes africanos. As técnicas usadas têm sido diversas, conforme as circunstâncias, variando desde o mero uso das armas, às manipulações indiretas e sutis que uma hora se chama assimilação, outra hora aculturação ou miscigenação; outras vezes é o apelo à unidade nacional, à ação civilizadora, e assim por diante." (from: "O Genocídio do negro brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado", by: Abdias Nascimento)

ABDIAS NASCIMENTO E PAULO FREIRE

"Nossa arte negra é aquela comprometida na luta pela humanização da existência humana, pois assumimos com Paulo Freire ser esta 'a grande tarefa humanística e histórica do oprimido – libertar-se a si mesmo e aos opressores'." (from: "O Genocídio do negro brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado", by: Abdias Nascimento)


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Bibliografia:

NASCIMENTO, Abdias do. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. 1. ed. - São Paulo: Perspectivas, 2016. 232 páginas.

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

ICL: 13 livros para compreender o Brasil



Refeição Cultural

Curso do ICL: "13 livros para compreender o Brasil"


Este foi um dos primeiros cursos que fiz no Instituto Conhecimento Liberta (ICL), um projeto revolucionário de compartilhamento de cultura e saber de forma acessível para todas as pessoas. Por estar na grande São Paulo, tive o privilégio de ir às aulas presenciais na sede da instituição.

Antes de comentar abaixo as obras que vimos nas aulas, deixo para as leitoras e leitores do blog a sugestão de avaliarem a possibilidade de se inscreverem no ICL para fortalecerem o projeto e para acessarem uma gama enorme de cursos nas mais diversas áreas do saber. 

Quando vi o projeto do ICL, me lembrei do desejo que tive ao criar este blog lá em 2007 para compartilhar conhecimento de forma gratuita. Se possível, façam a assinatura solidária e ajudem mais pessoas a participarem do projeto e terem acesso ao conhecimento.

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Este curso apresentou a seguinte proposta de estudos:

"O curso apresenta 13 livros fundamentais para a compreensão da história e da sociedade brasileira. Com efeito, a partir de leituras comentadas, os professores Lindener Pareto e Suze Piza irão debater as grandes questões que marcam a cultura nacional. Movimento Negro, História das Mulheres, A questão Indígena e tantos outros temas da vida brasileira a partir de grandes clássicos como Euclides da Cunha, Carolina Maria de Jesus e Jessé Souza. Ao mesmo tempo, o curso apresenta uma proposta de leitura pública, incentivando a participação do público e celebrando a construção coletiva da leitura crítica."

A partir dessa proposta, a cada semana nos encontramos com os professores para refletirmos sobre uma obra e um autor ou autora comentados.

Participei de quase todas as aulas presenciais e já li alguns dos livros comentados no curso. Outros, comprei e ainda não fiz a leitura.

Neste momento da postagem, estou revendo as aulas gravadas e refletindo novamente sobre as obras e as questões debatidas.

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Aula 1: A queda do céu: palavras de um xamã yanomami, de Davi Kopenawa e Bruce Albert

Esta primeira aula não foi presencial em 5/10/22. Adquiri o livro em edição em papel. Ainda não li o livro. 

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Aula 2: O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul, de Luiz Felipe de Alencastro

Fui a esta aula presencial em 19/10/22. Não tinha o livro e o adquiri no formato digital. Não o li ainda.

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Aula 3: Liberdade, de Luiz Gama

Participei da aula (26/10/22). Fiquei impressionado com a história de Luiz Gama e com a produção intelectual desse brasileiro extraordinário. Adquiri o livro em formato digital e consegui ler o livro, que faz parte de uma coletânea sobre a vida e obra desse intelectual em diversos volumes. Ler comentário inicial aqui e sobre a leitura aqui.

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Aula 4: Os sertões, de Euclides da Cunha

Participei da aula em 9/11/22. Este livro é um dos livros que comecei a ler faz muito tempo e nunca terminei a leitura. Li a primeira parte "A terra" e a segunda parte "O homem" décadas atrás. Acabei deixando de ler à época a terceira parte "A luta" porque já sabia no que havia dado aquilo: mais uma chacina vergonhosa praticada pelas elites brasileiras contra os movimentos populares. Por causa do curso, acabei retomando a leitura, mas ainda falta o final, a 4ª expedição. Comentários aqui.

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Aula 5: Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus

Participei da aula (16/11/22). Ainda não li este livro, que já adquiri. A leitura coletiva de alguns trechos do diário da autora foi marcada por momentos de emoção, pois os relatos são de fome, de miséria na favela e resistência de uma mulher negra que acorda todos os dias sem a certeza de que conseguirá algum dinheiro catando papel ou outros recicláveis para alimentar seus filhos. (revi a aula na plataforma em 12/9/23).

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Aula 6: Macunaíma, de Mário de Andrade

Participei da aula presencial em 23/11/22 (revi a aula na plataforma em 12/9/23). Já li umas três vezes Macunaíma, a última vez para a aula do ICL. Clique aqui para ler a respeito da última leitura, feita na ocasião do curso. Fiz uma reflexão sobre aquele momento vivido pelo Brasil.

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Aula 7: Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa

Estive na aula em 30/11/22. Tenho uma longa história com este livro. Durante anos tentei ler o romance até o fim e não conseguia. Hoje é um livro que já li e releio sempre. Das várias postagens no blog, esta aqui é após a conclusão da leitura. Revi a aula na plataforma na madrugada de 13/9/23.

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Aula 8: Como o racismo criou o Brasil, de Jessé Souza

Participei da aula em 6/12/22. Temos a edição impressa do livro em casa, mas não o li ainda. Revi a aula na plataforma em 10/9/23.

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Aula 9: Genocídio do negro brasileiro, de Abdias do Nascimento.

Estive na aula em 14/12/22. Não li o livro ainda, mas o adquiri no formato digital no dia que revi a aula na plataforma em 11/9/23. Após a aquisição, já li o Prefácio à Edição Brasileira, por Florestan Fernandes, o Prefácio à Edição Nigeriana, por Wole Soyinka, e o Prólogo: A História de uma rejeição, do próprio Abdias Nascimento. Textos fantásticos!

Post Scriptum (10/10/23): A leitura do livro de Abdias Nascimento foi impactante. A crítica direta e objetiva que ele faz aos intelectuais brasileiros que usaram de suas posições para endossar ou amenizar a tragédia do racismo no país é única. Só fui ver algo parecido em Jessé Souza, décadas depois de Abdias. Ler comentário sobre a leitura aqui. Revi a aula hoje, após ler a obra.

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Aula 10: Insubmissas Lágrimas de Mulheres, de Conceição Evaristo

Participei da aula presencial em 21/12/22. Tenho o livro em formato digital e já li a obra. Ler Conceição Evaristo é um privilégio para qualquer pessoa. Já li algumas obras da autora e ela é fantástica! Ler aqui o comentário que fiz sobre este livro. Revi a aula na plataforma em 13/9/23.

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Aula 11: Brasil - Mito fundador e sociedade autoritária, de Marilena Chauí

Esta aula foi gravada em janeiro de 2023 pela professora Suze Piza. Adquiri a obra pela internet em formato digital e não a li ainda. Assisti à aula pela plataforma em 13/9/23. A professora fez uma explanação sobre o contexto no qual a obra foi lançada pela filósofa Chauí, na virada dos anos dois mil e durante as "comemorações" dos 500 anos do "Descobrimento". Muito esclarecedora a questão do "mito fundador" que nos acultura desde que nascemos no Brasil.

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Aula 12: Torto arado, de Itamar Vieira Junior

Li o livro antes da aula em 24/1/23, mas não consegui chegar a tempo de participar da aula, pois estava na Colônia do Sinpro SP, na Praia Grande. Fiz uma postagem sobre o livro: ler aqui.

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Aula 13: Banzeiro òkòtó, de Eliane Brum

Aula gravada e transmitida pela plataforma. Não li o livro ainda. Revi a aula em 14/9/23. Adquiri o livro no formato digital. Li dois capítulos e fiquei encantado com o conteúdo e a proposta de reflexão da autora. 

Ao ler o capítulo "desestrutura" me senti representado pelas palavras de Brum. Me identifiquei com a descrição de desconforto da escritora por ser uma branca no Brasil. Não é fácil lidar com o fato de ser um branco privilegiado num país racista que desde as invasões europeias define a vida de cada um de nós por sua estrutura racista, violenta e autoritária.

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Aula 14: Roda de conversa sobre leituras públicas e formação de coletividades

Participei desse encontro presencial de fechamento do curso em 30/1/23. Revi a aula na plataforma em 14/9/23. Na exposição de ideias foram feitas reflexões profundas sobre livros e meios de registro e transmissão de informações e conteúdos ao longo da história humana. Fiz intervenção ao final. Tive a oportunidade de expor o que penso várias vezes durante o curso.

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REFLEXÕES

Gostei muito do curso! Ao longo do processo de aprendizagem, acabei lendo livros que talvez não leria se não fosse a referência do curso. Isso é muito bom, a programação organizada pelos professores Suze Piza e Lindener Pareto nos abre novas perspectivas de leitura de mundo.

Foi assim com a leitura sobre Luiz Gama (Liberdade) e o romance de Itamar Vieira Junior (Torto arado). Também acabei lendo um livro que não havia lido ainda da autora Conceição Evaristo (Insubmissas lágrimas de mulheres).

Em relação aos livros e autores que já conhecia, adorei ouvir reflexões novas sobre os temas. Os clássicos de Mário de Andrade (Macunaíma), Guimarães Rosa (Grande Sertão: Veredas) e Euclides da Cunha (Os sertões) são parte da história da cultura brasileira, para o bem e para o mal.

E ficam as leituras novas como desafios intelectuais para mim, pois ainda tenho que ler 7 obras abordadas durante o curso. Já as tenho todas e agora é só mergulhar nas leituras nos próximos meses de vida.

O percurso de leitura será extraordinário para mim por causa do leque de conhecimento contido nas obras: A queda do céu, de Kopenawa; O trato dos viventes, de Alencastro; Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus; Como o racismo criou o Brasil, de Jessé Souza; Genocídio do negro brasileiro, de Abdias Nascimento; Brasil - Mito fundador e sociedade autoritária, de Marilena Chauí; Banzeiro Òkòtó, de Eliane Brum.

Deixo meu agradecimento aos professores Suze Piza e Lindener Pareto pela oportunidade e ao ICL.

Sigamos estudando e aprendendo sobre nós mesmos, a vida, o Brasil e o mundo.

William