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segunda-feira, 7 de abril de 2025

Casa-grande & Senzala (2)



Refeição Cultural 

CASA-GRANDE & SENZALA


"Foi o estudo de antropologia sob a orientação do professor Boas que primeiro me revelou o negro e o mulato no seu justo valor - separados dos traços de raça os efeitos do ambiente ou da experiência cultural. Aprendi a considerar fundamental a diferença entre raça e cultura; a discriminar entre os efeitos de relações puramente genéticas e os de influências sociais, de herança cultural e de meio. Neste critério de diferenciação fundamental entre raça e cultura assenta todo o plano deste ensaio. Também no de diferenciação entre hereditariedade de raça e hereditariedade de família." (Casa-grande & Senzala, Gilberto Freyre, 2011, p. 32)


Li hoje mais algumas páginas do Prefácio à 1a edição (1933) do ensaio de Gilberto Freyre. Lendo-o quase um século depois de sua época, o leitor tem que relevar muita coisa para seguir na leitura. 

Senti o mesmo mal-estar ao ler Os sertões, de Euclides da Cunha. Naquela época, eram dominantes teorias bastante questionáveis como o positivismo e a crença na eugenia.

Enfim, a leitura e os estudos são atividades fundamentais para nos diferenciar das demais espécies animais. 

Os tempos e os donos do poder, as ideologias dominantes, atuam para que eu e vocês nos comportemos como gados, como bichos irracionais. Ou como idiotas crédulos.

Seguirei até o último dia de vida tentando ser um ser humano, um homo sapiens. E um ser dotado de ética.  

William 


Post Scriptum: o texto anterior pode ser lido aqui.


terça-feira, 25 de março de 2025

Casa-grande & Senzala (1)



Refeição Cultural 

CASA-GRANDE & SENZALA


"Mas a casa-grande patriarcal não foi apenas fortaleza, capela, escola, oficina, santa casa, harém, convento de moças, hospedaria. Desempenhou outra função importante na economia brasileira: foi também banco. Dentro das suas grossas paredes, debaixo dos tijolos ou mosaicos, no chão, enterrava-se dinheiro, guardavam-se joias, ouro, valores. Às vezes guardavam-se joias nas capelas, enfeitando os santos. Daí Nossas Senhoras sobrecarregadas à baiana de teteias, balangandãs, corações, cavalinhos, cachorrinhos e correntes de ouro..." (p. 40)


Nunca li o clássico de Gilberto Freyre. Até li umas dezenas de páginas em 2017, mas parei de ler.

Tenho uma certa birra com o ensaio de Gilberto Freyre. Mas acho um texto referencial, todos nós deveríamos lê-lo. 

Inventei de fazer a pós-graduação do Instituto Conhecimento Liberta (ICL) meio que de forma impulsiva. Fiz isso a vida toda: inicio percursos de cultura e conhecimento por desejo e depois acabo não finalizando o percurso por alguma dificuldade. 

Nos textos da bibliografia da primeira disciplina "Narrativas da História do Brasil" e nas aulas e debates, Gilberto Freyre é sempre citado, nem sempre de forma elogiosa.

Peguei minha edição do livro, reli a introdução de Fernando Henrique Cardoso - "Um livro perene" -, e estou lendo o Prefácio à 1a edição, de 1933.

Que dizer? É um clássico das tentativas de explicação sobre o Brasil e os brasileiros. Não concordo com o pouco que li da tese do autor. Cheguei a ler quase duzentas páginas na primeira vez que encarei o ensaio de Freyre. 

Enfim, ler é sempre uma atitude que nos faz humanos. 

William 

domingo, 19 de novembro de 2017

Casa-grande & senzala - Será que um dia o povo brasileiro vai superar esse vício de origem?


Podemos não gostar do que Freyre descreve e opina, mas
é só olhar ao nosso redor e vemos todo o lixo autoritário
dominante dos membros da casa-grande prevalecendo...

Refeição Cultural

Estava agora pela manhã de domingo lendo o segundo capítulo do ensaio de 1933 de Gilberto Freyre, Casa-grande & senzala. O capítulo "O indígena na formação da família brasileira" traz muitos aspectos interessantes e curiosidades culturais, se considerarmos que somos bichos urbanos do século 21 num mundo sem conexão com o passado, com o passado coletivo e comum do povo brasileiro.

Esses ensaios e estudos de grandes pensadores brasileiros como Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, Antonio Candido, Celso Furtado, Sérgio Buarque de Holanda, dentre outros, pensando os intelectuais da primeira para a segunda metade do século 20, são para serem lidos lentamente, refletindo, observando ao redor para ver o nosso mundo e comparar se tem sentido ou não o que eles nos apontam como origens, males e benefícios do povo brasileiro.

Eu não tive a oportunidade de ler e estudar como gostaria na adolescência e vida adulta por causa de minha própria origem, no mundo miserável da classe trabalhadora brasileira. Nós povo sem posses e meios de produção trabalhamos desde pequenos por alguns tostões e assim seguimos quase até a morte na idade adulta e madura. 

Tivemos alguma esperança no início do século 21 com governos progressistas no Brasil e América do Sul e com olhares mais voltados ao povo excluído das riquezas do país. Vieram os golpes da casa-grande.

Neste momento de nossas vidas sul-americanas, após as quedas de governos progressistas e mais inclusivos como, por exemplo, os do Partido dos Trabalhadores, nos vemos numa hecatombe de retrocessos seculares nos direitos gerais do povo brasileiro em benefício de uma pequena casta da elite (a casa-grande de sempre).

Será que um dia vamos superar esse domínio dos senhores da casa-grande? O domínio da casa-grande envolve todos, todos, os espaços da sociedade constituída desde a origem, basta ver o exemplo do caso brasileiro, uma terra invadida para ser colônia de exploração em função do império invasor.

Mudaram os impérios que dominam nossa terra de exploração; mudaram os séculos e as formas de exploração dos povos; não mudaram as relações de domínio da casa-grande sobre a massa do povo brasileiro. Nossa pequena elite segue sendo lesa-pátria, canalha e vil. Não mudaram a injustiça e a iniquidade da casa-grande e seus lacaios e capitães do mato em relação ao povo, a nós excluídos daquele 1% detentor de tudo.

Esses lacaios e capitães do mato dos membros da casa-grande estão hoje com roupagem nova: nos executivos e legislativos, nos espaços do judiciário, nos espaços de reprodução da ideologia da casa-grande - os meios de comunicação de massa. E pouca gente tem consciência de classe para enfrentar isso de forma coesa e coletiva.

E eu que tenho plena consciência de classe trabalhadora, que sei de que lado estou, nem posso chorar, me lamentar, sequer desistir ou morrer, porque sei que desistir não é uma opção. Só a luta coletiva e unitária do meu povo é que garante um fio de esperança contra toda essa merda que voltou a dominar o nosso querido país.

É isso!

William


Post Scriptum:

Organizar meus "cadernos" de memórias, tanto do
Categoria Bancária quanto do Refeitório Cultural,
 tem me dado trabalho, mas tem valido a pena
porque me faz refletir sobre meu papel,
os acertos e erros que temos feito.

Desde muito jovem tenho o hábito de escrever minhas opiniões e após o advento da internet criei blogs para partilhar conhecimento e opiniões. Ao reler diários, memórias, reflexões, e revisar meus registros nos blogs que mantenho, vejo lá vários sinais e impressões do que poderia ocorrer no Brasil tempos depois. Vejo também o quanto foi importante registrar meu olhar sobre os acontecimentos porque somos humanos e nosso passado histórico é fundamental para pensar o futuro da humanidade.

domingo, 8 de outubro de 2017

Casa-grande & Senzala - O indígena na formação da família brasileira





Refeição Cultural

Aproveitei o sábado de descanso de meu mandato em defesa da autogestão em saúde e dos direitos dos trabalhadores do Banco do Brasil para estudar e refletir um pouco sobre a história de nosso querido Brasil, que vive sob Golpe de Estado desde 2016 e hoje tem parte da máquina pública dominada por gente lesa-pátria, destruindo o patrimônio público e social do povo brasileiro.

Ao acordar ainda cansado de uma semana em que dormi muito pouco como ocorreu nas anteriores, fiquei pensando em qual autor eu pegava para ler. Pensei em contos de Machado de Assis ou Guimarães Rosa, mas achei melhor pegar o Casa-grande & Senzala (1933), de Gilberto Freyre.

Antes, porém, li alguns artigos jornalísticos. Tem me chamado a atenção o quanto textos que deveriam ser considerados de linguagem padrão estão sendo publicados e divulgados com erros de digitação, de sintaxe, de ortografia, de concordância etc. Eu não tenho crítica a textos informais ou com dialetos em escrita não-padrão como blogs. Toda vez que reviso meus textos, por exemplo, acabo encontrando uma digitação errada ou coisa do tipo. Mas jornais e revistas e sites institucionais são outra coisa.

Eu sei da péssima qualidade do jornalismo brasileiro, mas ao ler dois artigos em jornais espanhóis, a partir de leituras na página da RAE (La Real Academia Española) vi os mesmos tipos de erros. Acredito que nossos cérebros estão se diluindo com a comunicação e a informação mundial a partir da velocidade das redes sociais. Acho que estamos ficando menos inteligentes.

Quando penso na perspectiva de estar aproveitando menos as possibilidades de minha inteligência, da minha capacidade de pensar, me exaspero e busco uma forma de pegar algo complexo para ler e estudar. Faço isso nas horas de folga, mesmo sabendo que meu trabalho de gestor em saúde já é uma mescla entre a técnica e a política, ou seja, já exige capacidade intelectiva o tempo todo.


Lendo Casa-grande & Senzala

Capítulo II - O indígena na formação da família brasileira

Iniciei neste sábado o capítulo II do ensaio de Gilberto Freyre. A leitura foi de muita curiosidade, pois não sabia de várias coisas que são narradas ali pelo autor. No entanto, me incomodam bastante as adjetivações do ensaísta ao comparar os povos de cá das terras invadidas e os povos trazidos da África com os europeus, mas fazer o que, né?

Freire apresenta sua leitura das diferenças de colonização portuguesa e espanhola nas Américas, inclusive em relação aos ingleses e demais europeus. Ao encontrar povos mais ou menos organizados em relação à cultura e às tecnologias, os espanhóis agiram de forma a exterminar maias, astecas e incas, para roubar seus minerais. Já os portugueses encontraram povos em geral mais dóceis e com culturas mais rústicas, e o primeiro período de colonização foi, via de regra, de convívio.

"Os portugueses, além de menos ardentes na ortodoxia que os espanhóis e menos estritos que os ingleses nos preconceitos de cor e de moral cristã, vieram defrontar-se na América, não com nenhum povo articulado em império ou em sistema já vigoroso de cultura moral e material - com palácios, sacrifícios humanos aos deuses, monumentos, pontes, obras de irrigação e de exploração de minas - mas, ao contrário, com uma das populações mais rasteiras do continente..."

E segue comparando os cenários diferentes encontrados por espanhóis e portugueses:

"De modo que não é o encontro de uma cultura exuberante de maturidade com outra já adolescente, que aqui se verifica; a colonização europeia vem surpreender nesta parte da América quase que bandos de crianças grandes; uma cultura verde e incipiente; ainda na primeira dentição; sem os ossos nem o desenvolvimento nem a resistência das grandes semicivilizações americanas..."

Ao enfrentar as rebeliões dos indígenas do solo brasileiro, os portugueses não precisaram exterminar completamente os povos, como fizeram os espanhóis com maias, incas e astecas.

"(...) mesmo quando acirrou-se em inimigo, o indígena ainda foi vegetal na agressão: quase mero auxiliar da floresta. Não houve da parte dele capacidade técnica ou política de reação que excitasse no branco a política do extermínio seguida pelos espanhóis no México e no Peru..."


Essas questões iniciais, mais a questão do papel das mulheres indígenas na relação com os colonizadores portugueses em solo brasileiro, vão definir de forma permanente as características dos nascidos aqui nos dois primeiros séculos de dominação portuguesa.

"Híbrida desde o início, a sociedade brasileira é de todas da América a que se constituiu mais harmoniosamente quanto às relações de raça dentro de um ambiente de quase reciprocidade cultural que resultou no máximo de aproveitamento dos valores e experiências dos povos atrasados pelo adiantado; no máximo de contemporização da cultura adventícia com a nativa, da do conquistador com a do conquistado. Organizou-se uma sociedade cristã na superestrutura, com a mulher indígena, recém-batizada, por esposa e mãe de família; e servindo-se em sua economia e vida doméstica de muitas das tradições, experiências e utensílios da gente autóctone..."

A geração de filhos portugueses com índias e depois com as mulheres negras vindas do continente africano, apesar de ser consequência mais de satisfação biológica que outra coisa, se mostrou estratégica com o passar do tempo naquele primeiro século de colonização portuguesa por causa da questão da necessidade de ocupação espacial do continente.

"Observou Southey que o sistema colonial português se revelara mais feliz do que nenhum outro no tocante às relações do europeu com as raças de cor; mas salientando que semelhante sistema fora antes 'filho da necessidade' do que de deliberada orientação social ou política (...) Para a formidável tarefa de colonizar uma extensão como o Brasil, teve Portugal de valer-se no século XVI do resto de homens que lhe deixara a aventura da Índia..."

Algumas explicações de Freyre nos fazem refletir bastante e olhar para nosso passado. Das conclusões do pensador, vemos a alimentação que temos hoje, as diversas formas de cultura oriundas dessa mistura de culturas distintas adaptadas para sobreviver nesta nossa terra.

"À mulher gentia temos que considerá-la não só a base física da família brasileira, aquela em que se apoiou, robustecendo-se e multiplicando-se, a energia de reduzido número de povoadores europeus, mas valioso elemento de cultura, pelo menos material, na formação brasileira..."


Leitura de Casa-grande & Senzala se dá num triste momento brasileiro do século XXI, com retrocessos sociais enormes no pós golpe

Enfim, essas citações que postei são somente pitadas de toda a curiosidade que li através das interpretações de Gilberto Freyre na primeira parte do capítulo (que é grande). 

Muitas das explicações sobre a formação social brasileira têm sentido e nos fazem compreender um pouco do que vivemos neste momento como a geração que está vendo o Brasil pós golpe se tornar mais intolerante e preconceituoso, mais desigual e injusto com os povos oriundos das senzalas ou dos quintais e arredores das casas grandes.

Após quase 13 anos de governos mais voltados para prioridades populares como os de Lula e Dilma, do Partido dos Trabalhadores, e mesmo após mais de 25 anos de conquista da Constituição Federal de 1988, dita "constituição cidadã" porque foi fruto de lutas e mobilizações sociais nos anos oitenta após mais de duas décadas de ditadura civil-militar, vemos um ataque virulento e rápido dos golpistas em destruir décadas de conquistas do povo.

Onde vamos parar? Se o povo brasileiro demorar um pouco mais para reagir e retomar o Estado e suas instituições para si, o Brasil se perderá para sempre. As entregas lesas-pátrias do patrimônio público para corporações estrangeiras estão sendo feitas a cada semana desde o golpe porque se acredita que o povo não lutará para retomar o patrimônio doado quando a democracia voltar, se voltar.

É isso! O tempo de reagir é curto, mas cadê a reação dos milhões e milhões de cidadãos que num curto espaço de tempo histórico (anos) acessaram tantas conquistas sociais e agora num tempo muito mais curto ainda (de meses) veem seus direitos sociais escoarem pelo ralo sem reação à altura, mesmo que seja através de insubordinação ou guerra civil contra os da casa grande instalados nos aparelhos do Estado (em estado de exceção) que aí está?

William
Um brasileiro


Post Scriptum:

Por falar em língua padrão e não-padrão, eu não gosto de algumas mudanças do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, em vigor desde 2009, que mexeu em acentos, hífen, trema e outras coisas. Quando me apetece, eu não respeito o que está determinado. Como disse acima, sei que não posso fazer isso num ofício, mas posso fazer nos meus blogs...

sábado, 30 de setembro de 2017

Casa-grande & Senzala - Miscigenação ou fome os males do brasileiro?





Refeição Cultural


"A fome do homem

A fome do homem.
A fome que come o homem.
O homem com fome.

A fome de ontem.
A fome que come o homem.
A fome não some.

O homem não come.
A fome de ontem.
O homem que some."

(Poema de wmofox, pseudônimo de William Mendes)




Em relação à leitura do Prefácio do ensaio de Gilberto Freyre, ele nos aponta por onde irá seu plano de compreensão a respeito das consequências da colonização portuguesa nos primeiros séculos de conformação do povo brasileiro.

"Foi o estudo de antropologia sob a orientação do professor Boas que primeiro me revelou o negro e o mulato no seu justo valor - separados dos traços de raça os efeitos do ambiente ou da experiência cultural. Aprendi a considerar fundamental a diferença entre raça e cultura, a discriminar entre os efeitos de relações puramente genéticas e os de influências sociais, de herança cultural e de meio. Neste critério de diferenciação fundamental entre raça e cultura assenta todo o plano deste ensaio. Também no da diferenciação entre hereditariedade de raça e hereditariedade de família." (Página 32)


Já ouvi nos círculos intelectuais e também nos ambientes populares uma tese de que o povo brasileiro não seria boa coisa por ser fruto de miscigenação de índios, negros e portugueses. Nunca gostei da teoria e acho ela ideologizada, o que é natural na disputa de hegemonia de ideias nas sociedades. É através das narrativas dos segmentos sociais que se formam as culturas e as hegemonias.

Freyre apresenta a questão do materialismo histórico e da influência das questões de produção econômica no resultado das conformações sociais.

"Por menos inclinados que sejamos ao materialismo histórico, tantas vezes exagerado nas suas generalizações - principalmente em trabalhos de sectários e fanáticos - temos que admitir influência considerável, embora nem sempre preponderante, da técnica da produção econômica sobre a estrutura das sociedades; na caracterização da sua fisionomia moral. É uma influência sujeita a reação de outras; porém poderosa como nenhuma na capacidade de aristocratizar ou de democratizar as sociedades; de desenvolver tendências para a poligamia ou a monogamia; para a estratificação ou a mobilidade."


"É uma questão de economia, estúpidos" como se diz por aí.

Ainda que Freyre esteja falando nos anos trinta, ele comenta que mesmo que se considerasse avanços na eugenia, sem resolver as questões sociais de miséria e má distribuição da produção humana, os proletários sofreriam as influências físicas da má nutrição.

"Lembra Franz Boas que, admitida a possibilidade da eugenia eliminar os elementos indesejáveis de uma sociedade, a seleção eugênica deixaria de suprimir as condições sociais responsáveis pelos proletários miseráveis - gente doente e mal nutrida; e persistindo tais condições sociais, de novo se formariam os mesmos proletários."


Ou seja, passadas tantas décadas de discussão a respeito da fome e miséria a que são submetidos os povos de nosso querido Brasil, o que vimos entre o início dos anos dois mil e 2015, com os governos do Partido dos Trabalhadores, através das presidências de Lula e Dilma, foi a quase extinção da fome no País. Com os programas sociais implementados, saímos do mapa da fome mundial. 

E agora, com o Golpe de Estado em 2016, golpe que contou com a participação do sociólogo que apresentou este ensaio de Freyre, o senhor FHC, estamos caminhando para voltarmos ao mapa da fome e a caçada aos direitos sociais já provoca miséria e fome a milhões de proletários de nosso País.

Depois o autor vai entrar nas explicações que eu já li em Celso Furtado sobre os efeitos danosos da monocultura da cana de açúcar sobre o solo e áreas cultiváveis e a consequência maléfica da carestia de alimentos para o conjunto das populações no entorno, inclusive da casa-grande.

Mais adiante, o autor vai falar de supostas vantagens da miscigenação entre os brancos europeus e as mulheres que aqui estavam - índias e negras oriundas da escravidão.

No entanto, é importante o fato de Freyre desfazer o mito da "degeneração de raça" devido à miscigenação. Ele afirma que o problema na saúde dos povos miscigenados é a fome e a miséria.

Além da miséria e da fome, nos é lembrado também de uma herança negativa trazida pelo branco europeu: a sífilis.

"Salientam-se entre as consequências da hiponutrição a diminuição da estatura, do peso e do perímetro torácico; deformações esqueléticas; descalcificação dos dentes; insuficiências tiróidea, hipofisária e gonadial provocadoras da velhice prematura, fertilidade em geral pobre, apatia, não raro infecundidade. Exatamente os traços de vida estéril e de físico inferior que geralmente se associam às sub-raças: ao sangue maldito das chamadas 'raças inferiores'. Não se devem esquecer outras influências sociais que aqui se desenvolveram com o sistema patriarcal e escravocrata de colonização: a sífilis, por exemplo, responsável por tantos dos 'mulatos doentes' de que fala Roquete-Pinto e a que Ruediger Bilden atribui grande importância no estudo da formação brasileira" (Página 34)


Enfim, fica a reflexão aos amig@s leitores sobre discussões tão antigas a respeito da formação de nosso povo brasileiro.

Apesar de ser um cidadão atuante nas lutas por uma sociedade mais humana, justa e igualitária, não tem como negar a tristeza que temos sentido ao ver o grau de degradação por que passa nosso País após o golpe que ceifou a democracia e abalou as estruturas do Estado.

Conhecer nosso passado, refletir sobre ele e sobre o presente, analisando erros e acertos, é uma forma de alimentar nossa inteligência na busca por saídas alternativas ao marasmo em que nos colocamos no momento atual de crise institucional.

Abraços a tod@s,

William
Cidadão leitor

domingo, 3 de setembro de 2017

Casa-grande & Senzala - Leitura do 1º Capítulo





Refeitório Cultural

Não foi fácil terminar o primeiro capítulo do ensaio de Gilberto Freyre (de 1933). Além de ser uma leitura lenta, complexa, eu fui metódico e li todas as notas ao final do capítulo. Para se ter uma ideia sobre a importância das notas e referências, enquanto o capítulo teve 53 páginas, as notas ocuparam 28, sendo a letra destas minúscula.

Com o Prefácio à 1ª Edição, do próprio Freyre, já tinha se dado o mesmo: foram 25 páginas de explicações sobre a obra e várias notas em 10 páginas.

Apesar da leitura cansativa, e eu só posso me dedicar a estudos assim em finais de semana, eu já acrescentei em minhas reflexões visões novas e interessantes em relação ao pensamento a respeito da formação do Brasil e do povo brasileiro. A questão da má alimentação e da fome do brasileiro ao longo dos séculos, eu já havia lido em Celso Furtado - Formação Econômica do Brasil (1959), mais na forma de comentário que de aprofundamento. Clique AQUI para postagens sobre Celso Furtado.

No entanto, ao ler a obra neste momento, no Brasil do século 21, no pós Golpe de Estado em 2016, e vendo a destruição de nosso País e do patrimônio público e dos direitos do povo, a leitura ganha uma importância maior, eu diria de resistência ao torpor em que o povo foi colocado e segue sendo mantido pelos meios empresarias de manipulação de massa.

O capítulo primeiro se chama "Características gerais da colonização portuguesa do Brasil: formação de uma sociedade agrária, escravocrata e híbrida". Me lembrei de toda a obra de Machado de Assis, onde o locus era exatamente esse no século 19. Clique AQUI para postagens sobre Machado de Assis.

Se eu tivesse fôlego, faria uma longa postagem com várias passagens que achei interessantes, mas tenho pouco tempo para isso. Fica a sugestão de leitura aos nossos amig@s leitores.


UM PAÍS DE SENHORES E ESCRAVOS

A conclusão a que chega Gilberto Freyre ao final do capítulo segue bem atual: somos um país de senhores e escravos.

"Considerada de modo geral, a formação brasileira tem sido, na verdade, como já salientamos às primeiras páginas deste ensaio, um processo de equilíbrio de antagonismos. Antagonismos de economia e de cultura. A cultura europeia e a indígena. A europeia e a africana. A africana e a indígena. A economia agrária e a pastoril. A agrária e a mineira. O católico e o herege. O jesuíta e o fazendeiro. O bandeirante e o senhor de engenho. O paulista e o emboaba. O pernambucano e o mascate. O grande proprietário e o pária. O bacharel e o analfabeto. Mas predominando sobre todos os antagonismos, o mais geral e o mais profundo: o senhor e o escravo". (pág. 116)


MÁ ALIMENTAÇÃO, POR CAUSA DA MONOCULTURA DO AÇÚCAR, E SÍFILIS ("OS MALES DO BRASIL SÃO", PARAFRASEANDO MACUNAÍMA)

Na questão da colonização portuguesa e na ocupação exploradora de grandes espaços geográficos como foi o nosso caso, eu ainda não tinha ouvido falar, de forma tão contundente, em uma explicação que desviasse do lugar-comum pejorativo ao achincalhar o povo brasileiro por causa de sua característica miscigenação. Freyre diz que dois fatores que prejudicaram muito o povo que surgia da colonização foram a fome e a má alimentação, por causa da monocultura do açúcar, e a sífilis, trazida pelos europeus desde o início do século 16.

"Costuma dizer-se que a civilização e a sifilização andam juntas: o Brasil, entretanto, parece ter-se sifilizado antes de se haver civilizado..." (pág. 110)

"Sob o ponto de vista da miscigenação foram aqueles povoadores à toa que prepararam o campo para o único processo de colonização que teria sido possível no Brasil: o da formação, pela poligamia - já que era escasso o número de europeus - de uma sociedade híbrida..." (pág. 110)

"A sifilização do Brasil resultou, ao que parece, dos primeiros encontros, alguns fortuitos, de praia, de europeus com índias. Não só de portugueses como de franceses e espanhóis. Mas principalmente de portugueses e franceses. Degredados, cristãos-novos, traficantes normandos de madeira de tinta que aqui ficavam, deixados pelos seus para irem se acamaradando com os indígenas; e que acabavam muitas vezes tomando gosto pela vida desregrada no meio de mulher fácil e à sombra de cajueiros e araçazeiros..." (pág. 111)


Enfim, como disse a vocês, gostaria de fazer várias citações, em relação à questão da fome e da má alimentação, tanto entre os escravos quanto na casa-grande, por não haver opções de alimento. É lógico que muito pior a condição na senzala.

Também tem explicações e teses sobre o porquê do Brasil não se separar em diversos países como foi no caso da América espanhola.

Meu desejo é voltar em outras postagens ainda sobre o prefácio e sobre o capítulo um, antes de continuar a leitura do livro.

Clique AQUI e leia postagem anterior sobre o livro, onde comento uma introdução feita por FHC em 2003. E clique AQUI para a primeira postagem sobre o livro.

Abraços aos leitores!

William

sábado, 2 de setembro de 2017

Lendo Casa-grande & Senzala, de Gilberto Freyre




Refeição Cultural

"Casa-grande & Senzala

Ninguém escreveu em português
no brasileiro de sua língua:
esse à vontade que é o da rede,
dos alpendres, da alma mestiça,
medindo sua prosa de sesta,
ou prosa de quem se espreguiça."

(João Cabral de Melo Neto, in: Museu de tudo,  Rio de Janeiro, José Olympio, 1975)


A INTRODUÇÃO FEITA POR FHC

A introdução da edição que tenho do ensaio de Gilberto Freyre é de Fernando Henrique Cardoso (de 2003). Li só por disciplina de leitor, porque o ex-presidente é uma das figuras que mais abomino no mundo humano, e, na minha opinião, ele prejudicou como poucos o nosso País ao longo da sua história republicana.

FHC faz críticas duras à obra de Freyre, sob o ponto de vista da técnica acadêmica. Exemplo: 

"Gilberto Freyre tinha a pachorra e a paixão pelo detalhe, pela minúcia, pelo concreto. A tessitura assim formada, entretanto, levava-o frequentemente à simplificação habitual dos grandes muralistas. Na projeção de cada minúcia para compor o painel surgem construções hiperrealistas mescladas com perspectivas surrealistas que tornam o real fugídio..."

Mostra o ponto de vista de Freyre em sua obra: 

"É indiscutível, contudo, que a visão do mundo patriarcal de nosso autor assume a perspectiva do branco e do senhor. Por mais que ele valorize a cultura negra e mesmo o comportamento do negro como uma das bases da 'brasilidade' e que proclame a mestiçagem como algo positivo, no conjunto fica a sensação de uma certa nostalgia do 'tempo dos nossos avôs e bisavôs'. Maus tempos, sem dúvida, para a maioria dos brasileiros"

Eu acho de um cinismo sem igual o FHC falar isso de Freyre em 2003, após ter estado por oito anos na cadeira da presidência da república brasileira e ter feito o que ele fez para o povo brasileiro e o próprio País: ou seja, não fez nada que não fosse aprofundar o vira-latismo d'alma imposto a nós pelos ocupantes da casa-grande, acostumados a olhar a terra nativa como colônia de exploração, e o coração estar no hemisfério Norte do imperialismo, seja o mundo ibérico, seja o inglês, seja o americano.

Aqui aponta uma crítica que sempre ouvi dizer a respeito da obra de Freyre: 

"Não preciso referir-me aos aspectos vulneráveis já salientados por muitos comentadores de Gilberto Freyre: suas confusões entre raça e cultura, seu ecletismo metodológico, o quase embuste do mito da democracia racial, a ausência de conflitos entre as classes, ou mesmo a 'ideologia da cultura brasileira' baseada na plasticidade e no hibridismo inato que teríamos herdado dos ibéricos. Todos esses aspectos foram justamente apontados por muitos críticos, entre os quais Carlos Guilherme Mota"

De novo, cito abaixo mais duas observações do intelectual do bairro Higienópolis, FHC, branquinho e limpinho, em relação ao seu colega Gilberto Freyre, para evidenciar o meu asco em relação ao ex-presidente que mais fez o Brasil regredir à sua condição de colônia de exploração dos imperialismos do Norte:

"(...) Da moral permissiva, dos excessos sexuais ou do arbítrio selvagem dos senhores, não há passagem para uma sociabilidade mais ampla, nacional. Fica-se atolado no patrimonialismo familístico, que Freyre confunde frequentemente com o feudalismo..."

"(...) De novo, no equilíbrio entre contrários, aparece uma espécie de racionalização que, em nome das características 'plásticas', tolera o intolerável, o aspecto arbitrário do comportamento senhorial se esfuma no clima geral da cultura patriarcal, vista com simpatia pelo autor"


COMENTÁRIO

"A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos fatos..."

(O tempo não pára, Cazuza)

O sujeito que faz a introdução à obra de Gilberto Freyre foi presidente do Brasil por oito anos, destruiu o que havia herdado de soberania nacional, as empresas estatais e públicas brasileiras (inclusive as privadas de capital nacional), doou aos estrangeiros tudo que conseguiu, não fez um nada para tentar diminuir o fosso que separa a casa-grande a qual ele mesmo pertence do locus onde estão os povos oriundos da senzala e, após morrer de inveja pelo sucesso na presidência de um metalúrgico sem a sua formação acadêmica, apoiou e participou da arquitetura do Golpe de Estado em 2016, que pôs fim ao maior período de democracia em solo pátrio.

O que dizer desse indivíduo que não seja ofensivo?

Acho que ele não tem moral alguma para criticar o autor do ensaio que estou lendo, de 1933, tentando explicar a sociabilidade e a conformação do povo brasileiro. Mesmo que de forma conservadora, me parece que o autor buscou ser honesto em sua obra.

É isso!

William


Post Scriptum:

Dureza. Eu fui tentar ler no sábado pela manhã, e simplesmente não conseguia, por cochilar em cima da obra. Ainda estou cansado do trabalho da semana. Acabei optando por começar a escrever e comentar o que já li... é a vida!

sábado, 26 de agosto de 2017

Leitura: Olhos D'Água (2014) - Conceição Evaristo




(atualizado às 14h24, de 14/12/19)

Refeição Cultural

"O nosso povoado infértil morria à míngua e mais e mais a nossa vida passou a desesperançar...

(Ayoluwa, a alegria de nosso povo, conto de Conceição Evaristo)


Tive meu primeiro contato com a obra da autora mineira Conceição Evaristo em maio deste ano de 2017. Após ler uma matéria no site da revista Carta Capital a respeito de uma exposição dela, comprei alguns livros de sua autoria. Li Ponciá Vicêncio (2003) e achei a leitura profunda. (comentário AQUI)

Semanas atrás, refleti que não poderia continuar no ritmo de leituras literárias neste semestre como consegui no anterior, por causa de dificuldades diversas já previstas em minha agenda neste período. Decidi focar na leitura de ao menos um livro clássico e muito citado como referência naquilo que seriam as relações sociais em nosso País. Trata-se de Casa-grande & Senzala (1933), de Gilberto Freyre. A empreitada será lenta e já estou nela (comentário AQUI).

Após mais uma cansativa e produtiva semana de trabalho na gestão e defesa de nossa Cassi, estou sozinho em nossa casa em Osasco, neste fim de semana. Como não dá para ficar carregando para lá e para cá um livrão daqueles (do Freyre), levo a tira-colo um livrinho mais leve para oportunidades de alimentos d'alma. Foi o caso do livro de Evaristo que acabei de ler nesta manhã de sábado.

O livro Olhos D'Água é um livro que reúne 17 contos da autora. Li os primeiros em voos por aí. As estórias são duras, muito duras. Nos levam às lágrimas. Nos dão socos no estômago. Mas são leituras necessárias, haja vista que retratam a mesma realidade que vemos ou fazemos de conta que não vemos ao nosso redor - sobre pessoas carentes, em condição de miséria, em sua maioria negros e negras.

Ao ler os contos "Di Lixão" e "Lumbiá", lembrei-me das denúncias sociais do nosso querido autor baiano Jorge Amado, em Capitães da areia (1937): comentário AQUI. Em relação à tristeza que perpassa todas as estórias de Olhos D'Água, pensei muito na semelhança da condição social das personagens do fantástico livro do autor mexicano Juan Rulfo, Pedro Páramo (1955). Tenho alguns comentários sobre esta obra no Blog (ler AQUI).

A condição para a qual caminha o nosso querido Brasil e o seu sofrido povo nos toca mais ainda ao ler cada conto trágico que Conceição Evaristo nos apresenta. 

Mas, ao mesmo tempo em que a tônica das leituras nos leva à condição do título da obra "Olhos D'Água", algumas estórias nos despertam a esperança. Eu adorei e fiquei refletindo muito na possibilidade despertada na personagem Cida em "O cooper de Cida". 

"Mas naquele dia, a semidesperta manhã inundava Cida de um sentimento pachorrento, de um desejo de querer parar, de não querer ir. Sem perceber, permitiu uma lentidão aos seus passos e pela primeira vez viu o mar..." (EVARISTO, 2017, p. 67)

Também nos dá um sentimento de obrigação de resistir e lutar e vencer a desesperança quando lemos o conto "Ayoluwa, a alegria de nosso povo".

"Ninguém se assustou. Sabíamos que estávamos parindo em nós mesmos uma nova vida. E foi bonito o primeiro choro daquela que veio para trazer a alegria para o nosso povo. O seu grito, comprovando que nascia viva, acordou todos nós. E partir daí tudo mudou. Tomamos novamente a vida com as nossas mãos..." (EVARISTO, 2017, p. 114)


Amig@s leitores, assim como na ficção literária, que se confunde com a nossa realidade muitas vezes, eu alimento todos os dias a esperança que, de um instante ao outro, as pessoas acordem para a dura realidade de destruição de nosso mundo por parte dos golpistas que tomaram de assalto o nosso País e a reação popular comece em cadeia, retomando na luta o Estado para o povo brasileiro.

Os contos de Evaristo me tocaram profundamente.

William


Bibliografia:

EVARISTO, Conceição. Olhos d'água. 1ª edição, 4ª reimpressão - Rio de Janeiro: Pallas: Fundação Biblioteca Nacional, 2017.

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Post Scriptum (14/12/19):

Reli o livro de Conceição Evaristo. Que obra tocante! Que momento para ler os contos deste livro! O Brasil de agora é o Brasil da volta ao mapa da fome, da miséria explodida, com metade da população - mais de 100 milhões de pessoas - "quase-vivendo" com cerca de 400 reais por mês. Com o golpe de Estado em 2016, com o novo regime iniciado com as fraudes eleitorais em 2018, que deram num governo da milícia, da morte, tanto na República quanto em diversos Estados, "quase-vivemos" numa realidade de governadores mandando darem tiros na cabecinha, metralharem favelas de cima, dos helicópteros... nesse cenário de 2019 adiante, as personagens de "Olhos d'água" são as nossas vítimas reais: Ágatha (do complexo do Alemão - RJ), Lucas (de Santo André - SP)... são tantos e tantos personagens de tragédias reais que se confundem com as tragédias ficcionais!

domingo, 20 de agosto de 2017

Casa-grande & Senzala (1933) - Gilberto Freire





Refeição Cultural

"A Gilberto Freyre*

                       Carlos Drummond de Andrade


Velhos retratos; receitas

de carurus e guisados;
as tortas Ruas Direitas;
os esplendores passados;

a linha negra do leite
coagulando-se em doçura;
as rezas à luz do azeite;
o sexo na cama escura;

a casa-grande; a senzala;
inda os remorsos mais vivos,
tudo ressurge e me fala,
grande Gilberto, em teus livros."

*Viola de bolso novamente encordoada, Rio de Janeiro, José Olympio, 1955.


Início de jornada

Estamos no ano de 2017, vivendo no maior país da América do Sul, o Brasil, que está sob golpe de Estado desde abril de 2016, um golpe parlamentar-jurídico-midiático, quando a presidenta Dilma Rousseff, eleita com 54,5 milhões de votos em 2014, foi afastada e depois impedida de seguir em seu mandato por um bando de suspeitos de corrupção que tomou conta de parte das instituições da máquina estatal brasileira.

De lá para cá, os golpistas da chamada "Casa Grande" destruíram a economia do País, atacaram fortemente os direitos do povo brasileiro e não param de dilapidar o que ainda resta de patrimônio público e social do Brasil. Sem contar que na construção do golpe foi aberta a Caixa de Pandora, e a máquina de comunicação empresarial, que atua como partido, o Partido da Imprensa Golpista (PIG), envenenou o povo brasileiro criando um ódio antes incomum em solo pátrio, e favorecendo a ascensão de ideais nazifascistas.

Após ler mais de trinta obras no primeiro semestre deste ano, defini que não terei a mesma possibilidade de leitura neste período seguinte. No entanto, achei que não tinha mais como protelar o estudo da obra de Gilberto Freyre, já que nenhuma referência é mais citada atualmente que este ensaio sobre a conformação do Brasil.

A obra se divide em cinco capítulos, e tentei ler o primeiro inteiro antes de publicar alguma coisa, mas não foi possível porque minha leitura tem sido lenta e com atenção, lendo inclusive todas as citações e referências, que equivalem a páginas e páginas ao final de cada capítulo. Já li quase 90 páginas e depois vou publicar alguns comentários, assim como li ano passado 1984, de George Orwell, fazendo uma série de postagens.

As opiniões de Freyre neste ensaio são polêmicas e ler uma obra desta nos exige o comportamento intelectual de conhecer suas teses e avaliar o que concordo e o que tenho discordância. Já fiz isso em várias obras como, por exemplo, o Ócio Criativo, de Domenico de Masi. Algumas afirmações deste intelectual me incomodaram bastante, mas isso não me impede de ler seus pensamentos.

Enfim, o momento político é dramático e eu entendo que as lideranças da classe trabalhadora precisam reagir. Eu já tenho uma tarefa duríssima na frente de batalha em que estou - defesa dos direitos em saúde dos trabalhadores do BB na autogestão Cassi -, mas conhecimento e formação são sempre necessários para que possamos contribuir com o avanço dos direitos sociais do povo brasileiro.

Abraços,

William
Um leitor

domingo, 30 de julho de 2017

Diário e reflexões - 300717



Pôr do Sol em Foz do Iguaçu. Foto de William Mendes.

Refeição Cultural

Domingo. Estou me preparando para iniciar mais uma semana de lutas pela entidade de autogestão em saúde dos trabalhadores do Banco do Brasil, onde sou diretor eleito pelos associados. Será uma semana intensa que só terminará no sábado de manhã, quando eu chegar das Conferências de Saúde que faremos na Bahia e em Sergipe.

Hoje fiz uma caminhada de 20k em 3h30' como parte do treinamento que estou tentando fazer para chegar bem à Romaria que farei daqui alguns dias lá em Minas Gerais. Com o passar dos anos, a gente acaba conhecendo melhor o nosso corpo. Ao optar por caminhar ao invés de correr nas últimas semanas, porque tenho que preparar o corpo para andar por horas a fio, minha pressão arterial aumentou (por diversos motivos, na verdade). Por uma questão de saúde, após a Romaria será preciso retomar com vigor as corridas porque só elas abaixam minha pressão.

Não ando com muito ânimo para escrever por causa da tristeza que tenho carregado ao ter consciência de tudo que está se passando com o mundo ao meu redor, com o meu País vilipendiado pelos golpistas, com a ascensão do fascismo e com o predomínio do ódio nos corações das pessoas neste quarto da história. Não tem como não sofrer sendo um ser humano que se importa com os outros, com as pessoas de minha classe social - a classe trabalhadora -, não tem como não sofrer com a destruição da natureza e esgotamento dos recursos naturais por causa da ganância e do consumo do sistema capitalista; sofrem aqueles que em sua ética, no seu caráter, se importam com o bem comum.


Adaptação leve e prazerosa da
obra de Jack London.

Mas eu me esforço em sentar e escrever. Falar para o mundo, por mais que seja para poucas pessoas (se comparado com qualquer dos representantes das ideias que combato no mundo, que têm milhões de seguidores), falar o que pensamos e o que defendemos é preciso. Salvar o mundo, salvar a natureza, salvar as pessoas, só é possível se a gente não desistir de fazer o que fazemos: lutar com as armas que temos e no espaço social em que estamos empreendendo a luta. Minhas armas são minhas palavras e minhas atitudes.

Nesta semana que passou, eu li um livro ilustrado que comprei pela internet a pedido de meu filho e, por desatenção, comprei errado. Era para comprar o romance do escritor americano Jack London, O chamado da floresta (1903), e eu comprei uma edição adaptada por Sonia Robatto, com ilustrações. Leitura agradável e valeu a pena. Fiquei pensando na estória de Buck, um filhote de são-bernardo com collie, roubado na Califórnia e levado para o Alasca. O destino reservou uma vida dura para Buck a partir de então, mas com o tempo, ele passou a ouvir o chamado da floresta, atiçando em si a busca por sua verdadeira natureza.


O totalitarismo que o mundo temia no século 20 virou o
totalitarismo inesperado dos donos da mídia,
manipulando o mundo.

Assisti ao filme 1984, na primeira versão para o cinema, de 1956. A obra é baseada na ficção de George Orwell 1984 (1949). Edmond O'Brien interpreta o personagem principal Winston Smith e a bela Jan Sterling interpreta Julia. Michael Redgrave é o General O'Connor. Gostei mais desta versão em preto e branco do que da outra que saiu em 1984, também inglesa. Ano passado, fiz uma série de postagens enquanto relia o clássico de Orwell e enquanto o Grande Irmão do mundo real (Globo/PIG) aplicava novo golpe de Estado ao Brasil (ler postagens com referência à obra 1984 AQUI). Ao saber o final da estória ficcional e ao ver a história real do mundo dominado pelos donos dos meios comerciais de manipulação global, eu me pergunto se haverá esperanças. Como estão as coisas, não. Só se houver uma reviravolta no controle dos meios midiáticos, inverter-se os donos.

Eu estive com a família em Foz do Iguaçu dias atrás e quis fazer umas postagens de fotos. Não consegui. Aquele mundo das águas é uma das coisas mais fantásticas do planeta Terra. Recomendo que cada pessoa que não conhece as Cataratas do Iguaçu se programe para ir até lá. É uma das maravilhas do mundo.


Maravilha do nosso mundo, as Cataratas do Iguaçu.
Foto de William Mendes.

Por fim, eu comecei a ler neste fim de semana o icônico Casa-grande & Senzala (1933), de Gilberto Freyre. Meu desejo era ter acabado o primeiro capítulo. Li por horas no sábado, mas não consegui. Porque li devagar e com reflexões. Só a Introdução de Freyre já é grande. Comecei a entender qual a tese que o autor desenvolve no ensaio.

Eu refleti que este será o último livro do ano porque preciso aproveitar meus finais de semana para trabalhar em meus dois blogs e já não fiz isso neste fim de semana.

Fim de minhas reflexões. Um abraço aos amig@s que passaram pela postagem e partilharam minhas palavras.

William

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Alencar, o escravista


Cartas do autor a d. Pedro 2º, nas quais defendia o cativeiro no país, são pela 1ª vez publicadas em livro, 140 anos depois

Reprodução
Quadro "Loja de Rapé", aquarela inacabada
em que o pintor Jean-Baptiste Debret
retrata escravos urbanos
 no Brasil do século 19.


Rafael Cariello
Da reportagem local

"A escravidão caduca, mas ainda não morreu; ainda se prendem a ela graves interesses de um povo. É quanto basta para merecer o respeito."

Quem vinha a público, em 1867, desejoso de ser ouvido na defesa do cativeiro no país era o romancista José de Alencar (1829-1877). A memória histórica no Brasil, no entanto, silenciaria seus argumentos no século seguinte.

A frase aparece numa das sete cartas públicas em que, naquele ano, o autor de "Iracema" criticou o imperador d. Pedro 2º por propor que o país começasse a pôr fim gradual à escravidão. Só agora, 140 anos depois, elas ganham uma edição em livro, "Cartas a Favor da Escravidão" (ed. Hedra), que chega nesta semana às livrarias.

Embora diversos pesquisadores tivessem conhecimento de sua existência - que era citada em alguns trabalhos - e das posições políticas de Alencar, o conteúdo das cartas não chegou a ser reimpresso. O conjunto não aparece, por exemplo, nas obras completas do autor romântico, organizadas em 1959 pela editora José Aguilar (hoje Nova Aguilar).

No final dos anos 90, a historiadora Silvia Cristina Martins de Souza encontrou as cartas na Biblioteca Nacional, no Rio.

Republicou parte delas numa revista especializada da Unicamp. "Elas não haviam sido reproduzidas no século 20", diz a pesquisadora, que atribui o "esquecimento" do material ao "desconhecimento e desinteresse" sobre a obra de Alencar.

O organizador do livro que vem agora a público, Tâmis Parron, tem opinião diferente.

Ele escreve na introdução aos textos de Alencar que se trata de uma "provável tentativa de expurgar sua memória artística de uma posição moralmente insustentável para os padrões culturais hegemônicos desde o final do século 19".

"É um expurgo? Pode ser. É provável, mas não tenho acesso a documentos que provem essa hipótese", disse o historiador, em entrevista à Folha.

Procurada, a Nova Aguilar não respondeu aos questionamentos sobre a lacuna e sobre a possibilidade de inclusão das cartas em edições futuras (a última, esgotada, saiu em 1965).

As "Novas Cartas Políticas de Erasmo", como foram denominadas, numa referência ao pensador holandês, apareceram num momento de crise internacional da escravidão. Com o fim da Guerra Civil Americana (1861-1865) e da servidão nos EUA, aumentaram as pressões internacionais para que o Brasil, como último país independente da América a mantê-la, pusesse fim à instituição.

No princípio de 1867, o imperador pede que seu gabinete encaminhe ao Legislativo uma proposta de discussão que resulte num prazo para o fim da escravidão.

Instituição necessária

É em reação a essa movimentação de d. Pedro que Alencar argumenta, em suas cartas, contra a extinção por lei de uma instituição que, para ele, deveria acabar como resultado de um processo "natural" de maturação -processo que na Europa, ele diz, levou séculos.

O escritor e político -falava como integrante do Partido Conservador- reconhece que a escravidão já se apresentava "sob um aspecto repugnante", mas completava que "ainda mesmo extintas e derrogadas, as instituições dos povos são coisa santa, digna de toda veneração". "Nenhum utopista, seja ele um gênio, tem o direito de profaná-las. A razão social condena uma tal impiedade." 

As "razões sociais" do cativeiro no Brasil eram muitas, segundo o autor. Em primeiro lugar, de ordem econômica, já que era pelo trabalho escravo que se mantinha a produtividade das unidades agroexportadoras do século 19. Depois, política, já que era daí que o Estado tirava recursos para existir.

Mas também "social", já que, segundo Alencar, a instituição no Brasil trazia a promessa de inserção, como cidadão (ainda que parcial), do escravo alforriado e de seus filhos.

Finalmente, num raciocínio pouco usual na época, Alencar, de certa forma prefigurando Gilberto Freyre, autor de "Casa Grande & Senzala", afirmava que a escravidão permitia a existência de uma cultura original no Brasil, fruto da "miscigenação" de costumes entre "brasileiros" e negros africanos.

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CARTAS A FAVOR DA ESCRAVIDÃO
Autor: José de Alencar
Organizador: Tâmis Parron
Editora: Hedra
Quanto: preço a definir (160 págs.)

Fonte: FSP, 8/10/08

Leia aqui a segunda matéria sobre o mesmo tema.