Mostrando postagens com marcador Modernismo Brasileiro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Modernismo Brasileiro. Mostrar todas as postagens

domingo, 15 de março de 2026

Livro: Infância - Graciliano Ramos



Refeição Cultural 

LITERATURA BRASILEIRA 


"Junto de mim, um homem furioso, segurando-me um braço, açoitando-me. Talvez as vergastadas não fossem muito fortes: comparadas ao que senti depois, quando me ensinaram a carta de A B C, valiam pouco. Certamente o meu choro, os saltos, as tentativas para rodopiar na sala como carrapeta, eram menos um sinal de dor que a explosão do medo reprimido. Estivera sem bulir, quase sem respirar. Agora esvaziava os pulmões, movia-me, num desespero." (G. RAMOS, "Um cinturão", p. 32)


Graciliano Ramos tinha 53 anos de idade quando publicou o livro Infância, em 1945. É um livro duro, sem meias palavras. A infância do personagem foi muito dura, de violência gratuita no cotidiano. A criança do romance é ele mesmo, o garoto que nasceu em 1892 no agreste de Alagoas.

São 39 capítulos de memórias do personagem adulto que conta sua infância no interior do Nordeste nos últimos anos do século XIX e início do século XX. 

O adulto narrador do romance é um escritor maduro e com uma obra de referência na literatura brasileira: Graciliano Ramos. Porém, as memórias do escritor, na forma de romance, são as memórias de todos nós, são universais.

A crítica literária tem longa história de estudos sobre discursos narrativos que mesclam realidade e ficção em obras literárias. Toda memória tem um quê de ficção porque preenchemos lacunas e damos sentidos a ela.

A técnica literária e a capacidade ímpar de Graciliano Ramos em mergulhar leitores em suas memórias da infância nos faz ver em cada capítulo - que para mim são contos - as nossas histórias pessoais e cotidianas da infância e adolescência.

Fui escrevendo minhas impressões enquanto ainda lia o romance, antes de finalizar os 39 capítulos. Não queria que a leitura acabasse... As histórias do livro são como as passagens da bíblia para as pessoas religiosas. O ideal seria ter a obra à cabeceira da cama. Cada parágrafo é uma lição, uma reflexão, um prazer ao ler texto bem escrito.

Certa vez, enquanto era aluno de Letras, fiz um poema abordando três autores que me influenciavam naquele momento (com uns trinta anos de idade): Caeiro, Drummond e Graciliano Ramos (ler aqui). Dizia que, ao final de meu desenvolvimento com a escrita, queria chegar à técnica literária de Ramos. O que desejava ser como escritor é o que leio em Infância. Demais!

As histórias da leitura e dos leitores, como nos contou magnificamente Alberto Manguel (um exemplo aqui) são únicas ao longo dos tempos. O personagem de Infância nos conta que até os nove anos de idade, seguia sem conseguir ler e entender o sentido dos textos. Sendo a história do escritor, vemos que aquela criança se tornou um dos melhores escritores do país.

Após ler mais algumas histórias - a do capítulo "Fernando" é fascinante -, avancei para as últimas cinco do livro. Repito: o romance-bíblia deveria ficar na cabeceira da cama para sempre. Queria escrever assim!

(E pensar que quis ser literato e professor, até entrei em uma faculdade de Letras e as veredas da vida me levaram a ser sindicalista...)

---

"Às vezes o homem se excedia: amarrava os braços do garoto com uma corda, espancava-o rijo, abria a porta, e a desesperada humilhação exibia-se aos transeuntes, fungava, tentava enxugar as lágrimas e assoar-se. O choro juntava-se ao catarro, pingava no paletó e na camisa - e o pano molhado tinha um cheiro nauseabundo, mistura de formiga e mofo." ("A criança infeliz", p. 237)

Esse era o método de ensino no país no início do século XX...

Amigos leitores, cada conto (capítulo) é uma história comum a inumeráveis crianças do Brasil e do mundo, do passado e do presente...

---

COMENTÁRIO FINAL

A leitura do livro Infância (1945) foi marcante para mim, foi uma leitura de reencontro com Graciliano Ramos. Uma leitura de descoberta e de compreensão a respeito do escritor que sempre admirei e do qual eu não conhecia seu passado, seu ambiente de aculturamento e formação.

O posfácio "Graciliano Ramos e o Sentido do Humano", de Octavio de Faria, que faz parte da minha edição do livro, ampliou ainda mais a minha compreensão a respeito da poética do escritor.

Um dos livros impactantes em minha vida, que me levou inclusive a escrever uma crônica relativa à minha infância e adolescência, é justamente Angústia (1936), considerado por Octavio de Faria, a obra principal de Graciliano Ramos. 

Ao ler o livro no início dos anos dois mil e após entrar na faculdade de Letras, me lembrei de meus dias de ajudante de encanador ao ler as reflexões do personagem Luís da Silva (ler aqui).

Eu já havia tido o privilégio de ler Caetés (1933), São Bernardo (1934) e Vidas secas (1938), além de Angustia. Cheguei a escrever em um poema que meu sonho era alcançar o estilo Graciliano Ramos de escrever após uma suposta evolução na produção literária. Utopia! G. Ramos é único!

Ao ler Infância, neste momento de meu viver, compreendi a obra toda de Graciliano Ramos. Agora vejo claramente Fabiano e toda a dureza do enredo de Vidas Secas. Como não entender Paulo Honório, de São Bernardo?

Ao terminar a leitura demorada de Infância, porque lia um capítulo ou conto e parava, concluí que a minha natureza psicológica é mais Graciliano Ramos que qualquer outro autor pelo qual nutro admiração. 

Machado de Assis, Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade são deuses para mim, assim como Graciliano Ramos. Mas quando olho para a minha vida, o meu percurso da infância até aqui, sou Graciliano. E minha infância até os dez anos foi o inverso da dele, mas a adolescência minha... foi a infância dele: miséria e violências sociais.

Não tenho outra opção em minha vida torta de leitor repleto de lacunas culturais a não ser ler Memórias do Cárcere (1953), do autor espelho de minha psicologia, daquilo que se costuma chamar alma. 

Espero que dê certo completar o percurso dos romances do mestre Graciliano Ramos. Ele teria muito que escrever para nós, quando faleceu no auge de sua produção, como aconteceu a Guimarães Rosa.

Viva a literatura!

William

sábado, 3 de maio de 2025

Livro: Primeiras Estórias - João Guimarães Rosa



Refeição Cultural

"Sua mulher, Tia Liduína, então morreu, quase de repente, no entrecorte de um suspiro sem ai e uma ave-maria interrupta..." (Nada e a nossa condição, Rosa, p. 74)


Sabadão... eu indeciso se sigo lendo mais uns contos de Rosa, se me perco na política - meu tempo tá encurtando à jato (e já não apito nada) -, se pego firme na sistematização de meus textos de uma vida, ameaçados de inexistir nas nuvens inimigas. Dilemas de quem tem a noção do tempo indo.

Quisera eu, quando meu fim chegar, daqui a um minuto ou vinte anos, que fosse ao modo de dona Liduína. Sonho de consumo daqueles que sabem da morte como parte da vida.

---

NADA E A NOSSA CONDIÇÃO

Eu fiquei pensando no nome do conto de Rosa... "Nada e a nossa condição".

No fim, o nada é algo que faz parte do todo. Os nadas fazem parte do todo. Eu sou nada. E, no entanto, pertenço ao todo. Natureza...

---

UM MOÇO MUITO BRANCO

"Ela, que, a partir dessa hora, despertou em si um enfim de alegria, para todo o restante de sua vida, donde um dom..." (p. 94)

Alegria

Ao ler o conto, me lembrei da resposta de Rubem Alves ao entrevistador Abujamra, que lhe perguntou certa vez "A vida é uma causa perdida?", e Alves responde que sim por sabermos que vamos morrer, mas cita Guimarães Rosa que falava da alegria nos momentos de distração. 

A moça do conto, ganhou em sua vida, o dom da alegria.

Profundo isso!

Gostaria de ter tido esse dom.

---

LUAS-DE-MEL

"No mais, mesmo, da mesmice, sempre vem a novidade. Naquela véspera, eu andava meio relaxo, fraco; eu já declinava para nãoezas? Nos primeiros de novembro. Sou quase de paz, o quanto posso..." (p. 96)

É sempre isso. Quando leio Guimarães Rosa, automaticamente me vem à cabeça Uberlândia, me vem o Mato Grosso, anos oitenta, minha família e o mundo onde cresci.

Apesar de ser, em suas narrativas, uma língua inventada pelo escritor, em grande parte, relembro a língua de onde vivi nos anos oitenta.

Guimarães Rosa me transporta ao passado do Brasil onde vivi.

---


Comecei a ler esse pequeno livro de contos de Guimarães Rosa há mais de vinte anos. Nunca terminei.

Li pela primeira vez "As margens da alegria" em 2003. Alguns contos eu já li várias vezes nesse tempo todo. 

Agora, decidi ler os contos que não havia lido ainda. 

Uma vez, li em voz alta, na cozinha da casa de meus pais em Uberlândia, o conto "A terceira margem do rio". De repente, comecei a chorar, soluçar... e quase não consegui acabar a estória. 

Com "Sorôco, sua mãe, sua filha" a emoção também é no limite.

"Famigerado" é um dos contos mais marcantes do livro.

E assim, vou finalizar minha leitura do Primeiras Estórias (1962), do mestre Guimarães Rosa. Já é tempo de finalizar coisas antigas não concluídas.

Retomarei o trabalho de sistematização dos meus textos em seguida.

---

Post Scriptum:

DARANDINA

"Pois, de repente, sem espera, enquanto o outro perorava, ele se despia. Deu-se à luz, o fato sendo, pingo por pingo. Sobre nós, sucessivos, esvoaçantes - paletó, cueca, calças - tudo a bandeiras despregadas. retombando-lhe a camisa, por fim, panda, aérea, aeriforme, alva. E feito o forró! - foi - balbúrdias. Na multidão havia mulheres, velhas, moças, gritos, mouxe-trouxe, e trouxe-mouxe, desmaios. Era, no levantar os olhos, e o desrespeitável público assistia - a ele in puris naturalibus..." (p. 132)

A gente sabe tão pouca coisa nesta vida, tão nada, que às vezes até se surpreende, mesmo entrado décadas na existência.

Após ler este conto de Guimarães Rosa, Darandina, eu fui pesquisar alguma coisa sobre ele e me surpreendi com a grandeza da estória. Tem revista universitária com o nome do conto, tem diversos trabalhos acadêmicos e ensaios muito interessantes sobre ele. O texto é gigante! Eu nunca tinha me dado conta dele... tão nada, tão pequeno somos quando se trata de conhecer literatura... (eu, né, eu, não falo pelos outros, só por mim).

Teria que renascer e ter foco na literatura desde que me entendesse por gente para poder dar conta de um mínimo que queria conhecer sobre literatura... (mas como não há mágica na vida, minha única unicazinha vida foi essa que já se vai definhando...)

Li um estudo acadêmico analisando o conto "Darandina" e o conto "O alienista", do bruxo do Cosme Velho. A temática da loucura, ou da razão, ou da "desrazão", e fiquei encantado com o texto e as interpretações do autor.

Fiquei pensando uns instantes sobre os 21 contos do livro Primeiras Estórias, de 1962. Muitos personagens e casos contados no livro são exatamente essa questão da razão e "desrazão" das coisas humanas.

Olha, nenhuma frase ou texto comentando obras como essa de Guimarães Rosa dá conta da imensidão de coisas contidas ali. Dá não!

Temos que lidar com humildade com o nosso pouco saber das coisas.

Sigamos lendo alguma coisinha enquanto somos, estamos.

-

É isso! 

Will i am 


Bibliografia:

ROSA, Guimarães. Primeiras Estórias. Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1988.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (46) - No meio do caminho, Drummond



NO MEIO DO CAMINHO - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.


Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra.


Do livro Alguma poesia, de 1930.

---

COMENTÁRIO:

Não sou determinista. Acredito no poder da educação, que, se efetiva, pode mudar as pessoas, que, educadas, podem mudar a realidade do mundo.

Paulo Freire diz em Pedagogia da Autonomia que só se educa gente.

Mas... são tantas pedras no caminho!

Os fascistas estão em ascensão. Fascistas são contra Educação e Cultura. A mentira é a base da propaganda do nazismo e do fascismo. 

São as pedras no caminho.  

Aqueles que não são fascistas não se entendem. Progressistas e esquerdistas parecem incapazes de se unirem para combater a ascensão do nazifascismo atual.

São as pedras no caminho. 

Pensando nas mentiras que se impõem, na força repressora dos capitalistas que se impõe, nos ideólogos dos poderosos que se impõem, pensei nas pedras no caminho, de Drummond. 

William 


ANDRADE, Carlos Drummond. Nova reunião: 23 livros de poesia - volume 1. 3ª edição - Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (39) - Legado, Carlos Drummond de Andrade



LEGADO - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


Que lembrança darei ao país que me deu

tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?

Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu

minha incerta medalha, e a meu nome se ri.


E mereço esperar mais do que os outros, eu?

Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.

Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,

a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.


Não deixarei de mim nenhum canto radioso,

uma voz matinal palpitando na bruma

e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.


De tudo quanto foi meu passo caprichoso

na vida, restará, pois o resto se esfuma,

uma pedra que havia em meio do caminho.


Do livro Claro Enigma, 1951.

---

COMENTÁRIO:

Depois de conhecer os seis primeiros livros de meu poeta preferido, Drummond, iniciei a leitura do sétimo livro dele: Claro Enigma (1951).


"Que lembrança darei ao país que me deu

tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?"


Essa pergunta inicial me pegou logo de cara. E o eu-lírico já tascou sua resposta ao final: a pedra, a sua pedra no caminho...


"De tudo quanto foi meu passo caprichoso

na vida, restará, pois o resto se esfuma,

uma pedra que havia em meio do caminho."



A pedra no caminho...

O país que me deu tudo que lembro e sei...


Ainda existe o país que me deu tudo que lembro e sei?

Não sei, penso que não.

Tudo, me parece, esfumou-se.



"E mereço esperar mais do que os outros, eu?"



Não, não mereço esperar mais do que ninguém. Num país onde "o resto se esfuma" eu diria ser um privilegiado. Rolei minhas pedras do caminho. 


Meu legado?

Eu quis deixar algum legado... esfumou-se.

Talvez as palavras... talvez as palavras. Meus milhares de textos nos blogs. Talvez o meu legado.

William


ANDRADE, Carlos Drummond. Nova reunião: 23 livros de poesia - volume 1. 3ª edição - Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (38) - O cacto, Manuel Bandeira



O CACTO - MANUEL BANDEIRA


Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:

Laocoonte constrangido pelas serpentes,

Ugolino e os filhos esfaimados.

Evocava também o seco Nordeste, carnaubais, caatingas...

Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.


Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.

O cacto tombou atravessado na rua.

Quebrou os beirais do casario fronteiro,

Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,

Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas privou a cidade de iluminação e energia:


- Era belo, áspero, intratável.


                                              (Petrópolis, 1925)


Do livro Libertinagem, de 1930

---

COMENTÁRIO:

Ao escolher o poema do dia, lendo Libertinagem, de Manuel Bandeira, fiquei entre "O cacto", "O major" e "Poema de finados", todos eles muito duros, na minha leitura.

(Ao procurar o livro na estante, havia pensado no poema "Andorinha" mas, francamente, não tinha nada que ver comigo. Eu não passei a vida à toa. Fiz coisas importantes coletivamente)

Acabei optando por "O cacto". Tem relação com o meu momento.

William


BANDEIRA, Manuel. Libertinagem & Estrela da manhã. 14ª impressão. Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro, 2000.


terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (24) - Canção excêntrica, Cecília Meireles



CANÇÃO EXCÊNTRICA - CECÍLIA MEIRELES


Ando à procura de espaço

para o desenho da vida.

Em números me embaraço

e perco sempre a medida.

Se penso encontrar saída,

em vez de abrir um compasso,

projeto-me num abraço

e gero uma despedida.


Se volto sobre o meu passo,

é já distância perdida.


Meu coração, coisa de aço,

começa a achar um cansaço

esta procura de espaço

para o desenho da vida.

Já por exausta e descrida

não me animo a um breve traço:

- saudosa do que não faço,

- do que faço, arrependida.


Vaga música, 1942.

---

COMENTÁRIO:

Também "Ando à procura de espaço/para o desenho da vida". E meu coração nem de aço é mais, agora é só um pedaço do aço que já foi um dia. 

Meu coração "começa a achar um cansaço".

Lendo algumas vezes este poema de Cecília Meireles, fui me vendo como o próprio Eu-lírico.

Faz alguns anos a canção da minha vida virou uma canção extravagante, fora da ordem na qual se encontrava; afastada do habitual. Uma "Canção excêntrica".

Meu ritmo entrou em completo descompasso... 

Não desisto, ainda busco o compasso.

"Se volto sobre o meu passo,/é já distância perdida."

Sei que o compasso está no amanhã, não no passado. Mas é tão difícil!!!

Sigamos lendo poesia. Enquanto há vida, há espaço "para o desenho da vida".

William Mendes


Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin; apresentação: Alberto da Costa e Silva - 1° ed. - São Paulo: Global, 2017.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (9) - Epigrama, Cecília Meireles



EPIGRAMA - CECÍLIA MEIRELES


A serviço da Vida fui,

a serviço da Vida vim;


só meu sofrimento me instrui, 

quando me recordo de mim.


(mas toda mágoa se dilui:

permanece a Vida sem fim.)


Do livro Vaga Música, de 1942

---

COMENTÁRIO:

Este Epigrama de Cecília Meireles é danado! Danado!

Quanto mais leio, mais me identifico com ele. 

É muito conceito em tão poucas linhas! Abrangente.

Seis versos! Muitas vidas!

Fiquei vendo minha vida passada num filme rápido, como aquele delírio de Brás Cubas, que viu todos os séculos em instantes.

Dos dez aos vinte, dos vinte aos trinta, dos trinta aos cinquenta... servir servir servir às vidas dos outros, pra sobrar quase nada pra nós, pra 99% de nós todos.

A gente até que tenta ter nossos momentos, momentos de olhar pra nós mesmos... 

Mas logo em seguida, a prioridade em nós mesmos se vai, e volta a servidão total aos outros, às coisas sem importância, às futilidades.  

Certas classes, certas castas, são ambientadas desde pequenas a servir. Outras, a sorver a servidão dos outros. 

Nossos eus são engaiolados num viver para servir, de maneira que não nos sintamos à vontade quando o sentido do viver sejamos nós mesmos, nossos sonhos e prazeres. 

Quando nos damos conta, já estamos no servir aos outros, às coisas, ao invés das coisas nos servirem.

Nisso, o tempo todo, voltamos à "Vida sem fim", sem um fim consciente e desejoso do fundo de si.

---

CONHECENDO CECÍLIA MEIRELES

Ganhei de presente a coleção completa dos poemas de Cecília Meireles. Já li os 7 primeiros livros dela. 

Vaga música é seu 8° livro de poesia.

Sigamos lendo poesia neste mês de dezembro. 

William Mendes 


Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin; apresentação: Alberto da Costa e Silva - 1° ed. - São Paulo: Global, 2017.


sábado, 26 de novembro de 2022

48. Macunaíma - Mário de Andrade



Refeição Cultural - Cem clássicos


"- Eu menti.

Todos os vizinhos ficaram com cara de André e cada um foi saindo na maciota. E André era um vizinho que andava sempre encalistrado. Maanape e Jiguê se olharam, com inveja da inteligência do mano. Maanape inda falou pra ele:

- Mas pra que você mentiu, herói?

- Não foi por querer não... quis contar o que tinha sucedido pra gente e quando reparei estava mentindo..." (Macunaíma, M. Andrade)


Osasco, 26 de novembro de 2022. Sábado ensolarado.


Terminei a releitura de Macunaíma - O herói sem nenhum caráter (1928). Li o clássico pela primeira vez em 1999, já aos 30 anos de idade. Depois reli o texto em 2009, aos 40 anos. Agora releio aos 53 anos. São muitas leituras, poderia dizer que sou trezentos, como dizia Mário de Andrade. De fato, posso dizer que o leitor de 2009 não era o leitor de 1999 e que esses leitores não foram o mesmo leitor de agora.

Me lembro que a leitura de 1999 foi feita no contexto de estudos para o vestibular da Fuvest, que faria no ano seguinte. A leitura de 2009 se deu após estudar literatura e os modernistas.

CONTEXTO DA LEITURA ATUAL

Nesta postagem não vou fazer uma análise da obra de Mário de Andrade. Não é pra isso meu registro. A leitura de Macunaíma me deixou muito incomodado... e isso é bom! Macunaíma nos incomoda até hoje!

Na leitura deste leitor que vos fala, vi o Brasil de 2022 lendo a estória de Macunaíma, o herói mau-caráter e sem nenhuma característica definida, sem ancestralidade definida ("sem nenhum caráter"). A postagem é só de estímulo, é pra dizer aos leitores que vale a pena ler este clássico. É um texto de permanência, ele permanece cutucando a gente. E isso é bom! 

O BRASIL DE MACUNAÍMAS, FABIANOS, PAULO HONÓRIOS, CUBAS, RIOBALDOS

Desde que o Brasil sofreu o último golpe de Estado em 2016 e passou a ser governado novamente pelas representações da casa-grande e da burguesia mais chinfrim* do mundo (*tranqueira eu quis dizer, porque canalha e perversa todas as burguesias são), venho tentando entender por que as coisas são como são em nosso país e a leitura e releitura de textos cânones e referenciais são necessárias para vermos com olhos mais experientes o que nos molda, o que nos acultura e o que nos engaiola. A ideologia está em tudo. A ideologia da classe dominante está em tudo.

A burguesia brasileira ficou nua após as eleições fraudadas em 2018, eleição na qual a casa-grande prendeu e condenou sem crime algum o candidato popular que venceria as eleições, Lula, e normalizou um verme fascista como alguém normal (a escolha difícil entre o professor da USP e o amante de torturador - lembram da "escolha difícil" d'O Estadão?). 

O papel da mídia empresarial somado às mentiras em escala industrial (fake news) construíram a realidade da chegada ao Planalto Central de um representante do crime organizado. E vários de nós que gostamos de história e cultura nos perguntamos desde então como isso aconteceu? Como isso foi possível? Como pode estarmos num inferno desse?

Desde então, já li e reli dezenas de livros, dezenas! E sigo buscando compreender quem somos e por que somos o que somos.

---

A MENTIRA...

A citação do trecho acima, de Macunaíma, sobre a mentira e sobre mentir descaradamente, me lembrou o vaticínio de Lula ao falar para o juiz parcial da operação Lava Jato que ao mentir e se basear em mentiras, uma após a outra, ele juiz estaria condenado a seguir mentindo porque as mentiras não teriam fim e não se poderia voltar atrás com as mentiras porque uma mentira gera outra e assim vai se perdendo tudo, tudo em relação à verdade factual. 

E assim sucedeu com o Brasil e o povo brasileiro, nos perdemos num mundo de mentiras. As mentiras viraram políticas de governo, de governos da extrema-direita e de movimentos fascistas e autoritários, tudo isso com os interesses capitalistas por trás, lógico!

Temos que enfrentar e combater um maldito mundo de mentiras.

---

13 LIVROS PARA COMPREENDER O BRASIL

Eu sei que a postagem é para registrar minha 3ª leitura do clássico da literatura brasileira Macunaíma... mas a introdução que fiz é uma espécie de contextualização do presente (quase metade do Brasil bolsonarista), do mundo violento e racista do Brasil de todos os séculos de sua história, do locus de referência de onde saíram clássicos com personagens como Brás Cubas, Riobaldo Tatarana, João Miramar, Paulo Honório, Fabiano, Macunaíma e tantos outros e outras figuras que representam ou tentam representar o que somos ou o que poderíamos ser. 

Todo bom livro gera em seus leitores sentimentos intensos, inquietações, reflexões, desejos, frustrações, sentimentos vários e até antagônicos. Macunaíma é um livro provocador ao extremo. O personagem e as peripécias da estória permitem leituras diversas sobre os mais variados temas da nossa gente. 

É uma ficção, é uma obra ficcional, não nos esqueçamos disso. Mas até por ser um livro de literatura é que se pode permitir todas as licenças poéticas necessárias para autor e leitores viajarem no mundo do lúdico e no mundo das ideias. E nesse sentido, Macunaíma segue sendo uma leitura importante, necessária, porque nela vemos a permanência dos temas inseridos na narrativa ficcional. 

O impulso para essa nova leitura do clássico de Mário de Andrade foi acelerado por participar do Instituto Conhecimento Liberta (ICL) e estar inscrito no curso "13 livros para compreender o Brasil", com os professores Lindener Pareto e Suze Piza. Macunaíma foi uma das obras escolhidas pelos organizadores para o curso. Agradeço a escolha e a oportunidade dada a leitores como eu que já havia lido o livro em outras épocas, sendo eu outra pessoa como todos nós somos, pessoas em constante mudança enquanto o viver prossegue.

A leitura de Macunaíma neste momento de minha história e da história do Brasil foi uma leitura diferente das outras que fiz. O livro segue muito provocativo, e diria que segue sendo um livro difícil de se ler, por causa da linguagem, das metáforas, da ironia refinadíssima, das referências que nós não temos, do uso de uma linguagem fora do padrão etc. 

Vale a pena ler porque toda leitura de livros clássicos e de bons autores e autoras traz o desafio de vencer a leitura e compreendê-la e isso é um processo, um percurso necessário a todo leitor e leitora. Saímos diferentes quando terminamos a leitura das grandes obras da cultura humana. 

Enfim, está dito e registrado neste meu blog de cultura (diário de reflexões e leituras) o que gostaria de apontar neste momento. 

Caso alguém tenha curiosidade de ver anotações que fiz da leitura de 2009 com citações de frases e passagens do livro (após cursar Letras na USP), é só clicar aqui

Seguimos lendo e buscando sentidos e significando a vida.

William


Bibliografia:

ANDRADE, Mário de. Macunaíma. Coleção vestibular de O Estado de São Paulo/Klick Editora. São Paulo, 1999.


terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

22022022 - Diário e reflexões (CartaCapital)



Refeição Cultural - CartaCapital 1195


ALTA-TENSÃO

Faz tempo que li a última revista CartaCapital inteira. Faz tempo! Foi no final de setembro de 2021, a edição 1173 (comentário aqui). Aliás, preciso fazer uma correção e parar de escrever "Carta Capital", já que o nome da revista é CartaCapital. Às vezes, sou meio birrento ao escrever nos meus espaços de escrita.

---

MODERNISMO - As matérias destacadas na capa da revista são muito bem escritas, e nos trazem os fatos, além da opinião qualitativa do escriba, como é o caso da matéria assinada por Mino Carta na seção "Plural": "O que restou de 1922 - Semana de Arte Moderna: Mário de Andrade soube entender a necessária simbiose entre a cultura e a política". Gostei do artigo e dos relatos de Mino.

Durante a semana passada, quando se comemorou cem anos daquela "Semana de Arte Moderna" cheguei a ler nas redes sociais alguns comentários bem negativos a respeito daquele movimento e das pessoas que participaram dele. Alguns comentários esculhambavam os protagonistas do movimento. Opinião é opinião. Eu penso que o movimento foi muito importante e sou admirador de Mário de Andrade. Aliás, Macunaíma e Pauliceia Desvairada são obras fenomenais. Fenomenais!, na minha opinião.

---

NEONAZISMO - Outra matéria importante da semana foi a que tratou da ascensão dos extremistas de direita, fascistas, nazistas, neonazistas et caterva no Brasil após a demonização da política do país por parte da casa-grande e seus veículos familiares de comunicação (grande imprensa, PIG, mídia empresarial e outras denominações), que apostaram no caos e na destruição para interromper os governos democráticos e populares do Partido dos Trabalhadores após a eleição de Lula em 2003. As mentiras chamadas fake news foram a pauta do PIG durante todos os anos dos governos do PT neste século.

Tirando a minha opinião no parágrafo anterior, a matéria trata do caso que chamou a atenção durante alguns dias: o do youtuber conhecido como Monark, apresentador do Flow, podcast de maior audiência do país. A matéria da seção "Seu País" à página 16 traz o tema: "O triunfo dos extremistas - Neonazismo: O discurso da 'liberdade de expressão irrestrita' apenas fortalece a atuação de gangues e dos lobos solitários".

A matéria reproduziu uma das frases ditas por Monark no programa: "Acho que o nazista tinha que ter o partido nazista, reconhecido pela lei". E um dos convidados do programa, segundo a revista, teve a seguinte postura: "Presente na bancada, o deputado Kim Kataguiri, do DEM, emendou que a Alemanha errou ao criminalizar o nazismo após o fim da Segunda Guerra Mundial.". 

"O PAVOR DE DILMA ROUSSEFF" - Pois é! Eu e todos os brasileiros vimos um deputado federal dizer no microfone do Congresso Nacional no dia 17/4/16 (sessão de votação do impeachment sem crime) que ele votava em nome do coronel Ustra, o torturador da jovem Dilma Rousseff nos anos da ditadura civil-militar... e não saiu preso, não foi processado e ali se abriram as portas do inferno para o que o Brasil se transformou.

---

ELETROBRAS - Que dizer então da privatização da Eletrobras? A entrega do patrimônio nacional de centenas de bilhões de dinheiros para uns chegados da casa-grande é algo que eu não vou dizer o que penso, o que acho que se deveria fazer com essa gente.

---

ARTIGOS - A edição traz artigos muito bons. Eu destaco o do Marcos Coimbra (p. 23): "Mão grande na eleição" com um destaque na entrada do texto: "Bolsonaro e sua turma vão fazer todo tipo de bandalheira para se manter no poder. Na verdade, já fazem".

---

REVISTA LIDA E COMENTÁRIO FINAL

Enfim, lida a revista. Muito conteúdo! Muita informação. 

Eu registro na postagem uma impressão que mantenho faz tempo. Acho difícil acontecer o que todos nós desejamos: que tudo corra normalmente e que Lula seja eleito presidente da república em eleições normais em outubro deste ano.

Acho que há uma probabilidade importante do Lula não ser o presidente do Brasil em 2023 ou não terminar um eventual mandato caso a casa-grande e o crime organizado que tomou conta do país permitam que ele chegue ao Planalto pelas vias democráticas em outubro deste ano.

Espero estar errado. Acho que desta vez não vai rolar a conciliação que Lula e o PT gostariam de fazer com os capitalistas, como ocorreu em 2002. Os tempos são outros e a história não se repete. A democracia burguesa liberal acabou após as ferramentas tecnológicas da atualidade (redes sociais e algoritmos). Acabou e não sabemos o que pôr no lugar.

William


sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

A Rosa do Povo - Carlos Drummond de Andrade



Refeição Cultural

"A doença não me intimide, que ela não possa
chegar até aquele ponto do homem onde tudo se
                                         [explica.
Uma parte de mim sofre, outra pede amor,
outra viaja, outra discute, uma última trabalha,
sou todas as comunicações, como posso ser triste?
" ("Os últimos dias", CDA)


Último dia do ano, último livro do ano (foram 57 obras lidas). Ano passado li A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1945. Que livro! Cinquenta e cinco poemas porradas. Neste mês de dezembro, reli o livro dentro de um projeto de ler toda a poesia de Drummond em ordem cronológica. Com isso, reli os 4 livros que já conhecia e José, de 1942.

Que livro! Perfeito para os tempos que correm. Drummond diz que o livro é um livro que traz características de um tempo, de uma época, tanto do poeta quanto do mundo, que vivia a mortandade da 2ª Guerra Mundial, nazismo, fascismos, Estado Novo de Vargas. Não falo que o livro é perfeito para os tempos que correm!

--------------------

"E a matéria se veja acabar: adeus, composição
que um dia se chamou Carlos Drummond de Andrade.
Adeus, minha presença, meu olhar e minhas veias
                        [grossas,
meus sulcos no travesseiro, minha sombra no muro,
sinal meu no rosto, olhos míopes, objetos de uso
          [pessoal, ideia de justiça, revolta e sono, adeus,
vida aos outros legada.
" ("Os últimos dias", CDA)

---------------------

Difícil um poeta no qual meu Eu se veja melhor nos Eu-líricos dos poemas do que Drummond. Difícil alguém que me represente mais do que Drummond e seus personagens.

RETROSPECTIVA DE LEITURAS POÉTICAS

Com a releitura de A Rosa do Povo, encerro um ano de bastante leitura de poemas. Li os 5 livros iniciais de Drummond, são 170 poemas. Agora vou pras novidades, tudo que não conheço dele em 18 livros a ler.

No começo do ano li as poesias de Bertolt Brecht. Li uma coletânea de 260 poemas publicados entre 1913-1956. Que poemas, também! Demais!

No primeiro semestre, li poemas de outros poetas modernistas - Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira. De Mário li Pauliceia Desvairada (1922) e Losango Cáqui (1926). De Oswald li Pau-Brasil (1924). De Manuel Bandeira li Libertinagem (1930). Tudo releituras.

Em agosto li Espumas Flutuantes (1870), de Castro Alves. Reli também Distraídos venceremos (1987), de Paulo Leminski.

Finalmente, li o clássico Odisseia, de Homero, em versos, na tradução do maranhense Odorico Mendes, o patriarca da transcriação.

Por fim, li vários livros de Cecília Meireles, dentro de um projeto de ler as obras poéticas completas da poeta.

---

Registro feito. Repito: de tudo que li, ninguém chega perto de Carlos Drummond de Andrade em relação à identificação entre Eu-lírico e Eu mesmo.

É isso.

William


Post Scriptum: fiz uma postagem de retrospectiva cultural do ano de 2021. Foram 57 obras lidas no ano. Para ler a postagem é só clicar aqui.


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond. Nova Reunião: 23 livros de poesia - volume 1. 3ª edição - Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

domingo, 12 de dezembro de 2021

José (1942) - Carlos Drummond de Andrade



Refeição Cultural

"E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
" ("José", p. 129)


Aproveitei o cansaço que sentia ao acordar neste domingo para ler um pequeno livro de poesias de Carlos Drummond de Andrade: José (1942). São 12 poemas. Mas não são quaisquer 12 poemas... a começar pelo poema "José", que nos deixa sem saber o que responder até hoje!

"você marcha, José!
José, para onde?
" (p. 131)

---

O primeiro poema - "A Bruxa" parece ter sido feito pra mim, hoje. Poderia ser o Eu-Lírico.

"A BRUXA

Nesta cidade do Rio, 
de dois milhões de habitantes, 
estou sozinho no quarto 
estou sozinho na América.

(...)

Mas se tento comunicar-me,
o que há é apenas a noite
e uma espantosa solidão.
" (p. 113/14)

---

O segundo poema é demais - "O Boi", parece feito pra nós, hoje. Enquanto lia e relia ficava vendo as pessoas em situação de rua, a miséria do povo sem terra e sem teto, sem emprego e sem direitos sociais, as casas vazias de bilionários da especulação imobiliária.

"O BOI

Ó solidão do boi no campo,
ó solidão do homem na rua!
Entre carros, trens, telefones,
entre gritos, o ermo profundo.

Ó solidão do boi no campo,
ó milhões sofrendo sem praga!
Se há noite ou sol, é indiferente,
a escuridão rompe com o dia.

Ó solidão do boi no campo,
homens torcendo-se calados!
A cidade é inexplicável
e as casas não têm sentido algum.

Ó solidão do boi no campo!
O navio-fantasma passa
em silêncio na rua cheia.
Se uma tempestade de amor caísse!
As mãos unidas, a vida salva...
Mas o tempo é firme. O boi é só.
No campo imenso a torre de petróleo.
" (p. 114/15)

---

O poema "O Lutador" é maravilhoso! Talvez ainda escreva na vã esperança de lutar com palavras. Nesse momento não tenho acreditado nelas, mas tenho que me esforçar e acreditar nas palavras.

"O LUTADOR

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.

(...)

Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue...
Entretanto, luto.
" (p. 121/22)

---

CONHECENDO DRUMMOND

Passei anos conhecendo poucos poemas de nosso poeta modernista C.D.A., basicamente os poemas dos três primeiros livros dele - Alguma Poesia (1930), Brejo das Almas (1934) e Sentimento do Mundo (1940). Ano passado, nas leituras durante a pandemia mundial de Covid-19, li o livro A Rosa do Povo (1945). E só. É o que conheço até agora. 

Tenho em casa a obra completa de poesia de Drummond. São 23 livros. Resolvi expandir meu conhecimento em relação à produção poética de nosso poeta maior. Com a leitura do livro José (1942), conheço agora 5 livros. São 170 poemas reunidos nesses livros.

É isso. Estou fazendo o mesmo com a obra poética de Cecília Meireles.

William


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond. Nova Reunião: 23 livros de poesia - volume 1. 3ª edição - Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.


segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Viagem (1939) - Cecília Meireles



Refeição Cultural


"Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.
" (p. 245/6)


Ufa! Seguimos na viagem ao mundo da poesia de autores brasileiros.

Terminei a leitura do livro Viagem (1939), de Cecília Meireles. É o 7º livro de poesias que leio da poeta brasileira. Cecília, agora, é a poeta da qual mais li poesias até hoje. Com a leitura dos 100 poemas de Viagem, passo a conhecer 359 poemas dela. Quer dizer, não contei os poemas de Paulo Leminski, mas já li sua obra completa também: Toda Poesia (2013). Não sei se a quantidade de poemas de Leminski é tão grande quanto a de Meireles.

Para registrar corretamente, o livro do Paulo Leminski que tenho contém: quarenta clics em curitiba (1976), caprichos & relaxos (1983), distraídos venceremos (1987), la vie en close (1991), o ex-estranho (1996), winterverno (2001) e poemas esparsos. Os nomes todos com letra minúscula, caixa baixa, fazem parte da edição que tenho. Ler aqui comentários sobre o livro de Leminski.

Tenho um longo caminho pela frente para ler e conhecer a obra poética dos principais poetas brasileiros. Já conheço um pouco de João Cabral, de Manuel Bandeira, de Drummond, Castro Alves, Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Cecília Meireles. Alguns deles tenho a obra completa e falta só seguir lendo e conhecendo. Imaginem a lacuna gigante... nada de Vinícius de Moraes, Cora Coralina, Ferreira Gullar, Mário Quintana, irmãos Campos, só pra citar alguns poetas que não li nada ainda.

Vou ler a obra completa de Cecília Meireles. O incentivo veio do fato de ter ganhado essa edição de minha companheira tempos atrás e agora decidi ir lendo aos poucos. No primeiro volume, que estou lendo agora, são 13 livros. Acabei de ler o 7º. Agora conheço Espectros (1919), Nunca mais... e Poema dos poemas (1923), Baladas para El-Rei (1925), Cânticos (1927), A festa das letras (1937), Morena, pena de amor (1939) e Viagem (1939).

Também tenho as obras poéticas completas de Drummond. Vou lê-las também (postagens sobre ele ver aqui). Por décadas, o poeta itabirano foi o autor do qual eu mais conhecia poemas, isso porque já havia lido e sempre reli os 3 livros iniciais dele - Alguma Poesia (1930), Brejo das Almas (1934) e Sentimento do Mundo (1940). Ano passado, li A rosa do povo (1945). Agora preciso expandir meu conhecimento de Drummond. Vamos aos poucos lendo sua obra das décadas seguintes.

---

CECÍLIA MEIRELES E VIAGEM

O livro é denso, não considero de leitura fácil. Senti dificuldade na compreensão de diversos poemas, assim como foi na releitura de Brejo das Almas, de Drummond. Alguns poemas são impenetráveis para este leitor que registra a experiência da leitura. Não tenho problema algum em dizer isso.

Gostei muito da série de poemas chamados por Cecília de "epigramas". São 13 epigramas. Alguns são demais!

Para citar alguns dos poemas com os quais me identifiquei e que me agradaram bastante, fico com "Retrato", "Epigrama nº 2" sobre a Felicidade e o tempo, "Canção" (p. 255, pois há outros com o mesmo nome), "Solidão", "Murmúrio", "Epigrama nº 4" sobre o choro, "Epigrama nº 5" sobre a gota d'água que resiste ao vento, "Pausa", "Cantiga" (p. 323) com o bem-te-vi, "Epigrama nº 12" sobre a engrenagem e o inseto, "Vento", dentre outros.

O poema "Destino" trabalha com duas imagens se contrapondo: pastora de nuvens x pastores da terra. É muito interessante!

O poema "Quadras" tem algumas estrofes bem legais, do tipo:

"Passarinho ambicioso
fez nas nuvens o seu ninho.
Quando as nuvens forem chuva,
pobre de ti, passarinho.
" (p. 310)

*

"Ao lado da minha casa
morre o sol e nasce o vento.
O vento me traz teu nome,
leva o sol meu pensamento.
" (p. 311)

---

Adorei o poema "Onda". Ele contém 8 estrofes e deixo abaixo a primeira e a última.

"Onda

Quem falou de primavera
sem ter visto o teu sorriso,
falou sem saber o que era.

(...)

mas quem falou de deserto
sem nunca ver os meus olhos...
- falou, mas não estava certo.
" (p. 316)

---

Como não dava pra deixar aqui vários poemas, deixo um dos epigramas de Viagem.

"Epigrama nº 2

És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir, e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa.
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo, despovoado e profundo, persiste.
" (p. 252)

---

COMENTÁRIO FINAL

Quanto mais leio os poemas de Cecília Meireles mais vou compreendendo a sua poética. Pesquisar informações a respeito de sua biografia também tem sido fundamental para mim. 

A cada texto ou entrevista com alguém falando sobre a intelectual, melhor fica minha compreensão dos poemas que já li (os 7 primeiros livros), que cobrem a vida dela entre a infância e a idade adulta, quase quarenta anos, época em que seu marido faleceu, por não superar a depressão profunda que sofria.

A autora lidou com mortes e perdas ao longo da vida e isso influenciou a pessoa que era e a sua poética. O pai morreu antes dela nascer, a mãe quando tinha 3 anos, depois a babá Pedrina e a avó que a criou, depois o marido. 

Isso não quer dizer que Cecília Meireles fosse uma pessoa triste e ou depressiva. As experiências com as perdas fizeram com que ela visse a vida como passageira, fugaz e, por ser religiosa, na minha leitura, ela via a vida como algo além da existência terrena. Nos poemas que já li, há um Eu-lírico que traz constantemente uma temática mística e metafísica.

É isso. Seguimos lendo poesia e conhecendo autores, autoras e poemas brasileiros.

William


Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin. Apresentação: Alberto da Costa e Silva. 1ª edição - São Paulo: Global, 2017.

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

41. Sentimento do Mundo - Carlos Drummond de Andrade



Refeição Cultural - Cem clássicos

Cada releitura de livros de poesias é uma leitura nova porque a gente descobre poemas que passaram por nós sem ter havido uma identificação pessoal na leitura anterior.

Hoje reli Sentimento do Mundo (1940), livro que considero um clássico de Drummond e das poesias brasileiras. É o 3º livro publicado pelo poeta, depois de Alguma Poesia (1930) e Brejo das Almas (1934). Nesses 3 livros temos 103 poemas de Drummond.

Alguns dos poemas de Sentimento do Mundo são muito conhecidos e cultuados pelos amantes de poesia como, por exemplo, "Sentimento do mundo", "Confidência de itabirano", "Congresso internacional do medo", "Os ombros suportam o mundo", "Elegia de 1938" e "Mãos dadas".

Desta nova leitura, um poema me encantou, mexeu comigo e foi uma descoberta: "A noite dissolve os homens". Das outras vezes que li o livro, não me identifiquei com esse poema.

Recentemente, fiz uma disciplina de Literatura Comparada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, cuja temática desenvolvida abordava a questão do tempo nas narrativas e poéticas e no trabalho final eu escolhi um poema de Drummond para analisar. O poema que trabalhei foi o "Passagem da Noite", do livro A Rosa do Povo, de 1945.

Ao ler a poesia "A noite dissolve os homens" foi instantâneo o sentimento de relação entre esse poema e o poema "Passagem da Noite" do livro seguinte.

Ambos trabalham com as imagens da noite e do dia para expressar sentimentos de dificuldades pessoais e coletivas num eventual contexto dramático de perdas, medos, riscos diversos quando a imagem está associada à noite e de renascimento da esperança ou de pulsação da vida que segue ao associar essas temáticas ao dia, ao sol, à claridade do amanhecer.

Em relação ao poema "Passagem da Noite" ainda não publiquei a minha redação final do trabalho de conclusão de disciplina que fiz. A professora gostou de minhas reflexões a respeito do poema.

Deixo abaixo o poema do livro Sentimento do Mundo. Drummond é um poeta que tem como característica o trabalho permanente com objetos relativos ao tempo, à matéria, às coisas presentes. 

Podemos, por exemplo, ler a 1ª parte do poema "A noite dissolve os homens" como brasileiros vivendo sob a égide do regime bolsonarista, tempos de destruição de tudo, e podemos ler a 2ª parte do poema como a vida se apresenta a nós, e a vida é a chance de mudança a cada amanhecer. Tempos de esperança e renascimento estão ao nosso alcance, isso depende muito de nós e de nosso comportamento diante das coisas da vida.

---

A NOITE DISSOLVE OS HOMENS

                    A Portinari

A noite desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tampouco os rumores
que outrora me perturbavam.
A noite desceu. Nas casas,
nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos,
a noite espalhou o medo
e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda,
sem esperança... Os suspiros
acusam a presença negra
que paralisa os guerreiros.
E o amor não abre caminho
na noite. A noite é mortal,
completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens,
diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias,
apagou os almirantes
cintilantes! nas suas fardas.
A noite anoiteceu tudo...
O mundo não tem remédio...
Os suicidas tinham razão.

Aurora,
entretanto eu te diviso, ainda tímida,
inexperiente das luzes que vais acender
e dos bens que repartirás com todos os homens.
Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes, vapor róseo, expulsando
                                               [a treva noturna.
O triste mundo fascista se decompõe ao contato
                                               [de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram
mas que avançam na escuridão como um
                                      [sinal verde e peremptório.
Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.
O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes
                                                  [se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez,
uma inocência, um perdão simples e macio...
Havemos de amanhecer. O mundo
se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces, aurora.


---

Demais esse poema! Demais Drummond! Demais ler poesia! Como nos ensina Italo Calvino, é melhor ler do que não ler os clássicos!

William


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do Mundo. 10ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2000.

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Morena, pena de amor (1939) - Cecília Meireles



Refeição Cultural

Aos poucos, vamos conhecendo a obra poética de Cecília Meireles. Li mais um livro da poeta - Morena, pena de amor, de 1939. Foram 130 poemas nesta publicação, 129 numerados e uma abertura que dá início aos poemas.

Agora, já li e conheço Espectros (1919), Nunca mais... e Poema dos poemas (1923), Baladas para El-Rei (1925), Cânticos (1927), A festa das letras (1937) e Morena, pena de amor (1939).

Somando os 130 poemas aos 129 das outras 5 publicações, agora conheço 259 poemas dessa grande poeta e intelectual brasileira.

---

MORENA, PENA DE AMOR

"Queria só um sorriso.
Mas deram-me um beijo.
Perdi metade do juízo
e fui dar ao Paraíso.
São Pedro, vendo-me a cara,
dizia: 'Mas que pequena!
Com uma estrela tão clara
numa boca tão morena!'

(Qual seria esse tesouro?
Seria o teu beijo?
Seria o sorriso?
Ou apenas o ouro
do meu dente siso?)
" (p. 191)

---

Assim começam os poemas desse trabalho poético de Cecília Meireles.

"1

Me chamam Morena
por ser minha cor.
Mas meu nome é Pena,
Pena de Amor.
"

---

Selecionei alguns momentos muito sonoros e prazerosos da obra.

"5

Não perguntes nada,
não perguntes, não.
Tenho uma espada,
enferrujada,
atravessada
no coração.

Como está quebrada,
não se põe a mão.
" (p. 192/193)

---

"15

Os meus morenos suspiros
por morenos campos vão,
dentro de morenos rios,
por morena solidão.

Ai, morena sorte
da vida terrena,
ai, morte morena,
ai, terrena morte...
" (p. 195/196)

---

"26

Choro de pena,
choro de alegria,
me chamam Morena.
Sou Melancolia.
" (p. 200)

---

"32

Chamei Deus - e estava ausente,
ou fez-se desentendido.
Não há nada que atormente
como um chamado perdido.
" (p. 202)

---

O próximo poema é muito legal. Basta lembrarmos que Drummond já tinha nos apresentado seu poema "Quadrilha", em Alguma Poesia (1930).

"34

Eu estou sonhando contigo,
tu estás sonhando com ela,
e ela com o teu amigo,
e ele comigo ou com ela...

Tudo sonha e oscila
nas ondas do mundo:
em cima, a lua tranquila,
tranquila, a morte, no fundo.
" (p.202/203)

---

"40

De dia, te andei buscando,
de noite, a buscar-te andei.
De tanto andar procurando,
perdi-me e não te encontrei.
" (p. 205)

---

"48

Semeei plantas de amores,
nasceram ódios de espinho.
Não foi da mão nem das flores,
foi condição do caminho.
" (p. 207)

---

Anotei diversos poemas que me tocaram ou que são muito expressivos para mim. Seria muito trabalhoso postar muitos deles. 

Fecho a seleção com o poema que fala da solidão.

---

"62

Bateram na noite escura,
fui abrir com precaução.
Perguntei: 'Quem me procura?'
Disseram-me: 'A Solidão'.

Entrou-me pela vidraça
um vulto de escuridão.
Perguntei: 'Mas quem me abraça?'
Disseram-me: 'A Solidão'.

Viverei com alegria
e sem outra condição
que a da companhia
desta Solidão...
" (p. 214/215)

---

CONHECENDO AOS POUCOS CECÍLIA MEIRELES

Hoje vi uma palestra muito interessante na internet a respeito da obra Cânticos (1927), ministrada pela professora Lúcia Helena Galvão, num canal chamado "Nova Acrópole Brasil". A palestrante destaca as mensagens místicas em sua interpretação dos 26 poemas. Outra parte interessante da palestra foi a biografia de Cecília Meireles.

Enfim, sigo avançando na leitura dos poemas da poeta, professora, pintora, educadora, poliglota e tradutora e grande intelectual brasileira Cecília Meireles.

O próximo livro de poesias dela é premiado, vou ler a seguir Viagem (1939).

William


Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin. Apresentação: Alberto da Costa e Silva. 1ª edição - São Paulo: Global, 2017.

domingo, 14 de novembro de 2021

Brejo das Almas (1934) - Carlos Drummond de Andrade



Refeição Cultural

"HINO NACIONAL

(...)

Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!
Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,
ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.
O Brasil não nos quer! Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?
" (p. 105)


Reli o segundo livro de poesias do poeta Carlos Drummond de Andrade - Brejo das Almas -, publicado em 1934. Na minha opinião, os poemas desta obra são herméticos, de difícil compreensão. Como diria o Eu-lírico no poema SEGREDO - "A poesia é incomunicável./Fique torto no seu canto.". Talvez seja o leitor (eu) que não tenha ainda conseguido avançar na boa leitura de poesias, já que alguns autores e alguns estilos de poesia são mais exigentes que outros.

A leitura dos 49 poemas de Alguma poesia (1930) é fácil e prazerosa do início ao fim - ler comentário aqui -, talvez porque os poemas já sejam bem conhecidos por mim, e a familiaridade facilita bastante a leitura e o deleite advindo de cada poema. A leitura dos 26 poemas de Brejo das Almas (1934) é uma leitura de estranhamento, de surpresas, e de identificações também.

Eu me lembro de uma entrevista com o escritor e poeta chileno Roberto Bolaño na qual ele destacava para o entrevistador versos, dísticos e algumas imagens de poemas que ele gostava, dizendo que aquela imagem e aquele significado já se bastavam em si mesmos, sendo o restante das estrofes até desnecessárias (impressão que eu tive da fala dele). Forma muito particular de ler poesia, mas tudo bem.

O professor Ariovaldo Vital, nas aulas que tive em 2019 sobre leitura de poesias, nos explicava que cada palavra, cada verso, cada estrofe tem um significado que se inteira com as demais partes do poema e com o sentido total da mensagem. Nada é à toa em um poema. Também tá valendo o ensinamento.

Se eu leio os poemas de Brejo das Almas com o viés de Bolaño, vejo versos e imagens que adorei nos poemas.

---

"O AMOR BATE NA AORTA

(...)

o amor ronca na horta
entre os pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.
" (p.95)

---

"O VOO SOBRE AS IGREJAS

(...)

Era uma vez um Aleijadinho,
não tinha dedo, não tinha mão,
raiva e cinzel, lá isso tinha,
era uma vez um Aleijadinho,
era uma vez muitas igrejas
com muitos paraísos e muitos infernos,
era uma vez São João, Ouro Preto,
Mariana, Sabará, Congonhas,
era uma vez muitas cidades
e o Aleijadinho era uma vez.
" (p. 102/103)

---

"COISA MISERÁVEL

(...)

Mas de nada vale
gemer ou chorar,
de nada vale
erguer mãos e olhos
para um céu tão longe,
para um deus tão longe,
ou, quem sabe? para um céu vazio.
" (p. 112)

---

Neste livro já vemos o Drummond que vai dizer o tempo todo que não adianta morrer, que a vida deve seguir, a vida apenas e sem mistificações, mesmo em face de acontecimentos e coisas tão graves e drásticas, sejam elas na vida pessoal, sejam na vida coletiva.

O poema NECROLÓGIO DOS DESILUDIDOS DO AMOR é um caso desses. O Eu-lírico deixa a opinião dele aos românticos e dramáticos de que não vale a pena morrer por amores não correspondidos.

"Os desiludidos seguem iludidos,
sem coração, sem tripas, sem amor.
Única fortuna, os seus dentes de ouro
não servirão de lastro financeiro
e cobertos de terra perderão o brilho
enquanto as amadas dançarão um samba
bravo, violento, sobre a tumba deles.
" (p. 122)

---

Fecho o comentário com os poemas que trazem a questão do amor erótico e sensual. Uma delícia os poemas O PASSARINHO DELA e GIRASSOL. Naquele, o Eu-lírico fala até o nome do autor:

---

"O passarinho dela
está batendo asas, seu Carlos!
Ele diz que vai-se embora
sem você pegar.
" (p. 99)

---

E o poema GIRASSOL é mais explícito na linguagem e no desejo:

---

"havia também (entre vários) um girassol. A moça
                                                             [passou.
Entre os seios e o girassol tua vontade ficou interdita.

Vontade garota de voar, de amar, de ser feliz, de viajar,
                            [de casar, de ter muitos filhos;
vontade de tirar retrato com aquela moça, de praticar
                [libidinagens, de ser infeliz e rezar;
" (p. 111)

---

Quase todos nós já tivemos algum dia o sentimento desse Eu-lírico, algo pueril, algo libidinoso e erótico sobre amores e sexos.

É isso. Vou ler a poesia completa de Drummond. E vou contando os poemas a cada livro publicado por ordem cronológica, como estou fazendo com a leitura de Cecília Meireles.

Nos primeiros dois livros de Drummond, são 75 poemas.

Seguimos lendo poesias.

William


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do Mundo. 10ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2000.