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terça-feira, 26 de outubro de 2021

38. O mágico de Oz - L. Frank Baum



Refeição Cultural - Cem clássicos

"Ainda assim", concluiu o Espantalho, "prefiro pedir um cérebro, pois um tolo não saberia o que fazer com um coração mesmo que o tivesse."

"Prefiro o coração", retrucou o Homem de Lata, "pois inteligência não traz felicidade a ninguém e não há nada melhor no mundo do que ser feliz." (p. 65)


Conheci mais um clássico da literatura mundial - O mágico de Oz - de L. Frank Baum, publicado em 1900 nos Estados Unidos. Finalmente li o livro! Antes, o mundo de Oz, Dorothy e seus amigos Espantalho, Homem de Lata e Leão Covarde, além de seu cãozinho Totó, eram personagens distantes para mim, pois sabia da existência deles de ouvir dizer e pela fama de mais de um século de cultura.

Kansas deve ser um lugar referencial para a cultura norte-americana. Alguns ícones da cultura daquele povo têm relação com Kansas, para o bem e para o mal. A região é o centro geográfico dos Estados Unidos. De lá, conhecemos Superman e Dorothy Gale, a garotinha que não quis abrir mão de sua terra natal e fez de tudo para voltar do mundo de Oz para lá.

A garota Dorothy mora com seus tios Henry e Em numa fazenda muito pobre, numa casa de madeira de cômodo único e uma tormenta a leva pelos ares. Ela vai parar no mundo de Oz e desde o primeiro instante luta para voltar para casa. 

Nessa jornada vai fazendo amigos, um Espantalho que queria ter um cérebro, um Homem de Lata que queria ter um coração e um Leão Covarde que queria ser corajoso. E assim se desenvolve a narrativa de Frank Baum.

O mágico de Oz é considerado um dos principais ícones da cultura norte-americana pela sua simbologia de que o melhor lugar do mundo é a própria pátria, sua terra natal, sua casa.

Alguns críticos apontam o Mágico de Oz como uma resposta ao clássico Alice no País das Maravilhas, ícone da cultura da Inglaterra vitoriana, antigo império do mundo e metrópole da qual os Estados Unidos se separaram como colônia no século XVIII.

A edição que tenho é fabulosa, com uma beleza e um cuidado impressionante. Foi feita pela coleção DarkSide, traduzida por Marcia Heloisa, que também traduziu Alice. As ilustrações são as originais de W. W. Denslow. Um agrado imenso aos olhos e uma leitura muito leve.

Eu particularmente achei a leitura muito mais linear e fácil que a leitura dos dois volumes de Alice, de Carroll. Mas diria que é muito importante que as pessoas de todas as idades conheçam esses dois clássicos, as aventuras de Dorothy e de Alice, personagens clássicos dos imperialistas do mundo moderno.

Após ler esses clássicos considerados infantis ou infanto-juvenis, posso reafirmar com tranquilidade a máxima de Italo Calvino, que mais vale ler que não ler os clássicos.

William


Bibliografia:

BAUM, L. Frank. O mágico de Oz. Ilustrações de W. W. Denslow. Tradução de Marcia Heloisa. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2020.

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

36. Através do espelho e o que Alice encontrou por lá - Lewis Carroll



Refeição Cultural - Cem clássicos

"Nesse momento a Rainha Vermelha recomeçou. 'Sabe responder a perguntas úteis?' disse. 'De que é feito o pão?'

'Isso eu sei!' Alice exclamou, animada. 'Pega-se um pouco de farinha...'

'Onde se colhe a farinha?' perguntou a Rainha Branca. 'Num jardim, ou nas cercas vivas?'

'Bem, ela não é colhida', Alice explicou; 'é moída...'

'De pancada?' disse a Rainha Branca. 'Não devia omitir tantas coisas.' " (p. 134)


Amigas e amigos leitores, esse diálogo maluco acima não é um trecho daquele programa absurdo de "debates" do canal de notícias bolsonarista. 

O excerto acima é ficção de verdade, é um trecho de um romance inglês. Quem diria que diálogos ficcionais como esse se tornariam realidade num país sul-americano no século XXI... 

(todos os absurdos imagináveis e inimagináveis viriam a acontecer no Brasil governado por genocidas, corruptos e dementes em 2021)


CONHECENDO ALICE AOS 50 ANOS

A obra que acabei de ler completou neste ano 150 anos. Através do espelho é o segundo livro com aventuras da garotinha Alice, personagem com 7 anos e meio de idade nesta estória - ela tinha 7 anos quando entrou na toca do coelho. Agora ela atravessou o espelho de sua sala e viveu novas aventuras.

Em Aventuras de Alice no País das Maravilhas (1865), a jovem Alice vê um coelho apressado passar por ela, com um relógio em mãos se dizendo atrasado e, por curiosidade, sai atrás do coelho. Entra na toca com ele, cai no mundo subterrâneo (depois chamado de "Wonderland") e lá no fundo da toca vai viver diversas aventuras. 

Alice, uma garota da Inglaterra vitoriana, o império do mundo naquela época, tenta lidar com aquele mundo subterrâneo ou "das maravilhas", seus personagens e suas regras com uma lógica racional de seu mundo real. E isso não funciona lá. 

Em Através do espelho e o que Alice encontrou por lá (1871), a jovem Alice está sozinha em casa, desta vez não é verão, é inverno. Está só, mas está com suas gatinhas. A gata Dinah teve filhotes: uma gatinha branca e uma gatinha preta, Kitty, a responsável por tudo, segundo Alice. É nesse contexto que Alice atravessa o espelho e vive novas aventuras.

Novamente, as regras do mundo de Alice não funcionam naquele ambiente, tudo é invertido, diferente. Para ficar mais interessante a estória, as aventuras da jovem se dão num tabuleiro de xadrez. É muito legal a forma como Carroll desenvolveu esse segundo livro. Nas duas aventuras, Alice lida com súditos e rainhas amalucados.

Finalmente conheci os clássicos de Alice, do reverendo Charles Lutwidge Dodgson, escritor e professor em Christ Church, universidade onde ensinou a vida toda. Dodgson nasceu em Cheshire (como o gato de Cheshire na 1ª estória). O autor assinou os romances com o pseudônimo de Lewis Carroll.

Eu tenho 3 edições diferentes desses clássicos. Uma em inglês e duas em português. As ilustrações originais de John Tenniel são incríveis! São indissociáveis da obra de Carroll. Esta edição que li da Zahar, com ilustrações-colagens de Adriana Peliano está maravilhosa, a proposta da artista é muito agradável para os leitores. 

Um século e meio depois de publicados, os romances com as aventuras de Alice se tornaram muito maiores que seu autor, que até hoje desperta polêmicas por causa de suas relações com crianças, meninas especificamente. São décadas de debates e questionamentos que avaliam se houve ou não pedofilia na relação do autor com crianças. Nunca houve acusações formais, sequer por parte das crianças envolvidas. Basta lembrar que Alice Liddell faleceu bem idosa e nunca se pronunciou sobre a questão.

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ALICE E DEMAIS FÁBULAS NÃO FIZERAM PARTE DE MINHA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA

Cada vez que conheço um novo clássico da literatura mundial, preencho uma espécie de lacuna cultural. 

Às vezes, minha esposa fica impressionada ao me ouvir dizer que não conheço Alice, que não conheço o Mágico de Oz, ou o personagem Peter Pan etc. Talvez a explicação seja a minha infância e adolescência após os 10 anos de idade no Brasil dos anos oitenta e noventa.

Tento lidar com essa "culpa" da forma que dá. Só fui conhecer Moby Dick este ano. Ainda vou ler e conhecer Gulliver e Robinson Crusoé, os livros estão na fila de leitura, junto com o personagem capitão Nemo, de Júlio Verne. Esses personagens famosos estão juntos com um monte de clássicos que não li ainda. Espero ter tempo de ler dezenas de obras literárias, caso siga vivo nos próximos anos.

Acho que dei sorte na vida. Sobrevivi à adolescência (um momento de explosão vulcânica no planeta humano). Sobrevivi às mortes severinas do Brasil da casa-grande e das senzalas. Não li um monte de clássicos, mas li um monte de best sellers dos anos setenta e oitenta. Estudei e completei o ensino fundamental e completei dois cursos universitários. Não posso reclamar de nada.

As leituras das aventuras da personagem Alice não foram fáceis para mim. Li 3 vezes o primeiro livro e agora li o segundo. Vi vários vídeos de resenha, comentários de professores e críticos e as informações me ajudaram bastante na compreensão que adultos podem captar da leitura dos dois livros.

É provável que ainda vá ler de novo os livros de Alice, talvez leia a edição em inglês. As possibilidades de leitura são impressionantes.

É isso! Mais um clássico lido. É melhor ler que não ler um clássico. Acho até que vou pegar o Mágico de Oz agora...

William


Bibliografia:

CARROL, Lewis. Alice: edição comemorativa - 150 anos. Colagens Adriana Peliano; tradução Maria Luiza X. de A. Borges. 1ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2015.


081021 - Diário e reflexões


Desenho feito em Pernambuco, 2010.
Durante um curso de formação política.

Refeição Cultural

Osasco, 8 de outubro. Brasil dos 600.000 mortos de Bolsonaro.


QUEM SOU EU NESTE MUNDO?

Ao acordar nesta sexta-feira no Brasil de outubro de 2021, fiquei alguns minutos na cama olhando pro teto e me levantei. Alguns pensamentos me dominavam, coisas do ontem. A eles se somaram as coisas do hoje, ao contatar o cotidiano da vida humana. Os tempos são de tristezas alheias e pessoais, desarranjos familiares, desorganização de um mundo anterior, mais coletivo. Estamos todos perdidos. Ontem hoje e o amanhã se parecem muito: desalento, falta de esperanças e perspectivas.

Após uma hora e pouco de contatos com a realidade dura e que entristece a mim e às pessoas não alienadas e com alguma estrutura psicológica de ética e caráter, fui fazer a minha parte na sobrevivência, fui comer alguma coisa de desjejum. Tenho optado por comer frutas de época com mel e granola. Sei que é saudável e pode alongar minha saúde por um tempo. (Falar de comida é uma ostentação, uma opulência... toda comida no prato é um privilégio no Brasil da casa-grande e do 1%. Comer nos dá culpa, enquanto milhões passam fome)

A pergunta "Quem sou eu neste mundo?" é um dos temas que a crítica de literatura aponta como reflexão a partir da obra clássica de Lewis Carroll, As aventuras de Alice no País das Maravilhas (1865). Quem sou eu? Quem somos nós? Quem sou eu neste mundo de Bolsonaro, Guedes, Temer, Moro? Quem fui naquele Brasil dos anos oitenta, quando não pude ser criança direito? Quem somos neste mundo de estupradores identificados e inocentados, corruptos da casa-grande identificados e impunes flanando pelos logradouros públicos bem na nossa frente? Quem somos nós com essa coisa nas veias que nem sequer pode ser sangue de barata, pusilânimes que não fazemos nada com esses estupradores e corruptos da casa-grande e que não fazemos nada para salvar a Amazônia, o Pantanal, os biomas e a natureza eliminando meia dúzia de humanos que decidiram extinguir a vida na Terra? Quem somos nós? Quem sou eu?

Chega! Nem quero registrar mais nada que pensei nessa manhã toda.

William


Post Scriptum: um dos temas de minha manhã de contatos com a dura realidade brasileira foi justamente a informação que recebi pela manhã sobre o desligamento de alguns profissionais de saúde de nossa Caixa de Assistência em Pernambuco, local onde fiz o desenho que ilustra esta postagem. Não tenho detalhes, mas sei que a Cassi que construímos está sendo desfeita, vaporizada. Na época do desenho (2010), eu era secretário de formação política de nossa confederação de trabalhadores do ramo financeiro. Hoje, a direção de nossa autogestão em saúde está desmontando a estrutura própria da Cassi dos funcionários do BB. É o mundo se desfazendo e nós não estamos interrompendo a destruição de tudo, da vida. Quem somos nós que permitimos tudo isso? Quem somos nós?


terça-feira, 5 de outubro de 2021

Alice (e nós) no tabuleiro (do mundo)



Refeição Cultural

" 'Veja só! Está demarcado exatamente como um grande tabuleiro de xadrez!' Alice disse por fim. 'Deve haver algumas peças se mexendo em algum lugar... ah, lá estão!' acrescentou encantada, e seu coração começou a disparar de entusiasmo enquanto continuava. 'É uma partida de xadrez fabulosa que está sendo jogada... no mundo todo... se é que isso é o mundo. Oh, como é divertido! Como eu gostaria de ser um deles. Não me importaria de ser um Peão, contanto que pudesse participar... se bem que, é claro, preferiria ser uma Rainha.'

Ao dizer isso, olhou de rabo de olho, um tanto acanhada, para a verdadeira Rainha, mas sua companheira apenas sorria amavelmente e observou: 'É fácil arranjar isso. Você pode ser o Peão da Rainha Branca, se quiser, pois Lily é muito novinha para jogar; você está na Segunda Casa; quando chegar à Oitava Casa, será uma Rainha...' Exatamente nesse instante, sabe-se lá por quê, as duas começaram a correr." (p. 35/38)


Certa vez, muito tempo atrás, peguei emprestado de meu primo Jorge Luiz um livro de xadrez para aprender no mínimo o nome das peças, as regras do jogo, como as peças se movem etc. Eu ficava inconformado por não saber jogar xadrez por causa do filme de Ingmar Bergman O Sétimo Selo (1956). Nunca prestei pra jogar, mas aprendi o que precisava para ver e ouvir jogadores falando a respeito dos movimentos das peças no tabuleiro. 

Após ler o clássico As aventuras de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, decidi iniciar a leitura de Através do espelho e o que Alice encontrou por lá (1871), publicado por Carroll seis anos após o sucesso de Alice. Minha nossa! A lógica do livro é bem diferente! Enquanto no enredo a personagem infantil tem alguns meses de diferença entre a 1ª e a 2ª aventura (entre 7 e 8 anos), a exigência em relação ao leitor aumenta significativamente. Pelo menos essa é a minha impressão inicial. A começar pela relação entre a estória e o jogo de xadrez.

Li os dois primeiros capítulos (para tudo... a compreensão está ruim!). Vi uma crítica a respeito do livro na internet. Reli os dois capítulos (mas e a relação com o xadrez?). Fui reler as regras do jogo de xadrez, pois havia esquecido quase tudo. Reli parte do segundo capítulo para compreender melhor o que estava lendo. Ufa! Após esse percurso inicial é que posso dizer que Alice entrou no jogo como um Peão Branco e na 2ª casa da Rainha Branca. Dá pra ver Alice ali na foto do tabuleiro rsrs.

Enfim... que interessantes reflexões podemos tirar só desse começo de aventura. Eu, por exemplo, relembrei claramente o quanto é importante ter noções das coisas, noções! Se as pessoas tivessem ao menos noções das coisas, a vida em sociedade poderia ser bem melhor.

Mas vivemos num mundo sem noção! As pessoas não têm sequer noções básicas sobre as coisas do mundo e da vida! Que foda isso!

E, sem noções, as pessoas vão criando e espalhando mentiras, ódios, maledicências, vão sendo manipuladas por alguns reis e rainhas neste tabuleiro mundo que está se acabando, ou melhor, sendo acabado por alguns desgraçados em posições de reis e rainhas. Estamos no tabuleiro, mas teríamos que jogar. Aff!

William


Bibliografia:

CARROL, Lewis. Aventuras de Alice no País das Maravilhas & Através do espelho e o que Alice encontrou por lá. Edição comemorativa - 150 anos. Zahar, Rio de Janeiro, 2015


segunda-feira, 4 de outubro de 2021

35. Alice no País das Maravilhas - Lewis Carroll



Refeição Cultural - Cem clássicos

Li a obra clássica As aventuras de Alice no País das Maravilhas ano passado em uma belíssima edição da Zahar, comemorativa do sesquicentenário de lançamento. Fiz duas leituras com intervalo de um mês. A edição teve a tradução de Maria Luíza X. de A. Borges e foi ilustrada por Adriana Peliano. A postagem da leitura pode ser lida aqui.

Reli a obra de Carroll entre ontem e hoje em outra edição também belíssima, da DarkSide Books, na tradução de Marcia Heloisa, com as ilustrações originais de John Tenniel. Na tradução ficou com o título Alice no País das Maravilhas.

Lewis Carroll é o pseudônimo do autor, o diácono protestante Charles Lutwidge Dogson, professor de matemática no Christ Church College. A obra foi lançada em 1865 e uma sequência saiu em 1871: Através do espelho e o que Alice encontrou por lá.

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QUE PODERIA COMENTAR AQUI NO BLOG A RESPEITO DO LIVRO?

Em primeiro lugar, que avancei mais um degrau na longa escada que me levará ao objetivo de ler ao menos cem clássicos da literatura mundial. Estou avaliando quantas obras já li e definindo as próximas leituras de meu interesse.

Eu tenho grandes lacunas culturais em relação à literatura infantil e juvenil, fábulas, mitologia, fantasia e ficção. Até desenhos famosos das décadas finais do século XX eu deixei de ver quando criança e adolescente (trabalhava e estudava o dia todo desde uns 11 anos). Esse fato me deixa de mente aberta para mergulhar após os 50 anos de idade em qualquer tipo de literatura considerada clássica ou interessante.

As Aventuras de Alice no País das Maravilhas não me empolgou como vejo que empolgou outras leitoras e leitores ao longo de seus 150 anos de história de leitura. Falo em relação ao prazer de ler. Me empolguei muito mais ao descobrir, por exemplo, as aventuras do Quixote e de seu fiel escudeiro Sancho Pança. Não ri e chorei e nem me arrepiei com o livro clássico de Carroll.

As 3 leituras têm um pouco dessa tentativa de encontrar os sentidos que outras leituras encontraram. E para isso servem, também, as boas críticas literárias.

Após a leitura atual, vi uma entrevista com a professora Sandra Vasconcellos, da FFLCH-USP, ao Ederson Granetto, do programa Literatura Fundamental da Univesp, que me deixou muito satisfeito com as informações tanto do contexto de época, quanto do autor e da obra em si. 

Apesar do curto tempo para a exposição, trinta minutos, ela abordou as polêmicas relativas ao autor e sua relação afetiva com crianças naquela época, meados do século XIX. Existem cartas e fotografias que sugerem o que hoje chamaríamos de pedofilia. No entanto, nunca se concluiu se seu amor por crianças era platônico ou se o acadêmico e diácono foi além disso.

Eu na hora me lembrei de outros autores que têm essa questão em suas biografias ou bibliografias: o norte-americano Edgar Allan Poe, contemporâneo de Dogson, casou-se com a prima de 13 anos. O escritor russo Vladimir Nabokov publicou em 1955, um romance que escandalizaria a sociedade da época (Lolita) abordando a relação entre uma menina de 12 anos e um homem maduro.

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ALGUNS TEMAS DA OBRA

As explicações da professora Sandra Vasconcellos nos fazem ver a obra com um olhar bem diferente. Eu recomendo para quem quer pensar mais a obra de Carroll ver o vídeo da Univesp na internet.

A obra tem alguns temas que movem as aventuras e os acontecimentos do início ao fim. A curiosidade da criança é um deles. É por isso que Alice vê o coelho apressado e por isso vai atrás dele. É por curiosidade que ela quer saber o que tem atrás da porta que guarda um jardim e um mundo desconhecido.

NONSENSE - O mundo subterrâneo, da fantasia, tem outras regras em vigor, ou diríamos que não tem regras, pois as que vigoram lá não se ajustam ao mundo lá fora: matemática, geografia, espaço, tempo, física, modos e costumes sociais da sociedade britânica etc.

Quem sou eu neste mundo? Essa é outra questão que perpassa toda a aventura de Alice naquele mundo da fantasia. Por isso a garota está tão perdida. Seus valores não funcionam ali. Alice faz parte do mundo da ordem, lá é o da desordem, da inversão das coisas.

E a questão da revolta de Alice é algo que gostei muito na explicação da professora Sandra Vasconcellos.

Enfim, clássico lido. Ainda vou ler a continuação de 1871, mas deve ter outra lógica.

Valeu a pena, sim, a leitura do livro e as críticas que ouvi e li após a leitura de Alice no País das Maravilhas. É muito bom conhecer os clássicos!

William

Um leitor


Bibliografia:

CARROLL, Lewis. Alice no País das Maravilhas. Tradução de Marcia Heloisa e Leandro Durazzo. Ilustrações de John Tenniel. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2019.


sexta-feira, 8 de maio de 2020

Leitura: Aventuras de Alice no País das Maravilhas (1865) - Lewis Carroll



Uma de minhas edições de Aventuras de Alice
no país das maravilhas, de Lewis Carroll.

Refeição Cultural

Tempos estranhos. Sensações estranhas. Pandemias. Covid-19. Bolsonarismo. Barbarismos. O estômago ou intestino roem com tanta coisa nauseante ao nosso redor. A vida que teria grande expectativa de vida se pegou com baixa perspectiva de vida. O jeito é ler rápido aquilo que ainda falta porque não sabemos se o amanhã virá, ao menos pra nós mesmos.

Li dias atrás o clássico de Lewis Carroll, Aventuras de Alice no país das maravilhas. Tenho uma edição muito caprichosa, feita pela Zahar. Na edição tem também a continuação da história, Através do espelho e o que Alice encontrou por lá. O leitor desta edição ganha de presente as ilustrações belíssimas de Adriana Peliano, feitas a partir dos originais de John Tenniel.


As ilustrações de Adriana Peliano são belíssimas.

Quando eu estava em um duro momento de minha vida, com vinte e poucos anos, fiz uma daquelas listas de objetivos a serem perseguidos na vida, para dar algum sentido no viver, já que estava desgostoso, provavelmente depressivo e com pouco amor à vida. Um dos itens que coloquei na lista de metas foi ler ao menos cem clássicos da literatura universal. 

De lá para cá, consegui ler alguma coisa de literatura clássica, na medida de minhas possibilidades, pois trabalhava e estudava muito e pouco tempo sobrava para o prazer. Não sei quantos clássicos já li, mas sei que a meta continua, mesmo quando estou em momentos nos quais não veja muito sentido nisso.

A grande questão em minha vida, então, era a mesma da jovem Alice: que caminho deveria tomar?


Cena clássica: que caminho devo seguir?
Quantos de nós já não viveu essa dúvida.

Um dos grandes momentos do livro, na minha opinião:

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Alice e o bichano de Cheshire: que caminho tomar?

"Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui?"
"Depende bastante de para onde quer ir", respondeu o Gato.
"Não me importa muito para onde", disse Alice.
"Então não importa que caminho tome", disse o Gato.
"Contanto que eu chegue a algum lugar", Alice acrescentou à guisa de explicação.
"Oh, isso você certamente vai conseguir", afirmou o Gato, "desde que ande o bastante."
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Belíssima edição com os desenhos originais de 1865.

Deste clássico de Lewis Carrol, que na verdade é pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson, tenho uma outra edição também especialíssima, da Collector's Library, editada em 2004 no Reino Unido. Alice's Adventures in Wonderland & Through the Looking-Glass. Esta edição contém os desenhos originais de John Tenniel.

A primeira edição de Aventuras de Alice no país das maravilhas foi publicada em 1865, e a sua continuação em 1871.


A mesma cena de John Tenniel que mostrei acima na
ilustração de Adriana Peliano. Ambas são demais!
 

Enfim, fiz a releitura de Alice após umas 3 semanas de primeiro contato com a obra. É interessante conhecer histórias pelas quais ouvimos dizer a vida inteira, muitas vezes sem nunca lê-las e conhecê-las de verdade, para além dos mitos e das releituras e reinvenções a respeito delas.

A pandemia segue matando gente de uma hora para outra no Brasil e no mundo. Neste momento da publicação, são 270.537 mortos no mundo (3,9 milhões de infectados). Hoje estamos vivos, amanhã temos uma febre, tosse e dificuldade de respirar e podemos ter contraído a Covid-19. 

Existências frágeis. Com os colapsos dos sistemas de saúde, podemos morrer de qualquer tipo de morte morrida ou matada, como se diz por aí. Além do risco da Covid-19, pode ser que um doença interna nos tire a vida de repente, já que sofremos tanto com a epidemia do bolsonarismo, um barbarismo que acometeu o povo brasileiro de uma forma quase irrecuperável, ao menos para os infectados.

Da leitura, fica a importância do sonhar, das crianças, dos adultos, de mundos malucos só de brincadeirinha. Fica aqui o meu registro do instante, nesta página de diário de internet, blog do fulano.

William
Um leitor

Bibliografia:

CARROL, Lewis. Aventuras de Alice no País das Maravilhas & Através do espelho e o que Alice encontrou por lá. Edição comemorativa - 150 anos. Zahar, Rio de Janeiro, 2015.

CARROL, Lewis. Alice's Adventures in Wonderland & Through the Looking-Glass. Collector's Library. CRW Publishing Limited, London, 2004.