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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Instantes (23h57) - A vida num livro de bolso


Flores na USP


Refeição Cultural

Neste instante estava revendo instantes do passado.

A viagem a Cuba. As explicações do senhor Luis nos contando sobre a resistência criativa do povo cubano para enfrentar as dificuldades causadas ao país por causa do bloqueio criminoso imposto pelos EUA há mais de seis décadas. 

A retomada dos estudos universitários na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas quando voltei de Brasília. Os instantes são repletos de imagens da natureza. 

A gente acumula tanta coisa... neste instante estava revendo imagens e vídeos da vida. Muita coisa!

E se eu parasse de registrar imagens, palavras, emoções, situações, ideias? E se eu não tivesse mais suporte algum à memória de minhas células?

Neste instante estou aqui, sei quem sou, sei o que sou. Sei meu valor. Mesmo que não tivesse registro algum de minha existência ou de algo que fiz.

No entanto, não sou só esse corpo pelado e desnudo, como poetei certa vez, não sou só eu, sou também minhas relações sociais, sou parte de alguma relação humana. 

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"UMA FRASE QUALQUER 

Nossa vida deveria caber dentro de um livro, de bolso." (Marili Santos)

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Como diz o poema da professora poeta Marili, talvez fosse o caso de sintetizar nossa existência em um livro de bolso.

Que palavras usaria para preencher meu pequeno livro de bolso da vida? Que imagem poderia ilustrar meu livro?

Não sei. Não sei. 

Ainda procuro alguma coisa, algum sentido.

William 

19/01/26

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Instantes (19h24)



Refeição Cultural

AMARGO

Acordei com a notícia do falecimento do jornalista Mino Carta, aos 91 anos de idade. Fiquei triste, amargo.

Nesses dias, faleceram Luis Fernando Verissimo e Jaguar. Três grandes jornalistas, escritores, pintores e cartunistas brasileiros. 

Essas perdas me fizeram pensar na morte como uma realidade inevitável a todos nós. Num momento, estamos aqui, noutro, não existimos mais. 

Após a notícia triste, não havia outra coisa a fazer que não fosse fazer a minha parte para alongar a minha permanência na Terra. Fazer uma atividade aeróbica para retardar a bomba-relógio de minha genética. 

(Fazer, fazer, fazer... a aliteração pode ser uma estilística, mas não uma solução...)

Durante a caminhada acelerada, pensei tanta coisa, mas tanta coisa, que nem poderia registrar! Deve ter sido a boa oxigenação no cérebro...

Aí, pensando a respeito da morte, tenho que engolir o fato repugnante de que aquele verme genocida está sendo julgado hoje por outro de seus crimes, por tentativa de golpe de Estado, e não pelo genocídio planejado de centenas de milhares de brasileiros... é muito injusto isso!

Bolsonaro não tem nenhum processo pela morte planejada de centenas de milhares de pessoas ao longo de sua gestão como presidente do Brasil durante a pandemia de Covid-19. O cara nem é mais lembrado por isso, pelos 700 mil mortos sob sua regência...

Amargo... estou amargo.

Todos os corruptos se dão bem no mundo! Todos, com raras exceções. Um tá cumprindo pena num apto de 600 m2. A canalha responsável pelo suicídio do reitor de Santa Catarina está aposentada com proventos integrais de 50 mil dinheiros...

Só pobre, pretos, miseráveis que se fodem nessa sociedade humana de merda!

Tô amargo pra caralho!

Aí quando vejo a notícia da morte do Mino Carta, fiquei pensando no livro dele na estante de casa que queria porque queria ter lido com o autor ainda vivo...

É aquela culpa que carrego como um pecado original por não ter lido um monte de livros e autores que gostaria de ter lido e não li... porra, quando foi pra ser leitor de dezenas de livros, optei por aceitar a missão de ser sindicalista... caralho! Não podia fazer de conta que era sindicalista, tinha que ser de verdade, aí o curso de Letras foi pro saco, pro inferno.

Fazer, fazer, fazer... fiz o que tinha que ser feito. Mas hoje não sou porra nenhuma! Não sou professor, não tenho profissão nenhuma. E como não sou mais sindicalista, não sou nada!

Estou amargo hoje. É muita gente que admiro morrendo, gente que ensinou, educou, politizou, transmitiu valores que estão se perdendo. Fico triste de ver partir intelectuais que dedicaram a vida a evoluir a espécie humana e a sociedade. 

Mino Carta, Verissimo, Jaguar, sempre presentes! Obrigado por tudo! Vocês melhoraram o mundo!

William 

02/09/25

sexta-feira, 14 de março de 2025

Diário e reflexões - Os cadernos dos blogs



Refeição Cultural

Osasco, 14 de março de 2025. Sexta-feira. 


(Nesta data, dois seres humanos referenciais para nós faleceram: Karl Marx em 1883 e Marielle Franco em 2018. Eles vivem em nós que lutamos pela libertação dos seres humanos da exploração capitalista. Marielle Franco, presente! Karl Marx, presente!)


O QUE FAZER? (não é sobre a revolução... é só sobre mim mesmo)

Em minhas reflexões e digestões culturais nos últimos dias, pensava a respeito de escolhas que tenho que fazer diariamente, nós humanos temos decisões a tomar sobre as veredas que escolhemos o tempo todo. Faço isso ou faço aquilo? Tenho opções sobre o que fazer? Eu tenho opções, sou um homem de sorte. (muitos não têm opções...)

Sempre gostei de estudar, ler, conhecer coisas novas. Por décadas, lamentei em minhas reflexões o fato de não ter tempo adequado para ler e estudar. Trabalhei desde criança, e conciliar a sobrevivência com os estudos formais dificultou a possibilidade da leitura por prazer. Quando conseguia ler, estava sempre cansado.

Foi nos dilemas do percurso de minha vida que comecei e não terminei várias coisas. O desejo me instava a fazer a coisa, a iniciativa. A realidade me obrigava a cair na real e acabava deixando o que iniciava. Tinha iniciativa, mas não era "acabativo".

Adolescente, optei por um curso técnico de eletrônica e não terminei. Meio por acaso, entrei em Ciências Contábeis e concluí o bacharelado. O desejo me fez iniciar a graduação de Educação Física, sempre amei esportes e seria professor. Não pude concluir por falta de condições financeiras. Passei na Fuvest e tentei novamente uma graduação para ser professor. Por virar sindicalista, o curso de Letras ficou em segundo plano e só o concluí muito depois do início.

Assim a vida seguiu entre os vinte e os cinquenta anos. Não fui professor. Fui bancário e sindicalista. 

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A BUSCA POR SENTIDOS

A vida é uma coisa intrigante. Sim, tão intrigante que os humanos acabam lidando com as cotidianidades inventando diversas explicações para conviver com as situações que o viver vai encontrando diariamente. 

Enquanto a vida só é para as demais espécies viventes no planeta, a espécie homo sapiens sente a necessidade de dar sentido às coisas e pensar sobre a vida. Qualificar a existência.

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A VIDA É UMA COISA INTRIGANTE

Esta reflexão é para registrar o dilema pessoal do momento. Estudar e aprender coisas novas neste instante mais curto de minha existência ou sistematizar décadas de tudo que produzi de textos, e que estão sempre em risco de se perderem por estarem em máquinas dos inimigos da humanidade: as nuvens das big techs?

E para complicar mais ainda as escolhas: por que me meter em novos estudos se eu passei décadas querendo ler e não conseguia e agora tenho pilhas de livros para ler, ali na estante, ao meu alcance, e eu não li tudo que acumulei já estando há seis anos fora da rotina de vender meu corpo e minhas horas de vida para sobreviver? 

(o ser humano é um bicho complicado!)

Ainda sobre a vida ser uma coisa intrigante. 

Na adolescência, quase poderia ter sido professor de arte marcial, Kung Fu, pois pratiquei o esporte por anos e parei quando fui embora da casa de meus pais aos 17 anos. 

O abandono do Kung Fu foi uma coisa mal resolvida na minha vida. Que foda isso! Voltei ao esporte aos 50 anos de idade e fiz aulas por quase dois anos, evoluindo rápido nas faixas. Veio a pandemia e eu parei. 

Talvez o azar da pandemia tenha sido sorte para mim. O esforço e a carga que fiz pelos exercícios e pelos movimentos de perna foram tão intensos que destruí meu quadril... a vida é uma coisa intrigante! 

Pode ser que o desejo de terminar algo que iniciei na juventude tenha me tirado o sonho de treinar e correr uma maratona... Talvez não possa nem levar uma vida normal em breve... (e correr é/era uma das coisas mais importantes de minha vida!)

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O QUE EU SEI É... 

Sobre gostar de estudar e ler - e depois peguei gosto em escrever -, acabei sendo um dirigente sindical que se dedicou a ler e estudar pra caralho! 

Durante os 16 anos de exercício de mandatos eletivos estudei tudo que pude sobre o sindicato e a categoria na qual trabalhei, a central sindical e o partido político aos quais dediquei o melhor de minha vida adulta, e depois estudei como um louco a autogestão em saúde à qual me colocaram como candidato para ser gestor e fui eleito.

Como tomei gosto em escrever o que fui aprendendo e refletindo, acabei por criar páginas na internet que chamamos de blogs (diários) e fui escrevendo nos blogs aquilo que conceitualmente é chamado de "WIKIPEDIA".

O que é "WIKIPEDIA"? É o compartilhamento de forma gratuita daquilo que a pessoa sabe. É uma espécie de biblioteca livre. Eu sempre quis ser alguém do mundo do saber e partilhar conhecimento para melhorar as pessoas e o mundo.

Ou seja, seus conhecimentos ou uma coletânea de textos seus partilhando o que você sabe. What I Know Is (WIKI).

Então, passei os últimos vinte anos fazendo isso: compartilhando o que eu sei ou o que li ou o que eu aprendi ou o que eu pensava a respeito de algo.

Acumulei mais de cinco mil textos nos dois blogs que administro há duas décadas. É uma vida escrevendo honestamente o que aprendi na minha jornada de existir. 

E por mais que meus textos já tenham desempenhado um dos objetivos de um texto, ser lido por alguém, e já foram mais de 2,5 milhões de acessos aos textos, eu preciso sistematizar e organizar tudo que escrevi em minha vida. Nem eu me lembro de tudo que escrevi. E tem muita coisa boa quando releio.

Escrevi quando estava no auge de minha capacidade intelectiva e sendo uma liderança nacional de uma importante categoria profissional de trabalhadores. Tanto o blog com a história sindical quanto o blog de cultura contêm textos de alguém politizado e que fala a partir de um lado definido da sociedade humana: um homem de esquerda, humanista e amante da leitura.

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ESTUDAR FORMALMENTE OU BUSCAR SENTIDOS E CRIAR SENTIDOS EM MINHAS TRILHAS INTELECTIVAS?

Os impulsos de minha natureza curiosa e desejosa de novos conhecimentos arrefeceram com a experiência de vida... arrefeceram um pouco, quero dizer. 

Mesmo neste ponto de minha existência, quando relaxo a vigilância, já me inscrevi em algo para iniciar nova jornada de estudos... imaginem que pensei em fazer Fuvest para voltar à USP e fazer História o ano passado! Vi que isso era um devaneio e me contive. 

Cochilei, e quando vi estava inscrito na Pós ICL... eu gosto de estudar, é verdade! Mas uma pós-graduação é uma coisa puxada, com carga formal de estudos a fazer. Óbvio que isso define o tempo de uma pessoa ao longo de um período. 

O dilema de sempre já me cobra o juízo. O que é prioridade? Minha produção de uma vida ou os novos conhecimentos da Pós? "Deixa de ser mole, William... faz as duas coisas!" Meu corpo cansou sem combinar comigo. 

E minhas pilhas de livros que gostaria de ler? Os clássicos, pelo menos? Os Miseráveis, Guerra e Paz, Doutor Fausto, A Divina Comédia...

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A URGÊNCIA DA VIDA AGORA

Há poucas semanas, senti uma urgência em trabalhar a sistematização de minha produção cultural. A urgência é uma espécie de percepção da emergência do instante no qual estou vivo e podendo fazer isso. Não sei do amanhã. Do meu amanhã.

Ao reler e sistematizar os 141 textos produzidos no blog A Categoria Bancária entre os anos de 2020 e 2025 (ilustração), eu tenho a exata consciência de que aquele conteúdo não deveria ser desprezado porque ali contém história de nossa classe social, da comunidade de trabalhadores do Banco do Brasil, da militância de esquerda que estuda e pensa o país e o mundo. 

CASSI/BB - Sinceramente, acho pouco provável, de verdade, que alguém já tenha escrito tanto sobre a Cassi como eu nos 80 anos da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil. Difícil. São centenas de textos técnicos e políticos de alguém que tem lado, textos escritos na última década. 

Deixo isso se perder? Por mais que os que estejam no poder momentâneo façam questão de desconsiderar a história da Cassi contida ali? Tenho esse direito? Só sei o que sei sobre a Cassi porque me elegeram para estar lá um dia.

...

É isso. Ainda estou por aqui. Sigo refletindo sobre tudo.

Tenho consciência de que minha coletânea de texto (minha wikipedia) contém uma partezinha da história de nossa classe.

William


sábado, 8 de março de 2025

A língua de Eulália - Marcos Bagno (1)



Refeição Cultural

História da norma-padrão


"Na Itália, a variedade que ganhou o título de padrão e que hoje chamamos de italiano é a língua originária de uma região chamada Toscana. Esta região teve uma importância muito grande durante vários séculos, tendo a cidade de Florença como capital política e cultural. Florença foi um dos pólos do Renascimento, o grande movimento cultural europeu que revolucionou todos os gêneros artísticos e literários da época. Lá trabalharam e viveram gênios como Leonardo da Vinci, Michelangelo e Botticelli. E na língua da Toscana foram escritas algumas das obras-primas da literatura mundial: a Divina Comédia de Dante Alighieri, as Poesias de Petrarca, o Decamerão de Bocácio. Além disso, a Toscana contava com uma moeda forte, o florim, que foi uma moeda importante de comércio internacional durante mais de duzentos anos e em torno do qual se havia organizado um sistema bancário muito evoluído para a época. Tamanho prestígio fez com que o toscano se tornasse, pouco a pouco, a língua de cultura de toda a Itália. E isso apesar de existirem naquele país dezenas e dezenas de línguas diferentes, chamadas dialetos, falados por milhões de pessoas e também veículos de importantes manifestações culturais." (p. 25/26)


Enquanto tomava vitamina de abacate e banana, relia o clássico de Marcos Bagno, A língua de Eulália, livro que conheci em 2001, ano que iniciei minha graduação em Letras na Universidade de São Paulo. 

Os ensinamentos do linguista e escritor Marcos Bagno mudaram para sempre aquele adulto jovem, branco e pobre, que vinha sendo conquistado pelas mídias ideológicas da casa-grande: jornalões e canais de TV que eram as referências de todo mundo. Eu era como a maioria e tinha preconceito linguístico, pois a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante. 

A cada capítulo da novela sociolinguística, os leitores vão se surpreendendo com as informações que tia Irene traz nas conversas com as jovens Vera, Sílvia e Emília, que passam uns dias na casa dela. Dona Eulália era empregada de Irene, professora de língua portuguesa e linguística.

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Dias atrás, vi uma entrevista do escritor Alberto Manguel e novamente me veio à lembrança aquele ano de 2001, primeiro ano das Letras na USP.

Ao ler dois textos de Manguel da bibliografia de uma matéria de literatura, saí desesperado atrás do livro dele: Uma história da leitura (1997). É um dos livros mais interessantes que li em minha vida!

Foi tão encantador vê-lo falar de literatura e cultura que dá até vontade de seguir teimando com a vida para poder ler mais um pouco. A leitura salva!

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Enfim, após instantes de prazer na leitura, preciso perseverar em trabalhar na revisão, sistematização e encadernação de meus textos nos blogs. É a minha vida ali e o meu desejo de preservar tudo que compartilhei de conhecimento com as pessoas. 

William 


Bibliografia:

BAGNO, Marcos. A língua de Eulália: novela sociolinguística. 6a ed. São Paulo: Contexto, 2000.

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Dia das professoras e professores


Colégio Adolfino.

Refeição Cultural

Quarta-feira, 15 de outubro de 2024.


PROFESSOR(A): A PROFISSÃO MAIS NOBRE DO MUNDO!

Minhas lembranças

Eu gostaria de ter sido professor. Entendo que educar as pessoas seja uma das funções mais importantes e nobres da espécie humana. Paulo Freire diz que só se educa gente. Espero que possamos continuar educando as pessoas.

Pelo que me contam, minha primeira professora foi a Jamila, do colégio Adolfino, no Rio Pequeno. Se colocar a memória para funcionar, vou me lembrar de muitos professores e professoras que passaram por minha vida de estudante.

Do Adolfino em São Paulo, só sei da professora Jamila, que me alfabetizou. Não tenho lembrança de outra professora. E é impossível me esquecer das correrias quando alguém gritava "olha a loira do banheiro!"... a molecada saía mijando pelo chão, de medo. Estive dias atrás no Adolfino, é uma nostalgia incrível estar ali nas salas de aula e no pátio onde vivi.

Hortêncio Diniz.

Do Hortêncio Diniz, já em Uberlândia, me lembro do professor Jaime, de Física. Ele era gago e os alunos eram cruéis com ele. Me lembro do rosto dele até hoje, o cara era muito legal, um professor doce e gentil. Nunca me esqueci do Jaime com o apagador na mão explicando o Movimento Retilíneo Uniforme... Professor Jaime, perdoe a todos nós que éramos jovens maus. E nossa professora de Português era a Geni, e ela também sofreu na mão dos alunos.

Me lembro até hoje de uma lição do professor Glicério, de Química. Ele nos dizia para prestarmos atenção nas perguntas e lê-las várias vezes, porque a resposta poderia estar na pergunta. Não me lembro se ele era do Hortêncio, ou do Estadual de Uberlândia (Museu), ou do Américo René Giannetti, as outras escolas onde estudei lá até os 17 anos.

Colégio Daniel.

De volta a São Paulo, em 1987, não achei vaga no Adolfino e tive que me matricular no Daniel Verano Pontes para terminar o colegial, o 3º ano. Não me lembro de nenhum professor ou professora de lá, eu era um jovem muito revoltado e não me dediquei aos estudos naquele ano.

Uns anos depois, 1991, acabei entrando no vestibular da FEAO-FITO, onde me formei em Ciências Contábeis. Dos professores, me lembro do PC, de Matemática. Ele tomava até cerveja com os alunos. Gostava dele. Ele me desafiava a tirar 10 nas provas, e quando eu acertava tudo, ele me tirava alguma coisa da casa da vírgula para não dar 10 redondo, detalhes como, por exemplo, a seta numa reta (risos). 

Nunca me esqueci de uma fala dele dizendo que lá na Fito o professor destrinchava equações na lousa e que, se fosse na USP, seria diferente. O aluno teria uma lista de referências bibliográficas e, então, que estudasse aquilo por conta própria. Mais ou menos isso. Eu tirei minhas conclusões depois que entrei na USP (risos). Me lembro que eu desenvolvia exercícios de Matemática que ocupavam a lousa inteira. Eu era bom naquilo.

Anos depois da Faculdade em Osasco, me peguei estudando de novo. Daquela vez, estava estudando em Mogi das Cruzes, Educação Física, no Náutico Mogiano. Me lembro das aulas de alguns professores. De Anatomia, de Bioquímica e Nutrição, e de História. E me lembro do professor Waltely, de Português. Fazíamos aniversário no mesmo dia. Ele dizia em sala de aula que nota 10 era para Deus, 9 para a mãe dele, 8 para ele e 7 para os melhores alunos (risos).

O respeito pelos corpos e órgãos que estudávamos foi uma lição que nunca me esqueci. A professora falando da percepção da consistência do nosso cocô para sabermos da saúde do corpo e o que comemos também ficou para sempre. E o professor de História falando dos Jogos Olímpicos da antiguidade também foi inesquecível. 

Não me lembro direito dos nomes de todos os professores e nem sei se estou escrevendo corretamente os nomes que me lembro.

Letras, na FFLCH.

Aí, estando eu com mais de trinta anos de idade, acabei decidindo que queria estudar na Universidade de São Paulo, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). Depois de assistir aulas de literatura como ouvinte, a convite de um amigo do BB, o Sérgio, fiquei apaixonado por aquele ambiente universitário. Fazer História ou Letras? Acabei optando por Letras.

Foram muitos os professores e professoras que me marcaram na vida estudantil da FFLCH. Difícil citar só alguns. A professora Maitê, de Língua Espanhola, foi um "encontro" legal, pois eu estudava espanhol com ela em um curso que gravei da televisão. Lógico que ter sido aluno do Pasta, do Wisnik e do Medina foi um ponto alto em minha vida de estudante uspiano. Ter visto aulas magnas de Antonio Candido e Marilena Chauí também.

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Professora Ione e alunos formados.

É NOSSO DEVER DEFENDER A EDUCAÇÃO UNIVERSAL E AS CONDIÇÕES ADEQUADAS A TODAS AS PROFESSORAS E PROFESSORES DO PAÍS

Que função social extraordinária essa de educar! 

Eu tive o privilégio de atuar no movimento sindical na área de formação e conheci grandes educadores e formadores políticos.

Tenho amigas e amigos queridos que dedicam suas vidas à educação de crianças, jovens e adultos.

Minha companheira Ione dedicou a vida a alfabetizar e educar crianças. Me lembro sempre emocionado dos períodos de fechamento de semestres e anos letivos quando seus alunos e alunas e muitos pais de alunos reconheciam agradecidos aquele período de ensinamentos e a evolução percebida ao longo da jornada educativa.

Ver alunas e alunos da professora Ione que ainda hoje a reconhecem e a têm como referência, décadas depois do contato diário da relação alunos-professora é algo gratificante.

Eu sou um grande admirador das pessoas que escolheram dedicar suas vidas à educação. Obrigado professoras e professores, sem vocês nós todos não teríamos a oportunidade de desenvolver nossos potenciais enquanto espécie humana, aquela que pode ser educada, segundo o mestre Paulo Freire.

Parabéns, professoras e professores! É nosso dever cidadão lutar pela educação pública e de qualidade e o acesso universal para todas as pessoas, e os profissionais de educação devem ser valorizados com salários dignos e carreiras que lhes permitam trabalhar e evoluir ao longo de suas vidas, incluindo uma aposentadoria justa ao final de suas jornadas laborais.

William Mendes


domingo, 22 de setembro de 2024

Marília de Dirceu - Tomás Antônio Gonzaga



Refeição Cultural 

"Não vês aquele velho respeitável

          Que à muleta encostado

Apenas mal se move e mal se arrasta?

Oh! quanto estrago não lhe fez o tempo!

          O tempo arrebatado,

          Que o mesmo bronze gasta.


Enrugaram-se as faces, e perderam

          Seus olhos a viveza;

Voltou-se o seu cabelo em branca neve;

Já lhe treme a cabeça, a mão, o queixo;

          Nem tem uma beleza 

          Das belezas, que teve.

Assim também serei, minha Marília, 

          Daqui a poucos anos, 

Que o ímpio tempo para todos corre:

Os dentes cairão e os meus cabelos. 

          Ah! sentirei os danos

          Que evita só quem morre." (Lira XVIII, Parte 1)


Que lira fantástica!

Ao ler me identifiquei com o eu-lírico e me vi também como o objeto em estudo. Me vi adiante sob o implacável efeito do tempo.

Enquanto passava o dia na estrada, indo de São Paulo a Uberlândia, fiz o download (é de domínio público) do clássico "Marília de Dirceu", publicado em Lisboa em 1792.

O poema é dividido em três partes, sendo a primeira com 33 liras, a segunda com 38 liras e a terceira com 9 liras e 13 sonetos. 

Terminei a primeira parte.

Ao chegar à casa dos pais em Minas Gerais, o tempo do ócio inexistiu. Foram só tensões e doenças na família...

Sigamos na leitura quando possível for.

William 


segunda-feira, 26 de agosto de 2024

93 de 100 dias



DIPLOMAÇÃO DA RESISTÊNCIA

93. Estive hoje em nossa Universidade de São Paulo, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), para uma reparação histórica, a Diplomação da Resistência a 15 jovens estudantes que foram vítimas da ditadura brasileira, a diplomação é um projeto de iniciativa do mandato da vereadora Luna Zarattini (PT), presidenta da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de São Paulo, em parceria com a USP, em especial com a Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento e o IGc-USP).

Foi uma data histórica e necessária a Diplomação das jovens mulheres e homens que lutaram pela liberdade de todos nós e não puderam concluir suas graduações por causa da violência da ditadura civil-militar que se instalou no Brasil a partir de 1964. A iniciativa é um resgate da trajetória desses estudantes e contribui para a manutenção da memória coletiva de todos nós.

Linhas de Sampa,
sempre presente!

O evento foi muito emotivo! Como um cidadão paulistano formado pela FFLCH-USP e militante do movimento estudantil e sindical senti fortes emoções durante a cerimônia de reparação histórica e diplomação das guerreiras e guerreiros que lutaram por todos nós. A reparação e o resgate histórico demoraram décadas, mas foi uma homenagem importante aos familiares e amig@s das e dos estudantes.

Conforme informação do site da Universidade (publicação de 12/8/24):

"A iniciativa faz parte de um projeto mais amplo, a Diplomação da Resistência, que busca homenagear ao todo 31 estudantes da USP e é fruto de uma parceria entre a Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento (PRIP), Pró-Reitoria de Graduação (PRG), Gabinete da vereadora e ex-aluna da USP Luna Zarattini e o coletivo de estudantes Vermelhecer. 'Essa homenagem concedida aos ex-estudantes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, que foi substituída pela atual FFLCH, tem uma importância simbólica imensa', destaca Paulo Martins, professor e diretor da FFLCH."

Diplomação

Alexandre Vannucchi Leme, Instituto de Geociências (IGc) (dez/2023)
Ronaldo Queiroz, Instituto de Geociências (IGc) (dez/2023)

e hoje:

Antonio Benetazzo, Filosofia
Carlos Eduardo Pires Fleury, Filosofia
Catarina Helena Abi-Eçab, Filosofia
Fernando Borges de Paula Ferreira, Ciências Sociais
Francisco José de Oliveira, Ciências Sociais
Helenira Resende de Souza Nazareth, Letras
Ísis Dias de Oliveira, Ciências Sociais
Jane Vanini, Ciências Sociais
João Antônio Santos Abi-Eçab, Filosofia
Luiz Eduardo da Rocha Merlino, História
Maria Regina Marcondes Pinto, Ciências Sociais
Ruy Carlos Vieira Berbert, Letras
Sérgio Roberto Corrêa, Ciências Sociais
Suely Yumiko Kanayama, Letras
Tito de Alencar Lima, Ciências Sociais
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Como aluno da FFLCH e militante das causas populares, deixo aqui a minha gratidão a cada pessoa que participou dessa luta histórica. Deixo meu agradecimento especial para a companheira Luna Zarattini, que honra a memória de seu avô e todas as lideranças que lutaram pela nossa democracia e liberdade.

William Mendes


Fonte das informações: site da USP e página do mandato de Luna Zarattini

domingo, 23 de junho de 2024

29 de 100 dias



29. Ao finalizar a semana, avalio que agi no sentido de cumprir alguma coisa do que tenho pensado para esse curto ciclo de cem dias de meu viver.

SAÚDE E FAMÍLIA 

Voltei de Uberlândia, onde passei uns dias com a família. Tivemos dias tranquilos, e isso foi muito bom. Quero estar mais próximo das pessoas que gosto.

Fiz alguns dos exames médicos pedidos pelos profissionais de saúde que consultei. Farei outros nesta semana que se inicia. Não sei os resultados ainda. 

Cara, senti muitas dores no quadril nessa semana. Foda isso! 

Enfim, estou fazendo minha parte como alguém consciente e responsável. 

RELAÇÕES SOCIAIS 

Ainda em atenção ao desejo de estar com pessoas que consideramos, revi um amigo do tempo da graduação em Letras na USP, o Luciano. 

O professor Luciano tem se destacado na Educação por estar desenvolvendo estudos e pesquisas sobre os efeitos positivos de jogos como o xadrez e o RPG na prática educativa, inclusive para as crianças e jovens com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Ou seja, tive mais momentos do bom e velho contato com seres humanos que valem a pena!

E para seguir nas relações com pessoas que nos dão esperança na política, fechei meu domingo participando de excelente reunião de nosso diretório do Partido dos trabalhadores aqui do Butantã, Zona Oeste.

É isso. Estou trabalhando para a organização de meu centro de documentação (cedoc). É seguir trabalhando um pouquinho todo dia. 

William 


segunda-feira, 1 de abril de 2024

Língua Espanhola I - Ano 2002 (II)



Refeição Cultural

Revisita aos estudos de graduação na FFLCH-USP


Folheando um pouco a apostila do primeiro ano de estudos de idiomas, achei interessante rever o fenômeno do Yeísmo na Língua Espanhola.

Para deixar uma referência atual, cito abaixo a definição do fenômeno do dicionário da Real Academia Española (RAE):

Yeísmo - 1. m. Fon. Desaparición de la diferencia fonológica entre la consonante lateral palatal y la fricativa palatal sonora, de manera que, en la pronunciación, no se distinguen palabras como callado (silencioso, reservado) e cayado (bastón, palo).

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Na apostila, tem uma seção inteira dedicada ao tema. Transcrevo o texto abaixo para fins didáticos.

LL - Y (delante de vocales)

La pronunciación de los fonemas representados por la LL e por la Y (esta con vocales) se hace distintamente en el mundo hispánico.

a) Distinción entre LL / Y: la LL se pronuncia como la LH del portugués y la Y con un sonido consonante. Algunos hablantes de España y de buena parte de América (sobre todo del altiplano andino) distinguen la pronunciación de estos fonemas, pero actualmente hay una fuerte tendencia a igualarlos.

b) El yeísmo: consiste en igualar la pronunciación de la LL a la de Y. El yeísmo está muy difundido en Hispanoamérica, aunque presente diferencias, por exemplo: en la región del Río de la Plata, la LL/Y suenan como la J del portugués, en Chile la pronunciación de estos fonemas es más suave que la pronunciación rioplatense y en el Caribe la pronunciación de la LL/Y se aproxima de una I. En España el yeísmo se está imponiendo a la distinción LL/Y.

Según Manuel Seco, el yeísmo existe hoy en España (ou seja, 2002): en toda Andalucía, en Murcia (sólo en las ciudades), en Extremadura, en Castilla la Nueva (principalmente en Madrid, Toledo y Ciudad Real), en Castilla la Vieja (Ávila, Valladolid), en Cantabria (Santander), en León (Salamanca, capital), en Asturias (Oviedo y Gijón), en Cataluña (Cuencas del Ter y Llobregat) y las Islas Baleares y Canarias.

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COMENTÁRIO:

Como falante de língua portuguesa que aprendeu língua espanhola, posso dar o depoimento de experiências locais ao ouvir falantes de espanhol.

Já estive em Madri e Toledo, na Espanha. Já estive também no Chile, Argentina, Uruguai e em Cuba. Por ter estudado o idioma, fiquei atento aos falares nessas regiões.

De fato, na Argentina e Uruguai é muito claro o Yeísmo com som de J ou CH do português. No Chile é bem suave a pronúncia. Em Cuba eu consegui perceber o som mais próximo ao I. E a fala dos espanhóis de Madri é bem mais "cantada" em relação às falas dos hispano-americanos.

O estudante de espanhol precisa treinar o ouvido para os diversos "acentos" dos falantes da língua.

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LA "LL"

CALLE  VILLA  LLORAR  LLUVIA  CALLISTA  ESTRELLA

No hay pueblo como mi pueblo,

ni valle como mi valle,

ni casa como mi casa,

ni calle como mi calle.


La chiquilla, con la lluvia, a la villa lleva la llave.

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LA "Y"

AYUDAR    YERNO    YA    YO    YUGULAR    HOYO

Ya viene mayo, mayo,

Ya viene el rumbo,

Ya viene la alegría

pa todo el mundo.


¡Ay, mal haya, mal haya

mi cobardía,

que por ser yo cobarde

no eres tú mia!


El yerno del yegüero da yerba a la yeguada.


Referências: Valmaseda Regueiro, 1992.

Textos y grabaciones adaptados de BRUNO, Fátima C. & MENDOZA, Maria Angélica. Hacia el español 1. São Paulo, Saraiva. Unidad 8, Hacia Letras y Sonidos.

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Tradución:

Yerno: genro

Yegua: hembra del caballo

Yerba: erva, capim

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A primeira postagem deste tema pode ser lida clicando aqui.

William


Fonte: Apostila da Faculdade de Letras/USP, 2002.


sexta-feira, 29 de março de 2024

Língua Espanhola I - Ano 2002 (I)



Refeição Cultural

Revisita aos estudos de graduação na FFLCH-USP


Entrei na Universidade de São Paulo no vestibular do ano de 2000 e comecei a cursar a Faculdade de Letras em 2001. Já não era um jovem se comparado com a maioria dos estudantes do curso noturno, que tinham uns dez anos a menos que eu. Fiz o primeiro ano do Ciclo Básico com 32 anos de idade. 

No ano seguinte, comecei a cursar a Língua Espanhola, a habilitação que escolhi durante o Ciclo Básico, juntamente com a habilitação em Português. 

O curso de graduação acabaria por se estender por muitos anos porque eu era sindicalista e todos os segundos semestres eu tinha dificuldades de assistir às aulas porque era o período de data-base da categoria bancária. Com o tempo, até os professores sabiam que eu teria dificuldades em concluir as disciplinas se a campanha dos bancários fosse complicada.

LÍNGUA ESPANHOLA

Estava revendo a primeira apostila de Língua Espanhola e achei interessante o material. Estou falando de um material didático de mais de duas décadas atrás, praticamente não existia a internet como nós a conhecemos hoje. Os estudantes de línguas tinham que ouvir fitas cassete em laboratórios para terem contato com a língua que estavam estudando.

ALFABETO

Na época do curso, o alfabeto espanhol continha 29 letras. Fui consultar agora, no curso de espanhol do ICL e a professora Pilar explicou que o alfabeto contém 27 letras porque o LL e o CH passaram a ser considerados dígrafos desde a Reforma de 2010.

Ou seja, essas mudanças acontecem nas línguas vivas, com o passar do tempo podem ocorrer mudanças nas normas e usos das línguas.

Finalizo esta postagem de revisita aos estudos de Língua Espanhola com um poema de Pablo Neruda, que nós estudamos na aula de idioma para conhecer as diferentes formas de falar LL e Y porque existe o fenômeno do Yeísmo na Argentina e Uruguai, com o som diferente da maioria dos países que falam a língua.

POEMA XV

Me gustas cuando callas

porque estás como ausente

y me oyes desde lejos

y mi voz no te toca.

Parece que los ojos

se te hubieran volado

y parece que un beso

te cerrara la boca.

Me gustas cuando callas

porque estás como ausente,

y estás quejándote,

mariposa en arrullo,

y me oyes desde lejos

y mi voz no te alcanza.

Déjame que me calle

en el silencio tuyo.


(In: XX poemas de amor y una canción desesperada)


A apostila perguntava para os alunos, após ouvirem o poema declamado por uma pessoa da Espanha e outra da Argentina, qual era a diferença que mais chamava a atenção.

O Yeísmo, um som mais de "lh" na Espanha e mais de "ge" ou "dje" na Argentina. O LL e o Y também podem ter um som mais próximo ao "i" em algumas regiões de fala espanhola como no Caribe, por exemplo.

Fiz uma postagem sobre o fenômeno do Yeísmo, para ler é só clicar aqui.

É isso. As minhas lembranças da Universidade de São Paulo são algumas das melhores de minha vida de estudante. Entrei lá pensando em ser professor, mas as veredas da vida me levaram para outros caminhos.

William


terça-feira, 7 de novembro de 2023

Leitura: Os Sertões, de Euclides da Cunha



Refeição Cultural

Osasco, 7 de novembro de 2023. Terça-feira.



"Fechemos este livro. Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados." (from "Os sertões" by Euclydes da Cunha)


Depois de uma vida inteira, terminei aos prantos a leitura do clássico da literatura brasileira Os Sertões, de Euclides da Cunha, obra lançada em 1902, cinco anos após o genocídio do povo do Arraial de Canudos, comunidade coletivista massacrada pelo exército da chamada República Velha entre os anos de 1896 e 1897, regime republicano que se iniciou no Brasil com o golpe civil-militar de 1889, tirando do poder o imperador Dom Pedro II. 

O momento no qual termino a leitura de obra tão cercada de fama e polêmica é um momento estranho da sociedade humana, de certa forma é um momento condizente com a condição humana deste século presente, humanidade que observa a emergência climática e nada faz para interromper a destruição do planeta Terra, único lugar para se viver no Universo conhecido, destruição feita pelos donos do poder, os capitalistas, um grupo pequeno de humanos com a capacidade de inviabilizar milhões de formas de vida no planeta inteiro. No entanto, o eixo desta reflexão nem é sobre a destruição do planeta pelos senhores do capital, é sobre o massacre de gentes pelos senhores da guerra, que são por acaso os senhores do capital.

Qual o tema do livro Os Sertões

O livro aborda a Guerra de Canudos, a figura do beato Antônio Conselheiro, o sertão da Bahia, os milhares de homens, mulheres e crianças retirantes da seca e da miséria reunidos num pequeno pedaço de terra para lutarem pela sobrevivência numa região de poucos recursos naturais. Retrata o início do regime republicano, o exército brasileiro, o choque entre o povo sertanejo do interior do país e o povo do litoral, onde está a sede do governo. Retrata a forma como a classe dominante sempre tratou o povo brasileiro.

Vemos no livro um ensaio interpretativo do Brasil e do povo brasileiro por parte do engenheiro e jornalista Euclides da Cunha, e vemos o desenvolvimento de uma guerra civil motivada por questões sociais antigas, questões de reforma agrária e posse da terra, e motivada por muita desinformação e manipulação da informação por parte dos poderosos de sempre, os donos do poder: latifundiários, governo e igreja. Os golpistas no poder ("republicanos") alegaram que os miseráveis revoltosos queriam restabelecer o regime político antigo, a monarquia. Na disputa por hegemonia de poder, vale tudo, principalmente mentiras, hoje conhecidas pela alcunha de fake news.

Se fosse elencar todas as novidades que acrescentei em meu parco conhecimento a respeito do conflito, da obra, do autor e do contexto da época, meu texto ficaria enorme. Leiam o livro, é o que eu sugiro aos leitores. Eu penei pra ler, mas li. Façam o esforço, leiam e releiam, porque somos outra pessoa, com novas experiências e olhares de mundo a cada dia, o leitor de ontem não é o leitor de hoje. Comecei a ler Os Sertões antes dos quarenta anos. Ler agora, com mais de cinquenta, e vendo o mundo deste momento, a leitura é absolutamente diferente. Leiam!

Hoje, sei mais que antes sobre o conflito entre o governo brasileiro do final do século 19 e a multidão de brasileiras e brasileiros exterminada no sertão da Bahia, no Arraial de Belo Monte, atualmente Açude Cocorobó. Sei alguma coisa a mais sobre essa tragédia brasileira. Por mais triste que seja a tomada de consciência a respeito do assassinato em massa ocorrido à época, reforço a ideia de que ler é melhor do que não ler os clássicos, um conceito que aprendi na Faculdade de Letras da USP com a leitura de referência de Italo Calvino.

Imagem clássica de Canudos.


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"Custava-lhes admitir que toda aquela gente inútil e frágil saísse tão numerosa ainda dos casebres bombardeados durante três meses. Contemplando-lhes os rostos baços, os arcabouços esmirrados e sujos, cujos mulambos em tiras não encobriam lanhos, escaras e escalavros — a vitória tão longamente apetecida decaía de súbito. Repugnava aquele triunfo. Envergonhava. Era, com efeito, contraproducente compensação a tão luxuosos gastos de combates, de reveses e de milhares de vidas, o apresamento daquela caqueirada humana — do mesmo passo angulhenta e sinistra, entre trágica e imunda, passando-lhes pelos olhos, num longo enxurro de carcaças e molambos..." (from "Os sertões" by Euclydes da Cunha)

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UM SÉCULO DEPOIS, GOVERNOS SEGUEM BOMBARDEANDO CIVIS, MATANDO MULHERES E CRIANÇAS

Enquanto lia no último mês as centenas de páginas da 3ª parte - "A luta" - do livro de Euclides da Cunha - Os Sertões -, o Estado de Israel matava milhares de crianças e mulheres na Faixa de Gaza... notícias dão conta de que Gaza é uma espécie de campo de concentração com mais de dois milhões de pessoas sem acesso adequado a água, luz, internet, assistência médica e comida, região cercada pelo exército do governo de Israel. Fui lendo cada capítulo de Os Sertões e vendo no noticiário atual os informes de bombas que destruíram prédios residenciais, hospitais, ambulâncias do povo palestino etc. Canudos lá em 1897, Faixa de Gaza em outubro de 2023. Que dizer?

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SOBRE OS SERTÕES

Assim que terminei o livro de Euclides da Cunha, fui procurar nos guardados (williampédia) algumas mídias que falassem sobre a obra e sobre a história do conflito com o povo de Antônio Conselheiro no sertão da Bahia.

Li a matéria de capa da revista Educação, Ano 6, nº 66, de outubro de 2002. A reportagem aborda o centenário da obra Os Sertões. Achei interessante a matéria.

Das informações da revista, descobri que um dos últimos livros do escritor brasileiro José J. Veiga aborda o tema Canudos e Antônio Conselheiro. De uns anos para cá, decidi conhecer a obra completa do escritor goiano e praticamente consegui exemplares de todos os livros do autor. Como estou lendo as publicações por ordem cronológica, ainda não li A casca da serpente (1989). Essa forma de conhecer as coisas é muito legal, tenho em casa uma obra que retrata o conflito de Canudos e eu não sabia!

Outra informação da revista que me fez pesquisar na internet e reviver o passado foi a respeito de um dos maiores especialistas em Euclides da Cunha, um professor nosso da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, a FFLCH. A pesquisa me levou ao cenário que marcou minha vida, onde fiz Faculdade de Letras. Roberto Ventura era professor de Teoria Literária e Literatura Comparada da FFLCH e estava finalizando um trabalho de pesquisa de dez anos sobre a biografia de Euclides da Cunha quando faleceu em um acidente de carro em agosto de 2002. A morte repentina do professor Roberto causou comoção no mundo acadêmico. Nós havíamos acabado de sair da maior greve da história da USP, 104 dias, e eu fui um dos que ajudaram a organizar a greve. O Guia de Leitura da edição que li de Os Sertões, da Coleção Grandes Nomes do Pensamento Brasileiro, da Publifolha, de 2000, foi feito pelo professor Roberto Ventura.

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A VONTADE É DE FALAR, MAS VER CANUDOS ONTEM E FAIXA DE GAZA HOJE NOS EMUDECE

Eu teria tanto para dizer com relação ao que vejo e interpreto neste momento de minha vida, e do mundo no qual vivo... porém, meu desejo de silenciar é enorme!

Vejo a política por trás do genocídio do povo palestino e não sei se as pessoas comuns (pouco estudiosas) conseguem entender as entrelinhas do conflito. O governo de Israel quer e vai anexar as terras palestinas e expulsar os povos de lá e o mundo vai assistir sem interferir. A gente vê daqui e sente uma impotência indescritível...


"A degola 

Chegando à primeira canhada encoberta, realizava-se uma cena vulgar. Os soldados impunham invariavelmente à vítima um viva à República, que era poucas vezes satisfeito. Era o prólogo invariável de uma cena cruel. Agarravam-na pelos cabelos, dobrando-lhe a cabeça, esgargalando-lhe o pescoço; e, francamente exposta a garganta, degolavam- na. Não raro a sofreguidão do assassino repulsava esses preparativos lúgubres. O processo era, então, mais expedito: varavam-na, prestes, a facão." (from "Os sertões" by Euclydes da Cunha)


Os jornalistas que foram cobrir o conflito em Canudos - jornalistas como Euclides da Cunha - e a imprensa da época silenciaram ao ver a execução de pessoas da forma mais covarde possível, cenas que se repetiriam durante a 2ª Guerra Mundial nos campos de concentração nazistas, os jornalistas sabiam que as pessoas eram mortas desarmadas, degoladas, eram mortas à faca para torturar os sertanejos de Canudos, que acreditavam não alcançar o céu se mortos por arma branca. Euclides só foi falar sobre isso 5 anos depois! Anos depois!

"Os próprios jagunços, ao serem prisioneiros, conheciam a sorte que os aguardava. Sabia-se no arraial daquele processo sumaríssimo e isto, em grande parte, contribuía para a resistência doida que patentearam." (from "Os sertões" by Euclydes da Cunha)

Talvez as pessoas se perguntassem por que os sertanejos não se entregavam para as autoridades do exército brasileiro, não é? As pessoas inocentes ou de boa-fé ficam perplexas ao verem grupos subjugados lutarem até a morte pela causa que acreditam, por sua existência com dignidade, por um pedaço de chão onde viver descentemente. Lá em Canudos, todos os homens e boa parte das crianças e mulheres foram barbaramente massacrados a canhão, balas, dinamites, a navalha...

Que dizer? A vontade é de calar. Não no sentido de pactuar com aquela banda de gente que se diz neutra, que não se compromete, apolítica e outras hipocrisias do tipo. Calar porque sinto uma impotência enorme. Por não vislumbrar uma ação eficaz contra as injustiças e merdas que nossa consciência percebe no mundo no qual vivemos.

Ao ler recentemente o livro de Eliane Brum (comentário aqui), sobre a destruição da Amazônia, e ao ler e me informar sobre o que os senhores da guerra, que são os mesmos senhores do capital, que são uma pequena parcela de homens brancos que estão exterminando o mundo e a vida, enfim, ao ler as denúncias da jornalista temos o reforço no sentimento de que deveríamos ter um exército do nosso lado e estar lá no front amazônico defendendo a floresta e os povos-floresta com a nossa própria vida. E ao analisar a realidade, vemos que não vou fazer mais do que ir a passeatas ou coisas do tipo, deixando momentaneamente o conforto de meu lar na vida urbana que levamos.

O pessimismo da razão nos invade, nos invade. Como parar a matança do povo palestino? Como parar as guerras que estão revigorando a economia dos senhores da guerra, que faturam com cada bomba jogada sobre crianças, mulheres, civis e ambientes repletos de vidas? Vamos parar as guerras que dão lucro sem discutir o capitalismo que visa lucro e fodam-se as gentes e o planeta no qual vivemos?

Paro por aqui. Mais um clássico da literatura mundial, mais um ensaio sobre o Brasil e o povo brasileiro. Mais um pouco da história do nosso país e do nosso mundo violento e injusto.

William


Post Scriptum: talvez eu inclua na postagem anterior (ler aqui), quando retomei a leitura de Os Sertões, mais algumas citações da obra, não muitas, algumas. Leiam a obra! Leiam todos os dias! A linguagem escrita está morrendo, leiam e ajudem a preservar essa invenção humana que nos ajudou a dar um salto evolutivo em nossos cérebros e em nossas características como ser humano.


Bibliografia:

CUNHA, E. Os sertões. [online]. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, 2010. 516 p.

CUNHA, Euclides da, 1866-1909. Os sertões: (Campanha de Canudos). 20ª ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1998.

CUNHA, Euclydes da, 1866-1909. Os sertões: campanha de Canudos / Euclydes da Cunha - 39ª ed. - Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora; Publifolha, 2000. (Grandes nomes do pensamento brasileiro)

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domingo, 8 de outubro de 2023

Cadernos do Blog Refeitório Cultural - Ano 2008



Refeitório Cultural - Ano 2008

Reler os textos encadernados do Blog Refeitório Cultural é reviver as experiências de vida de uma pessoa em busca de conhecimento e de sentidos para a existência. 

Eu era uma pessoa pública em 2008, representante de uma categoria profissional importante no mundo da política sindical, a categoria bancária, e qualquer coisa que dissesse, escrevesse ou fizesse poderia ter repercussões positivas ou negativas. Esse lugar de fala me ajudou a ter muita responsabilidade como escritor de blogs.

Ao ver a lista dos livros lidos por mim ao longo daquele ano (citados abaixo) percebe-se o esforço do bancário sindicalista, estudante de Letras da USP e pai em evoluir como pessoa e cidadão brasileiro. Essa curiosidade filosófica trago em mim desde muito jovem, de quando ainda morava em Uberlândia, tempos duros no Marta Helena.

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Leituras

1. O velho e o mar, de Ernest Hemingway

2. A montanha mágica, Thomas Mann

3. São Bernardo, de Graciliano Ramos 

4. O mundo é bárbaro, de Luis Fernando Verissimo

5. Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago 

6. As representações do intelectual, de Edward Said

7. Dublinenses, de James Joyce

8. Ensaio sobre a lucidez, de José Saramago 

9. Bolívia nas ruas e urnas contra o imperialismo, de Leonardo Severo

10. A importância do ato de ler, de Paulo Freire 

11. O menino no espelho, de Fernando Sabino

12. Na natureza selvagem, de Jon Krakauer

13. O encontro, de Anne Enright

14. A morte de Ivan Ilitch, de León Tolstói 

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Considero uma lista respeitável de leitura, mesmo sendo uma lista pequena. A abrangência cultural contida nela é significativa para aquele leitor de quase quarenta anos em busca de autoconhecimento e de conhecimentos gerais, alguém que gostaria de ser um "homem cultivado", conceito de Mircea Eliade.

Alguns desses livros me marcaram profundamente, me transformaram. Não à toa, vários deles são considerados clássicos da literatura universal.

As 216 postagens daquele ano contêm textos mais engajados e textos leves e de coisas banais.

Vi que eu entrei o ano de 2008 planejando fazer o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. Isso nunca se realizou. 

Eu postava muitos contos de Machado de Assis, a obra do Mestre do Cosme Velho é de domínio público e ele é um de meus escritores prediletos.

O blog tem várias crônicas minhas e alguns poemas. Tem textos muito interessantes de análises de filmes, de obras literárias, de política e do mundo sindical. Alguns artigos sobre PLR, remuneração variável e organização de campanha salarial tiveram relevância à época.

Eu postei sequências de aulas de meu curso de Letras da Universidade de São Paulo. Tem aulas de Filologia, de Sintaxe e de Morfologia do Português. Deu um trabalhão postar essas aulas da USP.

Em relação às postagens descompromissadas, tenho registrado no blog minha agenda de prática esportiva, corridas e caminhadas e a participação na corrida de São Silvestre.

Os textos estão todos disponíveis, basta abrir o blog em mídias que permitam ver o lado direito da página onde ficam o "arquivo do blog" e os "marcadores" por ordem alfabética de temas. Para quem acessa em celular, no final das postagens da 1ª tela tem um campo chamado "ver versão para web". 

Clicando aqui, os leitores podem ver a página da última matéria para trás.

Enfim, vou iniciar agora a releitura e revisão das postagens do ano de 2009, serão mais de três centenas de textos. Provavelmente, três ou quatro cadernos impressos.

Seguimos lendo, estudando e escrevendo. A intenção deste blogueiro segue sendo o compartilhamento gratuito de conhecimento e opiniões honestas sobre as diversas áreas culturais da sociedade humana.

Abraços a tod@s!

William


segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 18 de setembro de 2023. Segunda-feira.


Tenho feito poucos registros de diários no blog. Não é falta do que observar e registrar: nosso mundo está se desfazendo e poucos ligam pra isso. É vontade de calar, de silêncio. 

No entanto, algo precisa ser escrito, já que estou me definindo como escritor: alguém que tenha como atividade humana escrever sobre qualquer coisa. Escrever com qualidade e honestidade intelectual, é claro!

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LEITURAS

Estou lendo alguns livros e a leitura tem me deixado muito reflexivo, muito. Se fosse enumerar algumas palavras-chave ou expressões de temas presentes nas leituras que ando fazendo, poderia citar Paulo Freire, Amazônia, Racismo, Eliane Brum, Abdias do Nascimento, China, Cuba, Brasil, estudo de línguas e linguagem, Tempo, História, Socialismo.

A partir de um curso que fiz no Instituto Conhecimento Liberta (ICL), acabei pegando para ler dois livros que não conhecia ainda, um de Abdias Nascimento - O genocídio do negro brasileiro - e outro de Eliane Brum - Banzeiro òkòtó

Abdias fala da população negra no Brasil e desfaz o mito da "democracia racial" e Brum fala da destruição da Amazônia e da condição da mulher. 

Cada capítulo que leio dos livros, fico... sei lá, passado, estupefato. Que merda é essa que nós humanos escolhemos ser? Somos animais fantásticos biologicamente falando, temos um cérebro incrível e decidimos nos tornar monstros inconscientes destruidores do mundo e das formas de vida no planeta. Que foda isso!

Ainda sobre livros em andamento, preciso acabar o livro do Peter Straub - Os mortos vivos. Acabei inventando de reler o livro de terror que li na juventude para tentar lembrar alguma coisa da sensação que tive na época, pois o livro me impressionou e tive medo à época, e o livro é enorme, são mais de 500 páginas. Agora que já li quase a metade, tenho que acabar a leitura...

Os miseráveis, de Victor Hugo: de livros enormes, ao terminar a leitura acima, talvez fique meses só na leitura do clássico de Hugo.

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CÉREBRO: EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM

Diminuí o ritmo de leituras de livros porque decidi desafiar meu cérebro, dar atividades de aprendizagem a ele, estudando idiomas e linguagem. 

Estou às voltas com Português (sim, Português), Espanhol, Japonês, Italiano e Inglês. Não sei nenhum deles, mas tenho vontade de saber sobre esses idiomas e as culturas que eles representam. 

Como diz o professor Luiz de japonês, um passo de cada vez, sempre que contato uma lição, uma aula, uma leitura ou áudio em outra língua, avanço na aprendizagem de alguma coisa nova. Aí está a atividade cerebral que estou interessado. Se ao final do dia, souber alguma coisa a mais que antes, já exercitei meu cérebro, a minha alma humana, a minha identidade.

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HISTÓRIA DO BLOG - O WIKIPEDIA DO WILLIAM

Estou fazendo um trabalho de revisão dos milhares de textos que produzi no blog Refeitório Cultural. Estou terminando a leitura do ano de 2008 do blog, ano que já foi revisto e encadernado. A releitura segue sendo interessante. 

Tratei naquele ano de postar diversos textos sobre aulas da Universidade de São Paulo, da Faculdade de Letras. Tem muita informação boa. Postei aulas de Filologia e Morfologia, estão bem legais os textos. Essa temática sempre foi um dos objetivos do blog. 

Após terminar a releitura do ano de 2008 (216 postagens), irei pegar para reler, diagramar e imprimir o ano de 2009, será um trabalho imenso, pois são 348 postagens. 

Não poderia dizer que nunca escrevi um livro, pois tenho vários livros nos blogs, o de cultura e o do movimento sindical.

É isso, enquanto leio e releio textos, estudo e também exercito meu cérebro.

William


sábado, 5 de agosto de 2023

Diário e reflexões - Caminhei 48 Km


Av. Dr. Martin Luther King.

Refeição Cultural

Osasco, 5 de agosto de 2023. Sábado.


Acordei com o corpo um pouco pedrado. No entanto, considerando a minha caminhada de ontem, estou melhor do que poderia imaginar. Não tive nenhuma bolha nos pés, nenhuma dor além da dor crônica no quadril. Nesta sexta-feira, andei 48 Km entre 9h30 e 23 horas. De certa forma, sei que foi uma realização pessoal incrível nesta altura de minha vida.

Foi um dia todo andando, olhando ruas e paisagens, movimentos de pessoas, carros, trânsito. Vendo a natureza, ouvindo pássaros. Um dia todo concentrado em meu corpo, em minha energia vital. Um dia todo refletindo sobre a vida, as pessoas, o mundo. Pensei muita coisa sobre o passado para compreender o presente e imaginar o futuro.

Fiquei andando entre bairros da região do Butantã, Zona Oeste, entre São Paulo e Osasco. Vila Iara, Parque Continental, Pq. Colina de São Francisco, região do Campo de Golfe, região ao redor da Fundação Bradesco e Vila Campesina, Prefeitura de Osasco, Jaguaré, Cidade Universitária, Rio Pequeno. Andei por onde ando há meio século... meio século!

Av. Dr. Francisco de Paula V. Azevedo.


Cheguei na fase da vida na qual não tenho certeza se consigo completar uma caminhada de 80 Km que faço há décadas, a romaria entre Uberlândia e Água Suja, a secular festa de Nossa Senhora da Abadia, no Triângulo Mineiro. Naturalmente, tenho sido desencorajado por todos, porque se preocupam comigo.

A última vez que fiz a romaria foi antes da pandemia mundial de Covid-19. De lá para cá, a natureza seguiu atuando e minha condição física não é mais a mesma. Não é uma questão de idade. A vida de cada ser vivo é única e cada um é o resultado do acúmulo do viver. O meu viver foi bem intenso e as consequências estão registradas em meu ser. Eu me conheço.

Nas últimas semanas, me deu aquela comichão de pegar a estrada e sentir aquele turbilhão de coisas que se sente quando se faz uma caminhada como aquela de Uberlândia a Água Suja. Juro, só quem a faz sabe o que é aquilo... Tenha a pessoa o motivo que tiver, religioso ou não, a experiência de fazer a romaria é única e muito pessoal.

Avaliando racionalmente, mesmo após a caminhada de ontem, não tenho a certeza se completo ou não a romaria. O que sei é que fiz um esforço pessoal e andei nos últimos dias 10 Km, depois 20 Km, depois 30 Km e ontem 48 Km. Aliás, como digo sempre, cada caminhada dessas foi única, porque o caminho vale mais que o destino, e muito refleti durante as caminhadas, muito mesmo.

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Av. Dr. Martin Luther King.


QUANTO POSSO AINDA?

A ideia quando saí cedo de casa nesta sexta, dia 4, era andar e sentir o meu corpo e a minha condição física para os momentos decisivos de uma longa caminhada, ou seja, ver como meu corpo reagiria após dezenas de quilômetros andados.

Uma questão central para um peregrino é a condição de seus pés ao longo da jornada. Uma coisa é a pessoa estourar os pés logo no início, outra é estar com os pés inteiros até o destino ou próximo a ele.

Já teve vez que meus pés deram bolhas antes do Rio Araguari, uns 15 Km depois do início. Aí é dureza... a dor e o sofrimento serão imensos por dezenas de quilômetros. Tem vez que não tenho bolha nenhuma... aí a peregrinação é bem melhor, sentindo só as dores do cansaço físico.

Depois que aprendi a preparar meus pés com esparadrapos, a vida de romarias melhorou muito. Os esparadrapos nos locais certos evitam que as bolhas estourem quando o calçado não deu muito certo. Às vezes temos bolhas por causa do calor do chão, às vezes por meias ruins, calçados ruins, pisada forte demais etc.

Como fiquei testando um tênis este ano, apostei em um nas últimas semanas e ontem foi uma questão de adequar meus pés e minha pisada para não me machucar. É sério! Com um pouco de autoconhecimento, a gente consegue pisar diferente e "amaciar" a caminhada para não ir marcando os pés. Deu certo! Mesmo sem esparadrapos, não tive bolhas.

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Av. Antônio de Souza Noschese.


METÁFORA DA VIDA, ETAPAS A VENCER

Outra questão mental para um caminhante é definir metas intermediárias durante o percurso que se pretende andar. Na romaria de Uberlândia a Água Suja é assim. São "x" quilômetros até tal lugar, depois "y" quilômetros até outro ponto e assim por diante, até se chegar à igreja na cidade.

Ontem não foi diferente, andando na Zona Oeste, entre São Paulo e Osasco. Mentalizei que queria andar até chegar a "Antena" (abstração de meus 86 bilhões de neurônios). Antena é onde fica uma das principais barracas de ajuda aos romeiros na BR-365 lá em MG. De onde saio até a Antena são 47 Km. 

Da mesma forma, quando andei 30 Km na semana passada, foi como andar de onde saio, no Trevo para Araxá, até o Trevo para Araguari (30 Km).

1ª etapa: 9,82 Km

É impressionante o odômetro interno que um corredor ou caminhante tem em si. Nunca andei com medidor de distâncias. Agora é que tenho um aparelhinho que faz isso. O percurso que sempre achei ter uns 10 Km tinha exatamente 9,82 Km... fala sério, heim!

Comentário: a primeira etapa numa romaria é fundamental. Acertar a pisada, ver se o pé encaixa bem no tênis para um longo dia e calibrar o objetivo internamente. Diálogo consigo mesmo.

2ª etapa: 3,73 Km

Nesta caminhada de 50 minutos, ao redor do bairro onde resido, foi de efetivação de meus acertos internos e antes de fazer uma refeição melhor para uma etapa mais demorada.

Comentário: Na estrada também é assim. Tem etapas maiores e etapas menores de percursos mentalizados. "Agora vou andar até tal lugar e parar uns minutos..."

Av. Prof. Almeida Prado.


3ª etapa: 13,95 Km

Esta foi uma etapa prazerosa. Saí de casa e fui até a nossa querida Universidade de São Paulo. Foram 5 Km até o portão da Av. Politécnica, depois 4 Km lá dentro, mais 5 Km saindo pelo portão da Av. Corifeu e indo até Osasco, a minha casa.

Monumento a Ramos de Azevedo.
Desde 1975, o arquiteto olha para
a Av. Prof. Luciano Gualberto, na USP.


Comentário: passei pela FFLCH-USP, lugar de grande importância em minha vida. Ali completei a mudança de personalidade que iniciei ao entrar no movimento sindical. A graduação em Letras me moldou assim como ser sindicalista.

Saudosismo. Lá no fim da calçada está a
querida FFLCH-USP, onde fiz o curso de Letras.


4ª etapa: 10 Km

Eu tenho preferência por andar de dia, um míope prefere luz natural. Após andar bem durante o dia e o cansaço estar controlável, saí para andar mais uma volta no Parque São Francisco, desta vez anoitecendo e indo por Osasco e chegando por São Paulo. De manhã, havia feito o inverso.

Comentário: imaginem vocês se o corpo não fica te instigando, insinuando que já está bom e que é hora de parar... nesta hora começa a entrar em ação a mentalização e a definição de objetivos que o peregrino traçou lá no início.

Anoitecer em Osasco.

 

Queria me testar andando uns 47 Km como se estivesse na estrada e buscando chegar à Antena. Fui firme comigo mesmo e andei os 10 Km em 2 horas e meia.

Ponte Metálica de Osasco.


5ª etapa: 10,25 Km

Na etapa anterior, fiquei pensando se passava ou não passava em casa. É óbvio que se passasse, meu cansaço venceria e eu dificilmente sairia para completar o percurso que queria, noite entrada já, corpo sentindo, as desculpas mentais de que já estava bom etc.

Decidi ir direto para um dos shoppings próximos de casa e tomar um café e comer alguns pães de queijo e pensar num roteiro para andar mais 10 Km e completar o objetivo mentalizado cedo. E deu certo!

Já que não tinha barraca de ajuda aos romeiros,
tive que pagar um café com pão de queijo.


Comentário: durante o dia, fiquei atento a não sentir fome e não sentir sede, como me lembrou dias atrás o amigo cronista e caminhante experiente Roberto Buzzo. Mas os finais de caminhadas são sempre os mais perigosos...

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O CANSAÇO NOS TIRA A RAZÃO...

Uma coisa comum em longas caminhadas é a pessoa se descuidar de si mesma nos momentos de muito cansaço e ansiedade para atingir um objetivo e isso pode nos fazer passar do ponto sem parar para descansar ou se alimentar.

Já tive queda de pressão algumas vezes nas romarias porque o desejo de superar cansaço e dores gerais faz com que o peregrino não queira sequer mexer na mochila para pegar uma fruta ou algo para mastigar porque está perto do ponto, porque o destino da etapa está logo ali...

Aonde vou ela vai, aonde ela vai eu vou.


O mesmo se dá até com relação à hidratação. Já aconteceu comigo algumas vezes de mesmo tendo água na mochila, não querer tirar a mochila das costas andando no breu total na estrada na alta madrugada querendo chegar desesperadamente à Antena... então, é óbvio que isso tem consequência... dá merda!

Aí quando o romeiro chega aonde queria, ele desaba, prostra! A pessoa está desidratada, está faminta, e o corpo quebra, não teve as calorias necessárias durante o percurso de grande esforço físico.

Normalmente, um descanso resolve. O peregrino come, se hidrata, fica uma hora sentado ou deita um pouco e já melhora, segue adiante.

Mas é muito comum e muito perigoso fazer isso. Tem que se buscar uma consciência racional que falta na hora do cansaço. Pare! Mastigue algo! Beba água!

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Prefeitura Municipal de Osasco. Mundo de Oz.


QUE A CAMINHADA NO MUNDO DE OZ SIRVA DE EXPERIÊNCIA PARA A ROMARIA

A última etapa ontem foi assim. Já beirava as 23 horas, eu andando pra completar quase 50 Km, já sentia que o corpo pedia para mastigar algo, deveria estar tomando mais água... como faltavam poucos quilômetros para chegar ao objetivo fui adiando... adiando. Não me hidratei e não comi para saciar meu corpo extenuado.

Cheguei umas onze horas e estava eufórico por ter completado o percurso, por ter andado bem e não ter tido bolha, por meu quadril ter me permitido andar 48 Km... Me senti realizado pelo que mentalizei de manhã.

A cidade que escolhi para viver. Mundo de Oz.


Cheguei e vacilei ao não comer um prato de comida logo que entrei. Já perto da meia-noite, percebi que minha pressão arterial caiu assim como já vi acontecer algumas vezes chegando ou a Antena ou a igreja de Água Suja. Só então, já meio mareado, fui comer direito. Pra quê!! Gastei mais de uma hora para voltar ao normal...

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A VIDA É UMA JORNADA, NÃO UM DESTINO

Ao acordar hoje pela manhã, fiquei com muitas dúvidas e até pensei algumas estratégias, caso vá mesmo para a estrada na semana que vem. Talvez eu tenha que dormir umas duas horas na Antena, de forma já planejada, para ver se não chego tão esgotado na cidade de Água Suja. 

Também será de grande importância ter muita atenção para não ficar sem comer e beber nos longos percursos até a Antena, 11 Km, e após a Antena, 12,5 Km, num posto conhecido. São nestas etapas duríssimas que a gente perde um pouco da racionalidade por estar muito cansado.

Finalizo esta reflexão de um caminhante reforçando o que disse no início, que vivenciar o caminho intensamente é mais proveitoso do que só considerar exitosa a jornada se for alcançado o objetivo final. Penso até que, se eu for pra estrada e se chegar até a Antena, e não der mais, paciência! Sou natureza...

Estou assim ultimamente. Mais que nunca o dístico da música do Aerosmith tem feito muito sentido para mim. 

"Life's a journey, not a destination
And I just can't tell just what tomorrow brings...
" (Amazing)

É isso!

Seguimos caminhando...

William