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sábado, 7 de maio de 2016

Ilusões Perdidas - Balzac



As Ilusões perdidas e suas 800 páginas de
estudos de costumes da sociedade francesa
burguesa da primeira metade do século 19.

Refeição Cultural


"A avareza começa onde cessa a pobreza" (Ilusões perdidas, Honoré de Balzac)


Nesta semana que passou, recebi um comentário interessante na postagem que fiz dizendo que estava lendo o primeiro volume da coleção A comédia humana, de Honoré de Balzac. O colega Joel Bueno me recomendou algo que ouvi por longos anos dos mestres de literatura na Faculdade de Letras, da USP. Disse para largar o "chato" do Rónai e pegar de vez o Balzac.

Os professores falavam isso para nós nas aulas de literatura, fossem elas portuguesa, espanhola, hispano-americana ou brasileira. Me lembro da professora Maria Augusta Costa Vieira dizendo isso sobre os dois grossos tomos do Don Quijote de la Mancha. Eu acabei pegando uma edição especial e lendo por 3 meses a fan-tás-ti-ca história do cavaleiro da triste figura e seu fiel escudeiro. Até hoje não li as diversas críticas contidas em mais de uma centena de páginas de minha edição especial de comemoração dos 400 anos do lançamento da obra, feita pela Alfaguara.

Como o volume nº 1 da imensa obra balzaquiana não chegou a Brasília e sim lá em Osasco (não estou com ele ainda), olhei, olhei e escolhi o volume 7 de A comédia humana. Escolhi nada mais nada menos que Ilusões perdidas para começar a namorar com ela hoje (sei que minhas jornadas de trabalho e luta não me permitem ler um livrão desses de sentada).


LEITURAS E LEITURAS

Interessante a questão de adequar a onda mental para determinado tipo de leitura. Quando li Os lusíadas, de Camões, gastei várias idas e voltas para entrar no ritmo da leitura e poder navegar por mares nunca dantes navegados. 

Imaginem quando consegui ler até o final as quase mil páginas de Ulisses, de James Joyce. Devo ter recomeçado umas oito vezes até meu cérebro entrar naquele ritmo e deslanchar. Me lembro que cheguei a ler até a página trezentos e voltar ao início porque achei que não estava boa a leitura.

Como na atualidade só leio dezenas de súmulas técnicas a respeito de saúde e coisas do mundo da gestão da saúde e, às vezes, artigos políticos, meu cérebro está destreinado para leitura literária. Fiquei algum tempinho nas primeiras 5 páginas para entender direito o que estava lendo, o contexto da história, o ritmo do autor etc. Não sei se isso acontece com vocês, amantes de leituras.

Enfim, viram a citação acima sobre a avareza e a pobreza? É só um aperitivo do que já vi nas primeiras páginas das Ilusões perdidas. O autor tem um estilo de linguagem ferina. Soube que Machado de Assis teve influências de Balzac. Me pareceu muito o estilo de críticas irônicas e aguçadas à sociedade como costumo ler no Mestre do Cosme Velho, este sim, já de minha afinidade.

Abraços aos meus amigos leitores.

William

sábado, 12 de dezembro de 2015

Lendo: Formação Econômica do Brasil - Celso Furtado



Quando possível, é beber na fonte para ser menos ignorante.
Há que se conhecer para compreender o porquê das coisas.

CANTO TERCEIRO

5

"Além disso, o que a tudo enfim me obriga
É não poder mentir no que disser,
Porque de feitos tais, por mais que diga,
Mais me há-de ficar inda por dizer.
Mas, porque nisto a ordem leve e siga,
Segundo o que desejas de saber,
Primeiro tratarei da larga terra,
Despois direi da sanguinosa guerra."

(Os Lusíadas, Luís de Camões)



TERCEIRA PARTE DO LIVRO

Economia escravista mineira (século XVIII)

XIII. Povoamento e articulação das regiões meridionais


COMENTÁRIO DO BLOG

Com a concorrência dos produtos tropicais franceses e ingleses, Portugal busca saída na extração de minerais

No final do século XVIII, Portugal se perguntava o que fazer com a colônia sul-americana, Brasil, para que ela se autofinanciasse e valesse a pena, já que a produção em monocultura de cana-de-açúcar já enfrentava forte concorrência das colônias francesas e inglesas nas Américas e Caribe.

Definiu-se que era necessário encontrar metais preciosos em terras brasileiras.

"O estado de prostração e pobreza em que se encontravam a Metrópole e a colônia explica a extraordinária rapidez com que se desenvolveu a economia do ouro nos primeiros decênios do século XVIII. De Piratininga a população emigrou em massa, do Nordeste se deslocaram grandes recursos, principalmente sob a forma de mão-de-obra escrava, e em Portugal se formou pela primeira vez uma grande corrente migratória espontânea com destino ao Brasil. O facies da colônia iria modificar-se fundamentalmente." (pág. 77)


COM A MINERAÇAO, HOUVE GRANDE IMIGRAÇÃO PORTUGUESA

"Com efeito, tudo indica que a população colonial de origem europeia decuplicou no correr do século da mineração". (pág. 78)

Furtado nos informa que afora os grandes senhores de engenhos ou terras, os homens livres* não conseguiam nenhuma expressão social. Era miséria pura.

"Ao estagnar-se a economia açucareira, as possibilidades de um homem livre para elevar-se socialmente se reduziram ainda mais. Em consequência, começou a avolumar-se uma subclasse de homens livres sem possibilidade de ascensão social, a qual em certas épocas chegou a constituir um problema". (pág. 79)

COMENTÁRIO DO BLOG

* Mais tarde, nos séculos XIX e XX, essa multidão de homens livres e sem posses, seriam os macunaímas, os jagunços e os agregados nos entornos das cidades, nos sertões e nas casas grandes.


Com o avanço da mineração, cresce o comércio da carne, favorecendo a pecuária da região Sul do país. Outro fator econômico que aparece fortemente é o mercado para animais de carga, pelo fato da região mineradora ser montanhosa e longe do litoral brasileiro.


ETAPA MINEIRA FAVORECE DE FORMA INDIRETA MAIS AO SUL QUE AO NORDESTE

"Se se considera em conjunto a procura de gado para corte e de muares para transporte, a economia mineira constituiu, no século XVIII, um mercado de proporções superiores ao que havia proporcionado a economia açucareira em sua etapa de máxima prosperidade. Destarte, os benefícios que dela se irradiam para toda a região criatória do sul são substancialmente maiores do que os que recebeu o sertão nordestino. A região rio-grandense, onde a criação de mulas se desenvolveu em grande escala, foi, dessa forma, integrada no conjunto da economia brasileira". (pág. 80/81)


SÃO PAULO CONCENTRAVA E DISTRIBUÍA BURROS E BESTAS

"Cada ano subiam do Rio Grande do Sul dezenas de milhares de mulas, as quais constituíam a principal fonte de renda da região. Esses animais se concentravam na região de São Paulo onde, em grandes feiras, eram distribuídos aos compradores que provinham de diferentes regiões..." (pág. 80)


PROCURA POR GADO INTEGROU REGIÕES

"A economia mineira abriu um novo ciclo de desenvolvimento para todas elas. Por um lado, elevou substancialmente a rentabilidade da atividade pecuária, induzindo a uma utilização mais ampla das terras e do rebanho. Por outro, fez interdependentes as diferentes regiões, especializadas umas na criação, outras na engorda e distribuição e outras constituindo os principais mercados consumidores. É um equívoco supor que foi a criação que uniu essas regiões. Quem as uniu foi a procura de gado que se irradiava do centro dinâmico constituído pela economia mineira". (pág. 81)


COMENTÁRIO FINAL DO BLOG

É sempre bom pegar em leituras um pouco mais engajadas, que nos lembram quem somos, de onde viemos e por que as coisas são como são em nosso querido Brasil: uma terra que, apesar das condições naturais ideais, na conformação social é eivada de injustiça, iniquidades, exploração das massas trabalhadoras, com povos com pouco acesso a escolarização e com ignorâncias incentivadas pela elite dominante.

Há que se posicionar e combater sempre isso. É dever de homens e mulheres de bem e que defendem um mundo melhor, mais justo, equânime e solidário se engajarem nas causas sociais em nosso país.

William

sábado, 18 de julho de 2015

Formação Econômica do Brasil - Economia escravista séc. XVI e XVII





Refeição Cultural
Comecemos a saga da colonização portuguesa em nossas terras com uma estrofe do épico poema português Os Lusíadas, de Luís de Camões.


CANTO SEGUNDO

111

"E não menos co'o tempo se parece
O desejo de ouvir-te o que contares;
Que quem há que por fama não conhece
As obras portuguesas singulares?
Não tanto desviado resplandece
De nós o claro Sol, para julgares
Que os Melindanos têm tão rudo peito,
Que não estimem muito um grande feito."


SEGUNDA PARTE DO LIVRO

Economia escravista de agricultura tropical (séculos XVI e XVII)


XII. Contração econômica e expansão territorial

Alguns excertos e comentários do capítulo que fecha a segunda parte do livro.

Com a queda da comercialização da produção açucareira, pela quebra do monopólio português, amenizada pelo aumento da produção pecuária de subsistência no Nordeste, outros fatos vieram a ampliar os problemas da metrópole portuguesa em relação à sua colônia: as invasões holandesas.

"A administração holandesa se preocupou em reter na colônia parte das rendas fiscais proporcionadas pelo açúcar, o que permitiu um desenvolvimento mais intenso da vida urbana." (pág. 67)


POVOAMENTO PORTUGUÊS NO MARANHÃO

"A ocupação foi seguida de decisões objetivando a criação de colônias permanentes. Ao Maranhão foram enviados de uma feita - no segundo decênio do século XVII - trezentos açorianos. Ao iniciar-se a etapa de dificuldades políticas e econômicas para o governo português, essas colônias da região norte ficaram abandonadas aos seus próprios recursos e as vicissitudes que tiveram de enfrentar demonstram vivamente o quão difícil era a sobrevivência de uma colônia de povoamento nas terras da América". (pág. 68)

A produção de açúcar não deu certo no Maranhão: "Os solos do Maranhão não apresentavam a mesma fecundidade que os massapês nordestinos para a produção de açúcar". (pág. 68)

A situação na segunda metade do século XVII e a primeira do XVIII foi dramática para os colonos daquela região. Até para produção de subsistência, houve grande dificuldade com o abandono da metrópole.

Novamente alega-se ser a escravidão uma questão de sobrevivência (dos portugueses): "A inexistência de qualquer atividade que permitisse produzir algo comercializável obrigava cada família a abastecer-se a si mesma de tudo, o que só era praticável para aquele que conseguia por as mãos num certo número de escravos indígenas. A caça ao índio se tornou, assim, condição de sobrevivência da população". (pág. 69)


JESUÍTAS ATUAM PARA FAZER ÍNDIOS TRABALHAREM

"Na primeira metade do século XVIII a região paraense progressivamente se transforma em centro exportador de produtos florestais: cacau, baunilha, canela, cravo, resinas aromáticas. A colheita desses produtos, entretanto, dependia de uma utilização intensiva da mão-de-obra indígena, a qual, trabalhando dispersa na floresta, dificilmente poderia submeter-se às formas correntes de organização do trabalho escravo". (pág. 69)


ATUAÇÃO DA IGREJA NO PAPEL DA ESCRAVIDÃO DO ÍNDIO FOI IMPLACÁVEL

"Não se dependia de nenhum sistema coercitivo. Uma vez suscitado o interesse do silvícola, a penetração se realizava sutilmente, pois, criada a necessidade de uma nova mercadoria, estava estabelecido um vínculo de dependência do qual já não podiam desligar-se os indígenas". (pág. 69).

COMENTÁRIOS: 

- entra século, sai século, e o papel da religião é sempre o mesmo, apesar de haver exceções em relação à fé pessoal. A promiscuidade das várias igrejas com a política e os Estados sempre foi forte no sentido de "pacificar" a massa explorada pelos donos do poder.

- os jesuítas foram a semente da manipulação no colonialismo que seria o neoliberalismo do século XXI, cuja técnica da criação do desejo, do fetiche imbecilizante e domesticável, segue desde então até os dias atuais.


CRISE DO FIM DO MONOPÓLIO DA CANA DE AÇÚCAR TAMBÉM TRAZ REPERCUSSÕES NA REGIÃO SUL

"O empobrecimento da região açucareira, ao reduzir o mercado de escravos da terra, repercutiu igualmente na região sulina, escassa de toda mercadoria comercial. Os couros, que de há muito se exportavam também pelos portos do sul, aumentaram então sua importância relativa e os negócios de criação passaram a preocupar os governantes portugueses em forma crescente" (pág. 70)

Colônia do Sacramento: "A penetração dos portugueses em pleno estuário do Prata, onde em 1680 fundaram a Colônia do Sacramento, constitui assim outro episódio da expansão territorial do Brasil ligada às vicissitudes da etapa de decadência da economia açucareira. A Colônia do Sacramento, que esteve em mãos portuguesas com interrupções durante quase um século, permitiu a Portugal reforçar enormemente sua posição nos negócios do couro, demais de constituir um entreposto para o contrabando com um dos principais portos de entrada da América espanhola, numa etapa em que a Espanha perdera praticamente a sua frota e persistia em manter o monopólio do comércio com suas colônias" (pág. 70)

O aumento do câmbio arrebentou as regiões de pouca exportação e que careciam muito das importações para sobreviverem.

Celso Furtado termina assim a segunda parte do livro: "o encarecimento das manufaturas importadas chegou a extremos e nas regiões mais pobres, como Piratininga, uma simples roupa de fazenda importada ou uma espingarda podiam valer mais que uma casa residencial"

E por fim:

"Esses fatores contribuíram para a reversão cada vez mais acentuada a formas de economia de subsistência, com atrofiamento da divisão do trabalho, redução da produtividade, fragmentação do sistema em unidades produtivas cada vez menores, desaparição das formas mais complexas de convivência social, substituição da lei geral pela norma local etc". (pág. 71)


COMENTÁRIO FINAL

Quando olhamos a história de nosso país, olhando qualquer de nossas regiões como o Estado do Maranhão, tão pobre e tão sem políticas públicas universalizantes; o Nordeste inteiro que foi quase que grandes capitanias hereditárias até bem entrado o século XX; o Sul com sua cultura típica; o Estado de São Paulo, onde impera uma ideia (ideologia) que afirma haver um "espírito bandeirante"... enfim, vemos como é importante conhecer a história de nosso povo, nossa terra, nossa cultura, para inclusive desfazer mitos e construir estradas para um futuro mais equânime e solidário para todo o povo tão igual e tão diferente, o povo brasileiro.


Bibliografia:

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. In: Grandes Nomes do Pensamento Brasileiro. Publifolha 2000.

domingo, 12 de julho de 2015

Formação Econômica do Brasil - Economia escravista séc. XVI e XVII





Refeição Cultural



Comecemos citando nosso poeta português, que tanto enalteceu os feitos da gente portuguesa com a conquista do mundo pelos mares nunca dantes navegados. De propósito, cito uma estrofe que considero bonita nas palavras, mas incorreta nos atos portugueses - seria verdade o que os versos nos dizem? Que fizeram em terras africanas, asiáticas e americanas?

CANTO SEGUNDO

80

"Não somos roubadores, que, passando
Pelas fracas cidades descuidadas,
A ferro e a fogo as gentes vão matando,
Por roubar-lhes as fazendas cobiçadas;
Mas, da soberba Europa navegando,
Imos buscando as terras apartadas
Da Índia grande e rica, por mandado
De um rei que temos, alto e sublimado."

(Os Lusíadas, Luís de Camões)


SEGUNDA PARTE DO LIVRO

Economia escravista de agricultura tropical (séculos XVI e XVII)

X. Projeção da economia açucareira: a pecuária

Excertos do capítulo e comentários, quando necessários.

Como a economia na colônia era de elevadíssimo coeficiente de importações, a produção de alimentos inclusive para os escravos, em terras de engenhos, tornava-se antieconômica naquele período.

Como a utilização da colônia era para a produção monocultora de açúcar, para exportação, além de não ser interessante ocupar a terra para plantar alimentos, a metrópole não queria concorrência alguma de produção para atrapalhar o comércio do império.

"Pode-se admitir, como ponto pacífico, que a economia açucareira constituía um mercado de dimensões relativamente grandes, podendo, portanto, atuar como fator altamente dinâmico do desenvolvimento de outras regiões do país (...). Em segundo lugar estava a preocupação política de evitar o surgimento na colônia de qualquer atividade que concorresse com a economia metropolitana".

COMENTÁRIO: isso sempre foi uma tragédia econômica para o nosso país.

DIFERENÇAS NA COLONIZAÇÃO EM SÃO VICENTE E NOVA INGLATERRA

"Em São Vicente, onde a escassez de mão-de-obra resultou ser maior do que na Nova Inglaterra - o excedente de população nas Ilhas Britânicas tornou possível importar mão-de-obra europeia em regime de servidão temporária - a primeira atividade comercial a que se dedicaram os colonos foi a caça do índio. Dessa forma, voltaram-se para o interior e se transformaram em sertanistas profissionais."

PECUÁRIA, EXCEÇÃO À MONOCULTURA DA CANA

"O único artigo de consumo de importância que podia ser suprido internamente era a carne, que figura na dieta mesmo dos escravos, como observa Antonil."

"A criação de gado - na forma em que se desenvolveu na região nordestina e posteriormente no sul do Brasil - era uma atividade econômica de características radicalmente distintas das da unidade açucareira. A ocupação da terra era extensiva e até certo ponto itinerante. O regime de águas e distâncias dos mercados exigiam periódicos deslocamentos da população animal, sendo insignificante a fração das terras ocupadas de forma permanente".

A economia de criação de gados se transformou num fator fundamental de penetração e ocupação do interior brasileiro.

Como a atividade de criação de gado tinha mais atrativos que a açucareira, inclusive por causa da relação de investimentos necessários entre uma e outra, "aquele que não dispunha de recursos para iniciar por conta própria a criação tinha possibilidade de efetuar a acumulação inicial trabalhando numa fazenda de gado".

"Tudo indica que essa atividade era muito atrativa para os colonos sem capital, pois não somente da região açucareira, mas também da distante colônia de São Vicente, muita gente emigrou para dedicar-se a ela", conclui Furtado.

PECUÁRIA TERÁ IMPORTÂNCIA NA REGIÃO NORDESTINA MESMO EM DECADÊNCIA

Celso Furtado finaliza o capítulo, após explicar a dispersão da pecuária para diversas regiões, nos informando que "essa importância relativa do setor de subsistência na pecuária será um fator fundamental das transformações estruturais por que passará a economia nordestina em sua longa etapa de decadência".

COMENTÁRIO: até o século XVII a expansão da cana de açúcar no Nordeste fez a pecuária se estender sertão adentro. No século XVIII, com a mineração na região Sudeste, a expansão da pecuária se dá mais no Sul do país.

XI. Formação do complexo econômico nordestino

Os dois sistemas da economia nordestina - o açucareiro e a pecuária -, vão entrar em decadência a partir da segunda metade do século XVII.

O modelo de crescimento era sem tecnologia: "o crescimento era de caráter puramente extensivo, mediante a incorporação de terra e mão-de-obra, não implicando modificações estruturais que repercutissem nos custos de produção e portanto na produtividade".

No século XVIII a situação econômica dos produtores piora "em razão do aumento nos preços dos escravos e da emigração da mão-de-obra especializada, determinados pela expansão da produção de ouro".

NORDESTE TEM QUEDA DE RENDA PER CAPITA SECULAR

Autor nos diz que desde o século XVII até começos do século XIX (e podemos dizer até o final dos anos noventa do século XX) "a economia nordestina sofreu um lento processo de atrofiamento, no sentido de que a renda real per capita de sua população declinou secularmente".

Com estagnação da produção açucareira no Nordeste: "Não havendo ocupação adequada na região açucareira para todo o incremento de sua população livre, parte desta era atraída pela fronteira móvel do interior criatório. Dessa forma, quanto menos favoráveis fossem as condições da economia açucareira, maior seria a tendência imigratória para o interior. As possibilidades da pecuária para receber novos contingentes de população - quando existe abundância de terras - são sabidamente grandes, pois a oferta de alimentos é, nesse tipo de economia, muito elástica a curto prazo".

Com as mudanças ocorridas com a redução da produção açucareira e com a produção pecuária sendo basicamente para subsistência, "No Nordeste brasileiro, como as condições de alimentação eram melhores na economia de mais baixa produtividade, isto é, na região pecuária (...) explica-se assim que a população do Nordeste haja continuado a crescer - e possivelmente haja intensificado o seu crescimento - em todo o século e meio de estagnação da produção açucareira a que fizemos referência".

ENFIM: menor produção de açúcar, maior produção criadora e de subsistência, aumento da população nordestina no período.

COMENTÁRIO FINAL

Lá no futuro, no século XXI, um determinado povo da região Sudeste, vai alimentar forte discriminação contra o povo nordestino. É de uma estupidez incrível, porque o povo nordestino mostrou ao longo de séculos que é um povo bravo, resistente e sobrevivente, mesmo em situações de crises econômicas causadas pelas diversas formas de capitalismo predatório das classes dominantes.

Bibliografia:

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. In: Grandes Nomes do Pensamento Brasileiro. Publifolha 2000.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Fim de semana focado em minha sanidade



Leituras de um fim de semana em busca de alimento cultural

Refeição Cultural

Já estamos na madrugadinha da segunda-feira, 6 de julho. Quando cheguei sexta-feira do trabalho, estava bem esgotado.

Neste fim de semana, procurei dormir um pouco mais, li muito, corri, fiquei em casa com a família, falei com meus pais por telefone, assisti a coisas boas como "Planeta Terra" e um pouco da minissérie dos anos oitenta "Grande Sertão: Veredas".

Eu precisava me desligar um pouco de meu trabalho na Cassi, onde sou gestor eleito pelos trabalhadores e tenho jornada de trabalho intensa. 


Corridas e preparação para fazer longa caminhada em agosto

Neste domingo à tarde, saí para correr em Brasília com uma temperatura quente (26 graus) e pouca umidade no ar. A corrida foi bem difícil e exigiu grande esforço respiratório. Mas gosto de testar meus limites. Corri 35' e estarei preparado para fazer minha caminhada de 75 km em agosto lá em MG.


Leituras para alimentar a mente, o caráter e a cultura

Neste fim de semana dei a mim o direito de esquecer um pouco o cenário político e o meu trabalho e procurei fortalecer minha sanidade lendo coisas maravilhosas.

Retomei a leitura de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosas. Parei a leitura faltado pouco mais de cem páginas. Li cinquenta páginas hoje. A leitura atenta de literatura com linguagem tão especial nos faz abrir o cérebro e alimentá-lo positivamente. Como fiz Faculdade de Letras tenho ao menos consciência do grande poder de aumento da capacidade intelectual que a leitura permite aos seres humanos.

Reli e melhorei minhas postagens sobre a importante obra Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado. Novamente, a linguagem é diferente da anterior. Como o próprio Furtado diz no prefácio, é um ensaio e conjuga história, economia e cultura brasileira.

De quebra, reli umas oitenta páginas da grandiosa obra de Luís de Camões - Os Lusíadas. Que coisa fantástica e que linguagem completamente diferente das duas anteriores. Ganho eu e ganha meu cérebro ao ser cutucado de forma bem melhor que ficar navegando em redes sociais (na minha opinião).

Por fim, reli um pouco dos episódios de um livro que tenho sobre a série Arquivo X - The truth is out there, the official guide to The X Files, dos anos noventa. Para descontrair em algumas noites, tenho revisto episódios quando chego do trabalho. Aproveitei e revi meu inglês, novamente linguagem diferente que cutuca meu cérebro a buscar em suas conexões o que já aprendeu.


Planeta Terra

Por fim, tenho terminado os domingos assistindo ao programa Planeta Terra. A cada semana, após os episódios, fico pensando nos seres humanos, nos animais e plantas, neste nosso Planeta e no que estamos fazendo conosco e com ele...

Nós temos como viver melhor entre nós humanos e na relação de convivência humanos e meio ambiente. Só temos que deixar de ser egoístas, ignorantes, intolerantes e sermos mais solidários, gregários e conscientes do quanto somos frágeis enquanto seres no Universo.

Refleti muito.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O valor das PALAVRAS na Educação e na Comunicação

Foto de Luís de Camões. Fonte: wikipédia
O uso inapropriado das PALAVRAS e certas afirmações na educação escolar podem levar ao preconceito

Li um texto na apostila da escola de meu filho - o COC. O texto fala sobre "A arte da palavra" e utiliza como materiais de referência o soneto de Camões, que fala sobre o amor, e uma pintura muito famosa de Michelangelo - A criação de Adão - feita no teto da Capela Sistina.

Soneto de Luís de Camões (1524-1580)

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Informações da apostila:

"O soneto de Camões fala de um tema muito precioso para a poesia de todas as épocas: o Amor.

O poema procura definir determinado 'tipo' de amor, aquele existente entre duas pessoas*, sentimento "muito confuso". Pensando nele, paramos para refletir: o que faz o homem*, desde épocas muito distantes, cultivar como uma bela flor este sentimento tão confuso?"

*COMENTÁRIO:
PALAVRAS APROPRIADAS
Aqui o material didático usa as palavras de forma apropriada. O tipo de amor é "entre duas pessoas". o termo "o homem" aqui quer dizer o ser humano.

Segue a apostila:

"O amor não é apenas o sentimento do homem por uma mulher de quem goste*. Ele é um sentimento forte, sublime, agradável, vasto e delicado. Por ser tão extenso, podemos expressá-lo de várias formas."

*COMENTÁRIO:

Logo em seguida, o texto já limita o "tipo de amor" entre pessoas, sendo somente entre "homem e mulher". Como a comparação que quer se passar é que existe amor também entre Deus e o ser humano, e demais tipos de amor (pela natureza, por exemplo), começa aqui uma construção velada de que o "tipo de amor" (normal?) entre pessoas seria entre "homem e mulher".

Seria fácil manter a neutralidade na didática usando a referência "amor entre duas pessoas", PONTO!

Foto de A criação de Adão, de Michelangelo Buonarroti, na Capela Sistina, Vaticano, Itália. Fonte: wikipédia

Segue a apostila:

"Tomando por base a Bíblia e a religião cristã, o artista italiano Michelangelo (1475-1564) criou, no teto da Capela Sistina, em Roma, exemplo belíssimo do amor de Deus pelos homens, o afresco A criação de Adão*."

*COMENTÁRIO:

Pergunto: o que tem a ver a pintura feita por Michelangelo com um "exemplo de amor de Deus pelos homens"?

Tá certo que a bíblia passa mensagens de amor de Deus pelos humanos, mas é meio forçação de barra afirmar que a criação artística de Michelangelo é exemplo de amor de Deus.

Segue a apostila:

"O texto de Camões recebeu nova "roupagem" na década de 80, quando o grupo de rock brasileiro Legião Urbana gravou a música Monte Castelo, usando palavras do poema e alguns trechos da Bíblia (I Epístola de São Paulo aos Coríntios, capítulo XIII). Essa música é a fusão perfeita dos dois amores de que falamos: o amor de um homem por uma mulher e o de Deus pelos homens*."

*COMENTÁRIO:

A apostila poderia muito bem ter mantido a forma com que começou o texto, falando do amor entre duas pessoas. SERIAM PALAVRAS MAIS APROPRIADAS para permitir a DIVERSIDADE DE ORIENTAÇÃO SEXUAL entre as pessoas e, principalmente, entre os jovens que por ela estudam.

A afirmação final é tão inapropriada que Renato Russo, o saudoso autor da letra e líder da banda de rock Legião Urbana, citada pelo texto, já afirmava nos anos 80 gostar "de meninos e meninas".

Penso que todos os avanços já conquistados pela sociedade contemporânea, no que diz respeito à diversidade e à alteridade, devem ser utilizados na educação da juventude. Só assim poderemos buscar o socialismo democrático e um outro mundo possível, com pessoas mais conscientes e integradas a um planeta terra que pertence a todos - seres humanos de todas as raças, credos e diversidades várias - e que deve ser preservado e usufruído por todos - humanos, fauna e flora.

Referências usadas:
Wikipédia
Apostila COC

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Leitura: Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado



Estudar nas horas vagas, um ato de prazer! (2015)

Iniciamos a leitura da segunda parte do livro de Furtado com Os Lusíadas, de Camões, porque estamos assistindo em panorama à Formação Econômica do Brasil, que tem relação umbilical com a nação portuguesa e os feitos iniciados com as grandes navegações.


CANTO SEGUNDO

32

"E, se se move tanto a piedade
Desta mísera gente peregrina,
Que, só por tua altíssima bondade,
Da gente a salvas pérfida e malina,
Nalgum porto seguro de verdade
Conduzir-nos já agora determina,
Ou nos amostra a terra que buscamos,
Pois só por teu serviço navegamos."

(Os Lusíadas, Luís de Camões)


Reli toda a segunda parte e a sensação foi a mesma da primeira leitura em 2009. Celso Furtado descreve como num filme, dois séculos brasileiros. Vemos a monocultura do açúcar nas regiões litorâneas, principalmente do Nordeste, vemos o início e avanço da pecuária para dentro do continente. Vamos comparando e observando as diferentes formas e consequências da colonização nas Américas por parte de portugueses, espanhóis, ingleses, franceses, holandeses.

Um aviso que acho importante. Furtado é um intelectual progressista e sua vida foi voltada para a busca de soluções econômicas e políticas para amenizar as agruras e misérias de seu povo brasileiro e sul-americano. Ao lermos os capítulos descrevendo a escravidão de índios e africanos, ficamos chocados com a descrição fria de números e modus operandi do processo econômico na colônia portuguesa. Mas não recrimino Furtado porque seu papel aqui é descrever os fatos históricos e econômicos.

Após a leitura, fiquei um instante na janela da sala, olhando para as árvores lá fora, e refleti que a formação ética, social e política dos cidadãos necessita de matérias voltadas para isso. Se lermos somente amontoados de leituras, com descrição da história mundial, dos povos, guerras, conquistas, massacres etc e não formos colocados a pensar a respeito das opções tomadas nesses episódios, algo estará faltando na formação política e ética das pessoas.


SEGUNDA PARTE

Economia escravista de agricultura tropical (séculos XVI e XVII)


VIII. Capitalização e nível de renda na colônia açucareira


Excertos e, quando necessário, alguns comentários.

"O rápido desenvolvimento da indústria açucareira, malgrado as enormes dificuldades decorrentes do meio físico, da hostilidade do silvícola e do custo dos transportes, indica claramente que o esforço do governo português se concentrara nesse setor".


ESCRAVIDÃO "JUSTIFICADA"

"A escravidão demonstrou ser, desde o primeiro momento, uma condição de sobrevivência para o colono europeu na nova terra. Como observa um cronista da época, sem escravos os colonos 'não se podem sustentar na terra' (Gandavo)."


ESCRAVIDÃO INDÍGENA

"O fato de que desde o começo da colonização algumas comunidades se hajam especializado na captura de escravos indígenas põe em evidência a importância da mão-de-obra nativa na etapa inicial de instalação da colônia".


RENDA DO SISTEMA FICAVA COM PROPRIETÁRIOS E COMERCIANTES

"Tudo indica, destarte, que pelo menos 90 por cento da renda gerada pela economia açucareira dentro do país se concentrava nas mãos da classe de proprietários de engenhos e de plantações de cana."

Porém, após Furtado compreender a importância central das etapas comerciais para colocar o produto açúcar nos mercados mundiais, evitando superproduções e esgotamento das demandas, ele revê sua tese dos 90 por cento da renda para os proprietários e afirma que parte da renda deva ter ficado com os comerciantes não residentes na colônia.

"Sendo assim, que não se haja repetido a dolorosa experiência de superprodução que tiveram as ilhas do Atlântico, confirma que houve excepcional habilidade na etapa de comercialização, e que era desta última que se tomavam as decisões fundamentais com respeito a todo o negócio açucareiro."

E conclui sobre a repartição das rendas entre proprietários e comerciantes:

"A explicação mais plausível para esse fato talvez seja que parte substancial dos capitais aplicados na produção açucareira pertencesse aos comerciantes. Sendo assim, uma parte da renda, que antes atribuímos à classe de proprietários de engenhos e de canaviais, seria o que modernamente se chama renda de não-residentes, e permanecia fora da colônia."


IX. Fluxo de renda e crescimento

Neste novo capítulo, o autor nos informa que desde o início da colonização de exploração em nosso país, "o empresário açucareiro teve, no Brasil, desde o começo, que operar em escala relativamente grande" e que "nas primeiras fases da operação, muito provavelmente coube ao trabalho indígena um papel igualmente importante".


FLUXO DE RENDA MONETÁRIA (uma aula de economia)

"Numa economia industrial a inversão faz crescer diretamente a renda da coletividade em quantidade idêntica a ela mesma. Isto porque a inversão se transforma automaticamente em pagamento a fatores de produção. Assim, a inversão em uma construção está basicamente constituída pelo pagamento do material nela utilizado e da força de trabalho absorvido. A compra do material de construção, por seu lado, não é outra coisa senão a remuneração da mão-de-obra e do capital utilizados em sua fabricação e transporte. Estes pagamentos a fatores, que são uma criação de renda monetária ou de poder de compra, somados, reconstituem o valor inicial da inversão".

E nos explica que "A inversão feita numa economia exportadora-escravista é fenômeno inteiramente diverso..."


ENTENDO PORQUE PARTE DA BURGUESIA TUPINIQUIM É TÃO RIDÍCULA

A elite brasileira, que considero uma das mais vira-latas do planeta, tem uma razão de ser. É a origem também vira-latas que ela tem.

"Vejamos agora, em seu conjunto, o funcionamento dessa economia. Como os fatores de produção em sua quase totalidade pertenciam ao empresário, a renda monetária gerada no processo produtivo revertia em sua quase totalidade às mãos desse empresário. Essa renda - a totalidade dos pagamentos a fatores de produção mais os gastos de reposição do equipamento e dos escravos importados - expressava-se no valor das exportações. É fácil compreender que, se a quase totalidade da renda monetária estava dada pelo valor das exportações, a quase totalidade do dispêndio monetário teria de expressar-se no valor das importações".

E explica uma possível vinculação até hoje dessa mania de relação com as metrópoles que a parte vira-latas da burguesia brasileira tem.

"O fluxo de renda se estabelecia, portanto, entre a unidade produtiva, considerada em conjunto, e o exterior. Pertencendo todos os fatores a um mesmo empresário, é evidente que o fluxo de renda se resumia na economia açucareira a simples operações contábeis, reais ou virtuais."


COMENTÁRIO:

A despeito das tentativas de industrialização, produção de valor agregado aos produtos brasileiros, as poucas tentativas de sair do estágio de exportador de commodities, tentativas estas realizadas em sua amplíssima maioria com Getúlio Vargas e Lula da Silva, criando um processo de distribuição de renda a partir do trabalho assalariado e o fortalecimento de um mercado interno no país, quase sempre, o que predomina no Brasil, é a visão tacanha de importar tudo de fora dos Estados Unidos e Europa, e mais recentemente da China, ao invés de valorizar o produto nacional.
NÃO HOUVE FEUDALISMO BRASILEIRO

Já li em diversos estudos, leituras diferentes entre estudiosos e historiadores, sobre ter havido ou não no Brasil algo como o feudalismo. Celso Furtado dá a opinião dele.

"O feudalismo é um fenômeno de regressão que traduz o atrofiamento de uma estrutura econômica (...). Ao inverso da unidade feudal, ela (a unidade escravista) vive totalmente voltada para o mercado externo. A suposta similitude deriva da existência de pagamentos in natura em uma e outra. Mas ainda aqui existe um total equívoco, pois na unidade escravista os pagamentos a fatores são todos de natureza monetária, devendo-se ter em conta que o pagamento ao escravo é aquele que se faz no ato de compra deste. O pagamento corrente ao escravo seria o simples gasto de manutenção, que, como o dispêndio com a manutenção de uma máquina, pode ficar implícito na contabilidade, sem que por isso perca sua natureza monetária".


ECONOMIA ESCRAVISTA AÇUCAREIRA RESISTIU ECONOMICAMENTE POR SÉCULOS

"A renda monetária da unidade exportadora, praticamente constituíam os lucros do empresário, sendo sempre vantajoso para este continuar operando qualquer que fosse a redução ocasional dos preços (...). A unidade exportadora estava assim capacitada para preservar a sua estrutura. A economia açucareira do Nordeste brasileiro, com efeito, resistiu mais de três séculos às mais prolongadas depressões, logrando recuperar-se sempre que o permitiam as condições do mercado externo, sem sofrer nenhuma modificação estrutural significativa".


COMENTÁRIO:

Com custo fixo baixo é que o sistema escravista se perpetuou por tantos séculos. Hoje, com processos de terceirização e uso de mão-de-obra quase escrava, empresas globais fazem exatamente o mesmo. tem empresa que produz tênis de marca por 1 (um) dólar e vende por centenas de vezes o valor de custo.


Bibliografia:

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. In: Grandes Nomes do Pensamento Brasileiro. Publifolha 2000.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Formação Econômica do Brasil, Celso Furtado





CANTO PRIMEIRO

106

"No mar tanta tormenta e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade aborrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?"

(Os Lusíadas, Luís de Camões)


PRIMEIRA PARTE

Fundamentos econômicos da ocupação territorial

VII. Encerramento da etapa colonial

Alguns excertos do capítulo:

"A neutralidade em face das grandes potências era impraticável. Portugal compreendeu, assim, que para sobreviver como metrópole colonial deveria ligar o seu destino a uma grande potência, o que significaria necessariamente alienar parte de sua soberania. Os acordos concluídos com a Inglaterra em 1642-54-61 estruturaram essa aliança que marcará profundamente a vida política e econômica de Portugal e do Brasil durante os dois séculos seguintes".

A consequência desses acordos foi que "Portugal became virtually England's commercial vassal" (Alan K. Manchester)

Nessas trocas de favores "Com respeito às Índias Orientais, por exemplo, Portugal cedeu Bombaim permanentemente e a Inglaterra prometeu utilizar sua esquadra para manter a ordem nas possessões lusitanas".


PORTUGAL ABRE MÃO DE DESENVOLVIMENTO MANUFATUREIRO

"(...) o acordo comercial, celebrado com a Inglaterra em 1703, desempenhou papel básico no curso tomado pelos acontecimentos. Esse acordo significou para Portugal renunciar a todo desenvolvimento manufatureiro e implicou transferir para a Inglaterra o impulso dinâmico criado pela produção aurífera no Brasil".


CONFERÊNCIA DE UTRECHT

Com o acordo celebrado com a Inglaterra, o Brasil conseguiu boas posições em relação a formação de seu território.

"Aí conseguiu o governo lusitano que a França renunciasse a quaisquer reclamações sobre a foz do Amazonas e a quaisquer direitos de navegação nesse rio. Igualmente nessa conferência Portugal conseguiu da Espanha o reconhecimento de seus direitos sobre a colônia do Sacramento. Ambos os acordos receberam a garantia direta da Inglaterra e vieram a constituir fundamentos da estabilidade territorial da América Portuguesa"


RELAÇÃO COM A ECONOMIA INGLESA

"O ciclo do ouro constitui um sistema mais ou menos integrado, dentro do qual coube a Portugal a posição secundária de simples entreposto. Ao Brasil o ouro permitiu financiar uma grande expansão demográfica, que trouxe alterações fundamentais à estrutura de sua população, na qual os escravos passaram a constituir minoria e o elemento de origem europeia, maioria".


TUTELAGEM INGLESA SEGUE APÓS INDEPENDÊNCIA DE 1822

"Com efeito, se bem haja conseguido separar-se de Portugal em 1822, o Brasil necessitou vários decênios mais para eliminar a tutelagem que, graças a sólidos acordos internacionais, mantinha sobre ele a Inglaterra"

"(...) Pelo tratado de 1827, o governo brasileiro (o tratado foi firmado pelo Imperador, independentemente de quaisquer consultas às Câmaras) reconheceu à Inglaterra a situação de potência privilegiada, auto limitando sua própria soberania no campo econômico (O novo acordo não reconheceu, entretanto, tarifa preferencial à Inglaterra. Em razão de cláusula de nação favorecida, o Brasil concederia a vários outros países, posteriormente, a mesma tarifa de 15% ad valorem)"


COM O CAFÉ, RELAÇÃO COMERCIAL SE VOLTA PARA EUA

"Na medida em que o café aumenta sua importância dentro da economia brasileira, ampliam-se as relações econômicas com os EUA. Já na primeira metade do século esse país passa a ser o principal mercado importador do Brasil".


DE 1500 A 1850, POUCA ALTERAÇÃO HOUVE NA ESTRUTURA ECONÔMICA

Podemos concluir que pouca alteração houve nos 3 séculos e meio de Brasil colônia e imperial.

"O passivo político da colônia portuguesa estava liquidado. Contudo, do ponto de vista de sua estrutura econômica, o Brasil da metade do século XIX não diferia muito do que fora nos três séculos anteriores. A estrutura econômica, baseada principalmente no trabalho escravo, se mantivera imutável nas etapas de expansão e decadência. A ausência de tensões internas, resultante dessa imutabilidade, é responsável pelo atraso relativo da industrialização".


Bibliografia:

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. In: Grandes Nomes do Pensamento Brasileiro. Publifolha 2000.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Formação Econômica do Brasil, by Celso Furtado





Começo esta postagem com o poema de Camões. Os Lusíadas enaltece os feitos portugueses, mas desde aquela época, os povos originários de África, Ásia e Américas, que sofreriam as invasões e seriam colonizados, já tinham leitura clara do que significava esses povos europeus que cortavam mares nunca dantes navegados em busca de novos horizontes comerciais. Nestes versos, os mouros já alertavam sobre isso e tentavam enfrentar os invasores.

No capítulo, Celso Furtado segue contando a saga das ocupações por espanhóis, portugueses, ingleses, franceses e holandeses nas terras de América.


CANTO PRIMEIRO

78

E, entrando assi a falar-lhe, a tempo e horas
A sua falsidade acomodadas,
Lhe diz como eram gentes roubadoras
Estas que ora de novo são chegadas;
Que nas nações na costa moradoras,
Correndo a fama veio, que roubadas
Foram por estes homens que passavam,
Que com pactos de paz sempre ancoravam.

79

- "E sabe mais (lhe diz) como entendido
Tenho destes cristãos sanguinolentos,
Que quase todo o mar têm destruído
Com roubos, com incêndios violentos;
E trazem já de longe engano urdido
Contra nós; e que todos seus intentos
São para nos matarem e roubarem,
E mulheres e filhos cativarem.

80

"E também sei que têm determinado
De vir por água a terra muito cedo,
O Capitão, dos seus acompanhado,
Que da tenção danada nasce o medo,
Tu deves de ir também co'os teus armado
Esperá-lo em cilada, oculto e quedo,
Porque, saindo a gente descuidada,
Cairão facilmente na cilada.

81

"E se inda não ficarem deste jeito
Destruídos ou mortos totalmente,
Eu tenho imaginada no conceito
Outra manha e ardil que te contente:
Manda-lhe dar piloto, que de jeito
Seja astuto no engano, e tão prudente,
Que os leve aonde sejam destruídos,
Desbaratados, mortos ou perdidos."

(Os Lusíadas, Luís de Camões)


PRIMEIRA PARTE

Fundamentos econômicos da ocupação territorial

VI. Consequências da penetração do açúcar nas Antilhas

CUSTOS CONCORRENTES: MÃO DE OBRA ESCRAVA X PEQUENA PROPRIEDADE

"Surge assim uma situação completamente nova no mercado dos produtos tropicais: uma intensa concorrência entre regiões que exploram mão de obra escrava em grandes unidades produtivas, e regiões de pequena propriedade e população europeia".

De forma sucinta, o "curta metragem" é o seguinte:

Ingleses e franceses iniciam colônias de povoamento nas Antilhas e parte da América do Norte. A ideia inicial era produzir produtos não concorrentes com o açúcar brasileiro.

Com a expulsão dos holandeses do Brasil, estes levam as técnicas, escravos africanos e o dinheiro para financiar e implantar o açúcar nas Antilhas. Resultado: dançaram as pequenas propriedades locais.
Resta aos ingleses e franceses irem para a América do Norte tentar a fixação das colônias de povoamento.

Celso Furtado diz: "Tudo inutilmente. A valorização das terras provocada pela introdução do açúcar agiu inexoravelmente, destruindo em pouco tempo esse prematuro ensaio de colonização de povoamento das regiões tropicais da América".

Pouco depois, tornaram-se viáveis as colônias do norte ao exportarem gêneros alimentícios para as áreas de produção açucareira.

Outra coisa: "Casks and barrels too were needed in which to pack the sugar. These were provided from the adundant forests of Massachusetts and Connecticut". (dá-lhe acabar com as florestas norte-americanas para servir ao transporte do açúcar e demais mantimentos)

O que mais nasceu no comércio local? A indústria derivada da cana: bebidas alcoólicas.


DIFERENÇA BÁSICA ENTRE COLÔNIAS DO NORTE E DEMAIS: VALOR AGREGADO

"As colônias do norte dos EUA se desenvolveram, assim, na segunda metade do século XVII e primeira do século XVIII, como parte integrante de um sistema maior dentro do qual o elemento dinâmico são as regiões antilhanas produtoras de artigos tropicais (...) Essa separação, ao tornar possível o desenvolvimento de uma economia agrícola não-especializada na exportação de produtos tropicais, marca o início de uma nova etapa na ocupação econômica das terras americanas".

Esse avanço comercial dos colonos norte-americanos só foi possível devido à guerra civil por que passava a Inglaterra. E depois pela guerra entre ingleses e franceses. Os norte-americanos começaram a "nadar de braçadas" no comércio atlântico.

Já no século XVIII foi difícil para a Inglaterra reverter esse quadro. Se por um lado a produção em escala com mão de obra escrava era mais rentável, a de pequenas propriedades agregava mais valores distributivos e fixadores nas terras do norte.

COMENTÁRIO: 

OU SEJA, HAVIA FLUXO DE RENDA MONETÁRIA - CAPITAL INVESTIDO EM FATORES DE PRODUÇÃO QUE POR SUA VEZ RETORNAM COMO RENDA LOCAL.



MAIOR PRODUÇÃO PER CAPITA NO NORTE

"Essas colônias de pequenos proprietários, em grande parte auto-suficientes, constituem comunidades com características totalmente distintas das que predominavam nas prósperas colônias de exportação. Nelas era muito menor a concentração da renda, e as mesmas estavam muito menos sujeitas a bruscas contrações econômicas"

Observe este fato e comento em seguida: "nas colônias do norte dos EUA os gastos de consumo se distribuíam pelo conjunto da população, sendo relativamente grande o mercado dos objetos de uso comum"

COMENTÁRIO (2009): 

O que o Brasil está vivendo com o Governo de Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores é isso. O nosso país implantou uma política de crescimento interno sólida, com mais distribuição de renda, o que tem permitido que enfrentemos a crise mundial atual. Se seguirmos nessa linha de crescimento interno, onde há uma massa de 100 milhões de brasileiros ainda por acessar "o mercado de objetos de uso comum" com distribuição de renda mais equânime e com exportação desconcentrada, diversificada e de bens de valor agregado, poderemos crescer ainda umas duas décadas.

É isso!


Bibliografia:

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. In: Grandes Nomes do Pensamento Brasileiro. Publifolha 2000.