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sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

A Rosa do Povo - Carlos Drummond de Andrade



Refeição Cultural

"A doença não me intimide, que ela não possa
chegar até aquele ponto do homem onde tudo se
                                         [explica.
Uma parte de mim sofre, outra pede amor,
outra viaja, outra discute, uma última trabalha,
sou todas as comunicações, como posso ser triste?
" ("Os últimos dias", CDA)


Último dia do ano, último livro do ano (foram 57 obras lidas). Ano passado li A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1945. Que livro! Cinquenta e cinco poemas porradas. Neste mês de dezembro, reli o livro dentro de um projeto de ler toda a poesia de Drummond em ordem cronológica. Com isso, reli os 4 livros que já conhecia e José, de 1942.

Que livro! Perfeito para os tempos que correm. Drummond diz que o livro é um livro que traz características de um tempo, de uma época, tanto do poeta quanto do mundo, que vivia a mortandade da 2ª Guerra Mundial, nazismo, fascismos, Estado Novo de Vargas. Não falo que o livro é perfeito para os tempos que correm!

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"E a matéria se veja acabar: adeus, composição
que um dia se chamou Carlos Drummond de Andrade.
Adeus, minha presença, meu olhar e minhas veias
                        [grossas,
meus sulcos no travesseiro, minha sombra no muro,
sinal meu no rosto, olhos míopes, objetos de uso
          [pessoal, ideia de justiça, revolta e sono, adeus,
vida aos outros legada.
" ("Os últimos dias", CDA)

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Difícil um poeta no qual meu Eu se veja melhor nos Eu-líricos dos poemas do que Drummond. Difícil alguém que me represente mais do que Drummond e seus personagens.

RETROSPECTIVA DE LEITURAS POÉTICAS

Com a releitura de A Rosa do Povo, encerro um ano de bastante leitura de poemas. Li os 5 livros iniciais de Drummond, são 170 poemas. Agora vou pras novidades, tudo que não conheço dele em 18 livros a ler.

No começo do ano li as poesias de Bertolt Brecht. Li uma coletânea de 260 poemas publicados entre 1913-1956. Que poemas, também! Demais!

No primeiro semestre, li poemas de outros poetas modernistas - Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira. De Mário li Pauliceia Desvairada (1922) e Losango Cáqui (1926). De Oswald li Pau-Brasil (1924). De Manuel Bandeira li Libertinagem (1930). Tudo releituras.

Em agosto li Espumas Flutuantes (1870), de Castro Alves. Reli também Distraídos venceremos (1987), de Paulo Leminski.

Finalmente, li o clássico Odisseia, de Homero, em versos, na tradução do maranhense Odorico Mendes, o patriarca da transcriação.

Por fim, li vários livros de Cecília Meireles, dentro de um projeto de ler as obras poéticas completas da poeta.

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Registro feito. Repito: de tudo que li, ninguém chega perto de Carlos Drummond de Andrade em relação à identificação entre Eu-lírico e Eu mesmo.

É isso.

William


Post Scriptum: fiz uma postagem de retrospectiva cultural do ano de 2021. Foram 57 obras lidas no ano. Para ler a postagem é só clicar aqui.


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond. Nova Reunião: 23 livros de poesia - volume 1. 3ª edição - Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Ulysses - Penélope (A Cama)



Refeição Cultural

"(...) aí ele não ia acreditar no outro dia que a gente não fez alguma coisa marido tudo bem mas amante não dá pra enganar depois de eu dizer pra ele que a gente não faz mais nada claro que ele não acreditou..." (p. 1052)


Quinta-feira, 30 de setembro. Segundo ano da pandemia mundial de Covid. 

Terminei a releitura de Ulysses (1922), do escritor irlandês James Joyce. Essa experiência foi feita numa edição publicada em 2012, traduzida por Caetano W. Galindo. Foi presente do amigo Sérgio Gouveia.

A primeira vez que li este clássico da literatura mundial foi em 2001. Desta vez, a leitura foi bem melhor, aproveitei mais cada capítulo do livro. Mas foi cansativo, confesso. Foram 5 meses! Comecei a ler a obra dia 1º de maio, dia dos obreiros (rsrs). Não terminei a leitura pedindo mais. Terminei com um sentimento de missão cumprida.

PENÉLOPE (A CAMA) - CAPÍTULO 18

O último capítulo é demais, é um feito na história da literatura de todos os tempos. Setenta páginas em fluxo de pensamento, sem pontuação, a transcrição de uma pessoa pensando livremente madrugada afora, Marion Bloom, Molly. 

Por ser um monólogo interior, não tem censuras. E então lemos as coisas mais surpreendentes, escandalosas, livres que poderíamos imaginar em páginas de um livro de literatura.

Ler hoje é surpreendente, então imagino ler os pensamentos de Molly em 1922. Não à toa, há registros da época de queima de volumes do livro em alguns lugares do mundo.

"(...) ia ser muito melhor pro mundo ser governado pelas mulheres do mundo você não ia ver as mulheres saírem se matando e chacinando quando é que a gente vê uma mulher rolando por aí de bêbada que nem eles fazem ou jogando a última moedinha que têm e perdendo nos cavalos sim porque uma mulher não importa o que ela faça ela sabe quando parar claro que eles nem iam estar no mundo se não fosse a gente eles não sabem o que é ser mulher e ser mãe e como é que eles iam saber onde é que eles iam estar todos se não tivessem todos eles uma mãe pra cuidar deles..." (p. 1099)

Além de ser uma personagem livre em todos os seus atos e pensamentos, Molly pensa nas grandes questões de gênero que já se discutiam e que seriam bandeiras importantes nas lutas das causas das mulheres e dos movimentos libertários e progressistas.

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COMENTÁRIO FINAL

Essa releitura foi muito interessante. Por mais que tenhamos alguma lembrança de uma leitura feita duas décadas antes, a leitura de Ulysses foi praticamente uma leitura nova. O leitor de 52 anos é absolutamente outro leitor que aquele de 32 anos.

A tradução de Caetano W. Galindo também é muito diferente da tradução do Antônio Houaiss, edição que li na primeira vez. São diferentes, não me cabe dizer que uma é melhor que a outra.

Outro salto de qualidade nesta leitura foi aproveitar a oportunidade para ler em versos a obra referência do Ulysses de Joyce, a Odisseia de Homero. Li a tradução ("transcriação" segundo Campos) do maranhense Manuel Odorico Mendes, numa edição especial do professor Antonio Medina.

Também reli contos de Dublinenses (1914) e finalmente li Retrato do artista quando jovem (1916), a obra que introduz o personagem Stephen Dedalus, ainda jovem. Muitos críticos consideram tanto Dedalus quanto Bloom alter egos de Joyce.

SEGUIMOS LENDO OS CLÁSSICOS

Enfim, mais um clássico lido durante esta pandemia mundial de Covid. Li alguns clássicos exigentes neste ano e meio: ao Ulysses, de Joyce, somam-se: Decamerão (1353), de Boccaccio; Moby Dick (1851), de Herman Melville; O processo (1925), de Franz Kafka; e Madame Bovary (1856), de Gustave Flaubert.

Com o mundo como está, afirmo e reafirmo com muita convicção o pensamento de Italo Calvino: é melhor ler do que não ler os clássicos.

William

Um leitor


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.


domingo, 12 de setembro de 2021

Ulysses - Eumeu (O Abrigo)



Refeição Cultural

"Olhava de lado de modo amistoso para o lado do rosto de Stephen, a cara da mãe, o que não era bem a mesma coisa que o tipinho bonito traiçoeiro de sempre que elas inquestionavelmente procuravam de forma insaciável já que ele talvez não fosse desse jeito mesmo." (p. 938)


Foram necessários três dias para ler o capítulo 16 do Ulysses. Já estou cansado da leitura. Cada capítulo é do tamanho de um livro. Aliás, o anterior, que se passa no prostíbulo em meio a alucinações, teve duzentas páginas (ler postagem aqui). Já estou louco pra acabar a leitura, mas ainda tenho cem páginas do penúltimo capítulo e umas setenta do clássico monólogo interior de Molly Bloom.

Neste capítulo, eu diria que temos a representação de Ulisses e Telêmaco, personagens da Odisseia grega.

Já passa da meia-noite na Dublin de 1904 - 17 de junho -, Bloom não quis deixar Stephen sozinho, já embriagado após sua passagem pelo prostíbulo. Eles vão juntos a um abrigo onde ficam os cocheiros das carruagens-táxi da cidade. Bloom dá um jeito de fazer o rapaz comer alguma coisa e tomar um café para passar a embriaguez.

Na Odisseia homérica, Eumeu é o porqueiro de Ulisses (Odisseu), que o recebe em sua casa quando volta a Ítaca disfarçado de velho, uma magia da deusa Palas Atena. Ali no abrigo, pai e filho se encontram e planejam a forma de retomar a propriedade invadida pelos pretendentes de Penélope.

A BEBIDA ALCOÓLICA E A EXPOSIÇÃO AOS RISCOS DIVERSOS

Num certo momento, me lembrei de nossos jovens, bebendo mais do que seria o "beber socialmente", um conceito próximo a beber sem ficar alcoolizado, perder o estado de alerta e a consciência do que está fazendo. Bloom está com Stephen um pouco por causa disso, ele está meio fora de si e pode acontecer algo de ruim a ele. Tanto é que ele se envolveu em uma briga e levou um soco que o deixou prostrado no chão.

COMENTÁRIO - O ideal seria que as pessoas bebessem e parassem antes de se embriagarem e ficarem expostas aos riscos mais diversos que a bebedeira causa, riscos a si, aos outros e a eventos trágicos e sem volta. É o que eu diria às pessoas que gosto, após meu meio século de vida. Bebam, mas parem antes de perderem a consciência e ficarem expostos aos outros.

"(...) ainda assim jamais além de um certo ponto onde invariavelmente traçava um limite na medida em que isso simplesmente criava problemas de toda espécie para nada dizer de você ficar exposto à mercê dos outros praticamente." (p. 871)

A MISÉRIA DA CLASSE TRABALHADORA

Neste capítulo tem alguns momentos de clara referência à miséria em que se encontra a classe trabalhadora. Como disse em postagens anteriores, desde o início da obra vemos como pano de fundo do romance a miséria e a falta de dinheiro e recursos básicos da gente comum retratada num dia comum de um homem comum, o publicitário Leopold Bloom. Além, é claro, das críticas de Joyce às crendices de sua sociedade.

"(...) Eu bem que topava carregar uma placassanduíche só que a menina do escritório me disse que eles estão lotados pelas próximas três semanas, amigo (...) Eu não estou nem aí desde que eu consiga trabalho, até de varredor de rua." (p. 875)

É o capitalismo inglês e mundial... aos proletários, mesmo que educados, só a miséria!

"(...) A pobreza mais violenta tinha mesmo esse efeito e ele mais que conjecturava que, conquanto possuidor de grandes habilidades educacionais, ele tivesse não pouca dificuldade em pagar as contas." (p. 879)

COMENTÁRIO - O que vemos no Brasil no século XXI após um golpe de Estado que destruiu completamente a economia do país e as oportunidades da classe trabalhadora? A mesma situação dos trabalhadores do cenário de Os miseráveis do século XIX e dos trabalhadores do Ulysses, do século XX.

PATRIOTISMO: DISTRIBUIR MELHOR A RIQUEZA ENTRE OS CIDADÃOS

"(...) quero ver todos eles, concluía ele, todos os credos e raças pro rata com uma renda confortável de bom tamanho, sem nada de avaro não, coisa na casa de £300 por ano. Esse é o ponto vital em questão e é factível e ocasionaria relações mais amigáveis entre os homens. Pelo menos é essa a minha ideia, boa ou má. Eu chamo isso de patriotismo. Ubi patria, como nós aprendemos uns fumos nos nossos dias clássicos em Alma mater, vita bene. Onde você pode viver bem, é o sentido, se você trabalhar." (p. 912)

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LEITURA DOS CLÁSSICOS

Enfim, lido mais um capítulo de Ulysses. Caminhamos para o fim, para os dois últimos capítulos, mais umas duzentas páginas.

Não há que se discutir a qualidade das inovações desenvolvidas por James Joyce neste romance - são fantásticas -, mas ao ler algum romance de linguagem prosaica mais regular, a gente acaba se perguntando sobre um dos papeis da literatura, que é o prazer. 

A maior parte do romance Ulysses, com suas diversas técnicas narrativas a cada capítulo, não foi prazerosa; foi curiosa, foi desafiadora, mas pouco prazerosa.

Ler os clássicos vale a pena, repito sempre, porque a leitura tem consequências diversas em nosso ser: além do ponto de vista cultural, evoluímos do ponto de vista cerebral, físico. 

Saímos de um clássico diferentes, mesmo quando não gostamos da obra, o que não é o caso aqui. Eu gosto de Ulysses.

William


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Ulysses - Circe (O Bordel)



Refeição Cultural

Terminei o capítulo 15 de Ulysses arrepiado. Foi esquisito porque estava esgotado pela leitura de 200 páginas feita em dois dias; bunda quadrada por ficar horas sentado envolvido com as alucinações joyceanas. 

A técnica do capítulo foi a "Alucinação", segundo Joyce. E realmente foi foda transitar pelas alucinações do capítulo, que se passa em um prostíbulo, já na madrugada de 17 de junho, pós meia-noite na Dublin de 1904.

A cena que me arrepiei foi a cena da alucinação de Bloom, que viu seu filho morto (morreu aos 11 dias de vida) e que estaria com 11 anos de idade naquele dia. Bloom está na rua, ao lado de Stephen Dedalus, bêbado, meio desacordado no chão após levar um murro na cara por discutir com um policial que também estava se divertindo no prostíbulo.

"BLOOM

(Comunga com a noite) O rosto me lembra o da coitada da mãe...

(silente, pensativo, alerta monta guarda, dedos nos lábios na atitude do mestre secreto. Contra a parede escura uma figura surge lenta, um menino encantado de onze anos, um bebê trocado, raptado, vestindo um terno de Eton com sapatos de cristal e um pequeno elmo de bronze, segurando um livro. Ele lê da direta para a esquerda, inaudivelmente, sorrindo, beijando a página)

BLOOM 

(maravilhado, chama inaudivelmente) Rudy!" (p. 863)

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O CAPÍTULO 15 - ALGUNS MOMENTOS

O capítulo mescla uma miscelânea incrível de coisas. Apesar de ler pela segunda vez, e ter um aproveitamento muito melhor desta vez, diria que é impossível ler as duas centenas de páginas sem se pegar... como diria... da mesma forma que os personagens, alucinado, perdido, sem saber o que está acontecendo... sei lá o que mais eles consumiram além de Absinto, mas tudo é doido, dos personagens no prostíbulo se vai para personagens imaginários e deles para as falas e cenas dessas coisas imaginárias, coisas falam, intervêm nas cenas. A gente vai junto... mesmo sem saber o que é e o que não é... creio que alucinação deve ser assim mesmo.

Vejam alguns exemplos de momentos do capítulo. A parte com letras maiúsculas é a personagem que fala ou pensa, na escrita sem itálico. A parte em itálico é a descrição da cena ou da situação. Como são grandes alguns textos, coloco (...) pra dizer que só citei um pedaço do texto e deixei pra trás um trecho. Só reticências no fim é sinal que o texto continua.

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"SENHORA BREEN

(Ansiosamente) Sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim.

(Ela some ao lado dele. Seguido pelo cão choramingas ele caminha na direção das portas do inferno. Em uma arcada uma mulher de pé, dobrada para a frente, pés separados, mija vacalmente..." (p. 688)

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Bloom resolve seguir Stephen noite afora, pois aparenta alguma preocupação com ele. Eles já saíram da taverna meio bêbados.

"BLOOM

(...) O segundo drinque é que deixa assim. Um já basta. Pra que é que eu estou seguindo ele? Ainda assim ele é o melhor daquela turma..." (p. 690)

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Como eu disse, até as coisas e os animais se manifestam no capítulo.

"BLOOM

(Gagueja) Eu estou fazendo o bem pros outros.

(Uma revoada de gaivotas, trintarréis, eleva-se faminta do lodo do Liffey com bolos nos bicos.)

AS GAIVOTAS

Qá qé qais qolo." (p. 692)

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Agora o defunto enterrado pela manhã se manifesta:

"PADDY DIGNAM

(Com franqueza) Outrora estive empregado junto ao senhor J. H. Menton, advogado, comissionado para juramentos e declarações juramentadas, de 27 Bachelor's Walk. Agora estou defunto, hipertrofiada a parede do coração. Maus bocados. A coitada da patroa sofreu horrores. Como é que ela está aguentando? Não deixem ela ficar muito amiga daquela garrafa de xerez..." (p. 715)

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Joyce não economizou na linguagem chula. Imaginem na época da publicação!

"BLOOM

(Pondo a mão direita nos testículos, jura) Que consoantemente trate-me o criador. Tudo isso prometo fazer." (p. 714)

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Neste capítulo, vemos a expressão "homem feminil" que Kiberd atribui ao herói grego Odisseu (Ulisses), no ensaio introdutório da edição que estou lendo.

"DOUTOR DIXON

(Lê um atestado de saúde) O professor Bloom é um exemplo acabado do novo homem feminil. Sua natureza moral é simples e cativante. Muitos descobriram ser um homem querido, uma pessoa querida. Trata-se de um camarada bem esquisito no todo, retraído ainda que não fraco mentalmente no sentido médico..." (p. 737)

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Circe é o nome do capítulo. Stephen cita Circe num texto complexo e quase incompreensível (para mim). Na Odisseia de Homero, Ulisses e sua tripulação desembarcam na ilha onde vive Circe. Ela é uma feiticeira e transforma a tripulação em porcos. Após Ulisses derrotá-la com suas artimanhas, ela devolve a tripulação do herói e lhe dá instruções para eles atravessarem a ilha das sereias.

"STEPHEN

(...) Ela aceita nodos e modos tão divergentes quanto sacerdotes circundando o altar de Davi ou seja Circe ou onde é que eu estou com a cabeça altar de Ceres e a dica preciosa de Davi para seu fagotista principal sobre sua todopoderosidade..." (p. 748)

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Joyce parafraseando o personagem Hamlet, de Shakespeare, que na tragédia diz "Fragilidade, teu nome é mulher" ao observar sua mãe e seu tio. (Citei de lembrança)

"BLOOM

(...) Deveras, que sempre assim foi. Fragilidade, teu nome é casamento." (p. 796)

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E pra fechar, mais umas obscenidades do capítulo:

"O REVERENDO SENHOR HAINES LOVE

(Ergue bem alto por trás a anágua do celebrante, revelando suas nádegas peludas grisalhas e nuas entre as quais está enfiada uma cenoura) Meu corpo." (p. 853)

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COMENTÁRIO FINAL

Terminei a parte II do livro. Faltam agora 3 capítulos para terminar a epopeia de um dia comum na vida do cidadão comum Leopold Bloom pela Dublin de 1904.

Esse capítulo foi bem difícil. Mas consegui superá-lo. De certa forma, os últimos capítulos foram mais complexos que os anteriores. Faz parte. A postagem da leitura do capítulo 14 pode ser lida clicando aqui.

É isso. Seguimos lendo, exercitando o cérebro e buscando novos conhecimentos e novas culturas.

William


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.

domingo, 22 de agosto de 2021

Ulysses - Nausícaa (As Pedras)



Refeição Cultural

No sábado à noite, retomei a leitura de Ulysses. Meu hábito é ler pela manhã, mas como não foi possível, mudei a rotina de leitura. Li até umas duas horas da manhã, mas o sono me pegou no final e ficaram faltando umas dez páginas para terminar o capítulo, que deixei para o dia seguinte. 

Posso dizer que o capítulo foi um dos mais "extravagantes" até agora. Eu imagino a recepção dos leitores e da crítica daquela época em relação aos usos e costumes vigentes nos anos vinte do século XX, num mundo conservador e orientado por crenças religiosas.

O capítulo 13 traz como referência ao clássico Odisseia a personagem Nausícaa, a filha de Alcínoo e Arete, reis dos Feácios. Na odisseia homérica, a jovem princesa está com suas criadas na praia quando é surpreendida por Ulisses, que havia naufragado ali, vindo de sua longa permanência na ilha de Calipso. Nausícaa ajuda o herói, levando-o até seus pais no palácio real.

Na leitura do capítulo, vamos entender por que Joyce fez referência a Nausícaa e Ulisses (Odisseu), o nosso Leopolp Bloom irlandês.

Atenção: informo que o comentário abaixo terá spoiler do capítulo.

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JOYCE ME SURPREENDEU

O capítulo começa com moças e crianças brincando na praia ao anoitecer.

"Gerty MacDowell, que estava sentada junto de suas companheiras, absorta em seus pensamentos, olhar perdido longe na distância, era com toda a justiça o mais belo espécime da cativante feminilidade irlandesa que se pode desejar. Era declarada linda por todos que a conheciam muito embora..." (p. 553)

Joyce mescla no capítulo muita alternância de narrador. Ora é o narrador onisciente que descreve personagens e seus sentimentos, ora é o fluxo de consciência dos personagens que nos deixam ver o que eles pensam.

A jovem Gerty pensa na vida, no rapaz com quem flerta e gostaria de namorar, pensa nas decepções, sonha com amores e com o futuro na companhia de um grande amor, talvez alguém mais maduro e viril que um jovem na idade dela.

"Seu ideal de admirador não era algum príncipe encantado que depusesse um raro e fantástico amor a seus pés mas sim um homem viril com um rosto forte e tranquilo que não houvesse encontrado o seu ideal, talvez com os cabelos levemente marcados por fios grisalhos, e que a compreenderia, tomá-la-ia em seus braços protetores, a apertaria contra si com toda a força de sua profunda natureza passional para consolá-la com um beijo bem comprido. Seria o paraíso. Por alguém assim ela suspira neste ameno crepúsculo de verão." (p. 558)

Nas lembranças da jovem Gerty, o autor nos fala de novo sobre a "praga da Irlanda", a bebida alcoólica, e a jovem se lamenta pelo fato do pai não ter conseguido superar o vício do álcool. Ela se lembra inclusive das violências domésticas que sua mãe sofria. (p. 562)

Na cena da praia há um homem sentado adiante. Durante todo o tempo em que as moças e as crianças estão lá, ele também está. Com o passar do tempo, vemos que a jovem está flertando ou se mostrando para o homem, que é bem mais velho que ela. A jovem Gerty sonha longe, imagina o cara sendo o herói viril que a salvaria de seu mundo.

A cena retrata a referência à personagem Nausícaa e o herói Ulisses. Só que Joyce faz de seu personagem o oposto do de Homero, seu herói é um anti-herói, cheio de vícios humanos e sem nobreza alguma.

"Ele olhava com tamanha intensidade, tão imóvel e ele a viu chutar a bola e talvez pudesse ver as brilhantes fivelas de aço de seus sapatos se ela os balançasse assim pensativa com os dedos apontando pra baixo (...) Ele era o que importava e havia alegria em seu rosto porque o desejava por ter instintivamente sentido que ele era diferente de todos. O coração da meninamoça corria todo para ele, seu marido ideal, porque ela soube de pronto que era ele..." (p. 567)

E ao final de toda a cena entre a "meninamoça" e o homem "viril" na praia, a surpresa para o leitor:

"(...) Ah! Ela lançou-lhe um olhar no que se dobrou rápida para a frente, um patético olharzinho de protesto pio, de tímida censura sob o qual ele corou como uma moça. Ele estava recostado à rocha atrás de si. Leopold Bloom (pois é ele) está calado, de cabeça baixa, diante desses jovens olhos cândidos. Mas que monstro havia sido! De novo com isso! Uma alma pura imaculada o havia invocado e, desgraçado que era, como respondera? Um completo canalha! Logo ele! Mas havia um infinito sortimento de misericórdia naqueles olhos, também para ele uma palavra de perdão mesmo tendo ele errado, pecado e se extraviado. As mocinhas têm de contar? Não, mil vezes não. Era o segredinho deles, só deles, sós no crepúsculo ocultante e não havia quem soubesse ou contasse senão pelo pequeno morcego que voava tão delicado pelo entardecer para lá e para cá e morceguinho não fala." (p. 579)

A SURPRESA MAIOR DO CAPÍTULO

Instantes depois da cena obscena anterior, do "viril" adulto Leopold Bloom se satisfazendo atrás da rocha ao flertar com a "meninamoça" Gerty, vem a surpresa maior: Joyce nos conta que a jovem na praia é "coxa" e o pior é o comportamento de Bloom ao perceber isso: 

"(...) Ela caminhava com certa dignidade tranquila característica sua mas com cuidado e muito lentamente porque Gerty MacDowell era...

Bota apertada? Não. Ela é coxa! Oh!

O Senhor Bloom ficou olhando enquanto ela saía coxeando. Coitadinha! Por isso que ela ficou largada e as outras saíram correndo. Achei que tinha alguma coisa errada pelo jeito dela. A bela desprezada. Um defeito é dez vezes pior em uma mulher. Mas ficam educadas. Que bom que eu não sabia quando ela estava se exibindo. Diabinha assanhada mesmo assim. Não ia me importar. Curiosidade como uma freira ou uma negra ou uma moça de óculos. Aquela de olhinho apertado é delicada. Perto das regras, imagino, ficam todas sensíveis." (p. 580)

O BLOOM É O NOSSO BRÁS CUBAS

Cara, Machado nos apresentou um personagem o mais canalha possível, típico representante das elites coloniais do século XIX, meio século antes de Joyce nos apresentar o Bloom, que veremos ainda no mesmo capítulo ser um canalha de marca maior, que tem fetiches por meninas e jovenzinhas (p. 593). O personagem de Joyce é o Humbert Humbert, de Vladimir Nabokov (Lolita, de 1955).

A Eugênia de Brás Cubas

"O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza é às vezes um imenso escárnio. Por que bonita, se coxa? por que coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar para casa, de noite, sem atinar com a solução do enigma." (ASSIS, 2018, p. 109)

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COMENTÁRIO FINAL

É isso! Mais um capítulo do clássico de Joyce. Minha releitura está sendo infinitamente melhor que a primeira leitura, feita duas décadas atrás.

Amig@s leitores, imaginem o quanto o nosso Machado de Assis foi inovador, revolucionário com sua obra literária. Nosso Bruxo do Cosme Velho é um dos maiores escritores da literatura mundial. Seu alcance nunca foi maior por ser ele um autor de língua portuguesa, de um país colonial.

Confesso a vocês que esta postagem deu trabalho! Gastei um bom tempo para produzir o texto como queria.

No entanto, estive pensando a respeito das mais de duas mil postagens que tenho neste blog: elas têm que ser bem-feitas! Caso contrário, não teriam sentido. 

Diariamente, algumas dezenas de pessoas chegam aos meus textos procurando alguma informação ou conhecimento. Fazer textos bem-feitos e compartilhar conhecimento ou opiniões é uma questão de respeito com os leitores e com a verdade.

Abraços,

William


Bibliografia:

ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. 1ª ed. São Paulo: Panda Books, 2018.

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.


sábado, 14 de agosto de 2021

Ulysses - Sereias (A sala de concertos)



Refeição Cultural

Retomei a leitura de Ulysses, de James Joyce, na tradução de Caetano W. Galindo. Hoje li o capítulo 11, foram 50 páginas.

A leitura foi difícil, mais que a de outros capítulos. O pessoal está bebendo num local e cantando. Joyce nos faz perceber o quanto é complicado entender tudo que pessoas bebendo falam. As palavras ficam pela metade, as frases não se concluem etc.

Cenas literárias

BLOOM PUBLICITÁRIO

Bloom, que é publicitário, observa um cartaz na porta de entrada do ambiente, uma propaganda de marca de cigarro:

"(...) o sábio Bloom olhava na porta um cartaz, sereia estirada fumando onde as ondas são belas. Fume Sereia, a mais refrescante tragada." (p. 440)

ALITERAÇÕES

"O calvo Pat que é mouco mitrava os guardanapos. Pat é um garçom ruim das oiças. Pat é um garçom que só serve para servir. Rii rii rii rii. Ele serve para servir. Rii rii. Um servo só serve. Rii rii rii rii. Ele só serve para servir. Serve para servir como um serve que serve. Rii rii rii rii. Ro! Servir como um servo." P. 464)

OUVIR O BARULHO DO MAR NAS CONCHAS

Eu já tive uma concha gigante e vivia ouvindo o barulho do mar dentro dela, ao colocar o ouvido.

"Bloom pela porta do bar viu uma concha segurada em seus ouvidos. Ouviu mais vagamente o que ouviam elas, cada uma por si própria só, e então cada uma pela outra, ouvindo o marulho das ondas, alto, um rugido silente." (p. 464)

COM O FILHO MORTO, ÚLTIMO VARÃO DE SUA RAÇA

"Eu também, último da minha raça. Milly estudante. Bom, culpa minha quem sabe. Sem filho. Rudy. Tarde demais agora. Mas e se não? Senão? Se ainda?" (p. 469)

BLOOM AVALIA SE...

"Uma puta rançosa com um chapéu de marinheiro de palha preta enviesado vinha lustrosa dia afora cais adentro na direção do senhor Bloom. Quando primeiro viu aquela forma encantadora. É, é ela. Estou tão só. Noite úmida na alameda. Duro. Quem estava? Unzurro. Aí ó. Fora da jurisprudência dela por aqui. O que é que ela? Espero que ela. Psst! Por acaso precisa de roupa lavada. Conhecia a Molly. Me derrubou. A senhora cheinha que estava com você com a roupa marrom. Te pega no contrapé. Aquele encontro que a gente marcou. Sabendo que nós nunca, bem, quase nunca. Perto demais do meu caro demais o meu lar doce lar. Está me vendo, ou não? Feia de dar medo à luz do dia. Rosto de patê. Dane-se! Ah, bom, ela tem que viver que nem todo mundo. Olhar aqui pra dentro." (p. 476)

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Havia parado a releitura do Ulysses porque a ideia era ler junto com o meu amigo que me presenteou a edição traduzida por Galindo. Como meu amigo não vai conseguir ler agora e eu já havia lido bastante, vou até o fim do clássico.

A sugestão de ler o principal clássico de Joyce foi muito produtiva para mim. Por causa da releitura, acabei lendo Odisseia em versos, na tradução de Odorico Mendes, e li também Retrato do artista quando jovem (1916), o livro anterior a este e que retrata o personagem Stephen Dedalus na infância e adolescência.

É isso. Seguimos lendo e dando algum sentido à vida neste momento tão sem sentido da história humana. O homem está acabando com a possibilidade de vidas no planeta e não me parece que algo vá deter isso.

William



Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Lendo Espumas Flutuantes, Castro Alves



Refeição Cultural

Hoje comecei um novo projeto de leitura de poesias em voz alta. Agora vou ler os poemas de Espumas Flutuantes (1870), de Castro Alves. 

A leitura é feita diariamente, alguns poemas por dia, de forma declamada, e depois escolho um e declamo em vídeo. Calculo ler o livro em onze dias. São 55 textos, incluindo o prólogo e a dedicatória, em forma de poesia também.

No início da pandemia mundial de Covid-19, em 2020, fiz a leitura em voz alta do livro de Drummond, A Rosa do Povo (1945). Foi uma experiência muito interessante! A obra teve muita sintonia com o momento histórico que vivemos. Isso me envolveu muito na leitura.

CALIBRANDO O CÉREBRO PARA LER POESIAS

Para ler poesias o primeiro passo é acertar o foco mental no estilo de poesia que vamos ler. 

Isso às vezes é necessário porque senão lemos como se não estivéssemos lendo nada... palavras, palavras, palavras... como diria Hamlet.

Sair de uma leitura de poesia épica como Odisseia (Homero) na tradução do maranhense Odorico Mendes para uma poesia romântica de Castro Alves requer uma adaptação das ondas mentais. 

A leitura em voz alta contribui para essa "calibragem" da leitura de poesia porque podemos ouvir e acertar a cadência ideal, aqueles ensinamentos que aprendemos sobre ritmo, pausas, tom de voz etc.

Enfim, comecei a conhecer o poeta brasileiro Castro Alves. Daqui a onze dias saberei um pouquinho mais que hoje, serei menos ignorante nessa lacuna cultural.

Li o "Prólogo", a "Dedicatória", "O Livro e a América", "Hebreia" e "Quem Dá aos Pobres Empresta a Deus". 

Escolhi fazer o vídeo do "Prólogo" (ver aqui), mas gostei bastante do poema sobre o livro. Quem sabe depois eu grave vídeo dele também.

É melhor ler os clássicos do que não ler os clássicos, como nos ensina o escritor italiano Italo Calvino.

William


Bibliografia:

ALVES, Castro. Espumas Flutuantes. O Estado de São Paulo/Klick Editora, 1997.


sexta-feira, 16 de julho de 2021

33. Odisseia - Homero



Refeição Cultural - Cem clássicos

Completei a leitura de mais uma obra da literatura clássica mundial, Odisseia, atribuída ao aedo Homero. Foi uma leitura engajada e eu a realizei de forma bem satisfatória, haja vista que a linguagem não é uma linguagem comum.

Essas postagens dos "cem clássicos" são postagens que estou fazendo aos poucos para avaliar o que já avancei no sonho, porque tenho um sonho antigo, quase da adolescência, em ler uma centena de obras clássicas da produção cultural do mundo. 

Já postei 33 obras, mas não quer dizer que só li essa quantidade. Alguns clássicos lidos ainda serão anotados aqui no blog. Sem contar que os critérios definidos para considerar uma obra "clássica" serão arbitrariamente definidos pelo autor do blog, eu mesmo.

Meu primeiro contato com a Odisseia foi em 2001, ano em que comecei a estudar na Universidade de São Paulo. Vejam como as coisas foram tardias para mim no mundo dos clássicos. Entrei na Faculdade de Letras da USP aos 32 anos. Para acompanhar as aulas de Literatura Grega no ciclo básico era urgente ler o clássico de Homero.

Minha edição em prosa da Odisseia foi da editora Cultrix, na tradução do professor Jaime Bruna, da USP. Eu a adquiri logo que comecei o curso. Tenho até a notinha dentro do livro. Paguei 19 reais no dia 18/4/01. Anotei no livro que terminei a leitura em julho daquele ano. Posso dizer que foi um dos primeiros clássicos que li ao entrar na universidade.

Agora, duas décadas depois, vivi a experiência de reler o clássico, e posso dizer que praticamente senti a sensação de ser a primeira leitura porque eu não me lembrava de quase nada.

Li a Odisseia, na tradução de Manuel Odorico Mendes, numa edição especialíssima da Edusp, a cargo do professor Antonio Medina Rodrigues. Eu tive o privilégio de ser aluno do Medina e nunca - nunca - me esqueci das aulas dele na FFLCH. O cara era demais! Ele interpretava os deuses e suas sacanagens gesticulando em sala de aula. Algumas alunas ficavam vermelhas de vergonha (rsrs). Professor Medina, presente!

A leitura atual foi num contexto completamente diferente em relação à primeira leitura da epopeia homérica. Antes, iniciava um curso de Letras, agora sou um ex-bancário de banco público retirado das lides sindicais, lendo em casa num contexto de pandemia mundial de Covid-19.

O blog tem postagens a respeito da leitura caso alguma pessoa se interesse em ler.

Anoto por fim o projeto mental que acabei projetando a partir da leitura deste clássico grego em versos odoricianos. Vou ler na sequência, nessa trilha clássica, a Ilíada e a Eneida, ambas traduzidas por Odorico Mendes. Já as tenho. Depois vou ler A divina comédia, de Dante e, por fim, vou reler Os Lusíadas, de Camões. Um belo projeto de leitura, né não?

Assim como Medina e Haroldo de Campos, gostei muito da "transcriação" de Odorico Mendes. A edição do Medina traz um texto de Campos - "Odorico Mendes: o patriarca da transcriação" e traz apresentação e prefácio com diversos estudos do professor Medina: é uma obra à parte, diga-se de passagem. Explicações magníficas, inclusive sobre traduções.

Enfim, missão cumprida! Mais um clássico lido e mais projetos de leituras a realizar.

Leiam os clássicos!

William


Odisseia (Homero) - O fim (XXII a XXIV)



Refeição Cultural

"Na sala, circunspecto, ele examina
Se inda algum respirava, e em pó sangrento
Jaziam todos: qual a praia curva
Arrasta a malha os peixes, que, empilhados
Na areia, mudos cobiçando as vagas,
À luz do Sol em breve o alento exalem,
Tais os procos ali se amontoavam." (LIVRO XXII, v. 281-287, p. 365)


(esta postagem contém spoiler do final da Odisseia, alerta para quem não conhece ainda a história)


Finalizei a leitura dos últimos três livros da Odisseia, de Homero. Foram 75 dias de convivência com as desventuras de Ulisses, de Telêmaco, de Penélope, da deusa Palas (Minerva) e dos diversos personagens que constam nesta epopeia grega.

No livro XXII, conheci a ira de Ulisses (já havíamos ouvido falar da ira de Aquiles). A vingança do herói foi implacável em relação aos pretendentes de Penélope, que consumiam os rebanhos e patrimônio da família. Ele não perdoou sequer as servas que se relacionaram com os invasores. As cenas são dignas de um filme de Tarantino.


No livro XXIII, vemos o reencontro de Ulisses e Penélope. A deusa Palas até adia a chegada do dia, retardando a carroça com os ginetes que trazem o sol pela manhã... A Aurora dedirrósea...

"   Ele com isto em lágrimas rebenta,
Mais ao peito cingindo a casta esposa.
Da praia quando à vista os naufragados,
Por Netuno e por vagas sacudidos,
Poucos no vasto pélago nadando,
Sujos da maresia, à morte escapam,
Não têm maior prazer do que a rainha
Teve ali. Não despega os alvos braços
Do colo do consorte; e a ruiva Aurora
Os encontrara, se não fosse Palas:
A olhicerúlea, prolongando as sombras,
No Oceano a retinha em áureo trono,
Sem que até ao coche alípedes ginetes
Lampo e Faéton, que a luz no mundo espalham.
" (LIVRO XXIII, v. 174-187, p. 377)

Ainda neste livro XXIII temos uma espécie de resumo dos eventos que vimos ao longo da epopeia de Odisseu, nos versos 236 a 262.


No último livro, XXIV, vemos as almas dos pretendentes mortos chegarem ao Hades, e lá encontram outros heróis e guerreiros mortos na Guerra de Tróia. 

Ao ouvir sobre a vingança de Ulisses, narrada pela alma de Anfimédon, Agamêmnon se admira de Penélope, que foi fiel ao esposo enganando os pretendentes por 3 anos, fazendo e desfazendo a mortalha que tecia. Lembrando que Agamêmnon foi morto na traição, por sua esposa Clitemnestra e o amante.

"   Grita Agamêmnon: 'Venturoso Ulisses,
Possuis mulher de uma virtude rara!
Do varão que pudica amou primeiro
Nunca olvidou-se; obtém perene glória,
Que hão de inspirados celebrar cantores.
" (LIVRO XXIV, v. 155-160, p. 388)

Ulisses ainda reencontra seu pai, Laertes, e juntos - avô, pai e filho - enfrentam a fúria dos familiares dos pretendentes mortos por Ulisses. Mas os deuses não permitem que a guerra civil se inicie em Ítaca e atuam para impor a paz.

Termina assim a odisseia de Ulisses, após vinte anos de desventuras para retornar a sua Ítaca, esposa e filho, após os gregos vencerem os troianos.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


quinta-feira, 15 de julho de 2021

Odisseia (Homero) - Antes do massacre dos pretendentes e desafio do arco



Refeição Cultural

"Teoclimeno a vozes profetiza:
'Misérrimos, que noite vos rodeia
De alto a baixo! Que lúgubre ululado!
Estou já vendo lagrimosas faces,
Em sangue estas paredes e estes postes,
Cheio o vestíbulo e a brilhante sala
De espectros, que ao profundo Erebo descem!
Morre o Sol, e se esparge e adensa a treva!'" (LIVRO XX, v. 280-287, p. 342)


A leitura dos livros XX e XXI da Odisseia, de Homero, foi muito prazerosa. Não tive dificuldades com os decassílabos de Odorico Mendes. 

As notas do professor Medina auxiliam muito os leitores pouco familiarizados com a linguagem e com as referências históricas.

No início do Livro XX, Medina comentou: "Os antigos chamavam este livro simplesmente de 'Antes do Massacre dos Pretendentes'...". (p. 333)

Já no início do Livro XXI, Medina diz: "Este livro nos põe diante da célebre prova do arco, que antecipa o massacre dos pretendentes e que para Austin é o centro de todo aquele processo de autoconhecimento representado na Odisseia..." (p. 345)


O DESAFIO DE PENÉLOPE

"Vós que, pretexto de esposar-me, ausente
Meu marido, estragais toda esta casa,
Ouvi-me. O arco eis aqui do nobre Ulisses,
E eu proponho um certame: quem mais fácil
O atese e freche atravessando os olhos
Das machadinhas doze, hei de segui-lo
Da conjugal estância, farta e bela,
Da qual me lembrarei té nos meus sonhos'.
" (LIVRO XXI, v. 51-58, p. 347)


Faço só mais uma citação deste Canto, a da humilhação de um dos pretendentes, Eurímaco:

"   O arco Eurímaco ao lume aquenta e vira,
Mas nem sequer o verga; no orgulhoso
Peito suspira, e suspirando fala:
'Ai de mim e dos mais! Bem que as deseje,
Não choro as núpcias, que Ítaca e outras ilhas
Têm muitas belas; choro a clara prova
De superar-nos tanto o grande Ulisses:
Oh! Futuro desdouro!'...
" (CANTO XXI, v. 179-186, p. 350)


É isso! Os últimos três livros trarão o desfecho dessa epopeia homérica. Quem tiver interesse em ler a postagem anterior, é só clicar aqui. Quem tiver interesse em ver um vídeo onde comento essa leitura dos livros XX e XXI é só clicar aqui.

Abraços! Leiam e salvem seus cérebros e a essência do homo sapiens.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


quarta-feira, 7 de julho de 2021

Odisseia (Homero) - Ulisses reconhecido pela ama



Refeição Cultural

"   Palpando, a cicatriz conhece a velha,
Nem pode o pé suster; cai dentro a perna,
E a bacia retine e se derrama,
Dor a assalta e prazer; nos olhos água,
Presa às faces a voz, lhe afaga o mento,
E balbucia enfim: 'Tu és, meu filho,
És Ulisses; depois que te hei palpado,
Ora por meu senhor te reconheço'.
" (LIVRO XIX, v.354-361, p.328)


Leitura dos livros XVIII e XIX da epopeia, vimos cenas clássicas como a do encontro de Ulisses com sua ama, que o reconheceu ao tocar a cicatriz da ferida no joelho, feita por um javali quando ele ainda era uma criança.

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Também vemos o encontro de Ulisses com Penélope, vinte anos depois. Ela não o reconhece porque a deusa Minerva o disfarçou num velho forasteiro para que ele consiga realizar sua vingança, matando os inimigos em sua casa e retomando suas posses.

"   À pressa o escano de tosões coberto,
Lhe trouxe a velha; ao divo herói sentado
Penélope interroga: 'Hóspede, vamos,
Quem és? De que família? De que pátria?'
" (LIVRO XVIII, v.76-79, p. 320)

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Outra cena antológica é a que se conta o estratagema de Penélope que tece e desfaz o manto para enrolar os pretendentes que querem desposá-la. A estratégia dela dura três anos, mas depois ela tem que terminar a confecção da mortalha. Ela conta isso ao velho hóspede, que na verdade é Ulisses.

"Saudosa a prantear consumo a vida!
Urgem-me os procos, e eu maquino enganos.
Um gênio me inspirou tramar imensa
Larga teia delgada, e assim lhes disse:
'- Amantes meus, depois de morto Ulisses,
Vós não me insteis, o meu lavor perdendo,
Sem que do herói Laertes a mortalha
Toda seja tecida, para quando
No sono longo o sopitar o fado:
Nenhuma Argiva exprobre-me um funéreo
Manto rico não ter quem teve tanto.' -
A diurna obra desfazia à noite,
E os entretive ilusos por três anos;
Mas, gastas luas e horas, veio o quarto,
E então, por traça de impudentes servas
Apanhando-me, encheram-me de afrontas,
E a concluir a teia me forçaram.
" (LIVRO XVIII, v. 103-119, p. 321)

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Nestes versos abaixo, vemos a origem do nome do herói Ulisses, dado a ele por seu avô materno Autólico.

"   Veio Autólico a Ítaca ubertosa
De seu neto ao nascer; e, mal cearam,
Põe-lhe o infante aos joelhos Euricléia:
'Tu o almejavas tanto, agora inventa
Um nome ao filho da querida filha'.
    Disse o avô: "Genro meu, minha Anticléia,
Eu ressentido contra muitos venho
De um e outro sexo na selvosa terra;
Um nome lhe imporei, chama-se Ulisses,
Crescido, a casa a visitar materna,
Vindo ao Parnaso, onde as riquezas tenho,
Hei de brindá-lo e despedir contente'.
" (LIVRO XIX, v. 306-317, p. 327)

Sobre o significado do nome, o tradutor Odorico Mendes fez nota explicando ao leitor:

"O nome Ulisses ou Odisseus vem do verbo odýssö, 'irar-se'. Querem muitos que a história da ferida, a qual vai seguindo, seja uma interpolação. Pode ser que haja acrescentamentos; porém, Homero, em ambos os seus poemas, não perde ocasião de contar-nos sucessos ainda mais longos, e estes, interessantes como pertencentes ao seu herói, é provável que os não quisesse omitir." (Nota 309-312, p. 327)


Enfim, foram dois livros ou cantos com episódios bem clássicos da Odisseia.

Estamos chegando ao fim de mais um clássico da literatura mundial.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


segunda-feira, 5 de julho de 2021

Odisseia (Homero) - De volta a Ítaca (XV a XVII)



Refeição Cultural

"   Aqui, deitado um cão, de orelhas tesas
A cabeça levanta, Argos tem nome:
Hoje langue, e o nutria o próprio Ulisses,
Antes que se embarcasse. Costumava
Lebre caçar e corças e veados;
Ora de bois e mus no esterco o deixam,
Que às portas se amontoa, enquanto os servos
Para estrume da lavra o não carregam.
Jazia ali de carrapatos cheio,
E meigo, assim que a seu senhor fareja,
As orelhas bulindo, agita o rabo;
Mas não pôde acercar-se. O bom Laércio
Uma lágrima enxuga às escondidas,
E questiona o pastor: 'Um cão tão belo
Pasmo que esteja, Eumeu, nesse monturo;
Talvez, com tanto garbo, ágil não fosse,
E à mesa por formoso é que o tratavam'.
(...)
    Argos nesse momento, após vinte anos
Seu dono a contemplar, morreu de gosto." (LIVRO XVII, v.213-229 e 241-242, p. 295-296)


A cena do encontro do cão Argos com seu dono, Ulisses, é de chorar. Na hora nos lembramos do cão da raça akita, Hachiko, da história de amizade entre o cachorro e seu dono. A Odisseia, de Homero, é tudo isso, é a referência clássica para diversas cenas reais e das narrativas ficcionais nos últimos 2800 anos.

No Livro XV, voltamos a ver o jovem Telêmaco, que abriu a epopeia nos primeiros quatro livros - a "Telemaquia". Vendo sua casa e patrimônio serem dilapidados pelos varões de Ítaca, que queriam desposar sua mãe, Penélope, o filho de Ulisses saiu em busca de informações sobre o pai nos primeiros cantos da epopeia.

Neste momento em que estou da leitura da Odisseia, Ulisses finalmente chegou a sua amada Ítaca, 20 anos depois de terminada a Guerra de Troia. Apoiado pela deusa Minerva, ele está disfarçado de velho e chega a sua casa para avaliar os intrusos e as condições para derrotá-los e retomar seu reino.

Cito abaixo, uma nota explicativa do professor Medina, a nota 1 do Canto XVII, que explica esta parte da epopeia.

"Este livro XVII é propriamente a narrativa da Volta de Ulisses a seu palácio. Embora a cena inicial seja recapitulativa e acessória, o desenvolvimento deste livro tem as mesmas grandes qualidades dos livros XIII e XIV. Ulisses e Eumeu vão para a cidade, encontram a fonte onde está o altar das ninfas, topam com o insolente servidor Melântio; depois, a chegada ao palácio, com o admirável episódio do cão Argos, que reconhece o dono, depois a cena em que Ulisses passa a mendigar de mesa em mesa, e amaldiçoa Antino. A resposta que Ulisses manda dizer a Penélope, através de Eumeu, faz com que haja íntima união entre este livro e o décimo nono, onde a conversa dos cônjuges realmente se realizará." (MEDINA, Nota 1 ao LIVRO XVII)

Caminhamos para os momentos finais dessa epopeia homérica.

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TRILHA CLÁSSICA

Meu planejamento de leitura nesta linha de clássicos antigos já está definida em minha mente. Terminando a Odisseia, vou ler a Ilíada, também na tradução em versos de Odorico Mendes. Um livro conta a Guerra de Troia e a "Ira de Aquiles" e o outro a volta atribulada de um dos heróis gregos - Odisseu, rei de Ítaca.

Depois da Ilíada, vou ler a Eneida, de Virgílio. Consegui adquirir a tradução de Odorico Mendes. Após a Guerra e a destruição de Troia, após acompanhar as desventuras de Odisseu (Ulisses na forma latina), vou ler a epopeia de Eneias, troiano sobrevivente que iria fundar uma nova civilização, Roma e o Império Romano.

Por fim, lida essa sequência clássica, vou fechar a trilha com a leitura de A divina comédia, de Dante Alighieri. Nela, o próprio autor da Eneida, o poeta Virgílio, guia Dante pelos mundos do além-túmulo. Até hoje, só li o "Inferno". Não segui na leitura do livro.

É isso, espero que os deuses e a Fortuna me permitam viver os próximos meses para empreender essa trilha literária clássica. Parte da cultura ocidental dos últimos 3 mil anos provém dessas obras e desses autores.

Alguém topa fazer esse roteiro de leitura?

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Na outra trilha clássica, estou na releitura de Ulysses, de James Joyce. Após Joyce, vou ler As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, e Robinson Crusoe, de Daniel Defoe. Dessa trilha, li recentemente Moby Dick, de Herman Melville. 

Lembrando o final do clássico texto de Italo Calvino sobre "Por que ler os clássicos", ele nos ensina que "é melhor ler do que não ler os clássicos".

Seguimos lendo...

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


sexta-feira, 2 de julho de 2021

Odisseia (Homero) - Ulisses acolhido pelo servo Eumeu (XIV)



Refeição Cultural

"E o Satúrnio o proteja. Ora me explanes
Quem és, de que família, de que terra,
Os infortúnios teus; que exímios nautas
E em que navio aqui te conduziram?
A Ítaca não creio a pé viesses.'
    Começa Ulisses: 'Narrarei sincero.
Se de espaço a lograr teu vinho e pasto,
Incumbido o serviço a outros sendo,
Fôssemos nesta choça, inda que um giro
Decorresse anual, não me era fácil
Expor as penas que infligiu-me a sorte.
" (LIVRO XIV, v. 145-155, p. 251)


Retomando a leitura da clássica epopeia de Homero, Odisseia, vemos agora o herói Ulisses de volta a sua amada Ítaca. Estamos na segunda parte da epopeia.

Ulisses foi trazido a Ítaca pelos Feácios. A deusa Minerva (Palas Atena) modificou a aparência do herói para que ele se pareça com um velho. Assim ele pode executar sua missão de chegar até a casa de sua amada Penélope, matar os inimigos e retomar suas posses.

O velho foi acolhido por Eumeu, servo de Ulisses que cuida de seus porcos. Após a tradição ser cumprida - o hóspede ser alimentado, agasalhado e bem recebido - o servo ouve a história da origem e andanças do estranho.

Agora vamos para o Livro ou Canto XV, e nele voltaremos a encontrar o jovem Telêmaco, que vimos lá nos quatro primeiros cantos, na "Telemaquia".

Para a leitura da postagem anterior, clicar aqui.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


quinta-feira, 17 de junho de 2021

Ulysses - Cila e Caríbdis (A Biblioteca)



Refeição Cultural

"- Os nossos jovens bardos irlandeses, John Eglinton censurou, ainda têm que criar uma figura que o mundo ponha lado a lado com o Hamlet do saxão Shakespeare embora eu o admire, como o velho Ben admirava, sem chegar à idolatria" (p. 337)

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"- Os mestres primeiro foram aprendizes, Stephen disse ultraeducadamente. Aristóteles foi um dia o aprendiz de Platão." (p. 338)

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"    Hamlet, sou o espírito de teu pai

pedindo que escute. A um filho se dirige, o filho da sua alma, o príncipe, o jovem Hamlet e ao filho do seu corpo, Hamnet Shakespeare, que morreu em Stratford para que seu outro pudesse viver para sempre." (p. 342)

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"Poderá qualquer homem amar a filha se não amou a mãe? (p. 352)

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"- Pode ser também, Stephen disse. Há uma frase de Goethe que o senhor Magee gosta de citar. Cuidado com o que deseja na sua juventude porque você vai obtê-lo quando maduro." (p. 353)

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"Ele Que a Si próprio gerou, por intermediário o Espírito Santo, e Ele mesmo mandou a Si mesmo, Agenbuyer, entre Si próprio e os outros, Que rebaixado por Seus inimigos, desnudado e verberado, foi pregado qual morcego à porta do celeiro, morreu de fome à arvore-cruz, Que deixou-se enterrar, levantou, devastou o inferno, vagou aos céus e lá por estes mil e novecentos anos senta-se à direita de Sua Própria Pessoa mas contudo virá no último dia para danar os vivos e os mortos quando todos os vivos hão já de estar mortos.

        Glo-o-ri-a in ex-cel-sis De-o" (p. 354)

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"(...) Mas sabemos por alta autoridade que os piores inimigos de um homem serão os da sua própria casa e da sua própria família." (p. 366)

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"(...) O que há em um nome? Isso é o que nos perguntamos na infância quando escrevemos o nome que nos dizem ser o nosso." (p. 370)


Este capítulo de Ulysses, o capítulo 9, que se passa na biblioteca, nos apresenta Stephen Dedalus e demais personagens conversando a respeito da vida e obra de William Shakespeare. Eles falam principalmente a respeito de Hamlet.

A obra de James Joyce é toda permeada de intertextualidades e referências a outras obras literárias, principalmente a Odisseia, de Homero.

Shakespeare foi casado com Anne Hathaway e eles tiveram três filhos. A morte de seu filho homem, Hamnet, aos 11 anos de idade, abalou profundamente o poeta e dramaturgo inglês.

Dedalus desenvolve sua tese sobre Shakespeare e Hamlet neste capítulo. Lá no primeiro capítulo, ouvimos a respeito:

"- Qual é a sua ideia sobre o Hamlet? Haines perguntou a Stephen.

(...)

- Bah! Buck Mulligan disse. Nós já deixamos Wilde e os paradoxos pra trás. É bem simples. Ele prova algebricamente que o neto de Hamlet é avô de Shakespeare e que ele mesmo é o fantasma do próprio pai." (p. 116)

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Venci a leitura de mais um capítulo de Ulysses.

Post Scriptum: ainda curioso sobre Hamnet, o filho de Shakespeare, fui ler a história sobre ele. As coisas não são coincidência em uma obra literária. Não são. Aprendi isso desde que estudo literatura. 

Joyce interliga tudo. O filho varão de Leopold Bloom morreu criança e ele teria 11 anos se estivesse vivo em 16 de junho de 1904 (informação na pág. 179). A mesma idade na qual morreu o filho de Shakespeare. Rudy e Hamnet. Filhos varões mortos. Difícil imaginar tamanha dor! A ausência dos filhos falecidos.

William


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.


quarta-feira, 16 de junho de 2021

Bloomsday, 16 de junho



Refeição Cultural

Hoje é quarta-feira, 16 de junho. Essa data é considerada o Bloomsday para os irlandeses e para o mundo da cultura e da leitura também. A epopeia do personagem Leopold Bloom pela Dublin de 1904 se passa numa quinta-feira, 16 de junho.

Sou um dos leitores do mundo que teve a oportunidade de ler o romance Ulisses, de James Joyce. Na época, li uma edição com tradução de Antônio Houaiss. Li quando tinha pouco mais de trinta anos de idade. A leitura foi difícil, foi exigente, pois a linguagem literária é bastante experimental. Foi um feito em minha modesta vida de leitor.

Agora, após os cinquenta anos de idade, estou relendo Ulysses, desta vez numa tradução diferente, de Caetano W. Galindo. A leitura se dá em um contexto interessante. Meu amigo Sérgio Gouveia decidiu ler a obra e me convidou para lermos juntos. Legal a ideia! 

Como no meio do caminho tinha uma pedra, ainda não conseguimos sintonizar a leitura. Eu acabei lendo muito rápido no começo e agora vou mais devagar. Como leio muitos livros ao mesmo tempo, vamos de boa, curtindo cada momento do dia de Leopold Bloom (Bloomsday).

Eu já estou nos acontecimentos das 14 horas, "Cila e Caríbdis". Li até agora os capítulos "Telêmaco" (8h), "Nestor" (10h), "Proteu" (11h), "Calipso" (8h), "Lotófagos" (10h), "Hades" (11h), "Éolo" (12h), "Lestrigões" (13h). Joyce faz um esquema do Ulysses com diversas características em cada capítulo. Ver aqui a postagem mais recente.

ODISSEIA (HOMERO)

Uma estratégia bem interessante que adotei desta vez ao ler a epopeia de Leopold Bloom pela Dublin de 1904 foi ler ao mesmo tempo a Odisseia, em versos, de Homero. Eu só tinha lido em prosa a epopeia de Odisseu (Ulisses é o nome latinizado de Odisseu). Joyce cria sua epopeia moderna fazendo paralelos com a epopeia clássica de Homero.

Enfim, se não fosse a leitura, a literatura, a cultura, eu não sei como conseguiria lidar com esses dias que estamos enfrentando no Brasil, um país destruído após um golpe de Estado e dominado pela banalidade do mal.

Amigas e amigos leitores, se puderem, leiam diariamente, incluam momentos de leitura em suas vidas. Vocês estarão fazendo um bem para si mesmos e também estarão salvando a humanidade, e a parte da humanidade com cultura pode salvar o planeta Terra e todas as formas de vida.

William

domingo, 6 de junho de 2021

Odisseia (Homero) - Ulisses chega a Ítaca (XIII)



Refeição Cultural

"Adormecido Ulisses desembarcam,
Nas mesmas colchas e lençóis envolto;
À sombra da oliveira os dons colocam,
À larga obtidos por mercê de Palas,
Fora da estrada, a fim que não lhos toque,
Antes que ele desperte um viandante,
Isto acabando, para a Esquéria voltam.
" (LIVRO XIII, v. 86-92, p. 239)


Finalmente, Ulisses chega a Ítaca, trazido pelos Feácios. As notas da edição que tenho são muito legais. O professor Medina nos explica que este Livro XIII da epopeia equivale ao início da segunda parte da Odisseia

"Calam-se todos: refere-se ao final da narração de Ulisses, contida nos livros IX-XII, feita para Alcino, e que conta os fatos que lhe haviam ocorrido desde a saída de Tróia até sua chegada à ilha de Calipso. O que lhe vai ocorrer depois, ou seja, o período que vai desde esta chegada até sua boa acolhida entre os Feácios é algo que já foi narrado por Ulisses a Alcino e Areta no fim do livro VII. O livro XIII se distingue totalmente dos anteriores e dá de fato início à segunda parte da Odisseia, onde a ação se desenvolverá de maneira bem mais lenta. Ulisses, uma vez acabado seu 'romance de aventuras', é novamente focalizado na corte de Alcino, e o rei dos Feácios vai preparar agora a viagem de volta do herói a Ítaca. Ora, tanto a viagem como o sonho de Ulisses lembram novamente uma profunda experiência dos limites do homem, arrematada simbolicamente com a transformação do navio dos Feácios num rochedo (daí por diante Atena se faz mais presente); Alcino pode ser, pois, entendido como o rei barqueiro que conduz as almas à ilha dos Bem-Aventurados, sendo, pois, todo episódio dos Feácios considerado como um poema escatológico." (Nota 1, LIVRO XIII, p. 235, Antonio Medina)

Outras duas partes deste livro (ou canto) merecem destaque: a polêmica acerca da possibilidade de se desembarcar dormindo o nosso herói ou não e a deusa Pala mudando a aparência de Ulisses para que ele consiga alcançar sua casa e realizar a sua vingança contra os homens que lá estão há 3 anos dilapidando seu patrimônio e querendo sua esposa.

Os Feácios desembarcam Ulisses dormindo. O tradutor Odorico Mendes faz uma nota muito interessante, discutindo a posição de Aristóteles, que afirma na Poética que há inverossimilhança nesta questão. É fantástico! 

Leio dois séculos depois da tradução da Odisseia para o português um debate entre o maranhense Odorico Mendes (XIX) e Aristóteles (século V a.C.) sobre uma obra de alguns séculos antes da vida do filósofo, a Odisseia é do século VIII a.C.

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"Adormecido Ulisses desembarcam,
Nas mesmas colchas e lençóis envolto;
" (v. 86-87)

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NOTA DE ODORICO MENDES

"Na opinião de Aristóteles, seria esta inverossimilhança intolerável, se as belezas do estilo não fizessem esquecer a pequenez da invenção. Sem embargo da sentença do oráculo da Antiguidade, faria algumas observações a favor do poeta. A inverossimilhança consiste em desembarcarem a Ulisses dormindo sem que ele despertasse. Advirta-se, porém, que depois de quebrar-se o navio onde longamente padeceu, depois de nadar quase três dias com o auxílio da cintura de Leucotéia, depois de escalavrar as mãos nos rochedos, ainda não tinha assaz reparado as forças perdidas: o sono mais salutar foi o que dormiu no bosque antes de lhe aparecer Nausica; porquanto na cidade, onde esteve dois dias, pouco descansou, levando quase todo o tempo a narrar suas aventuras, o que por certo não lhe diminuía o cansaço. Necessariamente, ao chegar ao navio dos Feácios, devera cair em profunda modorra. Tenho visto mudarem-se muitos adormecidos, principalmente meninos, sem darem por si; e o que a idade faz nos meninos, podia fazer em Ulisses a extraordinária fadiga. Se Aristóteles tivesse passado por iguais trabalhos, talvez não teria despertado nem cochilado." (Nota 86-87, LIVRO XIII, p. 239, Odorico Mendes)

No fim deste canto fantástico da Odisseia, a deusa Pala, que agora irá acompanhar o herói até o fim de suas aventuras em Ítaca, decide disfarçá-lo na forma de um velho malvestido para que ele consiga chegar de surpresa e enfrentar aqueles que dilapidam sua casa e seu patrimônio, interessados em desposar Penélope.

"Vou, para ignoto seres, enrugar-te
A lisa pele dos flexíveis membros,
Sumir-te a loura coma, em despiciendos
Andrajos envolver-te, e aos vivos olhos
O brilho embaciar, para que a todos,
Mesmo a filho e mulher, pareças torpe.
" (LIVRO XIII, v. 304-309, p. 245)


Foram bons meus entendimentos de hoje sobre a Odisseia. A leitura dos clássicos da literatura mundial nos permite refletir sobre muitas questões culturais. Intertextualidades entre autores e críticos é uma delas.

Para ler a postagem anterior desta epopeia clássica, clique aqui.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).