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domingo, 4 de abril de 2021

Livro: Raízes do Brasil - Sérgio B. de Holanda



Refeição Cultural - Cem clássicos

Acabei de reler esse clássico de Sérgio Buarque de Holanda - Raízes do Brasil, de 1936. Estou num período de reflexões sobre a vida e a sociedade humana, mais especificamente sobre o percurso de minha vida e a sociedade brasileira. O livro de Holanda é muito bom para esse tipo de reflexão.

A primeira leitura de Raízes do Brasil foi num momento muito diverso de minha vida e da vida nacional em relação a atualidade. Eu estava em busca de conhecimentos gerais para ser um bom secretário de formação da Confederação dos Bancários e o Brasil vivia o melhor momento político, econômico e social de sua história, a transição do 2º governo Lula para o início do governo Dilma, do Partido dos Trabalhadores (que seria eleita no final daquele ano). 

O povo jamais seria tão feliz como naquele período. Os direitos sociais aumentavam, havia mais oportunidades na educação em todos os níveis, os salários tinham aumentos reais todos os anos, tinham programas como PAC, Mais Médicos, o povo ia para a Disneylândia e tudo quanto era lugar, os aeroportos viviam abarrotados de gente do povo.

A segunda leitura se dá no pior momento da história do Brasil e do povo brasileiro. O país sofreu um golpe de Estado em 2016 para retirar o PT do governo, porque tudo indicava que o PT seria reeleito mais vezes para governar o Brasil. O golpe foi articulado com o Império do Norte, com as elites canalhas e lesas-pátrias do país e culminou na chegada ao poder de um clã de milicianos e a parte mais vil da sociedade se sente representada: temos agora a banalidade do mal. 

Hoje, o Brasil tem na pandemia mundial de Covid-19 uma ferramenta de poder do regime fascista e genocida e já morreram mais de 320 mil pessoas. Não temos vacinas suficientes para toda a população porque o governo não quis adquiri-las (apostou em contaminar todo mundo para uma suposta imunização de rebanho, arcando com as mortes que viriam disso); não temos emprego decente nem oportunidades de trabalho para as pessoas; não temos direitos sociais - foram destruídos com Temer e Bolsonaro e seus apoiadores do golpe que estão dentro das instituições do Estado; não temos um governo para o povo.

Foi nesse cenário que reli Raízes do Brasil e achei que o ensaio de Holanda explica muita coisa. Ao reler as postagens da primeira leitura, vi o quanto eu era espontâneo ao querer compartilhar conhecimento na época que criei o blog - o blog tem centenas de postagens que deram muito trabalho para serem feitas. As postagens sobre este livro de Holanda ficaram muito interessantes, foram postadas entre novembro de 2009 e junho de 2010.

As postagens com referência ao pensador Sérgio Buarque de Holanda estão aqui, inclusive todas referentes ao livro em questão. O blog é mais interativo e melhor visualizado para se pesquisar os mais de 2 mil textos através de telas de computadores e notebooks, ipads e demais telas grandes, de maneira que se possa ver as categorizações e históricos de publicações por data ou por ordem alfabética das categorias.

Mais um clássico contabilizado. Estou verificando quais clássicos já li e avaliando a fila dos clássicos a serem lidos, caso siga sobrevivendo às mortes severinas que nos cercam no Brasil do ódio, da ignorância terraplanista, do fanatismo imbecil e estúpido dos pastores exploradores e manipuladores da fé das pessoas e no país destruído pela elite mais canalha e abjeta do planeta.

William

04/04/21

terça-feira, 30 de março de 2021

300321 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Fui persistente na leitura hoje, defini que leria o capítulo 4 de Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda, e assim o fiz. Foram 45 páginas de muita informação sobre o Brasil, sobre os povos ibéricos - portugueses e espanhóis - e várias análises muito bem articuladas pelo autor. Na minha edição, além do capítulo original, tem 4 textos incluídos posteriormente por Holanda. O conteúdo que li foi o seguinte:

"O semeador e o ladrilhador

- A fundação de cidades como instrumento de dominação - Zelo urbanístico dos castelhanos: o triunfo completo da linha reta - Marinha e interior - A rotina contra a razão abstrata. O espírito da expansão portuguesa. A nobreza nova do Quinhentos - O realismo lusitano - Papel da Igreja.

Notas ao capítulo 4:

1. Vida intelectual na América espanhola e no Brasil 

2. A língua-geral em São Paulo

3. Aversão às virtudes econômicas

4. Natureza e arte"


A leitura me fez refletir muito. A gente acaba compreendendo muita coisa, muitos porquês. Porque tanta gente apoia o regime fascista e de morte do líder mais mentiroso da história do país. A gente acaba entendendo até porque a direção da Cassi tem fixação por terceirizar todo o modelo assistencial construído há duas décadas, cujo sucesso é em parte por causa do modelo ter estrutura própria. Ao ver a nossa gênese na colonização portuguesa acabei entendendo a cabeça daqueles colegas. Enfim, a gente entende muita coisa, pelo menos fica com várias inferências sobre as coisas.

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O cenário ao qual nos encontramos é desanimador. Estamos há mais de um ano sob a imposição mortal da pandemia mundial do novo coronavírus. A vida mudou e ficou muito mais difícil para todos, sobretudo para a classe trabalhadora mundial. A existência se tornou mais instável, a vida está mais incerta do que já era. Além das mortes momentâneas que já nos ocorria - acidentes, doenças, violências - agora se morre dias depois se formos infectados pelo vírus.

Que planos fazer para os meses desse ano de 2021? Por ser brasileiro e viver no país destruído e subjugado pelo regime genocida no poder, sei que não serei vacinado este ano. Nem eu nem meus familiares e amigos porque os desgraçados do regime de morte atuam a favor do caos, não temos o que os cidadãos dos demais países do mundo têm: a chance de se vacinarem e um governo que combata a pandemia. Isso nos reduz muito a chance de felicidade nesse processo de viver sem viver plenamente. O que temos de planos é sobreviver e sobreviver... 

Estou melhor que a ampla maioria do povo brasileiro, pois estou na pequena parcela da população que pode se dar ao luxo de seguir as recomendações das autoridades mundiais de saúde para se evitar sair, evitar aglomerações, ficar em casa, fazer higienização adequada e usar máscaras para evitar pegar o vírus e para evitar transmitir o vírus para os outros. Estou na pequena parcela da população brasileira que tem o privilégio de poder ficar em casa enquanto durar a pandemia. Se não posso ajudar a combatê-la, já ajudamos não atrapalhando quem combate a pandemia. 

Todos os dias temos recorde de mortes por Covid-19. Hoje morreram 3.780 pessoas no Brasil (em 1 dia!). A culpa é do regime fascista, e quero viver para ver os genocidas julgados e condenados por isso.

Enfim, estou lendo, estudando. Alternando momentos ruins e momentos razoáveis. Não posso reclamar de absolutamente nada. É só lembrar no segundo seguinte a situação da maioria e devo me colocar no meu lugar de privilegiado.

Amanhã é dia 31 de março. Um dia que marcou o Brasil e a história mundial por causa dos desgraçados que deram um golpe de Estado em 1964 e colocaram o país em mais de duas décadas de autoritarismo, morte, fim das liberdades, enriquecimento da parcela que planejou o golpe, empobrecimento do restante do povo subjugado pelos golpistas. Um dia para nunca mais se repetir. 

E os desgraçados no poder por golpe de novo pretendem comemorar de forma ilegal, criminosa, imoral e canalha o golpe que rasgou a Constituição e pôs fim a democracia em 1964.

Quero que se f... esses canalhas que comemorarem a merda da ditadura, tanto a do passado quanto a que o líder do regime atual quer implantar.

Temos que sobreviver, estudar, melhorar como seres humanos, superar esse momento do país e esses lixos que tomaram o poder e temos que reconstruir o país e os direitos dos brasileiros.

William


Bibliografia:

HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

segunda-feira, 29 de março de 2021

Raízes do Brasil - Ler é entender xuxas, janaínas



Refeição Cultural

A cidadã brasileira Xuxa defendeu que cidadãs e cidadãos presos sejam usados como cobaias em experimentos para servirem para alguma coisa. Mengele fez muito disso nos presos do regime nazista. A cidadã Janaína, deputada mais votada de São Paulo, sugeriu deixar os cidadãos mais velhos à própria sorte na falta de leitos para atendimento hospitalar, priorizando os mais jovens (por causa da pandemia de Covid-19 e colapso do sistema hospitalar). Ela não sugeriu cobrar mais impostos dos ricos para suprir de recursos adicionais o Estado e o SUS.

Hoje li mais um capítulo do livro de Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, publicado em 1936. Li esse clássico em 2009 e decidi relê-lo agora. É impressionante como o ensaio de Holanda nos faz entender as xuxas e janaínas que estão ao nosso redor!

O Brasil é hoje um país pária do mundo, um lugar amaldiçoado por tudo e por todos no planeta Terra. Somos governados por um regime genocida em pleno século XXI, depois das experiências trágicas e sanguinárias do regime nazista de Hitler e de regimes fascistas e autoritários que marcaram o século XX. 

Nosso regime ilegítimo (eleições fraudulentas em 2018) já levou à morte mais de 300 mil cidadãos e cidadãs por jogar as pessoas à própria sorte (ao próprio azar) durante a mais trágica pandemia virótica depois da gripe espanhola. O vírus Sars-Cov-2 (Covid-19) se tornou a principal ferramenta de manutenção dos trogloditas no poder. Não temos vacina, não temos auxílio emergencial, e o objetivo dos sociopatas no poder é levar o país ao caos para ampliar o golpe de Estado através de milícias, estado de sitio ou violências autoritárias do gênero.

Ao ler Raízes do Brasil dá pra entender um pouco mais a nossa gênese, a gênese dessa gente que organizou o golpe de Estado em 2016. Dá pra entender um pouco mais essa gente que votou e apoia o crime organizado no poder do país. Estamos sob o domínio violento dos mesmos homens brancos e escravocratas que barbarizam por aqui há séculos.

É isso. Lendo textos como este de Holanda a gente compreende um pouco mais as coisas. E como diz Hobsbawn na Era dos Extremos estudar e compreender a história e o que os homens fizeram não é perdoar ou concordar com toda a desgraça feita.

William


terça-feira, 23 de março de 2021

Raízes do Brasil - Lendo algo que ajude a entender



Refeição Cultural

Ao acordar nesta terça-feira 23, fiquei olhando para o teto por um tempo. Decidi que não leria Moby Dick hoje, mas sem peso na consciência porque ontem o dia de leitura rendeu. Queria ler alguma coisa que explicasse a situação do Brasil. E o pior é que sei muita coisa que explica um pouco tudo isso, mas queria muito entender por que parte do povo brasileiro é tão escrota.

Quando nos lembramos da realidade do Brasil e de toda a desgraça que se abateu sobre o nosso mundo após o golpe de Estado em 2016 e após a ascensão do regime fascista sob o comando de um clã de milicianos, golpe "com Supremo com tudo" como disse à época um senador da república, enfim, quando nos lembramos da realidade, temos vontade de ler alguma coisa definitiva, que alinhave tudo, do início ao fim da história. Essa ideia simplista é uma bobagem, mas a vontade de compreender as coisas é grande.

Fui até a estante, olhei, olhei, sei que o ideal talvez fosse ler um de meus livros do sociólogo Jessé Souza, mas ainda não estou pronto para os livros dele. Certa vez peguei um pra ler e vi que ainda não estava na hora. Por enquanto, fico com as entrevistas e artigos dele. Aprendi em minha vida de leitor amador que certos livros só são possíveis de se ler quando chega a hora certa.

Fiquei vendo os nomes dos livros. Acho essa coisa do nome dos livros algo central. Exemplo: "Cem anos de solidão"! Como não ler um livro desses? Quem não estiver se sentindo assim após um ano de pandemia de Covid-19 que levante a mão...

Escolhi "Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Holanda. Dos pensadores brasileiros, dos quais minhas lacunas culturais são quase integrais, não li quase nada. Esse eu li em 2009. Provavelmente li porque recém começava um mandato de secretário de formação na confederação dos bancários e queria estudar muito para fazer um papel decente na secretaria. O nome foi decisivo: as raízes dessa merda toda na qual estamos enfiados até o pescoço...

Tomei um breve café e comecei a releitura. O texto de abertura, do professor Antonio Candido, foi espetacular! Ele falou de 3 obras centrais para a geração dele: Casa-grande e senzala (1933), de Gilberto Freyre, Raízes do Brasil (1936), de Sérgio B. de Holanda e Formação do Brasil Contemporâneo (1942), de Caio Prado Júnior. O texto de Candido é de 1967. Depois li os dois primeiros capítulos. 

Assim passei essa terça, sem ligar o celular até umas quatro horas da tarde. Entrar em redes sociais tem sido um martírio. São tantas mortes e tantas pessoas infectadas pelo vírus mortal... o vírus foi estratégico para os grandes capitalistas (ficaram mais ricos) e é utilizado pelo regime genocida como ferramenta de governo, como meio para atingir seus objetivos, todos eles contrários aos interesses do Brasil e do povo brasileiro. 

Repito o que disse na postagem de ontem. Ficar em casa é um ato de cidadania. Evitem sair se puderem ficar em casa, assim vocês diminuem os riscos de pegar Covid-19, infectarem mais pessoas, e contribuem para não aumentar mais ainda a demanda por atendimento no sistema de saúde que já está saturado.

Leiam. Quem sabe lendo a gente não contribui para que o mundo recomece algum dia.

William


Post Scriptum: O Brasil registrou nesta terça 23 o recorde de mortes por Covid-19 num único dia. Não sei se o correto é 3158 (UOL) ou 3251 (Carta Capital), depende das fontes pesquisadas, e sabe por quê? Porque os desgraçados do regime genocida desde meados do ano passado fizeram de tudo para que o povo não soubesse sequer os dados oficiais de mortes e contaminações pelo vírus, afinal era só uma "gripezinha", e o país segue numa condição "confortável" em relação à pandemia, segundo o governo. Não temos vacinas para quase ninguém, temos mais de 200 milhões de pessoas e viver ou morrer é uma questão de acaso, porque se pega Covid-19 mesmo tomando todos os cuidados sugeridos pelas autoridades de saúde. É isso!


segunda-feira, 20 de maio de 2019

200519 - Diário e reflexões - Visão do Paraíso


Natureza morta - adormecida  - e céu azul.
Foto de William Mendes, 03/7/16, DF.

Refeição Cultural

"Não se quis, com efeito, mostrar o processo de elaboração, ao longo dos séculos, de um mito venerando, senão na medida em que, com o descobrimento da América, pareceu ele ganhar mais corpo até ir projetar-se no ritmo da História..." (sobre o mito de um suposto Paraíso Terreal, Holanda explicando sua obra)


Li o prefácio à segunda edição, de 1968, e o primeiro capítulo "Experiência e fantasia", da obra "Visão do Paraíso", de Sergio Buarque de Holanda, publicado pela primeira vez em 1959. Estou coletando informações para escrever um trabalho de faculdade sobre as manifestações e pontos de vista dos ibéricos, sobretudo os espanhóis, em relação ao período de conquista das Américas.

Texto muito interessante o de Holanda. Para mim, foram esclarecidas algumas dúvidas. Eu achava que Colombo não havia feito referências textuais em seus escritos de viagens a um suposto Éden ou Paraíso Perdido na terra. É que não acabei de ler ainda os textos relativos às quatro viagens. O primeiro é gigante e de leitura meio chata e repetitiva. Holanda diz que na terceira viagem Colombo faz referência a esse Paraíso das escrituras sagradas da fé católica.

"Ao chegar diante da costa do Pária, esse pressentimento, que aparentemente animara ao genovês desde que se propusera alcançar o Oriente pelas rotas do Atlântico, acha-se convertido para ele, e talvez para os seus companheiros, numa certeza inabalável que trata de demonstrar com requintes de erudição. Assim, na carta onde narra aos Reis Católicos as peripécias da terceira viagem ao Novo Mundo - 'outro mundo', nas suas próprias expressões, propõe-se seriamente, logo que tenha mais notícias a respeito, mandar reconhecer o sítio abençoado onde viveram nossos primeiros pais."

O ensaio de Holanda é muito interessante em diversas questões como, por exemplo, ao explicar a relação mais pragmática dos navegadores e escritores portugueses em relação ao maravilhoso, ao suposto evento metafísico. Os portugueses já tinham no século XV longa experiência em se lançarem ao mar rumo ao desconhecido, sendo os continentes africano e asiático os objetivos daquelas décadas do século XV.

"O gosto da maravilha e do mistério, quase inseparável da literatura de viagens na era dos grandes descobrimentos marítimos, ocupa espaço singularmente reduzido nos escritos quinhentistas dos portugueses sobre o Novo Mundo. Ou porque a longa prática das navegações do Mar Oceano e o assíduo trato das terras e gentes estranhas já tivessem amortecido neles a sensibilidade para o exótico, ou porque o fascínio do Oriente ainda absorvesse em demasia os seus cuidados, sem deixar margem a maiores surpresas, a verdade é que não os inquietam, aqui, os extraordinários portentos, nem a esperança deles..."

Enfim, conhecimentos interessantes adquiridos nessas leituras que estou fazendo nesta semana.

William

domingo, 2 de novembro de 2014

Compreender o motivo das coisas não é perdoar


Posso até fazer cara de Monalisa nos espaços de
representação social, mas eu tenho lado, estou
com os humildes e com os trabalhadores e
contra fascistas e golpistas de toda espécie.

Refeição Cultural

"A principal tarefa do historiador não é julgar, mas compreender, mesmo o que temos mais dificuldade para compreender. O que dificulta a compreensão, no entanto, não são apenas nossas convicções apaixonadas, mas também a experiência histórica que as formou. As primeiras são fáceis de superar, pois não há verdade no conhecido mas enganoso dito francês tout comprendre c'est tout pardoner (tudo compreender é tudo perdoar). Compreender a era nazista na história alemã e enquadrá-la em seu conceito histórico não é perdoar o genocídio. De toda forma, não é provável que uma pessoa que tenha vivido este século extraordinário se abstenha de julgar. O difícil é compreender." (Eric Hobsbawn - Era dos Extremos)


O povo brasileiro está vivendo uma espécie de transição da construção conceitual de Sérgio Buarque de Holanda, em seu Raízes do Brasil, de que o povo brasileiro seria "cordial". Talvez estejamos caminhando para uma nova fase conceitual. Não sei que nome será fixado para o novo padrão de intolerância que está se estabelecendo na população brasileira.

Agora há linchamentos nas ruas. Pessoas e famílias são atacadas por brucutus ou hordas de pessoas por serem militantes ou simpatizantes de partidos (do PT para ser mais claro). Aumentou a intolerância contra gays, negros e nordestinos.

Com a extensão do período democrático no Brasil (pós-ditadura de 1964-85), o mais longo período até agora em nossa jovem república, as minorias tradicionalmente empoderadas - elite branca, patriarcal, católica, escravocrata e machista - que dominaram o país por cinco séculos e que perderam o poder pela via democrática após a entrada no século 21, conseguiram (ou estão conseguindo) estabelecer um novo padrão no comportamento do povo brasileiro.

Após as eleições presidenciais de 2010 entre José Serra do PSDB e Dilma Rousseff do PT houve um aumento perceptível nos níveis de intolerância ao outro, ao diferente de si, em relação à chamada diversidade de grupos. Por não apresentar programas e propostas factíveis no âmbito da política para a população brasileira, o PSDB passou a receber o apoio progressivo e programático das famílias que dominam os meios de comunicação no país, concentrados perigosamente nas mãos de alguns bilionários. Aliás, esses grupos midiáticos se fortaleceram enormemente DURANTE a ditadura civil-militar de 1964-85.

A proposta da oposição ao governo Lula da Silva (2003-2010) passou a ser uma só: interromper os mandatos do PT e seus programas sociais a qualquer custo político e ou social.

O que começou a se estabelecer em 2010 acabou por se efetivar durante e após as eleições presidenciais de 2014. O PSDB de Aécio Neves, Geraldo Alckmin, FHC, José Serra, Aloysio Nunes etc passou a ser um partido de direita e arregimentou o que há de mais retrógrado em termos de grupos com ideologia e valores fascistas. Temos agora uma direita brasileira que se apresenta como tal.

A liderança maior do PSDB, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, está liderando juntamente com as maiores estrelas do partido, a incitação a golpes civis-militares. As lideranças desse partido estão convocando o povo brasileiro para manifestações pedindo impeachment da presidenta legitimamente recém-eleita, Dilma Rousseff.

Estão no silêncio (criminoso) e muitos estão apoiando a caça e perseguição de militantes do Partido dos Trabalhadores e simpatizantes e eleitores de candidatos do PT. Alguns imbecis, mais trogloditas que a média, estão atacando pessoas que usam as cores vermelhas.

É lamentável! O Brasil não será mais o mesmo... mas o Brasil e o povo brasileiro serão o quê daqui adiante?

Agora vemos familiares e pessoas que conhecemos pedindo a volta da ditadura militar... vemos pessoas que vivem do trabalho manipuladas pelos veículos de comunicação da direita fascista (é isso mesmo, direita fascista!) berrando e urrando morte aos nordestinos; urrando a extinção de um partido e seus membros (o PT); dizendo que o povo pobre e trabalhador que vota por interesses legítimos no partido que melhorou sua vida é ignorante e burro; comunidades de médicos pregam a castração de eleitores do norte e nordeste... (que nojo de gente assim!)

Usei a frase do grande mestre Eric Hobsbawn para tecer essa minha breve refeição cultural (indigesta) porque compreender não é perdoar o que as pessoas que eu antes respeitava e agora não respeito mais estão fazendo... pregando o ódio, pregando o golpe, pregando até a eliminação física de gente como eu, que sou de esquerda sim, voto no PT e não sou corrupto (aliás, tenho comigo que corruptos são os tucanos que nunca são investigados e seus apoiadores, que, em geral, são corruptores no dia a dia civil - porque fecham os olhos para a corrupção tucana...).

Eu sou um defensor da Política como meio de realizar mudanças sociais, sem guerra, mortes e sofrimento. Mas se este é o novo Brasil e o novo povo brasileiro, paciência!

Vamos ter que conviver com isso e defender as bandeiras que sempre defendemos em prol da classe trabalhadora.

William


quarta-feira, 16 de junho de 2010

Leitura: Raízes do Brasil, de Sérgio B. de Holanda



Refeição Cultural

Terminei hoje a leitura de um dos livros mais importantes do Brasil em relação a obras e ensaios que tentam compreender o país e sua gênese. 

Estou encantado com a obra. Ela é descortinadora. Vamos lendo e vendo as coisas ao nosso redor, e em todos os espaços da sociedade. Ajudou bastante em minha formação preencher essa lacuna cultural que sempre tive. 

Felizmente, é o segundo livro que termino esta semana, depois que voltei do fim do curso de formação de dirigentes que coordenei nos últimos nove meses. Foram nove semanas de imersão mais um bom período de preparação que me tirou bastante da rotina em São Paulo. 

O capítulo final tratou dos seguintes temas: 

CAPÍTULO 7 - NOSSA REVOLUÇÃO 

- As agitações políticas na América Latina 
- Iberismo e americanismo 
- Do senhor de engenho ao fazendeiro 
- O aparelhamento do Estado no Brasil 
- Política e sociedade -O caudilhismo e seu avesso 
- Uma revolução vertical 
- As oligarquias: prolongamentos do personalismo no espaço e no tempo 
- A democracia e a formação nacional 
- As novas ditaduras 
- Perspectivas 

Alguns pontos interessantes do último capítulo ajudam a entender o autoritarismo ainda atual e o coronelismo vigente, quando lemos, por exemplo, a explicação da transformação do senhor do engenho em fazendeiro. Mudou-se só a forma de organização, mas o poder personalista e oligárquico se manteve o mesmo. 

"O desaparecimento do velho engenho, engolido pela usina moderna, a queda de prestígio do antigo sistema agrário e a ascensão de um novo tipo de senhores de empresas concebidas à maneira de estabelecimentos industriais urbanos indicam bem claramente em que rumo se faz essa revolução (...)". p.176 

E mais à frente, complementa: 

"O Estado brasileiro preserva como relíquias respeitáveis algumas das formas exteriores do sistema tradicional, depois de desaparecida a base que as sustentava: uma periferia sem um centro. A maturidade precoce, o estranho requinte de nosso aparelhamento de Estado, é uma das consequências de tal situação". p.176 

A FIRULA QUE É A NOSSA "DEMOCRACIA LIBERAL" 

"As palavras mágicas Liberdade, Igualdade e Fraternidade sofreram a interpretação que pareceu ajustar-se melhor aos nossos velhos padrões patriarcais e coloniais, e as mudanças que inspiraram foram antes de aparato do que de substância". p.179 

A minha edição tem nota do autor ainda em 1955. Ou seja, faz mais de meio século que ele escreveu, descreveu e intuiu várias coisas sobre o nosso Brasil varonil. 

Quando SBH fala de caudilhismo e seu avesso, ele está supondo em um futuro mudanças lentas e graduais na política e na estrutura social brasileira. 

Fiquei pensando o que ele escreveria após os dois mandatos do governo democrático e popular de Lula da Silva do Partido dos Trabalhadores, que começou a fazer mudanças sociais sem choques e de forma negociada com os setores conservadores da sociedade brasileira. 

"Se o processo revolucionário a que vamos assistindo, e cujas etapas mais importantes foram sugeridas nestas páginas, tem um significado claro, será este o da dissolução lenta, posto que irrevogável, das sobrevivências arcaicas, que o nosso estatuto de país independente até hoje não conseguiu extirpar (...)". p.180 

E adiante: 

"A forma visível dessa revolução não será, talvez, a das convulsões catastróficas, que procuram transformar de um mortal golpe, e segundo preceitos de antemão formulados, os valores longamente estabelecidos (...)". p.180 

Aqui vejo os dois mandatos do governo de Lula da Silva do PT. 

Gostei muito também da discussão sobre o personalismo e sua forma mais elaborada, a oligarquia. 

Isso é uma praga em tudo, inclusive no movimento sindical. 


Bibliografia: 

HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. Companhia das Letras, 26ª edição, 27ª reimpressão 2007.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Raízes do Brasil - Sérgio Buarque de Holanda



Refeição Cultural

Cara, que coisa fantástica é a leitura de Raízes do Brasil

Você vai lendo e vendo o povo brasileiro e suas características mais profundas, mais tupiniquins. 

Às vezes, ia lendo o capítulo 6 - "Novos Tempos" - e vendo a elite brasileira falando e defendendo suas ideias. 

AS IDEIAS FORA DO LUGAR 

"Na verdade, a ideologia impessoal do liberalismo democrático jamais se naturalizou entre nós. Só assimilamos efetivamente esses princípios até onde coincidiram com a negação pura e simples de uma autoridade incômoda, confirmando nosso instintivo horror às hierarquias e permitindo tratar com familiaridade os governantes. A democracia no Brasil foi sempre um lamentável mal-entendido". p.160 

A ELITE BRASILEIRA 

"Uma aristocracia rural e semifeudal importou-a (democracia liberal) e tratou de acomodá-la, onde fosse possível, aos seus direitos ou privilégios, os mesmos privilégios que tinham sido, no Velho Mundo, o alvo da luta da burguesia contra os aristocratas. E assim puderam incorporar à situação tradicional, ao menos como fachada ou decoração externa, alguns lemas que pareciam os mais acertados para a época e eram exaltados nos livros e discursos". p.160 

Caramba! Estou lendo e vendo o discurso político da elite brasileira!! É chocante! 


Bibliografia: 

HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. Companhia das Letras, 26ª edição, 27ª reimpressão 2007.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A praga do bacharelismo!!


Fortaleza dos Reis Magos, Natal (RN), fev/10

Refeição Cultural

Leitura de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda 

Capitulo 6 - NOVOS TEMPOS 

- Finis operantis 
- O sentido do bacharelismo 
- Como se pode explicar o bom êxito dos positivistas 
- As origens da democracia no Brasil: um mal-entendido 
- Etos e eros. Nossos românticos 
- Apego bizantino aos livros 
- A miragem da alfabetização 
- O desencanto da realidade 

Algumas palavras-chave escolhidas por mim no início do texto: 

- "Aptidão para o social" (?): aqui é diferente de ordem coletiva 
- apego ao personalismo 
- somos avessos às atividades motoras e monótonas 
- nossos "intelectuais" sustentam convicções díspares 
- apego a palavras bonitas e argumentos sedutores (só!) 

A PRAGA DO BACHARELISMO!! 

É fácil compreender o preconceito contra o presidente da república do Brasil (Lula) - um torneiro mecânico de origem - quando se lê o capítulo "Novos Tempos" de Raízes do Brasil

Nele, Sérgio Buarque nos explica a "Praga do bacharelismo", que também impera por aqui (ele cita os EUA em relação ao tema). 

Aliás, a tese também explica um pouco do porquê de as pessoas se formarem, pegarem o canudo e nunca exercerem a profissão. 

"Ainda hoje (1936) são raros, no Brasil, os médicos, advogados, engenheiros, jornalistas, professores, funcionários que se limitem a ser homens de sua profissão". Esses profissionais não buscam a realização do trabalho em si senão a satisfação pessoal: finis operantis ao invés de finis operis." 

"Ocupar cinco ou seis cargos ao mesmo tempo e não exercer nenhum é coisa nada rara". 

As citações parecem feitas hoje (2010), mas são de uma obra de 1936. Veja outro caso abaixo: 

"As nossas academias diplomam todos os anos centenas de novos bacharéis, que só excepcionalmente farão uso, na vida prática, dos ensinamentos recebidos durante o curso". 

Sérgio Buarque fala um pouco da questão de Max Weber e a ética protestante. Compara a visão católica do trabalho - castigo divino e razão de sustento - com a visão protestante. Nesta, o trabalho tem uma função de "chamado" e "vocação" (Calling, beruf) e também uma função ascética mesmo para os bem posicionados na sociedade. 

No caso das colônias, a questão do prestígio do "bacharéu", mesmo que fosse de qualquer coisa, já era vício na Corte portuguesa. Uma carta de bacharéu era o caminho para o alto cargo público. 

Nesta praga do bacharelismo está também a questão do "personalismo": tão nosso, tão brasileiro. 

"De qualquer modo, ainda no vício do bacharelismo ostenta-se também nossa tendência para exaltar acima de tudo a personalidade individual como valor próprio, superior às contingências (...) O que importa salientar aqui é que a origem da sedução exercida pelas carreiras liberais vincula-se estreitamente ao nosso apego quase exclusivo aos valores da personalidade". (atualíssimo!!) 

O APEGO À FRASE PRONTA, LAPIDAR 

"O prestígio da palavra escrita, da frase lapidar, do pensamento inflexível, o horror ao vago, ao hesitante, ao fluido, que obrigam à colaboração, ao esforço e, por conseguinte, a certa dependência e mesmo abdicação da personalidade, têm determinado assiduamente nossa formação espiritual". 


Bibliografia: 

HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. Companhia das Letras, 26ª edição, 27ª reimpressão 2007.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Visão do Paraíso, S. B. Holanda



Refeição Cultural

Sérgio Buarque explica no prefácio à segunda edição o alvo principal de seu estudo: 

"Não se quis, com efeito, mostrar o processo de elaboração, ao longo dos séculos, de um mito venerando (um Éden), senão na medida em que, com o descobrimento da América, pareceu ele ganhar mais corpo até ir projetar-se no ritmo da História." 

Lembrar que o nome do livro carrega a frase: "Os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil". 

Seguem os motivos: 

"Nem se teve em mira explorar todas as virtualidades dessa espécie de secularização de um tema sobrenatural, e que levaram certo autor a perguntar ultimamente se os motivos edênicos não poderiam dar margem a uma ampla teoria, onde toda a História encontraria sua explicação." 


Bibliografia: 

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Visão do Paraíso. In: Grandes nomes do pensamento brasileiro. PubliFolha, 2000.

Raízes do Brasil - Ignorância e "cordialidade"



Refeição Cultural

Hoping for the best, but expecting the worst


Coisas de ontem e de hoje.

As chuvas de verão seguem castigando a Grande São Paulo. O mundo segue girando. O 10º FSM discute os rumos de um possível mundo melhor. Eu vejo algo mais como a frase da música de Alphaville - Forever Young:

"Hoping for the best, but expecting the worst"

Outro dia, fui vítima de assaltantes pés-de-chinelo, que assaltavam vários pobres e trabalhadores na passarela da CPTM perto de casa.

Hoje, minha vizinha - gente muito simples - foi assaltada na avenida perto de casa por dois meliantes que também escolhem pobres para serem suas vítimas. Isso é de uma covardia que inflama meu peito de um ódio que me assusta muito...

Assisti a um vídeo e li um pouco a respeito da 2ª Guerra Mundial. Tenho muito que aprender ainda para ser menos ignorante sobre o tema. 

Creio que os jovens de hoje são MUITO MAIS IGNORANTES QUE EU no assunto "história das guerras". Na verdade, acho que os jovens estão cada dia menos inteligentes, apesar de nunca na história ter havido tanta informação e tantos meios de se aprender.

Li mais um capítulo do livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. Hoje o tema foi o famoso "Homem Cordial". Não é bem o que me diziam, não.

Já vi pessoas esculhambando o autor por causa da questão da criação da chamada "cordialidade" do homem brasileiro. Como ele explica no livro, nem dele é a expressão (é do escritor Ribeiro Couto). Ele a toma emprestada para tentar descrever um pouco do que seriam algumas das características do povo brasileiro em relação a outrem.

Tem algo a ver com a ideia de tentar-se sempre estabelecer relações mais informais com quem quer que seja - amigo, parente, estranho, negociante, autoridades, adversários etc.

Em outros países a questão da formalidade de tratamento é muito mais rígida que aqui no Brasil. Percebe-se isso até pelos pronomes de tratamento e formas verbais.

Aprendi alguma coisa hoje.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Leitura: Raízes do Brasil, de Sérgio B. de Holanda



Refeição cultural

Leitura do capítulo 4. 

O SEMEADOR E O LADRILHADOR

ANEXOS AO CAPÍTULO 

1. VIDA INTELECTUAL NA AMÉRICA ESPANHOLA E NO BRASIL: UNIVERSIDADES E IMPRENSA NA AMÉRICA ESPANHOLA, nota 10!; NA PORTUGUESA, nota zero! 

"Em todas as principais cidades da América espanhola existiam estabelecimentos gráficos por volta de 1747, o ano em que aparece no Rio de Janeiro, para logo depois ser fechada, por ordem real, a oficina de Antônio Isidoro da Fonseca." 

Estima-se em 150 mil diplomados em toda a América espanhola para o período colonial, pois desde o século XVI havia universidades em quase todos os países colonizados por eles. Já o número de graduados da colônia portuguesa em Coimbra é ridículo. 

"Os entraves que ao desenvolvimento da cultura intelectual no Brasil opunha a administração lusitana faziam parte do firme propósito de impedir a circulação de ideias novas que pudessem pôr em risco a estabilidade de seu domínio." 

2. A LÍNGUA-GERAL EM SÃO PAULO 

Li este anexo hoje - aniversário de 456 de São Paulo -. O texto nos fala dos bandeirantes, da maneira meio-matriarcal que prevaleceu aqui nos primeiros séculos, pois os homens estavam sempre em suas "missões" desbravadoras de adentrar às terras do Oeste para caçar e aprisionar índios para mão de obra - o que trouxe a expansão dos limites geográficos brasileiros estabelecidos pelo Tratado de Tordesilhas. Enquanto isso, suas mulheres - a maioria índias ou mamalucas - mantinham as coisas nas vilas paulistas e o idioma de comunicação era a língua dos gentios e não a portuguesa. 

Em uma interpretação pessoal sobre a leitura, eu diria, seguindo a linha diferenciadora do autor entre as colonizações portuguesa e castelhana, que os portugueses tiveram efetivo sucesso por serem mais flexíveis à terra colonizada em geral - seja topograficamente, seja na relação de conquista e submissão dos povos aqui presentes. Primeiro se comunicaram na língua do gentio, para depois estabelecer a língua portuguesa só lá na 1ª metade do século XVIII. 

Abaixo algumas citações: 

"Atraindo periodicamente para o sertão distante parte considerável da população masculina da capitania, o bandeirismo terá sido uma das causas indiretas do sistema quase matriarcal a que ficavam muitas vezes sujeitas as crianças antes da idade da doutrina e mesmo depois." 

O governador Antônio Pais de Sande, fala em relatório sobre as mulheres paulistas: "formosas e varonis, e he costume alli deixarem seus maridos á sua disposição o governo das casas e das fazendas". 

A GENTE PAULISTA LARGA O TUPI E PASSA AO PORTUGUÊS NA 1ª METADE DO XVIII 

"De modo que o processo de integração efetiva da gente paulista no mundo da língua portuguesa pode dizer-se que ocorreu, com todas as probabilidades, durante a primeira metade do século XVIII." 

COMENTÁRIO: Isso deve ser um horror para a elite paulista! Na verdade, tudo indica que eles gostariam que esse processo fosse direto para a língua inglesa, muito mais chique! Aliás, elite tão desinformada que gostaria de ser - E AINDA QUEREM - ser colônia dos falantes do inglês, ao invés dos ibéricos, como se isso nos fizesse alguma diferença enquanto povo brasileiro. Deixo aqui só um excerto de Daniel Defoe sobre a origem dos ingleses. 

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"Así pues, de una Mezcla de todas clases surgió, esa cosa Heterogénea llamada Un inglés: engendrado en raptos ansiosos y furiosas Lujurias, entre un Bretón Pintado y un Escocés: Cuyos descendientes aprendieron pronto a inclinar la cabeza y a uncir sus Bueyes al Arado Romano: De donde surgió una Raza Híbrida, sin nombre ni Nación, Idioma o Fama. En cuyas Venas calientes brotaron rápidamente nuevas Mezclas, combinaciones de un Sajón y un Danés. Mientras que sus Hijas Fecundas, con la complacencia de sus Padres, recibían a todas las Naciones con Lujuria Promiscua. Esta Progenie Nauseabunda contenía directamente la Sangre bien extractada de los Ingleses [...]" 

(Daniel Defoe, The True-Born Englishman. In: Anderson, Benedict. Comunidades Imaginadas. Fondo de Cultura Económica) 
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COMENTÁRIO 2: Todas as origens são iguais e todos os humanos valem a mesma coisa: VALEM MUITO COMO SERES HUMANOS. Cada ser humano é único e por isso valioso. 

DIFERENÇA DAS LAVOURAS NO SUDESTE X NORDESTE 

"Ao oposto do que sucedeu, por exemplo, no Nordeste, as terras apropriadas para a lavoura do açúcar ficavam, em São Paulo, a apreciável distância do litoral, nos lugares de serra acima - pois a exígua faixa litorânea, procurada a princípio pelo europeu, já estava em parte gasta e imprestável para o cultivo antes de terminado o século XVI. O transporte de produtos da lavoura através das escarpas ásperas da Paranapiacaba representaria sacrifício quase sempre penoso e raramente compensador." 

PORTUGUESES: SERTÃO ADENTRO, TORDESILHAS ALONGADO... EM TUPI 

"Mas se é verdade que, sem o índio, os portugueses não poderiam viver no planalto, com ele não poderiam sobreviver em estado puro. Em outras palavras, teriam de renunciar a muitos dos seus hábitos hereditários, de suas formas de vida e de convívio, de suas técnicas, de suas aspirações e, o que é bem mais significativo, de sua linguagem. E foi, em realidade, o que ocorreu". 

E o autor conclui: 

"O que ganharam ao cabo, e por obra dos seus descendentes mestiços, foi todo um mundo opulento e vasto, galardão insuspeitado ao tempo do Tratado de Tordesilhas. O império colonial lusitano foi descrito pelo historiador R. H. Tawney como 'pouco mais do que uma linha de fortalezas e feitorias de 10 mil milhas de comprido'. O que seria absolutamente exato se se tratasse apenas do império português da era quinhentista, era em que, mesmo no Brasil, andavam os colonos arranhando as praias como caranguejos. Mas já no século XVIII a situação mudará de figura, e as fontes de vida do Brasil, do próprio Portugal metropolitano, se transferem para o sertão remoto que as bandeiras desbravaram". 


Bibliografia: 

HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. Companhia das Letras, 26ª edição, 27ª reimpressão 2007.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Leitura: Raízes do Brasil, de Sérgio B. de Holanda



Refeição Cultural

Leitura do capítulo 4. 

O SEMEADOR E O LADRILHADOR 

- A fundação de cidades como instrumento de dominação 
- Zelo urbanístico dos castelhanos: o triunfo completo da linha reta 
- Marinha e interior 
- A rotina contra a razão abstrata. O espírito da expansão portuguesa. A nobreza nova do Quinhentos 
- O realismo lusitano 
- Papel da igreja 

O autor vai acentuar ao longo do capítulo as diferenças características entre a colonização portuguesa e a castelhana. Eu achei seus pontos de vista bem interessantes. Me pareceu ver nas coisas cotidianas um pouco do que ele diz de nossa origem. 

O TRAÇADO URBANO CASTELHANO 

"Já à primeira vista, o próprio traçado dos centros urbanos na América espanhola denuncia o esforço determinado de vencer e retificar a fantasia caprichosa da paisagem agreste: é um ato definido da vontade humana. As ruas não se deixam modelar pela sinuosidade e pelas asperezas do solo; impõem-lhes antes o acento voluntário da linha reta." 

TRAÇADO CASTELHANO: DO CENTRO AOS QUATRO VENTOS 

"A construção da cidade começaria sempre pela chamada praça maior. Quando em costa de mar, essa praça ficaria no lugar de desembarque do porto; quando em zona mediterrânea, ao centro da povoação. A forma da praça seria a de um quadrilátero, cuja largura correspondesse pelo menos a dois terços do comprimento, de modo que, em dias de festa, nelas pudessem correr cavalos [...] A praça servia de base para o traçado das ruas: as quatro principais sairiam do centro de cada face da praça. De cada ângulo, sairiam mais duas, havendo o cuidado de que os quatro ângulos olhassem para os quatro ventos." 

AS UNIVERSIDADES CASTELHANAS PROVAM PROLONGAMENTO DO REINO 

"[...] o empreendimento de Portugal parece tímido e mal aparelhado para vencer. Comparado ao dos castelhanos em suas conquistas, o esforço dos portugueses distingue-se principalmente pela predominância de seu caráter de exploração comercial, repetindo assim o exemplo da colonização na Antiguidade, sobretudo da fenícia e da grega; os castelhanos, ao contrário, querem fazer do país ocupado um prolongamento orgânico do seu [...] ao encerrar-se o período colonial, tinham sido instaladas nas diversas possessões de Castela nada menos de 23 universidades, seis das quais de primeira categoria (sem incluir as do México e Lima)." 

CASTELHANOS BUSCARAM CLIMA MAIS AMENO NA COLONIZAÇÃO 

"Os grandes centros de povoação que edificaram os espanhóis no Novo Mundo estão situados precisamente nesses lugares onde a altitude permite aos europeus, mesmo na zona tórrida, desfrutar um clima semelhante ao que lhes é habitual em seu país. Ao contrário da colonização portuguesa, que foi antes de tudo litorânea e tropical, a castelhana parece fugir deliberadamente da marinha, preferindo as terras do interior e os planaltos." 

PARA OS PORTUGUESES A ORDEM ERA POVOAR O LITORAL 

"Os portugueses, esses criavam todas as dificuldades às entradas terra adentro, receosos de que com isso se despovoasse a marinha." 

AOS PAULISTAS COUBE ESTENDER O TRAÇADO DE TORDESILHAS 

"A providência de Martim Afonso parecia a frei Gaspar, mesmo depois que os paulistas, graças à sua energia e ambição, tinham corrigido por conta própria o traçado de Tordesilhas, estendendo a colônia sertão adentro, como a mais ajustada ao bem comum do Reino e a mais propícia ao desenvolvimento da capitania." (providência de restringir a entrada ao interior da colônia) 

ATÉ HOJE, "INTERIOR" TEM ESTIGMA DE ATRASO 

"A influência dessa colonização litorânea, que praticavam, de preferência, os portugueses, ainda persiste até aos nossos dias. Quando hoje se fala em 'interior', pensa-se, como no século XVI, em região escassamente povoada e apenas atingida pela cultura urbana." (lembrar que o texto é de meio século atrás) 

PORTUGUESES: COMUNICAÇÃO FLUVIAL E MARÍTIMA 

"A facilidade das comunicações por via marítima e, à falta desta, por via fluvial, tão menosprezada pelos castelhanos, constituiu pode-se dizer que o fundamento do esforço colonizador de Portugal. Os regimentos forais concedidos pela Coroa portuguesa, quando sucedia tratarem de regiões fora da beira-mar, insistiam sempre em que se povoassem somente as partes que ficavam à margem das grandes correntes navegáveis, como o rio São Francisco. A legislação espanhola, ao contrário, mal se refere à navegação fluvial como meio de comunicação; o transporte dos homens e mantimentos podia ser feito por terra." 

COLONIZAÇÃO PORTUGUESA AVANÇOU COM APOIO DOS TUPIS 

"E é significativo que a colonização portuguesa não se tenha firmado ou prosperado muito fora das regiões antes povoadas pelos indígenas da língua-geral. Estes, dir-se-ia que apenas preparavam terreno para a conquista lusitana. Onde a expansão dos tupis sofria um hiato, interrompia-se também a colonização branca..." 

A COLONIZAÇÃO PORTUGUESA, NA VISÃO DE P. MANUEL DA NÓBREGA 

"O padre Manuel da Nóbrega, em carta de 1552, exclamava: '[...] de quantos lá vieram, nenhum tem amor a esta terra [...] todos querem fazer em seu proveito, ainda que seja a custa da terra, porque esperam de se ir' ". 

E mais adiante segue: "Não querem bem à terra, pois têm sua afeição em Portugal; nem trabalham tanto para a favorecer, como por se aproveitarem de qualquer maneira que puderem; isto é geral, posto que entre eles haverá alguns fora desta regra." 

FEITORIZAÇÃO PORTUGUESA E NÃO COLONIZAÇÃO 

"Mesmo em seus melhores momentos, a obra realizada no Brasil pelos portugueses teve um caráter mais acentuado de feitorização do que de colonização." 

TRAÇADO DA CIDADE PORTUGUESA: OBEDIÊNCIA À TOPOGRAFIA 

"Seja como for, o traçado geométrico jamais pôde alcançar, entre nós, a importância que veio a ter em terras da Coroa de Castela: não raro o desenvolvimento ulterior dos centros urbanos repeliu aqui esse esquema inicial para obedecer antes às sugestões topográficas". 

"A cidade que os portugueses construíram na América não é produto mental, não chega a contradizer o quadro da natureza, e sua silhueta se enlaça na linha da paisagem. Nenhum rigor, nenhum método, nenhuma providência, sempre esse significativo abandono que exprime a palavra 'desleixo' - palavra que o escritor Aubrey Bell considerou tão tipicamente portuguesa como 'saudade' e que, no seu entender, implica menos falta de energia do que uma íntima convicção de que 'não vale a pena...'." 

EXPANSÃO PORTUGUESA: FRUTO DA RACIONALIDADE E DA PRUDÊNCIA CALCULADA 

"Comparada ao delirante arroubo de um Colombo, por exemplo, não há dúvida que mesmo a obra do grande Vasco da Gama apresenta, como fundo de tela, bom senso atento a minudências e uma razão cautelosa e pedestre [...] A expansão dos portugueses no mundo representou sobretudo obra de prudência, de juízo discreto, de entendimento 'que experiências fazem repousado' [...] Uma coragem sem dúvida obstinada, mas raramente descomedida, constitui traço comum de todos os grandes marinheiros lusitanos, exceção feita de Magalhães". 

SEMEADOR X LADRILHADOR 

Na poesia portuguesa e dos portugueses: "A ordem que aceita não é a que compõem os homens com trabalho, mas a que fazem com desleixo e certa liberdade; a ordem do semeador, não a do ladrilhador. É também a ordem em que estão postas as coisas divinas e naturais pois que, já o dizia Antônio Vieira, se as estrelas estão em ordem, 'he ordem que faz influência, não he ordem que faça favor. Não fez Deus o Céu em xadrez de estrelas [...]". 

O autor nos diz que a rigorosidade castelhana da ordem e na uniformidade é fruto de sua falta de unidade interna, diferente do caso português. 

"A fúria centralizadora, codificadora, uniformizadora de Castela, que tem sua expressão mais nítida no gosto dos regulamentos meticulosos - capaz de exercer-se, conforme já se acentuou, até sobre o traçado das cidades coloniais -, vem de um povo internamente desunido e sob permanente ameaça de desagregação. Povo que precisou lutar, dentro de suas próprias fronteiras peninsulares, com o problema dos aragoneses, o dos catalães, o dos euscaros e, não só até 1492, mas até 1611, o dos mouriscos". 

O povo português foi o que conseguiu unidade primeiro, em relação a todos os povos europeus. 

Para finalizar o capítulo, Sérgio Buarque nos fala um pouco de como a igreja católica deu excessivos poderes à Coroa Portuguesa, de maneira que esta determinasse todo o funcionamento da igreja aqui na colônia. Esta seria uma das razões para haver discrepância entre a instituição igreja no Brasil e os padres (as pessoas) contrários aos desmandos da Coroa. 


Bibliografia: 

HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. Companhia das Letras, 26ª edição, 27ª reimpressão 2007.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Leitura de Raízes do Brasil, de S. B. Holanda



Refeição Cultural

Seguindo a leitura dessa obra descortinadora, o capítulo 3 tratará dos seguinte tópicos: 

HERANÇA RURAL 

- A Abolição: marco divisório entre duas épocas 
- Incompatibilidade do trabalho escravo com a civilização burguesa e o capitalismo moderno 
- Da Lei Eusébio à crise de 64. O caso de Mauá 
- Patriarcalismo e espírito de facção 
- Causas da posição suprema conferida às virtudes da imaginação e da inteligência 
- Cairu e suas ideias 
- Decoro Aristocrático 
- Ditadura dos domínios agrários 
- Contraste entre a pujança das terras de lavoura e a mesquinhez das cidades na era colonial 

O autor faz uma diferenciação interessante: 

Os portugueses não instauraram aqui uma civilização agrícola* e sim uma civilização de raízes rurais. 

"É efetivamente nas propriedades rústicas que toda a vida da colônia se concentra durante os séculos iniciais da ocupação europeia: as cidades são virtualmente, se não de fato, simples dependências delas." 

*por não utilizarem aqui as técnicas modernas de plantio e ferramentas disponíveis à época. 

MUDANÇAS NA DÉCADA DE 1850 

Além da proibição do tráfico de escravos, o período entre 51 e 55 teve um 'boom' de criação de sociedades anônimas. Refundação do Banco do Brasil, linhas telegráficas, Banco Rural e Hipotecário, estradas de ferro (Mauá). 

Os partidários do status quo vigente são contrários às mudanças que se processavam, principalmente no que diz respeito ao fim do tráfico de escravos. 

"Estes eram, naturalmente, do parecer que, em país novo e mal povoado como o Brasil, a importação de negros, por mais algum tempo, seria, na pior hipótese, um mal inevitável, em todo o caso diminuto, se comparado à miséria geral que a carência de mão-de-obra poderia produzir" 

LEI EUSÉBIO DE QUEIRÓS 

A partir de 1850 reduziram-se drasticamente a importação de humanos escravos para o Brasil, tanto pela lei quanto pela intensificação das atividades britânicas de repressão ao tráfico. 

BANCO DO BRASIL - FUNDING: $ QUE ERA INVESTIDO NA ESCRAVIDÃO 

"A própria fundação do Banco do Brasil de 1851 está, segundo parece, relacionada com um plano deliberado de aproveitamento de tais recursos (capital do comércio de humanos) na organização de um grande instituto de crédito". 

Mauá pensou no funding a partir do extinto tráfico negreiro, para que os capitalistas investissem em banco de crédito - Banco do Brasil: 

"Reunir os capitais que se viam repentinamente deslocados de ilícito comércio e fazê-los convergir a um centro onde pudessem ir alimentar as forças produtivas do país foi o pensamento que me surgiu na mente, ao ter a certeza de que aquele fato era irrevogável" (Visconde de Mauá, Autobiografia) 

A GÊNESE DO FAVOR, CLIENTELISMO E NEPOTISMO 

As raízes de grandes males do Brasil estariam na forma como era instituído o patrimonialismo e o personalismo. Ao redor do patriarca existia uma concentração de gentes - famílias, agregados e apaniguados - que criavam estreitas relações fechadas de dependência e autoproteção. 

"Segundo tal concepção, as facções são constituídas à semelhança das famílias, precisamente das famílias de estilo patriarcal, onde os vínculos biológicos e afetivos que unem ao chefe os descendentes, colaterais e afins, além da famulagem e dos agregados de toda sorte, hão de preponderar sobre as demais considerações. Formam, assim, como um todo indivisível, cujos membros se acham associados, uns aos outros, por sentimentos e deveres, nunca por interesses ou ideias". 

O ENGENHO - UM MICROCOSMO COMPLETO 

"Nos domínios rurais, a autoridade do proprietário de terras não sofria réplica. Tudo se fazia consoante sua vontade, muitas vezes caprichosa e despótica. O engenho constituía um organismo completo e que, tanto quanto possível, se bastava a si mesmo". 

A IDEIA DE 'FAMÍLIA' NOS ENGENHOS 

"Nos domínios rurais é o tipo de família organizada segundo as normas clássicas do velho direito romano-canônico, mantidas na península Ibérica através de inúmeras gerações, que prevalece como base e centro de toda a organização. Os escravos das plantações e das casas, e não somente escravos, como os agregados, dilatam o círculo familiar e, com ele, a autoridade imensa do pater-famílias. Esse núcleo bem característico em tudo se comporta como seu modelo da Antiguidade, em que a própria palavra 'família', derivada de famulus, se acha estreitamente vinculada à ideia de escravidão, e em que mesmo os filhos são apenas os membros livres do vasto corpo, inteiramente subordinado ao patriarca, os liveri

"Sempre imerso em si mesmo, não tolerando nenhuma pressão de fora, o grupo familiar mantém-se imune de qualquer restrição ou abalo. Em seu recatado isolamento pode desprezar qualquer princípio superior que procure perturbá-lo ou oprimi-lo". 

UMA GÊNESE DA PROMISCUIDADE DO PRIVADO NO PÚBLICO 

"Representando, como já se notou acima, o único setor onde o princípio de autoridade é indisputado, a família colonial fornecia a ideia mais normal do poder, da respeitabilidade, da obediência e da coesão entre os homens. O resultado era predominarem, em toda a vida social, sentimentos próprios à comunidade doméstica, naturalmente particularista e antipolítica, uma invasão do público pelo privado, do Estado pela família". 

EXPLICAÇÃO DE NOSSA ELITE PSEUDO-ESCLARECIDA 

"O trabalho mental, que não suja as mãos e não fatiga o corpo, pode constituir, com efeito, ocupação em todos os sentidos digna de antigos senhores de escravos e dos seus herdeiros. Não significa forçosamente, neste caso, amor ao pensamento especulativo - a verdade é que, embora presumindo o contrário, dedicamos, de modo geral, pouca estima às especulações intelectuais - mas amor à frase sonora, ao verbo espontâneo e abundante, à erudição ostentosa, à expressão rara. É que para bem corresponder ao papel que, mesmo sem o saber, lhe conferimos, inteligência há de ser ornamento e prenda, não instrumento de conhecimento e de ação". 

(fala sério!, não é perfeito com o que temos no Brasil? Os leitores de Veja, Estadão, Folha achando que são esclarecidos e as mirians leitões, jôs soares, e os 'técnicos' imbecis que ditam as regras de economia etc) 

UMA POSSÍVEL SÍNTESE (e gênese dos nossos ruralistas) 

"Procurou-se mostrar no presente capítulo como, ao menos em sua etapa inicial, esse processo correspondeu de fato a um desenvolvimento da tradicional situação de dependência em que se achavam colocadas as cidades em face dos domínios agrários. Na ausência de uma burguesia urbana independente, os candidatos às funções novamente criadas recrutam-se, por força, entre indivíduos da mesma massa dos antigos senhores rurais, portadores de mentalidade e tendência características dessa classe. Toda a ordem administrativa do país, durante o Império e mesmo depois, já no regime republicano, há de comportar, por isso, elementos estreitamente vinculados ao velho sistema senhorial". 

AS CIDADES COMO APÊNDICES DAS CASAS-GRANDES 

"No Brasil colonial, entretanto, as terras dedicadas à lavoura eram a morada habitual dos grandes. Só afluíam eles aos centros urbanos a fim de assistirem aos festejos e solenidades." 

Amigos, como é fácil ver os ruralistas, os coronéis sarneis, barbalhos etc, lendo este ensaio de Sérgio Buarque de Holanda. 


Bibliografia: 

HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. Companhia das Letras, 26ª edição, 27ª reimpressão 2007.

domingo, 29 de novembro de 2009

Estudo de francês, a partir de Raízes do Brasil



Refeição Cultural

Citação em francês do livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. 

Portugal e a colonização das terras tropicais 

Pioneiros da conquista do trópico para a civilização, tiveram os portugueses, nessa proeza, sua maior missão histórica. E sem embargo de tudo quanto se possa alegar contra sua obra, forçoso é reconhecer que foram não somente os portadores efetivos como os portadores naturais dessa missão. Nenhum outro povo do Velho Mundo achou-se tão bem armado para se aventurar à exploração regular e intensa das terras próximas à linha equinocial, onde os homens depressa degeneram, segundo o conceito generalizado na era quinhentista, e onde – dizia um viajante francês do tempo – “LA CHALEUR (calor) SI VÉHÉMENT(E?) DE L’AIR LEUR TIRE (?) DEHORS (adv.: fora, exterior), LA CHALEUR NATURELLE, ET LA DISSIPE (adj.: distraído/a, v. dissipar-se), ET PAR AINSI (adv.: assim, dessa forma) SONT CHAULDS (?) SEULEMENT (adv.: só, apenas, somente) PAR DEHORS ET FROIDS (?) EN DEDANS (no interior)”, ao contrário do que sucede aos outros, os habitantes das terras frias, os quais “ONT (têm) LA CHALEUR NATURELLE SERRÉE (apertado?) ET CONSTRAINTE (contraído, constrangido?) DEDANS PAR LE FROID EXTÉRIEUR QUI LES REND AINSI ROBUSTES ET VAILLANS, CAR (conj. pois) LA FORCE ET FACULTÉ DE TOUTES LES PARTIES DU CORPS DÉPEND DE CETTE (pron. dem. esta, essa aquela) NATURELLE CHALEUR.”. 

(André Thevet, Les singularitez de la France Antarctique – Paris, 1879) 

COMENTÁRIO: Como se pode ver, não é fácil como o italiano, o espanhol e o inglês. UFA! Tem que ser teimoso... Entendi pouca coisa da citação. 

COMENTÁRIO 2: recebi hoje (2/2/10) a grata ajuda de um internauta que nos traduz e explica as citações acima. Que coisa fantástica isso, não é? Valeu!! 

José Marcos disse... 

Acho que a citação diz mais ou menos o seguinte: "o calor tão veemente (forte, intenso) do ar extrai (tira para fora) deles o calor natural e o dissipa; e dessa forma são quentes somente (só, apenas) por fora e frios por dentro (no interior)." 

Trata-se de uma afirmação de um viajante francês que acreditava que os homens que morassem nas terras quentes depressa se degenerariam por perderem o calor natural do interior de seus corpos mais rapidamente. 

A outra citação refere-se aos habitantes das terras frias: "têm o calor natural fechado e reprimido no interior pelo frio exterior que os torna assim robustos e valentes, porque a força e a faculdade de todas as partes do corpo dependem deste calor natural."

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Post Scriptum em 2025:

É interessante observar a passagem do tempo em certas coisas humanas. Ao receber um comentário de um internauta sobre a questão de ler e entender citações em outras línguas, no caso o francês, e fazer um esforço para aprender outro idioma por conta própria, joguei os excertos no aplicativo de tradução da big tech Google e em segundos veio a versão da máquina para saber o que o autor citou. A tradução que recebi de um internauta no passado (escrita acima) foi satisfatória à época e segue sendo.

Tradução do Google em 2025:

“O calor intenso do ar os atrai para fora e dissipa o calor natural, de modo que eles ficam apenas quentes por fora e frios por dentro.”

e

“Têm seu calor natural reforçado e restringido internamente pelo frio externo, o que os torna tão robustos e valentes, porque a força e a faculdade de todas as partes do corpo dependem desse calor natural.”

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