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quinta-feira, 3 de julho de 2025

Instantes (15h53)



Refeição Cultural


"E é difícil amar

Há tanto para odiar

Apoiando-se numa esperança

Quando não há esperança para se falar a respeito

E os céus feridos entre nós

Dizem: Já é muito, muito tarde

Bem, talvez todos nós devêssemos estar rezando por tempo..." 

(Praying for Time, George Michael, letras.mus.br)


Com tanto para odiar, é difícil amar... George Michael descreveu nesta música de 1990 o tempo presente!

Somos prisioneiros do ódio, como nos explicou Riobaldo Tatarana, personagem do livro "Grande Sertão: Veredas" (1956), de Guimarães Rosa. 

Como nos libertarmos do ódio e restabelecermos o amor? Se trata de salvar o mundo e todas as formas de vida.

Tic-tac, tic-tac, tic-tac... o tempo corre contra nós que estamos perdendo tempo com coisas supérfluas. Depois não adiantará rezar por mais tempo.

William

03/07/25

sábado, 3 de maio de 2025

Livro: Primeiras Estórias - João Guimarães Rosa



Refeição Cultural

"Sua mulher, Tia Liduína, então morreu, quase de repente, no entrecorte de um suspiro sem ai e uma ave-maria interrupta..." (Nada e a nossa condição, Rosa, p. 74)


Sabadão... eu indeciso se sigo lendo mais uns contos de Rosa, se me perco na política - meu tempo tá encurtando à jato (e já não apito nada) -, se pego firme na sistematização de meus textos de uma vida, ameaçados de inexistir nas nuvens inimigas. Dilemas de quem tem a noção do tempo indo.

Quisera eu, quando meu fim chegar, daqui a um minuto ou vinte anos, que fosse ao modo de dona Liduína. Sonho de consumo daqueles que sabem da morte como parte da vida.

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NADA E A NOSSA CONDIÇÃO

Eu fiquei pensando no nome do conto de Rosa... "Nada e a nossa condição".

No fim, o nada é algo que faz parte do todo. Os nadas fazem parte do todo. Eu sou nada. E, no entanto, pertenço ao todo. Natureza...

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UM MOÇO MUITO BRANCO

"Ela, que, a partir dessa hora, despertou em si um enfim de alegria, para todo o restante de sua vida, donde um dom..." (p. 94)

Alegria

Ao ler o conto, me lembrei da resposta de Rubem Alves ao entrevistador Abujamra, que lhe perguntou certa vez "A vida é uma causa perdida?", e Alves responde que sim por sabermos que vamos morrer, mas cita Guimarães Rosa que falava da alegria nos momentos de distração. 

A moça do conto, ganhou em sua vida, o dom da alegria.

Profundo isso!

Gostaria de ter tido esse dom.

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LUAS-DE-MEL

"No mais, mesmo, da mesmice, sempre vem a novidade. Naquela véspera, eu andava meio relaxo, fraco; eu já declinava para nãoezas? Nos primeiros de novembro. Sou quase de paz, o quanto posso..." (p. 96)

É sempre isso. Quando leio Guimarães Rosa, automaticamente me vem à cabeça Uberlândia, me vem o Mato Grosso, anos oitenta, minha família e o mundo onde cresci.

Apesar de ser, em suas narrativas, uma língua inventada pelo escritor, em grande parte, relembro a língua de onde vivi nos anos oitenta.

Guimarães Rosa me transporta ao passado do Brasil onde vivi.

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Comecei a ler esse pequeno livro de contos de Guimarães Rosa há mais de vinte anos. Nunca terminei.

Li pela primeira vez "As margens da alegria" em 2003. Alguns contos eu já li várias vezes nesse tempo todo. 

Agora, decidi ler os contos que não havia lido ainda. 

Uma vez, li em voz alta, na cozinha da casa de meus pais em Uberlândia, o conto "A terceira margem do rio". De repente, comecei a chorar, soluçar... e quase não consegui acabar a estória. 

Com "Sorôco, sua mãe, sua filha" a emoção também é no limite.

"Famigerado" é um dos contos mais marcantes do livro.

E assim, vou finalizar minha leitura do Primeiras Estórias (1962), do mestre Guimarães Rosa. Já é tempo de finalizar coisas antigas não concluídas.

Retomarei o trabalho de sistematização dos meus textos em seguida.

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Post Scriptum:

DARANDINA

"Pois, de repente, sem espera, enquanto o outro perorava, ele se despia. Deu-se à luz, o fato sendo, pingo por pingo. Sobre nós, sucessivos, esvoaçantes - paletó, cueca, calças - tudo a bandeiras despregadas. retombando-lhe a camisa, por fim, panda, aérea, aeriforme, alva. E feito o forró! - foi - balbúrdias. Na multidão havia mulheres, velhas, moças, gritos, mouxe-trouxe, e trouxe-mouxe, desmaios. Era, no levantar os olhos, e o desrespeitável público assistia - a ele in puris naturalibus..." (p. 132)

A gente sabe tão pouca coisa nesta vida, tão nada, que às vezes até se surpreende, mesmo entrado décadas na existência.

Após ler este conto de Guimarães Rosa, Darandina, eu fui pesquisar alguma coisa sobre ele e me surpreendi com a grandeza da estória. Tem revista universitária com o nome do conto, tem diversos trabalhos acadêmicos e ensaios muito interessantes sobre ele. O texto é gigante! Eu nunca tinha me dado conta dele... tão nada, tão pequeno somos quando se trata de conhecer literatura... (eu, né, eu, não falo pelos outros, só por mim).

Teria que renascer e ter foco na literatura desde que me entendesse por gente para poder dar conta de um mínimo que queria conhecer sobre literatura... (mas como não há mágica na vida, minha única unicazinha vida foi essa que já se vai definhando...)

Li um estudo acadêmico analisando o conto "Darandina" e o conto "O alienista", do bruxo do Cosme Velho. A temática da loucura, ou da razão, ou da "desrazão", e fiquei encantado com o texto e as interpretações do autor.

Fiquei pensando uns instantes sobre os 21 contos do livro Primeiras Estórias, de 1962. Muitos personagens e casos contados no livro são exatamente essa questão da razão e "desrazão" das coisas humanas.

Olha, nenhuma frase ou texto comentando obras como essa de Guimarães Rosa dá conta da imensidão de coisas contidas ali. Dá não!

Temos que lidar com humildade com o nosso pouco saber das coisas.

Sigamos lendo alguma coisinha enquanto somos, estamos.

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É isso! 

Will i am 


Bibliografia:

ROSA, Guimarães. Primeiras Estórias. Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1988.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

49. Grande Sertão: Veredas - Guimarães Rosa



Refeição Cultural - Cem clássicos

(atualizado às 10h31 de 5/01/23)


A leitura desse clássico da literatura brasileira é um marco na vida de qualquer leitor. Eu demorei muito tempo para ler Grande Sertão: Veredas (1956), de João Guimarães Rosa. Demorei, mas li. Sigo lendo, buscando referências pra nominar as coisas.

Ao ler, a gente passa a ter referências para denominar as coisas no mundo. A natureza, o amor, o ódio, a covardia, as relações humanas, as dúvidas... tudo que o ser humano com sua natureza humana sente e lida no dia a dia do viver está dito pelo jagunço aposentado - de range rede - Riobaldo Tatarana, em suas reminiscências contadas ao hóspede que o escuta por longos dias.

Durante e após a leitura dessa obra, a vida para mim ficou mais clara, até no conceito-chave do viver: a vida é um e está num grande sertão e o viver é um eterno ir pra lá ou pra cá nas escolhas diárias: veredas... e é claro que viver é muito perigoso! E não é que estou eu de range rede neste momento do viver...

Talvez esse seja um dos clássicos mais marcantes que já tenha lido na vida até hoje.

Essa postagem talvez não termine, porque vou voltar nela e incluir ideias-conceitos e frases-pensamentos que sigo coletando na obra de Guimarães.

É ensinamento de Riobaldo Tatarana pra nós, são referências do viver, especulações da ideia.

Cada uma delas, um momento do viver da gente...

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O MUNDO INTEIRO NUM MOMENTO DE FALA DE RIOBALDO

Pegue-se como exemplo, a página 41 de minha edição: em poucos parágrafos, Riobaldo fala tanta coisa para o forasteiro de passagem que a gente fica admirado ao ver a profundidade das informações e reflexões feitas, mesmo lendo meio século depois da enunciação do personagem, pois são muito atuais.

1. Pode-se vender o que não é seu? Se não, não existe essa de pacto com o demônio, porque se houver alma, ela é de Deus e não nossa... 2. Ele não quer que o forasteiro vá embora logo, antes de ouvi-lo, porque o povo do local é tudo igual a ele, forjado naquela dureza e ruindade, numa espécie de "incultura" coletiva, o de fora teria algo novo que opinar, visão diferente das coisas. Pensei no povo pobre de comunidades carentes... as milícias, a miséria, viver pelo básico. 3. Pede que o forasteiro fique ao menos 3 dias: terça, quarta e pode ir na quinta de manhã. Mas, alerta, o lugar não é mais o mesmo... agora ex-jagunço pede esmola e os bois são mansos, os fazendeiros são metidos a besta no trajar, e é uma miséria só pro povão... "Viver é muito perigoso..."

Tudo isso, Guimarães (Riobaldo) descreve em 4 parágrafos entre a página 40 e 42. Demais! Confesso aos 53 anos que acho muito difícil um leitor pouco experiente capturar todas essas informações quando se lê pela primeira vez uma obra dessa magnitude... difícil, sô!

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IDEIAS-CONCEITOS E FRASES-PENSAMENTOS

O SERTÃO...

"O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda a parte." (p. 24)

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ESTAR DE RANGE REDE

"Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei neste gosto, de especular ideia. O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias..." (p. 26)

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VIVER É PERIGOSO

"Viver é negócio muito perigoso..." (p. 26)

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JAGUNÇO PERGUNTA SE VISITA ACREDITA NO DEMO

"Mas, não diga que o senhor, assisado e instruído, que acredita na pessoa dele?! Não? Lhe agradeço! Sua alta opinião compõe minha valia." (p. 26)

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QUERER O BEM PODE SER QUERER O MAL

"Viver é muito perigoso... Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o concertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo." (p. 32)

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QUE DEUS VENHA ARMADO!

"Sertão. O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal..." (p. 35)

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O PESSOAL HOJE É BOM DE CORAÇÃO (SERÁ?)

"Vi tanta cruez! (...) Me apraz é que o pessoal, hoje em dia, é bom de coração. Isto é, bom no trivial. Malícias maluqueiras, e perversidades, sempre tem alguma, mas escasseadas. Geração minha, verdadeira, ainda não eram assim. Ah, vai vir um tempo, em que não se usa mais matar gente... Eu, já estou velho." (p. 38)

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AS PESSOAS NÃO ESTÃO TERMINADAS

"O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou." (p. 39)

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DIADORIM É MINHA NEBLINA (AMOR PROIBIDO)

"De mim, pessoa, vivo para minha mulher, que tudo modo-melhor merece, e para a devoção. Bem-querer de minha mulher foi que me auxiliou, rezas dela, graças. Amor vem de amor. Digo. Em Diadorim, penso também - mas Diadorim é a minha neblina..." (p. 40)

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SE TEM ALMA, ELA É DE DEUS

"Pois. Se tem alma, e tem, ela é de Deus estabelecida, nem que a pessoa queira o não queira. Não é vendível. O senhor não acha?" (p. 41)

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TER QUE SER MAIS DURO QUE O LUGAR ONDE SE VIVE

"Sertão. Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o lugar. Viver é muito perigoso..." (p. 41)

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SAUDADE

"O senhor sabe? Já tenteou sofrido o ar que é saudade? Diz-se que tem saudade de ideia e saudade de coração..." (p. 43)

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ÓDIO COM PACIÊNCIA

"E ele suspirava de ódio, como se fosse por amor; mas, no mais, não se alterava. De tão grande, o dele não podia mais ter aumento: parava sendo um ódio sossegado. Ódio com paciência; o senhor sabe?" (p. 46)

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CIÚMES

"Mas ciúme é mais custoso de se sopitar do que o amor. Coração da gente - o escuro, escuros." (p. 52)

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FALAR CONSIGO MESMO AO FALAR COM UM ESTRANHO

"O senhor é de fora, meu amigo mas meu estranho. Mas, talvez por isso mesmo. Falar com o estranho assim, que bem ouve e logo longe se vai embora, é um segundo proveito: faz do jeito que eu falasse mais mesmo comigo." (p. 55)

(segue...)


Bibliografia:

ROSA, Guimarães. Grande Sertão: Veredas. 19ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. 


quarta-feira, 20 de abril de 2016

A difícil e necessária arte intelectual de evitar o revide à provocação e ao ódio gratuito


A natureza a ser observada, de maneira a que
 amansemos as raivas. Paineira Rosa em Brasília.

Refeição Cultural

"Do que de uma feita, por me valer, eu entendi o casco de uma coisa. Que, quando eu estava assim, cada de-manhã, com raiva de uma pessoa, bastava eu mudar querendo pensar em outra, para passar a ter raiva dessa outra, também, igualzinho, soflagrante. E todas as pessoas, seguidas, que meu pensamento ia pegando, eu ia sentindo ódio delas, uma por uma, do mesmo jeito, ainda que fossem muito mais minhas amigas e eu em outras horas delas nunca tivesse tido quizília nem queixa. Mas o sarro do pensamento alterava as lembranças, e eu ficava achando que, o que um dia tivessem falado, seria por me ofender, e punha significado de culpa em todas as conversas e ações. O senhor me crê? E foi então que eu acertei com a verdade fiel: que aquela raiva estava em mim, produzida, era minha sem outro dono, como coisa solta e cega. As pessoas não tinham culpa de naquela hora eu estar passeando pensar nelas. Hoje, que enfim eu medito mais nessa agenciação encoberta da vida, fico me indagando: será que é a mesma coisa com a bebedice de amor? Toleima. O senhor ainda me releve. Mas, na ocasião, me lembrei dum conselho que Zé Bebelo, na Nhanva, um dia me tinha dado. Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é. Zé Bebelo falava sempre com a máquina de acerto - inteligência só. Entendi. Cumpri. Digo: reniti, fazendo finca-pé, em força para não esparramar raivas...

(Riobaldo Tatarana, em Grande Sertão: Veredas. Guimarães Rosa, 1956. Editora Nova Fronteira, edição


Roteiro de uma vida proletária aprendendo a lidar com a raiva e o ódio contra as iniquidades

Saí para correr na noite fresca de Brasília. Corri 5 km em 31' com 21º e fiquei o tempo todo tentando esquecer os aborrecimentos oriundos das provocações que sofremos e do ódio e intolerância que nos miram por sermos o que somos: militantes de esquerda e representantes de um setor da sociedade - a classe trabalhadora.

Lembrei da passagem acima do "Grande Sertão: Veredas" a respeito dos sentimentos de raiva e ódio e o quanto eles podem aprisionar a nossa mente e o nosso ser.

Acredito que uma das artes intelectuais mais difíceis de desenvolver na natureza humana, animal que somos, é a arte de evitar o revide instantâneo e às vezes de consequências drásticas e irremediáveis às provocações e ao ódio e agressão gratuitos.

Há anos lido comigo mesmo para desenvolver essa habilidade humana: ser mais inteligente que o provocador ou agressor e não revidar de forma imediata à agressão, seja ela física ou moral. Alguns momentos em minha vida marcam passagens evolutivas nesta habilidade.

Infância e adolescência

Pela miséria que enfrentei após os dez anos de idade, cresci sentindo muito ódio do mundo e de tudo, principalmente da exploração por parte da elite e dos abastados e da injustiça contra nós todos que sofríamos na miséria.

Depois de sofrer ameaças no mundo infanto juvenil, aprendi a revidar e a me estabelecer no espaço em que vivia. Depois que frequentei ao longo da adolescência os ensinamentos da arte marcial Kung Fu, aprendi a não brigar mais porque era a lição número um do mestre e da academia. Melhorei como pessoa que iniciava para a vida adulta.

Anos noventa, o ser bancário do BB no governo do PSDB/FHC

Vieram os anos noventa e eu passei a trabalhar no Banco do Brasil após os 22 anos de idade. Logo depois que cheguei ao banco, vi o que o PSDB, DEM, PMDB, já a Rede Globo e demais asseclas fizeram aos trabalhadores em geral e aos meus colegas do BB. Vi o assédio e o expurgo de 50 mil colegas de forma humilhante e assassina. Eu vi e vivi os suicídios no massacre tucano aos colegas do banco.

Vocês não têm noção do ódio que senti aos vinte e poucos anos daquela injustiça social que vivemos.

Início da função de dirigente sindical eleito e representante dos trabalhadores

Se eu havia lidado comigo mesmo e com a raiva que sentia das injustiças do mundo na adolescência e depois que vi o que sofreram meus colegas e o povo brasileiro nas mãos de um governo tucano vira-latas, compromissado com os grandes imperialistas a soldo pago a ralés do terceiro mundo, faltava ainda a experiência de representar os trabalhadores como eleito.

A experiência no início da vida sindical que marcou minha vida foi logo nas primeiras semanas como diretor do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região, liberado para as atividades sindicais e de representação de meus colegas a partir de agosto de 2002.

Um dia, numa panfletagem na porta do Complexo do BB na São João, dialogando com os colegas sobre as eleições presidenciais naquele ano, um bancário invocou comigo e começou a gritar e me ofender, a por o dedo em meu nariz, falar quase cuspindo em meu rosto, enfim, vociferando comigo. Eu que não era muito tolerante e tinha meus limites, precisei me reinventar naquele instante para não revidar e até sairmos na mão. Consegui! Ali eu marquei um ponto a favor de não revidar às agressões de pessoas intolerantes.

Passei meus quase 14 anos de representação sindical sendo conhecido como um dirigente que sabia ouvir os colegas, debater, construir consensos e aceitar dissensos.

A madurez dos quarenta e poucos anos, sendo dirigente de entidade de saúde dos trabalhadores e num mundo envenenado pelo ódio plantado por golpistas

Chegamos ao meu mundo de representação atual e ao Brasil de 2016 no auge do ódio semeado pelos meios de comunicação dos empresários golpistas - famílias Marinho, Civita, Frias, Mesquita et caterva -, juntamente com os partidos derrotados nas eleições de 2014 e liderados pelos mesmos tucanos que já conhecemos dos anos noventa.

Neste momento, finalizo meu texto de reflexão com os raros leitores que chegaram até aqui para dizer do esforço que fiz hoje para não agir compulsivamente e revidar aos dois cidadãos que me incomodaram os pensamentos neste dia: um que me provocou na rede social facebook e o outro que teve a pachorra de ir ao andar da Diretoria na Cassi que administro para passar alguns recados e fazer provocações (esses covardes só vão na hora em que não estamos).

O familiar que me provocou: é um sujeito cujos traços no sangue nos colocam como primos, e com o qual já não tenho contato há muito tempo. Eu nunca tive problema pessoal com ele, mas ele pegou a seguir a Globo, a Veja e passou a me odiar por entender que eu sou "aquele petista filho da puta". Ele veio da merda como eu e toda a nossa família. Ninguém de minha família sanguínea faz parte daqueles 5% donos de tudo no Brasil, ex-colônia. O sujeito que foi subproletário e agora se acha "classe média" melhorou de vida como milhões de brasileiros durante os governos do PT. Mas se convenceu que tem carro e profissão liberal por mérito próprio. É o cara!

Não é que o cara ainda dedica um espaço no cérebro dele para mim depois de tanto tempo sem nenhuma relação comigo? O sujeito, ao invés de levar a bela vida dele ocupando o cérebro como já faz com álcool, carros e mulheres, entre São Paulo e Goiás, no domingo 17/4, dia do Golpe Parlamentar, aquele dia macabro quando a nação conheceu o grau de qualidade dos congressistas, o sujeito escreveu no seu perfil que gostaria de ver e saber da expressão de minha pessoa com todo aquele horror do impeachment...

Eu digo aqui que fiquei muito triste, senti uma tristeza que ainda não me abandonou. Não vai passar, porque o golpe foi consumado e o povo brasileiro não reagiu. Agora virão as consequências para a classe trabalhadora que represento.

Fiquei umas duas horas pensando se escrevia alguma resposta para o cidadão lá onde estão as merdas provocativas a mim e decidi que não vale a pena. Não vou me igualar a ele. Desejo saúde ao cidadão e que ele aprenda algum dia a respeitar as pessoas.

O sujeito que foi hoje à Cassi, depois que saí para o almoço, fazer provocações e dar indiretas que pode voltar após os resultados das eleições: outra coisa que me encheu o saco hoje, foi o fato de mais um sujeito(a) ir ao andar em que está a Diretoria que sou responsável falar umas indiretas e fazer umas provocações, insinuou que pode ser que ele volte conforme os resultados das eleições da entidade.

E olha que de manhã fizemos uma excelente reunião com os trabalhadores para tranquilizá-los sobre o dia a dia da nossa Caixa de Assistência. Fiquei pê da vida no fim da tarde ao saber e quase liguei para o cidadão.

Mas vamos combinar o seguinte: se o cidadão voltar após as eleições, estaremos lá para seguir defendendo os interesses dos associados e os projetos que representamos. O nosso trabalho em defesa da Cassi vai continuar da mesma forma que estamos fazendo.

Uma flor ao chão ainda é melhor
de se ver do que o ódio e provocações
de alguns animais humanos.

Bom, escrevi aqui e já passou. Não perco mais um minuto com esses sujeitos incomodando meus pensamentos. Seguimos perseguindo a arte de não deixar que os meios dos provocadores nos rebaixem ao nível deles.

William Mendes

domingo, 15 de novembro de 2015

Viver segue sendo muito perigoso...


Brasília com suas cores. Estamos em novembro,
mês dos Flamboyants vermelhos e laranjas.

Refeição Cultural - Diário 151115


Domingo em Brasília. Já estou há uma hora ouvindo a sinfonia de pássaros através da janela da sala de casa.

O mundo globalizado viu na última sexta-feira 13 os atentados terroristas em Paris. Quase duzentas pessoas perderam a vida ou estão na iminência de perdê-la. Os atentados foram assumidos pelo Estado Islâmico, um subproduto da destruição entre os anos noventa e dois mil dos países árabes e do Oriente Médio, destruição cuja responsabilidade tem forte relação com os países imperialistas do ocidente, capitaneados pelos Estados Unidos.

Como eu disse num texto anos atrás, o mundo segue hostil. O pior é que as perspectivas não são animadoras. Podemos ter um aumento da barbárie em escala mundial para as próximas décadas. Com o medo e o uso do medo, ampliam-se as intolerâncias, os preconceitos, xenofobias e tudo quanto é mazela do gênero. 

Analistas e estudiosos de história e de guerras afirmam que uma eventual 3ª Guerra Mundial seria muito diferente das duas primeiras registradas no século XX. Estas foram de países de um lado e outro, mas agora o mundo é dominado por corporações, que põem governos de joelhos, e por grupos de afinidades como religião, ideologias e outros liames.

A existência é um "Grande Sertão: veredas", para citar o grande Guimarães Rosa. Ou seja, além da afirmação clássica de que o sertão é em todo lugar, temos a questão das veredas e encruzilhadas da vida para cada ser vivo. Todos os dias, a todo instante, escolhemos fazer isso ou aquilo, decidimos optar por determinado caminho.


As veredas

As veredas... o tempo inteiro em nossa vida nos pegamos escolhidos para trilhar determinado caminho, para realizar determinada tarefa. Riobaldo Tatarana nunca quis ser o que foi, nem coragem ele tinha em ser jagunço, mas lá estava ele, no meio das maiores guerras dos sertões.

Se passa o mesmo com cada um de nós. Aqui no meu mundo, na minha vida. Na sua vida. Ali em Mariana, Minas Gerais, onde uma tragédia anunciada e prevista destruiu centenas de quilômetros de meio ambiente e vida (capitalismo). Lá em Paris, na França, com os atentados terroristas desta última sexta-feira 13. Por mais que planejemos algo, as adaptações extrapolam - e muito - o que estava desenhado.

Me peguei sindicalista. Agora me peguei gestor em saúde. Estava no lugar que procuraram e estava realizando minhas lutas quando me peguei com novas tarefas. Todos escolhemos e somos escolhidos o tempo todo. Já pensaram nisso?

Para voltar nas veredas, no sertão mundo. As pessoas estavam lá em Mariana, Mariana estava lá no meio das perspectivas de exploração e destruição de tudo que significa o modelo de produção capitalista, e a hora do desastre chegou. Porque é claro que o desastre sempre vem. É claro que vamos inviabilizar a existência no mundo. Os desgraçados donos do sistema capitalista e seus lacaios e ideólogos sabem que vão destruir o planeta, mas fazem o cálculo de que não será na vez da vida deles, e então atuam na base do foda-se a geração seguinte.

As veredas... a questão das veredas e do sertão mundo serve para refletirmos sobre qualquer coisa. Dezenas de pessoas foram mortas em Paris na última sexta-feira. As informações dão conta de que era uma linda noite de sexta. E então começaram os ataques e assassinatos de civis.


Viver é perigoso...

Com os novos conhecimentos em saúde que adquiri ao ser gestor de entidade de saúde, eleito por trabalhadores, convivo com nova dor de conhecimento - desde muito novo, partilho do conceito que o conhecimento às vezes nos traz dor e sofrimento, porque não conseguimos mudar as coisas -, enfim, nos dói saber o quanto é benéfico e poderíamos melhorar a vida de toda a população se pudéssemos cuidar da saúde dela desde cedo, atuando na educação em saúde e na atenção primária. 

Mais de setenta por cento das demandas de saúde quando o caso é grave, tem origem na falta de cuidado e acompanhamento de doenças crônicas. Quando a vítima chega à rede hospitalar, se houver rede hospitalar nos locais, ela tem uma chance menor de sobreviver e ficar sem sequelas e o custo para tratar sua demanda de saúde agudizada é exponencialmente mais caro. Grande parte das doenças graves são oriundas do não cuidado de questões básicas como controlar o colesterol, a diabetes e a hipertensão. De se controlar o estresse e a alimentação. De fazer exames periódicos para casos de histórico familiar.

É engraçado e trágico ao mesmo tempo. O ser humano passou a viver mais que três décadas com o passar de alguns milhares de anos porque melhorou a tecnologia das coisas cotidianas. Criamos os condimentos, sal, açúcar, fumo, álcool, gorduras saturadas, alteramos geneticamente os alimentos. Antes, a existência nos demandava esforço físico e aquilo que chamamos de atividades aeróbicas. Hoje, o humano é sedentário.

Na atualidade, os humanos vivem várias décadas a mais, porém morremos basicamente porque nossas veias e artérias entopem e explodem por falta de controle e acompanhamento do consumo de condimentos, sal, açúcar, fumo, álcool, gorduras saturadas, desequilíbrio no que se come. E tem também o estresse do mundo inseguro, caótico e da exploração humana pelo capitalismo. Explodimos também por isso.

Enfim, o mundo segue sendo o que é: um campo de batalha e em disputa por todos os seres vivos que nele habitam. 

Viver segue sendo muito perigoso.

William Mendes

terça-feira, 28 de julho de 2015

"Confesso. Eu cá não madruguei em ser corajoso..." (Riobaldo Tatarana)




Refeição Cultural


"Eu estava meio dúbito. Talvez, quem tivesse mais receio daquilo que ia acontecer fosse eu mesmo. Confesso. Eu cá não madruguei em ser corajoso; isto é: coragem em mim era variável. Ah, naqueles tempos eu não sabia, hoje é que sei: que, para a gente se transformar em ruim ou em valentão, ah basta se olhar um minutinho no espelho - caprichando de fazer cara de valentia; ou cara de ruindade! Mas minha competência foi comprada a todos custos, caminhou com os pés da idade..." (pág. 62)

(Grande Sertão: Veredas. João Guimarães Rosa. 1956. Edição 19ª, Editora Nova Fronteira)


Meu filho, esta postagem é pra dizer que te amo. É pra dizer que o amor que sabemos que sua mãe tem por ti é a maior coisa do mundo: é amor de mãe. Porque é incondicional. Amamos você e isso deve valer para superarmos cada estresse diário que temos nessa vida de veredas várias.

Filho, peço desculpas a você! Porque você está naquela idade dura e boa da adolescência e minha ausência devido ao meu trabalho e minha militância prejudica meu estar-à-disposição para você e para sua mãe, mesmo sabendo que jovem não quer saber muito dos pais. Temos que estar disponíveis física e psicologicamente.

Filho, tivemos uma noite intranquila, mas superamos ela (tão comum na vida!). Peço perdão a você porque na noite anterior, ao invés do abraço inicial, eu usei o olhar que construí desde pequeno no mundo duro em que me criei. E fui rude com quem só merecia o abraço naquele instante, não o olhar (que precisei recuperar para os inimigos, os adversários, porque estou enfrentando o mundo mais duro que já vivi).

Filho, a vida é dura. Quando cheguei menino em terra estranha tive que me transformar, "fazer cara de valentia, ou cara de ruindade". Imagina, então, para entrar para o trabalho braçal menino! Depois na adolescência de volta à São Paulo, a mesma coisa, ao andar nas madrugadas paulistas para trabalhar ou voltar para casa.

Sei o quão é intensa a sua juventude, porque vejo a minha juventude. O mundo mudou. A vida dos jovens de hoje é claro que não é a vida dos jovens de ontem. Mas os jovens são sempre os jovens. Intensidade. Explosão!

Filho, por fim, perdoe minha ausência e dedicação excessiva à missão que me deram. Acredito que filhos de militantes como nós tem uma vida diferente. Perdoe por transtornar a sua vida e a de sua mãe, tirando vocês do mundo de vocês por causa da missão que me deram. Estou fazendo o que posso para remediar.

Só mais uma coisa, filho: eu apóio que você seja o que você quiser ser. Nunca pensei diferente. Mas conversamos pouco. Se precisar de seu pai e de sua mãe, conte conosco nos repentes da juventude. Você é uma pessoa muito especial.

Me perdoe quando não conseguir desarmar minha armadura da luta quando olhar pra ti em algum instante. É que minha vida está muito dura, mesmo com a idade avançando nos tempos.

A diferença, hoje, é que meu coração não tem mais lugar pra ódio, como foi ao longo de boa parte da minha vida.

Um abraço apertado, filho.

William Mendes

domingo, 26 de julho de 2015

"Que eu não desejava arreglórias..." (Riobaldo Tatarana)



Este é o céu que me protege, visto de minha vereda atual.

Refeição Cultural - Diário 260715

"Todos estavam lá, os brabos, me olhantes - tantas meninas-dos-olhos escuras repulavam: às duras - grão e grão - era como levando eu, de milhares, uma carga de chumbo grosso ou chuvas-de-pedra. Aprovavam. Me queriam governando. Assim estremeci por inteiro, me gelei de não poder palavra. Eu não queria, não queria. Aquilo revi muito por cima de minhas capacidades. A desgraça, de João Goanhá não ter vindo! Rentemente, que eu não desejava arreglórias, mão de mando. Enguli cuspes. Avante por fim, como que respondi às gagas, isto disse: - 'Não posso... Não sirvo...'
- 'mano velho, Riobaldo, tu pode!' ". (Pág. 96)

(Grande Sertão: Veredas. João Guimarães Rosa. Editora Nova Fronteira, 19ª Edição)


Domingo. Acordei depois das nove horas da manhã. Quebrado fisicamente. Corpo talhado. Foi a primeira noite de sono completo na madrugada desde a terça-feira passada.

No sábado, não consegui dormir durante o dia. Tentei duas vezes. A adrenalina e a energia que mentalizei em mim para dar conta da agenda de trabalho intelectual e político que teria na semana me deixou pilhado feito um homem-máquina-de-guerra para suportar dias que sabia que seriam intensos.

Passei a madrugada de sábado em viagem de Manaus a Brasília. Passei a madrugada de sexta em viagem de Boa Vista a Manaus. Passei a madrugada de quinta em viagem de Brasília a Boa Vista. E nos outros dias da semana já havia dormido muito pouco porque a segunda, terça e quarta haviam sido de dezenas de horas internas de deliberações e debates acalorados na entidade de saúde em que sou gestor eleito.

Enfim, estou fisicamente quebrado, mas a semana foi vencida com humildade e flexibilidade nas táticas e muita firmeza nos propósitos, pois na posição de comando em que nos colocaram, sabemos bem o que queremos e vamos perseguir os objetivos até o último instante de nossa missão.

Um sentimento e uma certeza sobre a jornada da semana

Quando insistiram por tempos para aceitar o desafio da nova posição de representação, sabiam que eu não pleiteava nada disso. Ao final, veredas me fizeram aceitar. Sabia que seriam jornadas duras porque o meu jeito é o conciliar do saber e do fazer, e um só eu sou. Mas estamos firmes do jeito que somos.

A certeza que tenho é que só sei fazer minha missão assim, sem virar burocrata, indo falar com gente. Por mais que isso me consuma, por jornadas casadas de estudos e bases.

Um sentimento que tenho é de gratidão. Já fui em lugares onde não me conheciam e, quiça, alhures, não me queriam, mas me ouviram e ao final tudo ficou bem. Somos da mesma comunidade humana: comunidade BB. Agradeço as acolhidas respeitosas por onde tenho passado, independente das divergências políticas, tão comuns pelo que somos. 

Dias que virão

Os embates e momentos de grandes decisões na vida de representação e trabalho nos trarão ainda grande obrigação de sermos resistentes e inteligentes porque os tempos são duros e duros temos que ser, mas como somos o que somos, nossa dureza nos propósitos deve ainda ter suas pitadas de solidariedade, amor, amizade e fraternidade. Nosso lado é o da esquerda e da classe trabalhadora. Insisto na Unidade!

Romaria

Na vida pessoal, tenho um desafio de resistência física daqui a poucos dias. Vou fazer em agosto minha caminhada na Romaria de Uberlândia a Água Suja, lá em Minas Gerais. Com o desgaste físico que temos tido pela intensidade da dedicação ao trabalho, estou só o "caquinho". Mas vou sair, caminhar com firmeza meus 75 km e chegar ao destino. Acredito nisso, e se acredito, minha mente levará meu corpo até lá.

Vamos viver os momentos deste domingo, que são raros e estou em casa para os instantes de mim mesmo.

William Mendes

quarta-feira, 22 de julho de 2015

"Vida devia de ser como na sala do teatro..." (Riobaldo Tatarana)





"- 'Você tem saudade de seu tempo de menino, Riobaldo?" - ele me perguntou, quando eu estava explicando o que era o meu sentir. Nem não. Tinha saudade nenhuma. O que eu queria era ser menino, mas agora, naquela hora, se eu pudesse possível. Por certo que eu já estava crespo da confusão de todos. Em desde aquele tempo, eu já achava que a vida da gente vai em êrros, como um relato sem pés nem cabeça, por falta de sisudez e alegria. Vida devia de ser como na sala do teatro, cada um inteiro fazendo com forte gosto seu papel, desempenho. Era o que eu acho, é o que eu achava". (pág. 260/261)

(Riobaldo Tatarana, in: Grande Sertão: Veredas. Guimarães Rosa. Editora Nova Fronteira, 19ª edição)


Refeição Cultural

Reflexão profunda do personagem Riobaldo Tatarana, jagunço aposentado, em confissão ao visitante que lhe ouve.

"Vida devia de ser como na sala do teatro, cada um inteiro fazendo com forte gosto seu papel, desempenho".

Fico pensando minha vida, hoje. Eu inteiro, com forte gosto, fazendo meu papel, cumprindo meu desempenho na Cassi.

Comecei a trabalhar nesta semana no domingo às 19 horas: leitura da pauta semanal para a reunião da Diretoria Executiva da Caixa de Assistência em que sou gestor eleito pelo corpo social. De domingo à noite até a terça-feira 22 horas, investi umas 30 horas na gestão da entidade. Meu papel no teatro mundo, papel que exerço no inteiro, com forte gosto e senso de responsabilidade.

Quando miro e vejo meu viver, pensando em meu eu menino, naquele tempo, que foi depois dos dez anos, de quando não fui mais feliz, "Nem não. Tinha saudade nenhuma. O que eu queria era ser menino, mas agora, naquela hora, se eu pudesse possível".

Viver é muito perigoso...

Meus dias têm me testado de forma impressionante. Como suportar alguma gente em papeis no teatro em que estamos, gente fanfarrona!? Gente que acho que nem num se estressa, porque tá fazendo papel de faz-de-conta de ser gente de desempenho... bizarrice, como diz na literatura em questão.

Enfim, encontrar a serenidade no papel da gente, nesse teatro, é necessário. E, nesta semana, ainda vou até sábado, numa jornada que terá voos longos, três madrugadas seguidas acordado. Vou lá na ponta de nosso país mundo. Vou no Norte: Roraima e Amazonas.

Tentar fazer meu papel com desempenho.

Seguimos. Se a vida é um teatro ou não, nós temos papel a desempenhar. O meu, não quero falhar.

William Mendes

domingo, 19 de julho de 2015

"mas raiva mesma nunca se deve de tolerar de ter" (Riobaldo Tatarana)



O caminho do nosso viver é como cada ramificação nas
coisas da natureza, como vemos nas árvores, nas artérias,
nos vales, nos relevos, na vida. Basta escolhermos bem o caminho.

Refeição Cultural

"Do que de uma feita, por me valer, eu entendi o casco de uma coisa. Que, quando eu estava assim, cada de-manhã, com raiva de uma pessoa, bastava eu mudar querendo pensar em outra, para passar a ter raiva dessa outra, também, igualzinho, soflagrante. E todas as pessoas, seguidas, que meu pensamento ia pegando, eu ia sentindo ódio delas, uma por uma, do mesmo jeito, ainda que fossem muito mais minhas amigas e eu em outras horas delas nunca tivesse tido quizília nem queixa. Mas o sarro do pensamento alterava as lembranças, e eu ficava achando que, o que um dia tivessem falado, seria por me ofender, e punha significado de culpa em todas as conversas e ações. O senhor me crê? E foi então que eu acertei com a verdade fiel: que aquela raiva estava em mim, produzida, era minha sem outro dono, como coisa solta e cega. As pessoas não tinham culpa de naquela hora eu estar passeando pensar nelas. Hoje, que enfim eu medito mais nessa agenciação encoberta da vida, fico me indagando: será que é a mesma coisa com a bebedice de amor? Toleima. O senhor ainda me releve. Mas, na ocasião, me lembrei dum conselho que Zé Bebelo, na Nhanva, um dia me tinha dado. Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é. Zé Bebelo falava sempre com a máquina de acerto - inteligência só. Entendi. Cumpri. Digo: reniti, fazendo finca-pé, em força para não esparramar raivas...

(Riobaldo Tatarana, em Grande Sertão: Veredas. Guimarães Rosa, 1956. Editora Nova Fronteira, edição


Muitas reflexões, muitas.

A obra Grande Sertão: Veredas é atemporal, universal, porque aborda os grandes dilemas e agruras da natureza humana. Amor e ódio. Amor proibido. Medo. Matar ou morrer. O homem e o viver em meio à natureza hostil, dura. As encruzilhadas, veredas, na vida de cada um de nós, e as decisões a serem tomadas o tempo todo em nossa existência; que pode ser breve, brevíssima; pode ser longa. Pode ser longa em tempo breve (o sofrer), ou breve em tempo longo.

O que é uma vida humana em relação ao tempo de nosso planeta, de nosso mundo próprio?

Nossa natureza arrogante insiste em afirmar o tempo todo que somos donos de nosso destino e tudo planejamos e prevemos. Toleima. Somos escolhidos e pegos o tempo todo, quando vimos, já era!

Este que vos fala, autor deste modesto blog, já antigo e obsoleto pro tempo curto das coisas com atualizações instantâneas de tudo, enfim, grande parte de minha vida de proletário ou subproletário foi vivida alimentada por sentimentos de raiva e ódio. Desde a mais tenra adolescência.

Como diz o sábio Zé Bebelo, as raivas e ódios todos que senti faziam com que os alvos de minhas raivas - pessoas, grupos sociais ou pessoas jurídicas e sistemas -, fossem governantes de minhas ideias e tivessem soberania de meus objetivos, e então, de meu destino.

Depois de uma parte de minha vida assim, a vida me pescou e me vi em outra função social, representando gente: classe trabalhadora. Passei mais de uma década com muita soberania de minhas ideias. Delas pensei ações para liderar os trabalhadores e as lutas. Mas sem ódio, só determinação nas ideias.

Em 2014, ano deveras tumultuado no meu ser, por breves instantes, muitas raivas senti. Elas dominaram minhas ideias algumas semanas. Com apoio de ombros amigos, voltei o foco pras tarefas a seguir.

Hoje estou com total soberania das ideias, muito foco no fazer. Ciente que as tarefas são duras. Ganhar ou perder. Mas não tenho raiva nenhuma dominando minhas ideias. Isso é muito bom.

Mas lá fora, no meu país, no meu mundo, nos meios onde transito, no meu espaço dos movimentos sociais, tem muito ódio e muitas raivas nos destruindo, destruindo nossos focos na luta de classe contra os verdadeiros inimigos. Destruindo nossos laços de família e de amigos e conhecidos.

É pena, é triste! Minha gente pode voltar a ter soberania nas ideias a qualquer instante, basta querer. Juro pra vocês que fiz isso em poucos dias em um único mês, tempos atrás. E estou de coração leve e dono de minhas ideias.

William Mendes

quinta-feira, 16 de julho de 2015

"O que eu purgava era ranço nervoso, sobra da esquentação..." (Riobaldo Tatarana)


Entardecer, o lusco-fusco em Brasília, Planalto Central.
Foto: William Mendes.

Refeição Cultural

"Contei ao Jõe o que eu estava sentindo estúrdio; se não era agouramento? E ele me apaziguou: que anjo aviso não vinha desse jeito, antes era uma certeza que minava fininha, de dentro da ideia da gente, sem razoado nem discussão. O que eu purgava era ranço nervoso, sobra da esquentação curtida nas horas de tiroteio. - 'Comigo, assim, depois de cada forte fogo, me dá esse porém. É uma coceira na mente, comparando mal. Faz regular uns seis anos, que estou na jagunçagem, medo de guerra não conheço; mas, na noite, passado cada fogo, não me livro disso, essa desinquietação me vem...' "

(Riobaldo Tatarana com Jõe Bexiguento. Grande Sertão: Veredas - João Guimarães Rosa. Editora Nova Fronteira, 19ª edição)


O meu dia de hoje começou antes do dormir dele, lá na madrugada. Na véspera, tive um dia de grande estressamento. Sangue nas têmporas. Tive uma noite de não descanso. "o que eu purgava era ranço nervoso". Acordei tarde e com "uma coceira na mente".

Na Ditec BB DF. 16/7/15
Depois de trabalhar com textos e estudos pela manhã, tive uma tarde boa conversando com trabalhadores que represento, debatemos a nossa Caixa de Assistência. Esse fato melhorou meu "ranço nervoso" da véspera.

Voltando pra casa, já no lusco-fusco do entardecer - nunca igual de Brasília -, ainda tinha uma "sobra da esquentação curtida nas horas do tiroteio" da véspera.

Não tinha outro jeito que não fosse calçar um tênis, por um calção e sair para correr na noite, sem pressa e pra queimar aquilo no sangue.

As pernas estavam pesadas. Mas corri 47 minutos pelas alamedas e arvoredos frescos da noite candanga. Só assim me livrei daquela "desinquietação" que me veio no dia anterior.

São muitas coisas ocorrendo e a gente tá cuidando da missão que nos foi dada. Mas tá complicado ver o que vem por aí no meu país, pro meu povo.

"medo de guerra não conheço" como diz Jõe Bexiguento... mas dá uma dó danada do que vai virar meu país e a vida do meu povo.

William Mendes

quarta-feira, 15 de julho de 2015

"Este mundo é muito misturado" (Riobaldo Tatarana)





Refeição Cultural


"Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o rúim rúim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados... Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado..." (p. 237)

(Riobaldo Tatarana - Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa. Editora Nova Fronteira, 19ª edição)


Um pensamento, um falar simples com uma reflexão profunda sobre a existência humana.

O desejo meu é que as coisas fossem sempre muito claras, lados definidos etc como bem dito acima com sabedoria jaguncês. Mas a vida na prática não é como a gente quer.

E por isso também está ali bem explicado o segredo do viver: "a esperança mesmo do meio do desespero".


Estou enfiado numa missão muito desafiadora nesta altura de minha vida de representação dos trabalhadores: fortalecer a Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, uma entidade de saúde num mundo da saúde em crise. Lá cheguei faz um ano e tanto aprendi e mudei. E não mudei. 

Mudei no aprender técnico e nas certezas que não tinha. Não mudei no saber o que represento e o que estou fazendo lá.

Vida dura no transitar. Eu carecia "que o bom seja bom e o rúim rúim" mas a realidade no convívio com os seres humanos está longe longe disso. Mas a gente segue muito firme nos propósitos.

Este mundo é muito misturado...

William Mendes

quarta-feira, 8 de julho de 2015

A inevitável emoção de ser o ouvinte de Riobaldo Tatarana!


08 07 15 > 15 15 > 8 8 > 




Emoção!

Olhos cheios d'água!

Depois de tanto tempo de leitura iniciada... interrompida... nas veredas de minha vida.

Riobaldo Tatarana conta a um ouvinte, um forasteiro, em seu retiro, sua história. Seus medos. Suas dores. Seu amor!

Tantos anos! Tantas veredas...

Meu sertão, minhas veredas.

Hoje meu sertão é o Planalto Central!

As veredas? Estou embrejado em uma... mas ainda são tantas!

Meu sertão!

Minhas veredas!

Ainda quero muitas...




segunda-feira, 6 de julho de 2015

Fim de semana focado em minha sanidade



Leituras de um fim de semana em busca de alimento cultural

Refeição Cultural

Já estamos na madrugadinha da segunda-feira, 6 de julho. Quando cheguei sexta-feira do trabalho, estava bem esgotado.

Neste fim de semana, procurei dormir um pouco mais, li muito, corri, fiquei em casa com a família, falei com meus pais por telefone, assisti a coisas boas como "Planeta Terra" e um pouco da minissérie dos anos oitenta "Grande Sertão: Veredas".

Eu precisava me desligar um pouco de meu trabalho na Cassi, onde sou gestor eleito pelos trabalhadores e tenho jornada de trabalho intensa. 


Corridas e preparação para fazer longa caminhada em agosto

Neste domingo à tarde, saí para correr em Brasília com uma temperatura quente (26 graus) e pouca umidade no ar. A corrida foi bem difícil e exigiu grande esforço respiratório. Mas gosto de testar meus limites. Corri 35' e estarei preparado para fazer minha caminhada de 75 km em agosto lá em MG.


Leituras para alimentar a mente, o caráter e a cultura

Neste fim de semana dei a mim o direito de esquecer um pouco o cenário político e o meu trabalho e procurei fortalecer minha sanidade lendo coisas maravilhosas.

Retomei a leitura de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosas. Parei a leitura faltado pouco mais de cem páginas. Li cinquenta páginas hoje. A leitura atenta de literatura com linguagem tão especial nos faz abrir o cérebro e alimentá-lo positivamente. Como fiz Faculdade de Letras tenho ao menos consciência do grande poder de aumento da capacidade intelectual que a leitura permite aos seres humanos.

Reli e melhorei minhas postagens sobre a importante obra Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado. Novamente, a linguagem é diferente da anterior. Como o próprio Furtado diz no prefácio, é um ensaio e conjuga história, economia e cultura brasileira.

De quebra, reli umas oitenta páginas da grandiosa obra de Luís de Camões - Os Lusíadas. Que coisa fantástica e que linguagem completamente diferente das duas anteriores. Ganho eu e ganha meu cérebro ao ser cutucado de forma bem melhor que ficar navegando em redes sociais (na minha opinião).

Por fim, reli um pouco dos episódios de um livro que tenho sobre a série Arquivo X - The truth is out there, the official guide to The X Files, dos anos noventa. Para descontrair em algumas noites, tenho revisto episódios quando chego do trabalho. Aproveitei e revi meu inglês, novamente linguagem diferente que cutuca meu cérebro a buscar em suas conexões o que já aprendeu.


Planeta Terra

Por fim, tenho terminado os domingos assistindo ao programa Planeta Terra. A cada semana, após os episódios, fico pensando nos seres humanos, nos animais e plantas, neste nosso Planeta e no que estamos fazendo conosco e com ele...

Nós temos como viver melhor entre nós humanos e na relação de convivência humanos e meio ambiente. Só temos que deixar de ser egoístas, ignorantes, intolerantes e sermos mais solidários, gregários e conscientes do quanto somos frágeis enquanto seres no Universo.

Refleti muito.