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domingo, 5 de março de 2017

Distopia - Caminhamos para o fim do mundo (como o conhecemos)


Apresentação do Blog:


Olá leitores amig@s,

Ao fazer minhas leituras matutinas neste domingo, me peguei descabriado.

Outro dia, havia postado aqui o meu desacorçoo (ler AQUI). Hoje estou descabriado. O mundo como o conhecemos está se desfazendo. Me parece que as ficções do século 19 e 20 sobre mundos distópicos, mundos apocalípticos, deixarão de ser ficção e se tornarão realidade.

Em meio à prevalência do estado natural do mundo animal (O leviatã, Thomas Hobbes), onde predomina a lei do mais forte e mais adaptado, e onde nós mamíferos humanos somos só mais uma espécie, o mundo humano alternou nas civitas, nas comunidades organizadas, de tempos em tempos, momentos de um pouco mais de prevalência de valores solidários, cooperativos, em sociedades humanas com limites ao poder totalitário e com mecanismos de maior democracia ou direitos coletivos.

No mundo ocidental no século 20, isso ocorreu depois das duas grandes guerras mundiais. Apesar do mundo passar a ser bipolar entre dois modelões antagônicos - Capitalismo x Socialismo -, havia um pouco mais de valores centrados nos seres humanos. Essa é a minha impressão.

E para onde caminhamos na atual fase do capitalismo global? Qual o valor de um ser humano neste tabuleiro onde as peças dos grandes players se movem? O que valho eu, você, a Dirce, minha mãezinha, o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva? Quanto vale a vida do garotinho de 13 anos morto recentemente em frente ao Habib's (em São Paulo), ao que tudo indica pelos seguranças desta corporação?

Quem acredita que a minha existência tem o mesmo valor que a existência do dono do Facebook, ou dos irmãos Marinho?

Caminhamos ou já adentramos nos mundos ficcionais do 1984, de Orwell, ou no mundo Matrix, dos irmãos Wachowski. O previsto no Admirável Mundo Novo, de Huxley, já se tornou realidade. Nossa sociedade humana pós-crise do subprime (2008) e a disputa pelo que resta de petróleo no mundo já é a realidade apocalíptica Mad Max (que importa destruir uma dúzia de nações para ceder os poços de petróleo que restam para as Sete Irmãs do imperialismo do Norte?).

O Facebook confessou recentemente (matéria abaixo) que seu projeto de expansão global é político e de hegemonia. Assim como já é disputado por outras corporações do mundo cada metro quadrado do Planeta e cada neurônio disponível dos sete bilhões de mamíferos humanos. Com a velocidade da pregação de mentiras nas redes sociais, principalmente através de ferramentas como o Facebook, a pós-verdade é a nova ordem mundial)

E eu pergunto: o nosso histórico um ou dois por cento de lideranças do campo dos trabalhadores, dos explorados, do lado progressista, que conseguiu através das organizações sindicais e populares fazer enfrentamentos contra esse sistema desde pelo menos a revolução industrial, onde está? Temos um milheiro de pessoas do nosso campo, unidos e engajados neste momento em organizar a contra-ofensiva à dominação de nós todos por esses poucos donos de tudo? Temos NADA! Estão todos divididos disputando ninharias de estrutura de poder sindical.

Na boa, vou dar a minha opinião sobre uma suposta possibilidade de Lula ser candidato a uma suposta eleição para a presidência do que sobrou do Brasil devastado e em devastação pós-golpe organizado pelos lesa-pátrias: SEM TRABALHO DE BASE REAL, Lula não ganha a eleição contra nenhum candidato da nova ordem mundial. NÃO GANHA!

O tempo passa. Só de ficar pensando nisso, meu domingo já foi... que saco! Segunda-feira bem cedo, retomo minha vida na luta "quase inglória" pela defesa da Cassi (e seu sistema contra-hegemônico) e dos direitos dos associados. É minha tarefa neste front-latifúndio-mundo.

Chega por hoje!

William


(reprodução de matéria)


Quem conhece e controla as conexões
governará o mundo, sabe Zuckerberg.

Internet


Qual é o plano do Facebook para dominar o mundo?

Por Antonio Luiz M. C. Costa — publicado em Carta Capital, 05/03/2017 00h10, última modificação 03/03/2017 09h53


Mark Zuckerberg anuncia manifesto para construir uma comunidade global. Não é um exagero. Antes fosse


Seria de esperar, após a eleição de Donald Trump, alguma autocrítica por parte dos executivos do Facebook, mais eficiente das ferramentas para a difusão dos boatos e mensagens de ódio que contribuem para a ascensão da ultradireita no mundo.

Foram anunciadas em janeiro ideias sobre consultar agências especializadas na veracidade de notícias e restringir anúncios pagos em publicações de produtores contumazes de falsidades, até agora com poucos resultados práticos, mas faltava uma reflexão mais geral sobre o papel da rede.

Na quinta-feira 16, Mark Zuckerberg por fim a proporcionou – e o resultado é tão assustador quanto a própria ascensão da extrema-direita. Nesse manifesto de 6 mil palavras, “Construir a Comunidade Global”, exibe-se a pretensão não de aperfeiçoar um produto, mas de substituir os quatro poderes, mídia incluída, e ditar o destino do mundo. Alguns excertos:

Nosso próximo foco será desenvolver infraestrutura social para a comunidade – para nos apoiar, para nos manter seguros, para nos informar, para o engajamento cívico e para a inclusão de todos. A história é a narrativa de como aprendemos a conviver em números cada vez maiores, de tribos a cidades e nações. Hoje estamos perto do próximo passo. O Facebook propõe-se a construir uma comunidade global. Questiona-se se podemos fazê-la funcionar para todos e se o caminho é conectar mais ou voltar para trás. Vozes temerosas pedem a construção de muralhas.

Nosso sucesso não se baseia apenas em se podemos capturar vídeos e compartilhá-los com amigos. É sobre se estamos construindo uma comunidade que ajude a nos manter seguros, que previna danos, ajude nas crises e na posterior reconstrução. Nenhuma nação pode resolver esses problemas sozinha.

Os atuais sistemas da humanidade são insuficientes. Esperei muito por organizações e iniciativas para construir ferramentas de saúde e segurança por meio da tecnologia e fiquei surpreso por quão pouco foi tentado. Há uma oportunidade real de construir uma infraestrutura de segurança global e direcionei o Facebook para investir mais recursos para atender a essa necessidade
”.

O Facebook, conhecido em toda parte por se esquivar de impostos e de responsabilidades legais e morais, propõe-se a exercer em escala mundial funções típicas de um governo – se não também de uma igreja – e ainda monopolizar o acesso à informação. Se Zuckerberg tivesse anunciado abertamente a intenção de se candidatar à Presidência dos EUA, como chegou a se especular há algumas semanas, seria menos preocupante.

Ganhar bilhões com convencer as pessoas a desnudar a alma na internet e vender informações sobre elas a empresas e políticos já é ruim o suficiente. Enquanto Hillary Clinton conduziu uma campanha pela tevê difundida ao público geral, Trump baseou-se na rede social para direcionar anúncios a segmentos específicos e testar as reações a pequenas variações.

Propaganda anti-imigração, por exemplo, foi especialmente direcionada aos fãs de The Walking Dead após se constatar uma forte correlação entre xenofobia e o gosto pelo seriado e escondida de setores (latinos, por exemplo) que a consideravam antipática.

Com esse manifesto o Facebook propõe-se, porém, não apenas a catalogar identidades, opiniões, preferências, relações sociais e comunidades para lucro financeiro ou político de terceiros, mas a moldá-las e administrá-las conforme a visão da equipe de Zuckerberg, que não presta contas à democracia nem a ninguém, enquanto torna cada vez mais dependente dessa “infraestrutura” a busca de relacionamentos sociais, afetivos e profissionais e até o deslocamento no mundo real: uma viagem à Florida pode hoje depender da abertura de uma conta na rede social às autoridades dos EUA e estas ficarem satisfeitas com o que virem.

À luz dessa realidade, estes trechos soam ameaçadores: “Em campanhas recentes, dos EUA à Índia, passando pela Europa, vimos vencerem os candidatos com seguidores (no Facebook) mais numerosos e entusiasmados. Podemos estabelecer o diálogo e a prestação de contas diretamente com os líderes eleitos”. Conforme pergunta uma jornalista do Guardian, Carole Cadwalladr, como reagiríamos se Zuckerberg se chamasse Mikhail e sua empresa fosse sediada em Moscou?

Acrescente-se que, no Brasil, 55% pensam que o Facebook é a internet, assim como 58% na Índia, 61% na Indonésia e 65% na Nigéria, diz pesquisa da revista Quartz de fevereiro de 2015. A maioria dessas pessoas jamais pagará assinaturas físicas ou digitais de jornais e revistas e aceitará a informação como for apresentada na rede de Zuckerberg.

A possibilidade de descobrir outra coisa nem sequer existe para os mais de 40 milhões de usuários da internet.org, parceria de Zuckerberg com empresas de telecomunicações que oferece conexão grátis limitada ao Facebook e Wikipédia em vários países da América Latina, África e Ásia.

A seleção dessa informação tem sido baseada em grande parte em usuários dispostos a prestar serviços gratuitos como cobaias, editores e curadores. Os algoritmos sabidamente selecionam o que é apresentado em função de preferências anteriores, pois os usuários permanecem mais tempo ligados e clicam mais anúncios se não forem tirados de suas zonas de conforto.

Como também é notório, a exclusão de postagens e a suspensão ou expulsão de usuários baseiam-se em critérios ridículos, indiferentes a mentiras, mensagens de ódio e cenas de violência, impiedosos contra imagens de mamilos e nus artísticos e submissos a qualquer grupo organizado disposto a denunciar em massa quem postar mensagens – na maioria das vezes, feministas ou antirracistas – que lhes desagradem. Como será no futuro?

Zuckerberg conta com inteligências artificiais capazes de assinalar postagens “ofensivas” e capacitar os usuários a fazer sua própria censura: “Onde está seu limite para nudez, violência, imagens chocantes e obscenidades? Você decidirá suas preferências pessoais. Para quem não tomar uma decisão, a configuração predefinida será da maioria das pessoas de sua região, como em um referendo”.

Quem morar em uma região conservadora, verá apenas mensagens selecionadas por critérios conservadores. Em tese poderá decidir por outros filtros, mas, se acaso conseguir decifrar o funcionamento dos opacos algoritmos da rede, seu inconformismo logo será óbvio para os demais usuários e as autoridades.

Ao menos caiu a máscara com a qual o Facebook se apresentava como uma plataforma neutra para mensagens de responsabilidade de terceiros. Admitiu uma agenda política com o objetivo de conformar o mundo ao seu gosto e a um ideal tecnocrático que, tanto quanto o autoritarismo racista de Trump e Le Pen, fede aos anos 1930 e neles foi satirizado por Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo. Cabe a quem acredita na democracia desafiá-la e buscar os meios de tirar do monopólio privado os meios de ditar a opinião e o interesse público.

Fonte: Carta Capital

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Artigos: Onde está a (pós) verdade? - Antonio Luiz M. C. Costa


Apresentação do Blog:

Olá prezad@s leitores amig@s,

Tenho me interessado pela questão da pós-verdade. Nos encontramos num momento crítico da história mundial neste início de século 21. 

Para melhor compreensão minha mesmo e de alguns amig@s leitores, vou registrar no Blog alguns artigos sobre o tema, para depois poder refletir a questão em algumas de minhas análises sobre acontecimentos em nosso querido Brasil e também no meio em que atuo, a gestão em entidade de saúde dos trabalhadores, organizada em modelo assistencial contra-hegemônico de atenção primária e administrada em gestão compartilhada entre a empresa e os trabalhadores, que elegem a metade da governança.

Pensem comigo: vocês têm o hábito de replicar e reproduzir informações que lhes chegam no mesmo momento da recepção ou procuram ter um mínimo de dúvidas a respeito e procuram alguma outra fonte de informação para ter mais convicção sobre o fato? Replicar e difundir informações sem cuidado algum é muito ruim. Isso é muito sério!

Abraços fraternos,

William 


(reprodução de matéria - não utilizei as imagens originais)




Onde está a (pós) verdade?

Por: Antonio Luiz M. C. Costa
Fonte: Carta Capital - publicado em 19/12/16


Atribuir a vitória de Trump a Putin é absurdo, mas, de fato, há uma nova dinâmica de “notícias falsas” a ser observada


De Curitiba a Seul, o ano de 2016 foi rico em espetáculos políticos grotescos em todos os sentidos e todos os continentes, mas nenhum é tão estrambótico quanto o Kremlin ser acusado pela CIA e pelos democratas de ter interferido na eleição presidencial dos Estados Unidos a favor de Donald Trump, difundindo “notícias falsas” e espionando os democratas para vazar e-mails comprometedores.

Exceto, talvez, o próprio eleito dar de ombros e negar credibilidade ao serviço de inteligência que está prestes a dirigir. “São os mesmos que afirmavam que Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa.”

Com razão, é preciso admitir. Nada melhor para demonstrar a mendacidade da comunidade de inteligência estadunidense do que lembrar o infame episódio no qual Bush filho, Tony Blair e seus respectivos serviços de inteligência forjaram a patranha que serviu de pretexto à invasão e à pilhagem do petróleo do Iraque ao custo de centenas de milhares de vidas, trilhões de dólares e a desestabilização irreversível do Oriente Médio.

Queixar-se da espionagem alheia é ainda mais hipócrita por parte do país que admitiu espionar até chefes de governo e de Estado de países ricos e aliados como Angela Merkel e François Hollande. E absurda do ponto de vista do Hemisfério Sul, onde é notória a interferência da CIA e de fundações estadunidenses nos processos eleitorais, na construção da opinião publicada e na derrubada de governos eleitos.

Entretanto, a noção ganha espaço também na Europa, onde o canal RT (Russia Today) teve suas contas no banco britânico NatWest subitamente encerradas em outubro. O Parlamento Europeu aprovou em novembro, por 304 votos a 179, uma resolução proposta por conservadores tradicionais que, em tom de Guerra Fria, pede a Bruxelas para “responder à guerra de informação movida pela Rússia para distorcer a verdade, provocar dúvidas, dividir a UE e seus parceiros estadunidenses, paralisar o processo de tomada de decisão, desacreditar as instituições e incitar ao medo e à incerteza entre os cidadãos”.

Quanto aos populismos em ascensão, apesar de seu nacionalismo, festejam os sites russos RT e Sputnik, simpáticos a Vladimir Putin, tanto quanto o estadunidense Breitbart News, de Steve Bannon, decisivo para eleger Trump e prestes a lançar edições francesa e alemã para apoiar as campanhas de Marine Le Pen e Frauke Petry.

Na Itália, o Movimento Cinco Estrelas é acusado pelo BuzzFeed News de construir “uma rede em expansão de sites e contas em redes sociais para espalhar notícias falsas, teorias conspiratórias e histórias pró-Kremlin a milhões”, cujos núcleos seriam o blog pessoal de Beppe Grillo e o site TzeTze, que pertence ao partido.

Diferentes instituições escolheram como “palavras do ano” post-truth em inglês e postfaktisch em alemão, ambas traduzíveis como "pós-verdade". Trata-se de um nome novo para os embustes de sempre, de uma maneira de afetar sofisticação para desqualificar o ponto de vista adversário ou existe de fato alguma tendência nova a justificar o debate?

Como insiste o jornalista Glenn Greenwald em polêmicas públicas, “notícias falsas” é um termo tão maleável quanto “terrorismo” e igualmente passível de manipulação retórica. Pode significar desde desinformação consciente até teorias conspiratórias e mesmo informações verdadeiras obtidas de maneira tida como ilegítima, como os vazamentos do WikiLeaks, ou divulgadas de maneira parcial, como também frequentemente fazem as mídias “sérias”.

Falar da mentira como fenômeno político novo e associado a “ideologias exóticas”, como gostavam de dizer os ditadores do regime militar brasileiro, é falso. Antes de existirem sites e redes sociais, embustes eram divulgados pela mídia tradicional e boatos transmitidos boca a boca.

Quem viveu a campanha de 1989 ainda se lembra de como eleitores de classe média acreditavam piamente que Lula ia confiscar suas poupanças e obrigá-los a dividir seus apartamentos com sem-tetos e de como jornais e tevê relacionaram falsamente o sequestro de Abilio Diniz ao PT. A manipulação política dos boatos é tão antiga quanto a própria política, das acusações a Sócrates na Atenas clássica aos Protocolos dos Sábios de Sião do czarismo.

Dito isso, na medida em que o meio é (até certo ponto) a mensagem, há uma novidade. Empresas como Google e o Facebook facilitam a difusão de fraudes e as tornam mais atraentes. Por um lado, pelo ganho simbólico de popularidade nas redes sociais, tanto mais rápido e fácil quanto mais sensacionalistas forem as postagens. Por outro, pela remuneração em dinheiro.

Seus sistemas permitem aos autores dessas publicações embolsar certa quantia a cada clique ou visualização de anúncios a elas vinculados, frequentemente de empresas supostamente respeitáveis que parecem emprestar credibilidade ao conteúdo.

O Washington Post entrevistou um “empreendedor” que diz ter preferido Hillary Clinton, mas tirado 10 mil dólares mensais do AdSense (serviço de publicidade do Google) inventando histórias islamófobas e pró-Trump. Em Veles, cidade de 50 mil habitantes na Macedônia, centenas de adolescentes ganham milhares de euros por mês com o mesmo “trabalho”, com o apoio entusiástico da prefeitura.

Não que democratas, liberais e socialistas sejam imunes a crer em notícias falsas e reproduzi-las sem verificação, mas o fervor, o dogmatismo e o baixo nível cultural fazem dos partidários da direita populista excelentes multiplicadores de qualquer absurdo que pareça confirmar suas crenças.

Uma pesquisa da Ipsos mostra que 75% das notícias inequivocamente falsas mais notórias na campanha dos EUA foram acreditadas pelos pesquisados. Notícias verdadeiras foram acreditadas apenas um pouco mais: 83% das vezes.

O mais surpreendente é que, embora as pessoas acreditem mais em mentiras que confirmem suas ideias, frequentemente as aceitam mesmo quando as contrariam. Uma mistificação segundo a qual um agente que investigava Hillary havia sido encontrado morto foi acreditada por 85% dos republicanos e 52% dos democratas.

Não se sabe o quanto tais notícias influenciaram a eleição, mas é certo que inspiram muitos dos atos de intolerância contra minorias e mulheres pós-eleição e pelo menos um atentado. Em 4 de dezembro, um republicano fanatizado foi preso após disparar contra uma pizzaria em Washington, que, segundo falso boato difundido nas redes, seria sede de uma rede de pedofilia e tráfico de crianças comandada por Hillary e seu chefe de campanha.

A saturação do ambiente digital por fraudes de fato pode ter criado um clima no qual se torna impossível criar consensos sobre a realidade, mesmo quando respaldados pela maior parte da mídia tradicional. Ou pelo menos um ceticismo generalizado quanto ao valor da objetividade.

“É como no colégio, quando torcíamos para o nosso time vencer, mesmo quando era ruim”, disse um torcedor, digo, eleitor de Trump entrevistado pelo Boston Globe. E esse clima é cultivado pelo presidente eleito, para o qual parece irrelevante se suas declarações pelas redes sociais são verificáveis, de “o aquecimento global foi uma fraude inventada pelos chineses” a “eu venci no voto popular se deduzirem os milhões que votaram ilegalmente”.

Viu-se algo assim nos anos 1930, mas a internet permite mais agilidade e torna dispensável o controle totalitário explícito da mídia tradicional, gradualmente relegada à irrelevância enquanto tenta sobreviver à custa de amenidades caça-cliques.

É um fenômeno importante, mas atribuí-lo a Putin pelos rumos dos EUA e Europa é apenas mais uma notícia falsa de tipo mais tradicional e uma tentativa de criar um macarthismo às avessas. E que, ao atribuir-lhe tamanha onipotência, apenas lhe afaga o ego e talvez lhe reforce o prestígio ante russos e aliados.

Fonte: Carta Capital