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domingo, 11 de maio de 2025

Poema 28: Igualdade às mães e mulheres do mundo


IGUALDADE ÀS MÃES E MULHERES DO MUNDO


O domingo foi de homenagem às mães

em várias comunidades humanas do mundo.

As homenagens são justas e necessárias

e deveriam vir com mudanças culturais.

Só existimos por causa das mães do mundo:

somos todos filhos das mães, filhos das mulheres. 

Do passado remoto aos dias atuais da humanidade,

toda cria humana foi cuidada pelas mulheres

e muitas vezes, criadas só pelas mulheres.

E até hoje a manutenção da espécie humana

não é reconhecida economicamente

pelas sociedades dos machos ignorantes.

Dizem por aí que "não fazem nada" as mães dos lares.

Toda a produção de riqueza humana deve ser

distribuída igualitariamente entre mulheres e homens.

E todos os direitos civis, sociais e políticos

criados pela espécie humana em sociedade

devem ser absolutamente iguais entre as pessoas,

sejam elas mulheres ou homens na biologia

e ou nas suas diversas identidades de gênero.

A desigualdade entre mulheres e homens

não pode seguir existindo na humanidade.

O corpo de uma mulher pertence a ela

assim como o de um homem a si pertence.

A violência contra as mulheres do mundo

não pode ser tolerada, sequer normalizada.

Compete à política e às leis das sociedades

assegurar condições iguais de existência às mães,

e às pessoas nas suas diversidades humanas.

Igualdade às mães e mulheres do mundo!


William 

11/05/25

sexta-feira, 9 de maio de 2025

Diário e reflexões



Refeição Cultural 

Osasco, 9 de maio de 2025. Sexta-feira.


O tempo para os seres vivos segue correndo. A cada segundo, o tempo de vida de qualquer organismo vivo diminui. É a natureza, é o ciclo da vida.

Essa questão temporal independe do fato de um ser vivo ter acabado de chegar à sua forma de vida ou não. Uma tartaruguinha, um bebê humano, um burrinho pedrês, um velho felino sem chão, uma pessoa com décadas de vida. O tempo está correndo para todos eles. E está diminuindo. Tic-tac, tic-tac, tic-tac.

Acordei me lembrando dessa questão temporal. E me quedei cismando com as ideias em minha mente. Faz um tempo que percebi a urgência do tempo para mim. Tic-tac, tic-tac, tic-tac. 

Que tenho que fazer para esses dias? A declaração do imposto de renda. Uns exames médicos de rotina, preventivos, que o relapso não os fez no tempo ideal.

Eu tenho que resolver a questão de incluir ou não imagens para finalizar a edição impressa de minhas memórias da vida sindical, as "Memórias de um trabalhador politizado pelos bancários da CUT". Para impressão, as imagens precisam de boa resolução e aí complica. Preciso finalizar esse trabalho realizado. O livro não será vendido. Vou presentear pessoas com aquelas histórias. 

E o tempo segue acelerado. Tic-tac, tic-tac, tic-tac. Não é só o meu tempo que está correndo. É o de todos os seres vivos que está diminuindo. 

O que fazer primeiro? O que priorizar neste instante? O imposto, os exames, sei. Esse bendito livro.

Meus textos de vinte anos de blogs... acho que tenho que seguir fuçando nisso. Lendo, diagramando, encadernando. 

Tive um tipo de vida até a confecção desses milhares de textos e outra vida durante aquele período de representação política da classe trabalhadora. Tenho que deixar esses cadernos numa estante, mesmo que seja para alimentar cupins ou o fogo.

Ao reler as postagens, vejo não só a vida do escritor delas, mas do povo brasileiro, do país e do mundo, uma época. 

E tenho que fazer outra coisa também. Os textos do meu pai e da minha mãe precisam ser preservados, organizados, quiçá publicados e encadernados. 

Meus pais têm pouca instrução formal, duas pessoas muito inteligentes! Dois sobreviventes pobres deste país miserável e violento. E meus pais escreveram suas histórias, seus sentimentos, reflexões e orações. Seus amores e pesares. Tenho que preservar essas histórias humanas.

O tempo corre... tic-tac, tic-tac, tic-tac. 

William 


sexta-feira, 18 de abril de 2025

Poema 26: Quando o corpo cansa


QUANDO O CORPO CANSA


Toquei em silêncio as árvores

do fundo do condomínio.

Elas não sabem que podem morrer.

Só nós sabemos da morte.


Sem ânimo pra falar de política,

de filmes, de livros, da vida.

Apesar de pertencer às coisas, 

não sinto pertencimento a nada.


Filmes sobre velhice e senilidade.

Os personagens: espelhos de todos nós.

O tempo chegou para meus pais...


Pior que não é só o tempo que chega.

Tem a genética, o percurso, a vida vivida.

Sei disso... Meu corpo cansou também.


William

18/04/25


sábado, 21 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (21) - Vida, Mario Quintana



VIDA - MARIO QUINTANA


Não sei 

o que querem de mim essas árvores

essas velhas esquinas

para ficarem tão minhas só de as olhar um momento. 


Ah! se exigirem documentos aí do Outro lado,

extintas as outras memórias,

só poderei mostrar-lhes as folhas soltas de um álbum de imagens:

aqui uma pedra lisa, ali um cavalo parado

ou

uma

nuvem perdida,

perdida...


Meu Deus, que modo estranho de contar uma vida!


Do livro Esconderijos do tempo.

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COMENTÁRIO:

Enquanto tomava meu café da manhã, uma rosquinha deliciosa feita por minha mãe, lia poemas de Mario Quintana. O tema: a vida.

O Eu-lírico me fez pensar nas folhas das árvores do Parque Continental, que me conhecem. Me fez pensar nas minhas velhas esquinas... são 25 anos virando nelas.

Eu que nunca fui uma pessoa dos prazeres da alimentação, por medo de ter uma doença qualquer no trato digestivo, me peguei apreciando o instante único do sabor de mastigar e engolir alguma coisa. 

Nem sabia mais o quanto era formidável comer o arroz com feijão e milho e ovo de minha mãe. 

Comer por 5 dias aquela comidinha saborosa da minha mãe foi VIDA. 

William Mendes 


Bibliografia:

QUINTANA, Mario. Esconderijos do tempo [recurso eletrônico]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.


quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Mãe, parabéns pelo seu aniversário!



Quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Hoje minha mãezinha completa 78 anos de idade. Liguei para ela logo cedo. Parabéns e muitas felicidades, mamis!

Recentemente, entreguei para minha mãe o livro coletivo "Querida Mãe!, que fizemos em homenagem às mães. Tive a oportunidade de ser um dos autores do livro. Os textos dos filhos e filhas para as mães são textos muito legais. Livro lindo e cheio de amor e vida!

Parabéns à Cleusa Slaviero que organizou o livro para nós! Obrigado!

Disponibilizo nesta postagem o texto que fiz para a minha mãe.

William

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Mãe

Ao pensar o que poderia escrever sobre a minha mãe, busquei na memória fragmentos de lembranças que significassem momentos marcantes na nossa vida, na dela e na minha, lembranças de nós dois: uma cumplicidade, uma felicidade, um segredo, uma tristeza só nossa.

As primeiras lembranças que me vieram à memória foram a da mãe que aceitou a partida do filho antes dos 18 anos e a cumplicidade ao me ouvir falar, anos depois, as coisas mais tristes que uma mãe poderia ouvir de um filho e silenciar respeitando a decisão que eu viesse a tomar naquele momento de fúria e depressão. Aquele silêncio de só ficar ao lado da pessoa querida.

É impossível saber a dor que causei à minha mãe ao dizer a ela que não queria mais viver aos vinte e poucos anos... o silêncio de minha mãe naquele momento talvez tenha sido a única coisa a fazer. E pensar que ter filhos era o sonho de meus pais. Minha mãe tinha “útero infantil” diziam a ela, e meus pais perderam alguns filhos em abortos espontâneos. Imaginem a dor. A única gravidez que “vingou” foi a que me colocou no mundo, e isso depois de adotarem a minha irmã.

As histórias das mães neste duro mundo humano hegemonizado pela força e pela violência dos homens são sempre histórias únicas. Fiquei pensando em algumas mães que conheci ao longo deste meio século de existência... São histórias incríveis. A história da mãe de meu filho é uma dessas histórias duras e de superações... Como as mães são guerreiras poderosas neste mundo! Seres de potências muito mais complexas que as do universo masculino.

Eu passei boa parte de minha vida adulta procurando respostas para perguntas que sequer conseguia formular direito. Fui caminhando entre tristezas e fúrias da adolescência até quase 30 anos de idade. Aqueles momentos de cumplicidade de minha mãe, de só ficar ao lado, aguentando as minhas dores em silêncio (imaginem as dores dela!) devem ter me tocado para sempre de alguma forma. Superei aquela fase e nunca mais pensei absurdos que magoassem as pessoas que me amavam.

Além da própria vida que ganhei mais de uma vez de minha mãe, que poderia contar sobre ela que tenha de alguma forma contribuído para eu chegar até aqui? A fé inabalável dela, a honestidade, a vontade de viver por saber que nós precisamos dela conosco neste mundo. Há décadas temos esse compromisso velado de nos mantermos vivos porque uns precisam dos outros.

Já concluí muitas vezes em meus registros de memórias que devo ter sobrevivido à adolescência em lugar miserável e violento porque a educação católica de minha mãe deve ter contribuído para eu não fazer as mesmas bobagens que as pessoas faziam ao meu redor. E a honestidade de não querer pegar uma agulha que não fosse minha também vem dela. O chocolate que peguei e saí sem pagar num supermercado quando criança nunca saiu de minha cabeça. Aquilo bastou para entender o que minha mãe nos ensinava.

Enfim, como somos natureza, estamos todos envelhecendo, ela e eu e todos nós. A gente segue com aquela natureza aguerrida de não se deixar morrer de jeito nenhum porque precisamos uns dos outros.

O que eu torço é para que ainda dure muito essa nossa possibilidade do existir, porque aprendi, ao sobreviver aos tempos de fúria, que a vida é uma oportunidade, que viver é bom, ainda mais quando se ama e quando se é amado. Eu trato sempre de estar amando para manter meu vínculo com a existência. Tenho me esforçado para ser uma pessoa melhor a cada dia e, talvez assim, ser amado também.

Te amo, mãe!

William Mendes

Do Blog Refeitório Cultural


terça-feira, 25 de junho de 2024

31 de 100 dias



31. Hoje completei um dos eixos investigativos sobre minha condição de saúde. Como meu cotidiano se transformou numa rotina de dores na região do quadril e sistema locomotor, incluindo até a região dorsal e abdominal, estou fazendo a minha parte para a manutenção de minha existência e procurando resolver a questão. Devo isso às pessoas de meu círculo familiar mais próximo.

Pelos exames e informações dos profissionais da área, estou com o sistema urinário em ordem. Exames de PSA e demais exames de imagem e físicos indicam que está tudo normal com rins, bexiga, ureter e próstata.

Por um lado, isso é bom e tira uma cisma que a pessoa com dores crônicas tem em seus pensamentos, achando que está com tudo quanto é coisa ruim. Estado de não saúde é foda! Lembrar que tem partes no corpo que incomodam porque doem é um saco!

Por outro lado, se está tudo bem com minha próstata e sistema urinário, agora é levar os exames de imagens sobre a condição de minha estrutura locomotora e do quadril para o profissional responsável por essa área. 

Essa coisa de saúde é tão esquisita que se o cara disser que tenho desgastes mesmo, mas que posso conviver com isso, ficarei satisfeito. Sigo a vida com as dores locais. 

Das experiências com estudos de anatomia do período que frequentei uma graduação de Educação Física com a experiência na gestão de saúde, prefiro evitar cirurgias e, se possível, fazer exercícios de reforço na região.

Enfim, sigamos. Depois de décadas de vida, uma vida cheia de veredas, aprendi que viver é uma oportunidade. E que os humanos são seres históricos (e posso seguir fazendo a minha), e que só se ensina gente, como diz Paulo Freire (e quero aprender coisas novas todos os dias), e seguirei fazendo a minha parte para estar no mundo com as pessoas.

Diferente do que pensei por muito tempo em minha existência, não desejo encurtar meu percurso na natureza.

William


terça-feira, 28 de maio de 2024

3 de 100 dias



3. Os altos e baixos da vida. À tarde, ao falar com minha mãe, soube que minha irmã querida está internada desde ontem. Ainda não nos informaram o diagnóstico. Preocupação! As últimas semanas não foram fáceis para nosso núcleo familiar. Quase todos em Uberlândia tiveram seus dias difíceis.

Na última vez em que estive em Uberlândia, dormi na casa da Telma. Ao passarmos horas conversando, disse a ela algo que tenho percebido neste momento do viver e do mundo no qual estamos enfiados. Disse que nós não nos conhecíamos. Que acho que as pessoas quase não se conhecem mais ou nunca se conheceram, mesmo quando acham que conheciam as pessoas de suas relações.

Em poucas horas, contamos um ao outro coisas de nossas vidas passadas que não tínhamos a menor ideia de que aquilo poderia ter acontecido com um e com o outro. Onde estávamos que nunca soubemos o que aconteceu com uma pessoa tão próxima a nós? Estávamos mergulhados em nossos dramas pessoais tentando sobreviver, eu acho.

Vamos torcer para que minha irmã esteja melhor amanhã.

Como disse, a vida é de altos e baixos.

Voltei agora há pouco de um encontro com amigas e amigos do trabalho. Isso é uma coisa boa se considerar que já saí do banco faz cinco anos. Fomos a uma pizzaria aqui do bairro, uma pizzaria que é ponto de encontro há muito tempo dos colegas da Agência Vila Iara do Banco do Brasil.

Noite fria. Corações quentes. Durante nossas conversas fraternas o dia a dia do banco, os filhos e família, os cotidianos de cada um, as dificuldades e as esperanças num amanhã melhor. Adorei ver as amigas do banco falando orgulhosas de seus filhos e filhas. Sempre admirei e respeitei profundamente as mulheres pelo papel organizador do mundo, independente dos papéis que estejam desempenhando. Sem elas, a sociedade humana não teria a menor chance.

Falei o quanto acho injusto o Estado no qual a coletividade vive não ter sido desenvolvido para cuidar de nossas crianças e de nossos idosos e pessoas adoecidas para dar melhor oportunidade às mulheres e homens em idade produtiva de se dedicarem às suas áreas profissionais sem ter que abrir mão delas por não terem quem cuide de seus familiares tanto na infância quanto nas fases maduras da vida.

O Brasil terá cada vez mais pessoas nas faixas etárias maiores e é uma injustiça deixar a ampla maioria do povo por sua conta e risco em relação aos seus familiares idosos ou adoecidos. O Estado nacional deveria ser organizado para estabelecer justiça social e justiça social é igualar as condições de mulheres e homens em relação às oportunidades de trabalho e vida. Em nosso país, as maiorias das mulheres cuidam sozinhas de toda a família, descendentes e ascendentes.

Fica registrada a minha admiração e o meu respeito às mulheres.

Hoje escrevi dois textos com opiniões políticas e culturais em meu blog. Espero que as leitoras e leitores gostem ou que reflitam de alguma forma a partir do que argumentei nos textos. 

É o que fiz nesse terceiro dia da centena de dias que espero viver até dois de setembro. Espero ter vivido o dia dignamente e sem ter piorado o mundo, se não tiver conseguido contribuir com nada que o melhore.

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Ah, ia me esquecendo. Recebi no final do dia, a amostra digitalizada do livro coletivo que participei sobre as mães. Ficou muito legal. Fiz lá minha contribuição, um texto para a minha mãe querida. Nossa editora, a Cleusa Slaviero, é muito boa naquilo que faz. Já imagino como vai ficar legal a edição de minhas memórias sindicais, que ela está editando. Não vejo a hora de levar o livro das mães para a minha mãe.

Essa vida humana é um instante. Estava pensando comigo mesmo. Do mesmo jeito que estamos vivos, num instante não estamos mais. Se desaparecer qualquer hora dessas, espero que só falem de mim quem me considerou de verdade.

William

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Post Scriptum:

Olha que legal a mãezinha recebendo o livro com o texto em homenagem às mães e a ela em especial. 

quarta-feira, 3 de abril de 2024

Acaso 55



Refeição Cultural

Osasco, 3 de abril de 2024. Quarta-feira.


Acaso 55

 

Por puro acaso cheguei aos cinquenta e cinco anos de existência.

Foi por acaso que antes dos cinquenta eu passei a controlar a pressão arterial antes de infartar ou ter um acidente vascular cerebral. Poderia já ter morrido antes não fosse isso. Na época das bebedeiras era tão ignorante que comia sal na mão com cerveja.

Foi um acaso eu ter virado gestor de saúde e, como pessoa da área, fazer os acompanhamentos primários e descobrir que era hipertenso e passar a controlar a pressão, uma das doenças crônicas que agravam e matam boa parte da população mundial.

Foi por acaso que ao ser convidado para disponibilizar meu nome para compor uma chapa nas eleições de uma autogestão em saúde, como candidato a diretor e encabeçar a chapa por entenderem que meu nome agregava, eu tinha um diploma de graduação em Ciências Contábeis, exigência protocolar para a inscrição da chapa.

Foi por acaso que eu me formei em Ciências Contábeis. Quando terminei o segundo grau não estava pensando em fazer faculdade naquele momento da vida. Um vizinho conhecido, um certo dia, me chamou para fazer um vestibular na região, Osasco, e acabei escolhendo um dos três cursos disponíveis e fiz a prova e entrei e me formei. Isso depois de organizar greve estudantil. Que orgulho tenho ao lembrar que uma turma de cem alunos me escolheu para ser o orador.

 

Por puro acaso cheguei aos cinquenta e cinco anos de existência.

Foi por acaso que fui parar em São Paulo antes dos dezoito anos. Me lembro que discuti em casa e acabei indo embora. Mas tinha outros motivos, penso eu. Não se conseguia trabalho em Uberlândia nos anos oitenta e eu estava cansado de trabalhos braçais e humilhantes, eu estava a fim de uma garota em São Paulo, apesar de saber que seria difícil conquistá-la. Soube que teria um lugar pra ficar no início se fosse pra SP.

Foi por acaso que ao visitar familiares em São Paulo, fiquei sabendo que haveria uma vaga na casa de minha avó após o casamento de um dos primos que moravam com ela, em uma das casas de meu tio. Era uma espécie de república, os primos dividiam as despesas da casa. Sairia um, entraria outro, eu.

Foi por acaso virar bancário depois de uns serviços gerais em Sampa. No começo, o trampo foi pesado, descarregar caixas de palmito de caminhões com umas vinte toneladas e entregar por toda a grande São Paulo. Depois, fui caixa de lanchonete no Itaim Bibi, a noite toda vendo a playboyzada na farra. Não me lembro como, mas virei bancário do Unibanco.

Foi por acaso que dei atenção ao pessoal do sindicato e passei a ajudar na organização de uma greve. E me sindicalizei e passei a sindicalizar todo mundo. Por acaso mesmo, porque quase todo mundo trabalhava em banco, como meus primos e primas e amigos, e nem por isso o pessoal dava bola para o sindicato. Poderia ser um bosta bolsonarista décadas depois se não tivesse me politizado com o sindicato.

 

Por puro acaso cheguei aos cinquenta e cinco anos de existência.

Foi por acaso que não morri algumas vezes por aí, alimentando estatísticas das mortes de homens jovens. Já dirigi um carro em estrada por dezenas de quilômetros com curto na parte elétrica, sem luz nenhuma, farol, lanterna, uma loucura irresponsável. E com muito sono. Por muito tempo dirigi minhas motos alcoolizado entre os dezoito e os trinta anos. Coloquei minha vida em risco inúmeras vezes. E por acaso fui vivendo.

Foi por acaso, imagino, as vezes em que quase morri mesmo sem ter culpa ou fazer alguma loucura. A vida tem um quê de acaso. Ir e voltar para Mogi das Cruzes por meses, de moto, com chuva, de noite, naquelas curvas da estrada, cento e cinquenta quilômetros por dia, foi uma sorte da porra sair ileso disso. Foram tantas finas e tantos sustos. Puta merda!

Foi por acaso, talvez, me levarem para o hospital quando morava sozinho e estava me desmanchando em vômito e diarreia após uma intoxicação alimentar, salmonela se não me engano, e quando acordei de madrugada no hospital me disseram que foram horas no soro para recuperar minha pressão que chegou a 8x3 ou coisa do tipo.

Não sei se foi por acaso, mas tem o acaso nisso, ter passado tantos anos de minha vida querendo morrer e não ter morrido. Cheguei a pensar em interromper a vida e cheguei a falar essa merda para a minha mãe. Anos depois, fui entender que provavelmente passei a adolescência e uma fase de adulto com uma forte depressão sem nunca ter tratado isso um dia sequer. Sobrevivi.

Aí já é uma viagem dessas quase místicas, ou do acaso bem acaso, que após meus pais não conseguirem ter filhos porque minha mãe perdia em abortos espontâneos, uma gravidez acabou vingando, a gravidez da qual nasci. E um dia eu iria dizer àquela mãe que não queria mais viver... os filhos são foda algumas vezes nesse mundo dos humanos.

 

Por puro acaso cheguei aos cinquenta e cinco anos de existência.

De acaso em acaso fui vivendo. Imaginem, depois de uma adolescência dura num país miserável e violento, percebi após os trinta anos que a cor branca de minha pele fez a diferença nas estatísticas, os jovens pretos e pardos morriam em número muito acima da média nas estatísticas das mortes de brasileiros. Os de pele branca já nasciam “com o cu pra lua” por causa da cor da pele. Minha irmã negra sobreviveu, mas comeu o pão que o diabo amassou. Nunca saberei o que uma pessoa preta sofre por causa da cor da pele.

Foi por acaso que escolhi o Banco do Brasil e não a CET ao passar nos dois concursos ao mesmo tempo no início dos anos noventa. O fato de ter sido bancário por dois anos no Unibanco e o fato de a jornada de trabalho ser de seis horas fizeram toda a diferença. Eu me lembro que odiava trabalhar, trabalho para mim era a lembrança de humilhação e cansaço e falta de tempo para fazer o que eu gostaria de fazer. Voltei à categoria por acaso.

Foi por acaso que aconteceu tanta coisa na minha existência que ficaria aqui, de vereda em vereda, avaliando os caminhos que trilhei e fui sobrevivendo.

 

Por puro acaso cheguei aos cinquenta e cinco anos de existência

Foi por acaso que virei sindicalista, foi por acaso que escolhi fazer Letras após um amigo do Banco do Brasil me convidar para assistir aulas de ouvinte na USP. No entanto, foi com muito esforço que estudei pra passar na Fuvest. E foi com escolhas difíceis que priorizei a representação sindical em prejuízo do curso de Letras.

Foi por acaso que entrei numa faculdade de Educação Física, me apaixonei pelo curso e não pude terminar porque não tinha dinheiro para pagar a mensalidade. Uma das maiores tristezas da vida. Nunca me esqueci das aulas de anatomia, biologia, da turma e do contexto que me levou à faculdade.

Foi por acaso que vivi amores, esses acasos, os do coração, são os melhores acasos da vida humana. Foi por acaso que me tornei pai. Foi por acaso que me humanizei e a fúria diminuiu.

Foi por acaso que viajei e fiz as melhores aventuras de minha vida. Sempre o acaso colocou uma vereda que me levava à natureza, ao rapel, à cachoeiras, cavernas, ao paraquedismo, aos acampamentos e regiões de mato – que adoro -, às praias e biomas diversos.

 

Por puro acaso cheguei aos cinquenta e cinco anos de existência

Foi por acaso que conheci a Itália e a Espanha. Foi por puro acaso que me peguei nos Estados Unidos a trabalho. Foi por acaso o convite para ir a Cuba.

Por acaso fiz a habilitação em espanhol. Me encantei com a língua durante o Ciclo Básico. Entrei na USP pensando em fazer inglês. Aliás, aprendi a falar inglês para o gasto porque queria ir embora do Brasil como muitos jovens queriam na época.

Foi por acaso que me humanizei num dos momentos mais duros da vida, tempos de fúria, tempos de revolta. Aí virei sindicalista e a formação política me salvou, talvez tenha salvo a sequência de minha existência após os trinta anos.

 

Por puro acaso cheguei aos cinquenta e cinco anos de existência.

Foi por acaso que entrei como cotista numa cooperativa e comprei a tão sonhada casa própria, um apartamento em Osasco.

Foi por acaso que passei a vida ouvindo mais música estrangeira do que música brasileira. Não posso me culpar por isso. Minha origem foi diferente da origem da maioria dos sindicalistas que conheci. Enquanto muitos cresceram em ambientes de militância, eu vivia num bairro miserável na adolescência sem ninguém de esquerda na família.

 

Acasos e esforços... e agora?

Passei o dia do aniversário pensando na vida, no passado que não me pertence, no futuro que não existe, só se eu acordar amanhã, e no presente, que passei pensando na vida no dia 3 de abril, pensando nas veredas que trilhei, nas que não pude trilhar, no que fiz e no que não fiz. Na lista do que queria e não quero mais.

Lembrar de tantos acasos na minha existência não diminui meu esforço honesto e muitas vezes quase impossível para superar as merdas da sobrevivência que quase nos fazem desistir de seguir. A partir dos acasos, tenho a clareza que teve muito esforço de minha parte, muito. Não me diminuo. Sei o meu valor.

 

Sei do esforço de voltar à construção onde passei a manhã quebrando concreto no primeiro dia de ajudante de encanador. Sei do esforço de não desistir quando tinha que furar aquelas latas de palmito podre.

Sei do esforço de não desistir quando o cansaço me fazia chorar e eu seguia. Fiz o que tinha que ser feito desde muito jovem. Passar em vestibulares de faculdades privadas e públicas, concursos públicos, todo guaraná em pó que tomei pra ficar acordado teve sua importância.

 

E sei que por ser branco tive vantagem em relação aos meus pares da classe subalterna à qual pertencíamos, classe trabalhadora explorada. Minha irmã sofreu as consequências da falta de oportunidade por ser negra. E as mulheres sempre foram preteridas por serem mulheres, tive vantagem nisso também. No Brasil, já é sorte nascer homem e branco por causa de nossa história violenta e miserável. Absurdo isso! Sorte ou azar por ser homem ou mulher, branco ou preto...

Me lembro da dona da escola de idiomas onde trabalhei me dizer para não contratar mulher porque mulher só dava dor de cabeça, menstruava, tinha enxaqueca, filhos, faltava muito etc. Dona Glória não era uma mulher naquele contexto, era uma capitalista. E o gerente do BB que me fez aprender serviço de funcionário sendo eu estagiário porque ele dizia que não iria ensinar nada para a colega do banco porque ela era mulher... que safado fdp!

 

Eu não posso escrever tudo o que pensei durante o dia. Não posso escrever muita coisa que penso, que sinto ultimamente, neste momento.

Nunca imaginei na minha vida, quando olho para trás, quando me vejo antes dos vinte, entre os vinte e os trinta, e até depois disso, mesmo tendo mudado como ser humano, nunca imaginei chegar aos 55 anos de idade.

Espero ter vivido dignamente a maior parte de minha existência, de ter feito coisas boas e de não ter feito merdas que tenham prejudicado pessoas. Se prejudiquei alguém, peço desculpas.

 

Sem pertencimento

Estou num momento de reflexão e de procura, algo muito pessoal, de muita solidão. Mas sou politizado e a consciência me ajuda hoje a seguir adiante. Tenho uma leitura pessimista do futuro da humanidade, mas não é algo determinista, que imobilize a ponto de deixar as coisas como estão.

O ser humano é um animal fantástico e poderia e pode mudar as coisas de uma hora para outra, se quiser e se realizar um conjunto de coisas. Educação pode mudar as pessoas e as pessoas mudarem o mundo. Como diz Paulo Freire, só se educa gente!

Minha mente está como um caleidoscópio de imagens e coisas. Eu poderia fazer muita coisa pela experiência que adquiri nesta caminhada de 55 anos de acasos e esforços. Poderia, mas percebi que o melhor que fiz, por acaso, foi ser sindicalista dos bancários. Me perdi depois disso.

Não sei se farei alguma coisa ainda. Mas estando por aqui, estou cuidando dos meus. E não fazendo mal a ninguém, espero.

william


domingo, 31 de março de 2024

Natais - 1972


Dilma Rousseff: mulher guerreira, lutou
para que os natais do povo fossem melhores.

Refeição Cultural

"Em 1970, Dilma foi presa e submetida a torturas em São Paulo (Oban e DOPS), no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. As torturas aplicadas foram o pau de arara, a palmatória, choques e socos, que causaram problemas em sua arcada dentária. No total, foi condenada a seis anos e um mês de prisão, além de ter os direitos políticos cassados por dez anos. No entanto, conseguiu redução da pena junto ao Superior Tribunal Militar (STM) e saiu da prisão no final de 1972." (Site Memórias da Ditatura


31 DE MARÇO DE 2024

Nesta série de textos sobre os natais que fizeram parte de minha vida, e os contextos que fizeram parte daqueles natais, me deu vontade de citar a grande mulher brasileira Dilma Rousseff, tanto por ela ter sido uma mulher que enfrentou a violência do regime de exceção e do mundo machista naqueles primeiros anos de recrudescimento da ditadura brasileira, quanto por hoje ser um dia de rememorar essas lutas que fazem parte de nossa história brasileira. 

Não podemos jamais apagar a trágica história do golpe de Estado em 1964. Pelo contrário, temos que relembrar, cobrar punição aos golpistas e agentes do Estado que violentaram o povo e nossa democracia.

Nesses 60 anos do golpe, temos que dizer de maneira firme: - Ditadura nunca mais! Sem anistia para os golpistas do passado e do presente!

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Meus pais no início dos anos setenta.

NATAL DE 1972

Naquele Natal eu tinha uns três anos e nove meses e minha irmã um pouco mais. Não sei como foi o Natal da família. Não me lembro porque era muito novo. 

O que sei é que a gente morava no bairro Rio Pequeno, Butantã, região Oeste da Grande São Paulo.  

Uma coisa que era muito comum no verão, de dezembro a março, era chuva, muita chuva, e enchentes, muitas enchentes. Nossa rua tinha enchente constantemente por causa do córrego do Rio Pequeno, hoje canalizado em parte e conhecido como Avenida Politécnica, que vai até a Raposo Tavares. 

Talvez o Natal da gente tenha sido sob enchente, vai saber.

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TEMPOS DE VIOLÊNCIAS E GUERRAS

Os tempos eram tempos de violência. Imagino meus pais, pessoas simples, ao verem os noticiários naquele ano. 

No Brasil, a ditadura havia decidido eliminar qualquer grupo de pessoas que lutasse pela volta da democracia. A ordem naquele momento era executar os opositores ao regime. Vi dias atrás uma entrevista emocionante do José Genoino a Hildegard Angel falando sobre essa época.

OLIMPÍADAS DE MUNIQUE - Naqueles meses finais de 1972 o mundo havia acompanhado o atentado terrorista nas Olimpíadas de Munique, no dia 5 de setembro. Palestinos do grupo Setembro Negro invadiram os aposentos da delegação israelense e o desfecho foi a morte de diversos atletas e treinadores. 

REGIME SIONISTA DE ISRAEL E A CAUSA PALESTINA - A questão árabe-palestina havia recrudescido desde 1967, quando o governo sionista de Israel atacou de surpresa Egito, Síria e Jordânia entre os dias 5 e 10 de junho (Guerra dos seis dias), conquistando de forma ilegal a Faixa de Gaza, a Península do Sinai, Jerusalém Oriental, a Cisjordânia e as Colinas de Golã, matando milhares de árabes-palestinos e destruindo as forças militares daqueles países.

MÍDIA MANIPULADORA HÁ DÉCADAS - Se considerarmos a mídia canalha que temos hoje (2024), a mesma daquela época (os mesmos grupos), imaginem como as notícias chegavam para os meus pais e o povo brasileiro... neste momento de genocídio do povo palestino, com a Faixa de Gaza destruída e mais de 40 mil crianças, mulheres e civis palestinos mortos, não sai na imprensa empresarial uma linha contra Israel. 

Resumindo, faz mais de 50 anos que meus pais veem a mesma manipulação informativa por parte da imprensa canalha brasileira.

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ACIDENTE NOS ANDES - Outro evento que ficou conhecido no mundo em 1972 foi a queda na Cordilheira dos Andes do avião que levava jogadores de rugby do Chile. Semanas depois, alguns sobreviventes foram encontrados. Para sobreviver, tiveram que comer carne humana. 

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UNIR A FAMÍLIA - Neste 31 de março de 2024, vivo um momento de incerteza quanto ao Natal deste ano. Sinto que será difícil reunir nosso núcleo familiar mais próximo como fizemos nos últimos anos. Farei o que estiver ao meu alcance para que estejamos todos juntos nesta data de confraternização.

William


Post Scriptum: o texto anterior desta série, o ano de 1971, pode ser lido aqui. Para ler o texto seguinte, clicar aqui.

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Natais - 1971



Refeição Cultural

Neste momento da história, início do ano de 2024, a sociedade humana vive os seus dilemas como deve ter vivido no início da década de setenta do século passado. 

Estamos cozinhando num mundo superaquecido e nossas crianças e adultos não olham mais para o horizonte, nem precisaríamos mais de visão ocular curvada para perceber o mundo ao redor. Hoje, bastaria uma visão plana para ver uma tela na frente do rosto. Com isso, você pode morrer atropelado mesmo sendo a pessoa mais atenta e cuidadosa do mundo. Mesmo que você olhe, outro não vai olhar e bum... Ninguém olha mais pra frente... até os cachorros vira-latas são mais espertos que boa parte dos humanos andando nos ambientes do mundo.

Se naquela época o mundo vivia sob uma abstração chamada "guerra fria", e o mundo polarizava duas formas de sociedades humanas se organizarem, através de modelos de Estado capitalistas ou socialistas, seja lá o que isso quisesse sugerir à época, hoje o capitalismo venceu o socialismo e temos alguns humanos de carne e osso com riquezas maiores que a soma das misérias de bilhões de humanos no planeta todo. Detalhe: isso é considerado "normal", é normalizado, isso não escandaliza meu vizinho, meu familiar e sequer altera a gana de alguém que se diz de "esquerda" para se engajar mais para mudar essa realidade da sociedade humana. É a minha impressão de observador.

As crianças de nossa sociedade ocidental (acho que no mundo todo) estão sendo aculturadas nos primeiros anos de vida a terem o desejo de serem youtubers ou "influenciadoras", seja lá o que isso queira dizer, e não mais cientistas, professoras, engenheiras, médicas, historiadoras. A ciência não parou de avançar em diversas áreas da sociedade humana. A tecnologia segue sendo alterada. Tudo está cada dia mais rápido no processamento, menor no tamanho, mais automático e instantâneo, e tudo tem contribuído para o ser humano se transformar em outra coisa, em relação às abstrações que nos fazem humanos. Não somos galinhas, jacarés, moscas, pombas, leões, gafanhotos por termos desenvolvido cérebros que nos transformaram em homo sapiens.

Tenho dúvida se seguiremos sendo sábios e se seguiremos existindo nas próximas décadas. Décadas mesmo! Não ousaria especular se estaremos no planeta daqui a alguns séculos, como estivemos séculos atrás.

Pelo que tenho lido e estudado, o ser humano está regredindo rapidamente em suas características mais definidoras daquilo que nos fez seres humanos ao longo da evolução de nossa espécie.

Não sou determinista nem acredito em hipotéticos futuros determinados e definidos. No entanto, toda mudança de rota precisa de um momento de virada de tendência. Ainda não vejo sinais de mudança no horizonte humano.

Teríamos que mudar muita coisa a partir de hoje. 

Quem está a fim de mudança da realidade política, social e econômica do mundo? No passado, tanto capitalismo quanto socialismo tinham visões de uso do planeta como se a natureza fosse inesgotável. Um sistema venceu, outro virou palavrão. Mas a forma de uso do planeta segue a mesma. Consumir até acabar.

É uma reflexão. Talvez tenhamos produzido em uma semana de festas e comemorações de fim de ano em 2023 mais lixo e destruição do que todo o ano de 1971, quando eu tinha meus dois aninhos e pouco de idade. Mesmo considerando as guerras de lá e as guerras de hoje.

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NATAL DE 1971

Como terá sido o Natal de nossa família? Eu não tenho a menor ideia também. 

Sei que o mundo recebia estarrecido as imagens da Guerra do Vietnã. Sei que a classe trabalhadora se fodia no Brasil. O regime autoritário era aliado da elite para enriquecê-la, sugando os recursos do Estado e do povo em benefício de poucos. 

A ditadura brasileira promovida pela elite vira-lata arrepiava pra cima das organizações de resistência e a regra desde o AI5 era sequestrar, torturar e assassinar a militância que lutava para recuperar a democracia no Brasil. 

Uma das vítimas da ditadura foi a nossa querida presidenta Dilma Rousseff. Nessa época, a jovem militante estava presa e sofria tortura... mas resistiu bravamente! Que mulher extraordinária! Ela seria no futuro presidenta do Brasil e sofreria novamente a violência de um país machista, misógino e antipovo.

O militante de esquerda e combatente contra a ditadura, Carlos Lamarca, foi pego pelo regime em uma emboscada em setembro daquele ano, foi fuzilado sem dó.

A imprensa empresarial, boa parte dela, lambia as botas dos milicos e falava mentiras contra a resistência democrática o tempo inteiro. 

Será que meus pais caíam na lorota dos meios de comunicação de massa? Avalio que o poder midiático das imagens e versões narrativas com efeito de "verdade" por parte dos meios televisivos e jornalísticos era muito forte, quase irresistível. Só quem tinha acesso a outras visões de mundo tinha chance de questionar os meios midiáticos do poder político e econômico do país.

Quando me tornei adulto soube que meu pai era brizolista, ufa! Bom sinal! Brizola e Lula eram lideranças da classe trabalhadora que enfrentavam a ditadura financiada pela elite vira-lata tupiniquim. Nosso metalúrgico sindicalista, Lula, iria trilhar uma história única nas décadas seguintes neste canto de mundo chamado Brasil.

Fiquei feliz ao saber que as duas vezes nas quais meu pai foi candidato a vereador, uma em São Paulo, quando era taxista, e outra em Uberlândia, quando era radialista, foram pelo PDT. Ao fuçar nos papéis velhos da família, vi os panfletinhos do Palmério. 

É isso! O Natal de 1971 talvez tenha sido em Uberlândia ou em Goiânia, pelo que pude especular com minha mãe. Na foto, vemos meu tio Jorge, eu no colo da vovó Cornélia, mamãe, e tia Alice com a Telma no colo. Pelo que minha mãe explicou, a cena se passa em MG.

William


Post Scriptum: o texto anterior desta série pode ser lido aqui. O texto seguinte pode ser lido aqui.


quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Natais - 1970



Refeição Cultural

Passamos o Natal de 2023 em Uberlândia, Minas Gerais. Conseguimos repetir a reunião familiar do ano anterior, o Natal de 2022, o primeiro após o auge da pandemia mundial. 

Quase repetimos a reunião da ceia natalina anterior, "quase" porque meu cunhado passou com a família dele neste 2023 e nem sequer nos vimos. Mas tivemos também neste Natal familiares do marido de minha sobrinha. 

Os Natais em família vêm mudando ano a ano. Eu tenho consciência de que tudo muda, pois somos natureza e somos seres históricos. A história humana segue seu curso, seguimos fazendo história, percebamos ou não isso. A mudança é uma das certezas que temos no mundo natural. 

A cada reunião familiar, fica em alguns de nós uma sensação estranha de que talvez aquela confraternização tenha sido a última. Não sei se muitas pessoas têm sentido a mesma coisa, mas comigo tem sido assim. 

Apesar da consciência a respeito das mudanças constantes de tudo na vida e nos ambientes do mundo onde vivemos, algumas mudanças são resultado de transformações pelas quais os seres humanos estão passando e não são mudanças boas, na minha avaliação. Vejo com preocupação para onde vamos enquanto espécie humana.

Tenho elaborado reflexões aqui no blog sobre o risco que a sociedade humana enfrenta neste momento da história. 

Me pergunto se os seres humanos serão ainda passíveis de serem educados, e me pergunto também se seremos no próximo período seres sociáveis. Pode ser que nosso nível de alteração desde a tenra idade nos faça seres frios, insensíveis, autômatos como máquinas e sem as características essenciais dos seres humanos.

Enfim, eu me esforcei para contribuir para que tudo corresse bem neste Natal em família... nunca se sabe se teremos outro. Fiz o que esteve ao meu alcance para reunir as pessoas que amamos, para pôr juntas pessoas que não se dão mais como antigamente e coisas do tipo.

Entendo que o momento pelo qual passa a humanidade nos cobra um esforço consciente para reunir pessoas, uma boa vontade de cada um de nós para tentar restabelecer a comunhão entre as pessoas, a solidariedade, o perdão, a tolerância à alteridade, precisamos resgatar os laços humanos de amor e amizade.

Neste Natal, viajei de coração aberto, busquei energias positivas para o ato desafiador de viver num mundo em desfazimento, num mundo cuja agenda permanente pautada em nossas vidas humanas pelas mídias sociais é a aparência, os extremismos, os ódios e medos, os cancelamentos de pessoas, a guerra.

Em Uberlândia, busquei renascer em mim mesmo nos momentos nos quais estive sozinho no Parque do Sabiá, aquele paraíso. E também busquei a compreensão das coisas nas relações com as pessoas. 

Precisamos encontrar maneiras de unir pessoas em prol de agendas que foquem o bem comum, a paz interior e a paz nas relações sociais. Essa não é a agenda dos donos momentâneos do poder econômico... Mas deve ser a nossa, pessoas de boa vontade. 

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NATAL DE 1970

Como terá sido o nosso Natal de 1970? Onde será que estávamos, o nosso núcleo familiar? Meu pai, minha mãe, minha irmã e eu?

Nas conversas com minha mãe, tentei especular essas coisas do passado, mas as memórias já vão ficando distantes e de difícil organização. Vendo fotos antigas, vi que os lugares eram diferentes do nosso lar.

Minha mãe me disse que quando era possível, a família viajava para a casa de alguns familiares. Goiás ou Minas Gerais eram destinos possíveis em um final de ano. Nós vivíamos em São Paulo à época.

Hoje, com a formação política e a experiência de vida que tenho, e sendo alguém que gosta de estudar a nossa história enquanto classe trabalhadora e povo brasileiro, consigo imaginar bem melhor a vida de meus pais e familiares nos anos sessenta, setenta e oitenta.

Para ilustrar o clima e o cenário nos quais meus pais viviam as nossas histórias, como estou fazendo nesta série, destaco alguns eventos que fizeram parte do contexto brasileiro e mundial naquele ano de 1970, que chegava ao fim no Natal e naqueles dias de Ano Novo.

No Brasil, a ditadura civil-militar estava num período muito violento para os dissidentes e adversários do regime de extrema-direita, bancado pela elite do país e pelos Estados Unidos da América.

COPA DO MUNDO DE FUTEBOL

O Brasil se tornou tricampeão de futebol no México, em junho. Pelé brilhou e a seleção da Copa de 1970 talvez tenha sido uma das melhores de todos os tempos (assim como a de 1982, imagino eu). Vencemos a Itália por 4x1 no Estádio Azteca, na Cidade do México. 

O regime ditatorial usou de todas as formas a conquista da seleção canarinho para fazer política favorável ao governo. Perguntei aos meus pais sobre a Copa do Mundo de 1970 e eles se lembraram daquela onda positiva no dia a dia do país.

MORREM JIMI HENDRIX E JANIS JOPLIN

Na postagem sobre o ano de 1969, falei sobre o evento cultural que marcou o mundo em agosto daquele ano, o Festival de Woodstock. O ano em que nasci... Hendrix e Joplin estavam no auge de suas carreiras no mundo do Rock and Roll.

Pois é! Eles morreram antes do Natal de 1970. Hendrix em setembro e Joplin em outubro, ambos com 27 anos de idade. Foram perdas terríveis para o rock mundial. Eu não sei se isso afetou meus pais proletários no Brasil. Talvez não.

Os Beatles também já não existiam mais naquele Natal, uma das maiores bandas de rock de todos os tempos formalizou o fim do grupo naquele ano de 1970, após rompimentos internos desde 1969.

O SOCIALISTA SALVADOR ALLENDE É ELEITO NO CHILE

Só para finalizar a contextualização da véspera do Natal de nossa família e do Brasil e do mundo em 1970, nosso vizinho sul-americano, o Chile, terminava aquele ano com um presidente marxista eleito pelo povo numa eleição disputadíssima em setembro. Salvador Allende obteve 36,2% dos votos, à frente do candidato da direita com 34,9% e do terceiro colocado da democracia cristã com 27,8%. O congresso referendou o resultado e a América do Sul tinha naquele momento um presidente eleito defendendo o socialismo.

Provavelmente meus pais, como milhões de brasileiras e brasileiros, estavam focados em sobreviver diariamente na labuta de seus dias.

É isso! Aquele garotinho da foto que abre a postagem sou eu, ainda experimentando os momentos iniciais da vida naquele final da década de sessenta.

William


Post Scriptum: o capítulo anterior dessa série pode ser lido aqui. E o capítulo seguinte pode ser lido aqui.

Post Scriptum II: as informações sobre o ano de 1970 que incluí no texto foram pesquisadas na enciclopédia livre, Wikipedia.


sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Natais - 1969


Que bom ver meus pais sorrindo!


Refeição Cultural

Estamos em Uberlândia para passar o Natal com meus pais e familiares. Meu momento é de procura pela compreensão, de observação das coisas, devo me esforçar para sentir o instante com a intensidade que significa a fragilidade da vida. O que vejo ao meu redor é a fragilidade. Tudo é frágil e passível de se desfazer num piscar de olhos. Não é assim a própria vida?

As relações são frágeis. A casa é frágil. A natureza é frágil, apesar de sua força e potência. Todo mundo precisa de todo mundo e ainda assim somos feitos para nos sentirmos altamente livres de quaisquer relações com outras pessoas, outros seres, outras realidades. Pura mentira! Autoengano. O real e o imaginário se interligam e seguimos diariamente assim, com a falsa ideia de independência em um mundo cada dia mais interligado e dependente em tudo. Tudo! 

A natureza é nossa casa. A casa da gente é como a natureza. A casa ou a natureza tanto acolhe quanto oprime. Acolhimento e opressão são consequências de fatores interligados sem a nossa capacidade de intervenção - o acaso -, como também somos responsáveis por fazer da natureza e da nossa casa ambientes acolhedores e livres de opressão.

Neste momento do mundo, Natal de 2023, tenho algumas hipóteses sobre o comportamento humano em constante mudança. Me questiono sobre um possível amanhã refletindo a respeito de qual ser humano haverá no mundo. 

Seremos ainda animais passíveis de serem educados no sentido de sermos "homens e mulheres cultivados" (Mircea Eliade) com conhecimentos gerais? Seremos seres sociáveis num futuro próximo? No sentido de sermos seres coletivos e solidários com outras pessoas e espécies e preocupados com qualquer coisa externa a nós mesmos? E, por fim, seremos ainda seres que escrevem, que registram em signos linguísticos a nossa história do mundo e de nós mesmos? Ou seremos sociedades ágrafas, apostando a preservação de toda a nossa cultura e conhecimento em áudios e vídeos e nuvens de empresas capitalistas, as big techs?

Essas hipóteses são baseadas em observações e estudos que venho realizando nos últimos anos. Basta olhar ao meu redor, na cotidianidade de Osasco, de São Paulo ou de Uberlândia, do Brasil, do mundo que chega até mim, para ler a tendência do comportamento humano e do mundo dominado por esse animal.

A fragilidade das coisas me impressiona. Ao observar e compreender um pouquinho melhor o cotidiano das pessoas e da vida na sociedade atual, eu consigo substituir o ódio e a raiva que senti boa parte de minha vida por um sentimento de compaixão, amor e uma certa dor por sentir o quanto as pessoas estão sufocadas nos problemas cotidianos do viver, boa parte deles insolúveis por falta de um novo olhar para as coisas que importam na vida: a própria vida em coletividade, já que não somos nada sozinhos. 

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NATAL DE 1969

O Natal de 1969 foi o meu primeiro Natal na sociedade humana.  

Eu não tenho a menor ideia de como foi. Eu tinha mais ou menos uns 9 meses de idade. 

O que sei é que nasci pouco antes do famoso festival de Woodstock, ocorrido em agosto numa fazenda de gado em Bethel (NY), nos Estados Unidos. 

Não sei se meus pais curtiam aquele tipo de som com solos de guitarra de Jimi Hendrix e aquela voz incrível de Janis Joplin. Eu iria gostar de Rock e daqueles roqueiros e roqueiras quando crescesse...

Pelas fotos dos meus pais daquela época, sei ao menos que meu pai usava um cabelo com topete e talvez brilhantina e minha mãe usava aqueles cabelos mais ou menos curtos, penteados com escova e às vezes com laquê. 

O homem (espécie animal homo sapiens) havia pousado na Lua no mês de junho, imaginem só! Neil Armstrong saiu da Apollo 11, deu uns passos na Lua e acabou vendo que a Terra não é plana, é redonda (hoje tem gente ignorante suficientemente para duvidar até disso!). E aquela façanha espacial do ser humano foi transmitida pela TV ao vivo. 

Como será que meus pais receberam essa notícia? Difícil imaginar! 

Quero acreditar que em alguns momentos daquele ano de 1969, anos de chumbo aqui no Brasil, meus pais tiveram também momentos de alegria e descontração, como na foto que ilustra esta postagem.

O que sei é que tudo anda muito frágil no mundo de 2023, até na casa de meus pais, tudo anda como um castelo de cartas que pode se desmanchar a qualquer segundo com um esbarrão involuntário... 

O tempo vivido com as pessoas queridas e de nossas relações se torna cada dia mais importante e único. Carpe Diem! Aproveitem o seu dia!

Pensem nisso nesses dias de Natal. Eu estou pensando.

William

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Post Scriptum: o primeiro texto desta série de postagens, pode ser lido aqui. O capítulo seguinte pode ser lido aqui.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Natais - 1968


Natal de 2022, Uberlândia, MG.

Refeição Cultural

Para os cristãos o Natal é uma data na qual se comemora o nascimento de Jesus Cristo, filho de Deus. Mais que um simples nascimento, a data tem uma simbologia religiosa na qual Deus se fez presente no mundo humano, através de seu filho em carne e osso. 

Jesus, o filho de Deus, esteve entre nós por cerca de três décadas e suas mensagens foram de amor ao próximo, solidariedade ao se dividir o pão e de paz na terra. As elites da época não concordaram com ele e o crucificaram por isso. 

Foi numa comunidade com esse tipo de cultura religiosa que eu nasci em 1969. 

Ano passado, após ausências por causa da pandemia mundial de Covid-19, passei o Natal com meus pais, irmã, sobrinhos, esposa e filho, tia e primo e respectivos/as cônjuges.

Como Natal significa nascimento, no Natal de 2022 também houve uma expectativa na comunidade onde nasci, o Brasil, do nascimento de uma nova era, um período de mais esperança para o povo brasileiro por estarmos vivendo o fim de um período macabro do qual sobrevivemos ao genocida e miliciano que ocupou a presidência do país, e por estarmos começando um período que seria comandado por Lula e pela frente ampla que venceu as eleições. 

É sabido por todos, até pelos adversários minimamente honestos do presidente Lula, que o foco do governo ao longo do mandato de quatro anos será seguir algumas das mensagens que o filho de Deus pregou durante sua passagem pela Terra: amor e acolhimento ao próximo, solidariedade ao incluir o pobre no orçamento público e diminuir a desigualdade social, trazendo um pouco de paz nesta terra.

Estamos terminando o primeiro ano do governo Lula, um cristão daqueles que podemos dizer que faz de sua vida prática o critério da verdade. Lula correu o mundo pregando a paz entre os povos, a distribuição da riqueza produzida pelos seres humanos e a proteção aos biomas do planeta Terra. 

O risco de suas propostas serem desconsideradas pelas elites do mundo segue alto, como aconteceu com Jesus dois milênios atrás.

Sigo apoiando e torcendo pelo sucesso de nosso querido presidente Lula nesta tarefa de melhorar a vida dos pobres e despossuídos do Brasil e do mundo, pois sabemos que Lula é um legítimo cristão. 

Repito, sabemos que as elites vão tentar crucificá-lo por tentar dividir o pão (o orçamento público)... essa história é bem antiga... nós temos que estar alertas e preparados para defender pessoas como o presidente Lula, pessoas que defendem um mundo mais justo e solidário para todas as pessoas e seres vivos.

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NATAL DE 1968

Como terá sido o Natal de meus pais em 1968? 

Eu não sei. Eu estava no ventre de minha mãe, havia sido concebido mais ou menos em julho e nasceria no início de abril do ano seguinte. 

O que sei é que o Brasil passava por um momento duro de sua história política. Não havia democracia. 

O imperialismo financiava golpes em toda a América Latina. A ditadura civil-militar havia começado em 1º de abril de 1964, dia da mentira, e naquele mês do Natal de 1968 o regime ditatorial havia decretado o Ato Institucional nº 5 (AI5) e tudo seria pior para o povo trabalhador brasileiro. 

Meus pais e a pequena filha adotiva com pouco mais de 1 ano de idade faziam parte do povão que sofreria as consequências daquela desgraceira toda promovida pela elite tupiniquim com apoio dos Estados Unidos. 

Por lá, Martin Luther King havia sido assassinado a tiros em 4 de abril, na cidade de Memphis, Tennessee. King era uma liderança do movimento negro, pastor batista e um pacifista e defendia a igualdade de direitos entre todas as pessoas, independente de origem, etnia, gênero, crenças, visões de mundo.

Por aqui, os metalúrgicos de Contagem (MG) desafiaram patrões e ditadores e realizaram greve histórica. Em Osasco, na grande São Paulo, uma greve iniciada em julho na Cobrasma e depois expandida para outras fábricas enfrentou o regime fascista dos militares e endinheirados e deixou para a classe trabalhadora brasileira grande exemplo que cresceria mês após mês num movimento que daria origem ao Novo Sindicalismo.

Pensei na foto que tenho de minha mãe aos 22 anos com aquele barrigão de uns 6 a 7 meses de gestação. Seu olhar me passa a impressão de preocupação. Eram tempos duros para a classe trabalhadora brasileira.

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Começo aqui uma nova série de postagens no blog. Imaginar e relembrar os natais que vivi e que vivemos neste mundo mundo vasto mundo.

William


Post Scriptum: o capítulo seguinte desta série pode ser lido aqui.


sábado, 18 de novembro de 2023

Lembranças - Capítulo 12*



Refeição Cultural

Osasco, 18 de novembro de 2023. Sábado.


BOAS LEMBRANÇAS E SAUDADES DE NOSSO QUERIDO TIO LÉO

Este é um fim de semana triste para nossa família. Faleceu ontem o nosso Tio Léo, em Barra do Garças, Mato Grosso. O tio estava com problemas de saúde já fazia algum tempo e graças aos cuidados carinhosos que recebeu da tia Regina, da filha Lara e de toda a família e amigos, lutou bravamente pela vida nos últimos anos. Estive na Barra com meus pais em julho do ano passado e pudemos matar saudades da família.

Meus tios e família se estabeleceram na Barra do Garças há décadas, depois de viverem em Uberlândia (MG) e Ariquemes (RO). A família sempre trabalhou com comércio de alimentos. Na Barra, abriram a Pastelaria do Léo em meados dos anos oitenta. As saltenhas e pastéis do Léo se tornaram referência na região e hoje fazem parte da cultura da cidade.

Pastelaria do Léo, Mercado Municipal,
Barra do Garças, MT.

Eu ia para a casa dos tios em Barra do Garças desde os anos oitenta, vi os primos e prima crescerem. Tomei muita cerveja com o tio Léo e adorava passar alguns dias com a família. Cada vez que ia para lá, depois que voltava para São Paulo dizia que iria levar mais alguém para conhecer as delícias da Barra, a casa dos tios e a pastelaria, a temporada de praia do Rio Araguaia, o clube de Águas Quentes, a escalada ao Cristo lá no alto da Serra Azul, de onde se vê toda a região com as cidades de Barra do Garças (MT) e Aragarças (GO). Foram muitas histórias ao longo da vida.

As famosas saltenhas da 
Pastelaria do Léo.

Jamais poderia esquecer um momento que vivi na casa dos tios em Barra do Garças. Foi no início dos anos noventa. Eu havia passado no concurso público para o Banco do Brasil, estava muito feliz e fui passar uns dias com o tio Léo e família. A gente estava sentado à noite na sala, a TV ligada e de repente ouço a notícia de que o concurso havia sido cancelado por fraudes ocorridas em Brasília (DF). Meu mundo desabou naquele minuto. Fiquei arrasado. Felizmente tudo correu bem. Como meus tios haviam dito, eu prestaria a prova de novo e passaria novamente. Assim foi. Passei de novo e fui bancário do BB até pouco tempo atrás.

Estar com o tio Léo e família quando era mais jovem era uma diversão só, e inspiração também. Eu cresci pensando em um dia poder mudar para uma região interiorana para ter uma chácara, sítio ou fazendinha para me afastar da cidade grande e passar mais tempo no mato. Sempre gostei de mato, muito mais que praia. Quando ficava uns dias na Barra, às vezes nos sítios do tio Léo, aumentava meu desejo de aprender sobre administração de um espaço de terra e viver por ali.

O tio Léo e as frutas do pomar.

O tio Léo gostava de tirar um sarro das visitas de cidade grande quando estávamos na Barra. Qualquer pessoa que a gente levasse na viagem iria passar pelo crivo do tio. Ele ia com a pessoa até o pomar e perguntava que árvore e que fruta era aquela. Perguntava se a pessoa sabia como era um pé de amendoim, de abacaxi, de alguma fruta mais exótica. Ele era um tirador de sarro. E os bichos silvestres, a mesma coisa. "Que bicho é esse?", apontando para uma cutia, ou uma paca, ou alguma ave diferente.

Barra do Garças vista do alto
da Serra Azul, onde fica o Cristo.

E quando a gente ia andar com o tio no meio do mato, era uma comédia só. O tio Léo se metia sem camisa no meio do mato, sem se importar com gravetos, espinhos e urtigas, uma planta que irrita a pele como se fosse taturana. Já os "bichos" da cidade grande, era só andando lentamente, tentando tirar galhos e folhas da frente... se enroscando todo na caatinga, como conta Euclides da Cunha ao descrever o branco do litoral nos sertões de Canudos.

E aí, que ave é essa?
Não, não é uma galinha!
É uma saracura...

Uma vez, estávamos para iniciar a refeição, o jantar se não me engano, e tínhamos levado um primo mais novo de São Paulo para lá, o Daniel, e ninguém entendeu por que o tio Léo estava olhando prato por prato na mesa, aquele silêncio momentâneo e, de repente, nhac!, o tio pegou o garfo da mão do Daniel e falou "esse é o meu garfo!" e em seguida disse, "Regina, pega outro garfo pro garoto!". O pessoal caiu na gargalhada, por causa do susto geral na hora que o tio avançou no garfo velho na mão do Dani.

Visitamos o tio Léo e a tia Regina 
em julho de 2022. Foi muito bom!

Ano passado, quando visitamos o tio Léo e a tia Regina, estando o tio um pouco debilitado, matamos saudades até do jeitão do tio que nunca mudou. Para me ensinar a pescar corretamente e arremessar a linha com isca da vara de pescar na represa, já que a isca ele que a colocava por dizer que eu não daria conta (risos), o tio teve trabalho comigo. Custei fazer mais ou menos certo o que ele me explicou. E olha que dos três peixes que peguei, um eu "fui mole", segundo o tio, e deixei o peixe escapar quase na hora de pegá-lo. Foram dias de matar saudades aqueles do ano passado com a família na Barra.

O tio Léo teve trabalho com
o pescador de araque aí.

São muitas lembranças, tanto as vividas na Barra quanto as vividas em Uberlândia, quando o tio Léo ia para lá e reuníamos a família para o aniversário da vovó Cornélia.

Encontro no aniversário de 84 anos 
da vovó Cornélia, em Uberlândia.

Me lembro até hoje das conversas com o tio Léo, ficávamos horas conversando e tomando uma cervejinha. Na nossa época de adolescência, os tios e tias nos davam conselhos, sim!, os tios nos davam conselhos e a gente ouvia, e eu fui um privilegiado por ter muitos tios e tias, quatro por parte de mãe e oito por parte de pai. 

Se tem uma coisa que me lembro é do tio Léo dizendo que a gente precisava estudar, estudar para ser alguém na vida. Legal isso! Nunca me esqueci. O tio dizia até que se precisasse, ele ajudaria os sobrinhos, mas a gente deveria estudar.

O tio Léo estará sempre em nossas lembranças, em nossos corações. Assim como a vovó Cornélia, a tia Alice e meus primos que já nos deixaram. Deixamos o nosso abraço fraternal e de amor para a tia Regina e a Larinha e para toda a família.

Saudades, tio Léo! Meus sentimentos, mãezinha, muita força nessa hora!

William e família

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*Post Scriptum: este texto foi pensado como pertencente a uma série de postagens que venho fazendo sobre memórias e sentimentos de cunho pessoal, mesmo sabendo que os conteúdos trazem contextos históricos. Não se separam a dimensão pessoal da dimensão coletiva, o mundo é um só, o sujeito é um ser no mundo, na natureza inteira. Ao colocar o número do capítulo me equivoquei e repeti o número anterior. Por isso corrigi para nº 12.

Post Scriptum II: o texto anterior desta série, o capítulo 11, pode ser lido clicando aqui.