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quarta-feira, 27 de maio de 2026

Livro: O Hamas conta seu lado da história



Refeição Cultural

LITERATURA POLÍTICA 


"Nestas páginas, oferecemos ao leitor um conjunto de documentos e declarações que apresentam de maneira clara o que pensa o Hamas, e a sua versão dos acontecimentos do 7 de Outubro. Trata-se de uma verdade que forças poderosas trabalham para ocultar, para falsear, para distorcer. O resultado dessa operação fraudulenta é o de encobrir o genocídio do povo palestino." (Rui Costa Pimenta, na apresentação do livro)


Adquiri o livro O Hamas conta o seu lado da história (2024) nas manifestações do 30º Grito dos excluídos e excluídas, na Praça da Sé, em São Paulo. O livro foi organizado por Rui Costa Pimenta, presidente do PCO, e confeccionado pelas Edições Causa Operária.

Logo na apresentação do livro, um conceito importante é dito por Pimenta e vale a pena reproduzi-lo:

"É a opressão que dá legitimidade à luta pela liberdade, e não qualquer característica misteriosa dos que lutam. A luta contra a opressão - e estamos falando de uma das mais brutais e criminosas opressões contra todo um povo - é inerentemente libertária, independentemente de maiores considerações." (p. 13)

Li mais da metade do livro logo nas primeiras semanas de aquisição da obra em setembro de 2024, que é dividida em quatro partes, além da apresentação e prefácio. Naquele momento, o mundo já acompanhava de forma televisionada o bombardeio diário à população da Faixa de Gaza. Era algo indescritível! Milhares de crianças, mulheres, idosos e população civil em geral sendo dizimados diariamente pelas bombas do exército sionista.

Hoje, maio de 2026, praticamente não existe mais nada na Faixa de Gaza, nada, hospitais, escolas, habitações, água, comida, energia, nada. Centenas de milhares de palestinos estão cercados e morrendo porque até ajuda humanitária é proibida quando os povos do mundo tentam socorrer o povo palestino.

Ajuda humanitária através de grupos de pessoas e organizações é impedida de se realizar até com sequestro de embarcações em áreas marítimas internacionais. O mundo viu isso recentemente com o sequestro de pessoas de diversos países em flotilhas cercadas e capturadas pelos sionistas.

"Certamente é uma guerra, uma guerra entre um povo ocupado e os ocupantes. E esses ocupantes, infelizmente, quero dizer, estão todos armados, todos eles. O povo inteiro é um exército e tem um Estado. Ao contrário de todos os países do mundo, em que a norma é que o Estado tenha um exército, 'Israel' é um exército que tem um Estado e tem um sistema." (Dr. Musa Abu Marzuk, p. 38)

Na entrevista cedida a Rui Costa Pimenta, Abu Marzuk, intelectual palestino e dirigente político do Hamas, apresentou os pensamentos e objetivos das lutas lideradas pelo povo palestino em defesa das terras nas quais vivem há centenas de anos.

Cito abaixo um trecho da entrevista que, de certa forma, sintetiza um pouco a luta desenvolvida pelos palestinos há décadas, desde que foram expulsos de suas terras após o fim da 2ª Guerra Mundial.

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"Por que o Hamas considera necessário o recurso da luta armada?

     Acredito que a luta armada é necessária porque nenhuma ocupação no mundo lhe dará sua independência por meio de negociações. Nunca aconteceu na história uma ação política que libertasse um país, ou lhe desse independência. Temos a experiência dos nossos irmãos do Fatá e da OLP, que disseram: 'Não queremos resistência, queremos negociação política'. Então assinaram os Acordos de Oslo, em 1994, que previa sua implantação em cinco anos. O acordo previa, depois de cinco anos, a independência dos palestinos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, e Al-Quds (Jerusalém) como capital.

     Hoje estamos em 2024, ou seja, já se passaram trinta anos desde esse acordo, e não avançamos um único passo, porque é impossível a ocupação dar, em palavras, um Estado. Por quê? Por que o daria a você, se você não consegue conquistá-lo? É sabido que a liberdade é conquistada, não é dada. Ninguém dá liberdade a ninguém. Ela deve ser conquistada com suas forças e defesas, e continuamos nossa resistência até obter nossa liberdade." (p. 39)

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Comentário do blog:

O povo cubano que o diga em relação a essa afirmação de Abu Marzuk! Para conseguir a liberdade e independência dos impérios que subjugavam a ilha e seu povo - primeiro a Espanha e depois os Estados Unidos -, foram séculos de lutas para a libertação em 1º de janeiro de 1959, através do exército rebelde liderado pelo Comandante em Chefe Fidel Castro Ruz.

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Em outra entrevista, Rui Costa Pimenta, conversa com o doutor Basem Naim, membro do Birô Político do Hamas. Ele foi ministro da saúde do povo palestino.

Em uma parte da resposta à pergunta se a causa palestina estaria a caminho da vitória, Basem Naim aponta as dificuldades que seu povo vinha enfrentando por trinta anos pela estratégia do chamado "processo de paz", do qual diz que os palestinos foram enganados:

"Esta não é a nossa escolha. Se alguém puder nos ajudar a alcançar nossos objetivos de forma pacífica, por favor! Mas, se não, não podemos continuar a viver nessas condições desumanas. Portanto, quando Smotrich disse que os palestinos têm duas opções, sair ou serem mortos, nós respondemos. Também temos duas opções: viver aqui com liberdade e dignidade, ou morrer aqui de forma livre e digna. não há outra escolha." (p. 60)

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Na parte que trata da "Operação Dilúvio de Al-Aqsa", os leitores vão acessar os motivos acumulados ao longo de, pelo menos, 75 anos de ocupação e abusos que levaram os palestinos ao evento de 7 de outubro.

"A batalha do povo palestino contra a ocupação e o colonialismo não começou em 7 de outubro, mas sim há 105 anos, incluindo 30 anos de colonialismo britânico e 75 anos de ocupação sionista. Em 1918, o povo palestino possuía 98,5% das terras da Palestina e representava 92% da população na terra da Palestina, enquanto os judeus, que foram trazidos para a Palestina em campanhas massivas de imigração, em coordenação entre as autoridades coloniais britânicas e o Movimento Sionista, conseguiram controlar não mais que 6% das terras na Palestina e representavam 31% da população antes de 1948, quando a Entidade Sionista foi anunciada na histórica terra da Palestina. Naquela época, ao povo palestino foi negado o direito à autodeterminação, e as gangues sionistas empreenderam uma campanha de limpeza étnica contra o povo palestino, com o objetivo de expulsá-lo de suas terras e áreas. Como resultado, as gangues sionistas tomaram o controle à força de 77% da terra da Palestina, de onde expulsaram 57% do povo da Palestina e destruíram mais de 500 vilarejos e cidades palestinas, cometendo dezenas de massacres contra os palestinos, culminando na criação da Entidade Sionista em 1948. Além disso, em continuidade à agressão, as forças israelenses, em 1967, ocuparam o restante da Palestina, incluindo a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e Jerusalém, além de territórios árabes ao redor da Palestina." (p. 65/66)

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Convivência pacífica é possível entre os diferentes?

Acho interessante citar uma passagem do livro que me fez lembrar da convivência entre povos e credos diferentes em outras partes do mundo ao longo da história.

"O povo palestino sempre se posicionou contra a opressão, a injustiça e a prática de massacres contra civis, independentemente de quem os comete. E, com base em nossos valores religiosos e morais, afirmamos claramente nossa rejeição ao que os judeus sofreram nas mãos da Alemanha nazista. Aqui, lembramos que o problema judaico, em essência, era um problema europeu, enquanto o ambiente árabe e islâmico foi, ao longo da história, um refúgio seguro para o povo judeu e para outras pessoas de outras crenças e etnias. O ambiente árabe e islâmico foi um exemplo de convivência, interação cultural e liberdades religiosas. O conflito atual é causado pelo comportamento agressivo sionista e sua aliança com as potências coloniais ocidentais; portanto rejeitamos a exploração do sofrimento judaico na Europa, para justificar a opressão contra nosso povo na Palestina." (p. 75)

Como aceitar a situação na qual se encontra o povo palestino em Gaza?

"(...) No curso da agressão em Gaza, a ocupação israelense privou nosso povo em Gaza de alimentos, água, medicamentos e combustível, privando-os simplesmente de todos os meios de vida..." (p. 75)

Na parte três os leitores têm acesso a documentos formais do Hamas e na parte quatro há um conjunto de artigos e reportagens sobre o evento de 7 de outubro e o período posterior.

Há diversas matérias de inúmeras fontes que alegam que parte das mortes de judeus ocorreu por ataques das próprias forças militares de Israel naquele dia 7 de outubro.

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LER PARA COMPREENDER

Enfim, a leitura do livro com a versão do povo palestino no conflito trágico da ocupação da Palestina desde 1948 agrega informações a qualquer pessoa que queira compreender melhor a questão.

Sigamos lendo, estudando e tentando compreender o mundo para influir nele e modificá-lo em busca da justiça, da verdade e da possibilidade de convivência sustentável, igualitária e pacífica entre todas as pessoas e demais formas de vida.

A vida na Terra pode ser melhor.

William

27/05/26


Bibliografia:

O Hamas conta o seu lado da história. Edição geral Rui Costa Pimenta. São Paulo: Editora Democritus, 2024. 

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Leituras Capitais - Na mira



Refeição cultural

CartaCapital nº 1410


NA MIRA

Alexandre de Moraes continua um alvo ambulante e a incógnita contamina as relações em Brasília


O bom jornalismo tem como premissa não brigar com os fatos, informar os acontecimentos como eles são. Gosto do jornalismo do grupo CartaCapital pela escola que Mino Carta e suas equipes representam. Por ser leitor e apoiador da revista, me sinto à vontade para tecer críticas quando acho necessário fazê-las.

A imagem escolhida pela revista para ser capa da edição 1410 ficou horrível, não condiz com a linha editorial de CartaCapitalEla me lembrou aquelas capas que o grupo Abril sempre fez contra o presidente Lula. 

O título e o tema poderiam ter sido ilustrados com uma imagem menos apelativa do que a escolhida pela revista. Fica registrada minha crítica pontual.


As matérias e artigos da edição 

Este leitor comentador deve estar naqueles dias de rabugice porque virou a cara para vários textos da edição...

CÍRCULO VICIOSO (Maria Rita Kehl)

"Muitos assediadores não nutrem real desejo pelas vítimas, apenas buscam vingar-se de rejeições anteriores. O resultado desse comportamento é mais repulsa e desprezo"

Sou admirador da psicanalista e escritora, e achei que o texto ia bem na abordagem complexa do tema, mas aí...

"(...) Triste ver um homem negro, certamente vítima de racismo estrutural que assola a sociedade brasileira, envolvido em um caso como esse, contra uma colega que também é negra." (p. 21)

Ela decide ilustrar a tese dela citando o caso em aberto do ex-ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida, que ainda está sob apuração. 

A articulista o condena antecipadamente ao citá-lo como exemplo da forma como nunca se deveria fazer num estado democrático de direito... francamente! Que merda isso!

O tema da violência de gênero é sério demais para seguirmos nesse simplismo de se condenar antecipadamente (e na maioria das vezes para sempre e de forma irremediável) qualquer pessoa física ou jurídica que sofra alguma denúncia de assédio sem o devido processo legal concluído. 

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Para finalizar meu azedume com alguns textos, Paulo Gala, no artigo "Os desequilíbrios da China" (p. 37), me pareceu aqueles "economistas" dos jornalões da casa-grande. A China tá crescendo, mas mas mas... 

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Gostei dos textos das seções "Reportagem de capa", "Seu País" e "Economia". Me atualizei sobre a corrida eleitoral deste ano com as matérias sobre as negociações políticas no Nordeste e Minas Gerais. 

DO POÇO AO POSTO (p. 38)

"Por que o Brasil precisa retomar o controle da distribuição de combustíveis"

O texto está muito bom, esclarecedor, sobre as consequências da privatização da cadeia produtiva do petróleo. A análise é assinada por Pedro Uczai, deputado federal (PT/SC).

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Na seção "Nosso Mundo" li assustado as notícias sobre o avanço insano do fundamentalismo religioso naquele país beligerante do norte, governado pelo Nero da atualidade. 

COPA DO MUNDO 

Dois textos abordam o torneio de futebol que será realizado no país que invadiu a Venezuela e sequestrou seu presidente para roubar o petróleo do povo daquele país e que bombardeou o Irã sem respeitar qualquer regra internacional sobre guerras e bombardeou uma escola de crianças, matando quase duzentas meninas.

Um texto fala sobre o preço abusivo de qualquer coisa relacionada a ver os jogos ao vivo.

Outro texto, o artigo do Afonsinho, fala da Copa nos Estados Unidos e fala de tudo, tudo, só não faz nenhuma menção a boicotes ou críticas pelo fato de o evento mundial ser realizado naquela merda de país agressor.

Nada contra o Afonsinho. Na verdade, nenhum jornalista que conheço, que fale e ou goste de futebol, falou nada sobre boicotar e ou não participar da competição por ser no país que sempre exigiu boicote contra outros países em competições internacionais... ninguém falou nada contra a Copa ser nos Estados Unidos!!! 

NOJO!!! HIPOCRISIA!!! Não vi um jornalismo progressista ou democrata ou adjetivo do tipo defender boicote à Copa nos EUA. Nenhum!

Francamente!

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CAMINHAR, SEMPRE

Para fechar a leitura de forma positiva, o artigo do doutor Drauzio Varella "Caminhar, sempre" (p. 57) traz notícias excelentes! 

"Um estudo da revista inglesa The Lancet comprova que dar ao menos 7 mil passos por dia reduz em 47% a mortalidade por qualquer causa"

Amig@s leitores, minha apreensão por estar com problemas na minha estrutura de locomoção é por saber disso e ter na corrida e caminhada atividades vitais para mim, vitais!

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É isso! Leitura feita!

William 

domingo, 25 de janeiro de 2026

O sentido da vida (19)



Compreender melhor o povo muda alguma coisa?


Envelhecer pode significar o ganho de experiência e sabedoria. Ou não. 

Pode ser que se tenha mais referências para nortear os passos a seguir.

Ao participar de rodas de conversas, sejam elas com conhecidos ou estranhos, percebia-se na prática as teorias do sociólogo Jessé Souza, em sua interpretação do povo brasileiro. 

Os brasileiros são aquilo que Jessé Souza explica em seus livros e palestras, um saber acumulado após décadas de estudos.

Um povo que foi aculturado para ser racista, um tipo de preconceito naturalizado por séculos, a partir da casa-grande. Racismo cultural. 

As diversas formas de preconceito e discriminação são ferramentas ideológicas para encobrir os privilégios dos donos do poder. 

Ele entendia isso claramente naquele momento de sua existência. 

A questão para ele era saber o que fazer com essa compreensão melhor sobre seu mundo e seu povo. 

Compreender como opera o sistema de aculturamento em seu mundo não significa capacidade de alterar aquela situação. 

Como mudar a realidade e salvar a humanidade e a vida no planeta Terra?

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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Instantes (14h47) - Salvar o mundo: um compromisso ético



Refeição Cultural

Que poderia registrar neste instante? O que ocupa meus pensamentos?

O amor, esse nobre sentimento, poderia ser a pauta a definir a agenda da sociedade humana. Mas ele não é o que importa no mundo dos homens. 

O projeto humano em andamento é outro - o necrocapitalismo -, e as ferramentas para se levar adiante o projeto são antagônicas ao amor.

Ódio e medo são os sentimentos a serem trabalhados pelos donos do poder para implantar o preconceito entre os iguais nas classes subalternas. 

E o pior é que dá certo manipular as massas humanas desprovidas de todos os meios essenciais à vida e ao pleno desenvolvimento do ser humano. 

O que fazer ao perceber esse cenário ao seu redor? Se contrapor a esse projeto de sociedade humana é o básico. Mas não basta. 

Que mais se poderia fazer para impedir esse projeto de dominação das massas humanas através do ódio e do medo, alcançando o predomínio do preconceito entre as vítimas miseráveis desse sistema?

Só escrever não basta. Só estudar e refletir não basta. Só pregar o pacifismo não basta. Isso é óbvio! 

Enquanto um sujeito pacifista faz isso, o dono do poder explode ele... boom!

Entendem? Só pacifismo não basta contra os donos do poder. Não pararam Hitler com passeatas pacifistas.

Estamos ferrados! Um século depois, os pacifistas copiam os "pacifistas" hipócritas (covardes?) do período entre os anos vinte e quarenta da "Era dos extremos".

A gente vê isso e sente uma impotência imensa sendo um cidadão politizado. 

Sigamos sem esmorecer ou desistir. Salvar a humanidade e a vida no planeta Terra deve ser um compromisso ético de cada um de nós. 

William 

23/01/26

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Quinta-feira, 20 de novembro de 2025


CONSCIÊNCIA NEGRA E LUTA ANTIRRACISTA

O dia 20 de novembro é feriado nacional no Brasil por causa da Lei 14.759/2023, assinada pelo presidente Lula. Antes, a presidenta Dilma Rousseff, em 2011, sancionou a Lei 12.519, que estabeleceu o "Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra".

Duas pessoas estiveram em minhas lembranças e reflexões nesta data: minha irmã Telma Lúcia e o deputado estadual pelo Paraná, Renato Freitas, nosso companheiro do Partido dos Trabalhadores. Sou eleitor do PT desde 1988, militante e filiado há décadas.

Minha irmã e eu crescemos no Brasil da ditadura civil-militar dos anos setenta e fomos adolescentes no país ainda governado pelos desgraçados fardados e por seus mantenedores nos anos oitenta. Os mesmos apoiadores que seguiram no poder após o fim oficial da ditadura. 

Encerrada a ditadura dos milicos de merda em 1985, os donos do dinheiro e do poder político seguiram barbarizando o povo como sempre fizeram antes e seguem até hoje fazendo a vida de quase todos nós um inferno na terra chamada Brasil.


O companheiro Renato Freitas sofreu ontem mais uma das frequentes agressões racistas que enfrenta desde que nasceu e cresceu nas veredas periféricas de um dos países mais violentos e assassinos do povo negro no mundo. Renato precisa de todo o nosso apoio porque querem calar sua voz e quebrar sua resistência de sobrevivente. Renato, estamos contigo, irmão e companheiro!

Durante a maior parte de minha vida, décadas eu diria, não tive a menor ideia do que deve ter sido a vida de minha irmã Telma. Um branco heterossexual e que conseguiu estudar até a graduação jamais saberá o que é ser negro ou negra no Brasil. Jamais! Não é possível sentir o que sente uma pessoa oprimida e perseguida por preconceito ou discriminação, qualquer que seja o ódio que ela sofra.

Cresci num país violento, machista, racista, desigual, misógino, um país que nasceu sendo uma colônia de exploração de invasores que chegaram aqui, mataram os povos que viviam na terra, destruíram os biomas, trouxeram milhões de seres humanos raptados do continente africano para trabalharem como escravizados. 

Durante séculos, as crianças que nasceram aqui eram fruto de estupro de mulheres indígenas e escravizadas africanas. E durante séculos, e até hoje, os homens desta terra, não todos, mas uma grande maioria, se valeram de diversos estratagemas para a manutenção de sua violência contra as mulheres. Até as religiões fizeram parte dessas ferramentas de poder.

Somos um povo de sobreviventes e quase todos nós temos em nosso passado o sangue de uma mulher violada ou abusada por homens que construíram instituições e leis para que os privilégios deles permanecessem para sempre, independente das lutas libertadoras e emancipatórias dos povos oprimidos que foram surgindo ao longo de séculos.

Só depois que tive a oportunidade de conhecer o movimento sindical brasileiro, depois que virei bancário, foi que passei a compreender melhor a vida social e política do povo trabalhador brasileiro. A convivência no movimento sindical cutista e os ensinamentos que vieram com o tempo me permitiram ser a pessoa que sou hoje, incompleta como ensina Paulo Freire, mas um pouco mais consciente.

Temos que lutar por uma sociedade humana onde não haja nenhuma forma de preconceito e discriminação e onde as pessoas vivam suas vidas em condições igualitárias, respeitando as diferenças que nos fazem humanos, seres diversos e únicos em nossas características.

Cresci numa sociedade que insistia em me fazer ter ódio e medo. Andei por caminhos sombrios e muitas vezes só o ódio me moveu. Encontrei luzes nos ensinamentos de minha mãe, de pessoas boas e em boas leituras. O ódio vive me tentando... ao ver um racista ou fascista, o ódio me tenta... mas devo resistir e pensar no amor, na humanidade.

Pensando em minha irmã Telma Lúcia, uma sobrevivente, e no companheiro Renato Freitas, um sobrevivente, penso em todas as pessoas que sofrem pelo racismo e pelos diversos tipos de preconceito e discriminação que depõem contra a sociedade humana.

A vida pode e deve ser boa e feliz para todas as pessoas. A vida humana pode ser vivida num ambiente terrestre que respeite as diversas formas de vida. Lutemos por isso.

William Mendes


Post Scriptum: sempre participo das atividades de rua em datas importantes. Hoje tinha prioridades com questões de saúde de minha família. Não estive na Av. Paulista, mas meu coração bateu forte pelas lutas e resistência do povo negro de nosso país.

sábado, 30 de agosto de 2025

O sentido da vida (8)



"Sentia-me três vezes desgraçado: meu pelo era mosqueado, haviam-me castrado e os homens imaginavam que eu não pertencia a Deus nem a mim mesmo, como é próprio de todo ser vivente, e sim, a um cavalariço." (Kolstomer - História de um cavalo, Tolstói, 1886)


As relações sociais dão sentidos ao viver


Qual seria o sentido da vida, se não há nada dessas abstrações inventivas do animal humano, aquele que dominou a natureza, inventou a linguagem e ao final se perdeu acreditando em suas próprias abstrações?

Passou o dia envolvido com um texto extraordinário do século XIX, criado por um dos maiores escritores da Rússia, Leão Tolstói. No enredo, o narrador nos conta a história de Kolstomer, um cavalo que sofreu preconceito, violência e abandono, algo comum na vida de milhões de pessoas neste mundo cruel.

A leitura definitivamente é uma das invenções humanas que podem contribuir para dar significados à vida das pessoas. Ler literatura, ciências e história permite aos leitores se libertarem da triste sina da ignorância, o principal motivo para milhões de animais humanos serem escravos manipulados por espertalhões. 

Naquele dia, refletiu sobre muitas coisas, todas elas ligadas ao sentido da vida: ao parabenizar seu pai pelo aniversário de 83 anos, agradeceu a ele por tudo que fez para todas as pessoas que ele ajudou a se estabelecerem neste mundo cruel e injusto.

Ainda estava pensativo sobre o sentido da vida do personagem Kolstomer... mas o sentido da vida de seu pai, e de sua mãe, e de sua própria vida era mais compreensível àquela altura da existência. 

É notório o sentido de complementaridade e de interdependência que existe na vida da espécie humana na natureza. A vida de seu pai contribuiu para a existência de muitas pessoas da família, assim como sua própria vida naquele momento. 

O ser humano é um ser social por natureza. As relações nos dão sentido.

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sexta-feira, 18 de abril de 2025

O privilégio da branquitude



Estava caminhando pela avenida. Ao ver uma viatura da milícia do governo fascista não senti medo de uma eventual abordagem de rotina. Sou branco.

Não consigo ser feliz em uma sociedade assim. Podem me chamar do que quiserem.

O privilégio da cor da minha pele pesou em meu percurso de vida desde minha primeira venda de horas de trabalho aos onze ou doze anos. 

Ao entrarem na sala de aula do Hortêncio Diniz e me escolherem para aquele emprego de ver TV e anotar os comerciais, num bairro pobre e de maioria preta ou parda, sem dúvida o racismo estrutural pesou para escolherem aquele menino branco "bonitinho".

Por mais esforçado que tenha sido em qualquer venda de minha força de trabalho, por quase quarenta anos, tenho claro que a cor branca de minha pele pesou no meu percurso de vida no Brasil. 

Meritocracia o caralho!

William 

segunda-feira, 7 de abril de 2025

Casa-grande & Senzala (2)



Refeição Cultural 

CASA-GRANDE & SENZALA


"Foi o estudo de antropologia sob a orientação do professor Boas que primeiro me revelou o negro e o mulato no seu justo valor - separados dos traços de raça os efeitos do ambiente ou da experiência cultural. Aprendi a considerar fundamental a diferença entre raça e cultura; a discriminar entre os efeitos de relações puramente genéticas e os de influências sociais, de herança cultural e de meio. Neste critério de diferenciação fundamental entre raça e cultura assenta todo o plano deste ensaio. Também no de diferenciação entre hereditariedade de raça e hereditariedade de família." (Casa-grande & Senzala, Gilberto Freyre, 2011, p. 32)


Li hoje mais algumas páginas do Prefácio à 1a edição (1933) do ensaio de Gilberto Freyre. Lendo-o quase um século depois de sua época, o leitor tem que relevar muita coisa para seguir na leitura. 

Senti o mesmo mal-estar ao ler Os sertões, de Euclides da Cunha. Naquela época, eram dominantes teorias bastante questionáveis como o positivismo e a crença na eugenia.

Enfim, a leitura e os estudos são atividades fundamentais para nos diferenciar das demais espécies animais. 

Os tempos e os donos do poder, as ideologias dominantes, atuam para que eu e vocês nos comportemos como gados, como bichos irracionais. Ou como idiotas crédulos.

Seguirei até o último dia de vida tentando ser um ser humano, um homo sapiens. E um ser dotado de ética.  

William 


Post Scriptum: o texto anterior pode ser lido aqui.


sexta-feira, 4 de abril de 2025

Livro: Cachorro Velho - Teresa Cárdenas



Refeição Cultural 

Abril de 2025


"Até parecia que todos queriam lhe tirar alguma coisa: o senhor o arrebatara à sua mãe; o fogo levara Aroni, a contadora de histórias; sua memória perdia pedaços de Ulundi; o vento lhe roubara a manta e o chapéu; e agora a vida ou a morte, ainda não sabia ao certo, estava lhe tirando pouco a pouco os sentidos. Nesse passo, não levaria para o além nada que prestasse. Mas também, no lugar para onde iria, nada lhe faria falta." (Cachorro Velho, Teresa Cárdenas, 2021, p. 100)


Que história! Que retrato da nossa história! Somos todos nós descendentes da invasão ("colonização") europeia violenta, genocida e bárbara!

Na gênese dos povos das Américas e Caribe existe um passado comum, uma espécie de pecado original: a escravidão. 

A origem de nossas comunidades atuais está marcada com o sangue, o suor e as lágrimas dos povos africanos sequestrados e seus afrodescententes escravizados.

A escritora cubana Teresa Cárdenas é muito habilidosa na sua técnica narrativa. O livro Cachorro Velho (2006) é envolvente da primeira à última página. Difícil largar a leitura antes do fim.

A história de Cachorro Velho, de Beira, Aísa e todas as pessoas escravizadas naquela Cuba do século XIX é duríssima, é de cortar o coração dos leitores.

Livro indispensável nos tempos atuais. História comovente.

Ganhei o livro de presente de aniversário de esposa e filho.

Recomendo muito a leitura.

William 

 

terça-feira, 25 de março de 2025

Casa-grande & Senzala (1)



Refeição Cultural 

CASA-GRANDE & SENZALA


"Mas a casa-grande patriarcal não foi apenas fortaleza, capela, escola, oficina, santa casa, harém, convento de moças, hospedaria. Desempenhou outra função importante na economia brasileira: foi também banco. Dentro das suas grossas paredes, debaixo dos tijolos ou mosaicos, no chão, enterrava-se dinheiro, guardavam-se joias, ouro, valores. Às vezes guardavam-se joias nas capelas, enfeitando os santos. Daí Nossas Senhoras sobrecarregadas à baiana de teteias, balangandãs, corações, cavalinhos, cachorrinhos e correntes de ouro..." (p. 40)


Nunca li o clássico de Gilberto Freyre. Até li umas dezenas de páginas em 2017, mas parei de ler.

Tenho uma certa birra com o ensaio de Gilberto Freyre. Mas acho um texto referencial, todos nós deveríamos lê-lo. 

Inventei de fazer a pós-graduação do Instituto Conhecimento Liberta (ICL) meio que de forma impulsiva. Fiz isso a vida toda: inicio percursos de cultura e conhecimento por desejo e depois acabo não finalizando o percurso por alguma dificuldade. 

Nos textos da bibliografia da primeira disciplina "Narrativas da História do Brasil" e nas aulas e debates, Gilberto Freyre é sempre citado, nem sempre de forma elogiosa.

Peguei minha edição do livro, reli a introdução de Fernando Henrique Cardoso - "Um livro perene" -, e estou lendo o Prefácio à 1a edição, de 1933.

Que dizer? É um clássico das tentativas de explicação sobre o Brasil e os brasileiros. Não concordo com o pouco que li da tese do autor. Cheguei a ler quase duzentas páginas na primeira vez que encarei o ensaio de Freyre. 

Enfim, ler é sempre uma atitude que nos faz humanos. 

William 

sábado, 8 de março de 2025

A língua de Eulália - Marcos Bagno (1)



Refeição Cultural

História da norma-padrão


"Na Itália, a variedade que ganhou o título de padrão e que hoje chamamos de italiano é a língua originária de uma região chamada Toscana. Esta região teve uma importância muito grande durante vários séculos, tendo a cidade de Florença como capital política e cultural. Florença foi um dos pólos do Renascimento, o grande movimento cultural europeu que revolucionou todos os gêneros artísticos e literários da época. Lá trabalharam e viveram gênios como Leonardo da Vinci, Michelangelo e Botticelli. E na língua da Toscana foram escritas algumas das obras-primas da literatura mundial: a Divina Comédia de Dante Alighieri, as Poesias de Petrarca, o Decamerão de Bocácio. Além disso, a Toscana contava com uma moeda forte, o florim, que foi uma moeda importante de comércio internacional durante mais de duzentos anos e em torno do qual se havia organizado um sistema bancário muito evoluído para a época. Tamanho prestígio fez com que o toscano se tornasse, pouco a pouco, a língua de cultura de toda a Itália. E isso apesar de existirem naquele país dezenas e dezenas de línguas diferentes, chamadas dialetos, falados por milhões de pessoas e também veículos de importantes manifestações culturais." (p. 25/26)


Enquanto tomava vitamina de abacate e banana, relia o clássico de Marcos Bagno, A língua de Eulália, livro que conheci em 2001, ano que iniciei minha graduação em Letras na Universidade de São Paulo. 

Os ensinamentos do linguista e escritor Marcos Bagno mudaram para sempre aquele adulto jovem, branco e pobre, que vinha sendo conquistado pelas mídias ideológicas da casa-grande: jornalões e canais de TV que eram as referências de todo mundo. Eu era como a maioria e tinha preconceito linguístico, pois a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante. 

A cada capítulo da novela sociolinguística, os leitores vão se surpreendendo com as informações que tia Irene traz nas conversas com as jovens Vera, Sílvia e Emília, que passam uns dias na casa dela. Dona Eulália era empregada de Irene, professora de língua portuguesa e linguística.

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Dias atrás, vi uma entrevista do escritor Alberto Manguel e novamente me veio à lembrança aquele ano de 2001, primeiro ano das Letras na USP.

Ao ler dois textos de Manguel da bibliografia de uma matéria de literatura, saí desesperado atrás do livro dele: Uma história da leitura (1997). É um dos livros mais interessantes que li em minha vida!

Foi tão encantador vê-lo falar de literatura e cultura que dá até vontade de seguir teimando com a vida para poder ler mais um pouco. A leitura salva!

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Enfim, após instantes de prazer na leitura, preciso perseverar em trabalhar na revisão, sistematização e encadernação de meus textos nos blogs. É a minha vida ali e o meu desejo de preservar tudo que compartilhei de conhecimento com as pessoas. 

William 


Bibliografia:

BAGNO, Marcos. A língua de Eulália: novela sociolinguística. 6a ed. São Paulo: Contexto, 2000.

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Quarta-feira, 20 de novembro de 2024.


Dia da Consciência Negra

*Conceição Evaristo

Pela manhã, li um conto de nossa querida escritora Conceição Evaristo. Li "Aramides Florença", do livro Insubmissas lágrimas de mulheres.

Aos poucos, vou entendendo melhor o conceito de escrevivência. Já li alguns livros de Evaristo e seus textos são muito potentes, são delicados e duros ao mesmo tempo. 


Insubmissas lágrimas de mulheres.

A escritora aborda temas da vida cotidiana do povo preto e pobre, sobretudo de mulheres pretas e pobres, mas ela tem um jeito único de narrar as histórias duras de personagens que podem ser reais ou fictícias e que representam todas as situações reais da vida das pretas e pretos e pobres do Brasil.

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*"Eu, capitão"

Vi nesta semana o filme "Io Capitano" (2023) em cartaz no 19º Festival de Cinema Italiano. O filme do diretor Matteo Garrone narra a saga de dois primos de Dakar, Senegal, para realizar o sonho de irem trabalhar na Europa, para terem mais oportunidades na vida. 

Seydou e Moussa enfrentam os perigos do deserto do Saara, os horrores dos centros de detenção na Líbia e os perigos da travessia do Mediterrâneo. Eles são menores de idade e os espectadores vão mergulhar na realidade cotidiana dos imigrantes que saem de seus locais de origem rumo a países mais desenvolvidos do Norte global na luta pela sobrevivência. 


Cena da travessia do deserto do Saara.

Eu sofro muito durante a sessão de filmes com essa temática da realidade da miséria humana provocada, muitas vezes, pela maldade e crueldade de alguns animais humanos. No meu caso, filmes assim não são entretenimento. Mas são filmes muito necessários. 

O diretor Matteo Garrone consegue dar uma leveza na história quando foca Seydou com sua família, na relação de amor entre as pessoas e nas pequenas vitórias da vida cotidiana.

A arte traz sempre a esperança de transformar as pessoas pela catarse, pelo impacto que causa em quem tem contato com ela. A história de Seydou e Moussa foi perfeita para pensar a questão da consciência negra sendo eu um branco num dos países que mais assassinam e exploram pessoas afrodescendentes há séculos.

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*Ato da consciência negra

Hoje foi dia de atos e reflexões pelo Brasil para marcar o Dia da Consciência Negra. Em São Paulo, os movimentos se reuniram na Avenida Paulista para depois sair em marcha. Ouvimos boa música, manifestações de lideranças e pude trocar ideia com amigos.

Como tinha um compromisso no final da tarde, fui no horário marcado pela organização, 13 horas, para poder participar por algumas horas do ato.


Ato na Avenida Paulista.

Encontrei companheiros e conhecidos por lá durante as três horas em que estive na Paulista. Tive a impressão que a participação não foi muito grande. Avalio que os sindicatos e partidos poderiam ter jogado peso na convocação e lotado o ato. Vi poucos sindicalistas e quase ninguém com mandato parlamentar. 

Fiquei pensando no tema atual do identitarismo e da luta de classes sob a ótica dos debates no campo da esquerda. 

Penso que o sindicalismo e os partidos de esquerda não jogarem peso em um evento que tem uma temática identitária não agrega esses movimentos à causa central, a luta de classes. 

Vi o desenvolvimento dessa questão nos últimos trinta anos. Questões de raça, gênero, orientação etc não deveriam ser questões somente dos interessados diretos. Vira uma coisa meio de reciprocidade, um grupo só se envolve com seu tema de interesse e mais nada. É minha leitura.

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É isso.

Mais um dia de vida.

William Mendes


quarta-feira, 3 de julho de 2024

39 de 100 dias



39. Uma das coisas que tenho observado ao ler os materiais de línguas estrangeiras, o de inglês, por exemplo, é o quanto o conteúdo é ideologizado, é o puro suco capitalista, imperialista e colonial. 

É um conteúdo de brancos do norte para adestrar não brancos das periferias do capitalismo. Incrível e nojento isso!

As histórias são binárias, há sempre mocinhos e bandidos. Os mocinhos têm autorização para matar (do tipo James Bond).

Os materiais vendem a ideia de um mundo perfeito, lindo, limpo, fraterno entre as pessoas de posses e bem-comportadas socialmente. 

Os "desajustados", os miseráveis, se não estão presos, estão em vias de serem presos. 

Que dureza isso!

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A PROCURA DA FELICIDADE (NÃO SENTIR DOR)

Dando seguimento à procura de diagnósticos para minhas dores crônicas, retornei ao especialista de quadril e o ortopedista me explicou os desgastes todos que tenho na região... tenho que conviver com isso... (um dia, talvez, terei que operar)

É fundamental tentar recuperar um pouco a estrutura muscular da região... algo que sei que é bem difícil. Ainda mais depois dos 55 anos...

Enfim, é a vida! Somos natureza. Como já sei, cada ser envelhece do seu jeito, de acordo com seu percurso existencial e a genética que carrega dentro de si.

O fato concreto é que as dores estão aumentando. Que treco chato!

Seguimos fazendo o que está ao meu alcance para estar no mundo com as pessoas. E para tentar aprender algo novo e passar adiante. 

William 


domingo, 28 de abril de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 28 de abril de 2024. Domingo.


O registro será confessional, texto que aborda sentimentos e acontecimentos pessoais, coisas que deveriam sempre ser guardadas para si, mas que as pessoas acabam publicizando por sermos o que somos, humanos, animais vaidosos (mas que clamam também), que contam coisas, que não aguentam segredos.

Noites mal dormidas as últimas. Acordei quebrado, com dores nas costas. Dores. Coisa que nas idades anteriores nem sabia o que era. Coisas, não coisa. As dores são no plural. Se prestar atenção, tem dor em vários pontos do corpo. E eu nem tenho a idade de meus pais, esses sim devem sentir dores. Meu pai fala das dele há mais de uma década. Vai saber o quanto delas transformou ele no que é hoje.

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CONCEITO DE CANSAÇO

Ao acordar, tive que ligar o chuveiro e ficar embaixo da água morna para reviver e então viver o dia de domingo. Se tentar interpretar o sonho que vivenciava ao acordar, talvez compreenda um pouco do cansaço que senti ontem à noite. Senti um treco horrível ao perceber ser responsável pela mágoa de alguém.

Antes de ter sido diretor eleito em uma autogestão em saúde, o conceito de cansaço que trazia em meu corpo e em minha imaginação conceitual era o cansaço de Louis Creed após voltar da floresta onde enterrou o gato Church, no livro O Cemitério, de Stephen King. A cena dele chegando todo enlameado e exausto e caindo na cama marcou aquele leitor adolescente e nunca mais tive uma referência melhor do que era um cansaço extremo.

Isso mudou por volta dos quarenta e cinco anos de idade. Após décadas de conceito de cansaço referenciado a partir de uma cena literária de um livro de suspense, meu corpo e minha mente fixaram um novo conceito de cansaço. Desde os primeiros meses na gestão da operadora na qual atuava como representante de centenas de milhares de participantes, com a responsabilidade de defender os direitos em saúde deles, já experimentava na minha solidão do acordar um cansaço que só conseguia superar ficando um tempo embaixo do chuveiro do apartamento onde morava em Brasília.

Tem dias que sinto por algum tempo (que deve ser superado logo) um cansaço tão profundo como aquele que descrevi acima. Ele quase te paralisa, te impede de viver. É preciso acionar suas energias internas guardadas na razão consciente do que você é e chacoalhar aquela coisa mortal e seguir adiante. Afinal de contas, viver é uma oportunidade diária.

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AS DORES DOS AMORES

Ontem, estava escrevendo um comentário sobre a leitura do livro de Conceição Evaristo sobre os amores sem juízo, interpreto assim a temática central do livro Canção para ninar menino grande. O personagem Fio Jasmim tem a moleira aberta e por isso é um homem sem juízo. O livro é sobre amor. Amores. Histórias reais e ficcionais sobre vivências de amores sem nenhuma racionalidade ou cálculo ou consequência. Escrevivências como a autora nos conta de sua técnica narrativa.

Numa troca de palavras, ouço de minha companheira que eu ando isso e aquilo, cotidianidades dos lares, e me toco que a magoei bastante por não ter escrito nada a ela na data de seu aniversário. Não tive o que dizer. Foda isso. Ando isso e aquilo mesmo. Desculpas como as duas semanas que passei cuidando das questões de saúde de meus pais não servem para nada. Nada. É horrível ser responsável por dissabores de alguém, ainda mais de pessoas queridas e próximas a nós. Certas coisas não têm conserto. Feitas estão.

Fiquei tão mal pela percepção do feito que minha energia se dissipou. A bateria arriou. Deixei de lado o texto sobre os amores e os dissabores dos amores e fiquei procurando cantos até que acordei quebrado no dia de hoje.

O mês de abril vai terminando. Iniciei o mês nas tretas com meu pai, ele insistindo em renovar a carta de motorista vencida há tempos do jeito que ele achava que tinha que ser. O cara não escuta ninguém pra nada. Todas as sugestões racionais são nada. Nonada. Ajudei ele a fazer as coisas do jeito dele. Foi foda. Só uns poucos pra saber o que foram esses dias. Foram uma merda! Nesse intervalo de tempo, minha irmã pegou dengue, minha sobrinha pequena pneumonia, depois minha mãe pneumonia, a crise que meu pai teve precisa ser investigada para saber se ele tem algo mais sério, alguma senilidade dos oitenta adiante. Eu andei uns dias meio foda também. 

Enfim, o mês dos amores e das dores vai terminando.

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TÁ FODA, MAS A LUTA CONTINUA

Um músico negro chama a polícia após ser ameaçado com uma faca, dois policiais desgraçados do governo fascista de São Paulo chegam para atender a ocorrência, apertam o pescoço do músico - a vítima -, imobilizam ele e jogam gás de pimenta nos olhos dele a troco de nada... (racionalmente, afirmo para mim mesmo que se isso acontecesse comigo eu reagiria e morreria, pois a polícia do governo paulista é assassina e o governador carioca disse que se dane isso).

Um outro rapaz negro é filmado sendo abordado em São Paulo por dois policiais do governo fascista e o rapaz já vai levantando a mão. Sem trocar palavras e sem reação alguma do abordado, os policiais começam a bater nele com cassetetes e o rapaz instintivamente se defende e reage. Os policiais o agridem com violência, um deles saca a arma e o executa a queima roupa e a sangue frio. Como disse acima, eu morreria também.

Quer dizer, nos dois casos citados, talvez eu não morreria porque minha pele é branca e as cenas reais não se dariam. A chance de fazerem isso comigo seria menor porque é crime ser preto no Brasil, e é pena de morte ser preto e pobre, periférico. Sou privilegiado por causa da cor da minha pele. O Brasil é o país dos privilegiados e dos condenados sem crimes.

Vivo no país dos desgraçados. Temos os desgraçados que não alcançam graça porque são periféricos, pobres, pretos, gente subgente. Gente que pertence às bases da pirâmide social. Gente que vai ser presa e morta e descartada por todo tipo de bandido, os bandidos bandidos e os bandidos fardados. Sem defesa, sem julgamento. E as receitas de desgraças só aumentam. Agora prender periféricos vai dar lucro em cadeias privadas, os periféricos que serão presos por um baseado de maconha. Por uma barra de chocolate. Por "desacato".

E temos os desgraçados desgraçados mesmo, gente má, gente escrota. Os desgraçados que podem matar por andarem em Porsche a 156 Km/h, os desgraçados que podem estuprar e pagar montanhas de dinheiro para as autoridades para voltarem para as suas casas-palácios, os desgraçados que podem cometer qualquer ilegalidade que lhe derem na cabeça porque são inimputáveis como o genocida e ladrão de joias ex-presidente que pode tudo e contra ele não pega nada, porque as autoridades e políticos brasileiros têm MEDO de prender o bandido.

A luta continua, claro! Mesmo com tudo que acontece o tempo todo, mesmo com toda a injustiça, tem muita gente boa lutando por um mundo melhor. Gente que ontem mesmo estava reunida organizando as lutas para combater e reverter todas essas desgraças que enfeiam o nosso mundo.

Viver vale a pena. E as desgraças se combatem com pessoas que enchem as nossas esperanças de graças, gente que acorda em meio às suas cotidianidades complexas e acha tempo para se doar para as ações coletivas e as boas ações para melhorar o seu entorno, o mundo de todos nós. 

Gente assim vi reunida ontem na assembleia que fui pela manhã e na reunião do PT que partipei de tarde. Gente que faz valer a pena seguir lutando, do jeito que cada um puder contribuir.

A essa gente dou graças! Graças a vocês que lutam por um mundo melhor para todes.

Somos seres de contradição, mas somos seres históricos. Fazemos história todos os dias.

Não existe um futuro determinado. Fazemos o futuro hoje. Não esmoreçam.

William


quinta-feira, 25 de abril de 2024

Livro: Mulheres são tudo isso e muito mais - Org. Cleusa Slaviero



Refeição Cultural

Osasco, 25 de abril de 2024. Quinta-feira.


As crônicas e artigos do livro Mulheres são tudo isso e muito mais (2024) são emocionantes, marcantes e de arrepiar leitoras e leitores. Os relatos, as histórias e as confissões constantes nos textos me fizeram pensar muito, me peguei refletindo sobre vários deles.

O livro é mais uma coletânea organizada pela excelente editora Cleusa Slaviero e sua equipe. Nesta edição com a temática relevante sobre as mulheres, tive a oportunidade de ler contribuições de companheiras que conheço de longa data, e que textos potentes! 

O projeto de livros coletivos, da Editora ComPactos, é uma ideia muito legal. Eu conheci o trabalho através da companheira e amiga Marisa Stedile, grande liderança da classe trabalhadora, ex-presidenta do Sindicato dos Bancários de Curitiba e região. Aliás, os artigos que ela nos presenteia nos livros são sempre impactantes. Nesta edição, não foi diferente!

Ao escrever minha contribuição, pensei muito no quanto eu fui me modificando como homem e cidadão ao longo de décadas por influência de mulheres que marcaram minha vida e me ajudaram a ser o que sou hoje. A educação e a formação política me ajudaram a superar os anos de fúria e ignorância. Sou grato por isso.

Os ambientes aos quais estive exposto indicavam um caminho de violência, machismo e intolerância: o próprio lugar onde nasci, o Brasil da ditadura, o Brasil da escravidão longeva e do racismo estrutural, o país que mais mata pessoas trans no mundo. Fui salvo por minha mãe, e depois fui sendo salvo a vida toda pelas veredas que peguei, sempre influenciado por uma mulher potente.

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AS MULHERES DEVEM ESTAR NOS LUGARES QUE QUISEREM E COM CONDIÇÕES PARA ISSO

A temática do livro é fundamental num momento de disputa de hegemonia mundial sobre as ideias que dominam a pauta e a agenda da comunidade humana. 

Ao mesmo tempo em que vemos avanços nas pautas das discussões identitárias e de gênero, resultado de séculos de enfrentamento feminino ao mundo do macho alfa branco proprietário dos meios, vemos retrocessos inaceitáveis nas conquistas e nos direitos das mulheres, retrocessos pautados pela extrema-direita mundial, disfarçada nas mais variadas formas em cada sociedade.

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JÁ IMAGINARAM HOMEM REIVINDICANDO DIREITO AO PRÓPRIO CORPO? (para além da questão de pessoas escravizadas)

Peguemos como exemplo a questão do direito ao próprio corpo, um debate secular da pauta de gênero. A questão de interromper ou não uma gravidez indesejada ou com risco de morte para a mãe. Fico imaginando qual seria a posição e o comportamento dos homens caso eles engravidassem... 

Já imaginaram como seria tratada a questão do aborto caso a forma de reprodução nos animais mamíferos homo sapiens se desse através de beijo na boca? 

Se a reprodução humana ocorresse tanto em corpos de homens como de mulheres e a forma de concepção fosse através de trocas corporais pela boca? 

Será que existiria alguma divergência na sociedade sobre interrupção ou não de gravidez se homens de repente se pegassem grávidos?

Pois é! Imaginar a questão da gravidez em homens é para exercitar a antiga forma de se colocar no lugar da outra pessoa para tentar se sensibilizar com o que as outras pessoas sentem ou enfrentam nos dilemas diários da vida humana.

Nunca me esqueço dos ensinamentos que aprendi no movimento sindical sobre as diversas temáticas identitárias. 

RACISMO - Um branco como eu jamais vai saber o que uma pessoa negra como minha irmã, por exemplo, sentiu ou sente todas as vezes ao longo de sua vida em que ela foi ou é vítima do racismo nojento dessa sociedade brasileira hipócrita na sua parte que não reconhece o racismo estrutural vigente há séculos.

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CRÔNICAS QUE NOS FAZEM REFLETIR E QUE NOS EMOCIONAM

Enfim, exemplifiquei duas questões cotidianas na vida das pessoas em convívio social, a questão de gênero e a questão do racismo.

O livro veio num momento central de nossa história humana. A temática foi certeira. Cada um dos trinta textos mexe com a gente.

Recomendo a leitura e parabenizo todas as pessoas envolvidas no projeto.

William Mendes

25/04/24

segunda-feira, 25 de março de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 25 de março de 2024. Segunda-feira.


As imagens e ideias que circulam pelos meus neurônios neste momento de escrita são tantas e tão diversas que fico com dificuldade de escolher temas para registrar nesta reflexão diária.


RACISMO

A entrevista do jovem jogador Vini Jr. falando para dezenas de jornalistas sobre o racismo que tem enfrentado na Espanha é uma das imagens que não saem da cabeça da gente. Que desgraça essa questão do racismo!

Só depois de muito tempo de vida adulta é que consegui pensar com um pouco mais de atenção o que deve ter sido a vida de minha irmã neste país violento e racista desde sua invasão. Nunca saberei o que ela passou e ainda enfrenta hoje por causa da cor de sua pele! Nunca saberei!

Quando estou andando pelo bairro onde moro, à mercê do poder discricionário de uma das polícias mais letais e violentas do país, e agora sob um governo fascista no Estado, eu não tenho como imaginar o que uma pessoa negra sente e ou sofre. Minha pele é branca. Só fui compreender essa verdade depois de me politizar. A maioria nem pensa a respeito do racismo. Isso é foda!

MARIELLE FRANCO

Foram mais de seis anos para avançarem as investigações sobre o assassinato brutal da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), ocorrido em 14 de março de 2018, quando seu carro foi metralhado no Rio de Janeiro. No atentado faleceu também Anderson Gomes e sobreviveu a assessora da vereadora.

Na minha leitura o crime não está solucionado. É a minha opinião. São muitas questões ainda sem explicações. A prisão dos irmãos Brazão e do delegado do caso à época, Rivaldo Barbosa, foi um passo importante. Não me surpreendeu saber que a principal autoridade de polícia estava envolvida. Isso é uma sociedade dominada pela milícia e a máfia. 

As investigações só avançaram porque o povo brasileiro elegeu Lula em 2022. Não tenho dúvidas sobre isso. Fosse a continuidade daquele regime miliciano que colocaram no poder central em 2018, nem teríamos solução para o assassinato de Marielle e nem teríamos direito de opinar a respeito, pois as coisas teriam piorado muito com o bolsonarismo no poder de todas as estruturas do Estado.

GENOCÍDIO DO POVO PALESTINO

"A índole e a escala do ataque israelense contra Gaza e as destrutivas condições de vida que desencadearam revelam uma tentativa de destruir os palestinos fisicamente como grupo", é o que afirma Francesca Albanese, a relatora das Nações Unidas sobre os direitos humanos. (site de CartaCapital, 25/3/24)

Na era da instantaneidade da vida, tudo filmado e imediato, o mundo assiste ao genocídio de um povo ao mesmo tempo em que ele ocorre. Os palestinos vinham sendo assassinados lentamente há muito tempo. O regime sionista do Estado de Israel ocupou as terras dos palestinos e passou a fazer com os colonizados o que se fazem com colonizados há séculos no mundo: inviabilizar a vida daquele povo. Até que os palestinos reagiram e agora estão sob ataque para que mais de dois milhões de pessoas deixem suas terras.

Até o momento, toda a estrutura física da Faixa de Gaza foi destruída após mais de 5 meses de bombardeios. É um exército contra um povo desarmado. Mais de 30.000 mortos, sendo a maioria de crianças, mulheres, idosos e civis. Se o governo de Israel obtiver êxito total na expulsão de 2.000.000 de palestinos de suas terras, o "case" pode ser a referência para os demais casos de potências ricas e com armas querendo ocupar terras e expulsar seres humanos de suas terras ancestrais.

CUBA BLOQUEADA HÁ DÉCADAS

Após ir a Cuba duas vezes e depois de me interessar mais pelo país socialista e a história extraordinária de luta de seu povo pela liberdade e autonomia em relação a qualquer país agressor, compreendo um pouco melhor o quanto é injusto o que Cuba sofre por causa do bloqueio criminoso e também genocida imposto pelo imperialismo norte-americano. Inviabilizar a vida de um povo é uma das formas de genocídio que se conhecem.

A hipocrisia que recheia a vida cotidiana dos seres humanos é algo que envenena diariamente corpo e mente das pessoas que têm um pouco mais de consciência e formação política. É duro passar o dia lendo, vendo, ouvindo merdas que pautam os nossos dias e a nossa agenda de vida! É duro! E o que são essas máquinas de produção em escala de mentiras e desinformações retransmitidas através das mídias (meios) dominadas pelas big techs? São vírus informacionais, vírus para minar a saúde da sociedade humana.

Por trás da Guerra com a Rússia, tendo a Ucrânia como bucha de canhão; por trás da Guerra de extermínio do povo palestino por parte do governo sionista de Netanyahu; por trás da miséria material imposta ao povo cubano há mais de seis décadas; por trás dos golpes de Estado no Brasil em 1964 e 2016... por trás dessas merdas todas estão sempre eles, sempre eles, aqueles que definiram de suas cabeças que o mundo é um quintal deles, que as Américas todas são para o bel-prazer e exploração deles...

Quanta hipocrisia e quanta ignorância temos que ver, ler, ouvir diariamente na sociedade humana! Viva os Estados Unidos e os idiotas que idolatram essa forma destrutiva de sociedade humana! Foi uma ironia... que se fodam eles e aqueles que idolatram eles!

SEM PERTENCIMENTO

Ainda não encontrei uma solução para me libertar do cárcere no qual estou acorrentado. A sensação psicológica é de agonia. Não consigo radicalizar uma solução porque não sou mais radical. Hoje sou cerebral. Isso te faz uma pessoa que calcula, que não age por instinto. Isso te faz conviver com a dor, com o incômodo. E te faz preservar portas cerradas, mas não inacessíveis para sempre. Ilusões.

Em alguns momentos, a coisa que queima por dentro, te faz pensar em voltar a ser como antes, e liberar todos os impulsos que o animal ferido tem. Já vivi meus tempos de fúria. Foram terríveis! Não gostaria de reviver aquilo.

Percebo, no entanto, que a coisa está me dilacerando. Algo precisa ser feito. Talvez devesse me desfiliar de todas as instituições que me vinculam ao passado que me traz dor. Sindicato, partido, associações. Talvez devesse ter coragem de me desfazer de tudo que me lembrasse minha história de décadas. Aí vem o cálculo e me põe na dúvida se isso é justo. E sigo no limbo.

Hoje, estou como o personagem Bill, do terceiro episódio da série The Last Of Us, que me inspirou no texto de ontem (ver aqui). Gostaria de viver num mundo onde pudesse ter vínculos com muito mais coisas que as relações pessoais com pessoas que amamos ou que precisam da gente. Gostaria de ter um motivo para seguir caso o acaso me tirasse os meus. Não vejo um mundo assim neste momento.

O meu liame com a vida são pessoas que amo. Que elas tenham vida longa!

William

(dias atrás, me senti útil naquilo que posso ser útil. Depois disso, me deu um vazio terrível... quase me afoguei em meus oceanos internos)


domingo, 4 de fevereiro de 2024

Vendo filmes (XII)



Refeição Cultural

Filmes que retratam guerras diversas, guerras contra pandemias causadas por algum tipo de vírus ou bactéria ou mesmo guerras causadas por pandemias de ódio e intolerância são filmes que podem nos pôr a refletir sobre a condição humana.

Nossa espécie se julga superior às demais espécies do planeta, sendo a Terra um pontinho de nada na imensidão do universo que conhecemos até o momento. Será que somos mesmo superiores às demais formas de vida?

Os dois filmes desta postagem me colocaram a pensar sobre nossa natureza humana. 

Filmes que retratam guerras sanguinolentas dentro de nossa espécie animal me fazem desacreditar na inteligência humana. Que diacho de espécie racional é essa que cria as coisas mais fantásticas e não consegue conviver em paz?

Já os filmes sobre pandemias e riscos à espécie humana nos fazem acordar para a realidade de nossa fragilidade. A vida é algo frágil e por isso deve ser protegida e comemorada. Viver é muito perigoso, como dizia o personagem Riobaldo Tatarana, do Grande sertão: veredas.

Gostei dos dois filmes que comento abaixo.

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FILMES

Anne Frank, minha melhor amiga (2021) - Direção: Ben Sombogaart. Roteiro: Paulo Ruven. Com Aiko Beemsterboer (como Anne Frank) e Josephine Arendsen (como Hannah). Filme conta a história verdadeira da amizade entre Anne Frank e Hannah Goslar, meninas com origens sociais diferentes, sendo Goslar considerada cidadã alemã. Elas passaram a infância juntas, se separaram quando a família de Anne Frank se escondeu e depois acabaram se reencontrando no campo de concentração de Auschwitz.

COMENTÁRIO: quando li anos atrás os diários de Anne Frank, fiquei muito impactado. À época, sendo ainda um adulto jovem, experimentava os primeiros contatos com as questões da 1ª e 2ª Guerra Mundial, Nazismo, Fascismo e demais totalitarismos. Com o tempo, fui me politizando como cidadão brasileiro bancário, virei dirigente da classe trabalhadora e estudei muita coisa nas últimas décadas. 

Hoje, tenho sentimentos difusos ao ver um filme que retrata nos anos quarenta todo aquele sofrimento imposto ao povo judeu - crianças, mulheres, idosos e civis - pelos alemães nazistas num momento (2023/24) em que os judeus sionistas impõem um sofrimento semelhante a crianças, mulheres, idosos e demais seres humanos palestinos ao vivo e a cores e, ao invés do mundo "civilizado" se colocar contra o novo genocídio de pessoas, os países ocidentais se colocam na posição de "neutralidade" ou apoiam na cara dura o líder de extrema-direita dos sionistas praticar a limpeza étnica na terra palestina. É estranho, é um sentimento difuso... 

Que somos nós? Que esperar do amanhã?

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Guerra mundial Z (2013) - Direção: Marc Forster. Com Brad Pitt e Mireille Enos. Uma doença misteriosa se espalha pelo mundo rapidamente, transformando as vítimas em espécies de zumbis. Um investigador da ONU, Gerry Lane (Brad Pitt), é escalado à força - para salvar mulher e filhas - para uma missão de investigação para decifrar a origem da pandemia e uma provável cura para ela.

COMENTÁRIO: No começo, eu achava as estórias de zumbis muito ruins, sem verossimilhança alguma e não via filmes de mortos-vivos. Hoje, vejo a questão dos zumbis como uma metáfora e já me disponho a ver algumas dessas estórias. Melhor ainda quando se associa contaminação por algum tipo de agente patológico ou engenho externo à condição de uma pessoa se tornar uma espécie de morto-vivo, um corpo sem consciência, aí é que acho a estória mais verossimilhante com a realidade do mundo atual.

No filme, as vítimas da pandemia de zumbis são infectadas por mordidas, por contato entre um infectado e uma pessoa sã. Tenho prestado mais atenção em filmes com o ator Brad Pitt porque passei a considerá-lo um bom ator depois que vi algumas de suas interpretações.

Quanto aos zumbis dos filmes, sejam eles zumbis lentos, ou zumbis rápidos como os dessa estória, a metáfora de humanos como zumbis me parece cada dia mais factível. 

Sob certos pontos de vista, poderia até dizer que já estamos vivendo num mundo de zumbis, corpos que andam por aí tomados por alguns agentes externos como parasitas que comandam corpos hospedeiros. Ideias, abstrações, são vírus informacionais. 

Uma aglomeração de bolsonaristas alucinados por cantos e orações para extraterrestres e adorando pneus no meio da rua não seria uma cena de zumbis?

Sei lá!

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É isso, amigas e amigos leitores.

O texto anterior sobre filmes que vi e refleti pode ser lido aqui.

William