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sexta-feira, 10 de julho de 2026

Livro: Uma delicada coleção de ausências - Aline Bei



Refeição Cultural

LITERATURA BRASILEIRA 


Sei que devo cumprir meus objetivos de ler os clássicos, sei. Entretanto, o novo sempre vem, clama por nós, leitores e amantes da leitura. 

Sem prever, li o primeiro livro de Aline Bei - O peso do pássaro morto - no ano de 2020 (comentário aqui). Gostei. 

Depois, li seu segundo romance-poesia - Pequena coreografia do adeus -, no final do ano passado (ler aqui). Gostei também. Uma nova poética, e em tempos duros para a cultura!

E então, antes de algum clássico para este momento, de alguma coisa antiga, mergulhei na terceira novidade de Aline: Uma delicada coleção de ausências

Na hora que peguei o livro na mão, já elenquei minha delicada coleção de ausências... Uma forma de memorizar o nome do livro. Foi só me lembrar de algumas ausências delicadas...

Destaco abaixo algumas reflexões poéticas que sintetizam a vida e os seres que aqui habitam. Ideias-força da poeta filósofa mulher Aline Bei.

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Nostalgia 

"Irá sentir um poema ao tempo vivido que é a nostalgia. mas é preciso que aconteça daqui a muitos anos. é preciso primeiro Esquecer, para então verdadeiramente lembrar." (p. 32)

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Nu

"ela procura na bolsa a chave do portão. quando olha para Camilo é por engano, não sabe de onde vem isto, mas nunca se deve olhar um rosto depois que a conversa acaba, senão é provável que o veja nu." (p. 81)

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Sangue "maldito"

"pois que o bom Deus a perdoasse, que lhe desse ao menos um pouco de juízo e que perdoasse também a menina, que carrega no sangue toda essa maldição." (p. 108)

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Aos filhos e netos

"aos filhos e netos, é preciso contar da própria vida conforme a deles desabrocha. é preciso esperar que o passo se alinhe, para que saibam ouvir melhor." (p. 134)

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Os segredos 

"pois há coisas que ao serem ditas perdem ainda mais volume do que quando existiam apenas no silêncio. há coisas que só não morrem (ou matam) quando mantidas longe das palavras, no escuro." (p. 156)

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Envelhecer

"talvez envelhecer seja lidar imensamente com o próprio corpo, com esse estado de presença brutal, à beira do insuportável, um corpo que, de tanto já ter sido visto, agora precisa ser desvisto se os olhos dos outros não quiserem morrer por antecipação." (p. 159/160)

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Sorte sua se tocar o coração de duas ou três pessoas 

"Margarida ainda disse que tocar o coração de todos não é possível, nunca será o mundo quem sentirá a nossa falta. tocar duas ou três pessoas - isso é a vida dos que têm sorte." (p. 204)

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Alegria 

"é preciso cuidar da alegria também." (p. 271)

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Uma delicada coleção de ausências 

O desfecho do romance deixa a leitora e o leitor paralisados, passados... eu fiquei bolado na hora, já nas últimas páginas do enredo. Minha esposa ficou vários dias se sentindo muito incomodada com o romance. A catarse se impõe... não é esse o efeito modificador dos dramas, tragédias e comédias desde a antiguidade?

As histórias de neta, avó, e bisavó, e também a história da mãe e filha ausente se completam, se explicam, tudo se explica no desfecho que é uma metáfora da mais pura realidade em milhares de famílias desse mundão duro e perverso do universo dos homens do mundo.

Laura, Margarida, Filipa e Glória representam em suas singularidades o que enfrentam as mulheres no dia a dia do mundo, ontem, hoje, e infelizmente num longo amanhã, apesar das lutas incessantes pela ocupação de todos os espaços nos quais as mulheres desejem estar no mundo.

Por fim, a poética de Aline Bei, a ocupação de espaços nas páginas de seus livros e a particularidade de sua escrita a fazem poeta, cronista, romancista, dançarina, e de sobra, seus leitores experimentam o novo ao lerem seus livros.

O peso do pássaro morto...

Pequena coreografia do adeus...

Uma delicada coleção de ausências...

Seus três romances são obras de arte, literatura da melhor qualidade. E com a catarse para nos deixar bolados, passados, incomodados... e quiçá modificados ao final da experiência de leitura.

Que venham as próximas histórias, as substâncias narrativas com as preposições que relacionam as causas, consequências, origens e posses das coisas, como a própria vida é.

William

10/07/26


Bibliografia:

BEI, Aline. Uma delicada coleção de ausências. 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2025.

sábado, 20 de junho de 2026

Sobre esquerdismo (2) - Lendo Lênin



Refeição Cultural

A importância do partido e dos sindicatos


Nesta postagem com alguns excertos do texto de Vladimir Lênin sobre a questão do Esquerdismo, doença infantil do comunismo (1920), vemos um dos líderes da Revolução Russa afirmar ser estupidez abrir mão da participação nos sindicatos considerados pelegos ou sob controle de burocracias ligadas às classes dominantes. Segundo Lênin, é fundamental disputar e conquistar sindicatos para politizar e influenciar as massas da classe trabalhadora.

O mesmo diz Lênin sobre a importância de um partido bem organizado e disciplinado, com apoio e confiança das massas, para derrotar as classes dominantes, não somente as elites da burguesia mas, sobretudo, os pequenos burgueses, que são muitos e que têm o hábito e as ideias da elite. Sindicatos e partido são essenciais para fazer a disputa ideológica no seio das massas proletárias e populares.

Bem interessante as explicações de Lênin. A primeira parte de minhas anotações pode ser lida aqui.

Eu mudei palavras do português de Portugal para o português brasileiro na hora de fazer as citações.

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EXCERTOS DE LÊNIN

Capítulo V - O comunismo 'de esquerda' na Alemanha. Chefes, Partido, Classe, Massas


"Os comunistas alemães, de quem vamos falar agora, não se chamam de 'esquerdistas', mas de 'oposição de princípio', se não me engano. Mas, pelo que se segue, pode-se ver que têm todos os sintomas da 'doença infantil do esquerdismo'."

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"Todo bolchevique que tenha participado conscientemente do desenvolvimento do bolchevismo desde 1903, ou que o tenha observado de perto, não poderá deixar de exclamar imediatamente, depois de haver lido tais opiniões: 'Que velharias conhecidas! Que infantilidades de 'esquerda'!"

Comentário: Lênin vai fazer algumas citações de um panfleto do grupo que se coloca como oposição ao Partido Comunista da Alemanha da época, 1920.

O grupo faz um questionamento separando o partido e a classe proletária, a transição entre o capitalismo e o socialismo, através da ditadura do proletariado, deveria ser conduzida por um ou outro...

Lênin vai falar da importância do Partido e dos sindicatos

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"Todos sabem que as massas se dividem em classes, que só é possível opor as massas às classes num sentido; opondo-se uma esmagadora maioria (sem dividi-la de acordo com as posições ocupadas no regime social da produção) a categorias que ocupam uma posição especial nesse regime; que as classes são geralmente e na maioria dos casos (pelo menos nos países civilizados modernos), dirigidas por partidos políticos; que os partidos políticos são dirigidos, via de regra, por grupos mais ou menos estáveis, integrados pelas pessoas mais prestigiosas, influentes ou sagazes, eleitas para os cargos de maior responsabilidade e chamadas de chefes. Tudo isso é o ABC, tudo isso é simples e claro. Que necessidade havia de trocar isso por tais confusões, por essa espécie de volapuk?*" 

* Volapuk - Idioma Internacional artificial inventado por Schleyer, em 1879. (Nota de Ediciones en Lenguas Extranjeras)

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"No fim da guerra imperialista e depois dela, manifestou-se em todos os países com singular vigor e evidência o divórcio entre 'os chefes' e 'a massa'. A causa fundamental desse fenômeno foi explicada muitas vezes por Marx e Engels, de 1852 a 1892, usando o exemplo da Inglaterra. A situação monopolista, desse país originou o nascimento de uma 'aristocracia operária' oportunista, semi-pequeno burguesa, saída da 'massa'. Os chefes dessa aristocracia operária passavam-se frequentemente para o campo da burguesia, que os sustentava direta ou indiretamente. Marx foi alvo do ódio, que lhe honra, desses canalhas, por havê-los qualificado publicamente de traidores."

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"A vitória do proletariado revolucionário torna-se impossível sem a luta contra esse mal, sem o desmascaramento, a desmoralização e a expulsão dos chefes oportunistas social-traidores; essa política, exatamente, foi a aplicada pela III Internacional."

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"Negar a necessidade do Partido e da disciplina partidária: eis o resultado a que chegou a oposição. E isso equivale a desarmar completamente o proletariado, em proveito da burguesia."

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"Suprimir as classes significa não só expulsar os latifundiários e os capitalistas - isso nós fizemos com relativa facilidade - como também suprimir os pequenos produtores de mercadorias; estes, porém, não se pode expulsar, não se pode esmagar; é preciso conviver com eles, e só se pode (e deve) transformá-los, reeducá-los, mediante um trabalho de organização muito longo, lento e prudente."

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"Para fazer frente a isso, para permitir que o proletariado exerça acertada, eficaz e vitoriosamente sua função organizadora (que é sua função principal), são necessárias uma centralização e uma disciplina severíssimas no partido político do proletariado."

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"A força do hábito de milhões e dezenas de milhões de homens é a força mais terrível. Sem partido férreo e temperado na luta, sem um partido que goze da confiança de tudo que exista de honrado dentro da classe, sem um partido que saiba tomar o pulso do estado de espírito das massas e influir nele é impossível levar a cabo com êxito essa luta."

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"No IX Congresso de nosso Partido (abril de 1920) houve uma pequena oposição que também se pronunciou contra a 'ditadura dos chefes', a 'oligarquia', etc. Não há, portanto, nada de surpreendente, nada de novo, nada de alarmante na 'doença infantil do 'comunismo de esquerda' entre os alemães."

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Capítulo VI - Os revolucionários devem atuar nos sindicatos reacionários?


"Obtém-se, no conjunto, um dispositivo proletário, formalmente não comunista, flexível e relativamente amplo, poderosíssimo, por meio do qual o Partido está estreitamente ligado à classe e às massas, e através do qual se exerce, sob a direção do Partido, a ditadura da classe. É claro que nos teria sido impossível governar o país e exercer a ditadura, já não digo dois anos e meio, mas nem sequer dois meses e meio, se não houvesse a mais estreita ligação com os sindicatos, seu apoio entusiasta, seu abnegadíssimo trabalho tanto na organização econômica como na militar."

Comentário do blog: lembrando que o texto de Lênin é de 1920 e a Revolução havia ocorrido em outubro de 1917.

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"Consideramos que o contato com as 'massas' através dos sindicatos não é suficiente. No transcurso da revolução criou-se em nosso país, na prática, um organismo que procuramos manter a todo custo, desenvolver e ampliar: as conferências de operários e camponeses sem partido, que nos possibilitam observar o estado de espírito das massas, aproximarmo-nos delas, corresponder a seus desejos, promover aos postos do Estado seus melhores elementos, etc."

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"Depois, por meio desses sindicatos de indústria, será iniciada a supressão da divisão do trabalho entre os homens, a educação, instrução e formação de homens universalmente desenvolvidos e universalmente preparados, homens que saberão fazer tudo. O comunismo marcha e deve marchar para esse objetivo, que será atingido, embora somente dentro de muitos anos."

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"O desenvolvimento do proletariado, porém, não se realizou, nem podia realizar-se, em nenhum país de outra maneira senão por intermédio dos sindicatos e por sua ação conjunta com o partido da classe operária."

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"Mas sustentamos a luta contra a 'aristocracia operária' em nome das massas operárias e para colocá-las ao nosso lado; sustentamos a luta contra os chefes oportunistas e social-chauvinistas para ganhar a classe operária. Seria tolice esquecer esta verdade mais que elementar e evidente. E é essa, precisamente, a tolice cometida pelos comunistas alemães 'de esquerda', que deduzem do caráter reacionário e contrarrevolucionário dos chefetes dos sindicatos que é necessário... sair dos sindicatos!!, renunciar ao trabalho neles!!, criar formas de organização operária novas, inventadas!! Uma estupidez tão imperdoável, que equivale ao melhor serviço que os comunistas podem prestar à burguesia."

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"(...) Não atuar dentro dos sindicatos reacionários significa abandonar as massas operárias insuficientemente desenvolvidas ou atrasadas à influência dos líderes reacionários, dos agentes da burguesia dos operários aristocratas ou operários aburguesados' (ver a carta de Engels e Marx em 1858 a respeito dos operários ingleses).

"O Comitê Executivo da III Internacional deve, na minha opinião, condenar abertamente e propor ao próximo Congresso da Internacional Comunista que condene, de modo geral, a política de não participação nos sindicatos reacionários (explicando pormenorizadamente a insensatez que essa não participação significa e o imenso prejuízo que causa à revolução proletária)

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Comentário final

Não foi preciso ler essa obra de Lênin durante minha vida de representação sindical do campo cutista para ver na prática toda essa discussão que o líder revolucionário aborda em relação aos "esquerdistas" dentro do próprio movimento comunista de sua época.

Sigamos lendo o clássico de Vladimir Lênin.

William

20/06/26

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Sobre esquerdismo (1) - Lendo Lênin



Refeição Cultural

Dias atrás, o presidente Lula disse a um grupo de líderes do G7, e a conversa foi captada pelos microfones, que nunca foi "esquerdista" e essa afirmação gerou algum tipo de discussão a respeito da questão.

Eu tenho a minha leitura sobre o sentido do que Lula disse, por minha experiência política de décadas de representação como dirigente da classe trabalhadora, como cutista e como petista.

Motivado por isso, acabei tendo a curiosidade de ler uma obra que nunca li de Vladimir Lênin: Esquerdismo, doença infantil do comunismo, de 1920.

Para entender Lula e o Novo Sindicalismo que surgiu nos anos setenta, e consequentemente a CUT e o PT, um dos livros que mais contribuíram para minha compreensão foi o da jornalista Denise Paraná, Lula, filho do Brasil, editado pela Perseu Abramo em 2003. A primeira edição foi em 1996 pela Editora Xamã.

Enfim, enquanto leio o livro de Lênin, vou recortando alguns trechos que acho interessantes. Já li até o capítulo 4.

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EXCERTOS DE LÊNIN

Os poucos recortes que fiz abaixo são dos capítulos I a IV, com os títulos:

I - Em que sentido podemos falar do significado internacional da Revolução Russa?

II - Uma das condições fundamentais do êxito dos Bolcheviques

III - As principais etapas da história do Bolchevismo

IV - Quais foram os inimigos que o Bolchevismo enfrentou, dentro do movimento operário, para poder crescer, fortalecer-se e temperar-se?


“É possível que os revolucionários russos já tivessem derrubado o czar há muito tempo se não fossem obrigados a lutar, ao mesmo tempo, contra o aliado deste, o capital europeu.” (de “Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo” por “Vladimir Ilitch Ulianov Lênin, UTL”)

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“Como Karl Kautsky escrevia bem, há dezoito anos!” (idem)

Comentário: Lênin diz isso em referência a uma avaliação que Kautsky fez em 1902. A frase que citei acima é dele.

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A NECESSIDADE DA DITADURA DO PROLETARIADO

“A ditadura do proletariado é a guerra mais severa e implacável da nova classe contra um inimigo mais poderoso, a burguesia, cuja resistência está decuplicada, em virtude de sua derrota (mesmo que em apenas um país), e cuja potência consiste não só na força do capital internacional, na força e na solidez das relações internacionais da burguesia, como também na força do costume, na força da pequena produção.” (idem)

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“infelizmente, continua a haver no mundo a pequena produção em grande escala, e ela cria capitalismo e burguesia constantemente, todo dia, a toda hora, através de um processo espontâneo e em massa. Por tudo isso, a ditadura do proletariado é necessária, e a vitória sobre a burguesia torna-se impossível sem uma guerra prolongada, tenaz, desesperada, mortal; uma guerra que exige serenidade, disciplina, firmeza, inflexibilidade e uma vontade única.” (idem)

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“a centralização incondicional e a disciplina mais severa do proletariado constituem uma das condições fundamentais da vitória sobre a burguesia.” (idem)

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COMO MANTER A DISCIPLINA DO PARTIDO, DO MOVIMENTO E DO PROLETARIADO?

“A primeira pergunta que surge é a seguinte: como se mantém a disciplina do partido revolucionário do proletariado? Como é ela comprovada? Como é fortalecida? Em primeiro lugar, pela consciência da vanguarda proletária e por sua fidelidade à revolução, por sua firmeza, seu espírito de sacrifício, seu heroísmo.” (idem)

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“Segundo, por sua capacidade de ligar-se, aproximar-se e, até certo ponto, se quiserem, de fundir-se com as mais amplas massas trabalhadoras, antes de tudo com as massas proletárias, mas também com as massas trabalhadoras não proletárias.” (idem)

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“Finalmente, pela justeza da linha política seguida por essa vanguarda, pela justeza de sua estratégia e de sua tática políticas, com a condição de que as mais amplas massas se convençam disso por experiência própria.” (idem)

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OS REVOLUCIONÁRIOS DE INTERNET ("DE BOCA")

“E se os bolcheviques conseguiram tal resultado foi exclusivamente porque desmascararam impiedosamente e expulsaram os revolucionários de boca, obstinados em não compreender que é necessário recuar, que é preciso saber recuar, que é obrigatório aprender a atuar legalmente nos mais reacionários parlamentos e nas organizações sindicais, cooperativas, nas organizações de socorros mútuos e outras semelhantes, por mais reacionárias que sejam.” (de “Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo” por “Vladimir Ilitch Ulianov Lênin, UTL”)

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“os bolcheviques. Estes nunca teriam conseguido eliminar os mencheviques, caso não houvessem aplicado uma tática justa, combinando o trabalho ilegal com a utilização obrigatória das "possibilidades legais". Na mais reacionária das Dumas, os bolcheviques conquistaram toda a bancada operária.” (idem)

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“a república 'operária-camponesa' soviética é melhor que qualquer república democrático-burguesa, parlamentar. Sem essa preparação prudente, minuciosa, sensata e prolongada não teríamos podido alcançar nem manter a vitória; de Outubro de 1917.” (idem)

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OS PEQUENO-BURGUESES

“0 pequeno-burguês 'enfurecido' pelos horrores do capitalismo é, como o anarquismo, um fenômeno social comum a todos os países capitalistas. São por demais conhecidas a inconstância e a esterilidade dessas veleidades revolucionárias, assim como a facilidade com que se transformam rapidamente em submissão, apatia, fantasias, e mesmo num entusiasmo 'furioso' por essa ou aquela tendência burguesa 'em moda'.” (idem)

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“Em 1908, os bolcheviques 'de esquerda' foram expulsos de nosso partido, em virtude de seu empenho em não querer compreender a necessidade de participar num 'parlamento' ultrarreacionário. Os 'esquerdistas', entre os quais havia muitos excelentes revolucionários que depois foram (e continuam sendo) honrosamente membros do Partido Comunista, apoiavam-se, principalmente, na feliz experiência do boicote de 1905.” (de “Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo” por “Vladimir Ilitch Ulianov Lênin, UTL”)

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“0 boicote dos bolcheviques ao 'parlamento' em 1905, enriqueceu o proletariado revolucionário com uma experiência política extraordinariamente preciosa, mostrando que, na combinação das formas de luta legais e ilegais, parlamentares e extraparlamentares, é, às vezes, conveniente e até obrigatório saber renunciar às formas parlamentares. Mas transportar cegamente, por simples imitação, sem espírito crítico, essa experiência a outras condições, a outra situação, é o maior dos erros” (idem)

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COMENTÁRIO FINAL

Até aqui na leitura, eu fiquei pensando nas entrevistas de Lula para a jornalista Denise Paraná, lá no início dos anos noventa.

Lula não era um "esquerdista" e esse foi um dos motivos pelos quais seu irmão Frei Chico, um "esquerdista", e seus companheiros pensaram na possibilidade de Lula entrar no movimento sindical dos metalúrgicos.

Me marcou muito como estudioso do movimento sindical cutista e como militante do PT ver o Lula dizer que aquele movimento sindical e partidário que estava surgindo no final dos anos setenta e início dos oitenta tinha claro o que NÃO queria como referência: nem a URSS, nem a China, nem Cuba, não queriam saber de partido único, de movimento sindical atrelado ao partido e ao governo e que não podia fazer greve etc.

Enfim, sigamos na leitura.

William

18/06/26

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Os miseráveis (20)



Refeição Cultural

Osasco, 5 de janeiro de 2026.


"Javert, sem suspeitar, em meio a sua formidável felicidade, era lamentável, como todo ignorante que triunfa..."


O escritor Victor Hugo tem uma capacidade incrível de descrever situações ou sujeitos e conceituar coisas. 

Essa descrição do sujeito ignorante que triunfa, uma coisa lamentável, pode ser usada facilmente nos tempos sombrios nos quais vivemos.

Os grandes poetas e escritores têm essa capacidade de denominar, descrever, criar através da linguagem, algo que gostaríamos de dizer e nos faltam as palavras. 

Finalizei a primeira parte do livro, Fantine. Vamos embarcar na viagem da segunda parte, Cosette.

Os miseráveis é mais atual que tudo!

William

domingo, 4 de janeiro de 2026

Os miseráveis (19)



Refeição Cultural

Osasco, 4 de janeiro de 2026.


"(...) A prisão forja o prisioneiro. Tomem nota disso, se quiserem. Antes de ir para as galés, eu era um pobre camponês, muito pouco inteligente, uma espécie de idiota; a prisão me transformou. De estúpido, tornei-me mau; de lenha, tornei-me brasa. Mais tarde, a indulgência e a bondade me salvaram, do mesmo modo que a severidade me perdera..." (p. 321)


Retomei a leitura do clássico de Victor Hugo, Os miseráveis (1862). Terminei o Livro 7 da Primeira Parte, "Fantine". 

A miséria descrita pelo escritor francês é atemporal, está presente ao nosso redor como se estivéssemos lendo uma notícia de jornal no século XXI. 

Estava fazendo uma leitura metódica e lenta, com postagens constantes, destacando excertos e reflexões do autor, quando parei em 2024 (ler aqui). 

Se quiser seguir adiante, não posso fazer isso, senão morro antes do fim, são 1500 páginas...

Vamos ver o que rola.

William


sábado, 5 de abril de 2025

Uma história da leitura: Leitura das sombras



Refeição Cultural 

"No momento em que o primeiro escriba arranhou e murmurou as primeiras letras, o corpo humano já era capaz de executar os atos de escrever e ler que ainda estavam no futuro. Ou seja, o corpo era capaz de armazenar, recordar e decifrar todos os tipos de sensação, inclusive os sinais arbitrários da linguagem escrita ainda por ser inventados. Essa noção de que somos capazes de ler antes de ler de fato - na verdade, antes mesmo de vermos uma página aberta diante de nós - leva-nos de volta à ideia platônica do conhecimento preexistente dentro de nós antes de a coisa ser percebida. A própria fala desenvolve-se segundo um padrão semelhante. 'Descobrimos' uma palavra porque o objeto ou ideia que ela representa já está em nossa mente, 'pronto para ser ligado à palavra'. É como se nos fosse oferecido um presente do mundo externo (por nossos antepassados, por aqueles que primeiro falam conosco), mas a capacidade de apreender o presente é nossa. Nesse sentido, as palavras ditas (e, mais tarde, as palavras lidas) não pertencem a nós nem a nossos pais, aos nossos autores: elas ocupam um espaço de significado compartilhado, um limiar comum que está no começo da nossa relação com as artes da conversação e da leitura." (Uma história da leitura, Alberto Manguel, 1999, p. 50)


No capítulo "Leitura das sombras" Manguel nos conta a história dos estudos ao longo dos séculos para tentar entender essa capacidade extraordinária do ser humano de escrever e ler, já que somos seres falantes.

Vamos descobrindo o que a ciência de cada época humana foi apontando sobre a capacidade humana de falar, escrever e ler.

Achei muito legal a imagem final do capítulo: quando estou lendo é como se por trás de mim, lessem também as sombras dos leitores que vieram antes de nós, a ideia clara de que somos fruto de processos coletivos e compartilhados de cultura.

"(...) ao seguir o texto, o leitor pronuncia seu sentido por meio de um método profundamente emaranhado de significações aprendidas, convenções sociais, leituras anteriores, experiências individuais e gosto pessoal. Lendo na academia do Cairo, al-Haytham não estava sozinho; como se lessem por sobre seus ombros pairavam as sombras dos eruditos de Basra que haviam lhe ensinado a sagrada caligrafia do Corão na mesquita de Aristóteles e seus lúcidos comentadores, dos conhecidos casuais com quem al-Haytham teria discutido Aristóteles, dos vários al-Haythams que ao longo dos anos tornaram-se finalmente o cientista que al-Hakin convidou para sua corte." (p. 53)


Apesar de todas as convenções sociais e histórias anteriores de leituras do texto que você está lendo, sua leitura é única, é nova, é sua.

Pensa no poder disso! Pensa!

Por isso, nós leitores somos tão temidos por nazifascistas, manipuladores da fé, ignorantes em geral, governos autoritários, instituições e empresas, porque ler é poder!

William 


domingo, 16 de março de 2025

O nome da rosa: não cuspam nos livros



Refeição Cultural 

Umberto Eco, um grande pensador 


Estou lá no meio do livro, pela edição dos Mestres da Literatura Contemporânea, da Editora Record, e no recomeço, pela edição da Biblioteca Folha. 

Comecei a reler o clássico porque percebi que estava lendo mal.

Como sinto a urgência do instante, preciso dar qualidade a qualquer coisa que decida fazer. 

Das citações da postagem, a lição: não molhem o dedo no cuspe e coloquem o dedo no papel do seu livro, ou de qualquer livro ou material gráfico. 

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Releitura 

Ao reler o começo da história, captei melhor a origem da parceria do noviço beneditino Adso de Melk com o sábio franciscano frei Guilherme de Baskerville, mais ou menos entre 1324 e 1327. (no Prólogo)

O pai do noviço lutava ao lado de Ludovico da Bavaria, que disputava a coroa de imperador de Roma com Frederico de Áustria, derrotado na disputa.

Ludovico representava o grupo que era adversário do papa João XXII, Jacques de Cahors, eleito em Avignon, em 1316. Ludovico foi excomungado por Cahors, o papa.

Teses sobre a igreja de Cristo

"É preciso dizer que, justamente naquele ano, tivera lugar em Perúgia o capítulo dos frades franciscanos, e o geral deles, Michele de Cesena, acolhendo as instâncias dos 'espirituais' (sobre os quais terei ainda ocasião de falar) proclamara como verdade de fé a pobreza de Cristo, que, se tinha possuído coisa com seus apóstolos, Ele a tivera apenas como usus facti..." (p. 21, da edição da Folha)

Local

"Acontece que dobramos para ocidente enquanto nossa meta última ficava a oriente, quase seguindo a linha dos montes que de Pisa leva em direção aos caminhos de San Giacomo, parando numa terra em que os terríveis acontecimentos que lá ocorreram depois me desaconselham a identificar melhor, mas cujos senhores eram fiéis ao império e onde os abades de nossa ordem opunham-se de comum acordo ao papa herege e corrupto. A viagem durou duas semanas, entrecortadas por vários acontecimentos, e nesse tempo tive oportunidade de conhecer (nunca o suficiente, como sempre me convenço) meu novo mestre." (p. 22)

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O CONHECIMENTO HUMANO DEVE SER PRESERVADO EM MEIOS FÍSICOS

"(...) Eis, eu me disse, a grandeza de nossa ordem: durante séculos e séculos homens como esses viram irromper as ordas dos bárbaros, saquear suas abadias, precipitar os reinos em vórtices de fogo, e, no entanto, continuaram a ler à flor dos lábios palavras que eram transmitidas há séculos e que eles, por sua vez, transmitiam aos séculos vindouros. Continuaram a ler e a copiar enquanto se aproximava o milênio, por que não deveriam continuar a fazê-lo agora?" (p. 215)

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"(...) O saber não é como a moeda, que permanece fisicamente íntegra mesmo através das mais infames trocas: ele é antes como um hábito belíssimo, que se consome através do uso e da ostentação. Não é assim de fato o próprio livro, cujas páginas esfarelam-se, as tintas e os ouros se tornam opacos, se muitas mãos o tocam? Bem, estava vendo a pouca distância de mim Pacífico de Tivoli que folheava um volume antigo, cujas folhas estavam como que grudadas umas às outras por causa da umidade. Ele molhava o indicador e o polegar na língua para folhear seu livro, e a cada toque de sua saliva aquelas páginas perdiam em vigor, abri-las queria dizer dobrá-las, oferecê-las à severa ação do ar e da poeira, que teriam roído as sutis veias que no esforço encrespavam o pergaminho, teriam produzido novos mofos lá onde a saliva tinha amolecido e enfraquecido o canto da folha. Como um excesso de doçura torna mole e inábil o guerreiro, este excesso de amor possessivo e curioso predisporia o livro à doença destinada a matá-lo." (p. 217)

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Não cuspam nos livros...

William 


sábado, 15 de fevereiro de 2025

Poema 17: Ler à flor dos lábios


LER À FLOR DOS LÁBIOS


"E, no entanto,

continuaram

a amar os pergaminhos

e as tintas

e continuaram

a ler à flor dos lábios

palavras

que eram transmitidas

há séculos

e que eles, por sua vez,

transmitiam aos séculos

vindouros.

Continuaram

a ler e a copiar

enquanto se aproximava

o milênio,

por que não deveriam

continuar a fazê-lo

agora?"


Sábias palavras de

Umberto Eco no clássico

O nome da rosa. 


Devemos continuar

guardando as palavras,

seguir lendo e escrevendo

e transmitindo o saber

por séculos e séculos. 


Impressos! Não em nuvens

de big techs, como agora.

Nuvens se dissipam com o vento.

(e com as tormentas)


Ler e copiar,

imprimir e distribuir,

guardar o saber

para podermos amanhã

ler à flor dos lábios.


William 

15/02/25


quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Leitura - O Nome da Rosa - Umberto Eco (1)



Refeição Cultural 

Quinta-feira, 23 de janeiro de 2025.


"Porque esta é uma história de livros, não de misérias quotidianas, e a sua leitura pode nos inclinar a recitar, com o grande imitador de Kempis: 'In omnibus requiem quaesivi, et nusquam inveni nisi in angulo cum libro' - 5 de janeiro de 1980*." (p. 16)

*Procurei descanso em tudo e não encontrei em lugar nenhum senão num canto com um livro (tradutor do Google)


São tantos os clássicos que não conheço ainda que fico meio perdido quando penso na escolha de um livro para me sentar num canto do mundo e descansar. 

Descansar do ódio da política dos homens. Descansar da falta de consideração. Descansar das mentiras como armas fascistas na guerra de dominação. 

Um livro para descansar a alma, para alimentar a alma e dar algum sentido na aventura humana. 

Das várias lacunas culturais, escolhi desta vez o clássico de Umberto Eco: O Nome da Rosa, de 1980.

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RESENHA DURANTE A LEITURA 

Divisões do tempo: cada dia na abadia ou mosteiro onde se passa a história é dividido em períodos determinados do dia: Matinas (de 2h30 a 3h), Laudes (entre 5 e 6h), Primeira (em torno de 7h30), Terceira (por volta de 9h), Sexta (meio-dia), Nona (14 a 15h), Véspera (16h30 ou perto do pôr do sol) e Completas (em torno das 18h, até umas 19h).

O livro começa com os seguintes textos: "Um manuscrito, naturalmente", "Nota" e o "Prólogo".

Pelos textos iniciais, o leitor fica sabendo que vai ler os relatos de Dom Adson (ou Adso) de Melk, do século XIV, sobre a missão do frade franciscano inglês Guilherme de Baskerville em uma abadia italiana. Adso era seu ajudante.

"(...) Quanto à época em que se desenvolvem os eventos descritos, estamos em fins de novembro de 1327; quando porém tenha escrito o autor é incerto. Calculando que se diz noviço em 1327 e já próximo da morte quando escreve suas memórias, podemos conjecturar que o manuscrito tenha sido elaborado nos últimos dez ou vinte anos do século XIV" (p. 14)

O livro é dividido em partes representadas pelos dias: primeiro dia, segundo dia etc.

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PRIMEIRO DIA

O frei Guilherme de Baskerville e seu ajudante Adso de Melk vão a uma abadia para tratativas políticas, mas acabam por investigar a estranha morte de um monge, Adelmo de Otranto.

Depois, o leitor fica sabendo que frei Guilherme está incumbido de organizar na abadia um encontro "diplomático" entre representações do imperador e do papa. (A partir da p. 172)

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CENA DE LEITURA: Li o começo da obra sob o silêncio da madrugada, na Colônia do Sinpro da Praia Grande, a descrição feita por Adso de Melk sobre a primeira visita dele e do frei Guilherme de Baskerville à igreja da abadia. 

Enquanto Adso descrevia uma cena demoníaca em pinturas e esculturas, eu ouvia vez por outra os medonhos sons da noite... 

O livro me apresentava os personagens Salvatore e o monge Ubertino de Casale. (p. 66)

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Na cena de leitura acima, faltou dizer que, de vez em quando, uma coruja começava a piar sem parar... São os sons da noite.

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Diálogo entre frei Guilherme e Ubertino

Inquisição - Foi um debate interessante. Sobre influências do demônio e inquisições. Guilherme era inquisidor e desistiu da função. Ubertino era a favor de queimar na fogueira algumas pessoas inocentadas por Guilherme. 

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Frei Guilherme e Adso conhecem o bibliotecário Malaquias de Hildeshein e seu ajudante, Berengário de Arundel, no scriptorium. Antes, conversaram com o padre herborista Severino de Sant'Emmerano (p. 85 adiante).

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Já no fim do primeiro dia (Vésperas), frei Guilherme faz uma discussão com o vidreiro Nicola de Morimondo muito interessante sobre a ciência na mão de pessoas não sábias. (A partir da p. 106)

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SEGUNDO DIA

O segundo dia na abadia começou com a descoberta de mais um corpo - o monge Venâncio de Salvamec -, encontrado de cabeça para baixo numa pocilga de sangue de porcos.

Há um bom resumo da conversa do dia anterior, que contou com a participação do falecido monge Venâncio, na p. 136 da minha edição. É citada, nos debates, a obra "Poética", de Aristóteles.

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O RISO - Debate entre frei Guilherme de Baskerville e o ancião cego Jorge de Burgos sobre o gênero comédia e o riso (p. 158):

Jorge: "(...) O riso sacode o corpo, deforma as linhas do rosto, torna o homem semelhante ao macaco."

Guilherme: "Os macacos não riem, o riso é próprio do homem, é sinal de sua racionalidade."

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GUERRA É GUERRA: Na p. 182, o abade diz não se importar com o assassinato de toda uma comunidade por suspeita de heresia.

"(...) E, quanto aos hereges, também tenho uma regra, e se resume na resposta que deu Arnaldo Amalrico, abade de Citeaux, a quem lhe perguntava o que fazer dos cidadãos de Béziers, cidade suspeita de heresia: matai-os todos, Deus reconhecerá os seus."

Frei Guilherme relembrou, constrangido, que foram mortos quase vinte mil pessoas a fio de navalha incluindo mulheres e crianças... depois a cidade foi saqueada. 

(COMENTÁRIO: Alguma semelhança com um certo massacre atual numa terra chamada Faixa de Gaza, Palestina?)

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NOS LABIRINTOS DA BIBLIOTECA 

"(...) Este lugar de sabedoria proibida é protegido por muitos e sapientíssimos achados. A ciência usada para ocultar, ao invés de iluminar. Não me agrada. Uma mente perversa preside à santa defesa da biblioteca..." (p. 206)


O segundo dia chegou ao fim. Frei Guilherme e Adso visitaram a biblioteca da abadia no meio da noite. 

Quase ficaram perdidos por lá em seus labirintos. 

Ao voltarem do primeiro escrutínio à biblioteca, às escondidas, encontram o abade naquela madrugada (matinas). O abade diz que Berengário, o ajudante do bibliotecário, está desaparecido.

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Frases para reflexão 

A EFEMERIDADE DAS COISAS E DA VIDA

"(...) Nada é mais fugaz que a forma exterior, que perde o viço e muda como as flores do campo com o aparecimento do outono." (p. 25)

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O DIABO PODE TENTAR A TODOS 

"'Mesmo um inquisidor pode ser impelido pelo diabo', disse Guilherme." (p. 44)

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A BIBLIOTECA DA ABADIA 

"Sei que tem mais livros que qualquer outra biblioteca cristã. Sei que diante de vossas estantes as de Bobbio ou de Pomposa, de Cluny ou de Fleury parecem o quarto de um menino que mal se inicia no ábaco. Sei que os seis mil códices de que se vangloriava Novalesa há mais de cem anos são poucos diante dos vossos, e talvez muitos deles agora estejam aqui. Sei que a vossa abadia é a única luz que a cristandade pode opor às trinta e seis bibliotecas de Bagdá, aos dez mil códices do vizir Ibn al-Alkami, que o número de vossas bíblias iguala-se aos dois mil e quatrocentos corões de que dispõe o Cairo, e que a realeza de vossas estantes é luminosa evidência contra a soberba lenda dos infiéis que há anos queriam (íntimos que são do príncipe da mentira) a biblioteca de Trípoli rica em seis milhões de volumes e habitada por oitenta mil comentadores e duzentos escribas." (p. 51)

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AINDA A BIBLIOTECA DA ABADIA 

O abade não quer permitir o acesso de frei Guilherme de Baskerville. A biblioteca é tão protegida que só o bibliotecário a conhece.

"(...) Somente o bibliotecário, além de saber, tem o direito de mover-se no labirinto dos livros, somente ele sabe onde encontrá-los e onde guardá-los, somente ele é responsável pela sua conservação (...) Porque nem todas as verdades são para todos os ouvidos, nem todas as mentiras podem ser reconhecidas como tais por uma alma piedosa, e os monges, por fim, estão no scriptorium para levar a cabo uma obra precisa, para a qual devem ler alguns e não outros volumes, e não para seguir qualquer insensata curiosidade que porventura os colha, quer por fraqueza da mente, quer por soberba, quer por sugestão diabólica." (p. 54)

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MAGIAS DE DEUS E DO DIABO

"(...) Porém existem duas formas de magia. Há uma magia que é obra do diabo e que visa a ruína do homem através de artifícios de que não é lícito falar. Mas há uma magia que é obra divina, lá onde a ciência de Deus se manifesta através da ciência do homem, que serve para transformar a natureza, e um de cujos fins é prolongar a vida humana..." (p. 109, sobre os óculos)

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A CIÊNCIA E A QUESTÃO DA ÉTICA: DEVE HAVER LIMITE NA CIÊNCIA?

"Porque a ciência não consiste só em saber aquilo que se deve ou se pode fazer, mas também em saber aquilo que se poderia fazer e que talvez não se deva fazer. Eis por que hoje eu dizia ao mestre vidreiro que o sábio deve guardar de todos os modos os segredos que descobre, para que outros não façam mau uso deles, mas é preciso descobri-los, e esta biblioteca me parece mais um lugar onde os segredos permanecem encobertos." (p. 120)

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O POVO É MASSA DE MANOBRA NAS RELIGIÕES

"Estou dizendo que muitas dessas heresias, independentemente das doutrinas que sustentam, encontram sucesso junto aos simples, porque lhes sugerem a possibilidade de uma vida diferente. (...) Os simples são carne de matadouro, de se usar para colocar em crise o poder adverso, e para sacrificar quando não prestam mais." (p. 180/181)

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COMENTÁRIO FINAL

Sigamos na leitura e releitura dessa obra monumental de Umberto Eco. Finalizei os dois primeiros dias da história.

Antes de seguir adiante, acho que vou reler alguns diálogos que ocorreram nas primeiras duzentas páginas.

É isso. O mundo anda o caos com a ascensão do nazifascismo no século XXI. Vamos procurar algum descanso pegando um bom livro e achando um canto para desfrutar dessa maravilhosa invenção do ser humano: os livros.

William


Bibliografia:

ECO, Umberto. O nome da rosa. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade. Coleção Mestres da Literatura Contemporânea. Editora Record/Altaya. Rio de Janeiro: 1986.


sábado, 24 de agosto de 2024

Fahrenheit 451 - Ray Bradbury



Refeição Cultural 

"- É um trabalho ótimo. Segunda-feira, Millay; quarta-feira, Whitman; sexta-feira, Faulkner. Reduza os livros às cinzas e, depois, queime as cinzas. Este é o nosso slogan oficial."


Custei achar o livro em casa, quando acordei. Refleti que fazia tempo que não lia um romance. Só tenho lido política e outras coisas do tipo. Por que não ler Fahrenheit 451? Faz mais de uma década que o li.

Vi com entusiasmo a notícia que um dos maiores nomes das redes sociais, Felipe Neto, um "influenciador digital" sugeriu a leitura do livro de Ray Bradbury. O fato fez a venda do livro disparar. Interessante!

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A RELEITURA

Um mundo de gente fútil, vazia, uma mesmice só...

"- As pessoas não conversam sobre nada.

- Ah, elas devem falar de alguma coisa!

- Não, de nada. O que mais falam é de marcas de carros ou roupas ou piscinas e dizem: 'Que legal!'. Mas todos dizem a mesma coisa e ninguém diz nada diferente de ninguém..."

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Mundo abstrato

"(...) Você já foi alguma vez a um museu? Tudo abstrato. É só o que há agora. Meu tio diz que antigamente era diferente. Muito tempo atrás, os quadros às vezes diziam alguma coisa ou até mostravam pessoas."

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Economia da atenção 

É antiga a preocupação dos pensadores com essas máquinas que capturam as pessoas e suas consciências: Ray Bradbury já aponta nos anos 50 a geração "cara na tela" dos smartphones atuais.

"Não havia uma velha anedota sobre a esposa que falava tanto ao telefone que o marido, desesperado, correu até a loja mais próxima e telefonou para ela para perguntar o que havia para o jantar? Ora, então, por que ele não comprava uma estação transmissora para radioconchas, para conversar tarde da noite com sua mulher, murmurar, sussurrar, gritar, bradar, berrar? Mas o que ele sussurraria, o que gritaria? O que poderia dizer?" (p. 66/67)

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Pra que livros, estudos?

"- A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?" (p. 85)

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Igualdade através da ignorância total (sem os livros)

Frases:

- "Sempre se teme o que não é familiar"

- "Um livro é uma arma carregada na casa vizinha"

- "Quem sabe quem poderia ser alvo do homem lido?"

Excertos da página 89 de minha edição. 

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Os bombeiros de Fahrenheit 451

"Eles receberam uma nova missão, a guarda de nossa paz de espírito, a eliminação do nosso compreensível e legítimo sentimento de inferioridade: censores, juízes e carrascos oficiais. Eis o nosso papel, Montag, o seu e o meu." (p. 89)

Os bolsonaristas...

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Queimem os livros (cancelem tod@s aquel@s que incomodam, que fazem pensar...)

"- Os negros não gostam de Little Black Sambo. Queime-o. Os brancos não se sentem bem em relação à Cabana do pai Tomás. Queime-o. Alguém escreveu um livro sobre o fumo e o câncer de pulmão? As pessoas que fumam lamentam? Queimemos o livro. Serenidade, Montag. Paz, Montag. Leve sua briga lá para fora. Melhor ainda, para o incinerador..." (p. 90/91)

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Entupa as pessoas com dados, e evite a filosofia e a sociologia:

"(...) Encha as pessoas com dados incombustíveis, entupa-as tanto com 'fatos' que elas se sintam empanturradas, mas absolutamente 'brilhantes' quanto a informações. Assim, elas imaginarão que estão pensando, terão uma sensação de movimento sem sair do lugar. E ficarão felizes, porque fatos dessa ordem não mudam. Não as coloque em terreno movediço, como filosofia ou sociologia, com que comparar suas experiências. Aí reside a melancolia..." (p. 92/93)

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Quem quer perder tempo educando crianças?

Na segunda parte do romance, uma cena me chamou a atenção sobre o que aquela sociedade pensa sobre crianças. 

Em uma reunião de mulheres, uma delas fala horrorizada sobre a possibilidade de ter filhos e a outra ameniza o problema da atenção que se teria que dar aos filhos dizendo que é só colocar as crianças diante de aparelhos de televisão e imagens que os pirralhos não atrapalharão a vida dos adultos...

Vocês notaram alguma semelhança do contexto ficcional de 70 anos atrás com a realidade do mundo em 2024?

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Alguém tem que preservar a história e a cultura de novo

"Um deles tinha de parar de queimar. Por certo o Sol não pararia. Dessa forma, era como se tivesse que ser Montag e as pessoas com quem ele havia trabalhado até algumas horas antes. Em algum lugar, o ato de salvar e guardar teria de começar novamente e alguém tinha de se encarregar de salvar e guardar, de um modo ou de outro, nos livros, nos discos, na cabeça das pessoas, do jeito que fosse, desde que fosse seguro, livre de mariposas, traças, ferrugem e mofo, e de homens com fósforos. O mundo estava cheio de fogo de todos os tipos e tamanhos..." (p. 200)

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Sempre recomeçar, uma característica dos seres humanos 

"(...) E quando a guerra terminar, algum dia, algum ano, os livros poderão ser escritos novamente, as pessoas serão convocadas, uma a uma, para recitarem o que sabem, e os imprimiremos novamente até a próxima Idade das Trevas, quando poderemos ter de começar tudo de novo. Mas é isso o maravilhoso no homem; ele nunca fica desanimado ou desgostoso a ponto de desistir de fazer tudo novamente, porque ele sabe muito bem que isso é importante e vale a pena." (p. 216/217)

Literatura também é isso!

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O FIM (O COMEÇO)

"- Todos devem deixar algo para trás quando morrem, dizia meu avô. Um filho, um livro, um quadro, uma casa ou parede construída, um par de sapatos. Ou um jardim. Algo que sua mão tenha tocado de algum modo, para que sua alma tenha para onde ir quando você morrer. E quando as pessoas olharem para aquela árvore ou aquela flor que você plantou, você estará ali. Não importa o que você faça, dizia ele, desde que você transforme alguma coisa, do jeito que era antes de você tocá-la, em algo que é como você depois que suas mãos passaram por ela. A diferença entre o homem que apenas apara gramados e um verdadeiro jardineiro está no toque, dizia ele. O aparador de grama podia muito bem não ter estado ali; o jardineiro estará lá durante uma vida inteira." (p. 220/221)

Então...

Termino aqui o comentário sobre essa releitura de Fahrenheit 451.

Termino com uma indagação incômoda martelando dentro de mim...

Será que fui um jardineiro? Ou fui um aparador de gramas?

William Mendes 

sábado, 4 de maio de 2024

Livro: Pedagogia da Autonomia - Paulo Freire



Refeição Cultural

Osasco, 4 de maio de 2024. Sábado.


"(...) quem forma se forma e re-forma ao formar e quem é formado forma-se e forma ao ser formado." (from "Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa" by Paulo Freire)


"Não há docência sem discência, as duas se explicam e seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto um do outro. Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender. Quem ensina ensina alguma coisa a alguém. É por isso que, do ponto de vista gramatical, o verbo ensinar é um verbo transitivo relativo. Verbo que pede um objeto direto — alguma coisa — e um objeto indireto — a alguém." (from "Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa" by Paulo Freire)


CONHECENDO PAULO FREIRE

Ao longo de muitos anos de vida sindical, ouvi falar do "método de ensino Paulo Freire", da luta contra a "educação bancária" e dos livros clássicos do mestre cujos nomes começavam com a palavra "Pedagogia".

Sendo eu um típico exemplar humano do que Paulo Freire nos explica sobre sermos seres incompletos, minhas lacunas culturais sempre me constrangeram como se eu tivesse culpa de ter passado a vida vendendo a minha força de trabalho e estudando como fosse possível na fase de adulto jovem. Li o que pude, mas li pouco na vida.

Agora, retirado do dia a dia do mundo do trabalho e do movimento sindical que integrei por bastante tempo, tenho conseguido ler um pouco mais que antes. 

Acumulei por décadas uma quantidade grande de mídias para ler e estudar. Muitas temáticas perderam um pouco do sentido para mim, pois a leitura era para ser o melhor possível no que fazia. Agora que não tenho mais "utilidade" para o movimento sindical, vou inventando roteiros de leitura para mim mesmo.

Eu sonhei em ser professor, função social que entendo como a mais importante da sociedade humana. Por duas vezes, entrei em cursos acadêmicos pensando em atuar na área da educação: quando iniciei uma graduação em Educação Física (não pude terminá-la) e quando fiz uma graduação em Letras. 

As veredas que se abriram em meu caminho me levaram para outras paragens. Quando entrei na USP para cursar Letras, virei sindicalista e o curso perdeu a prioridade. Fiz o possível para ser um bom representante dos trabalhadores. A graduação não foi feita como eu gostaria.

Nos últimos anos, me esforcei para estabelecer um hábito de leitura regular e acabei conseguindo ler dezenas de livros das mais diversas áreas do conhecimento humano. No blog, compartilho o que aprendi. E assim vou vivendo: aprendendo e tentando diminuir a minha incompletude. 

Com a leitura de Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa (1996), completo o 3º livro do mestre Paulo Freire. Para este leitor que vos fala, só é possível ler suas obras de forma lenta, pausada, reflexiva. A gente lê uma página e volta duas, lê mais duas e volta três (risos). Eu não tenho pressa, não para esse tipo de aproveitamento do meu tempo.

Não me sinto com capacidade para ficar escrevendo de forma crítica os textos de Paulo Freire. Ainda não. Quem sabe um dia. No entanto, não me custa citar alguns excertos do livro para ilustrar a sabedoria que esse ser humano extraordinário nos legou em vida e para a posteridade.

Feitas essas reflexões iniciais, eis abaixo alguns pensamentos que destaquei da leitura de Paulo Freire.

William Mendes

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ÉTICA UNIVERSAL DO SER HUMANO

"O meu ponto de vista é o dos “condenados da Terra”, o dos excluídos. Não aceito, porém, em nome de nada, ações terroristas, pois que delas resultam a morte de inocentes e a insegurança de seres humanos. O terrorismo nega o que venho chamando de ética universal do ser humano. Estou com os árabes na luta por seus direitos, mas não pude aceitar a malvadez do ato terrorista nas Olimpíadas de Munique." 

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SOMOS SERES CONDICIONADOS, MAS NÃO DETERMINADOS

"Como presença consciente no mundo não posso escapar à responsabilidade ética no meu mover-me no mundo. Se sou puro produto da determinação genética ou cultural ou de classe, sou irresponsável pelo que faço no mover-me no mundo, e se careço de responsabilidade não posso falar em ética. Isso não significa negar os condicionamentos genéticos, culturais, sociais a que estamos submetidos. Significa reconhecer que somos seres condicionados mas não determinados. Reconhecer que a história é tempo de possibilidade e não de determinismo, que o futuro, permita-se-me reiterar, é problemático e não inexorável." 

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ENSINAR NÃO É TRANSFERIR CONHECIMENTO

"É preciso, sobretudo, e aí já vai um destes saberes indispensáveis, que o formando, desde o princípio mesmo de sua experiência formadora, assumindo-se como sujeito também da produção do saber, se convença definitivamente de que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção." 

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ENSINAR INEXISTE SEM APRENDER E VICE-VERSA

"Ensinar inexiste sem aprender e vice-versa, e foi aprendendo socialmente que, historicamente, mulheres e homens descobriram que era possível ensinar" 

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A LEITURA VERDADEIRA

"A leitura verdadeira me compromete de imediato com o texto que a mim se dá e a que me dou e de cuja compreensão fundamental me vou tornando também sujeito." 

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PENSAR CERTO...

"Só, na verdade, quem pensa certo, mesmo que, às vezes, pense errado, é quem pode ensinar a pensar certo. E uma das condições necessárias a pensar certo é não estarmos demasiado certos de nossas certezas." 

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O PROFESSOR QUE PENSA CERTO

"O professor que pensa certo deixa transparecer aos educandos que uma das bonitezas de nossa maneira de estar no mundo e com o mundo, como seres históricos, é a capacidade de, intervindo no mundo, conhecer o mundo. Mas, histórico como nós, o nosso conhecimento do mundo tem historicidade. Ao ser produzido, o conhecimento novo supera outro que antes foi novo e se fez velho e se “dispõe” a ser ultrapassado por outro amanhã." 

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"DODISCÊNCIA"

"A “dodiscência” — docência-discência — e a pesquisa, indicotomizáveis, são assim práticas requeridas por esses momentos do ciclo gnosiológico." 

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TODO(A) PROFESSOR(A) DEVE SER UM PESQUISADOR(A)

"Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino. Esses quefazeres se encontram um no corpo do outro. Enquanto ensino continuo buscando, reprocurando. Ensino porque busco, porque indaguei, porque indago e me indago. Pesquiso para constatar, constatando, intervenho, intervindo educo e me educo. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a novidade."

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COMPROMISSO COM A CONSCIÊNCIA CRÍTICA DO EDUCANDO

"Pensar certo, do ponto de vista do professor, tanto implica o respeito ao senso comum no processo de sua necessária superação quanto o respeito e o estímulo à capacidade criadora do educando. Implica o compromisso da educadora com a consciência crítica do educando, cuja “promoção” da ingenuidade não se faz automaticamente."

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SER HUMANO = ÉTICA

"Não é possível pensar os seres humanos longe, sequer, da ética, quanto mais fora dela. Estar longe ou, pior, fora da ética, entre nós, mulheres e homens, é uma transgressão."

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A PRÁTICA COMO CRITÉRIO DA VERDADE

"Quem pensa certo está cansado de saber que as palavras a que falta a corporeidade do exemplo pouco ou quase nada valem. Pensar certo é fazer certo."

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PRÁTICA DOCENTE = ENSAIO ESTÉTICO E ÉTICO

"Não é possível também formação docente indiferente à boniteza e à decência que estar no mundo, com o mundo e com os outros substantivamente exige de nós. Não há prática docente verdadeira que não seja ela mesma um ensaio estético e ético, permita-se-me a repetição."

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TECNOLOGIA: NEM BOA, NEM RUIM

"Divinizar ou diabolizar a tecnologia ou a ciência é uma forma altamente negativa e perigosa de pensar errado."

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ASSIM COMO O DIREITO, A ÉTICA É UM ATRIBUTO HUMANO

"Só os seres que se tornaram éticos podem romper com a ética. Não se sabe de leões que covardemente tenham assassinado leões do mesmo ou de outro grupo familiar e depois tenham visitado os “familiares” para levar-lhes sua solidariedade. Não se sabe de tigres africanos que tenham jogado bombas altamente destruidoras em “cidades” de tigres asiáticos."

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O FUTURO NÃO ESTÁ DETERMINADO PARA OS HUMANOS

"Gosto de ser homem, de ser gente, porque não está dado como certo, inequívoco, irrevogável que sou ou serei decente, que testemunharei sempre gestos puros, que sou e que serei justo, que respeitarei os outros, que não mentirei escondendo o seu valor porque a inveja de sua presença no mundo me incomoda e me enraivece. Gosto de ser homem, de ser gente, porque sei que a minha passagem pelo mundo não é predeterminada, preestabelecida. Que o meu 'destino' não é um dado, mas algo que precisa ser feito e de cuja responsabilidade não posso me eximir. Gosto de ser gente porque a história em que me faço com os outros e de cuja feitura tomo parte é um tempo de possibilidades, e não de determinismo. Daí que insista tanto na problematização do futuro e recuse sua inexorabilidade."

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O HUMANO ESTÁ NO MUNDO PARA SER SUJEITO DA HISTÓRIA E NÃO OBJETO

"Afinal, minha presença no mundo não é a de quem a ele se adapta, mas a de quem nele se insere. É a posição de quem luta para não ser apenas objeto, mas sujeito também da história."

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SOMOS NATUREZA, SOMOS SERES INCONCLUSOS

"Em lugar de estranha, a conscientização é natural ao ser que, inacabado, se sabe inacabado. A questão substantiva não está por isso no puro inacabamento ou na pura inconclusão. A inconclusão, repito, faz parte da natureza do fenômeno vital. Inconclusos somos nós, mulheres e homens, mas inconclusos são também as jabuticabeiras que enchem, na safra, o meu quintal de pássaros cantadores; inconclusos são estes pássaros como inconcluso é Eico, meu pastor alemão, que me 'saúda' contente no começo das manhãs."

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NÃO SE FINALIZAM AS LEITURAS E ESTUDOS SOBRE PAULO FREIRE

Enfim, é hora de finalizar a postagem sobre a leitura dessa obra seminal do educador Paulo Freire, Pedagogia da Autonomia é um clássico da produção textual e intelectual do povo brasileiro.

Não citei nem a metade do livro nesta postagem. No entanto, só pelas citações que destaquei aqui é possível perceber a profundidade das mensagens que Paulo Freire nos deixa. 

Somos seres inacabados, passíveis de sermos educados. Como diz o educador "só se educa gente". Como não acreditar na formação política, na educação libertadora? Em novos homens e mulheres, como pensava o médico revolucionário Ernesto Che Guevara?

Ao estudar Paulo Freire fica impossível a mim e ao estudioso(a) de suas ideias acharmos que o mundo não tem mais jeito, que os seres humanos não têm mais jeito, que está tudo acabado... impossível! Somos seres históricos, que transformam a realidade do mundo a partir da inteligência e da vontade.

Com educação libertadora, com vontade e amor pela vida, pelos seres e pelo mundo podemos mudar a realidade que está ruim (eu diria que está uma merda!), podemos mudar! É só querermos e fazermos o certo para mudar a realidade. Seres humanos podem fazer isso!

A emergência climática pode ser revertida! Ela foi consequência de nosso mau uso da natureza do planeta, mau uso que nós humanos causamos ao vivermos no planeta Terra permitindo que uma abstração inventada por humanos - o capitalismo - destrua a vida, o mundo, a solidariedade entre as pessoas. MUDEMOS O MUNDO, LUTEMOS PELO FIM DO CAPITALISMO!

Não adianta só nos sensibilizarmos com as vítimas de catástrofes naturais a cada momento no qual elas aconteçam e não atuarmos para mudar a realidade do mundo causada pela mão dos seres humanos. Entendem? Ao mesmo tempo que temos que acudir nossos irmãos nas catástrofes, temos que refletir as causas e as mudanças necessárias para que catástrofes não ocorram.

Temos que estudar porque somos gente, e só se educa gente! Educados, podemos mudar a realidade a qualquer tempo, em qualquer situação. Somos seres que fazem história!

William Mendes

Bibliografia:


FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia - Saberes necessários à prática educativa. Edição especial 1.000.000 de exemplares. Editora Paz e Terra. Coleção Leitura. São Paulo, 1996.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo, Paz e Terra, 2011. Formato ePub. Versão para kindle.