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sábado, 30 de agosto de 2025

O sentido da vida (8)



"Sentia-me três vezes desgraçado: meu pelo era mosqueado, haviam-me castrado e os homens imaginavam que eu não pertencia a Deus nem a mim mesmo, como é próprio de todo ser vivente, e sim, a um cavalariço." (Kolstomer - História de um cavalo, Tolstói, 1886)


As relações sociais dão sentidos ao viver


Qual seria o sentido da vida, se não há nada dessas abstrações inventivas do animal humano, aquele que dominou a natureza, inventou a linguagem e ao final se perdeu acreditando em suas próprias abstrações?

Passou o dia envolvido com um texto extraordinário do século XIX, criado por um dos maiores escritores da Rússia, Leão Tolstói. No enredo, o narrador nos conta a história de Kolstomer, um cavalo que sofreu preconceito, violência e abandono, algo comum na vida de milhões de pessoas neste mundo cruel.

A leitura definitivamente é uma das invenções humanas que podem contribuir para dar significados à vida das pessoas. Ler literatura, ciências e história permite aos leitores se libertarem da triste sina da ignorância, o principal motivo para milhões de animais humanos serem escravos manipulados por espertalhões. 

Naquele dia, refletiu sobre muitas coisas, todas elas ligadas ao sentido da vida: ao parabenizar seu pai pelo aniversário de 83 anos, agradeceu a ele por tudo que fez para todas as pessoas que ele ajudou a se estabelecerem neste mundo cruel e injusto.

Ainda estava pensativo sobre o sentido da vida do personagem Kolstomer... mas o sentido da vida de seu pai, e de sua mãe, e de sua própria vida era mais compreensível àquela altura da existência. 

É notório o sentido de complementaridade e de interdependência que existe na vida da espécie humana na natureza. A vida de seu pai contribuiu para a existência de muitas pessoas da família, assim como sua própria vida naquele momento. 

O ser humano é um ser social por natureza. As relações nos dão sentido.

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quarta-feira, 19 de março de 2025

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 19 de março de 2025. Quarta-feira.


"- É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade." (Ensaio sobre a cegueira, José Saramago)


Li um artigo hoje que me deixou reflexivo, artigo anunciando uma grande guerra em breve. De certa forma eu tenho a mesma leitura de cenário, mesmo sem ter o conhecimento que o articulista tem, vivendo na Alemanha. As fábricas de automóveis alemãs estão sendo fechadas por crise econômica e vão virar fábricas de armas para abastecer a guerra adiante.

O artigo "A Europa se prepara para a guerra" é do professor aposentado Flávio Aguiar, que também é jornalista e escritor, e está na página do site Vi o Mundo. Tive algumas aulas de literatura na Universidade de São Paulo com o professor Flávio e gosto muito dele. Leio seus artigos desde a antiga página da Carta Maior.

Aí, lendo a carga de textos da primeira semana de aula da pós-graduação do Instituto Conhecimento Liberta (ICL), bibliografia da disciplina "Narrativas da História do Brasil", todos os textos versam sobre guerras, pessoas ou escravizadas ou deliberadamente eliminadas para desocupar o espaço onde viviam. 

Aí, os mais sensíveis (os que se importam) têm que lidar com a transmissão diária do extermínio do povo palestino sem que o mundo faça nada a respeito. Se hoje fosse o ano de 1943 ou 1944, com a tecnologia de transmissão ao vivo, estaríamos assistindo aos fornos dos campos de concentração nazista em pleno funcionamento, soltando a fumaça de judeus queimando e estaríamos exatamente iguais estamos vendo Israel explodir e queimar crianças, mulheres e civis palestinos aos milhares. O mundo não tá nem aí!

É isso que somos... é isso que somos enquanto espécie animal! Estou sendo convencido pelos fatos que nós não demos certo enquanto um dos seres vivos que apareceu neste planeta.

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Dilemas

Estou vivendo um dilema nesses dias. Percebi a urgência em sistematizar toda a minha produção textual publicada em blogs, ou seja, de forma virtual em plataformas nada confiáveis que estão se organizando para dominar o mundo e eliminar seus adversários e isso deveria ser feito não só por este articulista, mas por todas as pessoas e instituições que guardam suas produções culturais nas nuvens dessas empresas big techs inimigas da humanidade. Isso é sério e as pessoas e instituições não perceberam ainda que vão perder toda a sua produção.

Aí, por essa coisa minha de querer estudar e aprender, me peguei inscrito na pós-graduação do ICL e bastou regularizar a matrícula e entrar na plataforma de ensino algumas semanas depois do início do curso para ver que a carga de leitura de uma pós é enorme. A pergunta a mim mesmo é: devo seguir ou isso é outra aventura iniciativa e não "acabativa" que me enfiei na vida? A primeira semana da disciplina tem textos ótimos, mas são 150 páginas de leitura densa.

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Tenho outros dilemas...

Todos temos. 

E essa taxa selic de 14,25% pra foder o país, o governo Lula e o povo?

Estamos em guerra...

E nós estamos desarmados...

Que merda!

William 


quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Livro: Maiakóvski: poemas - B. Schnaiderman, Augusto e Haroldo de Campos



Refeição Cultural 

Janeiro de 2025


"COME ANANÁS

Come ananás, mastiga perdiz.

Teu dia está prestes, burguês."


A leitura do livro de poemas de Maiakóvski organizado pelos irmãos Campos e por Boris Schnaiderman me permitiu conhecer um pouco da poética do poeta revolucionário e todo o contexto de sua época, as primeiras décadas do século 20.

Neste caso, a diferença de compreensão ao ler primeiro os poemas e depois reler cada um deles após os textos críticos e de esclarecimento por parte dos organizadores da edição especial foi algo central.

O texto de Boris Schnaiderman - "Maiakóvski: Evolução e Unidade" - é fundamental para uma boa leitura dos poemas de Maiakóvski. 

O texto "Eu Mesmo - Maiakóvski" também é muito interessante para conhecermos o poeta. 

Vejam essa afirmação de Maiakóvski a respeito de seus primeiros contatos com livros na infância:

"Primeiro livro

Não sei que Passarinheira Agáfia. Se tivesse então encontrado alguns livros daqueles, deixaria de ler para sempre. Felizmente, o segundo livro foi Dom Quixote. Isto é que é livro! Fiz uma espada de madeira e armadura e aniquilava tudo ao redor." (p. 57)

Simplesmente fantástico!!!

Depois o poeta diz que leu Júlio Verne.

Foi preso três vezes durante o regime czarista, escreveu na terceira prisão:

"Tendo lido os contemporâneos, despenquei-me sobre os clássicos. Byron, Shakespeare, Tolstói. Último livro: Ana Karênina. Não cheguei ao fim. De noite me chamaram "à cidade com as suas coisas". E fiquei sem saber, até hoje, como acabou aquela história dos Karênin." (pag. 64)

Maiakóvski, eu também não terminei aquela história. Ana morre no final.

Em 1915, após ser convocado para a 1a GM:

"(...) Publiquei 'A Flauta-Vértebra' e a 'Nuvem'. A nuvem saiu muito limpinha. A censura soprou nela. Umas seis páginas só de pontos. 

     Daí data o meu ódio aos pontos. E às vírgulas também." (pag. 71)

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MAIAKÓVSKI, 50 ANOS DEPOIS - Augusto de Campos 

O livro traz no Apêndice presentes aos leitores, como esse texto de A. de Campos. 

Entendi melhor a relação do poeta com seu grande amor, Lília Brik, e as várias passagens da vida nas quais Maiakóvski abordou a questão do suicídio. 

"O poema em que discute o suicídio de Iessiênin, em 1926, terminando com as linhas 'nesta vida/morrer não é difícil/o difícil/é a vida e o seu ofício' (na esplêndida recriação de Haroldo de Campos), parecia prevenir qualquer recidiva. O poeta lutava consigo mesmo?" (p. 259)

Possíveis motivos ou questões que impactavam a vida do poeta:

"Causas possíveis do suicídio? Os Charters resumem: o tratamento dado a Maiakóvski pelos 'escritores proletários'; a desilusão política; o fracasso do seu caso com Tatiana; a recusa de Nora em casar-se com ele; a ausência de Lília; problemas físicos com sua voz. Mas a ideia do suicídio sempre o perseguira..." (p. 258)


POEMA-ANEL

Vejam que legal a explicação de Augusto de Campos sobre esse poema-anel a Lília Brik:

"Todas as homenagens que o poeta rendeu a Lília (em poemas como 'Lílitchka!', 'A Flauta-Vértebra', 'O Homem', 'Disto') se resumem numa única palavra que ele transformou no que hoje chamaríamos de poema concreto. Maiakóvski fez gravar num anel, que deu a ela de presente, as letras 'L', 'IU' e 'B' - as iniciais do nome completo de sua amada: Lília IÚrievna Brik. Em disposição circular elas formam a palavra LIUBLIÚ (amo). Também no título de um poema de 1923 as letras são grafadas separadamente (L IU B L IU), embutido na palavra 'amo' o nome de Lília." (p. 259/260)

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Me sensibilizei bastante com a biografia do poeta futurista e revolucionário Vladímir Maiakóvski. 

A incompreensão da qual foi vítima, seus últimos dias e o suicídio em 14 de abril de 1930 após concluir o poema "A Plenos Pulmões" me comoveram muito.

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POETA NÃO SEGUE REGRAS, ELE CRIA REGRAS 

"Justamente por renegar a poética tradicional, com a contagem de sílabas e de pés, exigia de si e dos poetas modernos em geral um esforço maior. 'Eu não forneço nenhuma regra para que uma pessoa se torne poeta, para que escreva versos. E, em geral, tais regras não existem. Damos o nome de poeta justamente à pessoa que cria estas regras poéticas' - escreveu em seu famoso ensaio." (p. 31, Boris Schnaiderman)

O poema que abre esta postagem - "Come Ananás" - é um exemplo de poesia de luta, nos explica Boris Schnaiderman. 

Este poema abaixo também é uma posição firme de Maiakóvski sobre sua poética revolucionária na poesia:

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O LIVRO BOM É NECESSÁRIO 

(...)

Logo

      que se eleve

                a cultura do povo!

Uma só,

             para todos.

O livro bom

                é claro

                           e necessário

a mim,

          a vocês, 

                     ao camponês 

                             e ao operário


Do poema "Incompreensível para as massas".

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COMENTÁRIO FINAL

A leitura do livro Maiakóvski: poemas foi a descoberta de um grande poeta da cultura humana. 

Os textos complementares do livro, de Boris Schnaiderman, Haroldo de Campos e Augusto de Campos, deram a mim o suporte necessário para compreender e apreciar a poética de Maiakóvski. 

Saio da leitura menos ignorante no tema. E isso é bom.

Sigamos vivendo com o desejo de aprender coisas novas todos os dias. 

William 


Bibliografia:

MAIAKÓVSKI, Vladimir. Poemas. Tradução: Boris Schnaiderman, Haroldo de Campos, Augusto de Campos. Ed. especial rev. e ampl. - São Paulo: Perspectiva, 2017.


sábado, 4 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (34) - A extraordinária aventura vivida por Vladímir Maiakóvski no verão na Datcha



A EXTRAORDINÁRIA AVENTURA VIVIDA POR VLADÍMIR MAIAKÓVSKI NO VERÃO NA DATCHA


(Púchkino, monte Akula, datcha de Rumiántzev, a 27 verstas pela estrada de ferro de Iaroslávi)


A tarde ardia com cem sóis.

O verão rolava em julho.

O calor se enrolava

no ar e nos lençóis 

da datcha onde eu estava.

Na colina de Púchkino, corcunda,

o monte Akula,

e ao pé do monte

a aldeia enruga

a casca dos telhados.

E atrás da aldeia, 

um buraco

e no buraco, todo dia,

o mesmo ato:

o sol descia

lento e exato.

E de manhã 

outra vez

por toda parte

lá estava o sol

escarlate.

Dia após dia 

isto

começou a irritar-me

terrivelmente. 

Um dia me enfureço a tal ponto

que, de pavor, tudo empalidece.

E grito ao sol, de pronto:

"Desce!

Chega de vadiar nessa fornalha!"

E grito ao sol:

"Parasita!

Você, aí, a flanar pelos ares,

e eu, aqui, cheio de tinta,

com a cara nos cartazes!"

E grito ao sol:

"Espere!

Ouça, topete de ouro,

e se em lugar

desse ocaso

de paxá

você baixar em casa

para um chá?"

Que mosca me mordeu!

É o meu fim!

Para mim

sem perder tempo 

o sol

alargando os raios-passos

avança pelo campo.

Não quero mostrar medo.

Recuo para o quarto.

Seus olhos brilham no jardim.

Avançam mais.

Pelas janelas,

pelas portas,

pelas frestas,

a massa

solar vem abaixo 

e invade a minha casa.

Recobrando o fôlego, 

me diz o sol com voz de baixo:

"Pela primeira vez recolho o fogo,

desde que o mundo foi criado.

Você me chamou?

Apanhe o chá, 

pegue a compota, poeta!

Lágrimas na ponta dos olhos

- o calor me fazia desvairar -

eu lhe mostro

o samovar:

"Pois bem,

sente-se, astro!"

Quem me mandou berrar ao sol

insolências sem conta?

Contrafeito 

me sento numa ponta

do banco e espero a conta

com um frio no peito.

Mas uma estranha claridade

fluía sobre o quarto

e esquecendo os cuidados

começo 

pouco a pouco 

a palestrar com o astro.

Falo

disso e daquilo, 

como me cansa a Rosta*,

etc.

E o sol:

"Está certo, 

mas não se desgoste,

não pinte as coisas tão pretas.

E eu? Você pensa

que brilhar

é fácil?

Prove, pra ver!

Mas quando se começa

é preciso prosseguir 

e a gente vai e brilha pra valer!"

Conversamos até a noite 

ou até o que, antes, eram trevas.

Como falar, ali, de sombras?

Ficamos íntimos, 

os dois.

Logo,

com desassombro,

estou batendo no seu ombro.

E o sol, por fim:

"Somos amigos 

pra sempre, eu de você, 

você de mim.

Vamos, poeta, 

cantar,

luzir

no lixo cinza do universo.

Eu verterei o meu sol

e você o seu

com seus versos."

O muro das sombras,

prisão das trevas, 

desaba sob o obus

dos nossos sóis de duas bocas.

Confusão de poesia e luz,

chamas por toda parte. 

Se o sol se cansa

e a noite lenta

quer ir pra cama,

marmota sonolenta,

eu, de repente, 

inflamo a minha flama

e o dia fulge novamente. 

Brilhar pra sempre,

brilhar como um farol,

brilhar com brilho eterno,

gente é pra brilhar, 

que tudo o mais vá pro inferno,

este é o meu slogan

e o do sol.


* Agência telegráfica onde o poeta trabalhou fazendo cartazes. 

Tradução: Augusto de Campos

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COMENTÁRIO:

Imagem sensacional! O poeta recebe a visita do sol após uma provocação. 

O sol chega de boa, diz que o poeta também é um sol e que eles são amigos para sempre.

Metáfora muito legal!

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"gente é pra brilhar,"

Sigamos lendo poesia, mesmo sendo em dias tristes.

Dedico este poema ao companheiro Cezinha, que agora é uma estrelinha a brilhar no céu. 

William 


Bibliografia:

MAIAKÓVSKI, Vladimir. Poemas. Tradução: Boris Schnaiderman, Haroldo de Campos, Augusto de Campos. Ed. especial rev. e ampl. - São Paulo: Perspectiva, 2017.


domingo, 8 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (8) - Tó pra vocês!, Maiakóvski



TÓ PRA VOCÊS!* - MAIAKÓVSKI


Daqui a uma hora, pelas vielas obscuras,

vocês despejarão suas flácidas gorduras,

e eu tantas prendas de versos lhes ofereço,

eu, que desperdiço e disperso palavras a qualquer preço.


Homens, restos de couves nos bigodes, 

sobra de sopas malcozidas e insossas;

mulheres, sob crostas de alvaiade,

como ostras na concha das coisas.


Ante a borboleta que é o coração dos poetas,

atolem-se na lama, com ou sem galocha.

A turba se enfurece, se esfrega e desabrocha, 

o piolho de cem cabeças eriça suas patas.


E se hoje, bárbaro rapace,

não quero provocá-los com facécias,

posso rir e cuspir com todo o apreço,

cuspir em sua face,

eu, que disperso e desperdiço palavras a qualquer preço. 


Poema de 1913

Tradução: Augusto de Campos


*O título do poema, nate! (lê-se: "natie"), tem o significado genérico de "Tomem isto!", "Essa é pra vocês!". O tradutor alude aqui a uma frase de Décio Pignatari inscrita na capa de Teoria da Poesia Concreta (1965), acompanhada da imagem do "amigo da onça", personagem famoso do cartunista Péricles, da revista O Cruzeiro, "dando uma banana" e, dentro do balão, escrito: "Tó pra vocês, chupins desmemoriados!" ("Tó", abreviação de "Toma").

Vocabulário:

Alvaiade: maquiagem tóxica do passado, feita à base de carbonato de chumbo, conhecida como "Cerusa Veneziana".

Facécias: gracejos, pilhérias.

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COMENTÁRIO:

Hoje não foi fácil escolher um poema para postar e comentar algum sentimento ou interpretação. 

Li quinze poemas de Maiakóvski para escolher "Tó pra vocês!". Fiquei entre esse e "Ruidinhos, ruídos e ruidaços".

Para mim, a leitura dos poemas desse poeta não é fácil. Não sou bom leitor de poesia. Tenho que ler, ler e ler várias vezes cada poema para senti-los melhor.

Gostei das imagens do poema, do cenário das vielas obscuras com homens e mulheres se esfregando como se bichos fossem. 

E, no fundo, somos isso mesmo: uma turba que "se enfurece, se esfrega e desabrocha".

Enquanto isso, alguns de nós insistem em seguir dispersando e desperdiçando palavras a qualquer preço. 

Sigamos assim!

William Mendes 


Bibliografia:

MAIAKÓVSKI, Vladimir. Poemas. Tradução: Boris Schnaiderman, Haroldo de Campos, Augusto de Campos. Ed. especial rev. e ampl. - São Paulo: Perspectiva, 2017.


segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (2) - Porto, Maiakóvski



PORTO - MAIAKÓVSKI


Lençóis de água sob um ventre pando.

Rasgam-se em ondas contra dentes brancos.

Amor. Lascívia. Como o uivo que escorre 

das chaminés por gargalos de cobre.

No berço-embocadura barcos presos

aos mamilos de madres de ferro.

À orelha surda dos navios agora

rebrilham brincos de âncora. 


Poema de 1912

Tradução: Haroldo de Campos

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COMENTÁRIO:

Consegui ler os primeiros poemas de Maiakóvski num silêncio meio raro em casa*.

Li algumas vezes as duas traduções do poema "Noite". Depois li o poema "Manhã".

Ao ler o poema "Porto" compreendi um pouco melhor a poética do autor. O mesmo quando li "Eu".

Maiakóvski brinca com as imagens: orelha de navio com brinco de âncora, barcos presos aos mamilos do porto etc **.

Não são poemas como aqueles que estou acostumado a ler. Legal.

* Além de estar um ambiente silencioso no momento, estou surdo faz uns quatro dias, após um voo com as fossas nasais congestinadas.

** No livro (p. 35), Boris Schnaiderman diz sobre esse poema: "(...) a estranheza aparece sublinhada pelo contraste entre as imagens ousadas e os elementos tradicionais na construção do poema..."

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O desafio de ler poesias neste mês será interessante. Vou experimentar o novo, o diferente, e quando for poeta que conheço, poemas que não tive contato ainda. 

William Mendes 


Bibliografia:

MAIAKÓVSKI, Vladimir. Poemas. Tradução: Boris Schnaiderman, Haroldo de Campos, Augusto de Campos. Ed. especial rev. e ampl. - São Paulo: Perspectiva, 2017.


terça-feira, 6 de agosto de 2024

73 de 100 dias


A bomba atômica.

Opinião

73. O dia 6 de agosto é um dia para nunca ser esquecido pela sociedade humana. O dia da infâmia! O dia no qual os Estados Unidos da América lançaram sobre a cidade de Hiroshima, Japão, uma bomba atômica, no ano de 1945, matando imediatamente dezenas de milhares de pessoas e centenas de milhares depois devido às consequências dos efeitos radioativos da bomba. Três dias depois, 9 de agosto, os mesmos EUA lançariam outra bomba atômica sobre Nagasaki. Não podemos esquecer esse ato de lesa-humanidade ao assassinar centenas de milhares de pessoas - crianças, mulheres, idosos, civis, pessoas que não estavam em campos de batalha - para demonstrar o poder de morte de um governo sobre os demais povos em confrontos e guerras.

Terminei recentemente a leitura de um clássico japonês das Histórias em Quadrinhos que me trouxe muitas emoções - Gen Pés Descalços -, de Keiji Nakazawa, um desenhista e criador de mangás (mangaká) cuja história pessoal se confunde com a história do personagem principal, Gen Nakaoka, um garoto de seis anos que sobreviveu à bomba atômica. A leitura das mais de 2000 páginas da obra me proporcionou momentos de muita reflexão, sofrimento e conscientização.


Gen Pés Descalços,
em 10 volumes.

TEREMOS NOVAS BOMBAS E NOVAS GUERRAS DE DESTRUIÇÃO EM MASSA?

O que a humanidade aprendeu com o assassinato de meio milhão de pessoas com os lançamentos das bombas atômicas nos anos quarenta? 

Se pararmos para refletir a partir do cenário mundial neste exato momento, veremos que não aprendemos muita coisa. 

Estamos à beira de uma conflagração de guerras inumeráveis ou de envolvimento de grandes países do mundo em uma guerra polarizando os Estados Unidos e seus vassalos de um lado e seus inimigos escolhidos de outro. Uma espécie de 3ª Guerra Mundial.

A atual guerra na Ucrânia, uma guerra por procuração, provocada segundo muitos analistas de geopolítica internacional pelos movimentos da Otan e pelos Estados Unidos, que desrespeitaram acordos desde os anos noventa e foram convidando e incluindo todos os países vizinhos da Rússia a serem membros da Otan expondo o povo russo a um risco real de ataques a sua soberania.

A guerra de extermínio e expulsão do povo palestino da Faixa de Gaza e da Palestina, promovida pelo governo sionista de Israel, com apoio dos Estados Unidos, guerra que já matou mais de 40 mil palestinos - crianças, mulheres, idosos, civis e pessoas que não estavam em campos de batalha - repete o roteiro das guerras conhecidas pelos historiadores no último século.

A nova tentativa dos Estados Unidos em derrubar o governo da Venezuela, país com as maiores reservas de petróleo do mundo, de forma injustificável, ao declarar que a dupla Edmundo González e Maria Corina Machado são vencedores de uma eleição com números criados da cabeça deles, só na base da narrativa inventada, é um passo perigoso na atual conjuntura global. Será que os países do BRICS e aliados vão aceitar essa provocação e ingerência para tomar os poços de petróleo do povo venezuelano na mão grande?

Poderia ficar aqui citando as provocações dos Estados Unidos a diversos países com o intuito de causar um ambiente de conflito global - Irã, China, Rússia etc.

Esses são os tempos...

Lembrem-se do dia 6 de agosto de 1945!

Lembrem-se do dia 9 de agosto de 1945!

Estamos livres e distantes de novas bombas de destruição em massa?

BLOQUEIOS ECONÔMICOS SÃO COMO BOMBAS ATÔMICAS EM RELAÇÃO AOS SEUS EFEITOS SOBRE AS POPULAÇÕES VÍTIMAS

Estamos livres das bombas de destruição em massa chamadas bloqueios econômicos e comerciais, os tais embargos disparados pelos Estados Unidos a hora que querem e ao país que eles acharem que devem disparar essas bombas de destruição econômica que só causam miséria e mortes às populações civis de seus inimigos? 

(vejam o que o povo cubano sofre há décadas com essa bomba norte-americana chamada "bloqueo". Vejam as consequências para o povo venezuelano...)

Lembrem-se do dia 6 de agosto!

E tenhamos consciência do mal que as guerras e as bombas causam às pessoas.

William Mendes


sexta-feira, 5 de julho de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 5 de julho de 2024. Madrugada de sexta-feira.


REVOLUÇÃO RUSSA

Ver imagens recuperadas do início do século passado é um privilégio. Neste documentário "Grandes dias do século XX", vemos Lênin, Trótski e Stálin em meio aos trabalhadores russos.

No vídeo anterior, o cenário eram os campos de batalha da 1ª Guerra Mundial (comentário aqui). Neste episódio, a guerra também é comentada e tem papel relevante. 

Aliás, participar ou não da guerra entre as nações era uma questão que dividia o movimento da classe trabalhadora e suas lideranças comunistas, socialistas, anarquistas e socialdemocratas.

Sinopse:

No começo do século XX, a Rússia era um país de economia atrasada, dependente da agricultura. Os trabalhadores rurais viviam em extrema miséria e pobreza, e mesmo assim pagavam altos impostos para manter a monarquia absolutista do czar Nicolau II, que só conseguia se manter à base de muita violência. A formação de conselhos de trabalhadores, os sovietes, foi o sinal de que aquele sistema estava com os dias contados. A revolução foi uma questão de tempo. E a formação de uma república socialista, inevitável.

O documentário é dividido em capítulos: "Ensaio geral", "A Revolução", "Guerra civil" e "O comunismo se consolida".

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O SOCIALISMO REAL OBRIGOU O CAPITALISMO A CONCEDER DIREITOS À CLASSE TRABALHADORA

A sociedade humana do século XXI precisa urgentemente de um contraponto à hegemonia do capitalismo neoliberal que vigora em quase todo o planeta após a queda da União Soviética. 

É claro que a China é um contraponto de peso. E os BRICS estão aí para pressionar os EUA e seus quintais a se moverem até provocarem guerras por procuração. Mesmo sem ser exemplo em direitos sociais, chineses ameaçam o poder econômico do império, que vai cair atirando. 

E temos Cuba e seu povo encantador, que já aprendi a amar e respeitar e registro todo o meu apoio à Revolução Cubana, Fidel Castro e todas as lideranças do governo socialista, incluindo Díaz-Canel, atual presidente.

O feito extraordinário do povo russo, liderado pelos bolcheviques e pelo Exército Vermelho, permitiu aos milhões de proletários dos grandes países capitalistas do mundo posterior às grandes guerras e à depressão dos anos trinta, conquistarem direitos sociais, civis e políticos que ficaram conhecidos como estado de bem-estar social, nos conhecidos anos de ouro do capitalismo.

Os revolucionários russos transformaram um país continental com mais de cem milhões de habitantes, que viviam em condições materiais semelhantes à idade média, em uma potência econômica que conseguiu resistir à ameaça constante norte-americana durante décadas de guerra fria. Nunca na história humana, uma nação agrária deu um salto tecnológico tão rápido como a União Soviética.

Eu tenho a leitura política e histórica que se não fosse a necessidade de a URSS despender boa parte de seus recursos para a iminente guerra contra seus inimigos capitalistas, os líderes revolucionários e seu povo teriam encontrado soluções para seus problemas internos cotidianos. Boa parte dos problemas de necessidades materiais e de falta de liberdade também decorreram do permanente risco de dissolução das conquistas populares advindas da revolução proletária.

Enfim, é um longo debate. Eu tenho algumas impressões a partir de tudo que já estudei e das experiências que venho acumulando nas últimas décadas como apreciador de história da classe trabalhadora. E minha impressão sobre a experiência soviética ficou mais clara após minhas duas visitas a Cuba neste ano e no ano passado.

O documentário é uma delícia para quem gosta de história.

William


domingo, 31 de março de 2024

Leituras Capitais - Anistia de novo, não!



Refeição Cultural - CartaCapital nº 1303

Osasco, 31 de março de 2024. Domingo.


ANISTIA DE NOVO, NÃO

Depois de semanas sem conseguir ler uma revista inteira, li a edição 1303 de CartaCapital. Reportagens e artigos excelentes, como sempre!

A matéria de capa me faz ter a leitura pessoal que haverá o inverso do que se clama, ou seja, os golpistas maiores - os fdp de sempre - ficarão impunes, serão anistiados... 

Essa história de se escolher uns três ou quatro desgraçados para serem sacrificados para aliviarem a pressão pelas merdas já feitas da casa-grande e esquecer o que centenas de fdp fizeram e fazem e farão sempre em relação a novos golpes e novos processos de ferrarem com o país e o povo já deu pra minha paciência! Já deu!

Na minha opinião, a gente tinha que entender que o tempo de conciliação de classe acabou! Acabou! Agora a fase é outra no mundo, no capitalismo. A fase é do 1% nos eliminar! Caralho, vamos seguir permitindo isso sem reagir? Vamos seguir na base de nossos corpos versus as balas e bombas deles?

DIREITOS DEVEM SER DEFENDIDOS

O artigo do advogado e professor Pedro Serrano mexeu tanto comigo que me deu o mote para um longo artigo sobre a luta por direitos, que não são coisas naturais e sim criação humana e por isso precisam ser defendidos. Meu artigo é também um desabafo, mas paciência! (ler artigo aqui)

MORTE DOS CORAIS NOS OCEANOS

A matéria sobre a emergência climática e a consequente morte dos corais nos oceanos por causa do aquecimento de 1 a 2ºC das águas marinhas (já subiu 1,2ºC) é daquelas de fazer o comportamento humano ou desistir das lutas e ligar o foda-se ou ficar desesperado para fazer alguma coisa para interromper e reverter o processo.

LUTA PELA ÁGUA E COMIDA NO MUNDO

A matéria seguinte "Cuidado compartilhado" (p. 30/31) aborda o tema das reservas e ambientes no mundo que podem ser motivo de disputas violentas entre países e corporações ou podem ser motivo de se criarem e fortalecerem instituições multilaterais para um convívio pacífico entre os povos do mundo...

Pelo andar da carruagem, estamos ferrados... a realidade demonstra que a ONU e as instituições criadas para processos de convivência em paz após a 2ª GM perderam o poder de interceder e agora o que vigora é a força e as armas e a violência dos impérios...

ECONOMIA

As matérias da seção de economia estão excelentes.

O Brasil só não se ferrou mais ainda com os efeitos climáticos porque o governo Lula (PT) está reconstruindo os estoques reguladores de comida, o que ajuda no controle da inflação dos alimentos. Mas não tem muito efeito nos hortifrutis, que precisam ser descentralizados na produção por todo o país.

O artigo de Paulo Nogueira Batista Jr. - "O Brasil e o jardim Europa" - é daqueles que nos assustam porque ele que é alguém que está sempre ao lado do governo Lula se mostra inconformado com a sandice de se manter o desejo de concluir o acordo ruim UE-Mercosul, onde só quem ganha é a Europa com sua visão neoliberal e neocolonial de mundo. Eles são o jardim do mundo e o resto do mundo é a selva, segundo o negociador da União Europeia.

Por fim, excelente estudo - "Para o bolso dos patrões" (p. 38) - que mostra que o país e o povo só se ferraram com as desonerações para os 17 setores de empresários que ficam mais bilionários enquanto a previdência pública empobrece e os empregos diminuem nos setores beneficiados. Que merda!

NOSSO MUNDO

Seção que adoro! Nesta edição, enquanto eu lia sobre a vitória de Putin na Rússia, via pela imprensa o massacre que fizeram lá após a vitória do novo czar. O atentado terrorista deve ter dedo de muita gente da disputa global de hegemonia...

Duas matérias que abordam os EUA - sobre o TikTok e sobre as eleições - relembram o que a gente já sabe a respeito dos Estados Unidos... ai ai ai! Façam o que eu mando e não questionem o que eu faço...

PLURAL

As reportagens da seção de cultura me fizeram pegar Shakespeare pra ler. Estou terminando "Ricardo III" por causa da matéria "Rei morto, rei ressuscitado" à página 50.

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Enfim, é sempre bom ler a revista semanal liderada pelo Mino Carta. É um excelente resumo escolhido pela redação da revista.

William

(agora vamos para a Marcha do Silêncio me somar às pessoas que lutam pela justiça e pela memória brasileira para que a ditadura nunca mais volte e para reforçar nosso clamor contra anistia aos golpistas do passado e do presente)


Post Scriptum: comentários sobre leitura da revista CartaCapital (a nº 1293) podem ser lidos aqui.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Diário e reflexões - Cuba XI (09/02/23)



Refeição Cultural - Cuba (XI)

Osasco, 09 de fevereiro de 2023. Fim de noite de quinta-feira.


Mais um dia de minha vida vai terminando. À minha esquerda, uma bonita lua ilumina o céu. A natureza é bela aos olhos do animal humano que pensa a respeito da lua, do sol e a respeito de tudo que está ao nosso redor. Somos natureza. Na Turquia e Síria, a natureza tremeu e mudou tudo em instantes. São mais de 20 mil mortos após o terremoto. A natureza é incontrolável! Estados Unidos e Otan querem aniquilar um país que possui bombas atômicas, a Rússia, que defende seu direito de existir. Isso pode dar uma merda global. A lua, o terremoto, a estupidez humana: tudo isso é a natureza.

Defini que iria estudar um pouco sobre Cuba e os cubanos nos primeiros meses deste ano. A história desse povo caribenho é fantástica e motivadora para nós que há séculos somos explorados pelos impérios do Norte e ainda hoje somos hegemonizados pelas ideologias dominantes desses imperialistas que pouco se importam conosco, povos do Sul, e com a vida na Terra. Estou perseguindo esse objetivo que tracei e sei um grama a mais sobre Cuba em relação ao ontem. Sei até sobre o Granma (rsrs).

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"(...) Liev Davidovitch contemplou a paisagem norueguesa e, como escreveria pouco depois, enquanto se afastavam do fiorde, fez em silêncio o balanço do seu exílio, para se certificar de que as perdas e frustrações superavam largamente os duvidosos ganhos. Nove anos de marginalização e ataques tinham conseguido transformá-lo num pária, num novo judeu errante condenado ao escárnio e à espera de uma morte infame que lhe chegaria quando a humilhação tivesse esgotado sua utilidade e sua cota de sadismo..." (p. 220/221)


Li nos últimos dias mais três capítulos do livro do escritor cubano Leonardo Padura - O homem que amava os cachorros. Foram mais de 70 páginas e o conteúdo é muito denso. A história é sobre o assassinato de Trótski. 

Já li textos parecidos sobre a história da Revolução Russa e seus líderes. Ao longo da militância no movimento sindical tive contato com diversos pontos de vista e não me censuro em relação a texto algum contra ou a favor de um ou outro grupo da esquerda mundial. 

Desde que conheci o pessoal do movimento sindical, convivi com a questão dos grupos stalinistas e trotskistas (e muitos outros), e afirmo ainda hoje que essa divisão é uma coisa que me incomoda há tempos: acho uma estupidez os rachas no campo da classe trabalhadora. 

Os caras das forças de esquerda se mataram uns aos outros ao longo da história e a direita e os capitalistas nos dominam até hoje. Vejam o exemplo do que aconteceu na Guerra Civil Espanhola! Era uma tragédia anunciada!

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É isso!

O nosso presidente Lula desembarcou nos Estados Unidos hoje para se encontrar com o presidente norte-americano, Biden. 

Que a memória de lutadores históricos como José Martí, Fidel Castro, Ernesto Che Guevara, Hugo Chávez, Leonel Brizola, Luiz Gama e tantas lideranças de Nuestra América iluminem nosso querido presidente Lula para realizarmos reuniões ativas e altivas em defesa dos interesses de nossa Pátria Grande, como Lula fez nos seus dois primeiros mandatos.

O texto anterior com a temática cubana pode ser lido aqui.

William



Bibliografia:

PADURA, Leonardo. O homem que amava os cachorros. Tradução de Helena Pitta. 2ª ed. - São Paulo: Boitempo, 2015.

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Diário e reflexões - Janeiro (31/01/23)



Refeição Cultural - Janeiro de 2023

Osasco, 31 de janeiro de 2023. Terça-feira.


INTRODUÇÃO: UMA REFLEXÃO

Vale a pena o esforço pela produção de textos escritos? 

Escrever numa época dominada pela imagem, pelo vídeo e pelo áudio ainda tem algum sentido? Imagino que sim porque a linguagem escrita é uma invenção da espécie animal homo sapiens e os símbolos linguísticos não são inatos ao ser humano como é o caso da linguagem falada. Insistir no registro escrito é um esforço em preservar uma invenção humana que revolucionou a nossa caminhada pelo planeta Terra. 

A extinção da espécie humana é uma possibilidade real?

Tenho a impressão que os seres humanos estão numa encruzilhada da história, num momento de definição sobre a nossa extinção ou a nossa permanência na Terra enquanto espécie homo sapiens e subespécie homo sapiens sapiens (ainda somos sábios?). Não falo de uma extinção física por causa de guerras e catástrofes com grandes mortandades, falo de extinção da espécie humana como aquilo que nos define como animais homo sapiens (de novo, seguiremos sendo sábios?). 

Teríamos consciência e coragem para interromper processos tecnológicos que podem extinguir a própria espécie?

As crianças que estão nascendo nesta época, mais as que estão crescendo, mais os adultos que deveriam ser "sábios" são sábios? Deveríamos fazer um esforço coletivo da espécie homo sapiens para responder a essas questões e, se entendêssemos ser necessário, mudarmos a realidade que pode estar contribuindo para o nosso fim, a nossa extinção. Avalio que as tecnologias da informação e as redes sociais - concentradas em poucas mãos no planeta - estão contribuindo para a destruição da espécie humana de forma muito acelerada. 

Fica registrada a minha impressão sobre essas questões.

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JANEIRO

Avançamos mais um mês no calendário humano. Em tese, essa é uma boa notícia, haja vista que até as mortes causadas pela pandemia mundial de Covid-19 diminuíram após 3 anos do início dos contágios. Nos últimos 28 dias morreram no mundo 136.056 vítimas da doença (segunda a Johns Hopkins University). Todavia, a instabilidade para sobreviver na sociedade humana está num nível muito alto se olharmos o cenário global.

O MUNDO - Os Estados Unidos, os países obedientes a eles e a Otan querem aniquilar a Rússia enquanto uma das nações independentes do imperialismo decadente estadunidense. Os russos podem não querer serem aniquilados enquanto grupamento humano de tradição milenar. O Ocidente está usando a Ucrânia e seu povo, através do idiota que governa o país, como bucha de canhão para fazer a guerra contra a Rússia. Ninguém quer paz, a não ser o Lula, recém-eleito presidente do Brasil. A insistência na continuidade da guerra de eliminação da Rússia pode nos trazer como consequência uma guerra de grandes proporções globais. Que foda isso! (homo sapiens...)

O BRASIL - Completamos um mês de tentativa de reconstrução da civilidade no Brasil. De propósito, evitei acompanhar o dia a dia da política nacional (estou de "range rede" da política). Algumas coisas chamam a atenção por terem sido possíveis a partir da eleição de Lula e derrota do genocida miliciano e parte de sua gangue. 

LULA (A SENZALA) tomou posse do mandato presidencial em um dia histórico e cheio de simbologia. Brasília estava tomada pelo povo e a faixa presidencial foi entregue a Lula por pessoas constituintes do país que somos, dentre elas uma catadora de recicláveis, um indígena, um jovem negro e uma pessoa com deficiência. A diversidade brasileira estava representada na posse e a frente ampla está representada no ministério de Lula: tem até ministro que fez parte do golpe contra a presidenta Dilma, tem ministra com familiares envolvidos com milícia etc. O PT vai apoiar o criador do orçamento secreto no Congresso para eleição da presidência da Câmara. Conciliação de classes é assim... Nem só de contrariedades pela governabilidade e pelas indicações da frente ampla vivem os progressistas de esquerda: Lula nomeou ministros Silvio Almeida, Sonia Guajajara, Marina Silva, Anielle Frranco; nomeou Maria Rita Serrano na Caixa Federal e pela primeira vez na história do Banco do Brasil uma mulher é presidenta: Tarciana Medeiros. Simbologias, como eu disse.

A CASA-GRANDE brasileira, que é composta por tudo que há de pior no gênero humano, mostrou que está viva e que o governo de frente ampla de Lula será de disputa de rumos e de instabilidade permanente. As investigações até agora indicam que setores do partido militar, e com financiamento de endinheirados do agro pop, são os responsáveis pelo pior ato terrorista e de vandalismo que se tem notícia na história do país ocorrido no dia 8 de janeiro. Os caras invadiram e destruíram as 3 casas dos poderes da república. Também da casa-grande é o rombo bilionário das Lojas Americanas, que apresentaram "inconsistências" de uns 40 bilhões em benefício dos donos, que receberam os dividendos nos últimos anos e figuram entre os maiores bilionários do país. E aquele Banco Central autônomo que erra em bilhões também em favor de um determinado segmento social? (que merda!). Por fim, o genocídio dos povos indígenas, em especial a questão trágica dos Yanomamis em Roraima, é fruto do garimpo ilegal e de toda a cadeia de gente endinheirada que se dá bem com a destruição da floresta amazônica e das reservas indígenas. (homo sapiens...)

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MEU JANEIRO

Em respeito ao amor que tenho por pessoas próximas, me esforcei em fazer a minha parte para manter meu corpo animal funcionando minimamente. Sou natureza! Não como tudo que gostaria e poderia comer. Não consumo bebida alcoólica como poderia. Busquei a manutenção e bom funcionamento de meus sistemas endócrino e digestório, cardiorrespiratório, musculoesquelético e neurológico. Sou natureza.

Se não pratico alguma atividade física aeróbica e com impacto e que exija força e resistência, posso ter doenças sérias como osteoporose, perda de massa muscular, aumento descontrolado de pressão arterial e colesterol ruim e risco de diabetes, e disso tudo entupimento de veias e artérias, risco maior de infarto, AVC e outras merdas do tipo. Se pratico, tenho que administrar as dores que foram surgindo nos últimos anos, até por desgaste do próprio corpo, que é mais rodado do que a idade que tem, como carro de aplicativo e táxi. Sou natureza.

Corri 7 vezes no mês, uns 50 Km, andei e pedalei também. Fiz um pouco de musculação. Superei a preguiça toda vez que ela quis mandar em mim. Fiz o esforço de ler e escrever para exercitar meu cérebro (minha alma). 

Li dois livros - A estranha vontade de um morto (ler comentário aqui) e Torto arado (comentário aqui)- e um volume de mangá: Gen Pés Descalços - O trigo é pisoteado v. II (veja aqui a respeito). 

Vi alguns filmes. Sigo estudando lentamente idiomas que gosto. Decidi estudar um pouco sobre Cuba, sua história e seu povo. Estou lendo dois livros de autores cubanos. Um dos idiomas que estou revendo é o espanhol. 

Encontrei alguns amigos neste mês e a família passou uma semana na Colônia de Férias do Sinpro SP na Praia Grande. Felizmente, meus familiares adoecidos neste mês tiveram melhora no quadro clínico. Vencemos esse mês de janeiro.

Sigo buscando sentidos e tentando dar um significado à minha existência pessoal e como ser social.

William


sábado, 22 de outubro de 2022

Leitura: Perestroika - Mikhail Gorbachev



Refeição Cultural

Gorbachev escreveu este livro em 1987. Ele faleceu no último dia 30 de agosto, aos 91 anos de idade. A opinião pública a respeito dele varia absurdamente, tanto à esquerda quanto à direita do espectro político mundial. O líder soviético foi agraciado com o Nobel da Paz em 1990. Elogiado pelos donos do poder capitalista, Gorbachev é chamado por setores da esquerda como o "coveiro do socialismo".

Eu tinha esse livro em casa fazia muito tempo. Já tinha lido um terço da obra. No dia de sua morte, peguei o livro na estante e comecei a ler de novo. Agora li até o fim as 300 páginas. Uma das impressões que tive ao ler pensando o contexto de 1987 foi uma impressão ruim, ele não deveria ter exposto tanto seu país publicamente como o fez.

1987

O ano de 1987 foi um ano de mudanças em minha vida, de rupturas. No início daquele ano me mudei para São Paulo, saindo da casa de meus pais em Minas Gerais. Fui morar numa espécie de república, na casa de minha avó paterna e de uns primos que moravam com ela. Iria fazer 18 anos de idade. 

Eu não era politizado. Me lembro do zum zum zum sobre a Guerra Fria, União Soviética, Gorbachev etc. Eu era facilmente manipulado pelo meios de comunicação dos empresários brasileiros (casa-grande). Fui manipulado por eles, lógico! Eu e 99% do povo brasileiro. Sempre! Os veículos de comunicação na eterna colônia Brasil são papagaios de repetição do que o império do norte pensa.

2022

Ao ler agora "Perestroika", a primeira parte do livro, me lembrei o tempo todo de minhas duas décadas de participação no movimento sindical brasileiro, lembranças boas e ruins, porque a vida real na política é bem diferente daquilo que se apresenta no teatro da vida social. 

Ao ler tudo o que Gorbachev escreveu e publicou em meados dos anos oitenta fiquei perplexo com a exposição desnecessária de problemas internos do socialismo como se naquele momento não houvesse uma guerra de vida ou morte, de existência, entre o capitalismo e o socialismo, entre a URSS e o império norte-americano e seu braço armado na Europa, Otan. Fala sério, gente!

A atual guerra entre os EUA e a Rússia, usando a Ucrânia e seu povo como bucha de canhão, tem tudo a ver com a dissolução da URSS e as consequências de se confiar na boa vontade do inimigo, o Tio Sam. 

Foi só acabar a URSS que os caras do Ocidente começaram a putaria de cooptar todos os antigos países do Pacto de Varsóvia para entrarem na Otan, trazendo com isso riscos reais ao país russo, na maior cara de pau. 

Enfim, achei a primeira parte até meio inocente, coisa que ninguém envolvido numa disputa de hegemonia de poder faria.

A segunda parte, "As novas ideias e o mundo", tem uma pegada mais pacifista e envelheceu melhor do que a exposição das entranhas do socialismo na União Soviética.

Uma coisa que me chamou a atenção em Gorbachev é o relato dele de estar sempre nas bases de seu país gigante conversando com o povo, com os trabalhadores. Também o desejo dele de mais liberdade e democracia para o povo. Ele fala isso o tempo todo no livro.

DESARMAMENTO E RISCO DE GUERRA NUCLEAR

Gorbachev tinha uma intenção sincera de buscar acordos para diminuir o risco de guerra e destruição nuclear da humanidade. A 2ª metade do livro conta essa história. Os Estados Unidos não toparam nada e toda hora faziam uma sacanagem para melar as negociações de desarmamento.

A esquerda trás consigo uma certa ética e valores que permitem a ela pensar o futuro do planeta e as próximas gerações em relação à preservação do meio ambiente e das condições de vida dos povos. Percebi essa preocupação ao longo de toda a argumentação do líder soviético.

Essa ética dos valores humanistas e ambientais é impensável na direita ou no capitalismo - nem cabe o "ou" no conceito -, isso é impensável no capitalismo de direita e extrema-direita (e não haveria capitalismo sem colonialismo, racismo, misoginia, preconceitos e demais valores e ferramentas do fascismo).

Enfim, foi interessante ler o que disse ao mundo Mikhail Gorbachev no final dos anos oitenta. Tudo mudaria para sempre logo depois. A queda do Muro de Berlim, o fim da União Soviética, a ideia de Fukuyama do "fim da história" e a vitória definitiva do capitalismo neoliberal etc.

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ELEIÇÕES NO BRASIL

Tensão total, ansiedade, alternância de momentos de alívio e de apreensão. Um cansaço acumulado por anos de torturas diárias praticadas com sadismo pelo fascista e genocida no poder do Estado.

No próximo domingo 30 de outubro a vida de todos nós brasileiros vai mudar. É verdade que a mudança é a única certeza na vida humana e no mundo material. Porém, em alguns momentos da história, as mudanças se dão de forma a definir marcos temporais, tudo muda depois de tal evento... Dia 30 é um dia desses em nossas vidas.

Eleger Lula e a frente ampla no cenário colocado - uma sociedade fascistizada pelos donos dos meios de comunicação (a culpa é deles!) - é termos uma chance de recuperar um pouco de civilidade no país, é uma chance à metade progressista da sociedade, se não progressista pelo menos não reacionária e canalha. 

Se o miliciano representante do mal conseguir continuar no poder com as fraudes nunca vistas na história de uma eleição, será um novo nazifascismo vitimando não só os brasileiros, mas quiçá o mundo.

Quem diria que o jovem que saiu de Uberlândia em 1987 e que não tinha compreensão do que estava acontecendo na política mundial estaria aqui no Brasil em 2022 participando de um dos momentos que marcarão uma mudança na história do nosso país e continente sul-americano... Se não percebia a história mudando em 1987, hoje tenho a consciência clara do que está em jogo dia 30.

Torço pelo bem, torço pela eleição de Lula. Nossos biomas, nossos povos sofridos, nossa história, merecem uma chance de ser feliz. Mas sei que não existe juízo de valor na história real. Se perdermos, os vencedores aprofundarão toda a destruição e assim será.

Já ia terminando e quis registrar a minha perplexidade no empate técnico das pesquisas eleitorais entre Lula e o monstro. Por mais que saibamos das fraudes, das mentiras, do uso de bilhões do orçamento secreto e da máquina do Estado comprando votos, a gente nunca quer acreditar que o síndico e o zelador do prédio, que o primo, que nossos conhecidos estão com o inominável... Como perdoar essa gente? Eles aderiram ao nazismo!

William


domingo, 18 de setembro de 2022

A versão de Gorbachev sobre a Perestroika



Refeição Cultural

Assim que soube da morte de Gorbachev, dia 30 de agosto de 2022, acabei tendo a curiosidade de pegar seu livro Perestroika - Novas ideias para o meu país e o mundo, de 1987, e dar uma folheada, reler a parte que havia lido cinco anos antes (umas cem páginas). Cheguei à metade do livro do ex-líder soviético até agora. 

Meu sentimento até aqui é meio que de lamento por não ter sido possível que as coisas dessem certo como nos anunciava Gorbachev em meados dos anos oitenta. Foi uma pena! O mundo perdeu muito com o fim da bipolaridade mundial em relação a sistemas econômicos e políticos e formas de organizações de comunidades humanas e com o predomínio totalitário do capitalismo e neoliberalismo, representados pelos Estados Unidos ditando as regras para os duzentos países do mundo. Só perdemos com isso. 

Ainda bem que surge um mundo multipolar novamente, ainda bem. Eu não tenho preferência nem por norte-americanos, nem por russos, nem por chineses, eles que sejam felizes ou infelizes ao modo deles. Para nós dos duzentos países periféricos a eles, um mundo multipolar é bem melhor do que um mundo com um ditador só (que dita o que todos devem acatar).

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Li até agora a primeira parte do livro chamada "Perestroika". O capítulo um fala sobre "Perestroika, Origens, Conteúdo, Caráter Revolucionário". No capítulo dois, li subseções abordando a Perestroika em marcha: 1. A sociedade é colocada em movimento; 2. A nova política econômica e social em ação; 3. Caminhando pela estrada da democratização; 4. O ocidente e a reestruturação.

Como costumo fazer, rabisquei o livro todo com comentários e sublinhados de partes que chamam a atenção. Uma das ideias que mais me deixou chocado foi a defesa que Gorbachev faz de uma mudança de conceito sobre o socialismo. 

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"Queremos ser perfeitamente claros nesse ponto: o socialismo não tem nada a ver com uniformização. Ele não pode garantir condição de vida e consumo segundo o princípio 'de cada um de acordo com sua capacidade, para cada um de acordo com suas necessidades'. Isso acontecerá sob o comunismo. O socialismo tem um critério diferente relativo à distribuição de benefícios sociais: de cada um de acordo com sua habilidade, para cada um de acordo com seu trabalho. Não há exploração do homem pelo homem, nenhuma divisão entre ricos e pobres, entre milionários e mendigos; todas as nações são iguais entre os iguais; são garantidos empregos a todas as pessoas; temos educação secundária e superior gratuita, além de serviços médicos gratuitos; os cidadãos são bem amparados na velhice. Essa é a configuração da justiça social no governo socialista." (p. 114)

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Por mais que compreenda o que ele estava dizendo sobre a situação na qual o socialismo soviético se encontrava naquele momento - estagnação econômica e social, mesmice e acomodação de líderes e de parte das pessoas, corrupção interna na burocracia estatal etc -, achei que a ideia é bem perigosa, ela me pareceu muito próxima à concepção neoliberal do self-made man e base da ideologia do capitalismo. 

Hoje chamamos a coisa de meritocracia... uma mentira para encobrir o que é a exploração capitalista e a perpetuação do status quo nas sociedades injustas: quem se deu bem é porque teve mérito próprio, quem não se deu bem é porque não se "esforçou" como os 90% que não venceram na vida... em geral negros, de origens fora das elites etc.

Enfim, como sei que não sei quase nada, vamos lendo e estudando, ouvindo as ideias e opiniões tanto de pessoas que tiveram papeis relevantes na história humana quanto de pessoas comuns e de fora dos cânones e das bolhas de unanimidades artificiais, independente de qual linha política sejam elas. 

Eu defino o que acho que vale ou não vale a pena ler e estudar. Parte das leituras é roteiro próprio, parte é roteiro sugerido.

William


Bibliografia:

GORVACHEV, Mikhail. Perestroika - Novas ideias para o meu país e o mundo (1987). Círculo do Livro. Editora Nova Cultural Ltda.


terça-feira, 13 de setembro de 2022

Lendo sobre Gorbachev e a Perestroika



Refeição Cultural

O último líder da União Soviética, Mikhail Gorbachev, morreu no dia 30 de agosto de 2022. Eu pouco sei sobre ele pra ser sincero. Sei os lugares-comuns e as leituras mais gerais que fazem sobre ele.

Para líderes dos países centrais do capitalismo e do Ocidente, Gorbachev é um grande líder do século 20 e um dos responsáveis pelo fim da guerra fria e o risco de uma guerra nuclear. Sua relação próxima com os presidentes norte-americanos, Reagan entre eles, ficou marcada na história.

Para algumas lideranças comunistas e do campo da esquerda, Gorbachev é responsabilizado por ser o coveiro do socialismo real, o cara que acabou com a URSS, um traidor das causas do socialismo e comunismo. Essa análise foi a que vi de alguns intelectuais de esquerda que gosto e ouço.

A história da União Soviética e a guerra fria nos anos oitenta, a queda do Muro de Berlim, e as grandes mobilizações populares no Brasil naquela década, tudo isso, acabei estudando um pouco mais a respeito muito depois dos fatos ocorridos porque naquele período eu era um adolescente trabalhador braçal revoltado com o mundo e sem formação política.

Até hoje estudo o passado que já me envolveu como alguém que vivenciava a história e não pertencia ou atuava em movimentos sociais. O caso da União Soviética e de Gorbachev não é diferente disso. Vi o fato pela televisão como um ouvinte e não me envolvi nas discussões a respeito da mudança histórica que estava acontecendo ali.

Eu tinha o livro de Gorbachev em casa há muito tempo, o livro é de 1987. Em 2017, ou seja, 30 anos após seu lançamento, resolvi ler o que Gorbachev dizia a respeito da Perestroika e da Glasnost. Li pouco mais de cem páginas à época. 

Minhas interações com o livro - os sublinhados e os comentários ao longo da centena de páginas lidas - são mais para positivas que negativas. Eu era dirigente nacional de uma autogestão em saúde e atuava com muito esforço em dialogar com a base social que representava como eleito e me esforçava para ser transparente no que pensava e fazia. O que Gorbachev defende na Perestroika e na Glasnost é um pouco disso de participação social, democracia etc.

Após a morte de Gorbachev no dia 30 de agosto, peguei o livro para dar uma olhada e acabei relendo nesses dias a centena de páginas que havia lido 5 anos atrás. Foi uma leitura interessante. Aliás, ler é sempre uma atividade interessante. Sugeriria leituras e estudos a qualquer pessoa caso eu fosse um "influenciador digital" como os que têm por aí com milhões de seguidores. Não sou e não influencio nem os de casa...

Tanto na época como agora na releitura, percebo que o líder soviético tinha uma sinceridade ao dizer que gostaria de preservar o Estado soviético e seguir com o socialismo implantado por lá há 70 anos (Revolução de 1917). Me pareceu sincero em sua busca por democracia e participação social nos destinos do país. É o que percebi até ali nas cem páginas que li.

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"É o opressor quem define a natureza da luta" (Mandela)

INOCÊNCIA... é a palavra-conceito que usaria se eu tivesse que resumir o que penso a respeito do esforço de Gorbachev e sua Perestroika e, inclusive, é o que diria de Lula e sua forma de fazer política com amor pra todo mundo e esperança na conciliação de classes... inocência! Não rola isso no mundo! Com o fascismo, com o capitalismo, com a extrema-direita não é possível lidar com o democratismo que esses líderes defendem... não rola! Como disse Mandela em sua autobiografia: é o inimigo quem escolhe as armas...

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Interessante que minha formação política orgânica, após virar dirigente sindical eleito pela classe trabalhadora - a categoria bancária -, é uma formação baseada nos princípios, concepções e práticas sindicais da Central Única dos Trabalhadores (CUT), e também, de forma colateral e não principal, baseada nas práticas e concepções do Partido dos Trabalhadores (PT) e suas lideranças históricas como, por exemplo, nosso querido presidente Lula.

Em tese, pelo que percebi até agora nas ideias de Gorbachev e da Perestroika e Glasnost, o que ele queria para seu povo e os Estados soviéticos era aquilo que li e vi o PT e a CUT defender ao longo de duas décadas de estudos, leituras e convivência como dirigente orgânico do movimento de luta: participação social das bases, democracia, liberdade, transparência e pertencimento ao que se buscava construir: uma sociedade socialista.

Enfim, é o que penso até agora sobre essas questões que discorri acima.

William