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domingo, 15 de março de 2026

Livro: Infância - Graciliano Ramos



Refeição Cultural 

LITERATURA BRASILEIRA 


"Junto de mim, um homem furioso, segurando-me um braço, açoitando-me. Talvez as vergastadas não fossem muito fortes: comparadas ao que senti depois, quando me ensinaram a carta de A B C, valiam pouco. Certamente o meu choro, os saltos, as tentativas para rodopiar na sala como carrapeta, eram menos um sinal de dor que a explosão do medo reprimido. Estivera sem bulir, quase sem respirar. Agora esvaziava os pulmões, movia-me, num desespero." (G. RAMOS, "Um cinturão", p. 32)


Graciliano Ramos tinha 53 anos de idade quando publicou o livro Infância, em 1945. É um livro duro, sem meias palavras. A infância do personagem foi muito dura, de violência gratuita no cotidiano. A criança do romance é ele mesmo, o garoto que nasceu em 1892 no agreste de Alagoas.

São 39 capítulos de memórias do personagem adulto que conta sua infância no interior do Nordeste nos últimos anos do século XIX e início do século XX. 

O adulto narrador do romance é um escritor maduro e com uma obra de referência na literatura brasileira: Graciliano Ramos. Porém, as memórias do escritor, na forma de romance, são as memórias de todos nós, são universais.

A crítica literária tem longa história de estudos sobre discursos narrativos que mesclam realidade e ficção em obras literárias. Toda memória tem um quê de ficção porque preenchemos lacunas e damos sentidos a ela.

A técnica literária e a capacidade ímpar de Graciliano Ramos em mergulhar leitores em suas memórias da infância nos faz ver em cada capítulo - que para mim são contos - as nossas histórias pessoais e cotidianas da infância e adolescência.

Fui escrevendo minhas impressões enquanto ainda lia o romance, antes de finalizar os 39 capítulos. Não queria que a leitura acabasse... As histórias do livro são como as passagens da bíblia para as pessoas religiosas. O ideal seria ter a obra à cabeceira da cama. Cada parágrafo é uma lição, uma reflexão, um prazer ao ler texto bem escrito.

Certa vez, enquanto era aluno de Letras, fiz um poema abordando três autores que me influenciavam naquele momento (com uns trinta anos de idade): Caeiro, Drummond e Graciliano Ramos (ler aqui). Dizia que, ao final de meu desenvolvimento com a escrita, queria chegar à técnica literária de Ramos. O que desejava ser como escritor é o que leio em Infância. Demais!

As histórias da leitura e dos leitores, como nos contou magnificamente Alberto Manguel (um exemplo aqui) são únicas ao longo dos tempos. O personagem de Infância nos conta que até os nove anos de idade, seguia sem conseguir ler e entender o sentido dos textos. Sendo a história do escritor, vemos que aquela criança se tornou um dos melhores escritores do país.

Após ler mais algumas histórias - a do capítulo "Fernando" é fascinante -, avancei para as últimas cinco do livro. Repito: o romance-bíblia deveria ficar na cabeceira da cama para sempre. Queria escrever assim!

(E pensar que quis ser literato e professor, até entrei em uma faculdade de Letras e as veredas da vida me levaram a ser sindicalista...)

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"Às vezes o homem se excedia: amarrava os braços do garoto com uma corda, espancava-o rijo, abria a porta, e a desesperada humilhação exibia-se aos transeuntes, fungava, tentava enxugar as lágrimas e assoar-se. O choro juntava-se ao catarro, pingava no paletó e na camisa - e o pano molhado tinha um cheiro nauseabundo, mistura de formiga e mofo." ("A criança infeliz", p. 237)

Esse era o método de ensino no país no início do século XX...

Amigos leitores, cada conto (capítulo) é uma história comum a inumeráveis crianças do Brasil e do mundo, do passado e do presente...

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COMENTÁRIO FINAL

A leitura do livro Infância (1945) foi marcante para mim, foi uma leitura de reencontro com Graciliano Ramos. Uma leitura de descoberta e de compreensão a respeito do escritor que sempre admirei e do qual eu não conhecia seu passado, seu ambiente de aculturamento e formação.

O posfácio "Graciliano Ramos e o Sentido do Humano", de Octavio de Faria, que faz parte da minha edição do livro, ampliou ainda mais a minha compreensão a respeito da poética do escritor.

Um dos livros impactantes em minha vida, que me levou inclusive a escrever uma crônica relativa à minha infância e adolescência, é justamente Angústia (1936), considerado por Octavio de Faria, a obra principal de Graciliano Ramos. 

Ao ler o livro no início dos anos dois mil e após entrar na faculdade de Letras, me lembrei de meus dias de ajudante de encanador ao ler as reflexões do personagem Luís da Silva (ler aqui).

Eu já havia tido o privilégio de ler Caetés (1933), São Bernardo (1934) e Vidas secas (1938), além de Angustia. Cheguei a escrever em um poema que meu sonho era alcançar o estilo Graciliano Ramos de escrever após uma suposta evolução na produção literária. Utopia! G. Ramos é único!

Ao ler Infância, neste momento de meu viver, compreendi a obra toda de Graciliano Ramos. Agora vejo claramente Fabiano e toda a dureza do enredo de Vidas Secas. Como não entender Paulo Honório, de São Bernardo?

Ao terminar a leitura demorada de Infância, porque lia um capítulo ou conto e parava, concluí que a minha natureza psicológica é mais Graciliano Ramos que qualquer outro autor pelo qual nutro admiração. 

Machado de Assis, Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade são deuses para mim, assim como Graciliano Ramos. Mas quando olho para a minha vida, o meu percurso da infância até aqui, sou Graciliano. E minha infância até os dez anos foi o inverso da dele, mas a adolescência minha... foi a infância dele: miséria e violências sociais.

Não tenho outra opção em minha vida torta de leitor repleto de lacunas culturais a não ser ler Memórias do Cárcere (1953), do autor espelho de minha psicologia, daquilo que se costuma chamar alma. 

Espero que dê certo completar o percurso dos romances do mestre Graciliano Ramos. Ele teria muito que escrever para nós, quando faleceu no auge de sua produção, como aconteceu a Guimarães Rosa.

Viva a literatura!

William

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 31 de outubro de 2025. Sexta-feira.


OUTUBRO

Um mundo bárbaro! Um mundo em colapso. É o sentimento que sintetiza a realidade que vejo. E com isso não quero dizer que devemos desistir de viver, sequer de lutar para mudar o mundo. Por isso mesmo é que devemos viver e atuar para mudar a realidade, porque viver é bom e a vida vale a pena.

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"O horror, o horror!"

Rio de Janeiro - Toda pessoa humanista ou ao menos com caráter que exista no Brasil deve estar se sentindo triste e compadecida com as famílias das vítimas da chacina policial promovida pelo governador do RJ nesta semana ao realizar uma operação nos complexos da Penha e do Alemão, que resultou no assassinato de mais de uma centena de pessoas (121 vítimas até o momento). Ainda há pessoas desaparecidas.

O horror, o horror!, como disse o personagem Coronel Kurtz no livro "Coração das trevas", de Joseph Conrad.

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Memórias

Meus registros dos fatos e acontecimentos, assim como dos sentimentos sobre as coisas do mundo, vão ganhando importância para mim à medida que o tempo passa e nossas mentes vão se transformando em outra coisa, diferente das mentes que tivemos ao longo de séculos, até milênios. As big techs estão modificando de forma proposital a mente humana e estamos perdendo as qualidades animais que nos fizeram sermos seres humanos inteligentes.

O ser humano está colapsando assim como o planeta Terra está à beira de um colapso por causa dos animais humanos vivendo sob a hegemonia do modo de produção social capitalista, modo focado no lucro e na acumulação de uns poucos em prejuízo do restante das pessoas e formas de vida no ambiente terrestre.

Desde que surgiram as tecnologias de comunicação atuais, a internet e as redes sociais, a lógica de capturar a atenção dos usuários - a economia da atenção -, a utilização de aparelhos eletrônicos com algoritmos e IA que fazem com que as pessoas percam a capacidade de concentração, reflexão, memorização e criação de soluções para a vida cotidiana, há uma preocupação crescente de estudiosos em relação ao risco de o homo sapiens deixar de ser a espécie animal que criou o mundo como nós o conhecemos, para citar uma expressão do neurocientista Miguel Nicolelis, quando fala do cérebro humano, "O verdadeiro criador de tudo".

Por isso acho que as memórias são importantes, o passado coletivo é fundamental para entendermos o presente e definirmos o futuro, e fui convencido que a vida vale a pena através de um processo dialético do viver.

Cadernos dos blogs: estou num longo processo de sistematização de toda a minha produção textual de duas décadas. Dei uma cansada. Mas preciso seguir até terminar o trabalho. Sinto que só vou me sentir livre para iniciar um projeto qualquer após terminar isso.

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Curso de extensão

Terminei o curso de extensão "Como impedir o fim do mundo - Colapso ambiental e alternativas", com 50 horas de duração e ministrado por professoras e professores excepcionais. O curso foi realizado pela Unesp e IDEC, e organizado através da Coordenadoria de Desenvolvimento Profissional e Práticas Pedagógicas da Unesp (CDeP3).

Tivemos entre julho e outubro 12 aulas com uma equipe de docentes marxistas com temáticas que nos fizeram refletir muito sobre a atual crise estrutural do capitalismo e alternativas para uma nova sociedade global. Relembrei minhas noções de economia e outras áreas do saber humano.

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O alimento cultural

Durante o mês, procurei me alimentar culturalmente com novos conhecimentos nas mais diversas áreas do saber.

Reli e resenhei no blog as entrevistas do livro "Leituras da crise" (2006) com Marilena Chaui (aqui), Leonardo Boff (aqui), João Pedro Stedile (aqui) e Wanderley Guilherme dos Santos (aqui). O livro foi central em minha formação política logo no início de minha jornada como dirigente sindical da categoria bancária.

Ganhei de presente do companheiro Luizinho Azevedo seu livro "Desafios do Sindicalismo no Brasil Contemporâneo" (comentário aqui). Gostei da abordagem do tema. Luizinho foi dirigente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região nos anos oitenta e pertencemos ao mesmo grupo político, o Coletivo BB, da Articulação Sindical da CUT. Fui dirigente do Sindicato entre 2002-2014.

Conheci Isaac Asimov, finalmente. Já li quatro contos dele: "Um dia", "Amor verdadeiro", "Estranho no Paraíso" e "O melhor amigo de um garoto". Os textos compõem o livro "Os melhores contos de Isaac Asimov". Estou gostando dos contos do autor.

Estou lendo lentamente o livro "Infância" (1945), de Graciliano Ramos. Cada capítulo é uma espécie de pequeno conto que aborda um evento ou temática da vida do garoto, personagem da história. Ler Graciliano é um privilégio, o escritor é incrível!

Vi dois filmes antigos muito bons e que me deixaram reflexivo: "O Show de Truman: O Show da Vida" (1998), dirigido por Peter Weir e escrito por Andrew Niccol e "O patriota" (2000), dirigido por Roland Emmerich e escrito por Robert Rodat. 

O filme com Jim Carrey antecipou em décadas o fenômeno dos Reality Show e a forma extremada de propagandas e vendas através de uma transmissão pela televisão. As pessoas são coisas, tudo está em função do like e do lucro... incrível como a história é semelhante ao mundo fake no qual vivemos em 2025. 

O filme estrelado por Mel Gibson é interessante porque aborda uma questão histórica, o processo de independência da ex-colônia inglesa. Óbvio que a narrativa tem toda aquela presepada patriótica enfiada goela abaixo dos povos do mundo pela indústria cinematográfica de Hollywood, mas sabendo filtrar essa questão, é possível assistir às quase 3 horas de filme com olhar crítico. Foi o que fiz ao rever a película.

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Livro de memórias sindicais

Durante o período de isolamento da pandemia mundial de Covid-19 e sobrevivendo no Brasil de Jair Bolsonaro, escrevi memórias sindicais em meu blog A Categoria Bancária. Ao longo de quase dois anos fui escrevendo reminiscências dos tempos de trabalhador da categoria bancária que depois virou representante dos colegas em diversos mandatos sindicais.

Os 39 textos de memórias foram importantes para o autor porque o ajudou a atravessar aquela longa noite de terror que o povo brasileiro viveu durante os anos de governo de destruição, o governo do clã bolsonarista e seus asseclas. Cada texto é independente e completo, trata de alguma questão específica. Em essência, os textos lembram ao autor e às pessoas que leram e que venham a ler as concepções e práticas políticas de sindicatos cutistas. O trabalho de base é central nessa experiência.

Após a exposição dos textos no blog, e as postagens tiveram um acesso surpreendente, surgiu a ideia de editar as memórias em livro, e então fiz uma edição impressa para presentear pessoas que fizeram parte de minha formação política ou que estejam atuando na luta incessante da classe trabalhadora explorada pelos donos do poder, os capitalistas.

O mês de outubro foi diferente em relação ao meu cotidiano. Além das participações em eventos políticos que já realizo normalmente, encontrei algumas pessoas queridas para um café ou almoço para presentear o livro de minhas memórias.

A ansiedade de entregar a alguém um livro que você escreveu é algo que jamais pensei sentir. É estranho, confesso! Fiquei relutante desde o início se deveria fazer um livro de minhas memórias. 

Eu adquiri o hábito de fazer textos dizendo o que sinto, penso ou compartilhando algo que aprendi em meus blogs, mas parei de mandar os textos para pessoas e grupos. É uma forma de ficar na minha, e de respeitar o tempo das pessoas. Se alguém quiser saber o que escrevi é só acessar os textos na internet.

Fazer um livro é voltar ao modo antigo, de quando eu tinha a prática de me manifestar porque entendia ser necessário quando representava pessoas e grupos. Ainda me sinto pouco à vontade com relação ao livro, que por sinal ficou muito bonito e bem editado por Cleusa Slaviero e sua Editora ComPactos.

Tive um contratempo com a gráfica, que fez 20% das unidades com erro de impressão nas primeiras páginas, um transtorno indescritível e irreparável, pois posso ter presenteado alguém com uma edição com erro de impressão... foda isso! Os serviços estão muito ruins atualmente. Não culpo a editora, culpo a gráfica, que deveria ter algum controle de qualidade no que faz.

Enfim, minhas memórias estão ganhando o mundo, viajando no espaço e no tempo, sendo preservadas por aí algum tempo a mais que no mundo virtual, da internet e das nuvens.

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Meu corpo segue integrado à natureza 

Finalizo essas reflexões e registros a respeito de meu mês de outubro. 

Anoto para eu mesmo ler no futuro, ou alguma pessoa de minha relação, que minha saúde não está lá essas coisas. Sigo disciplinado nas atividades físicas, mas meu corpo cansou da jornada extenuante que percorreu. Percebo isso. Sou natureza.

William

(21h31)

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Instantes (16h22)



Refeição Cultural

"Tipo mofino era o velho Quinca Epifânio, ossudo, inquieto, cara de fome, sovina até nas palavras. Guardava a despensa na loja: barricas bem cobertas, defendidas contra os ratos. De manhã um moleque se chegava ao balcão, a cesta pendurada no braço. O avarento destapava os esconderijos, pesava e media longamente a ração miserável: duzentos gramas de charque, dois dedos de toicinho, um pires de feijão. Privava-se disso e despedia o portador, gaguejando." (G. RAMOS. Infância, 1995, p. 49)


A cena me lembrou a infância, mesmo tendo sido criança nos anos setenta e oitenta, quase um século depois da infância do personagem, Graciliano Ramos, na virada do século XIX para o XX.

Antes dos dez anos, vivi numa cidade grande, São Paulo, e a padaria Cinco Quinas, no Rio Pequeno, nos anos setenta, era mais moderna que a mercearia do cenário. 

Ao chegar ao bairro Marta Helena, em Uberlândia, nos anos oitenta, me vi no cenário da infância de Graciliano Ramos: no balcão do Seu Walter ou Seu Pedro, se comprava tudo a granel, pesado na hora; o moleque ia com a listinha da mãe ou da avó e voltava com as compras na cesta.

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"O tilintar de xícaras em pires e o baque suave de pratos com lanches parecem soltar mais os corações e abrir melhor os ouvidos da alma. Ou, ao menos, o fazem em simplicidade e velocidade maiores do que todos os esboços de conselhos que o proprietário da panificadora já experimentara fazer." (S. SEDREZ. Sussurros metropolitanos, 2024, p. 18)


Fechando o primeiro quarto do século XXI, estive dias atrás numa padaria semelhante à descrita por Sandro Sedrez, soltando o coração e abrindo os ouvidos da alma, ao tomar um café com um grande amigo.

A literatura tem dessas belezas: das palavras às imagens, das imagens às memórias, e daí aos sentimentos. A vida!

Sigamos lendo para nos mantermos humanos. 

William 

27/10/25

domingo, 19 de outubro de 2025

Instantes (15h36)



Refeição Cultural

LEITURAS


A leitura é um ato humano transformador. É uma das formas de transmissão de conhecimento e de educação. Todas as pessoas no mundo deveriam ter acesso a alfabetização e às diversas opções de meios de leitura. Tive o privilégio de ser um leitor desde muito pequeno. Porém, sei que não li quase nada ainda...

Quando garoto, lendo gibis, aprendi sobre as moscas tsé-tsé que causam a doença do sono. Há 50 anos, começava a ler e aprender...

Mais recentemente, ao ler o livro O verdadeiro criador de tudo, do neurocientista Miguel Nicolelis, compreendi melhor a vida e me livrei de vários questionamentos que fiz por décadas. 

Hoje, sei que muitas coisas são como são. Mas sei que somos sujeitos históricos e podemos mudar o mundo e criar novos mundos.

Leituras... aprendizados...

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ISAAC ASIMOV

"(...) O Sr. Daugherty diz que naqueles dias todos aprendiam a fazer os rabiscos quando eram crianças e como decifrar aquilo, também. Fazer rabiscos era chamado 'escrever' e decodificar os rabiscos 'ler'. Ele diz que havia uma espécie diferente de rabisco para cada palavra e eles costumavam escrever livros inteiros em rabiscos..." (ASIMOV, Isaac. "Um dia" in: Os melhores contos, 2018)


De minhas imensas lacunas culturais, infindáveis, Isaac Asimov era uma delas. Havia chegado a mais de meio século de existência sem ter lido um texto sequer do cientista e escritor.

Neste fim de semana li dois contos de Asimov. Ontem li "Um dia" e hoje "Amor verdadeiro". As estórias são incríveis! Gostei muito!

Seus contos nos apresentam personagens e cenários futurísticos meio impensáveis na vida cotidiana de meados do século passado. Uma máquina eletrônica que cria estórias para contar às crianças ou um computador pessoal inteligente que dialoga com o dono e busca para ele no mundo todo uma namorada ideal.

Perceberam o quanto ele antecipou o que qualquer pessoa tem hoje com essas geringonças de IA?

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GRACILIANO RAMOS

"Ninguém veio, meu pai me descobriu acocorado e sem fôlego, colado ao muro, e arrancou-me dali violentamente, reclamando um cinturão. Onde estava o cinturão? Eu não sabia, mas era difícil explicar-me: atrapalhava-me, gaguejava, embrutecido, sem atinar com o motivo da raiva. Os modos brutais, coléricos, atavam-me; os sons duros morriam, desprovidos de significação." (RAMOS, Graciliano. "Um cinturão" in: Infância, 1995)


Graciliano Ramos é um dos mestres da literatura brasileira para mim, junto com Machado de Assis e João Guimarães Rosa. 

Minha edição do livro Infância (1945) me acompanha há décadas (ela é de 1995), já se mudou comido diversas vezes, e repousa na estante atual de casa.

Li nestes dias os primeiros textos do livro, podemos dizer capítulos, mas são textos independentes, poderíamos chamá-los também de contos porque têm início, meio e fim. Cada texto é uma viagem ao passado de todos nós que fomos crianças no Brasil do século passado.

Os textos são de uma riqueza impressionante! Leio um deles e paro. Aquelas cenas ficam comigo até a próxima leitura.

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MEMÓRIAS DE TODOS NÓS

As leituras devem ser feitas, temos que seguir lendo. Enquanto lemos, aprendemos, conhecemos os mundos, criamos novos mundos.

Até meu livro de Memórias, que está aos poucos indo parar em algumas estantes do mundo, já foi lido por algum leitor ou leitora, e eu mesmo fico relendo os capítulos para me certificar, talvez, de que tenha escrito algo que valesse a pena ser compartilhado.

Cada capítulo é um pequeno conto também, com início, meio e fim, uma lembrança de fazeres sindicais dos trabalhadores da categoria bancária. 

Sigamos lendo e nos esforçando para nos mantermos humanos. A leitura é um ato humano, de humanos e para humanos.

William

19/10/25

Domingo

sexta-feira, 25 de junho de 2021

250621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Sexta-feira, 25 de junho.


OS CEM MELHORES CONTOS BRASILEIROS...

Ontem e hoje, li contos de um livro de coletâneas. Já faz um tempinho que não lia contos. Na madrugada de ontem, a mais fria do ano em Osasco (12º), não consegui dormir mais a partir das 4 horas da manhã. Fui para a sala e não quis pegar nada que já estava lendo. Peguei o livro Os cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi.

A coletânea foi organizada há duas décadas e adquiri o livro pouco depois de seu lançamento. Estava em meus primeiros anos como aluno de Letras na USP. Até hoje não li mais que 30 contos do livro, justamente os contos da primeira metade do século XX, pois o livro é organizado de forma cronológica em relação aos contos. Ou seja, ainda tenho dezenas de contos para ler e conhecer, tanto textos quanto autores. Um dia eu termino o livro.

Li os contos abaixo, da seção "Anos 40/50 - Modernos, maduros, líricos":

- "Um cinturão", de Graciliano Ramos;

- "O pirotécnico Zacarias", de Murilo Rubião;

- "Gringuinho", de Samuel Rawet;

- "O afogado", de Rubem Braga;

- "Tangerine-Girl", de Rachel de Queiroz;

- "Nossa amiga", de Carlos Drummond de Andrade;

- "Um braço de mulher", de Rubem Braga;

- "As mãos de meu filho", de Érico Veríssimo;

- "A moralista", de Dinah Silveira de Queiroz;

- "Entre irmãos", de José J. Veiga;

- "A partida", de Osman Lins.

De cara, gostei do conto de Osman Lins. Me lembrei de minha avó Deolinda, com quem morei um tempo quando voltei para São Paulo na adolescência. E jovem tem dessas coisas de não ser amoroso e carinhoso com as pessoas mais velhas. Creio que fui assim também. Quase todos são assim.

Eu não conhecia nenhum texto do excelente escritor José J. Veiga quando comprei o livro de contos. Agora conheço bem o autor goiano porque já li mais da metade de sua obra. O conto "Entre irmãos" tem a pegada dele, é muito bom.

Adorei os dois contos de Rubem Braga. O autor é muito bom. "O afogado" dá uma agonia grande quando estamos na leitura. Já a personagem com medo de avião é uma cena que todos nós já vimos algum dia.

Que posso dizer do conto de Graciliano? Que merda é a realidade ontem e hoje das crianças espancadas em casa! Eu vi isso na minha infância. Nunca apanhei, mas vi muita criança sendo espancada. Na verdade, tomei uma surra na infância, mas minha pena era o castigo. Moriconi nos informa na introdução que o texto está contido no livro Infância, de G. Ramos. É um livro autobiográfico. Tenho ele na estante, mas não o li ainda.

Gostei de todos os contos que li, mas esses acima me cutucaram mais, me incomodaram ou me despertaram mais lembranças. O de Veríssimo e de Rachel de Queiroz também me chamaram a atenção.

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Seguimos lutando para sobreviver à pandemia mundial de Covid-19 no país que mais morre vítimas no mundo (509 mil mortos), porque temos um regime genocida que adotou a estratégia de contaminar a população toda com a ilusão de atingir uma suposta imunidade de rebanho às custas de alguns milhões de mortos. Tudo em nome de uma ideia equivocada de manter a "economia funcionando". Mentiras, mentiras, mentiras. O regime bolsonarista é o regime da mentira e dos mentirosos genocidas.

Vivemos num mundo onde ninguém quer conselhos nem dicas de nada. É o mundo do capitalismo, do individualismo, da ilusória autossuficiência. Então nem vou sugerir que as pessoas leiam, estudem e procurem preservar e ampliar suas inteligências e culturas. Os tempos são de loas a ignorância e não de homens e mulheres cultivados na cultura geral.

William


quarta-feira, 14 de outubro de 2020

4. São Bernardo - Graciliano Ramos



"Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela divisão do trabalho.

     Dirigi-me a alguns amigos, e quase todos consentiram de boa vontade em contribuir para o desenvolvimento das letras nacionais. Padre Silvestre ficaria com a parte moral e as citações latinas; João Nogueira aceitou a pontuação, a ortografia e a sintaxe; prometi ao Arquimedes a composição tipográfica; para a composição literária convidei Lúcio Gomes de Azevedo Gondim, redator e diretor do Cruzeiro. Eu traçaria o plano, introduziria na história rudimentos de agricultura e pecuária, faria as despesas e poria o meu nome na capa." (RAMOS, 2002, p. 5)


Refeição Cultural - Cem clássicos

Me lembro de uma aula de literatura brasileira na qual o professor nos ensinava a forma como os movimentos literários e autores descreviam de diferentes maneiras os ambientes e as cenas nos romances. Naquele dia, ele citou Graciliano Ramos como um dos exemplos.

Ele disse que um escritor do romantismo ou realismo do século XIX faria uma descrição bastante detalhada de uma cena na qual a personagem se levantasse e fosse até a porta do ambiente. Seria mais ou menos assim:

"Amélia estremeceu na cadeira de veludo azul, sentada que estava no canto da mesa da sala de jantar e com a palidez que lhe era peculiar, levantou-se titubeante e se dirigiu à porta de entrada, não sem antes hesitar se devia ou não atender ao chamado da campainha."

Aí o professor nos explicou um pouco das características do escritor brasileiro Graciliano Ramos, escritor de traços muito peculiares, linguagem dura, direta e impactante. Se fosse ele a descrever a cena acima, provavelmente ela seria assim:

"Amélia abriu a porta."

Nunca me esqueci desta lição sobre Graciliano.

Ao falar hoje sobre mais um clássico da literatura mundial, novamente me lembro do texto do Italo Calvino "Por que ler os clássicos". Assim como tenho plena consciência do quanto tenho lacunas culturais quando o assunto é a leitura das grandes obras clássicas da literatura mundial, também tenho uma característica que me aproxima de um daqueles conceitos que Calvino aborda em seu texto. Quando gosto de um livro, gosto mesmo! Leio e releio um texto que mexe comigo, e nunca mais largo ele.

Li São Bernardo pela primeira vez em 2002. Achei a obra fantástica. Um livro duro. Chocante do início ao fim. Atemporal. Depois reli o livro em 2008. A segunda leitura é sempre uma nova leitura, porque tudo mudou, o leitor mudou, o contexto mudou, a água que passa no rio nunca é a mesma.

Na terceira leitura que fiz de São Bernardo, em abril deste ano dramático das pandemias - mundial e brasileira -, a do novo coronavírus e a do bolsonarismo, tive a impressão que estava lendo notícias de jornais e revistas sobre um certo capitão bárbaro, asqueroso e que chegou chegando como dono do mundo de uma hora para outra. E as consequências da ascensão do sujeito foram bárbaras também. Esse é o caso de Paulo Honório, personagem do romance de Graciliano Ramos.

Amig@s leitores, esse romance brasileiro é um clássico, e um clássico para sempre. Recomendo a leitura para aqueles e aquelas que ainda não tiveram a oportunidade de lê-lo. Ao reler neste ano, fiquei estupefato com a identificação do personagem Paulo Honório e dos demais personagens do romance com certos tipos de brasileiros e brasileiras da atualidade pós golpe de 2016.

Deixo aqui o link da postagem que fiz após a terceira leitura, feita neste ano. O texto deu trabalho, mas ficou bem completo, com muitas citações de cenas e momentos que trazem muita reflexão.

É isso!

William


Bibliografia:

RAMOS, Graciliano. São Bernardo. Editora Record, Rio de Janeiro e São Paulo, 2002.


domingo, 14 de abril de 2019

Leitura: São Bernardo (1934) - Graciliano Ramos




Refeição Cultural

"Quanto ao comunismo, lorota. Não pega. Descansem: entre nós não pega. O povo tem religião, o povo é católico."


Ao reler postagens no meu blog, dei com uma sobre uma crítica literária de João Luiz Lafetá sobre a obra-prima de Graciliano Ramos, São Bernardo, publicado em 1934. A crítica está na edição que tenho do livro, da Editora Record, Rio de Janeiro, 2002. (ler AQUI)

Amig@s, da leitura da postagem com a crítica fui à leitura da obra. Peguei o livro na estante na manhã de sábado e só parei quando terminei a leitura à noite. 

Impressionante! Fui vendo na figura do personagem principal, Paulo Honório, narrador da sua história no romance, a figura representativa de parte significativa do povo brasileiro, que teimamos em não reconhecer, em não aceitar.

Paulo Honório é a parcela do povo brasileiro que votou nesta coisa execrável que representa o bolsonarismo, o coronelismo, a casa grande, a burguesia vira-lata desta ex-colônia de exploração. Aliás, colônia novamente.

Paulo Honório é a parcela do povo que votou em Paula, vencedora da edição 19 do Big Brother Brasil (BBB), das Organizações Globo. 61% dos telespectadores votaram em uma pessoa com ideias racistas, com postura de intolerância à alteridade, segundo disseram os analistas da imprensa.

O contexto ficcional de São Bernardo e de Paulo Honório é o nosso mundo real Brasil que teimamos por um tempo - os pequenos intervalos de "democracia" - em não aceitar como nossa característica, que teimamos em disfarçar como se fôssemos povo cordial. Não somos! Nunca fomos! (somos passivos e não-reativos, moles; mas não somos cordiais, bonzinhos)

Nós mesmos, esse povo que não reage ao mandonismo, ao poder da casa grande, que somos manipulados e que defendemos os donos do poder, somos perfeitamente representados pelos personagens empregados de Paulo Honório. Os mansos, os cornos, os puxa-sacos, os açoitados. Os que se deitam juntos. Os que vão embora quando podem.

Eu fiquei surpreso com a obra, ao lê-la no Brasil pós golpe de 2016, pós prisão política do presidente Lula, pós destruição da economia do país pela Lava Jato, pós eleição de Jair Bolsonaro. Minha nossa, que retrato do Brasil! (e o livro foi feito há quase um século!)

Essa é uma característica das grandes obras de ficção. Quando são boas, são universais, são atemporais. Nos encontramos nelas quando lemos.

Desejo pelo menos que o final da obra São Bernardo aconteça por essas bandas do brasil-colônia também. Afinal, quem sabe o amanhã seja diferente e traga alguma esperança para o lado de cá da casa grande, onde está a massa miserável.

Apresento a seguir, uma seleção que considero representativa da ficção, e representativa da vida real, apesar de ser impossível à linguagem reproduzir a realidade, conforme aprendemos na linguística.

William
um leitor

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Uma narrativa seca, rude.


São Bernardo - Graciliano Ramos

Quem narra a história?

"Começo declarando que me chamo Paulo Honório, peso oitenta e nove quilos e completei cinquenta anos pelo São Pedro. A idade, o peso, as sobrancelhas cerradas e grisalhas, este rosto vermelho e cabeludo têm-me rendido muita consideração. Quando me faltavam estas qualidades, a consideração era menor."

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"O que estou é velho. Cinquenta anos pelo São Pedro. Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta casca espessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada."


Narrar, descrever, contar algo é sempre uma escolha, um recorte de interesses, um ponto de vista, uma construção de cenário

"Tenciono contar a minha história. Difícil. Talvez deixe de mencionar particularidades úteis, que me pareçam acessórias e dispensáveis. Também pode ser que, habituado a tratar com matutos, não confie suficientemente na compreensão dos leitores e repita passagens insignificantes. De resto isto vai arranjado sem nenhuma ordem, como se vê. Não importa. Na opinião dos caboclos que me servem, todo caminho dá na venda."

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"As pessoas que me lerem terão, pois, a bondade de traduzir isto em linguagem literária, se quiserem. Se não quiserem, pouco se perde. Não pretendo bancar escritor..."

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"Essa conversa, é claro, não saiu de cabo a rabo como está no papel. Houve suspensões, repetições, mal-entendidos, incongruências, naturais quando a gente fala sem pensar que aquilo vai ser lido. Reproduzo o que julgo interessante. Suprimi diversas passagens, modifiquei outras..."


Cultivar a ilusão (ideologia)

"- A gente se acostuma com o que vê. E eu desde que me entendo, vejo eleitores e as urnas. Às vezes suprimem os eleitores e as urnas: bastam livros. Mas é bom um cidadão pensar que tem influência no governo, embora não tenha nenhuma. Lá na fazenda o trabalhador mais desgraçado está convencido de que, se deixar a peroba, o serviço emperra. Eu cultivo a ilusão. E todos se interessam."


Brasil, uma terra possuída, de gente possuída, tudo é propriedade, coisa, bicho

O coronelismo na política, desde sempre:

"Que diabo diria ele contra mim na folha? Não sendo funcionário público, as minhas relações com o partido limitavam-se a aliciar eleitores, entregar-lhes a chapa oficial e contribuir para música e foguetes nas recepções do governador."

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Negociando um casamento:

"Amanheci um dia pensando em casar. Foi uma ideia que veio sem que nenhum rabo-de-saia a provocasse. Não me ocupo com amores, devem ter notado, e sempre me pareceu que mulher é um bicho esquisito, difícil de governar.
  A que eu conhecia era a Rosa do Marciano, muito ordinária. Havia conhecido também a Germana e outras dessa laia. Por elas eu julgava todas. Não me sentia, pois, inclinado para nenhuma: o que eu sentia era desejo de preparar um herdeiro para as terras de S. Bernardo."

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"- Quanto a mim, acho que em questões de sentimento é indispensável haver reciprocidade. (diz Madalena)
- Qual reciprocidade! Pieguice. Se o casal for bom, os filhos saem bons; se for ruim, os filhos não prestam. A vontade dos pais não tira nem põe. Conheço o meu manual de zootecnia."

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Ao espancar seu empregado Marciano:

"Julguei que ela se aborrecesse por outro motivo, pois aquilo era uma frivolidade.
- Ninharia, filha. Está você aí se afogando em pouca água. Essa gente faz o que se manda, mas não vai sem pancada. E Marciano não é propriamente um homem.
- Por que?
- Eu sei lá. Foi vontade de Deus. É um molambo.
- Claro. Você vive a humilhá-lo.
- Protesto! exclamei alterando-me. Quando o conheci, já ele era molambo.
- Provavelmente porque sempre foi tratado a pontapés.
- Qual nada! É molambo porque nasceu molambo..."

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Ao desprezar a história de vida da professora Madalena, em relação à sua propriedade S. Bernardo:

"- Acha pouco? É porque você não sabe o esforço que isso custou. Maior que o seu para obter S. Bernardo. E o que é certo é que d. Glória não me troca por S. Bernardo.
   Vaidade. Professorinhas de primeiras letras a escola normal fabricava às dúzias. Uma propriedade como S. Bernardo era diferente."

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De como olham o mundo a partir da casa grande:

"Ali pelos cafus desci as escadas, bastante satisfeito. Apesar de ser indivíduo medianamente impressionável, convenci-me de que este mundo não é mau. Quinze metros acima do solo, experimentamos a vaga sensação de ter crescido quinze metros. E quando, assim agigantados, vemos rebanhos numerosos a nossos pés, plantações estirando-se por terras largas, tudo nosso, e avistamos a fumaça que se eleva de casas nossas, onde vive gente que nos teme, respeita e talvez até nos ame, porque depende de nós, uma grande serenidade nos envolve. Sentimo-nos bons, sentimo-nos fortes...

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A forma de mercadoria com que trata a senhora de quase cem anos que o criou, quando ele mandou buscá-la para acomodá-la na fazenda:

"- Ó Gondim, já que tomou a empreitada, peça ao vigário que escreva ao padre Soares sobre a remessa da negra. Acho que acompanho vocês, vou falar a padre Silvestre. É conveniente que a mulher seja remetida com cuidado, para não se estragar na viagem."

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Ao contar aos leitores, que tem relações sexuais com a esposa de um de seus capatazes:

"O Marciano conheceria as minhas relações com a Rosa? Não conhecia. Tive sempre o cuidado de mandá-lo à cidade, a compras, oportunamente. E talvez não quisesse conhecer. Também se podia admitir que fosse dotado de pouca penetração."


A insuperável cultura do preconceito de ontem e de hoje

Alguns exemplos:

"(...) abrequei a Germana, cabritinha sarará danadamente assanhada, e arrochei-lhe um beliscão retorcido na popa da bunda. Ela ficou-se mijando de gosto..."

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"De repente conheci que estava querendo bem à pequena. Precisamente o contrário da mulher que andava imaginando - mas agradava-me, com os diabos. Miudinha, fraquinha. D. Marcela era bichão. Uma peitaria, um pé-de-rabo, um toitiço."

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"Realmente, uma criatura branca, bem lavada, bem vestida, bem engomada, bem aprendida, não ia encostar-se àqueles brutos escuros, sujos, fedorentos a pituim."

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"Mulher não vai com carrapato porque não sabe qual é o macho."

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"- Ó Gondim, já que tomou a empreitada, peça ao vigário que escreva ao padre Soares sobre a remessa da negra."


A religião, o papel da religião neste mundo da exploração... (não confundir fé com religião)

"A verdade é que não me preocupo muito com o outro mundo. Admito Deus, pagador celeste dos meus trabalhadores, mal remunerados cá na terra, e admito o diabo, futuro carrasco do ladrão que me furtou uma vaca de raça. Tenho portanto um pouco de religião, embora julgue que, em parte, ela é dispensável num homem. Mas mulher sem religião é horrível."

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"- Aí padre Silvestre tem razão, concordou Gondim. A religião é um freio."


Comunismo, sempre o papel do comunismo na boca do proprietário, do padre, do poder instituído

"Sim senhor! Conluiada com o Padilha e tentando afastar os empregados sérios do bom caminho. Sim senhor, comunista! Eu construindo e ela desmanchando."

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"Comunista, materialista. Bonito casamento!"

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"- Nada disso, asseverou padre Silvestre. Essas doutrinas exóticas não se adaptam entre nós. O comunismo é a miséria, a desorganização da sociedade, a fome."

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"- Eu não. Estou quieto, no meu canto. Agora achar que o governo é mau, eu acho. Que há urgências de reforma, há. Quanto ao comunismo, lorota, não pega. Descansem: entre nós não pega. O povo tem religião, o povo é católico."


As referências ao filho, propriedade que não gosta

O filho desprezado pelo narrador, nem sequer teve seu nome revelado na história. Nas poucas vezes em que foi citado, foi mais uma coisa como todas as outras de propriedade dele.

"Madalena estava prenhe, e eu pegava nela como em louça fina. Ultimamente dizia-me coisas desagradáveis, que eu fingia não compreender. Via a barriga crescer-lhe..."

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"O pequeno berrava como bezerro desmamado. Não me contive: voltei e gritei para d. Glória e Madalena:
- Vão ver aquele infeliz. Isso tem jeito?"

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"E o pequeno continuava a arrastar-se, caindo, chorando, feio como os pecados. As perninhas e os bracinhos eram finos que faziam dó. Gritava dia e noite, gritava como um condenado, e a ama vivia meio doida de sono. Às vezes ficava roxo de berrar, e receei que estivesse morrendo quando padre Silvestre lhe molhou a cabeça na pia. Com a dentição encheu-se de tumores, cobriram-no de esparadrapos: direitinho uma rês casteada..."

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"Bocejava. Cada bocejo de quebrar queixo. Vida estúpida! É certo que havia o pequeno, mas eu não gostava dele. Tão franzino, tão amarelo!"


Bibliografia:

Ramos, Graciliano. São Bernardo. 74ª edição. Editora Record, Rio de Janeiro, 2002.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Vidas secas (1938) – Graciliano Ramos


Desenho: Aldemir Martins

CLÁSSICO BRASILEIRO de 1938

MINHAS LEITURAS


INTRODUÇÃO

Este livro é uma das obras mais marcantes que já li. Neste ano, fiz minha quarta leitura. A primeira vez que o li foi no ano 2000. Eu já tinha mais de trinta anos de idade e as mazelas do Nordeste eram quase as mesmas das décadas e séculos anteriores. Nada, nem ninguém, dava jeito naquele mundo. Na verdade, nenhum político ou política havia tido um foco sério naquele mundo.

Os poucos compromissados com a causa do povo do Nordeste, como Celso Furtado, não lograram êxito devido aos vícios da política, tanto local quanto nacional.

Uma das coisas mais marcantes para mim, ao ler a obra hoje, é em relação àquele Brasil descrito por Graciliano Ramos quando comparado com o Brasil atual, após os dois mandatos do presidente Lula da Silva do Partido dos Trabalhadores. A diferença é fantástica!

Hoje, o Nordeste é pujança e a esperança é real e já é presente – é a região com o maior crescimento do PIB no País. A esperança é real e extrapola aquela que o povo simples brasileiro já carrega em seu DNA.

O livro serve de denúncia e de aviso. Vale a pena investir na política focada na solução dos problemas do povo de um país. Vale a pena. O Brasil provou isso no século XXI.

Qualquer região do mundo habitada pelos humanos tem possibilidades promissoras quando a política é focada na busca de soluções para melhorar a vida daquele povo e daquela comunidade. A inteligência humana, quando canalizada para o bem comum, é ilimitada.


VIDAS SECAS

A primeira coisa admirável é a linguagem ímpar de Graciliano. A obra é uma ficção em prosa, mas poderia ser construída em versos. O ritmo do autor é muito característico. Seco e direto, porém sensibilizador.

Vejam como poderíamos ler poesia em Vidas Secas. Coloco em verso o início da obra.


MUDANÇA

Na planície avermelhada

os juazeiros alargavam duas manchas verdes.
Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro,
estavam cansados e famintos.

Ordinariamente
andavam pouco,
mas como haviam repousado bastante
na areia do rio seco,
a viagem progredira bem três léguas.
Fazia hora que procuravam uma sombra.
A folhagem do juazeiro apareceu longe,
através dos galhos pelados da catinga rala.

Arrastaram-se para lá,
devagar,
sinhá Vitória com o filho mais novo
escanchado no quarto
e o baú de folha na cabeça.

Fabiano sombrio,
cambaio,
o aió a tiracolo,
a cuia pendurada numa correia
presa ao cinturão,
a espingarda de pederneira no ombro.

O menino mais velho
e a cachorra Baleia
iam atrás.


O PAPAGAIO: ESPELHO DA LINGUAGEM DA FAMÍLIA

“Despertara-a um grito áspero, vira de perto a realidade e o papagaio, que andava furioso, com os pés apalhetados, numa atitude ridícula. Resolvera de supetão aproveitá-lo como alimento e justificara-se declarando a si mesma que ele era mudo e inútil. Não podia deixar de ser mudo. Ordinariamente a família falava pouco. E depois daquele desastre viviam todos calados, raramente soltavam palavras curtas. O louro aboiava, tangendo um gado inexistente, e latia arremedando a cachorra.”

O papagaio acabou aprendendo a repetir o som de quem “falava” pela família: a cachorra Baleia.


ERAM COMO COISAS, MAS QUERIAM VIVER

“Aquilo era caça bem mesquinha, mas adiaria a morte do grupo. E Fabiano queria viver (...) Pensou na família, sentiu fome. Caminhando, movia-se como uma coisa, para bem dizer não se diferenciava muito da bolandeira de seu Tomás...”


FABIANO: HOMEM OU ANIMAL?

“- Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta.

Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra.”

“Chape-chape. As alpercatas batiam no chão rachado. O corpo do vaqueiro derreava-se, as pernas faziam dois arcos, os braços moviam-se desengonçados. Parecia um macaco.”


NA PRISÃO INJUSTA, LEMBROU-SE DA FAMÍLIA

“Lembrou-se da casa velha onde morava, da cozinha, da panela que chiava na trempe de pedras. Sinhá Vitória punha sal na comida. Abriu os alforjes novamente: a trouxa de sal não se tinha perdido. Bem. Sinhá Vitória provava o caldo na quenga de coco. E Fabiano se aperreava por causa dela, dos filhos e da cachorra Baleia, que era como uma pessoa da família, sabida como gente.”


Desenho de Aldemir Martins

TRAÇOS MARCANTES NA OBRA

Algumas características de Vidas Secas são bem conhecidas do público leitor.

- a não linguagem dos humanos;

- as características antropomórficas da cachorra Baleia, o ente da família mais “humano” e “inteligente”;

- as personagens humanas da família de retirantes são caracterizadas o tempo inteiro como animais. Os meninos não têm nome, não usam roupas. A família mais grunhe do que fala. Os meninos têm que aprender com Baleia várias coisas.

- o capítulo sobre Baleia nasceu como um conto e depois foi incluído no livro. O livro foi feito ao redor de Baleia. Não quero comentar sobre os acontecimentos finais em relação aos personagens. Prefiro que leiam a obra e descubram.

- os ciclos viciosos que se repetem desesperançosamente: a violência da “lei” contra os humildes; a sabida retirada e fuga da seca mais cedo ou mais tarde; a tendência das proles dos sertanejos serem rudes e não verem um destino melhor do que o de seus pais.


MINHA IMPRESSÃO DAS LEITURAS ATÉ 2002

Escrevi no livro o que havia sentido nas três leituras que eu fizera até a eleição para presidente do Brasil do metalúrgico Lula da Silva, filho de retirantes nordestinos como a família de Fabiano e Sinhá Vitória.

Que situação infeliz! Isto acontecia em 1938. Isto acontece em 2002. São tantos homens, mulheres e crianças que sofrem com a seca no Nordeste.

2002: são tantos homens, mulheres e crianças que sofrem fome nas favelas de nosso País. Casas de madeira e latão. Casas de papelão. Crianças cheirando cola e crack nas praças. Homens defecando nas ruas. Andem nas metrópoles e vejam isto. 1938/2002 – sertão nordestino... São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte...

E as produções mundiais a cada dia batem novos recordes. E a fome a cada dia bate novo recorde.

Sempre assim. E os fabianos não atinam que têm direitos. Os homens brancos ficam nervosos e ameaçam só de ouvir grunhidos “hum, hum” dos fabianos reclamando.

O coração está apertado e mofino!


Capa da primeira edição de Vidas Secas.

CONCLUSÃO

Minha reflexão após tudo isso está no início, em minha introdução:

Qualquer região do mundo habitada pelos humanos tem possibilidades promissoras quando a política é focada na busca de soluções para melhorar a vida daquele povo e daquela comunidade. A inteligência humana, quando canalizada para o bem comum, é ilimitada.

Não era sonho aquilo que sempre buscou nosso mestre e sábio Celso Furtado. Ele faleceu ainda no início das transformações por que passaria o Nordeste brasileiro neste século XXI sob a batuta do metalúrgico retirante Lula da Silva.

Falta muito ainda, tanto para o nordeste quanto para os milhões de fabianos e família. Mas há esperanças quando há foco na política de desenvolvimento com distribuição de renda e riquezas.

Sigamos buscando o fim das vidas secas. Vimos que é possível.


William Mendes


Bibliografia:

RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 80ª edição. Editora Record. 2000.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Vidas Secas em versos...

Ilustração de Vidas Secas - Aldemir Martins

VIDAS SECAS
RELEITURAS
Vidas secas em versos


MUDANÇA
Na planície avermelhada
os juazeiros alargavam duas manchas verdes.
Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro,
estavam cansados e famintos.
Ordinariamente
andavam pouco,
mas como haviam repousado bastante
na areia do rio seco,
a viagem progredira bem três léguas.
Fazia hora que procuravam uma sombra.
A folhagem do juazeiro apareceu longe,
através dos galhos pelados da catinga rala.

Arrastaram-se para lá,
devagar,
sinhá Vitória com o filho mais novo
escanchado no quarto
e o baú de folha na cabeça.

Fabiano sombrio,
cambaio,
o aió a tiracolo,
a cuia pendurada numa correia
presa ao cinturão,
a espingarda de pederneira no ombro.

O menino mais velho
e a cachorra Baleia
iam atrás.

COMENTÁRIO:
Mais uma vez, faço aqui uma licença poética e disponho um trecho de Vidas Secas em outro formato - em versos livres.
O ritmo de leitura é exatamente o mesmo em que leio, respeitando os sinais gráficos de Graciliano e a minha respiração.
É isso.

Bibliografia:
RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 80ª edição. Editora Record. 2000.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Vidas Secas em versos...

Ilustração de Vidas Secas - Aldemir Martins

VIDAS SECAS – GRACILIANO RAMOS
Releituras
Vidas secas em versos

FUGA
A vida na fazenda se tornara difícil.
Sinhá Vitória se benzia tremendo,
manejava o rosário,
mexia os beiços rezando rezas desesperadas.

Encolhido no banco do copiar,
Fabiano espiava a catinga amarela,
onde as folhas secas se pulverizavam,
trituradas pelos redemoinhos,
e os garranchos se torciam,
negros,
torrados.

No céu azul as últimas arribações tinham
        [desaparecido.
Pouco a pouco os bichos se finavam,
devorados pelo carrapato.

E Fabiano resistia,
pedindo a Deus um milagre.

COMENTÁRIO:

Vejam o que é um ritmo estabelecido em uma linguagem. Este é o início do último capítulo do livro Vidas Secas de Graciliano Ramos, de 1938.

A poesia é, sobretudo, ritmo. Ela não precisa, necessariamente, estar ordenada em estruturas poéticas tradicionais ou rígidas.

É por isso que autores como Graciliano Ramos, Machado de Assis e Guimarães Rosa são revolucionários da literatura brasileira e universal. São autores que demarcam o tempo com seus estilos e abrangência na poética literária.

Bibliografia:
RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 80ª edição. Editora Record. 2000.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Aula - O Modernismo Brasileiro (aulas de 2002)




Refeição Cultural

Aulas do professor José Miguel Wisnik

(a responsabilidade pela interpretação do conteúdo é minha)


Podemos dizer que houve um pré-modernismo brasileiro com o Regionalismo.

Por outro lado, não houve propriamente um movimento pós-modernista brasileiro como o Surrealismo, o Dadaísmo e o Futurismo.

Com os modernistas foram criados movimentos próprios, politizados.

Havia dois grupos nas décadas de 20 e 30, que surgiram depois da Semana de Arte Moderna, que representavam, mais ou menos, as ideias da esquerda e as da direita. Grupo da Anta, desta, e Movimento Antropofágico, daquela.

É importante salientar que o Modernismo Brasileiro não se assentou sobre um só tipo de arte. Assim como no Romantismo, houve impacto sobre todas as artes.

Com a exposição de Anita Malfati, em 1917, surge a presença feminina no mundo da arte.

Depois veio a Semana de Arte Moderna, em 1922, no Teatro Municipal de São Paulo. Foi um movimento que só não deu muito resultado (imediato) no Teatro. Flávio de Carvalho fez duas tentativas, mas ambas não surtiram muito efeito. Três décadas depois, viria a encenação de "O rei da vela", de Oswald de Andrade em 1967.

Havia dois tipos de "enredos" para o Brasil. Um, antes do Modernismo, outro, após. O primeiro ainda era o das instituições portuguesas (a continuação da Casa de Bragança), o outro, depois do Modernismo, que era o País das desgraças sociais - País subdesenvolvido. Vemos isso nas obras literárias.

Um bom exemplo disso, que se repete em diversas obras da época sobre o latifúndio e o coronelismo, é o livro "Vidas Secas" de Graciliano Ramos, que personifica em Fabiano e sua família de retirantes as mazelas do sertanejo e demais povos do Brasil.

Após o Modernismo, o Brasil e os brasileiros passam a ter uma visão mais nacionalista e de nação. Começa-se então a haver trocas culturais, justamente pela literatura. Autores regionalistas nos fazem conhecer o Brasil de norte a sul. Criou-se o conceito de Patrimônio Histórico Cultural. Antes, isso era coisa de europeu.

O curso do semestre em questão vai analisar a prosa e a poesia modernista.

Obras:

Macunaíma - Mário de Andrade
Paulicéia Desvairada - Mário de Andrade
Libertinagem - Manuel Bandeira
Alguma Poesia - Carlos Drummond de Andrade
Pau Brasil - Oswald de Andrade

Na medida do possível, haverá intertextualidades com diversos textos e obras.

Origem do nosso "povo melancólico" (conceito que vigorou até o início do século XX):

- O negro = ex-escravizados
- O índio = exilado em seu País
- O português = expatriado

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