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sábado, 15 de janeiro de 2022

43. As três irmãs / Contos - Anton Tchekhov



Refeição Cultural - Cem clássicos

Finalizei a leitura do livro de Anton Tchekhov (1860-1904) que tenho em casa. Considero que o escritor russo é um autor clássico e com isso contabilizo a leitura do livro dentro de minhas leituras de clássicos da literatura mundial. Foi o 2º livro do ano.

Entre leitura atual e leituras anteriores, praticamente li o livro duas vezes. A primeira leitura do drama As três irmãs (1901) foi em novembro de 2006. Eu era estudante de Letras na USP. Refiz a leitura nesta semana. 

AS TRÊS IRMÃS

Achei a postura daquelas personagens da família Prosorov uma boa alegoria de parte do povo brasileiro situado nas chamadas classes médias, um povo sem ação, crédulo em soluções miraculosas para problemas reais, uma gente que espera que as coisas aconteçam independente de ações pessoais e que as mudanças esperadas lhe caiam do céu. Fiz uma postagem dias atrás na qual falo um pouco sobre o drama (ler aqui).

Os contos são muito bons apesar de ter achado alguns longos demais e cansativos para o leitor. Mas a qualidade de Tchekhov na forma de narrar é inegável.

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O BEIJO

O conto "O beijo" é muito interessante! É um conto de 1887. Um batalhão do exército acampa próximo a um daqueles casarões da fidalguia russa durante exercícios militares e alguns líderes são convidados a tomar chá no casarão.

Tchekhov trabalha a hipocrisia e os jogos de cenas e aparências da burguesia russa. Ao mesmo tempo mostra o povão levando a vida, no caso deste conto os soldados, que sonham com prazeres e com uma vida melhor alcançando a posição daqueles sujeitos da burguesia. 

Ler aqui comentário que fiz da leitura anterior.

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KASCHTANKA (RELATO)

Uma graça esse conto cuja personagem principal é uma cadelinha com cara de raposinha. Adorei a narrativa. O conto de 1887 tem momentos dramáticos e momentos leves. 

A personagem principal se perde de seu dono e leva uma vida em outro ambiente, onde vai viver aventuras estranhas em sua vida de cachorra.

Para leitura de comentário que fiz sobre o conto, ler aqui.

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VIÉROTCHKA

Esse conto de 1887 traz uma história de amor não correspondido. Para ler o comentário que fiz na leitura anterior, clique aqui.

Em quase todas as narrativas, Tchekhov descreve cenas ou ações de leitores e leitoras e leituras. No drama As três irmãs, o escritor faz críticas severas aos autores russos de seu tempo, depõe contra as obras deles.

Neste conto vemos a descrição de uma personagem leitora. Tchekhov é duro com a personagem.

"Diante de Ogniov, estava a filha de Kuznietzov, Viera, moça de vinte e um anos, geralmente triste, descuidada no trajar e interessante. As moças que devaneiam muito e passam dias inteiros deitadas, lendo tudo o que lhes vêm às mãos, que se enfadam e entristecem, vestem-se geralmente com desleixo..." (p. 151)

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UMA CRISE

Neste conto de 1888, um jovem sai com outros dois amigos e vão para a zona do meretrício, o bordel. A noitada leva o rapaz a ter sentimentos de culpa e o desejo de salvar todas as mulheres naquela condição de prostituição. A partir daí vemos tudo o que acontece na narrativa. O ponto de vista do narrador aborda questões religiosas e posturas bem machistas, condizentes com a época.

"'Como tudo é pobre e estúpido!', pensou Vassíliev. 'Em toda esta miuçalha que vejo agora, o que pode tentar um homem normal, incitá-lo a cometer o terrível pecado de comprar por um rublo uma pessoa viva? Eu compreendo qualquer pecado cometido por causa de brilho, beleza, graça, paixão, gosto, mas o que existe aqui? Em prol do que se cometeu aqui pecados? Aliás... não se deve pensar!'" (p. 165)

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UMA HISTÓRIA ENFADONHA DAS MEMÓRIAS DE UM HOMEM IDOSO

Outra narrativa grande, cinquenta páginas. Boa estória. O enredo lembra um pouco o clássico de Tolstói, A morte de Ivan Ilitch (1886). A narrativa de Tchekhov é de 1889. Ler comentários sobre o conto aqui.

O personagem é um professor, um homem de ciências, e a narrativa tem bons momentos filosóficos. Bem atual para os tempos de negacionismo que vivemos no século XXI. O enredo mostra também as hipocrisias das classes médias e burguesas e o mundo das aparências. A família deve 5 meses de salários ao funcionário da casa e manda rios de dinheiro para complementar renda do filho que está no exterior. A família está quebrada, mas a filha faz aulas de piano etc.

Teria muitas citações interessantes pra fazer, mas daria muito trabalho para concluir a postagem.

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ENFERMARIA Nº 6

Ao ler "Enfermaria nº 6", de Tchekhov, é inevitável a lembrança da complexa questão dos manicômios e casas de repouso para pessoas indesejáveis nas famílias e nas sociedades humanas. O conto é de 1892. Para ler comentários sobre o conto clicar aqui.

Um pouco antes, em 1881, o nosso Mestre do Cosme Velho, Machado de Assis, publicava no Brasil o conto O alienista, nos contando sobre os residentes ou pacientes da Casa Verde, governada pelo doutor Simão Bacamarte. 

O tom irônico no estilo de Machado não tem relação com a narrativa dramática de Tchekhov sobre os residentes do pavilhão nos fundos do hospital local deste conto, mas o tema tem semelhanças. 

Como lidar com doentes, com pessoas que não se enquadram nos padrões determinados pelos pensamentos hegemônicos nos meios sociais existentes? Quem é louco e quem não é? Quem define quem é louco?

Outra boa referência sobre essas casas de reclusão é o filme brasileiro Bicho de Sete Cabeças (2000), filme estrelado por Rodrigo Santoro e dirigido por Laís Bodanzky. O tema é duro, duríssimo!

O final do conto, uma novela eu diria, é surpreendente!

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Enfim, lidos 7 textos de Tchekhov! Vamos ver quantos autores vou ler neste ano que começa. Alguns autores e autoras serão leituras de primeira vez.

William


Bibliografia:

TCHEKHOV, Anton. As três irmãs e contos. Coleção Imortais da Literatura Universal. Nova Cultural, 1995.

domingo, 9 de janeiro de 2022

090122 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Dias atrás, ao pensar no que leria pela manhã, decidindo entre a revista Carta Capital que acabava de chegar e um dos 4 livros que apartei para ler em janeiro, livros iniciados e não finalizados, optei pelo livro da vez: As três irmãs / contos, de Tchekhov. 

A revista de Mino Carta é excelente, mas não ando a fim de me atualizar sobre os acontecimentos da política. De certa forma, não preciso ler a revista para saber o que anda acontecendo na política, no Brasil e no mundo. Eu sei. Mesmo sem esforço, sei mais que boa parte das pessoas ao meu redor. Acho que o povo nunca foi tão alienado na história humana como neste momento de redes sociais idiotizadoras de quase a totalidade da massa humana.

O SILÊNCIO DE SOHRAB

Tenho pensado no silêncio de Sohrab, o garoto afegão do romance de Khaled Hosseini, O caçador de pipas, que li na semana passada. Quase que gostaria de calar, de nunca mais falar, de nunca mais escrever. Óbvio que ando cansado de tudo. Não sou alienado e a realidade desestimula um pouco o desejo de seguir vivendo. E nossas opiniões e experiências NÃO valem nada para as pessoas que amamos, que dirá para os meios aos quais vivemos na política.

Se ainda interajo, ajo de alguma forma - escrevendo no blog, por exemplo -, deve ser porque sou um homem de meu tempo, desse mundo real, material, e com o acúmulo que a própria existência me moldou - inclusive com a responsabilidade de existir, porque não sou só eu no mundo, pessoas de minha relação devem pesar na reflexão sobre meu esforço de permanecer vivo.

Assim como Sohrab, durante um tempo de minha vida havia cansado de viver e mesmo assim fui vivendo e cheguei até aqui. Avalio que valeu a pena seguir vivo. Coisas boas aconteceram para mim e eu participei da criação de coisas boas para a classe a qual pertenço, a classe trabalhadora. As ações positivas que fiz suplantam as ações ruins que fiz, imagino eu.

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ANTON TCHEKHOV

Após ler o 1º dos 4 livros que apartei para finalizar neste mês de janeiro, li o drama As três irmãs (1901), de Tchekhov. O livro que tenho contém essa peça e mais 6 contos do escritor russo. Já havia lido tanto a peça, em 2006, quanto os contos, a maioria no ano passado. De forma que estou basicamente relendo e não lendo pela primeira vez o livro. No entanto, como sou outro, o tempo é outro, a leitura é de novidade, como usa acontecer na releitura de livros e romances.

Li As três irmãs num desses dias em que estava bem azedo, sem graça com as coisas. A leitura foi truncada. Feita a leitura da peça, fui ver alguma coisa a respeito dela na internet. Vi o vídeo de dois jovens leitores, uma menina e um menino, com canais pequenos de resenhas de livros. Achei muito interessante ouvi-los. Como a cultura é algo maravilhoso! Dois jovens me fizeram avaliar minha releitura de As três irmãs.

Minha avaliação de leitor do drama tinha sido fria, automática. Já sabia que Tchekhov criticava a sociedade burguesa russa, o conformismo e a inação de setores das classes médias. Mas ouvir dois jovens aparentemente periféricos falarem do jeito deles sobre o romance, fez-me ver a alegoria do drama de forma clara como a água de Bonito (água clara acabando por causa da soja e do "agro pop").

Aquele núcleo familiar, os Prosorov, e os demais personagens no enredo da estória somos nós no Brasil de Temer, Bolsonaro, Moro e os idiotizados pela grande mídia; somos nós da comunidade de funcionários do Banco do Brasil; aquele núcleo familiar no drama de Tchekhov somos nós da minha "família": essa gente de São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso, gente de onde vim. Aqueles personagens somos nós que colocamos na Cassi aqueles gestores que estão lá.

Três irmãs - Olga, Maria e Irina - e um irmão, Andrei, que vão dar em nada. As irmãs sonham voltar para a cidade grande, Moscou, porque acham que são infelizes por estarem no interior. Aqui no Brasil dos bolsonários as pessoas querem ir para a Moscou idealizada do romance, ir pra outro país, porque aqui é o atraso bolsonarista e qualquer outro lugar do mundo seria melhor (como se aqui não fosse o tucanistão e o bolsonaroquistão por causa delas mesmas). Nós somos o enredo do drama de Tchekhov. A inação das irmãs é a nossa inação. Natália, a ex-caipira que ascende ao poder ao casar-se com Andrei e agora é a empoderada que manda e humilha etc tem aos quilos ao nosso redor. Parece a massa que aderiu ao bolsonarismo.

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Enfim, vamos reler os contos. Já reli "O beijo" e agora estou no conto cuja personagem principal é a cachorrinha que parece uma raposinha, Kaschtanka.

Na releitura e impressão das 275 postagens de 2021, estou terminando de rever o mês de junho, os textos deste mês são muito pautados pela leitura reflexiva da autobiografia de Nelson Mandela. (ahh... Mandela... que pena que não somos como você e seus companheiros e companheiras do Congresso Nacional Africano - CNA! Que pena!)

(com o comentário sobre Mandela comprovo que não somos nada diferentes de As três irmãs... sou igualzinho a elas, eu, os meus, as pessoas ao meu redor, os companheir@s do movimento sindical e partidário que se diz de esquerda... somos As três irmãs)

Ixi, alguém vai dizer "fale por você e não por mim, por nós". Tá certo. Sou As três irmãs. O pessoal da esquerda que conheço são pessoas de ação. Tá certo.

William


quinta-feira, 29 de julho de 2021

Enfermaria nº 6 - Conto de Tchekhov



Refeição Cultural

"E, na ocorrência de uma relação formal, sem alma, para com a personalidade humana, um juiz, para destituir um homem inocente de todos os direitos civis e condená-lo aos trabalhos forçados, só precisa do seguinte: tempo. Apenas tempo para a execução de umas poucas formalidades, pelas quais um juiz recebe um ordenado, e a seguir tudo acaba. E vá alguém procurar depois justiça e uma defesa, nessa cidadezinha suja..." (p. 236)


A Enfermaria nº 6 é a equivalente russa da nossa Casa Verde, em Itaguaí, terra do Dr. Simão Bacamarte (O alienista, de Machado de Assis). Uma casa de loucos. 

Na epígrafe acima, estaria Tchekhov falando de um certo juiz e de um paisinho de merda (uma tal república de curitiba)? Certamente não, mas os grandes autores conseguem descrever situações universais, por isso são autores geniais.

O manicômio de Tchekhov tem 5 moradores (internados). Um deles "É o abobalhado judeu Moissieika", o Moisés. Outro cativo no local é Ivan Dmítritch Gromov - "homem de uns trinta e três anos, de condição nobre, ex-oficial de justiça e ex-amanuense provincial, sofre de mania de perseguição". (p. 232 e 233)

O 2º e 3º capítulos contam a história trágica da família Gromov. Depois de perdas irreparáveis dos familiares, Ivan desenvolve sua doença. Ele era uma pessoa estudiosa e de conhecimentos.

Um dos outros internados é uma pessoa do povo que sequer mereceu nome no conto: "era um mujique quase redondo, afundado em banhas, com um rosto embotado, completamente inexpressivo. Um animal imóvel, guloso e quase asseado, que já perdera, havia muito, a capacidade de pensar e de sentir" (p. 239). Ele é espancado frequentemente por um funcionário do manicômio, Nikita. 

Tchekhov sugere que os leitores imaginem a cena: "Uma vez em dois meses, aparece ali o barbeiro Siemión Láraritch. Não falaremos de como ele corta o cabelo dos dementes, de como Nikita o ajuda nessa operação, nem da perturbação que sempre causa aos doentes o aparecimento do barbeiro bêbado e sorridente." (p. 240)

O médico Dr. Andriéi Iefímitch Ráguin, responsável pela Enfermaria nº 6, queria ser pastor e acabou sendo médico. "De porte elevado e ombros largos, tem pés e mãos enormes; infunde a impressão de que, dando um soco, poria para fora os bofes da vítima." (p. 240)

ENFERMARIA Nº 6 - "(...) Havia queixas de que as baratas, percevejos e camundongos tornavam a vida insuportável. Na seção da cirurgia, não se dava cabo da erisipela (...) Na cidade, sabia-se muito bem dessas irregularidades, que eram até exageradas, mas os habitantes encaravam-nas com tranquilidade; uns justificavam-nas pelo fato de que no hospital eram internados apenas mujiques e pequeno-burgueses, que não podiam ficar descontentes, porque em casa viviam muito pior ainda: não se devia, naturalmente, alimentá-los com carne de perdiz!" (p. 241)

PUSILANIMIDADE PARA CONSERTAR AS COISAS E...

"Está absolutamente acima das suas forças dizer ao vigia que deixe de roubar, enxotá-lo ou suprimir de vez esse cargo inútil, parasitário." (p. 242)

O SOFRIMENTO É BOM PRA MANIPULAR OS MISERÁVEIS E IGNORANTES

"(...) para que aliviá-lo? Em primeiro lugar, dizem que os sofrimentos conduzem o homem à perfeição e, em segundo, se a humanidade aprender realmente a aliviar seus sofrimentos por meio de gotas e pílulas, há de abandonar completamente a religião e a filosofia, nas quais até agora encontrou não só uma defesa contra todas as desgraças, mas até felicidade." (p. 243)

A INVENÇÃO DE DEUS OU DA IMORTALIDADE

"- E a imortalidade?

- Ora, mudemos de assunto!

- O senhor não acredita, bem, mas eu acredito. Numa obra de Dostoiévski ou de Voltare alguém diz que, se Deus não existisse, seria inventado pelos homens. E eu creio profundamente que, se a imortalidade não existe, será inventada cedo ou tarde por uma grande inteligência humana." (p. 253)

SOLIDÃO

"Como é agradável ficar imóvel no divã e ter consciência de estar sozinho no quarto! A verdadeira felicidade é impossível sem a solidão. O anjo caído traiu a Deus provavelmente por ter desejado a solidão, que os anjos desconhecem." (p. 266)

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O médico Dr. Andriéi Iefímitch passa a puxar conversa com o interno Ivan Dmítritch, que no início rejeita qualquer papo, mas acabam debatendo temas filosóficos como, por exemplo, o estoicismo (p. 257 e 258), a imortalidade etc.

A admiração do médico pelo paciente começou a causar problemas para o doutor, pois as pessoas acharam estranho o médico considerar o doente mental uma pessoa muito inteligente.

O enredo passa por algumas reviravoltas. O Dr. Andriéi é forçado a se aposentar, depois viaja com um amigo, e o final da narrativa é surpreendente. De novo, poderia dizer que tem alguma semelhança com o desfecho do conto machadiano O Alienista. O clássico de Machado de Assis é de 1882 e este conto de Tchekhov é de 1892.

COMENTÁRIO FINAL

A leitura desse conto, dessa novela, foi uma leitura difícil. Diferente das outras do livro, nessa gastei quatro dias, simplesmente porque em determinados momentos, eu travava e tinha que parar. Pode ser que eu estivesse travado e não que a leitura fosse difícil.

A leitura de Tchekhov neste momento não foi necessariamente uma escolha das prioridades. Tenho outros cinco ou seis romances na frente pra ler. Mas como tive contato com o autor russo na última matéria que fiz na Letras da FFLCH, acabei decidindo ler o livro todo. Terminei as narrativas denominadas "contos" e agora vou ler de novo o drama As três irmãs, com uma centena de páginas, pois já faz 15 anos que o li.

A fase que vivemos na sociedade humana é uma fase mórbida. Tá certo que a vida é um instante, se morre de qualquer coisa a qualquer momento. Mas com essa pandemia de coronavírus, tá foda. Pode ser a nossa vez de morrer em poucos dias, assim do nada. A gente alterna nosso estado psicológico o tempo todo, ora estamos depressivos, ora com muita raiva e ódio, com sede de justiça e vingança em relação aos desgraçados que estão fodendo o mundo e as formas de vida.

Estive estranho nos últimos dias, muita fraqueza, moleza e dores nas pernas, um pouco de dor de cabeça, e muito sono. Talvez por isso a leitura da narrativa de Tchekhov tenha sido tão truncada. Cheguei a olhar para a estante e pensar que se fosse pra morrer por esses dias, que eu estivesse terminando outros livros que gostaria de ler antes de morrer. Que merda, isso! Nunca fui apegado à minha vida. Nunca! Mais velho e mais experiente hoje, e menos egoísta talvez, temos que lembrar que outras vidas dependem da nossa e, com isso, querer viver.

O texto "Enfermaria nº 6" tem um enredo que nos põe a pensar. Quem é demente e quem é normal? Quem deve ser internado e quem deve ficar solto? Alguém deve ser internado pelas suas ideias? Deve ficar livre alguém que estimula crimes? Se é normal falar e agir como o monstro que colocaram no poder no Brasil, se é normal existir o 1/3 dos animais humanos que apoiam e pensam como o genocida odioso no poder, então está tudo errado e não vejo mais sentido em lutar pela humanidade. Se uma parte da sociedade humana é como Hitler e Bolsonaro, preferiria que os humanos fossem extintos e o mundo seguisse habitado pelas outras espécies.

William


Post Scriptum: só mais uma questão: a solidão. Eu entendo o personagem Dr. Andriéi Iefímitch desejar tanto a solidão no contexto em que ele vive na narrativa. Por muitos anos em minha vida, eu tive que viver com outras pessoas, em barracos, em casas apertadas, num quarto com mais pessoas. Para conseguir paz e silêncio, eu ia para as praças de alimentação nos shoppings para ler. O burburinho da multidão era o meu silêncio. Por outro lado, a solidão é algo muito ruim quando não se quer estar só e não se tem alternativa. A experiência do jovem Chris McCandless no Alasca no início dos anos noventa é um exemplo a se observar. Ele descobriu que "Happiness only real when shared". Quando tive contato com o filme e o livro Na natureza selvagem (2007) fiquei olhando minha vida e na época senti que a mensagem pegou na veia. Acho que os momentos mais felizes de minha vida tinham sido ao lado das pessoas e não sozinho. É isso. 



Bibliografia:

TCHEKHOV, Anton. As três irmãs e contos. Coleção Imortais da Literatura Universal. Nova Cultural, 1995.


terça-feira, 20 de julho de 2021

Uma história enfadonha - Conto de Tchekhov



Refeição Cultural

Hoje li o conto "Uma história enfadonha das memórias de um homem idoso", de Anton Tchekhov. Achei que seria uma leitura rápida, mas acabei gastando o dia todo para ler as 50 páginas. O conto faz parte do livro que tenho em casa As três irmãs e Contos

Peguei o Tchekhov pra ler ontem à noite pra descansar a cabeça de um dia com muita leitura de política e sobre a Cassi/BB e acabei dando sono após umas vinte páginas. Como o entendimento estava ruim, recomecei do zero a leitura durante o dia.

A narrativa de hoje não foi diferente das outras que já li de Tchekhov. Elas não seguem o padrão tradicional dos contos com histórias que têm um início, desenvolvimento, tensão e conclusão. 

Suas narrativas mostram muita inação por parte dos personagens. Eles não fazem nada, não agem e acabam se conformando com as coisas como elas são e perdem oportunidades de mudar de vida ou de situação.

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A história do professor Nicolai Stiepánovitch nos apresenta questões sociais ainda hoje relevantes, se considerarmos que Tchekhov escreveu seus dramas e contos nas últimas décadas do século XIX e início do XX - ele morreu jovem, em 1904, aos 44 anos de idade.

A família não paga há meses o salário de $10 do empregado em casa, mas manda $50 mensais pra melhorar os rendimentos do filho oficial no estrangeiro.

O mesmo em relação à filha em casa:

"Por que, vendo como eu e sua mãe, cedendo a um sentimento falso, procuramos ocultar das pessoas a nossa pobreza, por que ela não renuncia ao dispendioso prazer de estudar música?" (p. 185)

O professor Nicolai tem um assessor, Piotr, que é um tipo muito comum na sociedade moderna. Um especialista, alguém que só sabe sobre aquilo que faz e não tem conhecimento algum de mundo, de nada. Essa questão virou uma praga no século XXI. Essa espécie de cidadão está fazendo morrer a criatividade humana.

"Em toda a sua vida, há de preparar algumas centenas de peças anatômicas de extraordinária pureza, escreverá muitos relatórios áridos, bem aceitáveis, fará uma dezena de traduções conscienciosas, mas não inventará a pólvora (...) Em suma, não é um patrão em ciência, mas um operário." (p. 189)

É legal a parte em que o professor Nicolai descreve sua desenvoltura na sala de aula, as estratégias de manutenção da atenção dos 150 alunos e seus critérios nas revisões de notas finais: aos que levam a vida na boa, ele não dá a menor chance, manda estudar mais e voltar depois pra fazer nova prova.

Tem um machismo e uma misoginia no texto que nos incomoda demais. Aff!

É isso. Aos poucos vou conhecendo os autores e textos russos.

William


Bibliografia:

TCHEKHOV, Anton. As três irmãs e contos. Coleção Imortais da Literatura Universal. Nova Cultural, 1995.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Vierotchka - Conto de Tchekhov



Refeição Cultural

Estou estudando uma disciplina na faculdade que está analisando o tempo nas narrativas e nas poesias. O programa e a seleção de autores escolhidos estão me fazendo ter contato com escritores que ainda não havia lido. Tchekhov é um deles.

Após a leitura dos contos "Um caso clínico", "Vanka", "O beijo" e "Kashtanka", li agora o conto "Vierotchka", de 1887. Ele está contido no livro que tenho de Tchekhov, As três irmãs, da coleção Imortais da Literatura Universal.

A estória é sobre um homem de 29 anos, Ivan Ogniov, que trabalha de estatístico para o governo. Ele faz incursões em regiões do interior de tempos em tempos, e em uma de suas estadias em certo local do interior, conhece uma moça de 21 anos, Viera Gravílovna, filha do responsável pelo distrito, o senhor Kuznietzov. A ação se desenvolve no momento da despedida de Ivan, ao voltar para São Petesburgo.

O final do conto é na mesma toada dos contos anteriores que li. Sem final feliz e muito semelhante à vida real da sociedade da época e, podemos dizer, também da sociedade atual.

O TEMPO NA NARRATIVA: PISTAS

"Ivan Alieksiéitch Ogniov lembra-se como, naquela noite de agosto (...) panamá de abas largas, o mesmo que jaz agora, com as polainas, na poeira debaixo da cama..." (TCHEKHOV, 1995, p. 149)

O narrador nos conta que Ivan está num local com cama e relembrando algo que já se passou.

A cena inicial é a despedida de Ivan da família Kuznietzov, após terminar seu trabalho de estatística. Daí seguirá a história. O narrador alterna diálogos com sumários.

"(...) Vivendo desde a primavera no distrito de N. e visitando quase diariamente os cordiais Kuznietzov, Ivan Alieksiéitch acostumou-se como um parente ao velho, à filha, aos criados, aprendeu a conhecer até nos mínimos detalhes toda a casa, o terraço aconchegado, as curvas das alamedas (...) mas daqui a um instante ele passará o portão e tudo isso se transformará em recordação, perdendo para sempre a significação real, e, passados ainda um ano ou dois, todas essas imagens queridas hão de empalidecer na consciência, a par das invenções e dos frutos da fantasia." (p. 151)

Descrição de Viera, feita a partir do narrador, que expressa seu ponto de vista sobre determinada categoria de moças, que inclui a filha de Kuznietzov:

"Diante de Ogniov, estava a filha de Kuznietzov, Viera, moça de vinte e um anos, geralmente triste, descuidada no trajar e interessante. As moças que devaneiam muito e passam dias inteiros deitadas, lendo tudo o que lhes vem à mão, que se enfadam e entristecem, vestem-se geralmente com desleixo. Mas esse ligeiro desleixo no traje acrescenta um engano peculiar àquelas que a natureza dotou de gosto e do instinto da beleza. Pelo menos lembrando-se mais tarde da bonita Viérotchka, Ogniov não podia imaginá-la a não ser..." (p. 151)

De novo, vemos a marca do tempo na descrição, trata-se de passado para o personagem Ogniov a lembrança da jovem "leitora" Viera.

Em um diálogo com a jovem, o estatístico explica por que nunca teve um romance em seus 29 anos de vida:

"- Mas por que isso lhe aconteceu assim?

- Não sei. Provavelmente, a vida inteira não tive tempo, e talvez simplesmente não tive ocasião de me encontrar com mulheres que... Em geral, tenho poucas relações e não vou a parte alguma." (p. 153)

As características de Viera e Ivan, descritas até aqui, são pistas que darão sentido ao desenvolvimento da ação e ao desfecho do conto. As marcas na narrativa também estão ali para interligar o começo com o fim da história, na cama do quarto da pensão.

Mais um conto lido de Tchekhov.

William


Bibliografia:

TCHEKHOV, Anton. As três irmãs e contos. Coleção Imortais da Literatura Universal. Nova Cultural, 1995.


quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Kaschtanka (relato) - Conto de Tchekhov



Refeição Cultural

Leitura de mais um conto de Tchekhov, que está no livro As três irmãs, da coleção Imortais da Literatura Universal. Estória muito bem desenvolvida. 

A personagem é uma cadela ruiva - mistura de basset e vira-lata. O conto é narrado em 3ª pessoa e o narrador atua de forma muito interessante, pois apresenta o ponto de vista de Kaschtanka.

Ela se perde de seu dono, Luká Alieksándritch, um marceneiro, em uma das saídas e bebedeiras dele, e acaba sendo adotada por outra pessoa.

"Uma jovem cadela ruiva - mistura de basset e vira-lata -, muito parecida de cara com uma raposa, corria de um lado a outro sobre a calçada e espiava inquieta para os lados. Parava de raro em raro e, chorando, erguendo ora uma pata enregelada, ora outra, esforçava-se por compreender: como pudera perder-se?" (TCHEKHOV, 1995, p. 131)

HIERARQUIA E VALORES: a cadela era muito maltratada pelo antigo dono, Luká. Veja:

"- Você, Kaschtanka, é um inseto e nada mais. Em relação ao homem, você é o mesmo que um carpinteiro em relação a um marceneiro..." (p. 132)

VISÕES DE MUNDO DE KASCHTANKA: o narrador nos apresenta a forma como a cadela vê o mundo:

"Ela dividia toda a humanidade em duas partes muito desiguais: os patrões e os fregueses; havia uma diferença essencial entre ambas: os primeiros tinham o direito de surrá-la, mas ela mesma tinha o direito de agarrar os segundos pela barriga da perna." (p. 133)

SAUDADES DO ANTIGO LAR: após ser adotada por um desconhecido, e bem tratada por ele, Kaschtanka não deixa de sentir saudades e fica triste:

"(...) fechou os olhos (...) mas, de súbito e inesperadamente, uma tristeza apossou-se dela. Lembrou-se de Lucká Alieksándritch, do seu filho Fiédiuschka, do lugarzinho aconchegado sob a cadeira alta..." (p. 134)

E chora:

"E quanto mais vivas eram as lembranças, mais alto e angustiosamente chorava Kaschtanka." (p. 135)

NOVA VIDA NA CASA DE UM DESCONHECIDO

A cadela passa a viver em outro lar e conhece outros animais, todos com nomes, o ganso Ivan Ivánitch, o gato Fiódor Timofiéitch e a porca Khavrónia Ivánovna. Eles são treinados pelo dono para fazerem acrobacias e coisas surpreendentes.

O novo dono é o "patrão", não tem nome, como ocorre com os animais.

Os leitores sabem o nome de Kaschtanka, mas o novo patrão não sabe. Ele passa a chamá-la de Titia. 

Em certo momento na narrativa, o narrador adota o nome Titia e não mais Kaschtanka.

SAUDADES E TRISTEZA: "A aula e o jantar tornavam o dia muito interessante, mas as noites eram um tanto enfadonhas. À noitinha, geralmente, o patrão ia para alguma parte, levando consigo o ganso e o gato. Ficando sozinha, Titia deitava-se sobre o colchãozinho e ficava tristonha... A tristeza esgueirava-se para junto dela de certa maneira imperceptível e apossava-se do seu ser pouco a pouco, como a treva toma conta de um quarto." (p. 139)

UM ESTRANHO NO AMBIENTE, A MORTE: 

- "O alarma e o desassossego apossaram-se de tudo, mas por quê? Quem era esse estranho, que não se conseguia ver?..." (p. 142)

- "Titia não compreendia o que dizia o patrão, mas pelo seu rosto viu que ele esperava algo terrível. Estendeu o focinho para a janela escura, pela qual, parecia-lhe, um estranho estava olhando, e pôs-se a uivar." (p. 142)

- "Começava a amanhecer, e no quartinho não estava mais aquele desconhecido invisível, que deixava Titia tão assustada..." (p. 143)

NOVA REVIRAVOLTA

Tchekhov é muito bom! A estória já nos surpreendeu diversas vezes e da metade para o fim, novas reviravoltas acontecem.

Gostei bastante do conto.

William


Bibliografia:

TCHEKHOV, Anton. As três irmãs e contos. Coleção Imortais da Literatura Universal. Nova Cultural, 1995.


segunda-feira, 26 de outubro de 2020

O beijo - Conto de Tchekhov



"A água corria não se sabia para onde e para quê. Correra de maneira idêntica em maio. Ainda em maio, saíra de um ribeiro para se derramar no grande rio, passara depois para o grande mar, evaporara-se, transformara-se em chuva e talvez fosse a mesma água que nesse instante corria aos olhos de Riabóvitch... Para quê? Com que fim?" (TCHEKHOV, 1995, p. 130)


Refeição Cultural

Após tomar contato com os primeiros contos de Anton Tchekhov - "Um caso clínico" e "Vanka" -, agora inicio a leitura das narrativas do autor contidas em um livro que tenho em casa, da coleção Imortais da Literatura Universal, que traz a peça teatral "As três irmãs" e mais alguns contos.

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O beijo - Tchekhov

O narrador nos apresenta uma brigada de artilharia que se prepara para montar acampamento e pernoitar na aldeia de Miestietchko. O tempo é apontado com exatidão: "Às oito horas da noite de 20 de maio...".

Os oficiais recebem a visita de um homem à paisana, montado num "cavalo estranho", que comunica a eles o convite do proprietário de terras local para que compareçam à casa dele para um chá. É o general Von Rabbek quem os convida.

Os oficiais foram a contragosto porque tinham lembrança de outro evento parecido no qual tiveram que passar a noite acordados ouvindo um conde se vangloriar de tudo. Mas de cara souberam que o convite era protocolar e nada parecido com o evento anterior.

O narrador nos apresenta o Capitão Riabóvitch como "o mais tímido, o mais modesto e o mais incolor dos oficiais de toda a brigada". Após o chá, os oficiais se reúnem aos demais convidados do general, familiares diversos, num salão com músicas e danças.

Riabóvitch, após andar pelo casarão com outros oficiais, se encontra só num salão escuro e recebe um beijo inesperado:

"(...) Nesse ínterim, inesperadamente para ele, ouviram-se passos apressados e um frufru de vestido, uma ofegante voz feminina murmurou: 'Até que enfim!' e dois braços macios, cheirosos, indiscutivelmente femininos, envolveram-lhe o pescoço; uma face tépida apertou-se contra a sua e, ao mesmo tempo, ressoou um beijo..." (TCHEKHOV, 1995, p. 120)

Após essa "pequena aventura" na casa dos Rabbek, a vida seguiu para Riabóvitch e os demais membros da brigada.

Assim como nos dois outros contos que li de Tchekhov, a estória não tem aquela estrutura tradicional de contos conforme nos ensina Poe em sua Filosofia da composição

Esse conto me lembrou a explicação que a professora Viviana Bosi nos deu sobre o autor russo, que nos seus contos "não necessariamente precisam acontecer coisas extraordinárias que se desenvolvam num clímax e desenlace óbvios" (BOSI, Viviana. Introdução a Tchekhov)

Para o personagem Riabóvitch, aquela aventura passou a fazer parte de suas boas recordações, assim como se lembrar dos entes queridos.

"Nas horas de ócio ou nas noites de insônia, quando lhe dava na veneta lembrar a infância, o pai, a mãe, em geral o que era próximo e querido, lembrava invariavelmente também Miestietchko, o cavalo estranho, Rabbek, a esposa dele, que lembrava a Imperatriz Eugênia, o quarto escuro, a fenda iluminada da porta..." (p. 128)

É isso, mais um conto de Anton Tchekhov.

William


Bibliografia:

TCHEKHOV, Anton. As três irmãs e contos. Coleção Imortais da Literatura Universal. Nova Cultural, 1995.


domingo, 25 de outubro de 2020

Vanka - Conto de Tchekhov


Tchekhov, imagem Wikipedia.

Refeição Cultural

Li hoje o segundo conto de Tchekhov. É um conto de gênero narrativo, mas é um conto dramático, porque é difícil não sentir o coração apertar ao ler a estória do garoto Vanka, uma criança órfã de nove anos de idade.

Segue abaixo alguns apontamentos que fiz durante a leitura.

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Vanka - Tchekhov


A estória introduz o garoto Vanka Jukov, de 9 anos de idade, deixado 3 meses antes em uma casa de sapateiro, Aliákhin, para que aprendesse o ofício. É noite de Natal. Vanka não saiu para a missa com os patrões e demais aprendizes. O garoto se prepara para escrever.

O garoto começa a escrever para seu avô. Cito abaixo. As aspas são do próprio texto.

“Querido vovô, Constantin Macáritch! – escreveu – te escrevo uma carta. Dou-lhe os parabéns pelo Natal e desejo a ti tudo o que te possa dar Deus, nosso Senhor. Não tenho pai nem mãezinha, só me ficou você no mundo”.

O avô de Vanka é guarda noturno em outra propriedade: “É um velhinho miúdo, magricela, mas extraordinariamente vivo e ligeiro, de uns 65 anos, com rosto sempre risonho e olhos ébrios”. Anda com dois cachorros, a velha Kachtanka e o machinho Viun “assim chamado por causa de sua cor preta e do corpo comprido, como de uma lontra”.

Após o narrador caracterizar o avô de Vanka, a narrativa retorna para o garoto e o leitor passa a ler o conteúdo da carta ao vovô Macáritch. É duro de ler, comovente, porque o menino descreve todas as infelicidades que enfrenta desde que foi deixado com Aliákhin.

“Vovozinho querido, não aguento mais, vou morrer. Eu já quis fugir para ir a pé até a aldeia, mas não tenho botas estou com medo do frio...”.

O garoto se lembra de tempos melhores do que o que está vivendo, quando estava na antiga casa onde vivia, antes de sua mãe Pielaguéia falecer, época inclusive em que lhe ensinaram a ler e a contar até cem.

“Vanka suspirou convulsivamente e fixou novamente os olhos na janela. Lembrou-se...” – o garoto segue com suas lembranças, mas quem nos conta é o narrador: 

“Quando ainda era viva a mãe de Vanka, Pielaguéia, e trabalhava de arrumadeira em casa dos senhores, Olga Ignátievna dava caramelos a Vanka e, por não ter o que fazer, ensinara-lhe as letras, contar até cem e, mesmo, dançar quadrilha. Mas, depois que Pielaguéia morreu, Vanka foi encaminhado para junto do avô, na cozinha da criadagem, e da cozinha para Moscou, à casa do sapateiro Aliákhin...”

O final deste conto tem um pouco de semelhança com o final do outro conto que li, “Um caso clínico”. O leitor tem um final aberto, com um fio de esperança para o personagem ou esperança no amanhã.

Na minha opinião, fica clara a postura de Tchekhov ao abordar tema tão duro como esse de maus tratos às crianças, tema de denúncia social sobre condições adversas para determinados grupos sociais. A condição do pequeno órfão Vanka é desesperadora.

Gostei dos textos de Tchekhov que li até agora.

William

Bibliografia:

TCHEKHOV, Anton. A dama do cachorrinho e outros contos. Tradução de Boris Schnaiderman. São Paulo, Max Limonad, 1985.

Um caso clínico - Conto de Tchekhov


Tchekhov, imagem Wikipedia.

Refeição Cultural

Eu ainda não havia lido Anton Tchekhov. Não havia aparecido a oportunidade. Hoje, tomei contato com o autor através do conto "Um caso clínico", de 1898. 

O conto é muito interessante e muito atual em relação à temática que aborda: a condição da classe operária e as idiossincrasias que o modo de produção capitalista traz para as pessoas e para as relações sociais, inclusive de parcela dos beneficiários do sistema.

A leitura do conto está inserida no contexto de estudos da disciplina de Literatura Comparada II, que estou cursando com a professora Viviana Bosi, em meu curso de Letras na Universidade de São Paulo.

Segue abaixo, anotações que fiz durante a leitura do conto. É uma espécie de fichamento com observações que achei pertinentes em face dos textos que estou lendo sobre o tempo nas narrativas ficcionais.

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Um caso clínico - Tchekhov


Conto narrado em 3ª pessoa, discurso indireto livre. Narrador demiurgo, sabe o que personagens pensam e sentem.

Conforme li no texto de Benedito Nunes - O tempo na narrativa -, o conto utiliza tempos verbais no pretérito perfeito e no mais-que-perfeito, características comuns nas narrativas.

“O professor recebeu um telegrama da fábrica dos Liálikov...” 1º parágrafo. “O professor não foi pessoalmente, mas enviou seu assistente, Korolióv.” – fim do 1º parágrafo.

O 2º parágrafo é uma descrição de lugar e das coisas. Vemos tempos verbais de pretérito imperfeito, de ações continuadas, e verbos no gerúndio: “O cocheiro usava chapéu com pena...”; “Korolióv estava maravilhado com o entardecer...”.

No 3º parágrafo, que fala sobre o assistente Korolióv, temos o uso do mais-que-perfeito: “Ele nascera”; “nem visitara”; “tivera ocasião”. O narrador demiurgo, que tudo sabe, demonstra isso ao saber o que o personagem pensa: “pensava que”; “adivinhava em seus rostos”.

Descrição da moça adoentada, herdeira das fábricas: “Foram ver a doente. Completamente adulta, grande, de boa estatura, mas feia, parecida com a mãe, com os mesmos olhos pequenos (...), causou a Korolióv, no primeiro instante, a impressão de uma criatura infeliz, indigente, agasalhada por piedade naquela casa, e custava-lhe crer que fosse herdeira de cinco enormes edifícios”. 

Quando a moça começou a chorar, a imagem que Korolióv fazia dela mudou e ficou menos rude: “Via agora uma expressão suave e dolorida, tão inteligente, tão comovedora, e toda ela pareceu-lhe esbelta, feminina, singela, inspirando já uma vontade de acalmá-la...”. 

Ao ser solicitado para passar a noite na casa da convalescente, o assistente Korolióv observa o cenário do ambiente e nos transmite o que pensa, através do narrador demiurgo: “A cultura ali era pobre, o luxo, casual, sem sentido e sem conforto, como aquele uniforme...”. 

Através da governanta Khristina Dmítrievna, ficamos sabendo da condição da família. O marido Piotr Nicanóritch havia morrido há mais de um ano e viviam na casa as três: ela, a patroa e a filha de saúde frágil. Khristina estava com a família há onze anos e disse “É como se eu fosse da família”.

Exploração faz mal à saúde dos trabalhadores: o assistente Korolióv, após tentar ser convencido pela governanta que os operários da fábrica eram muito bem tratados – havia ali espetáculos teatrais e assistência médica -, avalia de forma magnífica o que significa a não condição de saúde do proletariado explorado. Descrição fantástica:

“Na qualidade de médico, aprendera a fazer juízo acertado sobre os males crônicos, de causa essencial desconhecida, o que os tornava incuráveis, e olhava para as fábricas como um mal-entendido, cuja causa era igualmente obscura e impossível de afastar. Quanto aos melhoramentos na vida dos operários, não os considerava supérfluos, mas comparava-os ao tratamento das doenças incuráveis”. 

A conclusão do assistente Korolióv é impressionante: quase dois mil trabalhadores explorados, uns cem chefetes que controlam eles, a dona da fábrica e a filha que nada aproveitam da situação, sendo infelizes e doentes, e só a governanta (a instruída) que tira proveito de tudo aquilo, comendo esturjão e tomando vinho bom. Fantástica análise do narrador/autor: 

“(...) e somente dois ou três dos chamados patrões aproveitam as vantagens de tudo aqui, embora absolutamente não trabalhem e desprezem aquela chita inferior. Mas, quais são essas vantagens e como são aproveitadas? Liálikova e a filha são infelizes, inspiram compaixão, e somente Khristina Dmítrievna, solteirona um tanto idosa e estúpida, de pince-nez, tira todo o prazer de sua vida ali. Conclui-se, portanto, que se trabalha naqueles cinco pavilhões e vende-se chita ordinária nos mercados do Oriente, unicamente para que Khristina Dmítrievna possa comer esturjão e tomar madeira.”

Tchekhov introduz uma questão fantástica no conto: o diabo. “Somente a governanta sente-se bem aqui e a fábrica funciona unicamente para satisfazer seus prazeres. Mas ela parece ser apenas uma espécie de testa-de-ferro. O mais importante de todos, aquele para quem se faz tudo aqui, é o demônio”.

As aspas acima são do próprio texto, ou seja, é o pensamento do personagem Korolióv.

O narrador alerta o leitor logo em seguida, a respeito das crenças do assistente: “E ele pensou no diabo, em quem não acreditava, e ficou olhando para as duas janelas iluminadas pelo fogo”. (a imagem descrita é perfeita)

A crítica do texto ao modo de produção capitalista é muito clara, ao menos para nós leitores do século XXI. “(...) no entanto, na mixórdia da vida cotidiana, na confusão de toda a miuçalha de que são tecidas as relações humanas, aquilo já não era uma lei, mas uma contradição, uma incompatibilidade lógica, pois tanto o forte como o fraco tombavam vítimas de suas relações mútuas, submetendo-se involuntariamente a alguma força diretriz, desconhecida, situada fora da vida, estranha ao homem”. 

A jovem Lisa, sozinha e acordada na madrugada, conversa com o assistente Korolióv e releva a ele que mais do que um médico, ela precisaria de uma pessoa amiga. Diz ler muito e ser solitária. “Os solitários leem muito, mas falam e ouvem pouco, a vida é um mistério para eles: são místicos e enxergam, muitas vezes, o diabo onde ele não está...”. 

O conselho que o assistente teria que dar a ela é que saísse daquele local, onde o diabo com olhos de fogo (a imagem da fábrica e as janelas iluminadas pelo fogo) espreitava ela o tempo todo: “E ele sabia o que lhe dizer. Via claramente que ela deveria deixar o quanto antes aqueles cinco pavilhões e o milhão, se o possuía; e deixar aquele demônio que ficava olhando de noite...”. 

A parte final do conto é muito boa. Da forma que lhe é possível, o assistente diz para Lisa que ela tem uma insônia de peso de consciência por saber da condição privilegiada que tem, uma “insônia digna”. O assistente Korolióv nutre alguma esperança no amanhã, com um mundo mais justo e igualitário, que sua geração não vai ver, mas que as próximas gerações verão.

Ótimo conto para conhecer Anton Tchekhov! O texto é de 1898.

William


Bibliografia:


TCHEKHOV, Anton. A dama do cachorrinho e outros contos. Tradução de Boris Schnaiderman. São Paulo, Max Limonad, 1985.

Tempo (V)



Refeição Cultural

Domingo de chuva amena em Osasco, São Paulo. Diria que o tempo está belíssimo, posto que a chuva é refrescante e a natureza se beneficia dela. Nas últimas horas, o clima alternou sol e chuva.

Estou às voltas com textos teóricos que tratam das temáticas tempo, narrativa, história, literatura. Meus estudos se dão no contexto da disciplina que estou fazendo neste semestre na Universidade de São Paulo, a disciplina Literatura Comparada II, com a professora Viviana Bosi.

A primeira leitura do dia foi o capítulo 4 "Ó tempos! Ó verbos!" do livro de Benedito Nunes - O tempo na narrativa. Muito interessantes os conceitos abordados. Segundo Harald Weinrich, teríamos tempos verbais mais comuns à situação de narrar e outros à situação discursiva, de comentário. Porém as situações se mesclam também:

"Sem serem estanques, as duas situações de locução, narrar e comentar, se interpenetram. Podemos narrar empregando o presente e discorrer no pretérito se nosso interesse é o de conhecer o passado. O pretérito assinala que há narrativa, e não o fato de que esta se realiza para trás no tempo que passou." (NUNES, 1995, p. 40)

Nunes nos explica uma das relações criadas entre o autor e o leitor em uma obra ficcional narrativa, a criação de um conceito de "quase-passado". Vou citar o conceito abaixo porque ele chama muito a atenção. Nunes cita um autor no trecho, Paul Ricoeur.

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"Mas por que a narrativa ficcional, até a que transpõe para o futuro, 'conta o irreal como se o irreal fosse passado'?, pergunta Paul Ricoeur. Por que o passado subsiste e insiste na forma do pretérito? O pretérito guardaria esse privilégio devido à voz narrativa.

      disfarce fictício do autor real. Uma voz fala contando aquilo que se realizou para ela. Ingressar na leitura é incluir no pacto entre leitor e autor a crença de que os acontecimentos reportados pela voz narrativa pertencem ao passado dessa voz (Ricoeur).

É pois o leitor a quem essa voz se dirige, que atualiza o passado épico como um quase-passado. Em última análise, o tempo da narrativa não decorre somente das relações entre o autor fictício e o texto, mas depende também, das relações entre o texto e seu destinatário, o leitor." (p. 44)

Essa questão do pacto entre leitor e autor ou entre leitor e narrador ficcional é muito importante na leitura literária.

Textos teóricos como esse de Benedito Nunes, que citam diversas obras clássicas, deixam a gente ora meio diminuídos por não termos lido diversas delas, ora nos deixam orgulhosos quando já lemos algumas das obras citadas. 

Nunes já citou A montanha mágica (Mann), Cem anos de solidão (Márquez), Admirável mundo novo (Huxley), O processo (Kafka), A causa secreta (M. de Assis), obras que já li (eba!). Mas já citou tantas obras que não li, aff! Exemplos: Orlando (Woolf), O nome da rosa (Eco), Memorial do convento (Saramago), O castelo (Kafka) e por aí vai...

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Enfim, o roteiro da disciplina que estou fazendo é excelente, instigante! Agora vou ler a respeito de Tchekhov, e vou ver dois contos dele - Um caso clínico e Vanka. Na aula anterior, trabalhamos com Baudelaire, poeta que praticamente não conheço. Lemos alguns poemas dele.

Seguimos estudando, independente da fase da existência em que nos encontramos. Todo dia é dia de aprender algo novo. É melhor ocupar a mente com estudos do que com ódios e sentimentos destrutivos.

William



Bibliografia:

NUNES, Benedito. O tempo na narrativa. Série Fundamentos. Editora Ática, São Paulo, 1995.