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terça-feira, 19 de março de 2024

Artigo: Não podemos esquecer o 31 de março de 1964


Texto e ilustração publicados em RBA.

Refeição Cultural

Apresentação do texto "Papo cabeça no MSN", de José Roberto Torero.


Estamos nos aproximando do dia 31 de março e por incrível que pareça o nosso governo do campo democrático e popular, o governo do presidente Lula (PT), determinou que a data neste ano seja esquecida, que não seja um dia de reflexões e manifestações por marcar os 60 anos do golpe de Estado no Brasil. Avalio que esse seja um dos maiores equívocos de nosso querido líder e companheiro Lula em muitos anos de vida política. Avalio ainda que há tempo para que essa determinação errada seja corrigida.

O texto do escritor e jornalista José Roberto Torero é espetacular pelas características que traz em si. Nós usávamos o texto em curso de formação sindical. O texto foi publicado na Rede Brasil Atual, uma aposta que fizemos em veículos de comunicação alternativos às mídias dos donos do poder. Eu estava como dirigente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região quando debatemos o projeto com outros sindicatos e políticos à época.

O que será de nós se realmente prevalecer a tese de que não se deve mais estudar o passado e aprender as coisas boas e ruins que fizemos ou que sofremos enquanto classe trabalhadora e povo explorado pelos poucos donos de todos os meios, os donos do poder? 

Vivemos numa nova era, a era das redes sociais e meios virtuais concentrados nas mãos de poucos humanos e suas corporações, a era do incentivo à ignorância por parte dos negacionistas e extremistas de direita, para facilitar o domínio das mentes e comportamentos dos animais humanos.

O bate-papo entre os dois jovens foi uma sacada incrível do escritor, antecipou muito do que iríamos vivenciar anos depois. É isso, vamos ao texto. 

Presidente Lula, é importante que haja um grande momento de reflexão nacional neste dia 31 de março de 2024. E que o povo brasileiro esteja preparado para que nunca mais ataquem a democracia e imponham ditaduras no Brasil.

A tentativa de novo golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023 quase nos jogou naquele período que alguns segmentos querem apagar ou reescrever, mentindo sobre a história. A começar por chamar de "revolução" o que sabemos ser um golpe patrocinado por traidores da pátria com apoio do imperialismo norte-americano.

William

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Papo cabeça na internet

Por: José Roberto Torero


Fê: E aí?
Dado: Firmeza. E aí?
Fê: Show de bola. Fez o homework?
Dado: Que homework?
Fê: O que a profe pediu.
Dado: Putz, caraca! A de história, né?
Fê: Só.
Dado: Que saco, esqueci! Qual que era a bagaça mesmo?
Fê: Espera que eu vou ver.


Dado: Achou?
Fê: Espera, pô! Ah, tá aqui: diga por que o dia 31 de março mudou a história do nosso país.
Dado: Tem ideia?
Fê: Nadica.
Dado: Então a gente se fala tipo daqui a pouco. Bj.
Fê: Bj.

(Meia hora depois.)

Fê: E aí, foi no Google?
Dado: Fui. E vc?
Fê: Total.
Dado: Matou a charada?
Fê: Matei.
Dado: Então fala aí, gata, por que o 31 de março mudou a história do nosso país?
Fê: Se liga: no dia 31 de março de 1889 a Torre Eiffel foi dedicada à cidade de Paris.
Dado: Bizarro. Mas o que isso tem a ver tipo com o Brasil?
Fê: Ah, sei lá! Antes não tinha a torre, entendeu? Aí os brasileiros não entravam numas de ir pra fora, conhecer o mundo. Fez a torre, aí abriu pra ir, visitar e os caras começaram a viajar. Por isso que tem tanto brazuca lá fora, tá ligado?
Dado: Louco.

Fê: Você achou algum treco?
Dado: Uma pá de coisa!
Fê: Fala uma.
Dado: Tipo, eu achei que nesse dia, em 1492, uns reis lá expulsaram os judeus da Espanha.
Fê: E aí? Onde que o Brasil entra nessa?
Dado: É que aí os judeus tiveram que ir pra Alemanha, o Hitler caiu em cima dos caras e eles vieram pra cá.
Fê: Pra Higienópolis?
Dado: Tudo a ver.

Fê: Sabe, cara, tô achando que pode ser outra coisa.
Dado: Tipo o quê?
Fê: É que eu também achei isso, ó: no dia 31 de março de 1900 saiu o primeiro anúncio de carro da história. Era uma firma da Filadélfia, meu, e eles publicaram o anúncio num jornal que chamava Saturday Evening Post. Vai ver é isso, porque aí os brasileiros acharam o anúncio o maior chique, começaram a comprar carro e acabou dando esses congestionamentos.

Dado: Sei não, nada a ver… Eu estou numa de que é uma coisa mais… sabe?, um troço mais zoado.
Fê: Mas, meu!, o quê?
Dado: Sei lá, um treco tipo guerra, entende?
Fê: Nadica.
Dado: Eu li num lugar aí que teve uma revolução aqui.
Fê: Aqui? No bairro? Xi, agora só vou sair na rua de capacete.
Dado: Pô, gata, é sério!
Fê: Rs, rs, rs, rs.

Dado: Olha só: parece que teve uma revolução mesmo, tipo um negócio com general.
Fê: Se liga, vc acha que teve guerra aqui?
Dado: Pô, de repente teve, sei lá…
Fê: Com esse negócio de espião, granada, metralhadora? Você pirou! Daqui a pouco vc vai dizer que torturaram neguinho no Brasil.
Dado: Pode ser. Que nem fizeram no Iraque. Eu vi no YouTube.
Fê: Ai, meu, sei lá… pra mim isso é viagem sua.

Dado: Pô, a gente fica com o que, então?
Fê: Paris, meu. Relaxa que é aquele lance da Torre Eiffel.
Dado: Tá bom, vou na sua. Me atacha a sua pesquisa que eu colo no arquivo.
Fê: Tá indo… Tá indo… Foi.
Dado: Valeu. Agora eu vou jogar umas duas horas de Mortal Annihilation.
Fê: E eu vou dar um rolê
no Shopping. Blz?
Dado: Blz.

Fonte: ilustração e texto da RBA (04/04/2013)

terça-feira, 30 de junho de 2020

Trabalhadores do mundo, uni-vos!





Sobre a greve dos entregadores de aplicativos em 1º de julho

Ao ler uma matéria da Rede Brasil Atual (reportagem no fim do comentário) sobre a greve dos entregadores de aplicativos, marcada para amanhã, quarta-feira, 1º de julho, e tomar conhecimento das condições de trabalho e o nível de super exploração a que estão submetidos milhões de pessoas, a vontade que temos é de chorar. É muita desgraça na nossa cara, no dia a dia e parece que não tem nada a ver conosco!

Mas vamos aos fatos. Chorar não vai sensibilizar os seres humanos exploradores que estão por trás da super exploração dos trabalhadores. Só a luta, só o incômodo, só a mobilização e o transtorno na vida ou nos lucros dos caras que lucram com a desgraça dos outros é que pode gerar alguma condição de mudança de realidade. 

Os explorados precisam se unir e lutar. Às vezes, viver sob certas condições de miséria e sofrimento nos faz até pensar se vale a pena viver. E vale! A vida é um amanhecer de possibilidades, de oportunidades e desafios. Temos que lutar pela vida, pela vida digna. Pela vida com justiça para todos. Com igualdade de oportunidades e tolerância entre as pessoas.

Leiam a reportagem e vejam se alguém decente poderia deixar de apoiar a greve e as reivindicações desses trabalhadores na luta por uma remuneração digna, direitos básicos, condições de trabalho. Nós temos que interromper essa super exploração que vivemos nesse momento de nossa história humana.

A intenção dos poucos humanos que detêm quase tudo, detêm pela força, pela herança, pela manipulação, pela ideologia - o chamado 1% e os lacaios que os mantêm onde estão no topo da cadeia de exploração -, é igualar toda a humanidade por baixo, querem que não existam mais profissões regulamentadas, direitos trabalhistas, previdenciários, sociais, civis, políticos, direitos humanos, para o restante da população fora das bolhas bilionárias nas quais eles se fecham. Vamos aceitar isso?

Não dá! Não dá mesmo! O povo tem que reagir!

William

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Desemprego levou a aumento da procura pela função,
derrubando os rendimentos. Foto: Roberto Parizotti.

Entregadores de aplicativos fazem greve nesta quarta-feira contra exploração


Queda no valor das entregas e fim dos bloqueios indevidos estão entre as principais reivindicações. Consumidor pode ajudar boicotando os aplicativos

Matéria de Tiago Pereira, da RBA. *


São Paulo – Para barrar a sanha dos aplicativos que se alimentam da exploração, entregadores prometem parar as atividades nas principais cidades do Brasil nesta quarta-feira (1º). A greve deve alcançar outros países da América Latina, como Argentina, Chile e México, já que as mesmas empresas estão presentes em diversos locais.

As principais reivindicações são o aumento do valor mínimo das entregas e dos pagamentos recebidos por quilômetro rodado. Eles querem o fim dos bloqueios indevidos. Por outro lado, também consideram injustos os sistemas de pontuação das plataformas.

Em meio à pandemia, pedem ainda o custeio pelas empresas dos equipamentos de proteção individual (EPIs) – luva, máscara, álcool em gel – e licença remunerada para os trabalhadores que foram contaminados. Além disso, os entregadores reivindicam benefícios, como vale-refeição e seguro contra roubo, acidente e de vida.

Em São Paulo, os entregadores marcaram pontos de encontro, às 9h, em cada zona da cidade, na região central, e também em Barueri, Osasco, Embu das Artes e no ABC. Primeiramente, devem percorrer as respectivas regiões, buscando a adesão dos demais colegas. Na sequência, se encontrarão às 14h, na Avenida Paulista, onde realizam uma manifestação.

Posteriormente, ainda na parte da tarde, os entregadores se dirigem até a Ponte Estaiada, na Marginal Pinheiros, zona sul da cidade. Além de “brecar” as entregas do jantar, eles querem que a TV Globo faça a cobertura da manifestação, no horário do jornal local.


Competição

Ifood, Rappi, James, Uber Eats, por exemplo, se definem como empresas de tecnologia, sem vínculos com os trabalhadores. Quando surgiram, as remunerações satisfatórias e a flexibilidade da jornada eram os principais atrativos. Contudo, com o aumento do desemprego e da informalidade, muitos encontraram o seu ganha pão nessa função. Por outro lado, com maior oferta de mão de obra, a concorrência aumentou. Consequentemente, o valor pago aos entregadores caiu.

Pesquisa on-line realizada pela Rede de Estudos e Monitoramento da Reforma Trabalhista (Remir Trabalho), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mostra que 68,9% dos entregadores tiveram queda nos ganhos durante a pandemia. Antes, 17% diziam ganhar em torno de um salário mínimo (R$ 1.045). Agora, são 34%, um terço do total. Por outro lado, caiu para 26,7% a proporção dos que afirmavam ganhar acima de dois salários mínimos. Antes da pandemia, eram mais da metade (51%).


Insatisfeitos

A reportagem ouviu relatos de três entregadores para saber mais sobre as condições que levaram à greve. As insatisfações não são recentes. Para além da inexistência de direitos, eles reclamam que não recebem qualquer tipo de apoio das plataformas. Agora, com o aumento dos riscos para a saúde e a queda nos rendimentos, a situação se tornou insustentável.


“Motoca”

O entregador conhecido como Mineiro (preferiu não se identificar para evitar eventuais punições) conta que eles se articulam por meio de grupos de WhatsApp. As conversas com vistas à paralisação começaram há cerca de um mês. Ele tem 30 anos, e trabalha há três como entregador de aplicativo. É morador do Parque Bristol, zona sul de São Paulo, mas se desloca fazendo entregas por toda a região metropolitana.

Na sua percepção, o número de “motocas” aumentou cerca de três vezes nos últimos anos. “Se você parar num semáforo aqui, em São Paulo, tem no mínimo 20 motos naquela área reservada. Dessas 20, 19 são entregadores, entendeu?”. Com o aumento da concorrência, o valor pago pelo quilômetro rodado caiu de cerca de R$ 1,5 para R$ 0,93. “Eles estão de brincadeira com a nossa cara. A gasolina aumentou de novo. E a gente não tem condições de ficar bancando.”

Ele também reclama dos bloqueios indevidos. “Quando você é mandado embora de uma empresa, tem que ter uma justificativa. Mas não, eles simplesmente te bloqueiam. Se a pessoa fica doente, eles te bloqueiam. Sofre um acidente, te bloqueiam. Se o cliente reclama, a gente não tem defesa nenhuma, porque simplesmente não tem como falar com os aplicativos.”

Durante a pandemia, Mineiro diz que uma das empresas passou a oferecer máscaras e álcool em gel por apenas dois dias. Mesmo assim, só depois que cerca de 400 entregadores decidiram protestar. Sobre o auxílio para os trabalhadores contaminados, ficou na promessa. “Nunca foi repassado. Até hoje, o único auxílio que eles receberam foi um bloqueio na tela, sem justificativa.” Por esses motivos, ele espera uma adesão à paralisação de “pelo menos 98%” dos colegas.


Ex-empreendedor

Rafael Ferreira, de 33 anos, mora na região da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro. Ele conta que começou a fazer entregas quando era sócio de um restaurante. Com o fim da sociedade, passou a se dedicar exclusivamente aos aplicativos. No início, há cerca de dois anos, trabalhava “no máximo seis horas por dia”, seis dias por semana. Era o suficiente para garantir o sustento da família.

“Agora, só saio da rua quando bato a minha meta em dinheiro. Pode ser 9 horas da noite, 10, 11. Num dia bom, acabo mais cedo. Não é uma coisa fixa. Mas, com certeza, é preciso trabalhar bem mais hoje para sobreviver do que antigamente.”

Rafael relata que trabalhava apenas com o Ifood. Hoje, está cadastrado em seis aplicativos de entrega. Em um deles, o Uber Eats, foi impedido de trabalhar. “Não me deram a menor justificativa. Simplesmente me bloquearam.”

O pagamento inferior a R$ 1 por quilômetro rodado torna a função praticamente inviável, segundo Rafael. Até porque as empresas não pagam pelo deslocamento até a coleta do produto. Também reclama da falta de infraestrutura para os entregadores, que não contam com elementos básicos, como banheiro e local para fazer as refeições.

Ele lembra que são empresas de entrega, mas que não têm uma única motocicleta. “Tomara que, no dia 1º, os entregadores consigam mostrar a sua força”, afirma. Mas ele teme que muitos colegas “furem a greve” para se beneficiar das melhores taxas oferecidas no dia.


Pedalando

Os jovens que fazem entregas com bicicletas recebem valores ainda menores. Adriano Negocek, de 23 anos, é estudante de Física na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Morador de Almirante Tamandaré, região metropolitana de Curitiba, ele pedala quase todos os dias cerca de 10 quilômetros até o centro da capital, na hora do almoço. Começou a trabalhar como entregador, no final de 2018, após ser demitido de seu emprego anterior. Apostou na flexibilidade da jornada para poder conciliar o trabalho com os estudos.

Ele conta que tirava, em média, R$ 60 por dia. Agora, durante a pandemia, o rendimento diário caiu para menos de R$ 20 reais. “O valor caiu muito, não só por conta da pandemia. Não sei se é menor o fluxo de pedidos, ou se é pela concorrência que aumentou.” Por conta das entregas, Adriano também revela o receio de contaminar a sua mãe, que é do grupo de risco.

Ele almoça no restaurante universitário, mas sabe que a alimentação é um problema para a maioria dos seus colegas entregadores. Seja pelo preço cobrado pelos restaurantes na região central, onde é maior a demanda por entregas, seja pela falta de um local adequado para aqueles que levam marmita. Adriano também teme que alguns colegas entregadores não participem da greve, com medo de sofrerem bloqueios posteriores.


O consumidor e a greve

Os consumidores também podem ajudar a luta dos entregadores. Acima de tudo, eles solicitam que as pessoas não peçam comida pelos aplicativos neste dia. Se não puderem cozinhar, que se dirijam diretamente aos restaurantes. Além disso, pedem que os consumidores avaliem com a menor nota esses aplicativos, nas lojas virtuais. E deixando também comentários para denunciar a exploração dos trabalhadores.


Fonte: RBA

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*Por que não deixo só o link para a matéria? Porque um tempo depois que as matérias e textos publicados na internet vão ao ar, você não encontra mais eles (Error), simplesmente porque atualizam a página, porque economizam na hospedagem nos servidores etc. Boa parte do conhecimento humano das últimas décadas está desaparecendo porque só estava on-line. Terrível isso!

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A esquerda e a direita, segundo Ariano Suassuna


Comentário do blog

Apresento este belo artigo de Ariano Suassuna, grande escritor, poeta, dramaturgo e líder do movimento armorial que, segundo a Wikipédia, é um movimento que tem como objetivo criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular do Nordeste brasileiro. 

O cenário brasileiro e mundial pelo qual passamos nesta quadra da história é momento propício para leituras, análises e reflexões políticas e ideológicas com a necessária tolerância do debate de ideias.

Eu me situo no campo da esquerda, não tenho dúvida alguma sobre isso. São várias as linhas de abordagem para reflexão a respeito do conceito de esquerda e direita. 

Sou um cidadão brasileiro e ator político porque sou representante de pessoas, cumpro mandato eletivo a partir da comunidade dos funcionários do Banco do Brasil. Me esforço muito para valorizar a representação política, que nada mais é que a solução pacífica das controvérsias.

Atuei muitos anos no movimento social e sindical e tenho muito respeito ao debate de ideias e à democracia, que só existe com participação social efetiva.

É isso, o artigo é bem interessante.

Abraços, William 


Foto que ilustra o artigo na Carta Maior.

Fonte: Carta Maior - 24/7/2014

Não concordo com a afirmação, hoje muito comum, de que não mais existem esquerda e direita. Acho até que quem diz isso normalmente é de direita.

Talvez eu pense assim porque mantenho, ainda hoje, uma visão religiosa do mundo e do homem, visão que, muito moço, alguns mestres me ajudaram a encontrar. Entre eles, talvez os mais importantes tenham sido Dostoiévski e aquela grande mulher que foi Santa Teresa de Ávila.

Como consequência, também minha visão política tem substrato religioso. Olhando para o futuro, acredito que enquanto houver um desvalido, enquanto perdurar a injustiça com os infortunados de qualquer natureza, teremos que pensar e repensar a história em termos de esquerda e direita.

Temos também que olhar para trás e constatar que Herodes e Pilatos eram de direita, enquanto o Cristo e São João Batista eram de esquerda. Judas inicialmente era da esquerda. Traiu e passou para o outro lado: o de Barrabás, aquele criminoso que, com apoio da direita e do povo por ela enganado, na primeira grande “assembleia geral” da história moderna, ganhou contra o Cristo uma eleição decisiva.

De esquerda eram também os apóstolos que estabeleceram a primeira comunidade cristã, em bases muito parecidas com as do pré-socialismo organizado em Canudos por Antônio Conselheiro. Para demonstrar isso, basta comparar o texto de São Lucas, nos “Atos dos Apóstolos”, com o de Euclydes da Cunha em “Os Sertões”.

Escreve o primeiro: “Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum. Não havia entre eles necessitado algum. Os que possuíam terras e casas, vendiam-nas, traziam os valores das vendas e os depunham aos pés dos apóstolos. Distribuía-se, então, a cada um, segundo a sua necessidade”.

Afirma o segundo, sobre o pré-socialismo dos seguidores de Antônio Conselheiro: “A propriedade tornou-se-lhes uma forma exagerada do coletivismo tribal dos beduínos: apropriação pessoal apenas de objetos móveis e das casas, comunidade absoluta da terra, das pastagens, dos rebanhos e dos escassos produtos das culturas, cujos donos recebiam exígua quota parte, revertendo o resto para a companhia” (isto é, para a comunidade).

Concluo recordando que, no Brasil atual, outra maneira fácil de manter clara a distinção é a seguinte: quem é de esquerda, luta para manter a soberania nacional e é socialista; quem é de direita, é entreguista e capitalista. Quem, na sua visão do social, coloca a ênfase na justiça, é de esquerda. Quem a coloca na eficácia e no lucro, é de direita.

Ariano Suassuna, ícone do Movimento Armorial, faleceu em 23/7/14, aos 83 anos de idade. É paraibano e passou grande parte de sua vida em Pernambuco.


Fonte: Carta Maior, reproduzido do site do MST

sábado, 15 de outubro de 2016

Finalmente, o Estado Bolivariano!



Tristeza Dura, desenho de William Mendes.

Apresentação do Blog: Li este texto e achei ele fantástico. Pedi autorização para divulgá-lo. É simples e resume o momento em que vivemos no Brasil após novo Golpe de Estado no século 21.


(Texto de Sérgio Rosa)

Sabem aquele medo danado de que fosse implantado um Estado Bolivariano no Brasil? 

A imprensa seria formalmente livre, mas estaria alinhada com o Governo, alimentada com verbas generosas de publicidade das Estatais; os jornalistas que discordassem muito seriam demitidos; os blogueiros de oposição seriam perseguidos, processados e inviabilizados. 

A Justiça continuaria existindo, mas os Juízes seriam constrangidos a agir de forma parcial, com medidas de exceção, aplicando a lei de uma forma para os amigos do governo e de outra para os inimigos. 

A Polícia agiria para manter a ordem, reprimindo manifestações da oposição e protegendo as manifestações a favor do governo. Os órgãos de investigação ajudariam a perseguir os inimigos políticos, criando processos para paralisar os opositores e mandá-los para a cadeia. 

Grupos civis seriam financiados e criados para defender o governo, com liberdade inclusive para atacar opositores ou quem parecesse simpatizar com eles. 

O Governo, ao contrário de defender os interesses nacionais, passaria a defender interesses estrangeiros. No lugar da lógica e da ciência passaria a dominar a ideologia do governo. 

LEMBRAM DE TODOS ESTES MEDOS? Pois é, acabaram implantando o Estado bolivariano de direita no Brasil.

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sábado, 1 de outubro de 2016

A incerteza entre o medo e a esperança - Boaventura de Sousa Santos


Apresentação do texto:

"A incerteza da democracia. A democracia liberal foi concebida como um sistema de governo assente na incerteza de resultados e na certeza dos processos. A certeza dos processos garantia que a incerteza dos resultados fosse igualmente distribuída por todos os cidadãos. Os processos certos permitiam que os diferentes interesses vigentes na sociedade se confrontassem em pé de igualdade e aceitassem como justos os resultados que decorressem desse confronto. Era esse o princípio básico da convivência democrática. Essa era a teoria mas na prática as coisas foram sempre muito diferentes, e hoje a discrepância entre a teoria e a prática atinge proporções perturbadoras"


Olá amig@s leitores,

Temos que fazer a resistência no que diz respeito às tendências atuais do fim das leituras reflexivas, de fôlego e que alimentam perspectivas de mudanças ao estado de degeneração da sociedade mundial, fruto do avanço do sistema hegemônico do capital, que amplia a desigualdade e acelera a destruição do planeta, sistema movido por pouquíssimos atores globais.

O texto é denso e merece leitura acurada e analítica. Eu me emocionei várias vezes ao ver o autor tecendo questões que sempre penso a respeito. Eu gostaria depois de fazer uma releitura com comentários porque poderia citar várias coisas a cada tema tratado por Boaventura.

Abraços e boas reflexões aos que fizerem a leitura.

William Mendes


Texto e foto publicado em Carta Maior.

Vivemos em um mundo em que as incertezas, descendentes ou ascendentes, se transformam cada vez mais em incertezas abissais


Diz Espinoza que as duas emoções básicas dos seres humanos são o medo e a esperança. A incerteza é a vivência das possibilidades que emergem das múltiplas relações que podem existir entre o medo e a esperança. Sendo diferentes essas relações, diferentes são os tipos de incerteza. O medo e a esperança não estão igualmente distribuídos por todos os grupos sociais ou épocas históricas. Há grupos sociais em que o medo sobrepuja de tal modo a esperança que o mundo lhes acontece sem que eles possam fazer acontecer o mundo. Vivem em espera, mas sem esperança. Estão vivos hoje, mas vivem em condições tais que podem estar mortos amanhã. Alimentam os filhos hoje, mas não sabem se os poderão alimentar amanhã. A incerteza em que vivem é uma incerteza descendente, porque o mundo lhes acontece de modos que pouco dependem deles. Quando o medo é tal que a esperança desapareceu de todo, a incerteza descendente torna-se abissal e converte-se no seu oposto: na certeza do destino, por mais injusto que seja. Há, por outro lado, grupos sociais em que a esperança sobrepuja de tal modo o medo que o mundo lhes é oferecido como um campo de possibilidades que podem gerir a seu bel-prazer. A incerteza em que vivem é uma incerteza ascendente na medida em que tem lugar entre opções portadoras de resultados em geral desejados, mesmo que nem sempre totalmente positivos. Quando a esperança é tão excessiva que perde a noção do medo, a incerteza ascendente torna-se abissal e transforma-se no seu oposto: na certeza da missão de apropriar o mundo por mais arbitrária que seja.


A maioria dos grupos sociais vive entre esses dois extremos, com mais ou menos medo, com mais ou menos esperança, passando por períodos em que dominam as incertezas descendentes e outros em que dominam as incertezas ascendentes. As épocas distinguem-se pela preponderância relativa do medo e da esperança e das incertezas a que as relações entre um e outra dão azo.


Que tipo de época é a nossa?


Vivemos em uma época em que a pertença mútua do medo e da esperança parece colapsar perante a crescente polarização entre o mundo do medo sem esperança e o mundo da esperança sem medo, ou seja, um mundo em que as incertezas, descendentes ou ascendentes, se transformam cada vez mais em incertezas abissais, isto é, em destinos injustos para os pobres e sem poder e missões de apropriação do mundo para os ricos e poderosos. Uma porcentagem cada vez maior da população mundial vive correndo riscos iminentes contra os quais não há seguros ou, se os há, são financeiramente inacessíveis, como o risco de morte em conflitos armados em que não participam ativamente, o risco de doenças causadas por substâncias perigosas usadas de modo massivo, legal ou ilegalmente, o risco de violência causada por preconceitos raciais, sexistas, religiosos ou outros, o risco de pilhagem dos seus magros recursos, sejam eles salários ou pensões, em nome de políticas de austeridade sobre as quais não têm qualquer controle, o risco de expulsão das suas terras ou das suas casas por imperativos de políticas de desenvolvimento das quais nunca se beneficiarão, o risco de precariedade no emprego e de colapso de expectativas suficientemente estabilizadas para planejar a vida pessoal e familiar ao arrepio da propaganda da autonomia e do empreendedorismo.



Em contrapartida, grupos sociais cada vez mais minoritários em termos demográficos acumulam poder econômico, social e político cada vez maior, um poder quase sempre baseado no domínio do capital financeiro. Essa polarização vem de longe, mas é hoje mais transparente e talvez mais virulenta. Consideremos a seguinte citação:


Se uma pessoa não soubesse nada acerca da vida do povo deste nosso mundo cristão e lhe fosse perguntado “há um certo povo que organiza o modo de vida de tal forma que a esmagadora maioria das pessoas, noventa e nove por cento delas, vive de trabalho físico sem descanso e sujeita a necessidades opressivas, enquanto um por cento da população vive na ociosidade e na opulência. Se o tal um por cento da população professar uma religião, uma ciência e uma arte, que religião, arte e ciência serão essas?” A resposta não poderá deixar de ser: “uma religião, uma ciência e uma arte pervertidas”.


Dir-se-á que se trata de um extracto dos manifestos do Movimento Occupy ou do Movimentos dos Indignados do início da presente década. Nada disso. Trata-se de uma entrada do diário de Liev Tolstói no dia 17 de março de 1910, pouco tempo antes de morrer.


Quais as incertezas?


Como acabei de referir, as incertezas não estão igualmente distribuídas, nem quanto ao tipo nem quanto à intensidade, entre os diferentes grupos e classes sociais que compõem as nossas sociedades. Há pois que identificar os diferentes campos em que tais desigualdades mais impacto têm na vida das pessoas e das comunidades.


A incerteza do conhecimento. Todas as pessoas são sujeitos de conhecimentos e a esmagadora maioria define e exerce as suas práticas com referência a outros conhecimentos que não o científico. Vivemos, no entanto, uma época, a época da modernidade eurocêntrica, que atribui total prioridade ao conhecimento científico e às práticas diretamente derivadas dele: as tecnologias. Isso significa que a distribuição epistemológica e vivencial do medo e da esperança é definida por parâmetros que tendem a beneficiar os grupos sociais que têm mais acesso ao conhecimento científico e à tecnologia. Para estes grupos a incerteza é sempre ascendente na medida em que a crença no progresso científico é uma esperança suficientemente forte para neutralizar qualquer medo quanto às limitações do conhecimento atual. Para esses grupos, o princípio da precaução é sempre algo negativo porque trava o progresso infinito da ciência. A injustiça cognitiva que isso cria é vivida pelos grupos sociais com menos acesso ao conhecimento científico como uma inferioridade geradora de incerteza quanto ao lugar deles num mundo definido e legislado com base em conhecimentos simultaneamente poderosos e estranhos que os afetam de modos sobre os quais têm pouco ou nenhum controle. Trata-se de conhecimentos produzidos sobre eles e eventualmente contra eles e, em todo caso, nunca produzidos com eles. A incerteza tem uma outra dimensão: a incerteza sobre a validade dos conhecimentos próprios, por vezes ancestrais, pelos quais têm pautado a vida. Terão de os abandonar e substituir por outros? Esses novos conhecimentos são-lhes dados, vendidos, impostos e, em todos os casos, a que preço e a que custo? Os benefícios trazidos pelos novos conhecimentos serão superiores aos prejuízos? Quem colherá os benefícios, e quem, os prejuízos? O abandono dos conhecimentos próprios envolverá um desperdício da experiência? Com que consequências? Ficarão com mais ou menos capacidade para representar o mundo como próprio e para transformá-lo de acordo com as suas aspirações?


A incerteza da democracia. A democracia liberal foi concebida como um sistema de governo assente na incerteza de resultados e na certeza dos processos. A certeza dos processos garantia que a incerteza dos resultados fosse igualmente distribuída por todos os cidadãos. Os processos certos permitiam que os diferentes interesses vigentes na sociedade se confrontassem em pé de igualdade e aceitassem como justos os resultados que decorressem desse confronto. Era esse o princípio básico da convivência democrática. Essa era a teoria mas na prática as coisas foram sempre muito diferentes, e hoje a discrepância entre a teoria e a prática atinge proporções perturbadoras.


Em primeiro lugar, durante muito tempo só uma pequena parte da população podia votar e por isso, por mais certos e corretos que fossem os processos, eles nunca poderiam ser mobilizados de modo a ter em conta os interesses das maiorias. A incerteza dos resultados só em casos muito raros poderia beneficiar as maiorias: nos casos em que os resultados fossem o efeito colateral das rivalidades entre as elites políticas e os diferentes interesses das classes dominantes que elas representavam. Não admira, pois, que durante muito tempo as maiorias tenham visto a democracia de pernas para o ar: um sistema de processos incertos cujos resultados eram certos, sempre ao serviço dos interesses das classes e grupos dominantes. Por isso, durante muito tempo, as maiorias estiveram divididas: entre os grupos que queriam fazer valer os seus interesses por outros meios que não os da democracia liberal (por exemplo, a revolução), e os grupos que lutavam por ser incluídos formalmente no sistema democrático e assim esperar que a incerteza dos resultados viesse no futuro a favorecer os seus interesses. A partir de então as classes e os grupos dominantes (isto é, com poder social e econômico não sufragado democraticamente) passaram a usar outra estratégia para fazer funcionar a democracia a seu favor. Por um lado, lutaram para que fosse eliminada qualquer alternativa ao sistema democrático liberal, o que conseguiram simbolicamente em 1989 no dia em que caiu o Muro de Berlim.


Por outro lado, passaram a usar a certeza dos processos para os manipular de modo a que os resultados os favorecessem sistematicamente. Porém, ao eliminarem a incerteza dos resultados, acabaram por destruir a certeza dos processos. Ao poderem ser manipulados por quem tivesse poder social e econômico para tal, os processos democráticos, supostamente certos, tornaram-se incertos. Pior do que isso, ficaram sujeitos a uma única certeza: a possibilidade de serem livremente manipulados por quem tivesse poder para tal.


Por essas razões, a incerteza das grandes maiorias é descendente e corre o risco de se tornar abissal. Tendo perdido a capacidade e mesmo a memória de uma alternativa à democracia liberal, que esperança podem ter no sistema democrático liberal? Será que o medo é de tal modo intenso que só lhes reste a resignação perante o destino? Ou, pelo contrário, há na democracia um embrião de genuinidade que pode ser ainda usado contra aqueles que a transformaram numa farsa cruel?


A incerteza da natureza. Sobretudo desde a expansão europeia a partir do final do século XV, a natureza passou a ser considerada pelos europeus um recurso natural desprovido de valor intrínseco e por isso disponível sem condições nem limites para ser explorado pelos humanos. Esta concepção, que era nova na Europa e não tinha vigência em nenhuma outra cultura do mundo, tornou-se gradualmente dominante à medida que o capitalismo, o colonialismo e o patriarcado (este último reconfigurado pelos anteriores) se foram impondo em todo o mundo considerado moderno. Esse domínio foi de tal modo profundo que se converteu na base de todas as certezas da época moderna e contemporânea: o progresso. Sempre que a natureza pareceu oferecer resistência à exploração tal foi visto, quando muito, como uma incerteza ascendente em que a esperança sobrepujava o medo. Foi assim que o Adamastor de Luís de Camões foi corajosamente vencido e a vitória sobre ele se chamou Cabo da Boa Esperança.


Houve povos que nunca aceitaram esta ideia da natureza porque aceitá-la equivaleria ao suicídio. Os povos indígenas, por exemplo, viviam em tão íntima relação com a natureza que esta nem sequer lhes era exterior; era, pelo contrário, a mãe-terra, um ser vivente que os englobava a eles e a todos os seres vivos presentes, passados e futuros. Por isso, a terra não lhes pertencia; eles pertenciam à terra. Essa concepção era tão mais verosímil que a eurocêntrica e tão perigosamente hostil aos interesses colonialistas dos europeus que o modo mais eficaz de a combater era eliminar os povos que a defendiam, transformando-os num obstáculo natural entre outros à exploração da natureza. A certeza desta missão era tal que as terras dos povos indígenas eram consideradas terra de ninguém, livre e desocupada, apesar de nelas viver gente de carne e osso desde tempos imemoriais.


Essa concepção da natureza foi de tal modo inscrita no projeto capitalista, colonialista e patriarcal moderno que naturalizar se tornou o modo mais eficaz de atribuir um caráter incontroverso à certeza. Se algo é natural, é assim porque não pode ser doutro modo, seja isso consequência da preguiça e da lascívia das populações que vivem entre os trópicos, da incapacidade das mulheres para certas funções ou da existência de raças e a “natural” inferioridade das populações de cor mais escura.


Essas certezas ditas naturais nunca foram absolutas, mas encontraram sempre meios eficazes para fazerem crer que eram. Porém, nos últimos cem anos elas começaram a revelar zonas de incerteza e, em tempos mais recentes, as incertezas passaram a ser mais verossímeis que as certezas, quando não conduziram a novas certezas de sentido oposto. Muitos fatores contribuíram para isso. Seleciono dois dos mais importantes. Por um lado, os grupos sociais declarados naturalmente inferiores nunca se deixaram vencer inteiramente e, sobretudo a partir da segunda metade do século passado, conseguiram fazer ouvir a sua plena humanidade de modo suficientemente alto e eficaz a ponto de a transformar num conjunto de reivindicações que entraram na agenda social política e cultural. Tudo o que era natural se desfez no ar, o que criou incertezas novas e surpreendentes aos grupos sociais considerados naturalmente superiores, acima de tudo a incerteza de não saberem como manter os seus privilégios senão enquanto não contestados pelas vítimas deles. Daqui nasce uma das incertezas mais tenazes do nosso tempo: será possível reconhecer simultaneamente o direito à igualdade e o direito ao reconhecimento da diferença? Por que continua a ser tão difícil aceitar o metadireito que parece fundar todos os outros e que se pode formular assim: temos o direito a ser iguais quando a diferença nos inferioriza, temos o direito a ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza?


O segundo fator é a crescente revolta da natureza perante tão intensa e prolongada agressão sob a forma das alterações climáticas que põem em risco a existência de diversas formas de vida na terra, entre elas a dos humanos. Alguns grupos humanos estão já definitivamente afetados, quer por verem os seus habitats submersos pela elevação das águas do mar, quer por serem obrigados a deixar as suas terras desertificadas de modo irreversível. A terra mãe parece estar a elevar a voz sobre as ruínas da casa que era dela para poder ser de todos e que os humanos modernos destruíram movidos pela cobiça, voracidade, irresponsabilidade, e, afinal, pela ingratidão sem limites. Poderão os humanos aprender a partilhar o que resta da casa que julgavam ser só sua e onde afinal habitavam por cedência generosa da terra mãe? Ou preferirão o exílio dourado das fortalezas neofeudais enquanto as maiorias lhes rondam os muros e lhes tiram o sono, por mais legiões de cães, arsenais de câmeras de vídeo, quilômetros de cercas de arame farpado e de vidros à prova de bala que os protejam da realidade mas nunca dos fantasmas da realidade? Estas são as incertezas cada vez mais abissais do nosso tempo.


A incerteza da dignidade. Todo o ser humano (e, se calhar, todo o ser vivo) aspira a ser tratado com dignidade, entendendo por tal o reconhecimento do seu valor intrínseco, independentemente do valor que outros lhe atribuam em função de fins instrumentais que lhe sejam estranhos. A aspiração da dignidade existe em todas as culturas e expressa-se segundo idiomas e narrativas muito distintas, tão distintas que por vezes são incompreensíveis para quem não comungue da cultura de que emergem. Nas últimas décadas os direitos humanos transformaram-se numa linguagem e numa narrativa hegemônicas para nomear a dignidade dos seres humanos. Todos os Estados e organizações internacionais proclamam a exigência dos direitos humanos e propõem-se defendê-los. No entanto, qual Alice de Lewis Carrol, em Through the Looking-Glass [Através do Espelho], atravessando o espelho que esta narrativa consensual propõe, ou olhando o mundo com os olhos da Belimunda do romance de José Saramago, Memorial do Convento, que viam no escuro, deparamo-nos com inquietantes verificações: a grande maioria dos seres humanos não são sujeitos de direitos humanos, são antes objetos dos discursos estatais e não estatais de direitos humanos; há muito sofrimento humano injusto que não é considerado violação de direitos humanos; a defesa dos direitos humanos tem sido frequentemente invocada para invadir países, pilhar as suas riquezas, espalhar a morte entre vítimas inocentes; no passado, muitas lutas de libertação contra a opressão e o colonialismo foram conduzidas em nome de outras linguagens e narrativas emancipatórias e sem nunca fazerem referência aos direitos humanos. Essas inquietantes verificações, uma vez postas ao espelho das incertezas que tenho vindo a mencionar, dão azo a uma nova incerteza, também ela fundadora do nosso tempo. A primazia da linguagem dos direitos humanos é produto de uma vitória histórica ou de uma derrota histórica? A invocação dos direitos humanos é um instrumento eficaz na luta contra a indignidade a que tantos grupos sociais são sujeitos ou é antes um obstáculo que desradicaliza e trivializa a opressão em que se traduz a indignidade e adoça a má consciência dos opressores?


São tantas as incertezas do nosso tempo, e assumem um caráter descendente para tanta gente, que o medo parece estar a triunfar sobre a esperança. Deve esta situação levar-nos ao pessimismo de Albert Camus que em 1951 escreveu amargamente: “Ao fim de vinte séculos a soma do mal não diminuiu no mundo. Não houve nenhuma parusia, nem divina nem revolucionária”? Penso que não. Deve apenas levar-nos a pensar que, nas condições atuais, a revolta e a luta contra a injustiça que produz, difunde e aprofunda a incerteza descendente, sobretudo a incerteza abissal, têm de ser travadas com uma mistura complexa de muito medo e de muita esperança, contra o destino auto-infligido dos oprimidos e a missão arbitrária dos opressores. A luta terá mais êxito, e a revolta, mais adeptos, na medida em que mais e mais gente se for dando conta de que o destino sem esperança das maiorias sem poder é causado pela esperança sem medo das minorias com poder.


Fonte: Carta Maior (21/9/16)

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Reginaldo Moraes: Mais que um golpe, é esterilizar o voto


Comentário do blog:

Apresento este artigo de leitura fundamental para todos do campo progressista que não têm muito tempo no seu cotidiano para acompanhar textos que revelem com inteligência, com organização clara e com início meio e fim o que significam todos os riscos em jogo e as consequências que virão com o Golpe de Estado em andamento no Brasil.

É muito grave, meus amigos leitores! Pela minha origem no seio da classe trabalhadora, pobre e explorada, eu entendo que seria melhor morrer lutando para combater esse golpe safado, vil e destruidor das perspectivas de futuro para nós, o povo, do que seguir alheio no nosso pseudo-mundo de encantamento do cotidiano manipulável pela máquina midiática e imbecilizante dos grupos que deram o golpe. Morreremos do mesmo jeito na miséria com depressões e amarguras nos culpando a nós mesmos.

Leiam e entendam o que vem para nós e nossos descendentes caso não tiremos essa camarilha do governo, dos órgãos públicos que armaram o golpe "clean" e dos espaços de comunicação públicos como TVs e Rádios da mão daqueles que a cada minuto mandam em nossas corpos, mentes e desejos através das máquinas midiáticas que nos guiam para o inferno na terra.

William


(artigo publicado no Vi o Mundo em 2/06/16)


Professor Reginaldo Moraes, da Unicamp.
Crédito:Elza Fiúza/aBr

O golpe é mais do que um golpe. A resposta precisa ser dura e profunda


Os conservadores não escondem que desejam acabar com as conquistas sociais da Constituição e tornar irrelevante o sufrágio universal, com medidas como voto distrital, voto voluntário e independência do BC. Sobrecarregado pelas demandas populares, o capitalismo está sendo inviabilizado, acreditam


O golpe de maio de 2016 não surgiu de repente e do nada. Está sendo preparado e alimentado há quase dois anos, por uma campanha de sabotagem dos vários agentes da oposição, que não se resumem aos partidos políticos.

Mas o golpe não foi apenas a deposição da presidenta. E, nesse sentido, ele vem de ainda mais longe e de mais fundo. Ele é um capítulo importante, revelador, de um movimento persistente, às vezes subterrâneo, às vezes escancarado. É o movimento pela mudança do regime político brasileiro – a democracia representativa presidencialista que se consolidou com a Constituição de 1988.

Os conservadores não escondem que desejam acabar com a Constituição. Segundo as associações empresariais e seus economistas, a Constituição “não cabe no orçamento do Brasil”. O que não cabem, sempre deixam claro, são as conquistas sociais e trabalhistas, bem como as vinculações orçamentárias como os gastos com saúde e educação. Mas não é apenas isso que se quer revogar: é o direito político fundamental dessa república, o sufrágio universal.

Revogar o sufrágio universal, eliminar as eleições? Não, não se trata disso, seria pouco realista, pelo menos por enquanto. Mas algumas restrições são cogitadas: voto distrital, voto voluntário. Também não se trata de eliminar as eleições – pelo menos como antídoto as já longínquas lembranças da ditadura servem. Não é isso. O que está em marcha são seguidos experimentos, homeopáticos, visando a tornar as eleições irrelevantes.

Tornar as eleições irrelevantes – guardemos essa ideia. Eleições seguiriam existindo, mas seu efeito seria inócuo. Ou seja, trata-se de esterilizar o poder do voto. É uma receita velha dos neoconservadores, já anunciada pela famosa Comissão Trilateral em 1972: o Estado está sobrecarregado pelas demandas populares, o capitalismo está sendo inviabilizado pela democracia, resta apenas o caminho de ‘disciplinar’ a democracia submetendo-a a regras superiores, isto é, definidas por seres superiores, os guardiães do mercado e da oligarquia.

Um exemplo dessa esterilização do poder do voto? Quando se fala em independência do Banco Central ou “despolitização” de agências estatais, o que com frequência se esconde sob as palavras é o objeto da “independência”: essas instituições reguladoras da vida econômica se tornariam independentes… dos representantes políticos escolhidos pelo voto.

Ou seja, o Congresso e principalmente a Presidência não opinariam sobre coisas como taxas de juros e política monetária e creditícia.

O caminho da direita tem sido esse, em cada quarteirão do país e em cada episódio político. O que significam as campanhas para que procuradores elejam o Procurador-Geral da República, prerrogativa da Presidência? Agora, até a polícia federal quer que seu diretor-geral seja eleito – ou seja, a polícia, elemento essencial do Estado, teria sua direção escolhida pela corporação dos delegados.

Acaba eleição direta, volta colégio eleitoral e comissão dos ‘homens bons’

Tem mais. Governadores, prefeitos, ministros e presidentes passam a ser assediados pelo Ministério Público e por sua aliança escandalosa com a mídia, criando investigações paralelas, vazamentos e julgamentos públicos, linchamentos e destruição de reputações.


Agora, chegamos ao episódio do impeachment, revelador claro do processo em andamento. O Congresso foi transformado em colégio eleitoral, para decretar a cassação da presidenta eleita e a escolha de outro presidente. Acabou a era da eleição direta. Agora, temos eleição pelo colégio eleitoral, o colégio daqueles “notáveis picaretas” da Câmara Federal.

Condenação da Presidência sem crime – na verdade, mesmo os golpistas reconhecem que a motivação maior, a razão para o afastamento é a falta de apoio dos políticos. Pedalada fiscal é pretexto ridículo – que serviria para cassar mandado de vários governadores tucanos, por exemplo. E esta “falta de apoio político” foi cuidadosamente construída nesses quase dois anos de cerco e sabotagem, protagonizado pelo MP, PF, partidos de oposição, associações empresariais, igrejas evangélicas e mídia. Para falar apenas dos que estão dentro do país.

É por isso que dizemos que o que está em andamento é a mudança de regime. Já não temos uma democracia representativa presidencialista, mas um executivo estritamente escolhido por via indireta e sob os cuidados de uma “comissão supervisora” ou “de controle”, constituída por esses agrupamentos conservadores, as fortalezas do capital.

Agora, as forças progressistas têm diante de si o desafio de derrubar o governo ilegítimo. Mas, mais do que isso, de contestar essa mudança de regime, que já se enraizou nas práticas políticas do país. Isso pode inclusive implicar em novas atitudes dos partidos de esquerda com relação às eleições para o Executivo.

No quadro que temos, é impossível deixar de concorrer – isso tem impacto na eleição dos vereadores e deputados, senadores. Mas pode ser conveniente empenhar a campanha em uma denúncia do sistema e na proposta de sua derrubada. Por exemplo: o candidato a prefeito pode fazer de sua candidatura uma denúncia desse cerco censor. O que aconteceria se ele dissesse isto: “Se você votar em mim, vote também em vereadores de partidos que me apoiam. Se votar em mim para prefeito e para vereador escolher alguém que se opõe a meus programas, não quero seu voto, porque vou decepcioná-lo”? Essa é uma possibilidade. Até porque é verdadeira: um executivo eleito com dois terços da Câmara ou Congresso sabotando? Tem grande chance de trair ou de cair.

Frente de esquerda: urgente e difícil, difícil e urgente

Um outro desafio é a constituição de uma frente de esquerda. Primeiro, para derrubar o governo ilegítimo. Esse é o lado “destrutivo” da frente: contra quem? Mas precisa ter um ‘segundo’ termo, propositivo, programático. E esse precisa ser bem pensado. Talvez seja o caso de recuperar a inspiração dos cartistas ingleses, aqueles do século XIX. Um movimento por uma nova Carta do Povo. Não apenas uma Constituinte, mas também, e principalmente, uma lista de reformas de base, essenciais para esboçar o desenho de um novo país, um novo modelo de vida política: reforma tributária progressiva, reforma agrária e urbana, reforma política e limites para o financiamento privado das campanhas.

Talvez outras reformas se somem a essas. Por exemplo, uma “reforma agrária do ar” (das concessões de rádio e TV). E uma reforma da representação trabalhista: o direito dos trabalhadores à organização no local de trabalho, com acesso às informações da empresa. Não pode ser uma lista grande, mas tem que ter os alicerces de um novo pacto, popular e progressista.

A frente de esquerda é algo difícil de construir. Não pode ser uma espécie de versão ampliada do PT. Até porque o PT está hoje ainda mais cortado por divisões e tendências, explícitas ou não. E porque sua direção perdeu qualquer chance de promover alterações, sobretudo depois que resolveu abafar qualquer mudança, no último congresso do partido. A frente precisa ser ousada, agressiva, inovadora. Ao mesmo tempo, precisa ser muito, mas muito flexível e abrangente, incorporando a diversidade das oposições populares.


Fonte: Vi o Mundo, com crédito da foto de: Elza fiúza/ABr

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

A extinção de um projeto nacional - Roberto Requião





Por Roberto Requião, ao discursar no Senado

Eu confesso que somatizei a nossa derrota no Plenário de ontem. Eu amanheci exausto, adoecido, frustrado.

De repente, eu tomo consciência de que o sentimento de nacionalidade do Brasil está fragilizado, porque algumas lideranças nas quais o povo depositava a confiança e a esperança foram engolidas em um processo de corrupção, e isso abre um espaço terrível para que interesses que não são propriamente do Brasil caminhem, de forma firme e forte, em um processo de fragilização e mesmo de extinção de um projeto nacional. Isso é muito triste.

No mundo, qualquer pessoa sabe das implicações geopolíticas da questão do petróleo.

Sabemos que os Estados Unidos gastaram bilhões de dólares para tomar conta do Iraque, muito pouco preocupado com Saddam, que foi seu aliado e mantido pela própria CIA durante muito tempo para combater os iranianos.

A guerra e manutenção de tropas no Iraque preocupa basicamente em manter em suas mãos as reservas de petróleo.

Estamos diante de uma guerra geopolítica. Os Estados Unidos arriscam a própria sustentabilidade do seu território com as venenosas operações de shale gas, baixa os preços internacionais, traz a Arábia Saudita para esse jogo, para enfraquecer Venezuela, Rússia e outros países importantes que vivem do petróleo. Os baixos preços do petróleo são uma estratégia geopolítica.

Eu diria mais, repetindo o que já disse mil vezes desta tribuna, depois da derrota do nazismo, na última guerra, cresceu na Europa, o Estado social, o Estado com as garantias trabalhistas, o Estado preocupado com a educação do povo, o Estado preocupado com os direitos humanos, o Estado que se volveu para as necessidades da sociedade e, de certa forma, acabou com o predomínio absoluto do capital.

E este Estado, hoje, sofre um ataque brutal, a partir da ação de Mamon – Mamon em hebraico, significa dinheiro, não é nem deus, nem diabo, é o dinheiro, assim descrito na Bíblia. Mamom tenta recuperar os seus espaços perdidos com o avanço do Estado de Bem Estar Social.

Para recuperar seu espaço, Mamon, praticamente liquidou com a economia da Espanha, da Itália, de Portugal…

Seu projeto tem um tripé: o primeiro deles, é a fragilização do Estado, com a autonomia dos bancos centrais. Uma proposta onde o Estado se resume a um gendarme, um guardião que se oporá às revoltas populares diante da exploração do capital.

O segundo objetivo é a precarização do Parlamento, com o domínio absoluto do capital financeiro, que se coloca acima dos partidos, financia campanhas, partidos políticos e candidatos, e os Parlamentares se transformam em mandaletes dos interesses do capital vadio.

Não tem mais ideologia, não tem ideal, não tem patriotismo, não tem nenhum sentimento de nacionalidade.

E o terceiro objetivo é bem claro, é a precarização do trabalho, o fim das leis trabalhistas, que encontrará a oposição frontal do nosso Senador Paim, o Senador do trabalho no plenário do Senado Federal.

Mas dentro desse pacote e com esse amortecimento da consciência nacional, com a frustração causada pela corrupção evidente de alguns líderes partidários que tinham a confiança e eram depositários da esperança do povo, nós ficamos extremamente fragilizados.

A Presidente Dilma já se manifestou, como era de se esperar, contra essa proposta de José Serra.

Porque ela não tem sentido, quando diz que quer retirar a exclusividade da Petrobras no pré-sal, porque a empresa está com um endividamento alto. Não tem sentido, porque não existe uma empresa de petróleo no mundo que não esteja fragilizada financeiramente com os preços baixos.

O prejuízo de todas elas é enorme, muito maior do que o da Petrobras. E maior do que o da Petrobras porque a Petrobras tem uma reserva gigante de petróleo do mundo com baixos custos de exploração – US$8,00 ou US$9,00 o barril –, um petróleo que está garantindo lucros, mesmo na crise. E também porque o pré-sal está entre o Rio e São Paulo, os grandes centros consumidores, processadores e onde estão os principais terminais logísticos da Petrobras.

O pré-sal é o ouro para a Petrobras.

As petroleiras não vão investir hoje no Brasil de forma nenhuma porque estão quebradas, estão em dificuldades e porque o petróleo está sobrando no mundo.

Então, por que, de repente, aporta no Senado, com essa violência e esse desejo absoluto de velocidade, essa modificação do modelo?

Atende a quem? Atende a que interesses? Por que não querem o debate? Por que raios não foi para as comissões normais e se tentou submetê-la a uma comissão montada pelo Presidente do Senado, sem a indicação dos partidos? O que é que está atrás disso? Será que só eu enxergo esse açodamento súbito e violento? Qual é a dificuldade de um debate claro em cima da questão do petróleo?

Não vai haver investimento no Brasil, mas as grandes empresas que trabalham com petróleo no mundo vão se assegurar das reservas brasileiras como reservas estratégicas para o domínio no petróleo no futuro.

Os apressadinhos que querem votar isso para ontem, sem discussão, açodadamente, sem que o povo saiba dizem que “o petróleo não pode ficar enterrado”, “o petróleo não vai valer nada no futuro”.

Como o petróleo não vai valer nada se tem 3 mil derivados!

Não existe um Senador ou uma Senadora neste plenário que não porte ou não tenha, em seus trajes, algum componente que tenha a participação da indústria a partir de um derivado do petróleo.

Não tem nenhum sentido essa história de que não vai valer nada.

E a Petrobras pode — e o Senador Lobão liquidou os argumentos de Romero Jucá numa reunião da Bancada –, sim, extrair petróleo em poços novos sem nenhuma dificuldade, sequer financeira.

Com 50, 100 bilhões de barris de reserva, não teria dificuldade de financiamento neste Planeta. O mundo está inundado de dinheiro com esses tais quantitative easing.

Agora, por que o açodamento? De repente, Senador Serra, ligo para o meu gabinete e dizem: “Não, mas o WikiLeaks publicou documentos sigilosos da embaixada americana e republicados na Folha de S. Paulo, que o Senador Serra teria prometido trabalhar para acabar com a lei que dava exclusividade à Petrobras na exploração do pré-sal”.

O SR. JOSÉ SERRA (Bloco Oposição/PSDB – SP) – Sr. Presidente, pela ordem. Não só fui citado como foram feitas alusões absolutamente indevidas à minha pessoa. Portanto, peço um aparte.

O SR. PRESIDENTE (Dário Berger. Bloco Maioria/PMDB – SC) – Vou conceder a V. Exª….

O SR. ROBERTO REQUIÃO (Bloco Maioria/PMDB – PR) – Isso fica me trazendo preocupação. O que há por trás desse açodamento e dessa velocidade? O que há de urgência nesse processo? Por que essa abertura? Por que a entrega do patrimônio que se consubstancia nas jazidas petrolíferas brasileiras? Por que esse Governo fragilizado por uma série de problemas e com medo do impeachment não age com mais energia?

Antes de ontem, nós votamos aqui o aumento de um imposto que, a meu ver, parecia completamente absurdo, sobre lucros de capital. Eu dizia, lá do plenário, utilizando o microfone, que um estudante que tenha comprado, há 40 anos, um apartamento por R$10 mil, iria vendê-lo agora ou transferi-lo para um herdeiro e ele estaria valendo R$2 milhões. Pagaria imposto sobre R$1.990,00? Isso é justo?

Não, mas o plenário, obedecendo à ordem do Governo e à visão liberal que atravessa esta República neste momento, votou a favor. Foram 11 votos contrários.

Sou a favor do imposto pesado em cima dos lucros de capital, mas no exemplo citado há exagero. Mas a base seguiu o governo.

Ontem mesmo, quando boa parte dessa mesma base votou na sua maioria pela urgência de votar o projeto de entrega do pré-sal. Os muitos votos que conseguimos foram votos de consciência, não foram votos orientados. O governo orientou o que?

Mas nós estamos em cima de uma proposta de aspecto fundamentalmente entreguista, não ajuda o Brasil. É preciso que a gente marque posição.

Não sei qual é a intenção disso. É favorecer a Chevron? É a favorecer a Shell? É prejudicar o País? Não há urgência, não há necessidade e não se extrai petróleo no mundo hoje. Nenhuma delas, nem a Petrobras.

E insisto: se a Petrobras pudesse contar com preços maiores, poderia facilmente investir ainda mais do que já está investindo no pré-sal. O governo também poderia pedir para seus bancos aumentarem os empréstimos para a empresa. O Banco dos Brics e os chineses já ofereceram muito dinheiro para financiar os projetos da Petrobras.

Mas há o constrangimento do Governo com essa pressão midiática, há esse enfraquecimento da consciência nacionalista do País e há o avanço de ideias liberais.

É o fim de um projeto nacional. É a valorização absoluta do dinheiro.

E eu me lembro, Senador Serra, do Papa Francisco em Davos.

O capital é bom quando ele é investido, produz empregos, produz bens, inovação tecnológica, mas não pode o interesse pelo dinheiro, o jogo geopolítico das grandes potências subordinar uma proposta de crescimento de um projeto nacional que seria tão importante para os estudantes brasileiros.

Vou repetir. Não adianta leiloar o pré-sal agora. Não vai haver investimento enquanto o preço estiver lá embaixo, mas o preço não ficará para sempre lá embaixo. O pré-sal é uma garantia do futuro do País.

O pré-sal é muito melhor e muito maior do que o shale gas dos Estados Unidos que tantos por aqui enchem a boca para falar.

O shale gas tem um pico de extração em um primeiro momento. No segundo ano a produção já cai na metade e o reservatório tem um declínio rápido.

Muitas primeiras empresas americanas que começaram explorando essa suposta panaceia já estão falidas. E é por isso que eles vem para cá para querer pegar o pré-sal para elas.

E estão com muita pressa para começar esses leilões já na “nova lei”. Em breve o preço do pré-sal vai aumentar. A Rússia e a Arábia Saudita, junto com a Venezuela, estão anunciando uma contenção na produção.

A corrupção é séria. Eu quero ver essa gente toda na cadeia, punida, mas a corrupção não é a responsável pela circunstancial crise financeira que a Petrobras atravessa.

O grande problema da Petrobras foi o aumento brutal dos investimentos com o sonho de viabilizar logo recursos para a educação e para a saúde. O erro foi aí.

Não previram a jogada geopolítica dos Estados Unidos, baixando o preço do petróleo no mercado mundial. Não previram que o dólar subiria tanto. Investiram muito, se endividaram em dólar e o dólar disparou em relação ao real. Esse é o maior problema, mas que logo será solucionado com o retorno dos preços aos seus patamares normais.

E nós, no Senado da República, temos que ter consciência do que estamos fazendo. Não devemos irrefletidamente, sem nenhuma razão lógica, votar apressadamente no projeto do Senador José Serra, que, quer ele queira ou não, é um projeto entreguista e prejudica o Brasil. Prejudica o futuro do País, a viabilidade de um projeto nacional.

É um projeto que prejudica a Petrobras porque, é graças ao pré-sal que a Petrobras está sobrevivendo à crise, e que será ultrapassada rapidamente. O preço do petróleo vai voltar para o patamar dos US$80 e estará tudo isso resolvido.

E essa justificativa nova de que a Petrobras pode ficar como operadora preferencial da extração de petróleo, numa imagem que eu já coloquei com clareza, é como se uma família em dificuldade fosse instada, em uma dificuldade passageira, resolvível em médio prazo, fosse instada a vender a propriedade.

Mas daí o comprador lhe garante: Vocês vão vender a propriedade, mas a esposa do proprietário terá preferência, se quiser continuar como cozinheira da família que vai comprar o imóvel.

Essa proposta não tem cabimento, é antinacional e é preciso que se registre um protesto com toda a energia.

O Governo está fraco, a situação do Brasil é de fragilidade institucional e nós estamos entregando o futuro do Brasil para a Shell.

Senador José Serra, dá uma olhada lá para traz e veja quantos lobistas do petróleo estão frequentando o plenário do Senado. Está cheio de lobistas aqui, mas onde estão os trabalhadores, os petroleiros que eu conversei lá fora? Eles não puderam entrar, né? Os trabalhadores brasileiros, nossos petroleiros não puderam entrar no plenário hoje. Por que?



COMENTÁRIO DO BLOG (atualizado às 2h)

A frase que me impactou imediatamente no discurso do senador Requião foi a primeira.

"Eu confesso que somatizei a nossa derrota no Plenário de ontem. Eu amanheci exausto, adoecido, frustrado."

Quando somos apaixonados pelas causas e lutas que empreendemos, colocamos nossa energia vital naquilo que acreditamos. Eu só faço política, militância e representação dos trabalhadores assim.

Para sobreviver e canalizar minha energia total para a causa em que estou empenhado, a Cassi, eu tenho abstraído de acompanhar toda a tragédia na vida política brasileira, com avanço das pautas conservadoras, liberais e fascistas, com o avanço do golpe contra o meu país, meu governo e meu povo.

Juro que sei o que o Senador sentiu na noite da votação no Congresso Nacional e como ele amanheceu.

Estou muito triste pelo que o meu país está passando.

Entretanto, enquanto eu tiver saúde e energia e acreditar nas possibilidades dos seres humanos, estarei lutando pelas causas dos trabalhadores e dos povos contra o sistema capitalista, seus donos e seus lacaios, contra vários burgueses tupiniquins vira-latas e seus lacaios, capitães do mato.

William Mendes
Cidadão e militante de esquerda

quarta-feira, 18 de março de 2015

A era da impaciência - Thomaz Wood Jr.


Comentário do Blog: sou admirador deste articulista. Guardo textos dele porque ele nos coloca a pensar. Tenho falado sobre esses riscos de "redução de sabedoria" das gerações atuais e futuras.

William Mendes


Qual a fonte primária do crescimento econômico?
A paciência. De onde veio a paciência? Dos livros.

Assim como os livros expandiram nossa capacidade cerebral, as tecnologias atuais podem gerar o efeito contrário

Artigo Thomaz Wood Jr. - Carta Capital 15/03/15

A vida no século XXI pode não ser maravilhosa como sugerem as propagandas de telefones celulares, graças aos consideráveis impactos sociais provocados pela onipresença das novas tecnologias de comunicação e informação. Dois filmes recentes tratam do tema: Disconnect (de 2012, dirigido por Henry Alex Rubin) e Men, Women & Children (de 2014, dirigido por Jason Reitman). As duas obras adoçam seu olhar crítico com uma visão humanista. O grande tema é a vida contemporânea, marcada pelo consumo de bens e estilos, e povoada pelas doenças da sociedade moderna: bullying, identidades roubadas, comunicações mediadas e relações fragilizadas. No centro dos dramas estão a internet e as mídias sociais.

Se determinados impactos sociais já são notáveis, alguns efeitos econômicos ainda estão sendo descobertos. No dia 17 de fevereiro de 2015, Andrew G. Haldane, economista-chefe do Banco da Inglaterra, realizou uma palestra para estudantes da University of East Anglia. O tema foi crescimento econômico. O texto, disponibilizado pela universidade, é raro exemplo de elegância e clareza, com doses bem administradas de história, economia, sociologia e psicologia.

Haldane inicia mostrando que o crescimento econômico é uma condição relativamente recente na história da humanidade, começou há menos de 300 anos. Três fases de inovação marcaram essa breve história do crescimento: a Revolução Industrial, no século XVIII, a industrialização em massa, no século XIX, e a revolução da tecnologia da informação, na segunda metade do século XX.

Qual a fonte primária do crescimento econômico? Em uma palavra, paciência. É a paciência que permite poupar, o que por sua vez financia os investimentos que resultam no crescimento. Combinada com a inovação tecnológica, a paciência move montanhas. Existem também, lembra Haldane, fatores endógenos, a exemplo de educação e habilidades, cultura e cooperação, infraestrutura e instituições. Todos se reforçam mutuamente e funcionam de forma cumulativa. Pobres os países que não conseguem desenvolvê-los.

De onde veio a paciência? Da invenção da impressão por tipos móveis, por Gutenberg, no século XV, que resultou na explosão da produção de livros, sugere Haldane. Os livros levaram a um salto no nível de alfabetização e, em termos neurológicos, “reformataram” nossas mentes, viabilizando raciocínios mais profundos, amplos e complexos. Neste caso, a tecnologia ampliou nossa capacidade mental, que, por sua vez, alavancou a tecnologia, criando um ciclo virtuoso.

E os avanços tecnológicos contemporâneos, terão o mesmo efeito? Haldane receia que não. Assim como os livros expandiram nossa capacidade cerebral, as tecnologias atuais podem gerar o efeito contrário. Maior o acesso a informações, menor nossa capacidade de atenção, e menor nossa capacidade de análise. E nossa paciência sofre com o processo.

Não faltam exemplos: alunos lacrimejam e bocejam depois de 20 minutos de aula; leitores parecem querer textos cada vez mais curtos, fúteis e ilustrados; executivos saltam furiosamente sobre diagnósticos e análise e tomam decisões na velocidade do som; projetos são iniciados e rapidamente esquecidos; reuniões iniciam sem pauta e terminam sem rumo. Hipnotizados por tablets e smart phones, vivemos em uma sociedade assolada pelo transtorno do déficit de atenção e pela impaciência crônica.

Os efeitos são preocupantes. A impaciência em crianças prejudica a educação e cerceia o seu potencial. Nos adultos, reduz a criatividade, freia a roda que gera o desenvolvimento do capital intelectual e a inovação e coloca em risco o crescimento econômico futuro.

Haldane conclui que os ingredientes do crescimento ainda são misteriosos, mas que a história aponta para uma combinação complexa de fatores tecnológicos e sociológicos. É prudente observar que o autor não está sugerindo uma relação direta entre o crescimento das mídias sociais e a estagnação econômica que vem ocorrendo em muitos países. Sua análise é temporalmente mais ampla, profunda e especulativa. Entretanto, há uma preocupação clara com os custos cognitivos da “revolução” da informação, que se somam aos custos sociais tratados nos dois filmes que abriram esta coluna. Não é pouco.

Fonte: Carta Capital

sábado, 20 de dezembro de 2014

Artigo: Síndrome de Capitu - João P. Cunha


Comentário do Blog: fiquei tão impressionado com o artigo do jornalista João Paulo Cunha, reproduzido na Agência Carta Maior, portal no modelo copyleft (como este Blog), que reproduzo aqui para meus leitores e amigos e para guardá-lo porque a qualidade do texto, tanto do ponto de vista político quanto literário, é fan-tás-ti-ca!

Eu sou um apaixonado pela obra de Machado de Assis. Cursei literatura e pude me aprofundar um pouco em obras machadianas como Dom Casmurro. Vale a pena a leitura e as comparações feitas pelo autor e jornalista.

William Mendes

Carta Maior - 18/12/14

O Brasil já tem presidente para os próximos quatro anos, o que está faltando é oposição responsável. A que existe hoje sofre da mesma síndrome de Bentinho


O Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais lamenta a saída de João Paulo Cunha do comando da editoria de Cultura do jornal Estado de Minas, mais uma vítima da censura que impera nos grandes meios de comunicação e grassa em Minas Gerais, e repudia o cerceamento à liberdade de expressão.

Reconhecido como um dos mais brilhantes jornalistas e intelectuais mineiros, dono de uma vasta cultura e de um texto brilhante, João Paulo pediu demissão hoje à tarde. A decisão foi tomada depois da comunicação por parte da direção do jornal de que não poderia mais escrever sobre política na coluna que assinava semanalmente no caderno Pensar.

Seu último texto foi publicado no dia 6/12. Intitulado “Síndrome de Capitu”, critica a falta de uma oposição responsável no Brasil. “Há grandes projetos que impulsionam uma vida e moldam expectativas de futuro, algo que ganhou o belo nome de utopia”, diz um trecho do texto. E foi em nome dessa utopia que ele não aceitou mais essa imposição. Uma salva ao João.

Abaixo a íntegra de sua última coluna.

João Paulo Cunha - O Estado de Minas


Síndrome de Capitu

Existem duas verdades aparentemente óbvias que, no entanto, não têm ficado suficientemente claras para muita gente: o país mudou e a eleição já acabou. A insistência em dar continuidade ao processo que elegeu Dilma Rousseff poderia ser apenas um luto mal vivido, mas tende a se tornar perversa no campo político. Por outro lado, a recusa em enxergar a nova configuração da sociedade, resultado de seguidas políticas de distribuição de renda e inclusão social, pode gerar um impulso no mínimo grotesco em suas alusões reativas e chamamentos à ditadura.


É preciso ir adiante. A oposição, certamente, saiu fortalecida do resultado eleitoral bastante parelho. Mas corre o risco de jogar fora esse crescimento quantitativo em nome de um comportamento pouco produtivo em termos políticos. Em vez de jogar com seu eleitor fiel, interpreta os votos de acordo com suas conveniências e joga para a plateia pelos meios de comunicação, sem perceber que essa falácia já mostrou ser um paradoxo invencível: tem mais brilho que consistência, mais efeito que substância, mais eco que voz.

A oposição de hoje parece viver, no campo da política, o que Bento Santiago, o Bentinho de Dom Casmurro, de Machado de Assis, viveu em seus tormentos de alma: se perde na fantasia da traição (mesmo que ela tenha sido real). Para lembrar sumariamente o enredo do romance, Bentinho se apaixona por Capitu, desde logo apresentada como portadora de “olhos de ressaca”. São jovens de classes sociais distintas. Um arranjo permite o casamento. Logo Bentinho, já pai e bem posto na vida como advogado, desconfia que está sendo traído pela mulher com o melhor amigo, em quem vê semelhança com o filho. O casal se separa, o filho morre e Bento, sozinho, leva adiante sua sina de ser casmurro e sofrer com a desconfiança até o fim da vida.


Machado de Assis, como sempre, ao falar de seus personagens, está figurando a sociedade de seu tempo. Bentinho não sofre só pela traição, mas porque não entende que o mundo mudou. Não pode aceitar que a sociedade republicana deixou para trás as amarras elitistas do Segundo Reinado e da escravidão. Bento não reconhece a mulher, a sociedade, a história. Não pode aceitar que ela tenha uma vida independente e autônoma. Tudo que ele não compreende o ameaça. Capitu não é apenas a mulher, mas tudo que perdeu em seu mundo de referências que se esvaem. Mais que sexual, a traição é histórica. Homem de outro tempo, só resta a ele tentar convencer ao leitor e a si próprio de seu destino de vítima. E soprar um melancólico saudosismo acerca dos tempos idos, que busca reconstruir em sua casa feita à semelhança do lar da meninice.


O Brasil tem uma recorrente síndrome de Capitu: tudo que a elite não tolera se torna, por meio de um discurso marcado pela força jurídica e da tradição, algo que deve ser rejeitado. Eternos maridos traídos. A tendência de empurrar a política para os tribunais é uma consequência desse descaminho. Assim, tudo que de alguma forma aponta para a mudança e ampliação de direitos é considerado ilegítimo e, em alguns momentos, quase uma afronta que precisa ser questionada e combatida. Foi assim com a visibilidade dada aos novos consumidores populares (que foram criminalizados em rolezinhos ou objeto de ironia em aeroportos), com as cotas raciais para a universidade, com a chegada de médicos estrangeiros para ocupar postos que os brasileiros, psicanaliticamente, denegaram.

O romance de Machado de Assis tem ainda outro personagem curioso para a sociologia e psicologia do brasileiro, o agregado José Dias. Trata-se de um homem que vive às expensas da família de Bento e que, por isso, não cessa de elogiar quem o acolhe. Típico representante de certa classe média, ele é o bastião dos valores da burguesia da época, da qual só participa de esguelha. Mais burguês que os burgueses, em sua subserviência, ele gasta os superlativos e a vida a invejar e defender os “de cima”, com pânico de ser confundido com os “de baixo”. Epígonos de José Dias, hoje, são os que amam Miami, levam os filhos para ver o Pateta e participam de passeatas pedindo a volta dos militares.

Leviandade

Mas o que a síndrome de Capitu tem a ver com a política brasileira de hoje? Em primeiro lugar, ela explica por que, em vez de armar uma oposição de verdade, os partidos derrotados tentam inviabilizar a sequência do processo democrático. Em segundo lugar, pela defesa da dupla moral, que desculpa os erros do passado por causa da dimensão dos desvios de hoje, numa reedição do estilo udenista e despolitizador de analisar a conjuntura. Tudo que pode de alguma forma macular a oposição é considerado “sórdido” e “leviano”, numa substituição da política pela moral de circunstância. A corrupção, com sua espantosa abrangência, precisa ser combatida em toda sua dimensão e arco histórico. Nenhum culpado pode ficar de fora, de empresários a políticos de todos os partidos.


Por fim, a personagem machadiana ajuda a explicar a fixação em torno de determinados temas – no romance, é a traição, na vida política atual, é a inflação –, que são muito mais derivações que propriamente o que de fato interessa. A escolha dos ministros da área econômica mostrou como mesmo um governo popular e eleito democraticamente confirma as intuições de Machado de Assis. A excessiva submissão aos interesses rentistas pode ser um recuo estratégico. Mas é um recuo. Uma capitulação.

Economia não é uma ciência exata e, muito menos, isenta de componente ideológico. Um governo de esquerda precisa de uma política econômica de esquerda. Além do equilíbrio macroeconômico, o mais importante é apontar as estratégias de distribuição de renda e de investimento na área social. O deus Mercado não pode falar mais alto que os filhos de Deus. No complexo tecido que sustenta a governança, a presença das forças populares não pode ser colocada em segundo plano, como vem sendo até agora. A excessiva sujeição ao cálculo do apoio político está na base da grande corrupção que hoje enoja a todos. Por isso a reforma política popular se tornou a agenda prioritária da sociedade.

A oposição, por sua vez – e o senador Aécio Neves, candidato derrotado como seu nome de maior destaque –, tem uma tarefa a cumprir: dar um passo à frente no jogo político, com a grandeza que o momento requer. O que ainda está devendo.

Bentinho perdeu sua vida ao ficar preso a um passado de desconfianças que, de resto, até hoje divide as opiniões. Há grandes projetos que impulsionam uma vida e moldam expectativas de futuro, algo que ganhou o belo nome de utopia. Há, entretanto, obsessões que paralisam pelo rancor e ressentimento. Bentinho, é bom lembrar, nunca mais foi feliz. Foi ele mesmo o criador e a vítima da síndrome que o consumiu.

Fonte: Carta Maior