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segunda-feira, 21 de julho de 2025

Livro: Deuses humanos - H. G. Wells



Refeição Cultural

"Isso é o que fazemos agora habitualmente neste mundo. Pensamos diretamente uns para os outros. Determinamos transmitir o pensamento e é transmitido imediatamente, contanto que a distância não seja grande demais. Agora usamos sons neste mundo apenas para poesia e para o prazer e nos momentos de emoção ou para gritar de longe, ou com animais, não para a transmissão de ideias da mente humana para outra mente irmã. Quando eu penso para você, o pensamento é refletido em sua mente, desde que encontre ideias correspondentes e palavras adequadas em sua mente. Meu pensamento se reveste de palavras em sua mente, palavras que vocês parecem ouvir - e naturalmente em sua própria língua e com suas frases habituais. Muito provavelmente, os membros de seu grupo estão ouvindo o que estou dizendo a você cada um com suas próprias diferenças de vocabulário e sintaxe." (p. 50)


O livro de Herbert George Wells, Deuses humanos, veio até mim de forma casual, o vi numa banquinha de livros num shopping center. Paguei por ele quinze reais.

Pelo que pesquisei, o livro não é daqueles mais conhecidos do autor inglês como Guerra dos mundos, A ilha do Dr. Moreau, O homem invisível, A máquina do tempo e outros. 


LIVRO 1 - A IRRUPÇÃO DOS TERRÁQUEOS 

No enredo, o senhor Barnstaple, um trabalhador do periódico Liberal - um subeditor e um faz-tudo -, reflete sobre a necessidade de férias, ele está esgotado pela rotina no trabalho e também em casa. Quer férias até da família. 

Sendo assim, ele pega o carro e sai escondido por uns dias. Dirige a esmo e numa derrapada se vê em outro mundo. Começa aí sua experiência em "Outro Lugar", um lugar chamado Utopia.

Outro carro com um grupo eclético, incluindo um político do partido Conservador inglês, foi parar naquele mundo também. Personagens: sr. Cecil Burleigh, líder Conservador; sr. Rupert Catskill, secretário de Estado para a Guerra; temos ainda o chofer, Lady Stella, Freddy Mush (secretário de Rupert) e o padre Amerton.

O senhor Barnstaple é um liberal, mas:

"De fato, o sr. Barnstaple estava deixando de ter esperanças, e para tipos como ele, esperança é o solvente essencial sem o qual a vida não pode ser digerida. Sua esperança sempre havia sido o liberalismo e o generoso esforço liberal, mas ele começava a achar que o liberalismo jamais faria nada além de se sentar curvado com as mãos no bolso, resmungando e implicando com as atividades de homens mais vulgares, porém mais enérgicos, cujas atividades iriam, inevitavelmente, acabar com o mundo." (p. 12/13)

O senhor Barnstaple tem um pequeno automóvel:

"Era um carro de dois lugares. Era conhecido na família como Banheirinha, Mostarda Colman e Perigo Amarelo. Como esses nomes sugerem, era um carro baixo, conversível, de uma cor amarela clara. O sr. Barnstaple o usava para ir de Sydenham ao escritório, porque fazia cinquenta quilômetros por galão e era muito mais barato do que uma passagem de temporada." (p. 15)

Uma ideia é destaque na saída furtiva do senhor Barnstaple de casa para descansar uns dias:

"(...) Mas não importava muito. Qualquer caminho levava para Outro Lugar, e ele podia seguir para o norte depois." (p. 18)

Localização temporal

"O dia era um desses dias de sol claro característicos da grande seca de 1921 (...) enquanto estivesse dando as costas para Sydenham e o escritório do Liberal, não importaria para qual direção seguiria." (p. 18)

Outro Lugar

O grupo de terráqueos estabelece uma troca de informações e conhecimentos com os indivíduos daquele mundo e assim segue o enredo do romance ficcional. 

Serviço Universal

A base da organização social em Utopia é um novo método de cooperação econômica: o serviço universal para o bem comum.

O novo modelo social surgiu lentamente após a última Era de Confusão. Não houve revolução. Foram séculos de educação e ciência. 

Personagens utopianos até esta parte da leitura (livro um): sr. Serpentine, sr. Urthred, Lion, Lychnis.

Mais personagens

Mais adiante, aparecem novos personagens: Lorde Barralonga, o chofer Ridley, a srta. Greta Grey, Hunker - o rei do cinema -, o francês Emile Dupont e Penk. O bando chegou atropelando e matando um cidadão de Utopia. 

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LIVRO 2 - A QUARENTENA

A segunda parte do romance começa anunciando uma epidemia na população de Utopia causada pelos germes trazidos pelos estrangeiros terráqueos. 

Os utopianos eram como os povos originários das terras invadidas pelos homens brancos europeus em meados do segundo milênio da chamada era cristã. 

De forma sintética, resumiria que o grupo de terráqueos foi isolado num castelo no alto de uma montanha. Os doze humanos discutem sobre o que fazer, sendo o sr. Barnstaple o único divergente na proposta do grupo.

O subeditor do Liberal não vê sentido na ideia do grupo de se contrapor aos utopianos e fazer de Utopia o que seria a sociedade humana naquele momento em 1921. Os utopianos estavam séculos à frente em avanços sociais, pensava o sr. Barnstaple. 

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LIVRO 3 - UM NOVATO EM UTOPIA

"- Aqui - disse ela - não há descanso. Todos os dias homens e mulheres acordam e dizem: 'Que coisa nova faremos hoje? O que vamos mudar?'.

- Eles transformaram um planeta selvagem, com doenças e desordem, numa esfera de beleza e segurança. Fizeram a selva das motivações humanas conter união, conhecimento e poder." (p. 192)


Nesta parte da história veremos o desfecho da aventura do sr. Barnstaple. 

Para mim, como leitor, foram esclarecidas várias dúvidas em relação ao enredo do romance de H. G. Wells.

Certas afirmações pejorativas feitas pelos utopianos sobre a raça humana me deixaram perplexo, no sentido de que poderiam ser ditas hoje, um século depois do enunciado, e não como ficção, mas como descrição do que somos.

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COMENTÁRIO FINAL 

"Em Utopia, assim como na Terra, houvera pessoas escuras e morenas, e permaneciam distintas. As várias raças interagiam socialmente, mas não procriavam muito entre elas; em vez disso, purificavam e intensificavam suas belezas e dons raciais (...) Houvera uma certa eliminação deliberada de tipos feios, malignos, estreitos, estúpidos e soturnos durante os doze anos anteriores." (p. 197)


Esse enunciado é de um século atrás. Chocante, não? Porém, as ideias contidas no texto fazem parte de um romance ficcional. 

No entanto, ideias semelhantes foram ditas faz poucos anos, já no século XXI, por um deputado federal à época para uma entrevistadora negra. Bolsonaro disse para Preta Gil que seus filhos não tinham risco de namorar negras porque foram bem-educados...

Preta Gil processou o sujeito por racismo e teve ganho de causa. Infelizmente, a cantora faleceu ontem. (Preta Gil, presente!)

O livro de H. G. Wells, de 1923, traz uma temática absurdamente atual um século depois. 

A ficção traz de volta o tema da existência de um não lugar, um lugar nenhum idealizado, assim como fez Thomas More em 1516, com sua célebre obra "Utopia".

Nessas idealizações de mundos imaginários entram de tudo: socialismo ou comunismo, eugenia, tecnologias impossíveis etc.

Quando peguei o livro na banca de promoções de livros baratos não imaginava do que se tratava o enredo. Foi sorte minha, li um livro muito bom!

Recomendo a leitura dessa obra posterior ao período mais notabilizado do autor, entre 1895 e 1905, quando saíram seus grandes clássicos de ficção. Dessa fase eu li "A guerra dos mundos" (1898) e achei o enredo fascinante (comentário aqui). 

Seguimos lendo porque a leitura é uma das maravilhas da espécie animal homo sapiens. Como diz Paulo Freire, só se educa gente! Leitura educa as pessoas.

William Mendes


Bibliografia:

WELLS, H. G. Deuses humanos (Men like Gods). Tradução de Santiago Nazarian e Thelma Nóbrega. Barueri, SP: Amoler, 2022.

domingo, 1 de maio de 2016

A Sereníssima República - Conto de Machado de Assis, 1882


A aranha e seu universo, foto de William Mendes.
Machado usa de forma metafórica
 o universo das aranhas neste conto.

(Publicado originalmente em Gazeta de Notícias, 20 de agosto de 1882 e depois incluído na coletânea Papéis Avulsos no mesmo ano)


A SERENÍSSIMA REPÚBLICA*

(Conferência do cônego Vargas)

(*nota de John Gledson no livro de coletâneas de contos de Machado: "Em nota publicada em Papéis Avulsos, Machado diz que este é o único conto do livro 'em que há um sentido restrito: - as nossas alternativas eleitorais'. Em 9 de janeiro de 1881, havia sido aprovada a Lei Saraiva, que, numa tentativa de sanear o sistema representativo do Império, ao mesmo tempo estabelecia eleições diretas e restringia o eleitorado a 1,5 por cento da população")


Meus senhores,


Antes de comunicar-vos uma descoberta, que reputo de algum lustre para o nosso país, deixai que vos agradeça a prontidão com que acudisses ao meu chamado. Sei que um interesse superior vos trouxe aqui; mas não ignoro também, — e fora ingratidão ignorá-lo, — que um pouco de simpatia pessoal se mistura à vossa legítima curiosidade científica. Oxalá possa eu corresponder a ambas.

Minha descoberta não é recente; data do fim do ano de 1876. Não a divulguei então, — e, a não ser o Globo, interessante diário desta capital, não a divulgaria ainda agora, — por uma razão que achará fácil entrada no vosso espírito. Esta obra de que venho falar-vos, carece de retoques últimos, de verificações e experiências complementares. Mas o Globo noticiou que um sábio inglês descobriu a linguagem fônica dos insetos, e cita o estudo feito com as moscas. Escrevi logo para a Europa e aguardo as respostas com ansiedade. Sendo certo, porém, que pela navegação aérea, invento do padre Bartolomeu, é glorificado o nome estrangeiro, enquanto o do nosso patrício mal se pode dizer lembrado dos seus naturais, determinei evitar a sorte do insigne Voador, vindo a esta tribuna, proclamar alto e bom som, à face do universo, que muito antes daquele sábio, e fora das ilhas britânicas, um modesto naturalista descobriu coisa idêntica, e fez com ela obra superior.

Senhores, vou assombrar-vos, como teria assombrado a Aristóteles, se lhe perguntasse: Credes que se possa dar um regime social às aranhas? Aristóteles responderia negativamente, com vós todos, porque é impossível crer que jamais se chegasse a organizar socialmente esse articulado arisco, solitário, apenas disposto ao trabalho, e dificilmente ao amor. Pois bem, esse impossível fi-lo eu.

Ouço um riso, no meio do sussurro de curiosidade. Senhores, cumpre vencer os preconceitos. A aranha parece-vos inferior, justamente porque não a conheceis. Amais o cão, prezais o gato e a galinha, e não advertis que a aranha não pula nem ladra como o cão, não mia como o gato, não cacareja como a galinha, não zune nem morde como o mosquito, não nos leva o sangue e o sono como a pulga. Todos esses bichos são o modelo acabado da vadiação e do parasitismo. A mesma formiga, tão gabada por certas qualidades boas, dá no nosso açúcar e nas nossas plantações, e funda a sua propriedade roubando a alheia. A aranha, senhores, não nos aflige nem defrauda; apanha as moscas, nossas inimigas, fia, tece, trabalha e morre. Que melhor exemplo de paciência, de ordem, de previsão, de respeito e de humanidade? Quanto aos seus talentos, não há duas opiniões. Desde Plínio até Darwin, os naturalistas do mundo inteiro formam um só coro de admiração em torno desse bichinho, cuja maravilhosa teia a vassoura inconsciente do vosso criado destrói em menos de um minuto. Eu repetiria agora esses juízos, se me sobrasse tempo; a matéria, porém, excede o prazo, sou constrangido a abreviá-la. Tenho-os aqui, não todos, mas quase todos; tenho, entre eles, esta excelente monografia de Büchner, que com tanta sutileza estudou a vida psíquica dos animais. Citando Darwin e Büchner, é claro que me restrinjo à homenagem cabida a dois sábios de primeira ordem, sem de nenhum modo absolver (e as minhas vestes o proclamam) as teorias gratuitas e errôneas do materialismo.

Sim, senhores, descobri uma espécie araneida que dispõe do uso da fala; coligi alguns, depois muitos dos novos articulados, e organizei-os socialmente. O primeiro exemplar dessa aranha maravilhosa apareceu-me no dia 15 de dezembro de 1876. Era tão vasta, tão colorida, dorso rubro, com listras azuis, transversais, tão rápida nos movimentos, e às vezes tão alegre, que de todo me cativou a atenção. No dia seguinte vieram mais três, e as quatro tomaram posse de um recanto de minha chácara. Estudei-as longamente; achei-as admiráveis. Nada, porém, se pode comparar ao pasmo que me causou a descoberta do idioma araneida, uma língua, senhores, nada menos que uma língua rica e variada, com a sua estrutura sintáxica, os seus verbos, conjugações, declinações, casos latinos e formas onomatopaicas, uma língua que estou gramaticando para uso das academias, como o fiz sumariamente para meu próprio uso. E fi-lo, notai bem, vencendo dificuldades aspérrimas com uma paciência extraordinária. Vinte vezes desanimei; mas o amor da ciência dava-me forças para arremeter a um trabalho que, hoje declaro, não chegaria a ser feito duas vezes na vida do mesmo homem.

Guardo para outro recinto a descrição técnica do meu arácnide, e a análise da língua. O objeto desta conferência é, como disse, ressalvar os direitos da ciência brasileira, por meio de um protesto em tempo; e, isto feito, dizer-vos a parte em que reputo a minha obra superior à do sábio de Inglaterra. Devo demonstrá-lo, e para este ponto chamo a vossa atenção.

Dentro de um mês tinha comigo vinte aranhas; no mês seguinte cinquenta e cinco; em março de 1877 contava quatrocentas e noventa. Duas forças serviram principalmente à empresa de as congregar: — o emprego da língua delas, desde que pude discerni-la um pouco, e o sentimento de terror que lhes infundi. A minha estatura, as vestes talares, o uso do mesmo idioma, fizeram-lhes crer que era eu o deus das aranhas, e desde então adoraram-me. E vede o benefício desta ilusão. Como as acompanhasse com muita atenção e miudeza, lançando em um livro as observações que fazia, cuidaram que o livro era o registro dos seus pecados, e fortaleceram-se ainda mais na prática das virtudes. A flauta também foi um grande auxiliar. Como sabeis, ou deveis saber, elas são doidas por música.

Não bastava associá-las; era preciso, dar-lhes um governo idôneo. Hesitei na escolha; muitos dos atuais pareciam-me bons, alguns excelentes, mas todos tinham contra si o existirem. Explico-me. Uma forma vigente de governo ficava exposta a comparações que poderiam amesquinhá-la. Era-me preciso, ou achar uma forma nova, ou restaurar alguma outra abandonada. Naturalmente adotei o segundo alvitre, e nada me pareceu mais acertado do que uma república, à maneira de Veneza, o mesmo molde, e até o mesmo epíteto. Obsoleto, sem nenhuma analogia, em suas feições gerais, com qualquer outro governo vivo, cabia-lhe ainda a vantagem de um mecanismo complicado, — o que era meter à prova as aptidões políticas da jovem sociedade.

Outro motivo determinou a minha escolha. Entre os diferentes modos eleitorais da antiga Veneza, figurava o do saco e bolas, iniciação dos filhos da nobreza no serviço do Estado. Metiam-se as bolas com os nomes dos candidatos no saco, e extraía-se anualmente um certo número, ficando os eleitos desde logo aptos para as carreiras públicas. Este sistema fará rir aos doutores do sufrágio; a mim não. Ele exclui os desvarios da paixão, os desazos da inépcia, o congresso da corrupção e da cobiça. Mas não foi só por isso que o aceitei; tratando-se de um povo tão exímio na fiação de suas teias, o uso do saco eleitoral era de fácil adaptação, quase uma planta indígena.

A proposta foi aceita. Sereníssima República pareceu-lhes um título magnífico, roçagante, expansivo, próprio a engrandecer a obra popular.

Não direi, senhores, que a obra chegou à perfeição, nem que lá chegue tão cedo. Os meus pupilos não são os solários de Campanela ou os utopistas de Morus; formam um povo recente, que não pode trepar de um salto ao cume das nações seculares. Nem o tempo é operário que ceda a outro a lima ou o alvião; ele fará mais e melhor do que as teorias do papel, válidas no papel e mancas na prática. O que posso afirmar-vos é que, não obstante as incertezas da idade, eles caminham, dispondo de algumas virtudes, que presumo essenciais à duração de um Estado. Uma delas, como já disse, é a perseverança, uma longa paciência de Penélope, segundo vou mostrar-vos.

Com efeito, desde que compreenderam que no ato eleitoral estava a base da vida pública, trataram de o exercer com a maior atenção. O fabrico do saco foi uma obra nacional. Era um saco de cinco polegadas de altura e três de largura, tecido com os melhores fios, obra sólida e espessa. Para compô-lo foram aclamadas dez damas principais, que receberam o título de mães da república, além de outros privilégios e foros. Uma obra-prima, podeis crê-lo. O processo eleitoral é simples. As bolas recebem os nomes dos candidatos, que provarem certas condições, e são escritas por um oficial público, denominado "das inscrições". No dia da eleição, as bolas são metidas no saco e tiradas pelo oficial das extrações, até perfazer o número dos elegendos. Isto que era um simples processo inicial na antiga Veneza, serve aqui ao provimento de todos os cargos.

A eleição fez-se a princípio com muita regularidade; mas, logo depois, um dos legisladores declarou que ela fora viciada, por terem entrado no saco duas bolas com o nome do mesmo candidato. A assembleia verificou a exatidão da denúncia, e decretou que o saco, até ali de três polegadas de largura, tivesse agora duas; limitando-se a capacidade do saco, restringia-se o espaço à fraude, era o mesmo que suprimi-la.

Aconteceu, porém, que na eleição seguinte, um candidato deixou de ser inscrito na competente bola, não se sabe se por descuido ou intenção do oficial público. Este declarou que não se lembrava de ter visto o ilustre candidato, mas acrescentou nobremente que não era impossível que ele lhe tivesse dado o nome; neste caso não houve exclusão, mas distração. A assembleia, diante de um fenômeno psicológico inelutável, como é a distração, não pôde castigar o oficial; mas, considerando que a estreiteza do saco podia dar lugar a exclusões odiosas, revogou a lei anterior e restaurou as três polegadas.

Nesse ínterim, senhores, faleceu o primeiro magistrado, e três cidadãos apresentaram-se candidatos ao posto, mas só dois importantes, Hazeroth e Magog, os próprios chefes do partido retilíneo e do partido curvilíneo. Devo explicar-vos estas denominações. Como eles são principalmente geômetras, é a geometria que os divide em política. Uns entendem que a aranha deve fazer as teias com fios retos, é o partido retilíneo; — outros pensam, ao contrário, que as teias devem ser trabalhadas com fios curvos, — é o partido curvilíneo. Há ainda um terceiro partido, misto e central, com este postulado: — as teias devem ser urdidas de fios retos e fios curvos; é o partido reto-curvilíneo; e finalmente, uma quarta divisão política, o partido anti-retocurvilíneo, que fez tábua rasa de todos os princípios litigantes, e propõe o uso de umas teias urdidas de ar, obra transparente e leve, em que não há linhas de espécie alguma. Como a geometria apenas poderia dividi-los, sem chegar a apaixoná-los, adotaram uma simbólica. Para uns, a linha reta exprime os bons sentimentos, a justiça, a probidade, a inteireza, a constância etc., ao passo que os sentimentos ruins ou inferiores, como a bajulação, a fraude, a deslealdade, a perfídia, são perfeitamente curvos. Os adversários respondem que não, que a linha curva é a da virtude e do saber, porque é a expressão da modéstia e da humildade; ao contrário, a ignorância, a presunção, a toleima, a parlapatice, são retas, duramente retas. O terceiro partido, menos anguloso, menos exclusivista, desbastou a exageração de uns e outros, combinou os contrastes, e proclamou a simultaneidade das linhas como a exata cópia do mundo físico e moral. O quarto limita-se a negar tudo.

Nem Hazeroth nem Magog foram eleitos. As suas bolas saíram do saco, é verdade, mas foram inutilizadas, a do primeiro por faltar a primeira letra do nome, a do segundo por lhe faltar a última. O nome restante e triunfante era o de um argentário ambicioso, político obscuro, que subiu logo à poltrona ducal, com espanto geral da república. Mas os vencidos não se contentaram de dormir sobre os louros do vencedor; requereram uma devassa. A devassa mostrou que o oficial das inscrições intencionalmente viciara a ortografia de seus nomes. O oficial confessou o defeito e a intenção; mas explicou-os dizendo que se tratava de uma simples elipse; delito, se o era, puramente literário. Não sendo possível perseguir ninguém por defeitos de ortografia ou figuras de retórica, pareceu acertado rever a lei. Nesse mesmo dia ficou decretado que o saco seria feito de um tecido de malhas, através das quais as bolas pudessem ser lidas pelo público, e, ipso facto, pelos mesmos candidatos, que assim teriam tempo de corrigir as inscrições.

Infelizmente, senhores, o comentário da lei é a eterna malícia. A mesma porta aberta à lealdade serviu à astúcia de um certo Nabiga, que se conchavou com o oficial das extrações, para haver um lugar na assembleia. A vaga era uma, os candidatos três; o oficial extraiu as bolas com os olhos no cúmplice, que só deixou de abanar negativamente a cabeça, quando a bola pegada foi a sua. Não era preciso mais para condenar a ideia das malhas. A assembleia, com exemplar paciência, restaurou o tecido espesso do regime anterior; mas, para evitar outras elipses, decretou a validação das bolas cuja inscrição estivesse incorreta, uma vez que cinco pessoas jurassem ser o nome inscrito o próprio nome do candidato.

Este novo estatuto deu lugar a um caso novo e imprevisto, como ides ver. Tratou-se de eleger um coletor de espórtulas, funcionário encarregado de cobrar as rendas públicas, sob a forma de espórtulas voluntárias. Eram candidatos, entre outros, um certo Caneca e um certo Nebraska. A bola extraída foi a de Nebraska. Estava errada, é certo, por lhe faltar a última letra; mas, cinco testemunhas juraram, nos termos da lei, que o eleito era o próprio e único Nebraska da república. Tudo parecia findo, quando o candidato Caneca requereu provar que a bola extraída não trazia o nome de Nebraska, mas o dele. O juiz de paz deferiu ao peticionário. Veio então um grande filólogo, — talvez o primeiro da república, além de bom metafísico, e não vulgar matemático, — o qual provou a coisa nestes termos:

— Em primeiro lugar, disse ele, deveis notar que não é fortuita a ausência da última letra do nome Nebraska. Por que motivo foi ele inscrito incompletamente? Não se pode dizer que por fadiga ou amor da brevidade, pois só falta a última letra, um simples a. Carência de espaço? Também não; vede: há ainda espaço para duas ou três sílabas. Logo, a falta é intencional, e a intenção não pode ser outra, senão chamar a atenção do leitor para a letra k, última escrita, desamparada, solteira, sem sentido. Ora, por um efeito mental, que nenhuma lei destruiu, a letra reproduz-se no cérebro de dois modos, a forma gráfica e a forma sônica: k e ca. O defeito, pois, no nome escrito, chamando os olhos para a letra final, incrusta desde logo no cérebro, esta primeira sílaba: Ca. Isto posto, o movimento natural do espírito é ler o nome todo; volta-se ao princípio, à inicial ne, do nome Nebrask. — Cané. — Resta a sílaba do meio, bras, cuja redução a esta outra sílaba ca, última do nome Caneca, é a coisa mais demonstrável do mundo. E, todavia, não a demonstrarei, visto faltar-vos o preparo necessário ao entendimento da significação espiritual ou filosófica da sílaba, suas origens e efeitos, fases, modificações, consequências lógicas e sintáxicas, dedutivas ou indutivas, simbólicas e outras. Mas, suposta a demonstração, aí fica a última prova, evidente, clara, da minha afirmação primeira pela anexação da sílaba ca às duas Cane, dando este nome Caneca.

A lei emendou-se, senhores, ficando abolida a faculdade da prova testemunhal e interpretativa dos textos, e introduzindo-se uma inovação, o corte simultâneo de meia polegada na altura e outra meia na largura do saco. Esta emenda não evitou um pequeno abuso na eleição dos alcaides, e o saco foi restituído às dimensões primitivas, dando-se-lhe, todavia, a forma triangular. Compreendeis que esta forma trazia consigo, uma consequência: ficavam muitas bolas no fundo. Daí a mudança para a forma cilíndrica; mais tarde deu-se-lhe o aspecto de uma ampulheta, cujo inconveniente se reconheceu ser igual ao triângulo, e então adotou-se a forma de um crescente etc. Muitos abusos, descuidos e lacunas tendem a desaparecer, e o restante terá igual destino, não inteiramente, decerto, pois a perfeição não é deste mundo, mas na medida e nos termos do conselho de um dos mais circunspectos cidadãos da minha república, Erasmus, cujo último discurso sinto não poder dar-vos integralmente. Encarregado de notificar a última resolução legislativa às dez damas incumbidas de urdir o saco eleitoral, Erasmus contou-lhes a fábula de Penélope, que fazia e desfazia a famosa teia, à espera do esposo Ulisses.

— Vós sois a Penélope da nossa república, disse ele ao terminar; tendes a mesma castidade, paciência e talentos. Refazei o saco, amigas minhas, refazei o saco, até que Ulisses, cansado de dar às pernas, venha tomar entre nós o lugar que lhe cabe. Ulisses é a Sapiência.

FIM


COMENTÁRIO BREVÍSSIMO

Lendo o conto hoje, planeta Terra, Brasil, 1º de maio de 2016, com um Golpe de Estado sendo aplicado em nossa sereníssima república (que provou ser de bananas), golpe aplicado por um bando de ladrões e contra uma presidenta eleita com 54,5 milhões de votos em outubro de 2014 e sem crime algum, só posso pegar esse conto metafórico e aplicá-lo hoje.

De fato, a eleição foi ganha pelos derrotados - tucanagem aeciana e asseclas, marinhos e p.i.g.uistas, tecnocratas e juristas que reimplantam nestes dias de votações no Congresso Nacional o voto censitário na república brasilnanas.

Caralho! Nos quatro partidos do conto machadiano temos tipos como o PT, o PSDB, o PMDB e tem até os partidos a la PSTU, que negam tudo.

Que merda de vida, de mundo! (eu não tenho que rodear para usar o linguajar de Osasco ao invés do linguajar do Bruxo do Cosme Velho).

Os sublinhados no texto são meus, para chamar a atenção àquelas passagens.

William
Cidadão da república de bananas brasilnanas

sábado, 4 de abril de 2015

Leitura: Ideologia e Contraideologia





Excertos interessantes

"O mais difícil é redescobrir sempre o que já se sabe" (Elias Canetti, A província do homem)


Hipóteses semânticas para Ideologia:

"Trata-se de ideia de condição. A ideologia é sempre modo de pensamento condicionado, logo relativo".

"Os homens erram, ou porque se enganam, ou porque distorcem a verdade por força dos seus interesses: este é o sumo das críticas que Platão faz à versatilidade dos sofistas, primeiros profissionais da retórica e do mercado ideológico que a história da filosofia registra".

"Para os sofistas, o discurso tem apenas valor instrumental, pois tudo pode ser provado ou contestado, conforme os desejos do cliente".


A RENASCENÇA ENTRE A CRÍTICA E A UTOPIA

"A crítica sistemática da ligação entre discurso e poder adquire plena evidência na Idade Moderna, sobretudo a partir da luta que a cultura renascentista empreende contra a força da tradição eclesiástica e contra os preconceituosos da nobreza e da monarquia por direito divino".

"A ruptura de um grupo intelectual ou de um movimento político com o estilo de pensar dominante abre neste a ferida do dissenso. Um pensamento de oposição traz consigo o momento da negatividade, contesta a autoridade, tida por natural, do poder estabelecido, acusa as suas incoerências e, muitas vezes, assume estrategicamente o olhar de um outro capaz de erodir a pseudovalidade do discurso corrente. Os períodos de crise cultural engendram a suspeita de que pode não ser verdadeiro ou justo o sistema de valores que "toda gente" admire sem maiores dúvidas".

Citando Montaigne (Ensaios): "Cada um de nós chama barbárie aquilo que não é de seus hábitos".

E Ainda: "É também um homem que procura discernir o mal que o fanatismo estava causando a seus contemporâneos, é um pensador para quem a tolerância e a benevolência devem presidir às relações entre os homens, não importa se europeus ou ameríndios, cristãos ou pagãos, ortodoxos ou dissidentes".


OS ROBIN WOODS DOS SÉCULOS XV E XVI E O PL 4330 NO BRASIL DE 2015

Aqui é citado Horkheimer comentando a obra clássica de Thomas Morus (Utopia) e eu não resisti em comparar aquela situação com a possibilidade idêntica para os trabalhadores brasileiros no caso de o Congresso Nacional aprovar o projeto da terceirização total neste abril de 2015:

"(...) as grandes utopias do Renascimento são a expressão das camadas desesperadas, que tiveram de suportar o caos da transição entre duas formas econômicas distintas. A história da Inglaterra nos séculos XV e XVI fala-nos dos pequenos camponeses que foram expulsos por seus senhores das casas e terras que habitavam, ao transformar todas aquelas comunidades rurais em pastos de ovelhas para prover com lã as fábricas do Brabante de forma lucrativa. Esses camponeses famintos tiveram de organizar-se em bandos saqueadores, e seu destino foi terrível. Os governos mataram muitíssimos deles e grande parte dos sobreviventes foi obrigada a entrar nas fábricas nascentes em incríveis condições de trabalho. E é precisamente nessas camadas que aparece em sua forma inicial o proletariado moderno; já não eram escravos, mas tampouco tinham possibilidade de ganhar a vida por si próprios. A situação desses homens proporcionou o argumento para a primeira grande utopia dos tempos modernos, dando, por sua vez, nome a todas as posteriores: a Utopia de Thomas Morus (1516), que, depois de entrar em conflito com o rei, foi executado no cárcere".


COMENTÁRIO

Dá para perceber a profundidade do tema ao ver o início da obra do professor Alfredo Bosi ao percorrer seis séculos de história do pensamento ocidental.

Me excitou a lembrança do papel dos sofistas, os profissionais da retórica e da lábia... tão atual!

Também é muito oportuna a questão dos valores de "toda gente". Ainda mais quando o senso comum é usado em períodos de crises culturais ou morais.

Poucas páginas me fazem ter a certeza de que é preciso não aceitar facilmente ir ao sabor das correntes hegemônicas em tempos como os que vivemos.

Quer ver uma coisa que acho horrível, deprimente, já que esta postagem é feita em um Sábado de Aleluia: a chamada "malhação do Judas".

Francamente! O que é a "malhação do Judas"? É a simbologia do linchamento. Isso para mim é a barbárie! Como eu poderia ser favorável ao linchamento de uma pessoa qualquer pelo populacho? Agora, vai discutir isso com o povo...


Bibliografia:

BOSI, Alfredo. Ideologia e Contraideologia. Companhia das Letras. 2010.

domingo, 4 de março de 2012

Por que será que o conhecimento humano acumulado não melhora o mundo?



Run... sigo correndo
 e procurando...

Refeição Cultural

Estou lendo uma obra clássica escrita no século XVII - O Leviatã, de Thomas Hobbes. O autor é um inglês que dedicou sua vida para pensar o mundo e a existência humana. Antes que leigos no autor comecem a falar que o cara é contra a democracia etc e tal - leigos como eu mesmo sou até agora -, é bom saberem que sua obra principal - O LEVIATÃ - tem uma apresentação extremamente metódica sobre o que ele entende por natureza humana. Suas opiniões também são baseadas nos conhecimentos e suposições biológicas e fisiológicas dos anos 1600.

Na introdução do livro, Hobbes nos apresenta a ideia principal que discorrerá metodicamente ao longo de umas quinhentas páginas. O Leviatã seria o Estado ou Cidade (em latim Civitas) como uma reprodução artificial do próprio homem, com todas as suas partes e funções orgânicas com um bom ou mau funcionamento.

Eu tenho esse nome na minha cabeça há muito tempo "O Leviatã..." assim como várias obras clássicas que pensaram o mundo, o homem, a sociedade como, por exemplo, Utopia de Thomas More, A República de Platão, Admirável mundo novo de Aldous Huxley, 1984 de George Orwell, Fahrenheit 451 de Ray Bradbury dentre outras.

Ao se ler o pensamento dos outros sobre as coisas é necessário que se tenha tolerância e paciência para avaliar as argumentações e depois fazer sua digestão cultural e ver se há concordância ou não com a tese apresentada. Lembro aqui um alerta importante de Eric Hobsbawm na introdução de seu Era dos Extremos, quando diz que ler para compreender não quer dizer concordar. Ele está se referindo naquela passagem ao Nazismo.

Cada vez que pego para ler um livro com séculos de existência, fico pensando por que será que o mundo não absorveu aquele conhecimento e melhorou de forma abrangente.

A sensação é sempre de frustração por ver tanta ignorância e tanta miséria e exploração humana não resolvida com tanto saber já produzido pela humanidade.

E digo isso para o conhecimento em vários gêneros e tecituras literárias. Ao ler Dom Quixote de La Mancha de Miguel de Cervantes, fiquei primeiro tentando percorrer em minha cabeça como foi possível para aquele autor, com a vida de agruras que ele teve, como foi possível escrever aquela obra espetacular?! Seus personagens simbolizam os tipos humanos daquele mundo de forma tão fantástica e, mesmo assim, tendo-se o cuidado de abstrair quatro séculos de costumes distintos, ainda são atuais todos os dramas vividos ali.

Por incrível que pareça (para mim) estou conseguindo avançar na leitura de Hobbes. Está valendo a pena ser um pouco menos ignorante nesse tema.


E A PERGUNTA?

Por que será que o conhecimento humano acumulado não melhora o mundo?

Quem sou eu para responder à pergunta do título desta reflexão? Ela deve atormentar milhares de humanistas por milhares de lugares diferentes no mundo há bastante tempo.

Só sei que sinto uma necessidade absurda em ver algum resultado prático na nossa luta por melhorar um pouco o mundo, no sentido dele se tornar menos hostil para os seres humanos que aqui vivem. Estou sempre pensando em outro texto que fiz dizendo que após milhares de anos de acúmulo da vivência humana o mundo segue hostil.

I still haven't found what i'm looking for...

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Leituras: Utopia (1516) - Thomas More


Minha edição de Utopia.

Bom, finalmente li a obra de More (ou Morus). O livro é bem maluco se pensarmos o ano em que foi publicado: 1516.

Há conceitos surpreendentes na obra e acredito que muita gente fala sobre Utopia sem ter a mínima noção do que se trata (como eu fazia).

É a velha questão dos clássicos, em que boa parte das pessoas nunca leu mas de certa forma "já conhece", pois a obra cai no conhecimento popular com leituras e interpretações, ora fidedignas, ora enviesadas. Outro exemplo muito comum de clássicos pouco lidos e muito "sabidos" por todos é Dom Quixote de La Mancha.

Veja abaixo a apresentação do livro com a biografia de Thomas More, pois eu não sabia nada sobre ele e achei bastante interessante. Em relação às teses e conceitos surpreendentes da obra, pode ser que volte ao blog para comentá-las (principalmente, à medida que vá lendo outras obras filosóficas que representem o eterno debate de ideias sobre tipos de sociedades reais e idealizadas).


APRESENTAÇÃO DA EDIÇÃO:

Uma ilha recém-descoberta, que abriga um Estado preocupado com a felicidade do povo e com a organização da produção, onde a propriedade privada e o dinheiro não existem. Esta é Utopia, a sociedade ideal criada pelo inglês Thomas More em 1516. A obra ganhou tamanha importância que deu início a um novo gênero literário, a ficção utópica, seguida por Francis Bacon e Tommaso Campanella.

As ideias surpreendentes de More sobre a sociedade dos sonhos são enriquecidas pelo interessante jogo de palavras criado pelo autor. A palavra utopia foi criada por ele a partir da junção do advérbio grego ou (não) ao substantivo topos (lugar), significando, portanto, "lugar que não existe". Quem visita a ilha e a descreve, segundo More, é Rafael Hitlodeu, cujas raízes gregas do sobrenome (hytlos+daios) significam "especialista em disparates". Muitas outras coisas na ilha de Utopia também têm nomes significativos, como o rio Anidra - ou "sem água" - a capital Amaurota - "obscurecida" - ou o príncipe Àdemo: "sem povo", literalmente.

Utopia é inspirado nas ideias apresentadas por Platão em A República, também trazido a você pela coleção Biblioteca Clássica, e tornou-se um dos livros que mais influenciou o pensamento ocidental. A república de Utopia é surpreendente e pode representar tanto um local extremamente agradável de se viver, onde não existe fome ou desigualdade, quanto um pesadelo em que a individualidade é um conceito quase desconhecido. (destaque sublinhado pelo blog)

O escritor e estadista Thomas More nasceu em Londres, em 1478, e formou-se em Direito nos Inns of Court. Conheceu vários humanistas, entre eles o holandês Erasmo de Roterdã. Protetor das artes e dos direitos humanos, tornou-se juiz municipal e foi nomeado sub-xerife de Londres em 1510. Alguns anos depois passou a fazer parte do conselho do rei Henrique VIII, de quem logo se tornou secretário. Foi, também, conselheiro literário da majestade, quando Henrique VIII decidiu escrever contra as ideias protestantes de Martinho Lutero.

Ainda assim, conseguiu tempo para escrever suas obras literárias. Traduziu poemas gregos e criou suas próprias poesias. Também escreveu algumas biografias históricas, sendo a História do rei Ricardo III a mais expressiva. Para escrever Utopia, More fez uso de sua experiência em Direito e Política, e o texto foi fortemente influenciado pelas crenças humanistas do autor.

Em 1529 tornou-se lorde chanceler mas logo renunciou ao cargo por não concordar com a política recentemente adotada pelo rei Henrique VIII, que travava uma disputa inédita com a Igreja Católica para ter seu casamento com Catarina de Aragão anulado - e assim poder desposar Ana Bolena. More era religioso e recusou-se a prestar o juramento de lealdade, instituído por Henrique VIII, que colocava o rei inglês acima de qualquer outro soberano estrangeiro, entre eles o Papa, criando assim a Igreja anglicana. Por essa razão foi preso em 1534 e acusado de alta traição por perjúrio. Recebeu inúmeros pedidos para retratar-se e prestar o juramento ao rei, mas não cedeu. Foi condenado à morte e decapitado em 6 de julho de 1535.


COMENTÁRIO

Esta é a apresentação da editora sobre a obra. É instigante ou não é? A obra é pequena e de fácil leitura. Para dirigentes sindicais e militantes sociais é de leitura obrigatória.

Estou com um projeto de melhorar minha bagagem literária com a leitura de obras que marcam fortemente o debate mundial e histórico acerca de sociedades humanas.

Preciso ler a República de Platão, pois li mais da metade há uma década e tenho lembranças horríveis das teses ali defendidas.

Li há pouco tempo O Príncipe de Maquiavel. Agora estou lendo o Leviatã de Hobbes e depois quero ler Contrato Social de Rousseau. São obras complexas e de leitura lenta.

Camaradas e amigos, LEIAM DIARIAMENTE, nem que seja por 30 minutos.


Bibliografia:

MORE, Thomas. Utopia. Coleção Biblioteca Clássica. Editora Rideel. 1ª edição, tradução de Heloisa da Graça Burati.