Mostrando postagens com marcador José Paulo Netto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador José Paulo Netto. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 9 de março de 2022

Leituras sobre Karl Marx



Refeição Cultural

Devagarinho, bem devagarinho, vou lendo um pouquinho sobre Karl Marx. O material de estudo escolhido é o livro de José Paulo Netto - Karl Marx: uma biografia (2020), da Editora Boitempo. 

Após ler intensamente no ano que passou - li 57 obras -, decidi focar nos afazeres domésticos adiados por longo tempo e tratar da questão até o fim e, com isso, 2022 não será para mim um ano de leituras de livros. Lerei obras assim só de forma esporádica, de vez em quando.

Assim sendo, fico bem ao saber que sei um pouco mais de Marx a cada pedaço de leitura que faço.

Do livro de José Paulo Netto, já li a "Apresentação", feita por João Antonio de Paula, a "Nota do autor", muito importante porque ali ocorre o contrato entre nós leitores e ele, e estou seguindo as orientações dadas ali, estou lendo nota por nota e ao fim serão 200 páginas de notas explicativas ou que agregam informações ao conteúdo principal.

Já terminei o capítulo I - "Adeus à miséria alemã (1818-1843) e estou indo para a parte final do capítulo II - "Paris: a descoberta do grande mundo (1843-1844)".

Esta semana li "Os Cadernos de Paris". E a cada trecho ou capítulo mais aumenta minha admiração por Karl Marx. Que figura notável, mesmo aos 26 anos de idade!

---

Os Cadernos de Paris

O professor Netto nos diz que Marx escreveu de forma concomitante os Cadernos e os Manuscritos no primeiro semestre de 1844 (p. 88). Esta parte que li tratou dos Cadernos

O que seriam os Cadernos?

"os Cadernos certamente devem ser vistos como parte daquele 'laboratório teórico' a que já aludimos: são anotações e extratos de leituras, glosas, pistas críticas e alguns desdobramentos analíticos, tudo sob uma forma que indica não ser material para publicação, mas para utilização futura;" (p. 88)

Marx vai tratar mais densamente da questão da alienação nos Manuscritos, mas já adianta algumas reflexões nos Cadernos.

Em uma das notas [195], Marx diz que "A humanidade se situa fora da economia política e a inumanidade dentro dela" (p. 91). Anotei no livro que a nota 38 de Netto seria boa para citar. Aqui vai ela:

----------------------------

O TRABALHADOR COMO UMA RÊS, UM CAVALO (subtítulo meu)

"Leia-se: 'A Economia Nacional conhece o trabalhador apenas como animal de trabalho, como uma rês reduzida às mais estritas necessidades corporais' [255]. Para Ricardo, diz Marx, 'as nações são apenas oficinas da produção, o homem é uma máquina de consumir e produzir; a vida humana um capital; as leis econômicas regem cegamente o mundo'; e, citando Eugène Buret: 'Para Ricardo, os homens não são nada, o produto tudo' [279]. Leia-se mais: aquela economia estabeleceu 'o princípio de que ele [o trabalhador], tal como qualquer cavalo, tem de ganhar o bastante para poder trabalhar. Ela não o considera como homem' [253]; para ela, 'as necessidades do trabalhador são apenas a necessidade de o manter durante o trabalho e na perspectiva de que a raça dos trabalhadores não se extinga' [324]" (p. 551)

------------------------------

Forte isso, heim!

Marx cita as teses de David Ricardo, mesmo sendo de uma crueza incrível, porque reconhece que o economista foi sincero na descrição de como a economia política vê a classe trabalhadora: "o trabalhador é mero instrumento de produção de lucros" (p. 92).

A maior parte das notas (12 delas) dos Cadernos vão tratar de alienação dos homens.

NETTO: "Em todas as outras doze notas, as reflexões de Marx estão conectadas a uma problemática de fundo: a alienação dos homens quando as suas relações sociais se desenvolvem sob o regime da propriedade privada. Tal problemática - que marcará visceralmente os Manuscritos - vincula o conteúdo dessas doze notas." (p. 93)

Depois Marx aborda a questão do dinheiro e a relação com a propriedade privada.

Por fim, vem a questão de o homem como ser genérico em contraponto ao homem egoísta da economia política.

"Marx deixa claro que é ao ser genérico do homem que corresponde a verdadeira comunidade dos homens, comunidade que é impensável numa 'sociedade de atividades comerciais'." (p. 96)

Termino esse registro de leituras citando uma fala de Marx à página 98 do livro, citada por Netto, avaliando como seriam ou serão as coisas quando os homens produzirem "como homens", ou seja, quando a propriedade privada for suprimida:

MARX: "Suponhamos que produzíssemos como seres humanos - cada um de nós haveria se afirmado duplamente na sua produção: a si mesmo e ao outro. 1º) Na minha produção, eu realizaria a minha individualidade, a minha particularidade; experimentaria, trabalhando, o gozo de uma manifestação individual da minha personalidade como um poder real, concretamente sensível e indubitável. 2º) No teu gozo ou na tua utilização do meu produto, eu desfrutaria da alegria espiritual imediata, através do meu trabalho, de satisfazer a uma necessidade humana, de realizar a essência humana e de oferecer à necessidade de outro o seu objeto. 3º) Eu teria a consciência de servir como mediador entre ti e o gênero humano, de ser reconhecido por ti como um complemento do teu próprio ser e como uma parte necessária de ti mesmo, de ser aceito em teu espírito e em teu amor. 4º) Eu teria, em minhas manifestações individuais, a alegria de criar a manifestação da tua vida, ou seja, de realizar e afirmar, na minha atividade individual, a minha verdadeira essência humana, a minha sociabilidade humana [Gemeimwesen]. [221-2]" (p. 98)

Por conceitos e objetivos assim vale a pena lutar e viver...

William


Bibliografia:

NETTO, José Paulo. Karl Marx: uma biografia. 1ª ed. - São Paulo: Boitempo, 2020.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Leitura: Marx até 1843



Refeição Cultural

"Hegel (2010, p. 264) escreve que 'o povo, tomado sem o seu monarca e sem a articulação do todo que se conecta [...], é a massa informe que não é mais nenhum Estado'. Marx exclama: 'Como se o povo não fosse o Estado real!' e argumenta: 'O Estado é um abstractum. Somente o povo é o concretum'. E prossegue: 'A democracia é conteúdo e forma. A monarquia deve ser apenas forma, mas ela falsifica o conteúdo. Na monarquia, o todo, o povo, é subsumido a um de seus modos de existência, a constituição política; na democracia, a constituição mesma aparece somente como uma determinação e, de fato, como autodeterminação do povo. Na monarquia, temos o povo da constituição; na democracia, a constituição do povo'. (NETTO, 2020, p. 544-5, nota 95)


Estou lendo sobre Karl Marx. Conhecendo um pouco a respeito dessa figura humana histórica. Escolhi a obra de José Paulo Netto - Karl Marx: uma biografia (2020) para saber quem foi esse homem marcante para a história recente da humanidade.

Terminei a leitura do 1º capítulo "ADEUS À MISÉRIA ALEMÃ (1818-1843)". Estou lendo seguindo as sugestões do autor, ou seja, lendo os textos dos capítulos e todas as notas ao final do livro. São 200 páginas de notas, acrescentadas às mais de 500 páginas de textos nos capítulos. Sem pressa, como nos alerta Netto, porque o livro não é para gente apressada.

"Bem sei que a leitura de muitas notas ao fim de um livro (no caso deste, em torno de um milhar) não é algo cômodo para o leitor apressado - mas já adverti que este não é um Marx para apressados (...) e lhes peço a pachorra de ler as centenas de notas apostas ao fim desta biografia. Boa parte delas tem um objetivo central: deixar bem claro que as ideias marxianas são objeto de problematização e polêmica, que o seu legado intelectual estimula debates calorosos e que a sua exploração diferenciada demonstra que Marx não foi, como o qualificou certo biógrafo acadêmico, uma 'vida do século XIX': antes, é um autor que atravessou todo o século XX e entra no século XXI mais vivo que nunca." (NETTO, 2020, p. 34)

Na primeira parte do livro, que abrange o período de vida de Marx entre seu nascimento em 1818 até 1843, quando o filósofo sai da Alemanha e vai para Paris, já tomei contato com algumas questões importantes em sua vida presente e futura.

Aos 25 anos de idade, Marx já estuda e comenta a obra de Hegel, de Feuerbach e Bauer, já está casado com Jenny, e produz textos complexos a respeito de tudo que estuda. 

É impressionante como o jovem alemão estuda dezenas de livros e obras para adquirir conteúdo sobre determinado tema que quer criticar ou comentar. É demais essa honestidade intelectual de não sair falando ou escrevendo qualquer coisa de sua cabeça sem ter conhecimento e referência a respeito. 

Pensa, leitor, nos dias de hoje como as coisas se dão... com a mania de todo mundo achar que pode falar e escrever sobre qualquer coisa com seu achismo... todo mundo tem liberdade de opinião, é verdade, mas uma coisa é ser livre pra opinar, outra é se colocar como um falante que sabe sobre o tema sem saber por conhecimento através de estudos.

---

CRISTIANISMO, JUDAÍSMO, RELIGIÃO E ESTADO

Um tema que achei interessante nesta parte do livro foi a respeito de religião e Estado, religião e política, religião e direitos das pessoas.

Uma coisa que lembrei na hora foi de nossa lei maior, a Constituição Federal de 1988 e o seu preâmbulo que cita "Deus" no corpo do texto da lei... e depois a gente fica ouvindo de tudo quanto é gente e instituição que o Brasil é um país "laico". Como laico se a CF enfiou determinada visão de mundo, a de um determinado deus no corpo do texto!? Como assim, laico?

Assim como fiquei puto ao ler As aventuras de Robinson Crusoé, de Defoe, um livro de ficção inglesa do início do século XVIII só porque o personagem inglês ficava o tempo todo me lembrando das desgraceiras que os europeus fizeram com os povos do mundo por causa de suas religiões "melhores que a dos outros", sejam elas católicas, protestantes ou outra vertente qualquer, fico danado da vida ao ver a mistura de política e Estado com religiões e fé das pessoas - que devem ser respeitadas, mas em seus espaços pessoais e privados. 

Talvez nunca vamos deixar de queimar e matar em nome das abstrações religiosas criadas pelos homo sapiens.

---

"Kreuznach: de maio a outubro-novembro de 1843"

Nessa parte do 1º capítulo, Netto nos põe em contato com algumas temáticas que já aparecem na vida do jovem Marx.

Vemos reflexões interessantes de Marx a respeito de monarquia, república, democracia, cristianismo e judaísmo, história, quem é sujeito e quem é produto/predicado em relação ao rei e ao povo. O que gera o que, as ideias geram as coisas ou as coisas geram as ideias? Marx reflete sobre isso. O Estado gera as famílias ou as famílias geram os estados? Estamos falando aqui de conceitos de materialismo histórico.

"[...] O fato é que o Estado se produz a partir da multidão, tal como ela existe na forma dos membros da família e dos membros da sociedade civil. A especulação [Hegel] enuncia esse fato como um ato da Ideia." (um trecho de citação de Netto sobre texto de Marx, na página 68)

A nota 95 deste capítulo vale a pena (reproduzida acima como epigrama). Ela é muito boa a respeito da diferença entre monarquia e democracia, quem é sujeito e o que é produto.

---

JUDAÍSMO E CRISTIANISMO

Marx se contrapõe a Bauer em relação ao tema religioso, ao abordar a questão da emancipação (extensão de direitos cívico-políticos) e a igualdade civil.

"Fiel à concepção hegeliana, Bauer considera o cristianismo uma religião de caráter universal, a que se contrapõe expressamente o caráter particular do judaísmo, colado à lei mosaica; o universalismo cristão seria potencialmente muito mais apto que o judaísmo para acessar a emancipação. Resumindo: em função do seu particularismo religioso, o judeu está menos habilitado à emancipação que o cristão" (NETTO, 2020, p. 71)

Dessas leituras e reflexões foi que lembrei p. da vida do preâmbulo de nossa CF 1988. Já falei aqui no blog sobre isso. Humanos tratarem o cristianismo como religião maior, melhor, universal etc em relação ao judaísmo, paganismo, ateísmo, islamismo etc tende a acabar mal para algum lado minoritário. Achar o cristianismo melhor ou achar uma religião melhor que outra nunca vai acabar bem! É de uma arrogância absurda isso!

Com todo o respeito à fé e à religião de cada brasileira e brasileiro, é um absurdo colocar na lei maior do país essa questão de "Deus" assim como seria colocar "Alá", "Maomé", "Ogum", ou qualquer outra divindade ou referência mística ou mitológica. A lei maior de um Estado laico não pode em hipótese alguma citar ou privilegiar algum tipo de religião e suas divindades!

Estou lendo um romance a respeito de personagens do Afeganistão - O caçador de pipas (2003), de Khaled Hosseini, e o que vemos naquele país é exatamente essa questão da mistura de religião e Estado. Isso nunca acaba bem!

Quando misturadas com política de Estado, as questões de diferenças religiosas entre cristianismo, judaísmo, islamismo e outras religiões diversas tendem a terminar da mesma forma: intolerância à alteridade e consequências drásticas para os segmentos que não compartilham do tipo de crença predominante nos grupos dominantes.

Enfim, sigamos lendo e estudando.

William


Bibliografia:

NETTO, José Paulo. Karl Marx: uma biografia. 1ª ed. - São Paulo: Boitempo, 2020.

domingo, 2 de janeiro de 2022

Conhecendo Karl Marx - É preciso estudar!



Refeição Cultural

Estou lendo Karl Marx: uma biografia (2020), de José Paulo Netto. Já descobri muita coisa interessante a respeito dessa figura humana de grande influência na história dos povos do mundo após sua passagem por esse mundo mundo vasto mundo, como dizia Drummond.

Estou no 1º capítulo do livro: "ADEUS À MISÉRIA ALEMÃ (1818-1843)". No tempo cronológico, Marx está com 25 anos. Acabei de ler a respeito de sua experiência como editor responsável pelo jornal Gazeta Renana, de oposição ao governo prussiano de Frederico Guilherme IV. O governo se encheu das críticas do jornal e mandou fechá-lo. O capítulo termina com Marx pedindo demissão. 

"Vê-se: a experiência na Gazeta Renana não colocou Marx apenas diante das 'questões econômicas', frente às quais ele se encontrou desarmado teoricamente. Demonstrou-lhe na prática que ele (...) teria de estudar intensivamente..." (p. 65)

E tira uma lição importante da experiência: o peso da questão econômica nas questões sociais.

"Da sua experiência na Gazeta Renana, Marx tirou depressa, quase de imediato, uma lição fundamental: a necessidade urgente de qualificar-se teoricamente para compreender a vida social, sem o que qualquer projeto de mudança sociopolítica careceria de eficácia." (p. 65)

---

É isso, Marx! Temos que estudar, pesquisar, ler, conhecer a realidade e desenvolver as estratégias de mudança a partir da realidade material.

William


Bibliografia:

NETTO, José Paulo. Karl Marx: uma biografia. 1ª ed. - São Paulo: Boitempo, 2020.

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Marx e a religião



Refeição Cultural

"A luta contra a religião é, indiretamente, a luta contra aquele mundo cujo aroma espiritual é a religião. A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma. A religião é o ópio do povo. A abolição da religião enquanto felicidade ilusória dos homens é a exigência da sua felicidade real. O apelo para que abandonem as ilusões a respeito da sua condição é o apelo para abandonarem uma condição que necessita de ilusões. A crítica da religião é, pois, o germe da crítica do vale de lágrimas, do qual a religião é a auréola. [...] Consequentemente, a tarefa da história, depois que o outro mundo da verdade se desvaneceu, é estabelecer a verdade deste mundo. A tarefa imediata da filosofia, que está a serviço da história, é desmascarar a autoalienação humana nas suas formas não sagradas, agora que ela foi desmascarada na sua forma sagrada. A crítica do céu transforma-se deste modo em crítica da terra, a crítica da religião em crítica do direito, e a crítica da teologia em crítica da política" (Marx, 2005, p. 145-6. In: NETTO, 2020, p. 535-6, nota nº 48)


Certa vez, estava trabalhando no caixa do Banco do Brasil ao lado de uma colega. Nós dois estávamos atendendo a uma fila enorme de clientes e usuários. Durante o trabalho, a gente ia conversando à medida que o tempo passava. Não me lembro bem qual foi o início da conversa entre nós, mas sei que ela me falou alguma coisa sobre Deus e eu disse a ela que não acreditava em Deus, que era ateu. Pra que!?

Nunca vou me esquecer da cena. Ela me olhou com olhar fixo, paralisado, chocado, vocês sabem como um olhar diz muita coisa... Foi um momento de silêncio e espanto, boca semiaberta e após alguns segundos ela disse:

- Nossa! Eu achava você um cara tão legal!...

---

Fui criado em um ambiente religioso, predominantemente católico como a maioria dos ambientes do Brasil dos anos setenta e oitenta do século vinte. Um catolicismo sincrético, lógico. Ao longo de quase três décadas de vida crente, indo às missas aos domingos, a família ia também a um centro de umbanda, e às vezes a sessões espíritas, e sempre éramos benzidos contra qualquer mal; Dona Nenzinha, por exemplo, sempre me tratou a espinhela caída, na infância lá em Uberlândia.

Relembro arrepiado e com lágrimas nos olhos momentos na infância e adolescência e até na fase adulta nos quais eu não sei se teria resistido e suportado se não tivesse me agarrado na fé que tinha para atravessar tantos momentos duríssimos que passei. Os trabalhos braçais, as injustiças que via no meu cotidiano, as diversas formas de sofrimento e miséria que permeiam a nossa vida. Sei que a fé teve o seu papel na minha vida.

Eu fui muito religioso na época em que cria em Deus, em santos e santas, e anjos e arcanjos e demônios, almas e espíritos. A religião me moldou como pessoa até a fase adulta. Com o passar do tempo, os dogmas e as contradições naturais das diversas formas de religião e fé passaram a não se encaixar mais na minha visão de mundo. O processo de crer e não crer em explicações místicas sobre a vida e o mundo foi se dando de forma natural, eu diria.

Agora começo a estudar um pouco sobre Karl Marx e o marxismo. Estou lendo a biografia de Marx feita pelo professor José Paulo Netto. Estou no começo da leitura.

Já passei dos cinquenta anos de idade. A leitura é a leitura de um homem brasileiro vivendo num país destruído por um golpe de Estado e governado por um regime genocida e corrupto colocado no poder pela elite do atraso brasileira, a casa-grande. É a leitura de um ateu que já foi religioso por décadas; é a leitura de um ex-dirigente sindical quando atuou na categoria bancária.

Eu não tenho vergonha de reconhecer minha ignorância em quase tudo na vida. Não sou acomodado. Gosto de estudar e o que não sei ainda é porque não pude conhecer. Confesso que não conheço Marx e o marxismo para me dizer marxista. Eu dizia isso quando era representante da classe trabalhadora. Eu tinha algumas referências sobre o tema porque a leitura básica havia feito, li algumas vezes o Manifesto do Partido Comunista, de 1848. E só.

O excerto acima, copiado da nota nº 48 do livro sobre a biografia de Marx, livro de José Paulo Netto, é uma preciosidade! É uma reflexão profunda de Karl Marx a respeito da religião. Eu me vejo nela nesses anos todos de minha vida.

-------------------------------------

"A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma..."

-------------------------------------

Os seres humanos são explorados e têm vidas miseráveis. Os seres humanos por serem racionais sabem e sentem a dura realidade da miséria e sabem inclusive que vamos todos morrer, talvez na dor e na miséria. A análise de Marx não é desrespeitosa de forma alguma. Não é.

Quando ouvia só o excerto que dizia que Marx dizia que "A religião é o ópio do povo." sem conhecer a reflexão inteira, me parecia algo agressivo contra a fé das pessoas. Eu sei que temos que respeitar a fé de cada um, assim como eu tive a minha fé religiosa durante quase trinta anos.

A reflexão de onde sai a religião como "ópio do povo" tem uma lógica que avalia a miséria da imensa maioria das pessoas sob o jugo de algum explorador ou manipulador local.

É isso. É isso. Tenho respeito pelo momento de cada pessoa, pela forma que cada um tem de dar sentido ao seu viver, e sigo buscando sentidos, procurando saber e compreender o que ainda não sei e não compreendo. 

Andei, andei, andei e ainda vejo sentido no refrão da música do U2 que diz "I Still Haven't Found What I'm Looking For". Por ironia da vida, tenho há décadas essa música como um tema de minha vida... pura ironia da Providência... talvez.

William


Post Scriptum: e pra finalizar o post, tentando me concentrar na releitura por causa dos barulhos ao redor, coloquei a música "One Of Us", de Joan Osborne, outra música gospel... rsrs.


Bibliografia:

NETTO, José Paulo. Karl Marx: uma biografia. 1ª ed. - São Paulo: Boitempo, 2020.

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

211221 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Ontem li mais um capítulo do clássico de Daniel Defoe - As aventuras de Robinson Crusoé (1719). Gostaria de terminar a leitura do livro ainda este ano, mas não será fácil. Faltam dez capítulos.

RELIGIÕES

O capítulo XXVI tem uma longa abordagem sobre religião, apontando divergências e convergências entre a religião católica e a religião protestante, a católica dos personagens espanhóis e do padre francês que acompanha Crusoé em uma visita a sua ilha e a protestante dos ingleses.

A convergência de ambas seria a fé cristã, como descreve o padre católico que acompanha Crusoé:

"Embora não professemos a mesma religião, estou todavia seguro de que nós, como cristãos que somos, teríamos o maior prazer em ver as pobres escravas do demônio instruídas nos preceitos do cristianismo, na crença do Redentor, na Ressurreição, na vida eterna e no Juízo final, dogmas estes sobre que não há divergências de doutrina." (p. 373)

A divergência seria a própria estrutura de poder e hierarquia da igreja católica frente ao modelo protestante.

"Na minha qualidade de católico, conheço suficientemente a diferença radical que há entre um protestante e um pagão, entre aquele que invoca o nome de Jesus, embora de uma forma que julgo não ser de acordo com a verdadeira fé, e um bárbaro ou selvagem, que desconhece por completo Deus e o seu Cristo, Redentor da humanidade. Se os protestantes não estão dentro dos umbrais da igreja, pelo menos estão mais perto do que aqueles que nunca ouviram falar dela..." (p. 386)

Enquanto lia, refletia e me lembrava de uma vida longa que tive acreditando nessas abstrações da mente e cultura humanas: o meu ambiente de criação foi o católico apostólico romano. Essas criações dos seres humanos são muito poderosas, tenho plena clareza a respeito disso. E tenho plena compreensão da necessidade humana de encontrar pontos de apoio e suporte para significar a vida e suportar as dificuldades existenciais percebidas pelo animal humano.

Cada pessoa e cada sociedade tem sua cultura e seu momento na busca de consciência e compreensão da vida na Terra.

---

KARL MARX

Li mais um pouco do primeiro capítulo do livro de José Paulo Netto sobre a vida de Karl Marx. Muito interessante a forma leve com que Netto nos conta a respeito do grande pensador Marx.

O capítulo I. ADEUS À MISÉRIA ALEMÃ (1818-1843) nos conta o ambiente onde a família de Marx viveu.

Na parte que fala de sua adolescência, crescimento e conclusão de sua educação fundamental - "Os primeiros anos: 1818-1835" - gostei muito de um trecho de um de seus trabalhos de conclusão de curso, um texto com o título "Reflexão de um jovem em face da escolha de uma profissão".

"Se [o homem] trabalha apenas para si mesmo, poderá talvez tornar-se um célebre erudito, um grande sábio ou um excelente poeta, mas nunca será um homem completo, verdadeiramente grande [...]. Se escolhermos uma profissão em que possamos trabalhar ao máximo pela humanidade [...] não fruiremos uma alegria pobre, limitada, egoísta, mas a nossa felicidade pertencerá a milhões [de pessoas]. (NETTO, 2020, p. 42)

Que coisa linda! Um jovem de 17 anos!

Demais!

---

Na parte "Dois semestres de boêmia: Bonn, 1835-1836" o leitor fica sabendo das loucuras do jovem estudante Marx, loucuras muito semelhantes às dos jovens estudantes de hoje e de sempre.

O rapaz não faltava a um rolê regado a bebida e tabaco. A faculdade tinha os grupos de afinidades dos filhos dos ricos e os dos não ricos, onde se situava Marx. Ele chegou a duelar com sabre com um rapaz e por pouco não deu merda. Feriu-se apenas acima do olho esquerdo.

---

Na parte seguinte - "Os anos de Berlim: de 1836-1837 a meados de 1841) - que estou lendo ainda, já soube da paixão entre Marx e Jenny, mais velha que ele 4 anos. Ao ler sobre o amor e a vida que tiveram juntos, me lembrei de Machado de Assis e sua companheira de toda a vida, Carolina Augusta Xavier de Novais. Marx sentiu muito a morte da esposa em 1882. Machado idem, a morte da esposa em 1904 abalou muito o nosso escritor.

---

Enfim, paro por aqui minhas reflexões e registros após meus estudos.

Seguimos em busca de conhecimento, em busca de consciência de classe e na expectativa de contribuir de alguma forma para o fim do regime capitalista e pela construção de um mundo melhor para a humanidade e para o planeta Terra.

William


Bibliografia:

DEFOE, Daniel. As aventuras de Robinson Crusoé. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.

NETTO, José Paulo. Karl Marx: uma biografia. 1ª ed. - São Paulo: Boitempo, 2020.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

201221 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 20 de dezembro de 2021. Segunda-feira.


Comecei a ler uma biografia de Karl Marx, a biografia escrita por José Paulo Netto. Se não for entusiasmo passageiro, pretendo ler e estudar Marx e o marxismo e me tornar um conhecedor das ideias e estudos de Karl Marx. Se for fogo de palha, logo logo o livro e a necessidade de estudar o marxismo ficarão pelos cantos do meu mundo onde ficam as coisas começadas e não terminadas.

Li cerca de 40 páginas do livro sobre Marx. Muito interessante o que já li. O autor nos conta sobre a Alemanha do início do século XIX, a Alemanha onde nasceu Karl Marx em 1818. O que hoje conhecemos como Alemanha é bem diferente do que ela era naquela época. E a Alemanha estava numa condição muito diferente da Inglaterra, França e países baixos, em relação ao contexto econômico, social e político. Enfim, vamos estudar sem pressa, repito, sem pressa, Marx e o marxismo.

---

RETROSPECTIVA E MEMÓRIAS

Estou revendo meus escritos e minhas realizações no ano de 2021. A base de minha retrospectiva pessoal é o que escrevo e registro nos blogs que mantenho. Já fiz uma postagem com uma breve retrospectiva de minha participação política nas lutas sociais deste ano (ver aqui).

A retrospectiva que vai dar bastante trabalho é a da revisão dos textos no blog Refeitório Cultural. Ao tempo em que releio o que escrevi, corrijo e melhoro a redação, vou contando quantos livros li neste ano, relembro momentos vividos, e vou imprimindo para encadernar a produção textual do ano. Neste ano a produção foi grande, voltei a escrever intensamente como fiz em 2016, o ano do golpe de Estado no Brasil.

Ao revisar as 22 postagens de janeiro, vi que li ou terminei a leitura de 3 livros naquele mês, leituras diversificadas porque li em português e espanhol: li Julio Cortázar, conheci as poesias de Bertolt Brecht, e li José J. Veiga. 

Naquele mês alimentava ainda o sonho de correr uma maratona, estava correndo longões muito bons, na casa dos 15K. Pensei em escrever narrativas curtas, cheguei a fazer três textos ficcionais, mas depois voltei aos gêneros discursivos aos quais estou mais acostumado.

Vai dar trabalho essa retrospectiva cultural porque são quase 300 postagens neste ano. Mas ler e reler e me ver nelas é parte do processo de me fazer e de me burilar. Sigamos.

---

CLÁSSICOS

Estou em algumas trilhas de leituras que vão demorar a serem percorridas, mas isso é bom. Nas poesias, estou para ler as completas de Drummond e Cecília Meireles. São centenas e centenas de poesias feitas em décadas. Mas não tenho pressa, vou lendo. 

Ainda tenho programados nessas veredas da linguagem poética os livros a Ilíada, a Eneida, a Divina Comédia e depois vou reler Os Lusíadas. Por fim, Mensagem, de Fernando Pessoa. É coisa pra cacete! 

No entanto, se eu for sobrevivendo a esse mundo e a essa vida instável... seguirei lendo, estudando, tentando ser menos ignorante.

Após terminar a leitura de Crusoé, tenho trilhas enormes a percorrer em relação aos romances. O livro seguinte é o clássico de Jonathan Swift, Gulliver. Mas a sequência é enorme...

---

Marx e outras leituras biográficas, políticas e filosóficas, romances clássicos, poesias, muita coisa pra estudar e escrever comentários até como forma de memorizar e apreender o que se leu e estudou. O blog tem esse papel.

O outro blog, A Categoria Bancária, é uma outra relação de amor. É uma vida dedicada às lutas políticas, sociais, sindicais. Dá um trabalho talvez maior ainda reler, corrigir, diagramar etc. É história, história minha e de nós todos. Ao revisar e reler, estou escrevendo memórias. Vou tentar seguir essa vereda também.

William