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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Livro: Fidel Castro, comandante invicto - Norberto Escalona Rodríguez



Refeição Cultural

LITERATURA E HISTÓRIA


"Havia muitos guardas mortos, e me lembro de uma frase de Fidel que me comoveu muito. Quando percorria o campo de batalha, alguns companheiros zombavam dos cadáveres que ainda não tinham sido recolhidos, por conta da dinâmica do combate, dizendo coisas ofensivas. O Comandante em Chefe os ouviu e mandou que se calassem. Depois, disse algo mais ou menos assim: 'Estamos em uma guerra, onde eles estão errados e vêm nos combater, e temos de matá-los. Mas não se esqueçam de que são cubanos como nós, mesmo que não tenham razão'. Ele não permitiu que os companheiros desonrassem os inimigos mortos. Aquele gesto de humanidade nos impactou a todos." (Ada Bella, depoimento de uma das Marianas, p. 252)


Finalizei emocionado a leitura do livro Fidel Castro, comandante invicto: Serra Maestra pelo Quinteto Rebelde e Batalhão das Marianas. O momento no qual nos encontramos é de muita apreensão por causa do sofrimento imposto ao povo cubano por parte dos Estados Unidos e o bloqueio criminoso que vigora há mais de seis décadas - desde 1962 -, bloqueio recrudescido por Trump no período atual.

O livro tem um prefácio importante e esclarecedor de Beto Almeida, que engrandece o trabalho de pesquisa, entrevistas e organização da história da Revolução Cubana feito pelo jornalista e escritor Norberto Escalona Rodríguez. A tradução foi feita pela professora Maria Leite, especialista na área da educação em Cuba.

Tive a oportunidade de conhecer Cuba em duas visitas que fiz à ilha caribenha em 2023 e 2024. Foram experiências inesquecíveis e eu deixo a sugestão aos leitores e leitoras que se interessam pelas causas populares organizarem-se para visitar e conhecer pessoalmente o país e o povo cubano. 

Cuba é um dos raros países do mundo com poucos recursos que garante os três principais direitos humanos de forma gratuita ao povo: alimentação, saúde e educação. Isso graças à opção pelo socialismo.

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"Da relação do quinteto com o Exército Rebelde, surge o próprio nome do grupo e a ideia de usar melodias populares cubanas, como o famoso bolero La Barca, dotando-o de outra letra, com conteúdo sintonizado com a luta de libertação, com mensagens patrióticas, visando elevar o moral revolucionário." (Beto Almeida, no Prefácio, p. 14/15)


Norberto Escalona nos apresenta as histórias humanas dos músicos convocados pelos rebeldes para participarem da luta de libertação tocando e cantando através da Rádio Rebelde, cravada no meio da Serra Maestra. Os músicos criavam letras com as temáticas da guerrilha e os alto-falantes da rádio levavam suas mensagens até os soldados do ditador Batista. 

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"As jovens camponesas também foram incorporadas aos serviços de saúde, cuidavam dos feridos, ou trabalhavam na cozinha, ou buscando alimento na própria Serra. Também cumpriam funções muito arriscadas, como negociadoras com comandos do exército da ditadura, como é o caso de Teté, que com 16 anos desceu desarmada da Serra, com uma bandeirinha branca, enviada por Che a uma missão de negociar a libertação de feridos prisioneiros. E Teté assumiu a missão, mesmo sabendo que podia ser assassinada, como a advertiu o próprio Che. O próprio fato de ser uma mulher a negociadora já tinha efeito desmoralizador sobre o exército da ditadura." (Beto Almeida, no Prefácio, p. 13)


As histórias das jovens revolucionárias que foram para a Serra Maestra com o desejo de contribuir com a guerrilha para libertar suas famílias e o povo cubano das barbáries dos soldados do ditador Batista é pra lá de emocionante, é de nos encher de orgulho e esperança na capacidade de resistência e luta das mulheres, tantas vezes oprimidas e vítimas de um mundo machista e sexista.

Amigas e amigos leitores, os tempos são desafiadores. Diria que os tempos sempre foram difíceis e desafiadores para nós que não pertencemos ao pequeno grupo das elites da classe dominante do mundo. Para nós do povo, a vida é luta todos os dias.

O povo cubano é um dos maiores exemplos do mundo e da história das sociedades humanas de que lutar por sua liberdade e independência vale a pena, vale a vida, vale o esforço para se manter soberano, livre e decidindo por conta própria o destino.

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FIDEL CASTRO

"Não se pode negar o quanto Fidel sempre foi visionário. Ele tem algo que eu chamo de 'anjo', porque é muito previdente. Ele já sabia que faltava pouco tempo para o fim da guerra. Queria reivindicar o papel da mulher cubana, não o nosso em particular, por estarmos ali, embora fôssemos privilegiadas por estar mais próximas. Era desrespeitoso o que alguns homens diziam sobre as mulheres. Mas ele estava completamente certo de que cumpriríamos com nosso dever. Porque quem estava na Serra, independentemente do nível de instrução, tinha princípios e, de uma forma ou outra, havia sentido os rigores da ditadura." (Lilia Rielo, do Batalhão das Marianas, p. 209)


A postura do líder revolucionário Comandante em Chefe Fidel Castro Ruz é um exemplo extraordinário para todos nós que lutamos por um mundo diferente deste no qual estamos, hegemonizado pelos valores do capitalismo - exploração dos seres humanos e da natureza e acumulação de lucros a qualquer custo -, uma sociedade sem ética, sem preocupação com o meio ambiente, sem justiça, sem igualdade, sem oportunidades para todas as pessoas.

Ao conversar com a população cubana, nas duas visitas que fiz à ilha caribenha, pude perceber o quanto o povo ama Fidel e o tem como referência de ser humano e líder.

Enfim, leitura essencial o livro de Norberto Escalona Rodríguez. Quanto mais conheço sobre Cuba e seu povo incrível, mais quero conhecer.

Em breve, estarei na ilha pela terceira vez, levando meu apoio e solidariedade aos nossos irmãos e irmãs cubanos.

William Mendes

18/02/26


Bibliografia:

RODRÍGUEZ, Norberto Escalona. Fidel Castro Comandante Invicto. Tradução: Maria do Carmo Luiz Caldas Leite. Prefácio: Beto Almeida. São Bento do Sapucaí, SP. Projeto Cultural Nossa América, 2025.

terça-feira, 5 de março de 2024

Cuba (II)




Refeição Cultural

Osasco, 5 de março de 2024. Terça-feira.


A viagem deste ano a Cuba teve como motivo principal a 32ª Feira Internacional do Livro de Havana, ocorrida entre os dias 15 e 25 de fevereiro, na Fortaleza San Carlos de la Cabaña e em outros pontos da cidade de Havana. Vejam a beleza da fortaleza em algumas fotos que fiz em 2023: aqui.

Fortaleza San Carlos de la Cabaña.

Fui a Havana através de um grupo de brasileiras e brasileiros organizado por Telma Araújo, uma militante do Movimento de Solidariedade a Cuba, e uma organizadora das brigadas brasileiras a Cuba com décadas de experiência. Durante oito dias ficamos no Hotel Copacabana em Havana e viajamos até a cidade de Trinidad, passando um dos dias na cidade de Cienfuegos.

Nosso grupo solidário a Cuba.

Nosso grupo organizado por Telma Araújo esteve em Cuba com o suporte de um pacote organizado pelo Icap - Instituto Cubano de Amistad con los Pueblos -, e a Amistur é a agência de viagem que nos auxilia durante a estadia no país. Cada um comprou suas passagens de ida e volta, e providenciou a documentação e o restante ficou por conta do pacote. Foi tudo excelente!

Sede do Icap em Havana.

Para vocês terem uma ideia do quanto é recomendável viajar a Cuba por uma alternativa como esta - pacotes organizados pelo Icap/Amistur - no valor que se paga (cerca de mil dólares) estão incluídas todas as refeições - café, almoço e janta -, hospedagens em hotéis, e também os traslados para todos os eventos e lugares, a busca e o retorno ao aeroporto. Neste pacote, tivemos crachás para entrada livre na Feira do livro e em todos os eventos ligados a ela.

Sede da Amistur em Havana.

Amistur - Misión: Captar y emitir hacia Cuba visitantes, grupos de turismo sociopolíticos y brigadas de solidariedad procedentes de todo el mundo, a través del Instituto Cubano de Amistad con los Pueblos, Asociaciones de Amistad y la red de turoperadores de la Agencia, para mostrar directamente la realidad cubana, brindándoles un servicio receptivo de excelencia y una asistencia personalizada, que garanticen su más alta satisfacción, con el máximo de eficiencia, alcanzando un crecimiento sostenido de la operación del destino Cuba.

Hotel Copacabana: área das piscinas.

Quero registrar a vocês que a experiência deste ano se soma à experiência do ano passado, e ambas foram muito satisfatórias e não tivemos nenhum contratempo durante as duas semanas em Cuba. Em 2023, o passeio foi bastante diferente. Ficamos em casas de famílias cubanas - nossa base para tudo foi a Casa de Isabel - e com as informações e suporte da professora Maria Leite, grande intelectual e estudiosa sobre a pedagogia e a história de Cuba.

Casa de Isabel, ao lado do Capitólio.

Ou seja, posso dar o testemunho a vocês, amigas e amigos do blog, que são várias as maneiras de realizar o sonho de conhecer Cuba e o povo cubano, um povo alegre, inteligente e criativo, que ousou enfrentar os imperialismos desde o período colonial e ainda hoje luta com dignidade e criatividade para solucionarem os problemas da Ilha, que sofre há mais de seis décadas um embargo econômico criminoso e assassino por parte dos Estados Unidos da América.

Com Isabel, Luis e Telma.

Após o período do pacote do Icap/Amistur com todas as facilidades para passarmos 8 dias em Cuba com foco na 32ª Feira Internacional do Livro de Havana, fiquei mais alguns dias na Casa de Isabel, onde sempre os brasileiros e brasileiras são acolhidos com carinho e têm à disposição o apoio logístico de Isabel e Luis para fazer passeios e viagens por toda a Ilha.

Palestra de Maria Leite sobre
o livro Cuba Insurgente.

O pacote que fizemos era até o dia 22 de fevereiro e como a Feira do Livro iria até o dia 25, pude aproveitar até o último dia as atrações diversas que faziam parte do evento cultural. Foi assim que pude ver apresentações musicais em teatros ao longo do período em Havana.

Frei Betto e Ailton Krenak.

Nas próximas postagens, vou contando um pouco a vocês as experiências extraordinárias de estar ao lado e acompanhar eventos com intelectuais brasileiras e brasileiros como Conceição Evaristo, Frei Betto, Ailton Krenak, Emicida e a professora Maria Leite, cujo livro Cuba Insurgente: identidade e educação (2023) foi um dos materiais que mais me ensinaram sobre Cuba até o momento.

Conceição Evaristo e Emicida.

Abraços e não percam tempo, se desejam conhecer Cuba, organizem suas viagens para lá. As experiências que trazemos de lá são diferentes das que estamos acostumados ao visitar outros países capitalistas como o nosso.

William Mendes


Post Scriptum: o primeiro texto desta nova série sobre Cuba pode ser lido aqui.


domingo, 10 de setembro de 2023

Livro: Cuba insurgente - Maria Leite



Refeição Cultural

Osasco, Brasil. América do Sul.


10/9/23 (13h41)

O livro da professora Maria Leite, sobre a pedagogia em Cuba, é um dos livros que peguei para ler desde que passei a estudar um pouco sobre o país e o povo cubano, há mais ou menos um ano. É um livro exigente, na minha opinião, porque ele é profundo e para mim livros assim não são de leitura rápida, leio e releio parágrafos e páginas, vou e volto, paro e sigo.

Neste momento em que abro esta postagem, ainda faltam cem páginas para terminar a leitura do estudo sobre a pedagogia cubana, é um estudo de 40 anos de vida da doutora e mestra Maria Leite, um estudo profundo sobre a identidade e a educação em Cuba, principalmente após a Revolução de 1959. Já aprendi muito com a leitura feita até aqui. 

Acho que é hora de pegar na leitura até acabar. Já vivi a experiência fantástica em minha vida de ir a Cuba por duas semanas e conhecer Havana e mais três cidades do país, Trinidad, Santa Clara e Varadero. Já me demorei demais na leitura do livro.

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ANTES, UMA DIGRESSÃO

Escrever na rede mundial pra quem? 

Uma coisa que tenho refletido muito é sobre a profundidade e a superficialidade das coisas, inclusive da sociedade humana. Os problemas atuais do mundo são complexos e toda complexidade deveria ser tratada de forma complexa. Mas os tempos são de superficialidade. 

Não quero ser superficial, nem quero escrever superficialidades como escritor de blog. Faço há tempos um esforço de construir textos enormes, com citações e reflexões para contribuir com o compartilhamento de conhecimento humano de forma gratuita. São mais de 5 mil postagens em meus blogs. Seguirei escrevendo.

No entanto, talvez eu mude um pouco o tipo de conteúdo em algumas postagens. Não sei até que ponto vale a pena eu ficar um dia todo para fazer um texto bem trabalhado para disponibilizar na rede mundial e não saber se o conteúdo foi lido por alguns humanos ou se o conteúdo foi apenas roubado pelas máquinas da mentirosa "Inteligência Artificial", que não é inteligente e não cria nada, só rouba tudo que se escreveu até hoje, usa a nossa criação textual sem citar a fonte e engana o povo do mundo como se a máquina que compila textos fosse "inteligente".

Como saber se as centenas de acessos diários aos meus textos são máquinas ou seres humanos? Acho que não tem como saber. Imagino que é da natureza do que nós escritores fazemos viver com a dúvida se alguém leu o que criamos. Até quem edita um livro pode ter os livros vendidos e os mesmos serem colocados nas estantes de metro (de enfeite) sem nunca serem lidos...

Enfim, vamos seguir com a leitura do livro profundo e sério da professora Maria Leite. O deleite do novo conhecimento, no fundo, é meu, é do leitor da obra em si.

Aliás, quando penso ainda nas redes sociais das big techs, aí é que eu fico danado com esse mundo da aparência e da superficialidade... A hora que eu tiver coragem de não saber mais sobre os outros, acabo de vez com as contas que tenho nas redes sociais.

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10/9/23 (21h30)

CAPÍTULO 4

A leitura do Capítulo 4 traz reflexões muito atuais perante os dilemas da sociedade humana, dilemas não só para a República Socialista de Cuba como também para os demais países sob a hegemonia do modelo capitalista. A autora nos falou bastante sobre o modelo de educação cidadã em Cuba.

O capítulo abordou os seguintes pontos:

A EDUCAÇÃO E AS NOVAS DIRETRIZES

4.1 O sistema nacional de educação em Cuba; 4.2 O plano de estudos "E"; 4.3 Os conselhos na atividade educacional; 4.4 As relações entre trabalho e educação; 4.5 A educação para a vida cidadã.

Os "valores morais" devem ser como uma bússola orientadora das conquistas e manutenção do socialismo.

DIREITOS DAS CRIANÇAS E JOVENS CUBANOS

"O Estado Socialista, como poder do povo, garante que não haja criança sem escola, comida e vestuário; que não há jovem que não tenha a oportunidade de estudar; que não há quem não tenha acesso a estudos, cultura e esportes" (Artigo 9, CUBA, 1992)

AS RELAÇÕES ENTRE TRABALHO E EDUCAÇÃO

(...) Em O Capital, a análise da categoria trabalho é apresentada em sua dimensão ontológica, ou seja, a partir da ideia de que é pelo trabalho que se constitui a vida humana ao longo da história..." (p. 139)

Essa parte foi tão profunda na análise que é necessário fazer aqui algumas citações para quando eu for reler a postagem.

A autora cita Marx à página 139:

"Antes de tudo, o trabalho é um processo entre o homem e a Natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu metabolismo com a Natureza. Ele mesmo se defronta com a matéria natural como uma força natural. Ele põe em movimento as forças naturais pertencentes à sua corporalidade, braços e pernas, cabeça e mão, a fim de apropriar-se da matéria natural numa forma útil para a sua própria vida. Ao atuar, por meio desse movimento, sobre a Natureza externa a ele e ao modificá-la ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza. Ele desenvolve as potências nela adormecidas e sujeita o jogo de suas forças a seu próprio domínio (MARX, 1996, P. 297)"

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11/9/23 (22h08)

"(...) Na concepção marxista, a divisão técnica e social do trabalho na sociedade capitalista gera a alienação do homem em relação ao próprio trabalho e à natureza, desumanizando-o. Marx une o ato produtivo ao ato educativo, explicitando que a unidade entre a educação e a produção material deve ser admitida como meio decisivo à emancipação humana. No pensamento marxista, a separação entre ensino e trabalho faz da escola uma instituição 'morta'." (p. 139)

Principalmente após a Revolução de 1959, "a escola cubana deposita no trabalho a possibilidade concreta de elevação cultural e desenvolvimento dos seres humanos." (p. 143)

Após a visita a Cuba, acabei vendo diversos vídeos na internet que mostram Che Guevara e os cubanos em intenso trabalho nos primeiros anos da república socialista. É muito legal ver as imagens da época.

O TRABALHO CAPACITA O HOMEM PARA A REALIDADE DA VIDA

"(...) Segundo Castro Ruz (1998, p.12), 'há de ser o trabalho o grande pedagogo da juventude e, simplesmente, é ele que pode capacitar o homem para entender seus deveres e a realidade da vida'." (p. 144)

As leis da didática em Cuba atuam no sentido de criar de forma consciente o amor pelo trabalho socialmente útil nos estudantes e jovens do país.

"A Constituição de 2019 assegura, em seu Capítulo I - Dos fundamentos políticos, Título II, Artigo 31, que: 'o trabalho é um valor primordial de nossa sociedade. É um direito, um dever social e um motivo de honra para todas as pessoas em condições de trabalhar' (CUBA, 2019c)." (p. 147)

No último tópico do Capítulo 4 - "A educação para a vida cidadã" - nos chama a atenção a leitura de que tem sido um desafio para o sistema educativo cubano manter os valores da revolução para as novas gerações, cercadas de novas tecnologias e apelos consumistas.

APARELHOS CELULARES, A ARMA DO INIMIGO DO REGIME: Uma imagem que ficou na minha memória, das caminhadas por Cuba, principalmente em Havana Velha, foi a imagem das pessoas - jovens principalmente - com as caras nas telas de celulares pelas ruas... fiquei triste ao ver isso. Não à toa, diversos cidadãos cubanos com quem conversei, mais velhos, me disseram que a maior arma contra a Revolução é "essa" me mostrando os aparelhos de celulares...

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12/9/23 (14h35)

CAPÍTULO 5

"Em Cuba, existe a consciência de que o mundo está imerso em um quadro de acentuado desenvolvimento e, paradoxalmente, também de espantosos índices de pobreza. Para os cubanos, muitos fatores deste quadro estão ligados às tentativas, em nível mundializado, de anular, no interior das nações, os sentimentos pátrios e suas identidades como estados soberanos. Desde os primeiros anos da Revolução, a Educação foi chamada a ocupar um lugar privilegiado, como a pedra angular da nova sociedade. Existe uma espécie de consenso de que a criação e a formação de valores na consciência das crianças e dos jovens, desde muito cedo, são agora mais necessárias que nunca para salvar a independência de Cuba e a Revolução." (p. 189)

Terminei a leitura do Capítulo 5 - "A interlocução com a realidade", que tratou dos seguintes temas: 5.1 Espaços de observação; 5.2 A interação face a face; 5.3 Eixos de articulação das entrevistas.

Enquanto lia a análise das entrevistas e estudos feitos por Maria Leite, fiquei me lembrando dos dias que passamos em Cuba meses atrás. Como leio quase todos os dias notícias de Cuba, percebo que o capítulo abordou temas muito atuais como a questão do trabalho autônomo - "cuentapropismo" - e os desafios da educação e da economia do país, sobretudo por causa do bloqueio imposto pelos Estados Unidos.

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12/9/23 (22h30)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A última parte do livro de Maria Leite são as considerações finais dela. Gostei muito do estudo, do percurso empreendido pela autora e de tudo que passei a saber sobre Cuba e o povo cubano.

Não dá pra fazer grandes citações, mas deixo duas para finalizar a postagem.

MARTÍ E MARX - BASES DO SOCIALISMO CUBANO

"(...) O legado de Martí, entrelaçado às ideias de Marx, acabou por produzir uma recepção ao marxismo distinta daquela até então hegemônica no continente americano. A combinação desses fatores provavelmente é o sustentáculo capaz de explicar a continuidade do regime cubano após a extinção da URSS, mesmo com o fortalecimento do bloqueio imposto a Cuba, como relíquia da Guerra Fria." (p. 196)

UMA DIFERENÇA CENTRAL DA CUBA SOCIALISTA E DO BRASIL CAPITALISTA

"No entendimento desta pesquisa, a distância que separa os grupos em 'desvantagem social' e os que conhecem a 'filiação', se é possível assim chamá-los, dentro do formato identitário cubano, não se inclui a brutalidade, que mantém as massas em estado de alerta contra balas perdidas, assaltos à mão armada e outras formas de criminalidade frequentes nos países alinhados ao capitalismo da era globalizada. A educação tem colaborado acentuadamente para estabelecer em Cuba um quadro distinto do nível de desagregação social, que marca as grandes cidades da América Latina e do Caribe. As limitações engendradas nos períodos de crise não acarretaram o abandono de prédios escolares, o fechamento de hospitais, o fenômeno de 'meninos de rua', grupos de extermínio e massacres perpetrados por atiradores." (p. 201) 

Como cidadãos brasileiros, sabemos o que a autora quer dizer sobre essa brutalidade e os riscos aos quais estamos expostos diariamente. Ao visitar Cuba por duas semanas, andando todos os dias por Havana e pelas outras cidades do país, percebi a diferença em relação ao risco de alguma brutalidade ou ameaça local: praticamente zero risco.

Bom, finalizada a leitura. Seguirei acompanhando o dia a dia do povo cubano e a construção do socialismo na Ilha caribenha.

William


Bibliografia:

LEITE, Maria do Carmo Luiz Caldas. Cuba insurgente: identidade e educação. Curitiba: CRV, 2023.


domingo, 6 de agosto de 2023

Diário e reflexões - Cuba XXXI



Refeição Cultural - Cuba (XXXI)

Osasco, 6 de agosto de 2023. Domingo.


Comecei a ler o 4º capítulo do livro da professora Maria Leite sobre a educação na República Socialista de Cuba - Cuba insurgente: Identidade e Educação (2023). O tema é: "A educação e as novas diretrizes".

Leio sobre Cuba com um sentimento de preocupação em relação ao que pode acontecer ao país e aos cubanos no presente e no futuro porque torço por eles e sei que a cada dia se torna maior o desafio de existir enquanto organização social distinta do restante do mundo organizado através do modelo neoliberal e capitalista.

O capítulo fala de "valores morais"... importante isso: valores morais!

A Constituição de Cuba garante a toda criança escola, comida e vestuário. 

E aqui no Estado mais rico do Brasil, o governador carioca de SP, um bolsonarista, corta de milhões de crianças o acesso ao livro didático impresso...

"A Revolução não roga aos pais que se preocupem pelo comportamento e pela educação de seus filhos colaborando com a escola e com os maestros: a Revolução o exige", disse Fidel Castro na inauguração do curso escolar de 1977. (p. 118)

Depois, ainda sobre direcionamentos no processo "Educação para Todos" vemos de novo o foco "valores":

"(...) procurando fortalecer a educação de valores, como a solidariedade e o patriotismo; manter e elevar os conhecimentos nas asignaturas de Matemática, Espanhol e História..." (p. 119)

Pedagogia: ciência, arte ou técnica?

"(...) a Educação cubana busca inserção na corrente contrária às tendências que reduzem a Pedagogia apenas a uma existência instrumental, mera facilitadora de atividades aplicadas pelos professores, produzidas por outros saberes e outras ciências, relegando à própria Pedagogia um papel subalterno." (p. 124)

A professora Maria Leite explica que Cuba foi aos poucos se libertando dos pressupostos positivistas sobre o que seria ciência.

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Comentário: é noite de domingo, estou lendo sobre a Pedagogia em Cuba, enquanto leio, martela na minha memória os argumentos de Gorbachev explicando as boas intenções da "Perestroika" nos anos 80, reestruturação que não deu certo e que levou ao fim a experiência socialista na URSS... infelizmente, me dá uma "bad" ao imaginar o fim da experiência socialista em Cuba... mas tudo conspira contra a continuidade do regime lá. Que foda!

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FORMAÇÃO INTEGRAL EM CUBA (NOVOS HOMENS E MULHERES)

"Na educação superior cubana, o conceito de formação integral, em termos de paradigma, é definido da seguinte forma: a formação integral dos estudantes universitários deve resultar em graduados com um sólido desenvolvimento político, a partir dos fundamentos da ideologia da Revolução Cubana; egressos dotados de uma ampla cultura científica, ética, legal, humanista, econômica e ambiental; empenhados e preparados à defesa da pátria socialista e às causas justas da humanidade com seus próprios argumentos e competentes ao desempenho profissional e o exercício de uma cidadania consciente (CUBA, 2016a)." (p. 128)

Imaginem só a formação universitária no Brasil... Estamos a anos-luz de atingir uma educação semelhante...

Terminando o item 4.2 que aborda o plano de estudos "E", no qual vemos toda a estrutura do sistema de educação de Cuba, fica a preocupação com os dados relacionados à demografia da Ilha, a população está envelhecendo rapidamente por diversos motivos. 

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(Leitura segue e postagem idem...)

quinta-feira, 27 de julho de 2023

Diário e reflexões - Cuba XXX (27/07/23)



Refeição Cultural - Cuba (XXX)

Osasco, 27 de julho de 2023. Quinta-feira.


Entre ontem e hoje, li o 3º capítulo do livro Cuba insurgente, da professora Maria Leite, mestra e doutora especialista na pedagogia aplicada em Cuba. O capítulo tratou do tema "O passado de dificuldade e os interrogantes do futuro". Os tópicos foram os seguintes:

- Um breve balanço do alcance neoliberal

- Tensões e rupturas no final do século XX em Cuba

- O período especial em tempos de paz

- A batalha de ideias

- A universalização da educação superior

- O internacionalismo

- O processo de atualização do modelo econômico.

Os estudos contidos no livro são muito atuais, a professora apresenta dados de documentos, leis e congressos ocorridos já em 2021. Os leitores adquirem através do livro uma noção bem mais clara sobre os feitos e os desafios do povo cubano no passado e neste momento da história.

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26 de julho - 70 anos do Assalto ao Quartel Moncada

Também ontem, participei de uma roda de conversa (virtual) sobre a efeméride dos 70 anos do Assalto ao Quartel Moncada. Foi mais um momento para aprender coisas novas sobre Cuba e o povo cubano. 

Ouvimos as exposições dos professores Maria do Carmo Leite e Iedo Leite Fontes, e as intervenções dos participantes. O evento foi organizado pela Associação Cultural José Martí da Paraíba.

Foi um evento muito bom e que me trouxe novos conhecimentos.

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ALGUMAS REFLEXÕES

Quando me sento diante do computador para escrever a respeito do que leio e estudo, fico pensando se vale a pena ou não o esforço do trabalho.

Algumas postagens que faço têm bastante acesso, dezenas ou centenas, algumas chegam aos milhares de acessos. Outras têm pouco acesso às vezes, postagens que deram muito trabalho, de horas a fio na produção.

No fundo, já refleti várias vezes sobre isso. Fazer o texto vale a pena pelo simples fato de que enquanto faço o texto estou desenvolvendo minha própria capacidade intelectiva, estou memorizando e aperfeiçoando o conhecimento adquirido. Estou produzindo novo conhecimento e de forma gratuita.

Compartilhar o conhecimento novo é disponibilizar a oportunidade de alguém mais ter acesso a esse conhecimento. O professor Ladislau Dowbor explicou isso numa palestra que deu em um congresso de bancários e nunca mais me esqueci do ensinamento: conhecimento deve ser compartilhado de forma gratuita.

Enfim, enquanto leio anoto muitas observações. Não daria para postar tudo que anoto. É o processo de estudo e intelecção em andamento.

Decidi estudar um pouco sobre Cuba e o povo cubano quando apareceu a oportunidade de viajar para lá. Assim fiz e desde o início do ano li com certa frequência coisas relacionadas a Cuba, romances, matérias jornalísticas, vi vídeos e filmes etc.

Durante a viagem pude observar algumas coisas do dia a dia e da vida cubana. Após a viagem, as leituras passaram a ter outro sentido, porque ao ler acabo me lembrando de algo que vi ou experimentei lá na Ilha.

Este momento de meu viver é um momento de maturidade intelectual. Tudo que leio ou vejo se interliga com diversos temas da vida em sociedade. 

Ao ler um capítulo de livro como o que acabei de ler, me dá vontade de escrever sobre saúde e a Cassi (autogestão dos trabalhadores do BB), dá vontade de escrever sobre o Brasil e o governo Lula, dá vontade de escrever sobre o ser humano e o futuro da humanidade... dá vontade de um monte de coisa!

Seguirei lendo e estudando até o último dia de minha vida, se assim meu corpo permitir. Sou natureza e a qualquer instante a natureza pode definir o fim das leituras e estudos, o fim deste viver.

William


Post Scriptum: ver aqui a leitura anterior relacionada a este tema.


terça-feira, 18 de julho de 2023

Viagem a Cuba (VIII)

Capitólio Nacional com sol nascendo
atrás do Gran Teatro Alicia Alonso.
 

Refeição Cultural - Cuba (XXVIII)

Osasco, 18 de julho de 2023. Terça-feira.


Estivemos em Cuba por duas semanas neste ano e a experiência foi marcante para nós. Nosso grupo com oito pessoas ficou a metade do período em Havana e a outra metade da viagem deixamos para conhecer três cidades cubanas: Trinidad, Santa Clara e Varadero.

Nossa estadia foi em casas de cidadãos cubanos, num sistema de hospedagem autorizado pelo governo da Ilha. Nossa hospedagem e suporte para todas as demais estadias e viagens pelo país foi a partir da Casa de Isabel, que fica ao lado do Capitólio Nacional, excelente localização em Havana Velha.

Casa de Isabel, azul, ao lado do Capitólio.

Em Havana, nosso grupo teve a oportunidade de fazer um roteiro cultural com o senhor Luis Caballero por Havana Velha e a experiência foi muito legal. Além da simpatia acolhedora de Luis e de Isabel, no roteiro recebemos informações fundamentais para compreender a história de Cuba e da Revolução que libertou o povo da ditadura de Fulgencio Batista e do imperialismo que dominava a Ilha até 1958.

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Escola onde José Martí estudou.

HAVANA VELHA

Antes de irmos ao Museu da Revolução, andamos por ruas diversas de Havana Velha, fomos à escola onde José Martí estudou quando criança: Escuela Primaria Rafael María de Mendive. Estava fechada naquele momento. 

Paseo del Prado.

Andamos pelo Paseo del Prado, belíssimo! Soubemos que o local era bem mais arborizado, de fora a fora, mas as árvores foram escasseando por idade ou por eventos climáticos e hoje existem menos árvores ao longo do passeio. Ele tem um calçamento lindo. 

Saguão do Hotel Sevilla.

A imagem das crianças uniformizadas conversando ou brincando em grupos é encantadora. A educação e a pedagogia em Cuba são centrais na formação de homens e mulheres. Sem dúvida, o sentimento de cubanidad e a cubanía passam pela educação na Ilha. Aprendi isso lendo o livro da professora Maria Leite.

Eusebio Leal, o Historiador.

Nosso guia, o senhor Luis Caballero, nos levou ao Hotel Sevilla, um dos mais antigos de Cuba e vimos a beleza interna do saguão do hotel. Inaugurado em 1908, situado na Calle Trocadero, região do Paseo del Prado, o local já pertenceu à máfia, antes da Revolução. 

Pátio interno do Palacio de los Generales.

Passamos pela Casa de Gobierno y Palacio Municipal (Palacio de los Capitanes Generales), fortaleza enorme que atualmente é o Museu da Cidade, fortaleza na qual temos na frente a estátua do senhor Eusebio Leal Spengler, historiador importante para Cuba e o regime socialista, defensor da manutenção da história arquitetônica da Ilha.

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Museo de la Revolución.

MUSEO DE LA REVOLUCIÓN

O ponto alto de nosso 6º dia em Havana foi o Museo de la Revolución e todo o complexo ao redor. Esse dia, uma terça-feira após o feriado de 1º de Maio, foi o último dia na cidade antes de partirmos para as outras cidades que iríamos conhecer na semana seguinte.

Artefatos de conquista e defesa da Revolução.

Nos dias anteriores, já havíamos conhecido o Capitólio Nacional, já havíamos conhecido a Fortaleza San Carlos de la Cabaña e a cerimônia "Cañonazo de las nueve", e já havíamos andado sob a orientação do senhor Luis pela região central de Havana Velha. Um dos locais que o nosso grupo visitou e que nos impactou muito foi o Centro Fidel Castro Ruz, quanta história ali! Não deixem de visitá-lo quando forem a Cuba.


O Museu da Revolução e os seus anexos são de visita obrigatória. Infelizmente não pudemos entrar no palácio porque está fechado para reforma. Espero conhecê-lo melhor quando voltar a Cuba.

Iate Granma.

O anexo que contém o iate Granma e peças e armas da guerra revolucionária e de defesa da soberania cubana é impactante para os visitantes.

Tanque T-34 usado por Fidel contra os
mercenários na tentativa de invasão (1961)*.

Nosso guia, o senhor Luis Caballero, nos explicou a história de cada artefato presente no pátio do anexo. 

*Tanque T-34 - Considerado el mejor de su tipo en la II Guerra Mundial. Utilizado por Fidel Castro durante las acciones de Playa Girón. Desde él, disparó contra el buque "Houston", una de las naves norteamericanas que dio cobertura a las fuerzas mercenarias. (legenda local)


No Memorial Granma se encontram restos de aparelhos de guerra, inclusive um pedaço de um avião inimigo utilizado na tentativa de invasão da Baía dos Porcos, em 19 de abril de 1961, invasão com mercenários patrocinada pela CIA e burguesia cubana e rebelada pelos revolucionários com o apoio do povo cubano naqueles dias de luta por sua soberania.


A emoção toma conta da gente ao ver de perto o iate Granma que saiu de Tuxpan no México em 2 de dezembro de 1956 e trouxe 82 combatentes revolucionários para iniciar a vitoriosa libertação de Cuba, conquistada em 1º de janeiro de 1959.

Palácio e museu visto a partir da praça.

Depois conhecemos a praça que fica diante do palácio e que por anos recebeu multidões de cubanos ouvindo seus líderes revolucionários, principalmente o Comandante Fidel Castro.

Prédio lateral onde um bandido foi
pego com uma bazuca num comício.

Os imperialistas e os burgueses locais planejaram ao longo de décadas centenas de atentados para assassinar o líder cubano Fidel Castro e felizmente nunca obtiveram êxito. Fidel faleceu aos 90 anos de idade, de causas naturais, após dedicar a vida à libertação e soberania de seu país e seu povo.


O senhor Luis Caballero nos contou algumas tentativas frustradas de atentado contra Fidel Castro. Em uma delas, os bandidos estavam no prédio ao lado do Palacio de la Revolución, de onde Fidel fazia um discurso e seria morto por um tiro de bazuca, mas os bandidos foram descobertos e tudo terminou bem.

José Martí, o Apóstolo.

Na praça do Museu da Revolução temos ainda uma imponente estátua de José Martí. Magnífica! Por onde se vá em Cuba, temos ao nosso lado uma estátua ou busto do Apóstolo, símbolo máximo da liberdade e soberania do povo cubano.

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Nosso querido grupo e o senhor Luis.

Após uma manhã repleta de novos conhecimentos a respeito da história inspiradora do povo cubano, almoçamos no restaurante A Prado y Neptuno, um local de comida boa e com preços acessíveis.

Quando fui para Cuba pensei em conseguir correr ao menos um dia em Havana. A agenda de passeios e roteiros a cumprir dificultou a realização de meu trote de meia hora. Minha ideia inicial era correr no calçadão do Malecón.

Atividade física ao redor do Capitólio.

Como não foi possível correr no Malecón, apesar de termos andado por lá duas vezes, meu filho e eu, só consegui realizar meu desejo de correr em Havana na noite anterior de nossa partida para outras cidades.

Imaginem vocês, que coisa gostosa! Corri ao redor do Capitólio Nacional de Cuba. Corri num calor intenso e úmido na noite de 2 de maio de 2023. Foi um instante legal da viagem.

Alvorada cubana.

No dia seguinte, partimos cedo para Trinidad, onde passaríamos dois dias.

SIGO CONHECENDO CUBA E APOIANDO O POVO CUBANO

Aos poucos, sigo estudando sobre Cuba e os cubanos, e revivendo nossa viagem para buscar compreensão. 

Revolução é...

Já li dois dos livros que trouxe de lá: La historia me absolverá, de Fidel Castro (comentário aqui), e Evocación, de Aleida March (comentário aqui). Tenho uma dúzia de livros de lá para serem lidos ainda. 

Estou lendo o livro esclarecedor da professora Maria Leite - Cuba insurgente: Identidade e Educação. Entendi os conceitos de Cubanidad e Cubanía lendo os ensinamentos da especialista da pedagogia em Cuba.

É isso. Deu um trabalhão fazer essa postagem (risos). A anterior pode ser lida clicando aqui. Os textos sobre Cuba são minha contribuição para as pessoas interessadas no tema.

A postagem posterior, a de nº 9, pode ser lida clicando aqui.

- Fim do bloqueio criminoso, já!

William


sábado, 24 de junho de 2023

Diário e reflexões - Cuba XXVI (24/06/23)



Refeição Cultural - Cuba (XXVI)

Osasco, 24 de junho de 2023. Sábado.


"Félix Varela nos ensinou a pensar, Martí no ensinou a lutar e Fidel nos ensinou a vencer" (Armando Hart)


No início deste ano decidi que iria estudar um pouco a respeito de Cuba e de seu povo aguerrido (e insurgente). Já sabia desde meados do ano anterior que iria conhecer o país de regime socialista. A viagem correu tudo bem e por duas semanas pudemos vivenciar na Ilha um pouco do dia a dia do povo cubano.

Passados seis meses de leituras sobre o tema Cuba, eu diria que sigo sabendo menos do que gostaria, contudo posso afirmar que sei um pouco mais do que sabia antes. 

Já tenho alguma noção sobre a história de Cuba e seu povo, sobre José Martí, sobre Fidel Castro, sobre Ernesto Che Guevara, sobre a importância da educação e cultura para o povo e o regime socialista cubano. Repito, não sei quase nada, mas já tenho algumas noções sobre Cuba. Se considerar que vivemos num mundo de gente meio sem noção das coisas, já é alguma coisa conhecer um pouquinho da história da Ilha.

Hoje li o 2º capítulo do livro da doutora e mestra em Educação Maria Leite - Cuba insurgente: identidade e educação (2023). É muito interessante ler sobre o país socialista depois de ter estado lá por alguns dias. É alentador saber da importância da educação na manutenção do regime após mais de seis décadas de Revolução, um processo revolucionário de libertação do povo iniciado por insurgências populares no mínimo desde 1868. Algumas referências retroagem a 1511, como é o caso do cacique Hatuey.

EDUCAÇÃO EM CUBA E NO BRASIL - Quando me lembro da situação da identidade e da educação do Brasil após o golpe de Estado de 2016, após os dois governos de destruição nacional, dois canalhas que tinham como meta desfazer os poucos avanços do povo brasileiro em mais de um século de lutas, e quando me lembro ainda da reforma do ensino médio brasileiro, que acabou de vez com qualquer chance de uma educação universal de verdade, fico muito decepcionado ao não ver o Novo Ensino Médio (NEM) cancelado pelo nosso governo. 

Sabemos das dificuldades de um governo de composição, de frente ampla, mas não revogar o NEM até agora é frustrante. O NEM é um projeto de destruição da educação do Brasil, projeto mais que neocolonial, um projeto de ampliação da desigualdade de conhecimento entre os ricos e seus filhos e a ampla maioria de pobres do país em relação ao acesso à educação de qualidade.

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A LEITURA

No 1º capítulo, vimos sobre a formação da sociedade cubana (ler breve comentário aqui).

Neste 2º capítulo, foram abordados os seguintes subtemas:

A REVOLUÇÃO CUBANA: Logros, retrocessos e avanços.

2.1 A anatomia do entusiasmo

2.2 A educação como pedra angular da revolução

2.3 A universalização do ensino fundamental

2.4 Os organismos políticos e de massas em Cuba

2.5 A retificação de erros.


ALFABETIZAÇÃO E PARTICIPAÇÃO SOCIAL

"A Campanha de Alfabetização conjurou dialeticamente diversos fatores, contribuindo para que o fazer educativo assumisse uma forte dimensão político-social e o ensino fosse convertido em instrumento participativo." (p. 65)

A INSPIRAÇÃO DO MOVIMENTO 26 DE JULHO, LIDERADO POR FIDEL CASTRO EM 1953: MARTÍ

"Foi a partir desta conjuntura que um pequeno destacamento, autodenominado Generación del Centenario, de diversas procedências geográficas e sociais, adotaram a estratégia insurrecional. Para esse grupo de jovens, era impossível tolerar passivamente que, 100 anos depois do natalício de Martí, reinasse na nação o despotismo e a entrega das riquezas da Ilha, sem manifestações da rebeldia, que o próprio 'apóstolo' da independência demonstrara desde sua infância e sua juventude." (p. 66)

FIDEL CASTRO: A HISTÓRIA ME ABSOLVERÁ

"Durante o julgamento, celebrado na raiz do assalto ao Quartel Moncada, o líder da Revolução Cubana não menciona Marx e Lenin, nenhuma vez, porém em mais de quarenta citações faz alusão a Martí, centrando suas ideias na identidade nacional. Esse manifesto se resumia a seis pontos: uso da terra, industrialização, moradias, emprego, educação e saúde." (p. 67)

FIDEL: É A ECONOMIA... ALÉM DA EDUCAÇÃO

Pensamentos de Fidel antes da Revolução Cubana, durante a prisão no regime do ditador Batista.

"Na missiva, ele apontava que tudo o que se fizesse relativo à técnica e à organização do ensino, nada valeria a pena sem alterar de maneira profunda o status quo econômico da nação." (p. 67)

NÃO BASTA UMA REVOLUÇÃO, É PRECISO SUPERAR A INCULTURA E MUDAR O ESPÍRITO DE UM POVO

Dois pensamentos de José Martí que foram referências nos primeiros anos da Revolução Cubana:

"A pobreza mais difícil de ser vencida era a incultura"

e

"El problema de la independencia no era el cambio de formas, sino el cambio de espiritu." (p. 69)

OPÇÃO PELOS POBRES

Superada a etapa de expulsão do ditador Fulgencio Batista e no dia a dia dos primeiros anos de Revolução, Fidel Castro e os líderes revolucionários tiveram que optar por uma das classes internas na sociedade cubana que estavam em disputa pela hegemonia na Ilha: a burguesia ou os pobres.

O movimento 26 de Julho e a guerrilha fizeram a opção pelos "pobres de la tierra" como dizia Martí.

E as leis de reforma agrária foram centrais nessa opção pelos pobres e mais humildes.

A REAÇÃO BURGUESA

A burguesia cubana reage e passa a financiar contrarrevolucionários. Os primeiros anos foram muito difíceis para Fidel, Che e demais líderes da Revolução.

"(...) a burguesia nacional passou a adotar atitudes de agressão e boicotes no processo, dentre os quais se destacam: o abandono da direção das empresas, a recusa em comercializar produtos e serviços e o financiamento de grupos contrarrevolucionários. Esse fato levou à estatização de 383 empresas industriais e comerciais de capital nacional e a função bancária passou a ser exercida unicamente pelo Estado." (p. 72)

QUARTÉIS VIRAM CENTROS DE ESTUDOS

Uma estratégia muito simbólica por parte dos líderes revolucionários foi transformar diversos quartéis e antigos presídios e centros de tortura em escolas e centros de formação de professores. 

"Em 9 de janeiro de 1960, foi iniciada em toda a Ilha a demolição dos muros dos quartéis. Após 19 dias, centenas de operários da construção, estudantes universitários e contingentes da população, em jornadas de trabalho de três turnos diários, converteram o sombrio Quartel Moncada na Ciudad Escolar 26 de Julio, com capacidade para 2 mil crianças. A Ciudad Libertad, que foi até 1959 o Colúmbia, uma típica e vasta instalação militar, onde se gestaram as piores causas, passou a ser um enorme conjunto com escolas de ensinos primário, secundário, especial e superior, na qual a pista de aviões de guerra transformou-se em um enorme organopónico (hortas orgânicas urbanas). Nesse contexto, teve transcendência política e moral a conversão de 69 quartéis em escolas com capacidade para 40 mil alunos." (p. 72)

O POVO PASSA A TER ACESSO A ASSISTÊNCIA MÉDICA UNIVERSAL

"Graças a esses esforços, a população cubana até a atualidade destaca-se pelo elevado nível de escolaridade e pelo usufruto de serviços de saúde pautados pela lógica da prevenção e do direito universal, com a promoção de iniciativas como o Programa del Médico y la Enfermera de la Familia.

O modelo de saúde cubano começou ainda na Sierra Maestra, quando os camponeses passaram a ser atendidos por Che Guevara e seus companheiros profissionais de saúde.

A EDUCAÇÃO COMO PEDRA ANGULAR DA REVOLUÇÃO

"A primeira etapa da Revolução favoreceu mudanças que estabeleceram novos fundamentos educacionais, inspirados em Martí, com alicerces fincados na autoctonia. A busca do homem novo pela reapropriação da natureza humana, tornou-se o centro da mobilização da sociedade. Segundo Guevara (1988, p. 16), 'o homem novo alcançaria sua plena condição humana quando produzisse sem a compulsão da necessidade física de vender-se como mercadoria." (p. 75)

UNIVERSALIZAÇÃO DO ACESSO À EDUCAÇÃO

Alguns eixos são centrais na nova etapa educativa em Cuba.

"A criação das bases do novo modelo tentava transformar a saúde, a educação e a cultura em direitos de toda a população." (p. 76)

e

"Produziu-se, portanto, a reforma integral do ensino, que representou um primeiro esforço para estruturar um sistema escolar harmônico." (ibidem)

Martí, sempre uma referência:

"Al venir a la tierra, todo hombre tiene derecho a que se le eduque y después, en pago, el deber de contribuir a la educación de los demás." (p. 77)

CHE GUEVARA E OS IDEIAS DO HOMEM NOVO

"As ideias que Guevara (1988) legou à educação podem ser sintetizadas na tarefa de criar um 'homem novo', pelo desenvolvimento da consciência participativa na produção socialista." (p. 78)

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COMENTÁRIO 

A universalização do ensino fundamental foi abrangida pela autora no item 2.3 do capítulo e no item 2.4 os organismos políticos e de massas em Cuba.

Os subtemas são tão importantes que eu teria que citar muitas partes do texto.

Nada substitui a leitura do livro por parte dos interessados neste conhecimento que a professora Maria Leite compartilhou conosco.

DISCIPLINA - A pedagogia educacional em Cuba trabalha muito a questão da disciplina como um meio para se atingir os objetivos e uma questão socializante também, cooperativa e coletiva.

"O cumprimento das metas estabelecidas por todos só era possível com uma direção firme. Por isso, os alunos tinham consciência de que a disciplina não era um fim, mas um meio, um recurso para vencer as dificuldades." (p. 80)

VOLUNTARIADO - Outro tema importante na sociedade cubana é o trabalho voluntário, cooperativo.

ORGANISMOS POLÍTICOS E DE MASSA - Numa nova sociedade como a cubana, organismos sociais com espírito de pertencimento são fundamentais como, por exemplo, o Partido Comunista de Cuba, os sindicatos de categorias profissionais, os Comitês de Defesa da Revolução, a Federação das Mulheres Cubanas, a União dos Jovens Comunistas, dentre outros.

Com o avanço das conquistas socialistas do povo cubano, a pedagogia foi se aperfeiçoando através das experiências e participações de especialistas da área.

"Em dezembro de 1975, foi editada a Tese de Política Educacional, que oficializava a pedagogia de cunho marxista-leninista, sem perder de vista o pensamento educativo martiano e a herança histórica do pensamento educacional cubano de todos os tempos. O tripé formado pelo Estado, as organizações de massa e o PCC passou a constituir a base do socialismo adotado na Ilha." (p. 83)

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Finalizo a leitura do capítulo com uma preocupação ao me lembrar do Brasil em 2023. 

Aqui, apesar de suspenso para consulta pública, as bases da educação fundamental do governo Lula é o Novo Ensino Médio (NEM). 

A suspensão só ocorreu por causa do grande esforço feito pelas entidades da sociedade civil envolvidas com educação e direitos sociais e as denúncias dão conta de que o NEM é uma esculhambação, um modelo aprovado pelos governos golpistas.

É isso! Deu trabalho fazer a postagem, mas enquanto escrevi, forcei meu cérebro a se exercitar... isso é bom!

William


Post Scriptum: clique aqui para ver a última postagem com o tema Cuba.


Bibliografia:

LEITE, Maria do Carmo Luiz Caldas. Cuba insurgente: Identidade e Educação. Editora CRV, Curitiba, 2023.