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quarta-feira, 25 de junho de 2025

Vendo filmes (XXX)


Mães paralelas (2021)

Refeição Cultural

Ainda o universo de Pedro Almodóvar (IV)


"No hay historia muda. Por mucho que la quemen, por mucho que la rompan, por mucho que la mientan, la historia humana se niega a callarse la boca" (Eduardo Galeano)


As palavras de Galeano estão mais presentes que nunca nos dias atuais, dias de guerras e genocídio. Almodóvar citou essa sabedoria do escritor e pensador uruguaio no filme "Mães paralelas", pois o enredo nos traz as questões inconclusas da Guerra Civil Espanhola e seus milhares de desaparecidos até hoje.

Finalizei mais uma sequência de filmes do espanhol Pedro Almodóvar. Agora conheço 17 filmes do cineasta. Já me tornei um admirador da poética do diretor.

A sequência que vi desta vez inclui filmes mais recentes dele, incluindo "O quarto ao lado" (2024), filme tocante e que nos deixa reflexivos sobre vários aspectos tratados na estória como, por exemplo, amizade, morte e solidão.

O filme "Mães paralelas" (2021) é excepcional! Almodóvar tem grande talento em contar histórias de mulheres que enfrentam cotidianos dramáticos em suas vidas. Nos enredos do diretor, nos pegamos pensando o que faríamos se fôssemos as personagens.

Após ver uma parte da produção cultural do cineasta, o que afirmo é que ainda vou tentar ver os filmes dele que não conheço e rever os filmes que já vi, pois são muito bons.

No link aqui é possível ler uma das postagens anteriores sobre os filmes de Almodóvar. Nela se vai aos outros textos.

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FILMES


Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão (1980) - Direção e roteiro: Pedro Almodóvar. Com: Carmen Maura, Eva Siva e Olvido Gara.

SINOPSE (MUBI):

Na Madri contracultural dos anos 1980, três mulheres embarcam em loucas desventuras. Pepi (Carmen Maura), uma preguiçosa, torna-se um sucesso da noite para o dia no mundo da publicidade. Luci (Eva Siva), uma dona de casa, descobre seu lado masoquista oculto. Bom (Olvido Gara) é a lésbica punk que ensina Luci a encontrar prazer na dor.

COMENTÁRIO:

Achei o filme interessante. Compreende-se melhor as obras do diretor espanhol Pedro Almodóvar ao conhecermos o contexto no qual ele iniciou seus trabalhos autorais de longa-metragem, a Movida Madrileña, e sua proposta de subversão e contestação da antiga ordem estabelecida: o franquismo mancomunado com a igreja católica. Achei o filme divertido. Muito legal ver Carmen Maura no início de sua carreira de atriz.

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Ata-me (1990) - Direção: Pedro Almodóvar. Com Victoria Abril, Antonio Banderas, Julieta Serrano, Rossy de Palma...

SINOPSE (MUBI):

Recém-saído de um hospital psiquiátrico, Ricky tenta seduzir o amor de sua vida: Marina, uma atriz de filmes B. Diante da amnésia dela, Ricky toma medidas extremas e a ata para retomar o romance do passado. Ele está convencido de que é só uma questão de tempo até que sua amada retribua seu afeto.

COMENTÁRIO:

Outro grande filme de Almodóvar, na minha opinião. À medida em que vamos conhecendo a poética do diretor espanhol, vamos compreendendo melhor as estórias que seus filmes contam. Falo a respeito da "poética" de Almodóvar porque sim, as fotografias e cenários de seus filmes são obras de arte.

Nesta estória, Almodóvar nos apresenta um órfão em busca de uma família (como veremos depois em Carne Trêmula, 1997) e uma mulher que ainda não encontrou um porto seguro para ancorar, e vemos personagens que buscam a redenção.

O final surpreende o espectador, como surpreende Carne Trêmula, em relação à questão da redenção.

Gostei! Almodóvar nos faz querer conhecer toda a sua obra! Sigamos na jornada!

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Mães Paralelas (2021) - Direção: Pedro Almodóvar Com: Penélope Cruz, Milena Smit, Israel Elejalde, Rossy de Palma, Julieta Serrano... 

SINOPSE (NETFLIX): 

Pedro Almodóvar levou duas décadas para criar este drama emocionante, que combina um dilema moral, a solidão da maternidade e o passado sombrio de um país.

COMENTÁRIO:

O enredo do filme tem como pano de fundo as consequências da trágica Guerra Civil Espanhola. Janis Martinez (Penélope Cruz) procura ajuda para encontrar os restos mortais de seu bisavô, morto pelos falangistas de Franco. As feridas da guerra estão presentes até hoje na sociedade espanhola.

Janis conhece na maternidade Ana Manso Ferreras (Milena Smit), uma adolescente que divide o quarto com ela. Ambas têm as filhas no mesmo dia e após a saída do hospital acabam se tornando próximas uma da outra. A partir daí se desenvolve os dramas e dilemas que veremos na estória.

Eu já me tornei um fã dos filmes de Pedro Almodóvar, o cara é muito bom! A história de Janis e Ana é comovente, nos faz pensar e nos coloca no lugar delas em diversos momentos: o que faríamos se fôssemos Janis ou Ana?

As cenas finais do filme deixam a gente arrepiado por minutos... 

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Estranha forma de vida (2023) - Direção: Pedro Almodóvar. Com Ethan Hawke e Pedro Pascal.

SINOPSE (MUBI):

Após 25 anos separados, o fazendeiro Silva (Pedro Pascal) atravessa o deserto a cavalo para visitar uma antiga paixão, o xerife Jake (Ethan Hawke). Mas após uma noite de intimidade, recordações e reconciliação, a revelação de que ambos estão ligados a um crime local sugere que o reencontro não foi apenas para matar a saudade.

COMENTÁRIO:

O cenário do filme é espetacular! E adivinhem... Almodóvar rodou o faroeste no famoso Deserto de Tabernas, na Espanha. O local já foi cenário de grandes clássicos do faroeste de Sergio Leone e também é o local onde foi rodado Lawrence da Arábia (1962), Cleópatra (1963) e Conan, o bárbaro (1982). Essas informações são da Wikipedia.

Entre o primeiro filme de Almodóvar que vi, de 1980, e este são 43 anos de evolução na arte da direção por parte do cineasta espanhol. Ao maratonar mais de uma dúzia de filmes de Almodóvar, aprendi a gostar de sua técnica e sua poética. 

O diretor nos apresenta personagens e situações que, em geral, incomodam as sociedades estabelecidas e predominantes. Seus personagens são as maiorias tornadas minorias na questão dos direitos, as pessoas situadas fora da padronização estabelecida pelos donos dos poderes constituídos.

Viva Almodóvar, seus filmes e seus personagens!

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O quarto ao lado (2024) - Direção: Pedro Almodóvar - Elenco: Tilda Swinton, Julianne Moore, John Turturro.

SINOPSE (NETFLIX):

O diretor Pedro Almodóvar traz seu estilo sensível e único a esta história repleta de camadas sobre amizade, lembranças e mortalidade.

COMENTÁRIO:

Os filmes de Pedro Almodóvar se tornaram para mim filmes que me fazem refletir sobre as estórias que ele nos conta. Este não foi diferente. Fiquei pensando nas personagens Martha (Swinton) e Ingrid (Moore). Dois grandes seres humanos.

Enquanto refletia, fiquei tentando me colocar no lugar de Martha e depois no lugar de Ingrid. Difícil decidir o que fazer no lugar das duas. São mulheres de muita coragem, de muita ética e com uma cumplicidade com a outra pessoa fora de moda no mundo atual.

Martha se encontra em tratamento de câncer. Foi uma jornalista de sucesso, trabalhou na cobertura de guerras, repórter da linha de frente, do front onde a morte não permite poesia. Agora experimenta a solidão da doença e do rompimento com sua filha, Michelle.

Ingrid é escritora de sucesso. Trabalhou com Martha em uma revista no passado. É público que ela morre de medo da morte, já escreveu sobre isso. Soube durante o lançamento de seu livro que Martha está com câncer e vai rever a amiga depois de muito tempo sem se verem.

Do reencontro entre elas, vai se desenvolver o enredo do filme. 

Almodóvar mostrou mais uma vez seu talento em costurar histórias de pessoas comuns de uma forma única. Estou até agora pensando se teria a coragem de fazer o que Martha planeja; se teria a coragem de ser tão amigo de alguém num momento difícil como fez Ingrid. Que mulheres incríveis!

Martha gosta de James Joyce. Ela cita passagens do conto "Os mortos" e isso foi emocionante. Ela fala da neve caindo no cemitério. Eu me lembro da estória, pois já li várias vezes os contos de "Dublinenses" (1914).

Valeu, Pedro Almodóvar! Valeu Tilda Swinton e Julianne Moore!

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COMENTÁRIO FINAL

Sigamos vendo bons filmes e comentando algo que me tenha chamado a atenção ou me feito refletir.

A postagem anterior desta série pode ser lida aqui.

William Mendes


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Vendo filmes (XXVII)


Cena do filme "Má educação".

Refeição Cultural

O universo de Pedro Almodóvar (III)


ANOS 2000

O intuito dessas postagens que fiz sobre os filmes de Pedro Almodóvar e que faço aqui no blog sobre filmes, literatura, e grandes personalidades do mundo da cultura é compartilhar conhecimento de forma gratuita e sugerir que as leitoras e leitores vivenciem também as experiências que essas culturas me proporcionaram.

Nunca tinha feito essa experiência de assistir a uma quantidade grande de filmes de um mesmo diretor e roteirista, em ordem cronológica de lançamento, para ir vendo a poética e o estilo do diretor se desenvolvendo. 

Vi doze filmes de Almodóvar nos últimos dias e preferi fazer comentários dividindo os filmes em anos 80 (aqui), anos 90 (aqui) e este texto sobre os anos 2000.

Confesso a vocês que deu um trabalhão produzir as três postagens. Para fazer textos minimamente corretos e com opinião honesta foi preciso ler e pesquisar sobre cada um dos filmes. Neste blog, sempre tentei acrescentar algo a mais à pessoa que lê meus textos.

Enfim, sobre os filmes "Fale com ela", "Má educação" e "Volver", percebi uma evolução de Almodóvar, mesmo ele tendo trabalhado com temáticas parecidas ao longo das três décadas: a condição das mulheres e a situação cotidiana de pessoas e grupos periféricos compõem o universo do diretor.

A experiência de ver doze filmes de Almodóvar me agradou bastante, foi diferente para mim. E mesmo estando em um período complexo para produzir meus textos e compartilhar o que sinto e aprendo, foi um esforço que avalio que valeu a pena.

É isso! Segue abaixo o comentário sobre os filmes.

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FILMES


Fale com ela (Hable con ella), de 2002.

SINOPSE:

Benigno Martín (Javier Cámara) vive em Madri, ele é enfermeiro e mora num apartamento que fica em frente da academia de balé de Katerina Bilova (Geraldine Chaplin). De sua janela, Benigno espiava a jovem bailarina Alicia Roncero (Leonor Watling) até que ela sofre um acidente e entra em coma. Benigno será destacado para ser o enfermeiro responsável por ela no hospital. Marco Zuluaga (Darío Grandinetti) vai até o hospital para visitar sua namorada Lydia González (Rosario Flores), toureira famosa que está em coma após ser ferida gravemente em um espetáculo. Benigno e Marco se tornam amigos e suas histórias serão contadas aos espectadores.

COMENTÁRIO:

Este filme de Almodóvar cativa a gente pelas imagens. Muitas cenas ficaram em minha memória.

No meu caso em particular, as cenas da toureira Lydia me fizeram voltar ao dia em que entrei na Praça de Touros Las Ventas, em Madri, no ano de 2009. Eu não me senti à vontade com essa tradição cultural dos espanhóis - confesso que torci pelo touro. No filme, Lydia é uma grande toureira e proporciona espetáculos vibrantes aos espectadores.

Uma das cenas mais hilárias do filme é quando descobrimos que a toureira Lydia também tem suas fraquezas quando se trata de espécies do reino animal.

As cenas sensuais são espetaculares. Uma parte alucinante do filme é quando um personagem sonha que está com sua amada em uma cama, ele é um ser pequeno, do tamanho de uma mão, e vai encontrar uma forma de dar prazer à sua amada...

Almodóvar alinhava as histórias das personagens como é hábito do diretor. Gostei demais do filme.

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Má educação (La mala educación), de 2004.

SINOPSE:

Dois meninos, Ignacio (Nacho Pérez) e Enrique (Raúl García), conhecem o amor, o cinema e o medo num colégio religioso no início dos anos sessenta. Enrique Goded (Fele Martínez) no presente é um cineasta famoso e recebe a visita de alguém que diz ser Ignacio, mas que agora quer ser chamado de Ángel Andrade (Gael García Bernal), e se oferece para trabalhar para Enrique como ator e também pede que ele leia um roteiro que fez sobre a infância deles num internato católico. No roteiro, nos é revelado que o professor e responsável pelo internato, padre Manolo (Daniel Giménez Cacho), abusava do garoto Ignacio e era apaixonado por ele. A trama é bem mais complexa do que parece e vamos descobrir as outras personagens e as histórias delas ao longo do filme. 

COMENTÁRIO:

O enredo deste filme é um dos mais complexos que vi de Almodóvar. Se trata de uma história dentro da história. Muito interessante. É filme para se ver mais de uma vez.

Gael García interpreta Juan Rodríguez, que é na verdade irmão mais novo de Ignacio Rodríguez, por quem o garoto Enrique e o padre Manolo se apaixonaram no passado, no colégio interno.

O padre Manolo (Daniel Giménez Cacho) acabou abandonando depois o sacerdócio.

O cineasta Enrique acaba descobrindo que Juan não é Ignacio, e decide fazer de conta que está sendo enganado pelo caçula de seu antigo amor.

Tudo isso que descrevo não seria um spoiler porque muita água vai rolar nesse moinho e o final não foge aos finais de filmes almodovarianos.

O ator Javier Cámara, que foi personagem central em Hable con ella (Benigno), interpreta no filme Paca (Paquito), personagem engraçada, amiga de Ignacio no filme rodado por Enrique.

Como disse, é filme para se ver mais de uma vez. Eu revejo sem pestanejar.

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Volver (Volver), de 2006.

SINOPSE:

O filme aborda a história de uma excêntrica família de mulheres de região assolada pelo vento ao sul de Madri. Raimunda (Penélope Cruz) é uma mulher da classe trabalhadora, que faz de tudo para manter a casa e proteger sua filha Paula (Yohana Cobo), uma adolescente de 14 anos. Raimunda é casada com Paco (Antonio de la Torre), que acaba de perder o emprego. A cena inicial se passa no cemitério da cidade natal da família. Raimunda e sua irmã Sole (Lola Dueñas) estão limpando a lápide do túmulo de seus pais, mortos num incêndio. Na cena, aparece também Agustina (Blanca Portillo) vizinha e amiga da família. É ela que tem cuidado da tia Paula (Chus Lampreave) desde que Irene, a mãe delas, faleceu (Carmen Maura). A cidade é de gente muito supersticiosa e a história se desenvolve a partir do aparecimento do espírito de Irene, primeiro para tia Paula e depois para Lola. Irene tem coisas a resolver e explicar para suas filhas, principalmente Raimunda, e também para a vizinha Agustina, que espera notícias de sua mãe há anos. 

COMENTÁRIO:

Filme encantador! A história dessa geração de mulheres é bem típica do universo almodovariano. As mulheres só têm a elas mesmas para se protegerem e resolverem qualquer tipo de problema que apareça no caminho delas.

A trama traz as revelações brutais das vidas das personagens e espelha um mundo patriarcal e misógino, violento e que precisa ser superado com todas as armas que as mulheres tiverem ao seu alcance, seja essa expressão de forma simbólica ou de forma real.

Eu me emocionei muito ao ver Raimunda (Penélope Cruz) interpretando a canção "Volver"... é de chorar e arrepiar!

E Carmen Maura, interpretando Irene, está magnífica! Agora que a conheço desde seus primeiros papéis em filmes de Almodóvar nos anos oitenta, me sinto à vontade para enaltecer essa grande atriz.

Revejo esse filme sempre que tiver oportunidade!

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Comentário final

Após conhecer melhor a obra de Pedro Almodóvar, ficou em mim o desejo de ver os filmes que ainda não conheço do diretor e revejo com tranquilidade os filmes que vi e comentei. Rever é ótima oportunidade para perceber detalhes que nos escapam da primeira vez.

Como disse em outros comentários, as sinopses que faço são baseadas em textos de Wikipedia e outros sites, mas adaptados por mim, então são novos textos a partir das referências que li.

William


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Vendo filmes (XXVI)


Cena de "A flor do meu segredo", de 1995.


Refeição Cultural

O universo de Pedro Almodóvar (II)


ANOS 90

Após o mergulho nos primeiros filmes do ator, roteirista e diretor Pedro Almodóvar, tendo visto quatro filmes dos anos oitenta (comentário aqui), embarquei na incrível viagem das personagens almodovarianas dos anos noventa... e que viagem foi essa!

Fiquei impressionado com as histórias dramáticas e muitas vezes engraçadas que Pedro Almodóvar nos conta através de seus filmes. 

Cada filme citado abaixo trata diversos temas ao mesmo tempo, tendo como centro o universo feminino e das pessoas LGBT.

Assisti aos filmes "De salto alto" (1991), "Kika" (1993), "A flor do meu segredo" (1995), "Carne trêmula" (1997) e "Tudo sobre minha mãe" (1999). Todos eles muito bons!

Difícil escolher quais gostei mais desta sequência de filmes. Pela emoção, diria que Carne Trêmula e Tudo sobre minha mãe me emocionaram muito. Victor e Manuela são personagens universais entre as classes populares, é gente como a gente lutando pela sobrevivência neste mundo cão.

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FILMES


De salto alto (Tacones lejanos), de 1991

SINOPSE: 

Filha de cantora famosa aguarda no aeroporto a volta de sua mãe após 15 anos vivendo no exterior. Rebeca (Victoria Abril) é âncora em um programa de notícias e sua mãe é Becky del Páramo (Marisa Paredes). Rebeca está casada com Manuel (Féodor Atkine), dono da TV e ex-amante de Becky. Na primeira noite de reencontro, os três vão a uma apresentação da transformista Femme Letal (Miguel Bosé), que tem como repertório central a imitação de Becky del Páramo. Rebeca ama sua mãe, esperou 15 anos por ela, mas guarda mágoa pelo abandono. O reencontro trará acontecimentos inesperados na vida de todos os personagens. 

COMENTÁRIO:

Roteiro impecável! Gostei muito do filme. 

Além das belas interpretações musicais das personagens Becky del Páramo e Femme Letal, o enredo nos aproxima por empatia à filha carente Rebeca.

A amarração da trama e a forma como termina a história são geniais. Não dá pra dar spoiler aqui.

Lógico que no filme estão todas as questões tratadas por Almodóvar: a condição das mulheres, traição, paixão, abandono, drogas, personagens do mundo periférico e toda a hipocrisia da sociedade humana. 

Revejo o filme tranquilamente. 

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Kika (Kika), de 1993

SINOPSE: 

Kika (Verónica Forqué) é uma maquiadora ingênua contratada pelo padrasto de Ramón (Àlex Casanovas) para maquiar o rapaz morto. Ela o desperta porque ele não estava morto e sim num estado catatônico. Kika havia dado seu cartão ao escritor estrangeiro Nicholas Pierce (Peter Coyote) por ter se interessado por ele. Após "ressuscitar" Ramón, ela acaba ficando com o fotógrafo. Ramón suspeita que Nicholas é responsável pela morte de sua mãe. Ramón é um fotógrafo com hábito de espiar pessoas; Nicholas está escrevendo um romance sobre um assassino de mulheres; e tem ainda na trama uma apresentadora de programa de TV que é doida de doer, Andrea Caracortada (Victoria Abril), que foi psicóloga e amante de Ramón, se automutilou por ele e ainda o persegue.

COMENTÁRIO:

O filme é uma comédia misturada a outros gêneros, pois temos crimes a serem esclarecidos, amores e traições, traumas psicológicos das personagens e psicopatias sérias no enredo. 

A amarração de Almodóvar é muito boa e da mesma forma que nos filmes anteriores, o final surpreende o espectador. 

Os papéis desempenhados por Santiago Lajusticia (personagem Paul Bazzo, maníaco sexual e ex-ator pornô) e Rossy de Palma (personagem Juana, empregada de Kika), irmãos na história, impressionam a gente. Imagino ainda em 1993 o choque das cenas protagonizadas pelo estupro de Kika.

Bom filme!

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A flor do meu segredo (Flor de mi secreto), de 1995

SINOPSE: 

A escritora de romances de amor, Leo Macías (Marisa Paredes), que escreve sob o pseudônimo de Amanda Gris, está passando por crise conjugal e não quer mais escrever aquele gênero literário. Só que ela tem contrato para escrever cinco romances por ano e sem poder falar de questões sociais, políticas e politizantes (tipo o "sertanejo universitário" bancado pelo agro no Brasil). Seu marido militar, Paco (Imanol Arias), quer o divórcio e sua amiga principal, Betty (Carme Elías), é amante dele. Para completar a trama, Leo conhece o editor Ángel (Juan Echanove), do jornal El País, que a quer como crítica literária. Ela lhe entrega uma cópia de seu novo romance, e ele quer publicá-lo, só que o romance aparece no mundo literário antes: quem plagiou? Como termina esta história?

COMENTÁRIO:

Neste filme de Almodóvar, a comédia dramática dá lugar ao melodrama. 

As crises diversas da vida cotidiana dominam o enredo. Até as cenas de briga entre a irmã Rosa (Rossy de Palma) e a mãe da protagonista (Chus Lampreave) nos fazem lembrar de nosso cotidiano familiar, inescapável!

A escritora quer mudar o estilo de texto e não pode porque é paga para fazer romances água com açúcar, que não quer mais... mas o sustento dela e de seus dependentes vem daquela forma de escrever antiga.

Gostei dos temas e da amarração da história. Faz a gente pensar. Final redentor.

Genial - Muito interessante em um filme de 1995 a personagem descrever uma história que só viria ao mundo uma década depois ("Volver"). Numa discussão entre a escritora e sua equipe editorial, a editora critica uma história cuja filha mata o pai, que tentou violá-la, a mãe coloca o corpo do marido em um refrigerador etc. A editora diz que isso não é uma história de amor, tema previsto no contrato. A escritora discorda, dizendo que nada é mais forte do que essa cena, o amor de mãe... Cara, muito legal!

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Carne trêmula (Carne trémula), de 1997

SINOPSE: 

Janeiro de 1970, Madri. A cena inicial do filme se passa na Espanha franquista, sob estado de exceção. Uma jovem pobre (Penélope Cruz) tem um filho dentro do ônibus e lhe dá o nome de Victor. Vinte anos depois, agora adulto, Victor (Liberto Rabal) desce de um ônibus em busca de Elena (Francesca Neri) que conheceu num rolê, eles transaram e Victor ficou apaixonado pela jovem (foi a primeira transa dele). Elena não quer nada com o rapaz, e como ele entrou em seu apartamento, ela o ameaça com uma arma. Na discussão, aparecem dois policiais, David (Javier Bardem) e Sancho (José Sancho). Na confusão, David toma um tiro e fica paraplégico. Victor pega seis anos de prisão. Elena casa com David. Sancho é alcoólatra e é casado com Clara (Ángela Molina), que é espancada por ele com frequência. Victor é solto e vai prestar homenagem a sua falecida mãe no cemitério da cidade. Ela morreu de câncer, deixando pra ele uma pequena quantia de herança: ela era prostituta. Estando no cemitério, ele vê o enterro do pai de Elena, e vai até ela cumprimentá-la. Após a cerimônia funeral, Clara pede ajuda a Victor para sair do cemitério, está perdida. Eles se tornam amantes. Daí adiante, as vidas das personagens vão se cruzar de forma dramática.

COMENTÁRIO:

Achei o filme extraordinário! Surpreendente enredo e final eletrizante. Foi um dos melhores filmes que vi de Almodóvar até agora.

Nada é tão simples como parece ser. Essa é a chave do enredo. Davi é o mocinho da história? Dá pra dizer que no casamento de Sancho e Clara tem algum culpado pelo fim da relação? Victor é um stalker obcecado por Elena? Na vida real das pessoas comuns o cotidiano é complexo. Todo mundo tem que dar seus pulos pra sobreviver.

E não poderia faltar as cenas de sensualidade numa história de Almodóvar, só que o diretor caprichou neste filme!

Demais! A mensagem final numa Espanha liberta do obscuro fascismo de Franco emociona a gente.

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Tudo sobre minha mãe (Todo sobre mi madre), de 1999

SINOPSE: 

Manuela (Cecilia Roth) é uma enfermeira que supervisiona o sistema de transplantes de órgãos. Ela é mãe solteira de Esteban (Eloy Azorín), garoto que quer ser escritor e passa o tempo todo com seu caderno de anotações. No dia do aniversário de 17 anos de Esteban, eles vão comemorar assistindo a uma peça clássica de teatro "Um bonde chamado desejo". A atriz principal é Huma Rojo (Marisa Paredes), que na saída do teatro, sob forte chuva, vê um garoto bater no vidro do carro pedindo um autógrafo. Ela não o atende. Ele sai correndo atrás do táxi e morre atropelado. Assim começa a trama, com Manuela chorando a morte do filho sob chuva no dia de seu aniversário. Minutos antes, ela havia prometido contar a ele quem era seu pai e sua história... 

COMENTÁRIO: 

Um filme essencial para conhecer e compreender o universo de Almodóvar. Filme belíssimo. Difícil não se comover com as histórias das personagens criadas por ele.

O filme trata temas centrais do complexo mundo humano das últimas décadas: a Aids, a dependência das drogas, as questões de identidade de gênero, a condição da mulher, as diversas formas de fé e religiosidade, e por que não dizer as questões existencialistas da vida.

Tudo sobre minha mãe foi considerado um dos melhores filmes do ano de 1999 e um dos melhores filmes espanhóis do século XX. Aliás, 1999 foi um ano excepcional no lançamento de grandes histórias do cinema.

A grandeza da personagem Manuela é algo tão cativante, que toca o coração da gente. Em meio a tragédias cotidianas, ela não titubeia em ajudar cada pessoa que precisa dela naquele momento. Que figura incrível!

Outra personagem apaixonante é Agrado (Antonia San Juan), uma trans trabalhadora do sexo que traz uma leveza incrível em um enredo dramático.

Adorei o filme. É de arrepiar!

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Comentário final

Ufa! Agora falta a postagem sobre alguns filmes que vi dos anos dois mil. Já sou fã de carteirinha de Pedro Almodóvar!

O texto anterior desta série pode ser lido clicando aqui.

William


sábado, 8 de fevereiro de 2025

Vendo filmes (XXV)


"Sudário" alternativo de Almodóvar
(em Maus Hábitos, de 1983)


Refeição Cultural 

O universo de Pedro Almodóvar (I)


ANOS 80

Já tinha visto filmes de Almodóvar no passado. Me agradou à época a poética do diretor espanhol. Gostei bastante de "Volver" (2006) quando o vi pela primeira vez. 

No entanto, minha relação com filmes era diferente da condição atual. Assistia a filmes e raras vezes ficava impactado a ponto de ficar pensativo por um tempo. Quase não me lembro dos finais de filmes que vi faz tempo.

De cada dez que via, acho que um ou outro me pegava de jeito, do tipo "Natureza selvagem", do ator e diretor Sean Penn (2007), "Uma história real", dirigido por David Lynch (1999), "Tomates verdes fritos", de Jon Avnet (1991), e outros. 

Depois que passei a escrever comentários e impressões sobre alguns filmes que vejo, minha sensibilidade melhorou em relação a esta forma de cultura e arte.

Ao verificar a lista de filmes de Pedro Almodóvar que iriam sair do streaming que assino, a Netflix, decide assistir a alguns deles. Eram muitos filmes, então tentei ver por ordem cronológica de produção do diretor.

Pedro Almodóvar 

O espanhol é um artista completo. Seus filmes são escritos, roteirizados e dirigidos por ele mesmo. Almodóvar tem uma criatividade impressionante! Suas obras são bastante autorais.

Ele faz parte da geração de artistas que surgiu após a queda de Franco na Espanha. O país viu nascer um movimento de libertação e contracultura desde meados dos anos setenta e com o auge nos anos oitenta, a "Movida Madrilenha".

Transgressão - a palavra que poderia resumir bem o movimento e a contracultura espanhola do período seria "transgressão". É o que vemos nos primeiros filmes de Pedro Almodóvar. 

São frequentes em seus filmes: o uso de drogas em todos os cenários, mulheres e gays na luta por seus lugares ao sol, a denúncia do uso da fé e das religiões para enganar pessoas e manter privilégios.

Enfim, diria que os filmes da primeira década de Almodóvar seguem bastante atuais, as temáticas foram e voltaram ao longo do tempo como pautas e agendas em todos os espectros políticos da sociedade humana.

Neste quarto de século XXI, o mundo vive uma nova disputa global entre progressistas de um lado e conservadores e reacionários de outro.

Cultura e educação podem nos salvar. A arte é uma forma de nos fazer pensar e sentir, até quando a técnica é chocar e causar espanto.

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FILMES 


Maus hábitos (Entre tinieblas), de 1983 

SINOPSE: 

Yolanda Bell (Cristina Sánchez Pascual), uma jovem cantora e prostituta (diz a personagem no filme), leva uma vida cheia de drogas, exageros e ambiguidades, até que assiste a seu namorado morrer de overdose de heroína. Apavorada, ela busca refúgio no convento das "redentoras humilhadas", que se dedica a salvar jovens moças da "perdição".

COMENTÁRIO: 

Um dos primeiros longas de Almodóvar, o filme deve ter causado o furor da igreja católica e de autoridades públicas e privadas na Espanha. 

O convento tem a Madre Superiora (Julieta Serrano) viciada em cocaína e heroína, a monja Sor Rato de Rua (Chus Lampreave) que escreve romances sob pseudônimo, a monja Esterco (Marisa Paredes) que se martiriza de formas horríveis, a monja Sor Perdida (Carmen Maura) meio doida e que cuida de um tigre, e outras monjas nada convencionais.

A Espanha vivia um novo momento político após o fim do franquismo, e a poderosa autoridade da igreja católica agora era alvo de questionamentos e denúncias. 

Almodóvar vai na raiz da questão da hipocrisia representada pelas autoridades religiosas associadas ao Estado com esse filme. Achei bem interessante. 

Já se vê que as mulheres e pessoas periféricas e excluídas serão o universo retratado em seus filmes.

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O que fiz eu para merecer isto? (¿Qué he hecho yo para merecer esto?), de 1984

SINOPSE: 

A diarista Gloria (Carmen Maura) divide o minúsculo apartamento com o marido Antonio, motorista de táxi (Ángel de Andrés López), e os filhos desajustados. Glória é viciada em anfetaminas, o marido é apaixonado por uma cliente alemã e os filhos consomem e traficam drogas. Tem ainda a sogra (Chus Lampreave) em casa, parceira do filho mais velho. Nesse universo, se cruzam ainda a vizinha prostituta (Verónica Forqué), um policial com disfunção erétil e uma criança paranormal. Um lagarto é personagem também.

COMENTÁRIO: 

Almodóvar mescla em uma comédia dramática os percalços da vida real de uma mulher das classes populares que faz de tudo para sobreviver e manter uma casa na qual ninguém faz nada para que aquilo seja um "lar". O marido é um machista de merda, que vive de arrotar lições morais, mas é um fdp.

O cenário eu conheço bem, apesar de ter vivido os anos oitenta no Brasil. A Espanha saía do período franquista, no qual a igreja católica era mancomunada com o poder estatal. O povo era massa de manobra das superstições e a hipocrisia era a lei.

O bairro pobre onde Gloria morava com a família não era muito diferente do bairro Marta Helena onde vivi nos anos oitenta, em Minas Gerais.

O mais interessante do filme de Almodóvar é que passadas quatro décadas do lançamento, o enredo continua atual.

O mundo segue dominado pelas drogas, que só mudaram de características com o passar do tempo. O machismo continua o mesmo, apesar de décadas de lutas das mulheres para ocuparem seu legítimo espaço social (o lugar da mulher é onde ela quiser). As religiões e superstições que dominam as massas seguem mancomunadas com a política: vejam as igrejas neopentecostais com seus projetos de poder estatal.

O filme é uma denúncia sobre a condição da mulher, sempre submetida à violência da sociedade dos homens e do capital.

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A lei do desejo (La ley del deseo), de 1987

SINOPSE: 

O cineasta Pablo Quintero (Eusebio Poncela) começa um relacionamento com Antonio Benítez, fã obcecado por ele (Antonio Banderas), após terminar relação com outro jovem - Juan Bermúdez (Miguel Molina) - que decide ir embora. Pablo é apaixonado por Juan. Tina Quintero (Carmen Maura), irmã transsexual de Pablo, é atriz e será protagonista da próxima obra de Pablo. Ela cuida da garota Ada (Manuela Velasco) como se fosse sua filha. Antonio não aceita a ideia de Pablo ser apaixonado por Juan e isso trará consequências trágicas na vida de todos.

COMENTÁRIO: 

O filme é forte na temática de gênero e orientação sexual. E lembro aqui que Almodóvar está em sua primeira década de longas-metragens nos anos oitenta. O tema era muito sensível para os conservadores e reacionários.

Os primeiros minutos do filme já chocam os espectadores. Um homem jovem nu recebe ordens de um outro homem para tirar as roupas e encenar cenas eróticas na cama.

É de se admirar a ousadia e a capacidade de Almodóvar de pautar já naquela época as questões mais comezinhas do cotidiano das pessoas "caídas" ou periféricas: a condição da mulher; a violência e a intolerância contra a liberdade sexual e a questão LGBT; o mal causado pelo mundo das drogas e a hipocrisia na forma como a questão é tratada pelas elites e pelas autoridades estabelecidas; e a questão da religião misturada à política estatal.

Interessante ver filmes de Almodóvar como estou fazendo, porque é possível perceber a evolução do ator e diretor e a forma como ele vai pautando os temas centrais da vida das pessoas comuns.

Lógico que seu estilo com cores fortes nos cenários, o vermelho principalmente, vai se impondo a cada filme. A forma teatral como se desenha as histórias, idem. Estou gostando bastante dos filmes.

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Mulheres à beira de um ataque de nervos (Mujeres al borde de un ataque de nervios), de 1988

SINOPSE: 

O filme conta a história de Pepa Marcos (Carmen Maura), dubladora que tenta desesperadamente contatar seu amante Ivan (Fernando Guillén) que decide deixá-la. Ele é casado com Lucía (Julieta Serrano), e Ivan já atuou em vários trabalhos com Pepa. Durante dois dias, a história vai apresentando mais personagens como, por exemplo, o filho de Ivan, Carlos (Antonio Banderas), e sua noiva Marisa (Rossy de Palma). Também conhecemos Candela (María Barranco), amiga de Pepa que acha que está sendo perseguida pela polícia por ter tido um caso com um líder terrorista que promete fazer um atentado em Madri. Ao deixar tanto a amante Pepa quanto a esposa Lucía, Ivan será o catalisador de todos os eventos da história.

COMENTÁRIO: 

Filme muito engraçado, apesar das situações das personagens serem dramáticas. Uma mulher que busca uma resposta do amante para o seu abandono. Outra mulher apaixonada por um homem xiita que a usou para seus objetivos em Madri. Um taxista nos anos oitenta que já apontava o que seria o futuro dos serviços de aplicativos da atualidade, com um carro que vendia de tudo para os passageiros.

Pepa está grávida de Ivan, e seus sentimentos estão à flor da pele. Apesar do abandono, ela demonstra ser uma pessoa de grande coração, pois no meio da bagunça daqueles dois dias de encontros e desencontros é ela quem ajuda cada personagem com o seu problema pessoal. Pepa é a grande mulher da história.

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Comentário final

Vamos ver mais alguns filmes de Almodóvar e apreciar o talento incrível desse ator, roteirista e diretor espanhol. Sem dúvidas, ele é um dos grandes de nossa época!

Nas sinopses, adaptei textos da Wikipédia, Netflix e outras fontes modificando a descrição ao meu gosto.

William


Post Scriptum: o texto anterior desta série sobre filmes pode ser lido aqui.


terça-feira, 6 de setembro de 2022

46. O retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde



Refeição Cultural - Cem clássicos

Aos poucos vou contabilizando minhas leituras de obras clássicas. Após muita leitura de livros no ano passado, neste ano eu sabia que não iria ler tanto por outras prioridades que teria na vida pessoal. Mas finalmente conheci o famoso romance do escritor irlandês Oscar Wilde.

O contexto da leitura: como não estabeleci a rotina de ler todas as manhãs neste ano, aproveitei que iria viajar por muitas horas de ônibus em uma visita à casa de meus pais e peguei o romance de Wilde. Detalhe: isso foi no dia 5 de maio...

Li quase 2/3 do livro na viagem, leitura interessante e fluida. Eu nunca tinha lido resenha alguma e não sabia do que se tratava a estória. Porém, voltando da viagem guardei o livro na estante e não peguei mais. Anteontem, acabei decidindo que era a hora de terminar a leitura do romance. 

É um bom romance de ficção. A estória tem referência com dois mitos clássicos: a questão da beleza de Narciso e a questão de vender a alma por juventude e beleza.

A ESTÓRIA

"Não. Seria impossível. A cada hora, a cada semana, a imagem reproduzida sobre a tela envelheceria. Poderia escapar à feiura do pecado, mas a feiura da idade estava à espreita. As faces se encovariam e se enrugariam. Vincos amarelecidos cercariam os olhos murchos e os tornariam horríveis. Os cabelos perderiam o brilho, a boca encovada e descaída tomaria essa expressão grosseira ou estúpida que tem a boca dos velhos. Mostraria o pescoço repleto de rugas, as mãos frias com veias azuladas e o corpo encurvado daquele avô de quem se lembrava havia pouco, que fora tão duro com ele em sua infância. O retrato devia permanecer escondido. Outra coisa não seria possível." (p. 144)


Três personagens na trama: Dorian Gray, Basílio e Henry. Dorian é um jovem belíssimo e bom rapaz, até conhecer Henry por intermédio de seu amigo e pintor Basílio. Henry o seduz para um estilo de vida bem diferente do que ele levava antes.

Uma das questões centrais da trama é o retrato que Basílio pinta e dá de presente ao amigo Dorian. A beleza do rapaz e da pintura são tão grandes que o jovem gostaria de ficar para sempre como a imagem imortalizada no quadro. 

De alguma forma, o desejo de Dorian passa a se realizar, como se o quadro fosse o retrato de sua alma e dali adiante a imagem passa a sofrer a ação do tempo e o jovem não. Mais que isso, à medida que o comportamento do rapaz muda e ele prática más ações, todas elas refletem no retrato.

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ROMANCE POLÊMICO À ÉPOCA E CENSURA

Pelo que pude pesquisar, minha edição é baseada na edição que o próprio autor fez com cortes por causa das censuras que sofreu à época do lançamento, em 1891. A edição censurada tem 20 capítulos como essa da editora Nova Cultural e Círculo do Livro, na tradução de Enrico Covisieri.

O pior é que na edição que tenho não tem o famoso prefácio do autor, onde ele se posiciona sobre o romance e sobre sua poética. Wilde era adepto de movimentos de época que valorizavam a arte pela arte, e era contra a relação entre literatura e moralidade ou ensinamentos edificantes através de obras de arte.

Enfim, conheci mais um clássico da literatura mundial. Como diz Italo Calvino, é melhor ler do que não ler os clássicos.

William


Bibliografia:

WILDE, Oscar. O retrato de Dorian Gray. Imortais da Literatura Universal. Editora Nova Cultural, 1996.


sábado, 25 de dezembro de 2021

Lugar de fala (e Feliz Natal)



Refeição Cultural

Osasco, 25 de dezembro de 2021.


Nunca é tarde para aprendermos alguma coisa. Ouvi uma entrevista de Guilherme Terreri, mais conhecido por Rita Von Hunty, do canal Tempero Drag, entrevista ao portal Phenno, falando a respeito do conceito de "lugar de fala" e percebi que eu não sabia o que significava corretamente o conceito. Sugiro que as pessoas que queiram ouvir as explicações a respeito do tema ouçam o vídeo na internet. É fácil localizar.

Sou um homem branco, tenho mais de cinquenta anos, tenho remuneração mensal certa e moradia própria. Avalio que sou heterossexual e sou ateu. Será que poderia ou deveria falar sobre racismo, pessoas LGBTQIA+, feminismo, xenofobia, religião e fé, movimento das pessoas sem teto ou sem terra ou qualquer outra questão que envolva grupos e segmentos humanos?

Pelo que Rita Von Hunty (Guilherme Terreri) explicou aos ouvintes da entrevista, posso e devo me manifestar sim sobre essas questões e todas as demais questões, até porque todas as pessoas são livres para se manifestarem sobre o que bem entenderem. 

Ficar atento ao lugar de fala é algo importante para os ouvintes de determinado discurso para saberem identificar de onde vem aquele discurso. É uma lupa que ajuda e ver o lugar daquela fala. A fala não é neutra, nenhuma fala é neutra, ela tem "sexo, gênero, raça, cor, classe social...". Essa explicação de Rita Von Hunty é fundamental.

E seria danoso avaliarmos que só mulheres podem falar sobre questões das mulheres, que só negros podem falar sobre as questões das pessoas negras etc. Uma das justificativas para se deixar essas temáticas em bolhas é dizer que só quem vive a questão pode falar sobre ela... Já pensou se só suicidas pudessem falar sobre a questão do suicídio?

Não vou tentar resumir o que Rita Von Hunty nos explica com toda aquela didática e conhecimento que já conhecemos. Na entrevista, nos é explicado de forma simples que o importante no lugar de fala é sabermos se o lugar do discurso da pessoa traz estudo e conhecimento também, além de costumes, preconceitos, mitos, crenças etc. 

Os exemplos que Rita nos dá são excelentes para esclarecer o conceito. O falecido Clodovil, conservador de direita, seria nossa referência para falar sobre LGBTQIA+? Aquele sujeito bolsonarista inominável na Fundação Palmares seria nossa referência para falar das causas dos negros e negras do Brasil? 

Profissionais de saúde que estudam e trabalham com a questão do suicídio podem e devem falar sobre o tema, por exemplo. Um homem branco que estuda e milita nas causas contra a discriminação e o racismo pode e deve falar sobre o tema. O mesmo serve para qualquer questão de orientação sexual, gênero, raça, religião, xenofobia, desigualdade social etc. Aliás, uma das discussões atuais é que não basta não ser racista, é necessário ser antirracista.

Como eu não poderia falar e ou me engajar em qualquer das grandes causas que os movimentos sociais e de esquerda defendem no cotidiano das lutas se eu passei boa parte da minha vida nessas lutas?

E mais: como eu não poderia falar e opinar sobre religião e fé sendo que passei décadas de minha vida estudando a religião católica, o cristianismo, frequentei ativamente umbanda e candomblé, estudei livros sobre espiritismo, li sobre budismo etc? Posso e devo sim, se eu achar conveniente, me expressar a respeito das religiões e das crenças e fé das pessoas e da não crença em deus algum.

Enfim, obrigado Rita Von Hunty pelo esclarecimento e por compartilhar conosco esses conhecimentos que você nos traz porque estuda, porque milita nas causas, porque atua na educação e na construção de uma sociedade mais justa, igualitária, inclusiva e diversa.

Presente de Natal (rsrs) ganhei da Rita com um novo conhecimento. Natal que significa para o cristianismo o nascimento de Cristo, mas que nas culturas diversas dos últimos vinte séculos significa momentos de confraternização com pessoas que amamos, momento de reflexão sobre a vida, as vidas, solidariedade etc. Viva o Natal! Feliz Natal a todas as pessoas!

(Não é porque sou ateu que não posso desejar feliz Natal para as pessoas que conhecemos e gostamos e até para aquelas que não conhecemos. Eu desejo amor, fraternidade, paz, igualdade, distribuição de renda, tolerância à alteridade, o perdão, oportunidades para todos etc todos os dias de minha breve existência como ser humano)

Feliz Natal!

William


domingo, 6 de janeiro de 2013

Artigo: Grande Sertão: Veredas - Amor simplesmente...


Cena da minissérie Grande Sertão: Veredas.
Globo quebrou encanto da obra.


Refeição Cultural

INTRODUÇÃO

Estou relendo o clássico de Guimarães Rosas.

Alguns livros e alguns autores são exatamente o que um Leitor ou uma pessoa qualquer precisam quando querem pitadas de sabedorias e frases profundas para parar e entrar em reflexão sobre o viver, sobre o mundo, sobre as coisas.

Sem dúvida nenhuma Guimarães Rosa, José Saramago e Machado de Assis se enquadram neste tipo de autor sábio e mágico que estou dizendo. 

O livro primeiro, pela antiguidade, sobre essas pitadas de sabedoria que afirmo, não poderia ser outro que Don Quijote de La Mancha, de Miguel de Cervantes Saavedra.

Voltemos ao Grande Sertão: Veredas...

(ATENÇÃO: se você não tiver lido o livro, aviso que o texto contém spoiler sobre o final)

Cito abaixo, após minha argumentação, um trecho do monólogo reflexivo e angustiado de toda uma vida do jagunço aposentado Riobaldo Tatarana ao visitante ilustre, "doutor", que, de passagem por sua casa, teve que ficar três dias ouvindo o narrar de uma vida jagunça.

Eu queria ter lido hoje umas cinquenta páginas, mas é impossível não parar para refletir e anotar um pouco do maravilhoso que é o falar de Riobaldo, a riqueza do respeito ao contar e às técnicas narrativas da boa literatura.

MINISSÉRIE DA GLOBO QUEBROU TODO O ENCANTO DA OBRA

Observem que todo o respeito que o jagunço teve em contar ao ''doutor" sua história foi quebrado de cara pela Rede Globo ao fazer nos anos oitenta a minissérie sobre o livro. Todo o segredo mantido e preservado até o fim por Riobaldo ao visitante e a cada leitor que ocupa o lugar do visitante ao abrir a estória, foi arrebentado pelas Organizações Globo e pela família Marinho ao colocar a bela e conhecida atriz Bruna Lombardi no seriado.

Toda a construção do livro se baseia nas confissões de um amor por um amigo, em um amor de um homem por um homem. Riobaldo reflete se aquele amor naquele tempo e naquela situação real do viver não era coisa do "Dêmo", se ele era ou não era "sem-vergonha".

Tudo isso é preservado pelo jagunço aposentado ao narrar ao visitante e aos leitores. 

Então me aparece a Rede Globo, que não tem o mínimo respeito por nada e por ninguém, e quebra o encanto da obra ao fazê-la contando a todos aquilo que nem Guimarães Rosa nem o personagem narrador Riobaldo fizeram.

A TÉCNICA NARRATIVA DE RIOBALDO

"O senhor entenderá, agora ainda não me entende. E o mais, que eu estava criticando, era me a mim contando logro - jigajogas."

Essa é a técnica que o jagunço Riobaldo escolhe para narrar sua história ao visitante. Ele, Riobaldo aposentado, desde o início de sua narração, assume uma posição de contar com o ponto de vista do próprio personagem Riobaldo no passado. Ele quer que o "doutor" vivencie o mesmo tormento que ele viveu ao descrever aquele sentimento estranho pelo amigo Reinaldo.

"Ao que, em tanto, no ouvir falar de Joca Ramiro, o Reinaldo se aproximou. Parecia que ele não gostava de me ver em comprida conversa amiga com os outros, ficava quasezinho amuado. Com o tempo dos dias, fui conhecendo também que ele não era sempre tranquilo igual, feito antes eu tinha pensado. Ah, ele gostava de mandar, primeiro mandava suave, depois, visto que não fosse obedecido, com a sete-pedras. Aquela força de opinião dele mais me prazia? Aposto que não. Mas eu concordava, quem sabe por essa moleza, que às vezes a gente tem, sem tal nem razão, moleza no diário, coisa que até me parece ser parente da preguiça. E ele, o Reinaldo, era tão galhardo garboso, tão governador, assim no sistema pelintra, que preenchia em mim uma vaidade, de ter me escolhido para seu amigo todo leal. Talvez também seja. Anta entra n'água, se rupêia. Mas, não. Era não. Era, era que eu gostava dele. Gostava dele quando eu fechava os olhos. Um bem-querer que vinha do ar de meu nariz e do sonho de minhas noites. O senhor entenderá, agora ainda não me entende. E o mais, que eu estava criticando, era me a mim contando logro - jigajogas."

Em todas as passagens da narração, o jagunço pede calma ao ouvinte, dizendo que no final da história se entenderá, ou não. Mas o segredo é mantido.

O que faz a Rede Globo na minissérie, diz aos telespectadores: olha, fiquem tranquilos e podem assistir ao seriado porque não estamos colocando nenhuma "senvergonhice" no ar. No final (desde o início), vocês verão que o Diadorim é a bela Bruna Lombardi e, então, não tem problema de o Riobaldo sentir aquelas coisas por ele (ela) não...

Francamente!

William

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

MILK – a voz da igualdade (2008 – EUA), dirigido por Guns Van Sant

Harvey Milk. Anos 70. Direitos civis. Homossexualismo. Intolerância. Respeito ao ser humano.


Foto divulgação

Assisti ao filme Milk. Uma bela interpretação de Sean Penn, como de hábito.

A pessoa que sou hoje e que assistiu ao filme é outra pessoa em relação àquela de dez anos antes. Acredito que todos somos outros dez anos depois. Digo isso porque venci o preconceito que tinha devido à minha total ignorância sobre os temas "Orientação sexual" e "Amor" - em todas as suas formas e possibilidades.

Em uma década, deixei de ser preconceituoso e acho que me tornei uma pessoa um pouco mais tolerante. O movimento sindical me mudou como pessoa. Mesmo que saia em 2011 ou mais adiante, agradeço muito ao Sindicato dos Bancários e à CUT por terem me ajudado a ser um pouco melhor como ser humano.

Aliás, quando penso em tolerância, em respeitar as diferenças e conviver com elas, penso também na corrente política e sindical que tive a sorte de conhecer e militar durante esta década – a Articulação Sindical. Nela, aprendi a buscar o consenso e evitar ter como foco a destruição de quem pensa diferente. Aprendi a buscar agregar e somar naquilo que é consenso para lidar com o diferente. Buscar a unidade por objetivos maiores.

Lembro-me de quando jovem, nos anos 80, da intolerância que todos tínhamos com os gays, bem como com qualquer grupo onde você próprio não estivesse inserido.

Que belo homem foi Harvey Milk!

Não sei se ele era determinado premeditadamente ou se apenas foi fazendo o que tinha que ser feito. Me parece mais a segunda hipótese. E essas são as grandes pessoas!

Não acredito em heróis e não acho que as pessoas nascem para serem heroínas. Mas acredito muito que todas as pessoas têm um combustível dentro de si, que após aceso, pode levá-las a lutar e lutar e lutar por aquilo que acreditam. Muitas vezes, até lutam por algo errado, moral ou eticamente, mas lutam. É uma questão de direcionamento para o bem ou o mal.

Outra coisa muito forte na mensagem de Harvey Milk é a proposta para as pessoas se assumirem como são. No caso específico da orientação sexual, que cada um nasce com ela, é uma questão de respeito ao ser humano.

Para aqueles que têm ou acham que têm a orientação sexual "padrão", estabelecida por grupos dominantes, a questão principal é de educá-los para o respeito à alteridade e ao diferente. A vida no planeta só sobrevive porque há diversidade, há diferença. Se a vida fosse de homogeneidade, já não haveria vida, pois seríamos frágeis como uma espécime toda igual que perece com qualquer mudança no seu habitat.

O filme Milk é um filme leve para um tema ainda difícil para parte das pessoas que não aceitam o diferente.

O filme é um bom momento para se lembrar que a educação para a liberdade e o respeito à diversidade pode revolucionar o nosso mundo, tão intolerante, às vezes.

Será que os milhares de militantes que se dizem progressistas, liberais e de esquerda já viram o filme? Se não viram ainda, não percam tempo e vejam. Vale a pena!

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O valor das PALAVRAS na Educação e na Comunicação

Foto de Luís de Camões. Fonte: wikipédia
O uso inapropriado das PALAVRAS e certas afirmações na educação escolar podem levar ao preconceito

Li um texto na apostila da escola de meu filho - o COC. O texto fala sobre "A arte da palavra" e utiliza como materiais de referência o soneto de Camões, que fala sobre o amor, e uma pintura muito famosa de Michelangelo - A criação de Adão - feita no teto da Capela Sistina.

Soneto de Luís de Camões (1524-1580)

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Informações da apostila:

"O soneto de Camões fala de um tema muito precioso para a poesia de todas as épocas: o Amor.

O poema procura definir determinado 'tipo' de amor, aquele existente entre duas pessoas*, sentimento "muito confuso". Pensando nele, paramos para refletir: o que faz o homem*, desde épocas muito distantes, cultivar como uma bela flor este sentimento tão confuso?"

*COMENTÁRIO:
PALAVRAS APROPRIADAS
Aqui o material didático usa as palavras de forma apropriada. O tipo de amor é "entre duas pessoas". o termo "o homem" aqui quer dizer o ser humano.

Segue a apostila:

"O amor não é apenas o sentimento do homem por uma mulher de quem goste*. Ele é um sentimento forte, sublime, agradável, vasto e delicado. Por ser tão extenso, podemos expressá-lo de várias formas."

*COMENTÁRIO:

Logo em seguida, o texto já limita o "tipo de amor" entre pessoas, sendo somente entre "homem e mulher". Como a comparação que quer se passar é que existe amor também entre Deus e o ser humano, e demais tipos de amor (pela natureza, por exemplo), começa aqui uma construção velada de que o "tipo de amor" (normal?) entre pessoas seria entre "homem e mulher".

Seria fácil manter a neutralidade na didática usando a referência "amor entre duas pessoas", PONTO!

Foto de A criação de Adão, de Michelangelo Buonarroti, na Capela Sistina, Vaticano, Itália. Fonte: wikipédia

Segue a apostila:

"Tomando por base a Bíblia e a religião cristã, o artista italiano Michelangelo (1475-1564) criou, no teto da Capela Sistina, em Roma, exemplo belíssimo do amor de Deus pelos homens, o afresco A criação de Adão*."

*COMENTÁRIO:

Pergunto: o que tem a ver a pintura feita por Michelangelo com um "exemplo de amor de Deus pelos homens"?

Tá certo que a bíblia passa mensagens de amor de Deus pelos humanos, mas é meio forçação de barra afirmar que a criação artística de Michelangelo é exemplo de amor de Deus.

Segue a apostila:

"O texto de Camões recebeu nova "roupagem" na década de 80, quando o grupo de rock brasileiro Legião Urbana gravou a música Monte Castelo, usando palavras do poema e alguns trechos da Bíblia (I Epístola de São Paulo aos Coríntios, capítulo XIII). Essa música é a fusão perfeita dos dois amores de que falamos: o amor de um homem por uma mulher e o de Deus pelos homens*."

*COMENTÁRIO:

A apostila poderia muito bem ter mantido a forma com que começou o texto, falando do amor entre duas pessoas. SERIAM PALAVRAS MAIS APROPRIADAS para permitir a DIVERSIDADE DE ORIENTAÇÃO SEXUAL entre as pessoas e, principalmente, entre os jovens que por ela estudam.

A afirmação final é tão inapropriada que Renato Russo, o saudoso autor da letra e líder da banda de rock Legião Urbana, citada pelo texto, já afirmava nos anos 80 gostar "de meninos e meninas".

Penso que todos os avanços já conquistados pela sociedade contemporânea, no que diz respeito à diversidade e à alteridade, devem ser utilizados na educação da juventude. Só assim poderemos buscar o socialismo democrático e um outro mundo possível, com pessoas mais conscientes e integradas a um planeta terra que pertence a todos - seres humanos de todas as raças, credos e diversidades várias - e que deve ser preservado e usufruído por todos - humanos, fauna e flora.

Referências usadas:
Wikipédia
Apostila COC