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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Artigo: Libertação - Quando terei a minha?


Arquivo X.
Episódios do 7º ano da série.


Refeição Cultural

Por que será que ando em busca de filmes, livros e coisas relacionadas com a liberdade, busca da liberdade ou atos de libertação?

Creio que a ideia de liberdade acompanha todo ser humano. Não sou diferente da grande maioria humana que vive em busca da liberdade.

Por que não sou livre ou não me sinto livre? Talvez esta seja a pergunta apropriada a ser feita e que mereça a reflexão necessária para a resposta.

Eu não estou preso neste momento, no sentido de estar privado de locomoção ou do direito de ir e vir. Então, por que não sou livre?

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ARQUIVO X - LIBERTAÇÃO (episódios 1 e 2)

Assisti novamente a um episódio duplo da antiga série Arquivo X. Os episódios são do 7º ano e se chamam Libertação - parte 1 (Sein und Zeit) e Libertação - parte 2 (Closure).

Os episódios são da mitologia da série, ou seja, episódios que não são casos independentes dos Arquivos X. Pelo contrário, episódios mitológicos têm relação com a vida dos personagens Mulder, Scully, Skinner, Dogget, Mônica Reyes, Canceroso etc.

O nome do episódio 1 faz referência a uma obra do filósofo Heidegger - "Ser e Tempo" - e tem relação com a busca pelo sentido da existência. O episódio 2 tem a palavra Closure que significa "encerramento, fim" em inglês, mas que também pode ter relação com a obra de Heidegger, quando ele se refere a World Disclosure (mundo revelado, manifestação das coisas e das relações delas no mundo).

No episódio duplo, Mulder busca por uma criança desaparecida nas mesmas circunstâncias em que desapareceu sua irmã Samantha quando era criança. Há muita tristeza nos episódios porque abordam o tema de rapto e assassinato de crianças, além de ser o episódio em que morre a mãe de Mulder, a senhora Teena. Mas tanto a garotinha desaparecida quanto a irmã dele não foram encontradas entre as dezenas de corpos de crianças mortas por um serial killer com décadas de crimes.

A teoria que prevaleceu sobre as desaparições sem corpos das crianças vitimadas (incluindo a irmã de Mulder) é que elas foram levadas pelos anjos andarilhos da luz, que salvam crianças momentos antes de mortes marcadas por grande sofrimento. Elas passam a andar nas luzes das estrelas.

Após Mulder ver sua irmã e outras crianças entre as luzes, ele afirma para sua parceira Scully que ele está livre... Sua busca terminou ali. A cena é muito forte e é difícil não se emocionar.

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AINDA NÃO ENCONTREI O QUE PROCURO

Minha existência tem sido uma busca desesperada por algo que ainda não encontrei ou que talvez não saiba nominar. Fui levado pela vida para situações às mais diversas possíveis nestas quatro décadas de existência. E tudo que sei é que falta algo, falta.

Se eu sou livre, por que é que não leio todas as obras literárias que desejo? Por que não me conduzi para viver e me sustentar em função da leitura e do estudo dos grandes autores?

Nos últimos anos, ficava olhando meu pangasius no aquário e refletia o que fazer com ele, porque eu não sabia se a condição dele era favorável ou não. Por um lado, ele tinha comida, água tratada e regularidade. Por outro lado, ele havia crescido, vivido mais de uma década e eu não tinha um habitat maior que aquele aquário de 200 litros para ele.

Eu pensava às vezes se ele não queria se libertar daquele lugar ou daquela existência "regular" e sem liberdade e perspectiva. Quantas vezes eu não fiquei deitado olhando pra ele e pensando que eu me sentia na mesma situação que ele, eu também vivia num aquário! Aí pensava quem se libertaria primeiro...

O pangasius viveu sua vida de peixe de aquário. Eu ainda vivo num aquário. Tenho as mesmas rotinas... não tenho tempo para minhas grandes leituras... não tenho rotina para uma atividade física regular... vivo em tese "livre", porém longe longe do sentimento de liberdade.

Mulder buscou por sua irmã por mais de vinte e cinco anos até que um dia encontrou a verdade. Se libertou.

Eu procuro uma resposta para minha insatisfação e incompletude há mais de trinta anos. Ainda não encontrei minha verdade e aquilo que me pacificará o ser. O pior é que no aquário em que vivo, jamais surgirão as oportunidades de encontrar o que procuro porque minha resposta não está naquele habitat.

Fim.

William 


sábado, 2 de fevereiro de 2013

Crônica: Riobaldo e Diadorim - Metáforas de todos nós


Veredas mineiras: um amanhecer.
Foto: William Mendes


Refeição Cultural

Riobaldo e Diadorim – Metáforas de todos nós


GRANDE SERTÃO: VEREDAS


Neste nosso viver, nesse mundo duro e trágico, todo mundo, desde criança, precisa se fazer um pouco Riobaldo para sobreviver em seu meio.

Nesta nossa vida de desejos e sonhos impossíveis, todo mundo tem o seu Diadorim; a sua saudade, seus amores e seus pesares.

“Ao tanto com o esforço meu, em esquecer Diadorim, digo que me dava entrante uma tristeza no geral, um prazo de cansado. Mas eu não meditava para trás, não esbarrava. Aquilo era a tristonha travessia, pois então era preciso. Água de rio que arrasta. Dias que durasse, durasse; até meses. Agora, eu não me importava. Hoje, eu penso, o senhor sabe: acho que o sentir da gente volteia, mas em certos modos, rodando em si mas por regras. O prazer muito vira medo, o medo vai vira ódio, o ódio vira esses desesperos? – desespero é bom que vire a maior tristeza, constante então para o um amor – quanta saudade... –; aí, outra esperança já vem... Mas, a brasinha de tudo, é só o mesmo carvão só. Invenção minha que tiro por tino. Ah, o que eu prezava de ter era essa instrução do senhor, que dá rumo para se estudar dessas matérias...” (p. 248)

O entardecer em uma vereda da vida.
Foto: William Mendes


CISMANDO COM AS VEREDAS DO SERTÃO

Eu recheguei a uma conclusão: o Grande Sertão: Veredas não se lê de uma vez não.

Ele é um livro como aquele que usam chamar de "Minutos de Sabedoria".

É um belo livro como a bíblia, que é um antigo volume de histórias, salmos e sabedorias para aqueles que creem em um deus ou no mundo metafísico, pois ali se fala de amor, de solidariedade e também fala de vingança e poder – coisas tão humanas!

Eu posso viver com o Grande Sertão na cabeceira e ir colhendo minutos de profunda reflexão sobre a existência humana.

A beleza pura e agreste das e nas veredas.
Foto:  William Mendes


DIADORIM

Quando comecei a leitura do dia, acabei quedando e viajando nas ideias com as primeiras duas páginas. Pensei o mundo todo. Pensei a vida toda no dizer de Riobaldo citado acima.

Quem não tem na vida o seu Diadorim? Quem não está preso em uma circunstância ou vive com aquele vago desejo impossível ou aquela gastura daquilo que já se foi, passou e ficou queimando dentro de si – “é só o mesmo carvão só”.

Cada um de nós... Penso, por exemplo, meu pai com seu amor pela cidade de São Paulo...

Eu poderia citar uma espécie de Diadorim de cada pessoa próxima que conheço. E olha que o Diadorim de cada um vive lá no fundo no fundo e muitas vezes não é pronunciável...

Um certo luar nas veredas mineiras.
Foto: William Mendes


RIOBALDO

 “Eu estava meio dúbito. Talvez, quem tivesse mais receio daquilo que ia acontecer fosse eu mesmo. Confesso. Eu cá não madruguei em ser corajoso; isto é: coragem em mim era variável. Ah, naqueles tempos eu não sabia, hoje é que sei: que, para a gente se transformar em ruim ou em valentão, ah basta se olhar um minutinho no espelho – caprichando de fazer cara de valentia; ou cara de ruindade!” (p. 62)


Aí, lembrei-me do Riobaldo de cada um de nós. Eu cresci um menino de bom coração, até meio bobo lá naquela infância até meus dez anos. Aí, mudei pra Minas Gerais e caí num mundo estranho, duro, rude.

Tive que me fazer Riobaldo no bairro Marta Helena em Uberlândia, pra andar no meio das gangues, da Falange. Tive que olhar no espelho e fazer cara de ruindade. Pus muito esforço nisso. Deve ter dado certo. Passei a adolescência assim; carreguei isso comigo pra vida adulta. Hoje, vejo meu filho tentando fazer isso. E sei que o coraçãozinho dele é dos bons...

Sertões...

William


Bibliografia:

ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Editora Nova Fronteira. 19ª edição.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

É preciso amar os idosos do mundo


Meu velho e querido pai.

SER OU NÃO SER “ÚTIL”, EIS A QUESTÃO!

É preciso amar os idosos do mundo

Estou me preparando para passar mais uma noite ao lado de meu querido pai na seção de emergência do Hospital da Faculdade de Medicina de Uberlândia. Ele sofreu um infarto há três dias e conseguiu chegar com vida e ser atendido no Sistema Único de Saúde do Brasil – SUS.

São longas essas noites de espera pela melhora do ente querido hospitalizado e pela expectativa de melhora daquela quantidade imensa de seres humanos necessitados de atendimento de saúde e de amor, amor dos familiares e amigos e amor da sociedade em relação ao próximo.

Gostaria de refletir um pouco sobre uma frase constante de meu velho pai e vincular minha resposta a ela em relação ao problema mais grave da atualidade em relação ao desemprego dos jovens do mundo capitalista em grave e eterna crise.


SER OU NÃO SER “ÚTIL”, EIS A QUESTÃO!

O modo de produção capitalista, pelo qual está organizado praticamente o mundo inteiro, tem um conceito de utilidade dos seres humanos no sentido de só se considerar útil aqueles que estão empregados ou inseridos no próprio modo de produção capitalista.

Quem não vende sua força de trabalho ou é “empreendedor” ou inútil. Ou seja, quem não está produzindo e criando Capital ou Mais Valia é considerado INÚTIL. É um ser imprestável para a sociedade. A geração de meu pai, um senhor de 69 anos, foi criada assim.

Essa geração, que nasceu no século vinte, só teria valor social se fosse ou “trabalhador” ou “capitalista”. Então somos fruto de uma sociedade com bilhões de miseráveis proletários vendendo sua força de trabalho para a simples reprodução da própria mercadoria “força de trabalho” e alguns poucos capitalistas detentores de todo o Capital e dos Meios de Produção.

Meu velho pai tem vários problemas de saúde. Pegou no pesado desde seus poucos anos de vida, ainda como uma criança, e foi envelhecendo com esse conceito capitalista de ser “útil” ou “inútil” se estivesse trabalhando até o último dia de sua vida produzindo Mais Valia ou sendo “Empreendedor”.

O resultado líquido e certo dessa máquina ideológica capitalista de manipulação das pessoas do mundo é a depressão e a baixa autoestima por se sentir “inútil” ao se tornar um idoso ou ao não conseguir “emprego” ou “trabalho”.


IDOSOS: FONTE DE SABEDORIA E LIAME DA SOCIEDADE

Meu pai dizia hoje de manhã, que deve aprender a aceitar viver como um “inútil” após sobreviver ao infarto e ainda não saber que tipo de sobrevida terá. Aliás, um dos motivos de sua depressão e sucessão de problemas de saúde é justamente tentar ser “produtivo” com uma saúde que mal lhe permite viver.

Minha querida família mineira.

Expliquei a meu velho pai que ele é muito importante simplesmente por estar vivo e ser amado e ser o Pai e o Avô de seus filhos e netos, e, sobretudo, por ser o companheiro de minha mãe.

A crise atual dessa porcaria de sistema capitalista em que vivemos, onde o que vale é consumir-se a si e ao próprio planeta até o colapso final, alijou do mercado de trabalho mais de um bilhão de seres humanos jovens e adultos após 2008 (Crash do subprime). Em alguns países, o desemprego dos jovens está na casa de 48%. O presente e o futuro já estão comprometidos.

Aos idosos, é preciso que a sociedade contemporânea dê amor e condições de vida - condições financeiras e sociais de vida -, pois eles são o nosso vínculo mais importante com a forma de organização social humana que surgiu em centenas de milhares de anos.

Os idosos são o nosso liame (link, ligação) com a sociedade humana, são a ligação com a cultura de cada povo, a ligação entre o passado e o presente público e privado de cada sociedade.

Os idosos são a experiência. A sociedade humana é diferente do restante do mundo animal porque desde o nascimento tem aculturamento, além das necessidades vitais de comida e oxigênio. Somos o fruto de nossos antepassados. Aprendemos com o ontem para criar o presente. Não deixemos de lado nossos idosos. O mundo precisa manter o ciclo de simbiose entre a experiência dos mais velhos com a energia dos mais novos.


UM MUNDO MELHOR PARA TODAS AS GERAÇÕES

Três gerações de brasileiros comuns.


Nossos idosos são fundamentais porque são Pais, Avós, Mestres, Amigos de longa data, Professores, Sábios. São nossos Caciques e Pajés. A função social deles é existir entre nós e ter todo o nosso respeito e apoio.

E deixemos para as gerações que chegam a continuidade da produção material do mundo. Mas façamos também uma distribuição melhor dessa produção material.

William Mendes

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Post Scriptum (9/08/15):

Dia dos pais: releituras de meus textos. Tenho a felicidade de ter meus pais vivos e estar com eles nesta data.


Post Scriptum II (21/6/18):

No dia 8 de fevereiro, cinco dias depois desta postagem, publiquei no Facebook um aviso que meu pai estava em casa após o infarto e agradecimentos pela solidariedade e torcida de tod@s.


"Informo aos meus familiares e amig@s que meu pai saiu do hospital hoje e que seguirá a recuperação do infarto em casa.

Obrigado pela torcida e preocupação de tod@s.

É estranho... poderei dormir à noite depois de 7 noites acordado... É impressionante o que percebi... as noites são longas, mas o amanhecer sempre chega..."

domingo, 20 de novembro de 2011

A Náusea – Perceber-se a existir (ou só Existir)


Jean-Paul Sartre

A NÁUSEA – PERCEBER-SE A EXISTIR (OU SÓ EXISTIR)

Diálogos entre ideias de Sartre e Fernando Pessoa.
Com a palavra: Antoine Roquentin e Alberto Caeiro

Para tentar entender a obra de Sartre e sua filosofia existencialista, fico buscando relações pertinentes na literatura e nos autores que já conheço para possíveis intertextualidades.
A partir da ideia de Existencialismo e do Existir lembrei-me de Alberto Caeiro e do “Guardador de Rebanhos”.
Creio ser interessante, neste momento, simplesmente deixar os dois falarem entre si e ficar observando o debate de ideias e, vez por outra, expressar algum comentário.

ANTOINE ROQUENTIN (os sublinhados são meus)

“Esse momento foi extraordinário. Estava ali, imóvel e gelado, mergulhado num êxtase horrível. Mas, no próprio âmago desse êxtase, algo de novo acabava de surgir; eu compreendia a Náusea, possuía-a. A bem dizer, não me formulava minhas descobertas. Mas creio que agora me seria fácil colocá-las em palavras. O essencial é a contingência. O que quero dizer é que, por definição, a existência não é necessidade. Existir é simplesmente estar presente; os entes aparecem, deixam que os encontremos, mas nunca podemos deduzi-los. Creio que há pessoas que compreendem isso. Só que tentaram superar essa contingência inventando um ser necessário e causa de si próprio. Ora, nenhum ser necessário pode explicar a existência: a contingência não é uma ilusão, uma aparência que se pode dissipar; é o absoluto, por conseguinte a gratuidade perfeita. Tudo é gratuito: este jardim, esta cidade e eu mesmo. Quando ocorre que nos apercebamos disso, sentimos o estômago embrulhado, e tudo se põe a flutuar como outra noite no Rendez-vous des Cheminots: é isso a Náusea (...)”

Fernando Pessoa

ALBERTO CAEIRO (GUARDADOR DE REBANHOS 1911-1912)
V
Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol

E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos

De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

“Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do Universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados

      [das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.


E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

COMENTÁRIO:
Eu já sou fã de Caeiro há um bom tempo. A maravilha do estudo e da leitura é poder usar da intertextualidade e buscar fazer relações de ideias e concepções de grandes pensadores.
É interessante também a ideia do poeta fingidor. As palavras aqui citadas de Caeiro e de Roquentin não são expressões de sujeitos de carne e osso.
Mas AS PALAVRAS SÃO REAIS, EXISTEM, E COOPTAM PESSOAS QUE SE IDENTIFICAM COM ELAS. Então existem! Além dos volumes literários de Sartre e Pessoa.
Existem em mim, em meu texto que incorpora as palavras e ideias deles – homens e personagens. Estão em mim.

Bibliografia:
PESSOA, Fernando. Poemas Escolhidos. Da série “Ler é aprender” de O Estado de S. Paulo, Editora Klick, 1997.
SARTRE, Jean-Paul. A Náusea. Círculo do Livro, 1988-89.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A Náusea (1938) - Jean-Paul Sartre


Jean-Paul Sartre
"
Domingo

(...) Torno a caminhar. O vento me traz o grito de uma sirene. Estou inteiramente sozinho, mas caminho como uma tropa que irrompe numa cidade. Neste momento, há navios ressonantes de música sobre o mar; luzes se acendem em todas as cidades da Europa; comunistas e nazistas trocam tiros nas ruas de Berlim; desempregados perambulam pelas ruas de Nova York; num quarto aquecido, diante de suas penteadeiras, mulheres colocam rímel nos cílios. E eu estou aqui, nessa rua deserta, e cada tiro disparado de uma janela de Neukölln, cada soluço sangrento dos feridos que são transportados, cada gesto preciso e diminuto das mulheres que se enfeitam corresponde a cada um de meus passos, a cada batida de meu coração (...)

Segunda-feira

Como pude escrever ontem esta frase absurda e pomposa: 'Estava inteiramente sozinho mas caminhava como uma tropa que irrompe numa cidade'?

Não preciso fazer frases. Escrevo para esclarecer certas circunstâncias. Há que ter cuidado com a literatura. É preciso escrever ao correr da pena; sem escolher as palavras.

No fundo o que me desagrada é ter sido sublime ontem à noite (...)"


COMENTÁRIO:

Gostei deste trecho do diário de Antoine Roquentin - o personagem da obra.

Faz alguns anos que li outra obra de Sartre: A IDADE DA RAZÃO, de 1945, primeiro livro da trilogia de "Os caminhos da liberdade".

O pouco que me lembro da obra é sobre o personagem ficar o tempo inteiro dizendo que tudo que fazia era em nome de sua liberdade. O cara fazia até o que não queria, e dizia que era em nome de sua liberdade. Na época fiquei incomodado com aquilo.

Na minha opinião, os romances de Sartre não são fáceis de se ler. São chatos. Leitura mastigada. Mas vou seguir lendo A NÁUSEA e lendo um pouco a respeito do filósofo e pensador Sartre. Aos poucos, acabo sendo menos ignorante no tema.


Bibliografia:

SARTRE, Jean-Paul. A Náusea. Círculo do Livro. Tradução de Rita Braga. (creio que a edição é dos anos 80).


Post Scriptum (31/1/16):

Pelo menos esta obra de Sartre consegui finalizar.

domingo, 26 de julho de 2009

Jean-Paul Sartre


Sartre, foto da Wikipedia.

Biografia, segundo a Larousse Cultural:


Filósofo, romancista, dramaturgo e político francês (Paris 1905 - 1980).


Na primeira fase de suas reflexões, foi um dos principais expoentes do existencialismo, escrevendo diversas obras filosóficas e literárias, nas quais propõe uma visão do homem como dono de seu próprio destino e cuja vida é definida por seu projeto e por suas próprias ações.


Sua análise dos problemas da existência humana, dentro da rigorosa técnica filosófica, orientada pelo método fenomenológico, encontra-se em O SER E O NADA. Dentre os escritos literários desse período, destacam-se as peças AS MOSCAS (1943), MORTOS SEM SEPULTURA (1946), AS MÃOS SUJAS (1948), O DIABO E O BOM DEUS (1951) e os romances A IDADE DA RAZÃO, SURSIS (1945) e COM A MORTE NA ALMA (1949).


As posições iniciais de Sartre sofreram transformações determinadas, por um lado, pelo caráter "aberto" de sua visão existencialista, por outro, pelo seu progressivo engajamento político. Assim, Sartre foi levado a inserir o existencialismo dentro de uma concepção filosófica mais ampla, que encontrou no marxismo.


A fundamentação teórica dessa nova posição encontra-se na CRÍTICA DA RAZÃO DIALÉTICA, publicada em 1960. Um dos mais fecundos e ativos intelectuais do século XX, Sartre participou da Resistência francesa contra o Nazismo, fundou (1945) e dirigiu a revista Les Temps Modernes, de grande influência entre os intelectuais franceses, e publicou várias outras obras importantes: A IMAGINAÇÃO, A TRANSCENDÊNCIA DO EGO (1936); A NÁUSEA (1938); O MURO, ESBOÇO DE UMA TEORIA DAS EMOÇÕES (1939); O IMAGINÁRIO (1940); ENTRE QUATRO PAREDES (1945); O EXISTENCIALISMO É UM HUMANISMO, A PROSTITUTA RESPEITOSA, REFLEXÕES SOBRE A QUESTÃO JUDAICA (1946); OS SEQUESTRADORES DE ALTONA (1960); AS PALAVRAS (1964) e O IDIOTA DA FAMÍLIA (1971).


Em 1964, foi-lhe atribuído o Prêmio Nobel de Literatura, que ele recusou.



Fonte:
Grande Enciclopédia Larousse Cultural, Nova Cultura Ltda. 1998.