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terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 18 de fevereiro de 2025. Terça-feira.


Defini algumas tarefas como prioridades a serem feitas no momento. Organizar ou sistematizar toda a produção textual que criei em meus blogs nas duas últimas décadas é uma delas. Fazer a revisão final dos textos do livro de memórias é outra das tarefas.

Quero revisar os textos do livro e devolver o material para a editora ainda neste mês de fevereiro. Já revisei 14 capítulos e um livrinho extra incluído no final. Faltam 25 capítulos. Vou cumprir o prazo que estipulei a mim mesmo. 

A impressão de algumas unidades é para tentar salvar a história da qual fiz parte. Não sabemos até que dia minha história estará no mundo virtual, nas nuvens.

Um dos capítulos mais emotivos do livro é o capítulo 13, no qual relembro meus trinta anos de trabalhador da categoria bancária e meu processo de politização por ter dado ouvido ao pessoal do sindicato. O texto pode ser lido aqui.

A revisão e organização dos milhares de textos dos blogs é um trabalho de bastante fôlego. Escrevi bastante nesta vida. E escrevi sobre muitos temas nas últimas duas décadas. Farei uma impressão sistematizada da produção textual. Os cadernos farão parte do meu centro de documentação (cedoc) ou acervo histórico, político e cultural.

Começa a ficar mais claro para mim o que me resta fazer neste momento de minha existência. Entendo que o conteúdo textual que produzi nessas duas décadas deve ser preservado de alguma forma porque eu participei da história do Brasil, assim como muitas outras pessoas participaram. E a história está sendo apagada e recriada de forma cínica, mentirosa e como projeto de revisão narrativa de nosso mundo.

Durante as duas décadas nas quais tive mandatos eletivos e tarefas destacadas a cumprir no movimento de luta da classe trabalhadora, sempre me martirizava querendo fazer mais, estar em mais lugares ao mesmo tempo, me dividir mais para ser alguém da teoria e da prática. Meu corpo sentiu e agora veio a cobrança.

Ao mesmo tempo em que produzia textos, revistas, estudos profundos, queria estar nas atividades de rua, piquetes, manifestações etc. Passei a vida militante assim, sem dormir, para cumprir mais tarefas do que aguentava acumular. Basta ver o quanto fiz base sindical sendo dirigente de instâncias executivas e decisórias. Era o correto a fazer.

Após 2018, as mudanças em minha vida foram exponenciais. Saí da vida bancária sofrendo um processo de lawfare, sem despedidas, sofrendo em silêncio. E eu fiquei perdido como cachorro que cai do caminhão de mudança. Talvez até poderia me imaginar como um cachorro enganado pelo dono, largado pelo caminho de forma proposital, para não ser levado.

Enfim, nos últimos cinco anos, defini que seguiria participando de todas as lutas populares nas ruas, sem protagonismo, como mais um, fazendo volume, sem mandato e sem representar ninguém. Fiz as campanhas eleitorais e militei nos movimentos da região onde vivo até meses atrás, participando da campanha de vereança e prefeitos. Mesmo com algum sofrimento.

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Tenho a impressão que não perdi toda a experiência política que adquiri na vida militante. Ao retomar as ruas nos últimos três anos, o contato com o povo brasileiro, não senti dificuldade. 

Ao voltar a escrever depois de um período de silêncio após o lawfare que montaram para me destruir, também consegui produzir textos com conteúdo relevante.

E, então, percebo neste momento os mesmos sinais que vi como dirigente nacional da classe trabalhadora uma década e pouco antes: estamos à beira de uma tragédia nacional e global, uma volta potente da violência nazifascista que vai nos aniquilar e inviabilizar o ambiente no qual vivemos.

E nós, como estamos?

Como sempre vi, como sempre soube estudando história, cá estamos nós todos divididos, cada esquerdista na sua bolha, no seu buraco, na sua arrogância, no seu pequeno feudo de micropoderes... vamos ser arrasados sem a menor resistência, com a desunião e-t-e-r-n-a da esquerda.

Ao ver as disputas internas e fratricidas nos grupos virtuais nos quais estava, fiquei tão cheio do repeteco daquilo que saí de quase todos os grupos nos quais estava. E nos poucos que ainda estou, é de dar dó o nível de desagregação nas questões mais comezinhas.

Brasil247 brigando com ICL, carta do advogado Kakay dividindo a esquerda que apoia Lula, o tal do Gonet liberou a tal acusação do desgraçado do Bolsonaro após um século... 

Enquanto rola essa merda toda, a organização internacional da extrema-direita vai chegar arrebentando a gente e vamos estar menos preparados do que no golpe contra a Dilma e a prisão de Lula.

Que saco tudo isso.

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Vou tentar organizar uma fração ínfima de nossa história, daquela que participei e que será vaporizada com tudo que pode ser vaporizado a qualquer momento neste mundo instável, em desfazimento.

William

domingo, 2 de fevereiro de 2025

Diário e reflexões


Nuvens (de PE a SP). 

Refeição Cultural

Osasco, 02 de fevereiro de 2025. Domingo.


Fevereiro

O que fazer? O que não fazer?

Enquanto escritor deste blog de cultura, meu planejamento para as próximas semanas prevê um trabalho diário de algumas horas com meus textos dos blogs, tanto deste de cultura quanto do sindical. 

Tenho um trabalho de fôlego para realizar relendo, corrigindo e diagramando milhares de textos produzidos ao longo de duas décadas. Já encontrei muito texto interessante e que envelheceu bem nos blogs.

CEDOC - O trabalho consiste em organizar cadernos dos blogs por ano de produção textual. Os cadernos farão parte do acervo que estou organizando com os materiais que acumulei ao longo da vida de representação sindical e de estudos.

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Também tenho como meta no mês, a revisão e entrega final dos textos do livro "Memórias de um trabalhador politizado pelos bancários da CUT". 

Farei a impressão de algumas unidades para presentear amigos e companheiros que lutaram ao meu lado por décadas no movimento sindical.

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Em termos de leituras para o mês, pretendo terminar o clássico de Umberto Eco, "O nome da rosa".

Pretendo seguir lendo poesias. Com menos frequência do que li em dezembro e janeiro, pois a tarefa com os blogs será pesada.

A novidade é que pretendo escrever mais poesias. 

Poemas são textos literários muito sofisticados e sintéticos. São formas de expressão com o uso conotativo das palavras. Farei experiências com temas cotidianos no meu ritmo poético.

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Enfim, vou diminuir minha participação na política partidária. Faço volume quando me demandam, mas tenho que avaliar a ampulheta do meu tempo e pesar as coisas quando tiver que decidir entre a rua ou meus objetivos de estudos e produção textual.

Como não sinto mais a mesma energia física que tinha, talvez a minha maneira de contribuir para a coletividade e seguir lutando para mudar a realidade horrível na qual nos encontramos seja estudando, criando ideias e opiniões e compartilhando por textos de forma gratuita como faço aqui há anos.

Acredito na educação. Acredito na capacidade humana. Acredito na mudança. Passar adiante de forma honesta e firme o que penso é uma forma de atuar no mundo.

Sigamos na luta por um outro mundo possível.

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Nuvens

A linda foto que ilustra essa postagem - as nuvens - é para lembrar a todas as pessoas para não confiarem suas produções de toda uma vida às tais nuvens das big techs... 

Há uma guerra em andamento no mundo e as plataformas que dominaram a sociedade humana fazem parte dessa guerra de hegemonia global. 

Uma "nuvem" não é o lugar para se guardar a produção de conhecimento humano.

Guardem a produção humana em meios físicos, não em "nuvens". Elas desaparecem ao sabor dos ventos e tempestades.

William


segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Natais - 1981


Meu minuto no paraíso: Parque do Sabiá.

Refeição Cultural

Uberlândia, 16 de dezembro de 2024. Segunda-feira.


Vim visitar meus pais e familiares alguns dias antes do Natal deste ano. Nossa porção paulista não virá a Minas Gerais como fizemos nos dois últimos anos.

Felizmente, pude rever a abraçar pais, irmã e cunhado, sobrinhos e família, tia e primo. Tenho muitos familiares na cidade, mas a correria dos afazeres que tento encaminhar quando venho aos meus pais dificulta fazer outras visitas a tios e primos. Mas sei que estão bem, é o que nos deixa feliz.

Vim pensando muito nas questões da temporalidade da vida e no instante presente, que é único. Estou ainda com a frase que ouvi de uma entrevista antiga de Fernanda Montenegro, ao responder sobre medo da morte e dizer que tem pena de morrer, porque viver é poder ver o céu azul, estar com pessoas que se ama, ter acesso a conhecimento e cultura etc.

É isso, querida Fernanda Montenegro, pode acreditar que ontem, ao passar por uma floreira cheia de borboletas coloridas em festa, sob um céu azul intenso, parei e fiquei lá vários minutos VIVENDO...

Viver é a oportunidade de ver um céu azul e 
flores e borboletas coloridas num instante único.

Outra coisa que me preocupa sobre a efemeridade da vida é a questão da memória, da essência do que nós seres humanos somos, nossas memórias e nossa identidade, guardadas em nossa mente, em nosso cérebro de bilhões de neurônios que nos fazem ser o que somos, a partir do aculturamento que cada um de nós teve ao longo da vida.

Tenho um desafio enorme como cada semelhante nosso: viver o presente e o amanhã, caso ele exista para mim.

Honestamente, avalio que as relações humanas estão ruins, em todos os âmbitos sociais, aqui e acolá, e não podemos desistir de mudar o comportamento humano individualista, intolerante e sem paciência alguma para a alteridade e a diversidade de pensamentos e características pessoais. A mesmice em qualquer espécie é a morte dela.

Tenho tanta coisa nas ideias para falar sobre isso que vou fazer o contrário, não vou rabiscá-las aqui.

Conversando com minha mãe ontem, só poderia dizer que ambos lamentam nossas experiências e pequenas sabedorias não servirem para nada para as pessoas que amamos. A gente vai se cansando de tentar passar alguma coisa de boa que aprendemos por sobreviver neste mundo duro que sobrevivemos. Ninguém quer saber de nossa opinião, nem no ambiente familiar, nem nos grupos onde um dia convivemos socialmente.

Eu tenho consciência sobre as coisas do mundo. Burro não diria que sou. Sei do meu lugar no mundo. E sei que no momento atual desse mundo nenhum de meus conhecimentos e acúmulos tanto pessoais como coletivos serve para nada, sequer para as pessoas mais próximas a mim. Isso é um fato e a vida de todo mundo segue neste minuto e no seguinte, até não seguir mais.

Enfim, tenho a impressão nesta véspera de mais um Natal que há um espírito de pouca solidariedade entre as pessoas, tenho a leitura que algumas daquelas recomendações do cristianismo estão fora de moda: o perdão de forma gratuita, acolher a quem pensa diferente, não querer ao outro o que não se quer para si mesmo e vários ensinamentos que o homem Jesus Cristo pregou em sua passagem por este mundo.

Eu sou ateu há mais de duas décadas, mas por três décadas fui criado e aculturado na ambiência do cristianismo da igreja católica. Às vezes, acho que sou hoje mais dogmático e seguidor das palavras de Jesus do que muita gente que se diz religiosa e só usa o nome de Deus e do Cristo para arrotar ódio, violência, vingança, individualismo, intolerância e manifestações demoníacas do tipo, caso houvesse demônios por aí.

Enfim, estou procurando equilíbrio, algum sentido para a vida minha e de todos nós, e acredito na inteligência humana e na educação e formação política. Não sou determinista. Nós podemos criar e mudar tudo porque é da nossa natureza humana fazer isso.

Sigamos tentando viver, contribuir para o mundo e as pessoas no mundo e lutando por salvar o próprio mundo, a natureza onde todos nós vivemos.

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NATAL DE 1981

Nosso Natal deve ter sido em Uberlândia (MG), para onde nos mudamos desde o início do ano anterior. 

A gente morava numa casa de fundo na Av. Comendador Alexandrino Garcia, no Marta Helena. Na casa da frente, a proprietária era a Dona Nenzinha, benzedeira da região. 

Me lembro que ela me dava uns trocados para copiar rezas em folhas de papel para ela dar aos fiéis. Ela me benzia de "espinhela caída". 

Fiz da 5ª a 8ª série na E. E. Hortêncio Diniz. 

Foi um tempo de mudanças para mim. Me lembro da casa pequena e do quintal com pés de frutas. 

É incrível como meu mundo de criança mudou! Tirando bolinhas de gude, que segui jogando e ganhando latas de bolinhas - que em MG se chamavam bilocas -, eu não empinei mais pipas porque ninguém brincava disso e de outras coisas que fazíamos em São Paulo. 

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Mundo

Tenho uma leve lembrança dos atentados que Ronald Reagan (EUA) e o Papa João Paulo II sofreram em 1981. Eles foram baleados. 

Ainda na política, sei que os desgraçados dos milicos iriam promover um atentado num festival de MPB para culpar a resistência civil e democrática na véspera do dia dos trabalhadores, mas se ferraram, a bomba explodiu no colo de um dos fdp. 

O evento é conhecido como Atentado do Riocentro.

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Os milicos em 2022 - A história no Brasil é um treco bem jabuticaba, só aqui mesmo. Décadas depois de impunidade e anistias a fdp golpistas, não é que meses atrás, uns milicos de merda, junto com um "presidente" de merda (ele é cagão mesmo), organizaram um novo golpe de Estado até com listinha de assassinatos de autoridades da República! Iam explodir o Aeroporto de Brasília, matar Lula, Alckmin e um ministro do STF etc. Esse mundo é um lugar velho... as coisas são antigas e vêm de longe.

William Mendes


Post Scriptum: o texto anterior desta série pode ser lido aqui.


segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Natais - 1980

 


Refeição Cultural 

Uberlândia, 23 de setembro de 2024. Segunda-feira.


As incertezas que tinha em relação ao Natal em família neste ano se confirmaram. Não haverá reunião e Natal em família com nossa presença paulista em Uberlândia. 

Estamos em setembro e a vida segue cada dia mais imprevisível, tanto em relação à vida privada quanto em relação ao mundo "lá fora", no espaço público. 

O termo "lá fora" é um autoengano comum ao acharmos que a vida de uma pessoa se desenvolve normalmente sem sofrer as consequências da vida pública, coletiva, da sociedade humana. 

Tenho registrado impressões e lembranças sobre os natais em nossa família, uma típica família brasileira pobre que atravessou o século vinte tentando sobreviver e se estabelecer socialmente num dos países mais injustos e violentos do mundo, fruto de séculos de invasões europeias, escravidão forçada de africanos e genocídio dos povos originários.

Sou da geração que nasceu nos anos sessenta e setenta, ainda na ditadura, e que foi adolescente nos anos oitenta e noventa. Anos terríveis para o povo trabalhador do ponto de vista do emprego e renda e de muita luta de classe do ponto de vista social e político. 

As incertezas da vida privada são as comuns. A saúde é a principal delas. Nunca sabemos quais de nós estarão vivos amanhã. E as relações humanas, que estão impossíveis, são outras dificuldades na questão das reuniões e confraternizações. 

As incertezas do espaço público, da vida lá fora, estão aumentando. Existe um novo estado fascista invasor de "espaços vitais" como foi no passado a Alemanha nazista de Adolf Hitler: o Estado de Israel, governado por Netanyahu, líder do regime sionista, racista e xenófobo. Os caras querem uma guerra mundial. 

Como se já não fosse injustificável a expulsão e o extermínio dos palestinos na Faixa de Gaza e toda a Palestina, Israel passou a atacar o Sul do Líbano, usando as desculpas de sempre: extermina e expulsa dois milhões de palestinos por causa do Hamas, e agora ataca e mata civis no Líbano por causa do Hezbollah. Só hoje são centenas de mortos, incluindo mulheres e crianças. 

Sem contar a guerra por procuração dos Estados Unidos contra a Rússia, usando o povo ucraniano como bucha de canhão. O decadente império norte-americano quer o fim do mundo se não for para eles serem os donos desse quintal que gira ao redor do sol.

Tempos duros.

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Eu e Leique, antes de partir de SP

NATAL DE 1980

Como terá sido o nosso Natal em família? Eu não sei ao certo quando fomos embora de São Paulo, provavelmente fomos após o término do ano letivo de 1979, um ano de rupturas, e no ano seguinte estaríamos morando em Uberlândia, o primeiro Natal em MG. 

Minha vida mudaria para sempre. Minha infância em Uberlândia foi o inverso do que era em São Paulo. 

Eu sei que em fevereiro daquele ano, no mundo dos adultos, a classe trabalhadora brasileira fundou o Partido dos Trabalhadores (PT), um marco na história política do país, ainda sob a ditadura civil-militar. 

Lula, a maior liderança do partido, seria decisivo nas lutas populares por décadas, sendo presidente do Brasil duas vezes (2003 a 2010) e ainda voltaria à presidência no início de 2023, após o período mais nefasto da história política do país, um período sob um golpe de Estado "com o Supremo, com tudo", golpe operado por uma tal operação Lava Jato.

Voltemos a 1980...

Nesse ano, o Papa João Paulo II veio ao Brasil inaugurar a Basílica de N. Sra. Aparecida (SP). 

Em julho, seria lançado o álbum de rock "Back in Black", do AC/DC. Eu tenho o vinil até hoje. É um dos mais vendidos e tocados da história do rock. 

A morte de John Lennon, assassinado no dia 8 de dezembro, foi algo que nunca me esqueci. Eu tinha onze anos e até hoje me lembro de um jornal na TV anunciando o fato e a matéria terminando com um óculos redondo caindo e se estilhaçando ao chão ("The Dream Is Over")... 

No meu histórico escolar em Uberlândia, no leque de Educação Geral, vejo as matérias que fiz na 5ª série na E. E. Hortêncio Diniz: L. Port. (81,5); Mat. (83); Hist. (62); Geog. (77); Ciências (90); Ed. Art. (MB); e umas matérias exóticas: Ed. M. e Cívica (B); Ensino Religioso (MB) e Técn. Agrícolas (Ótimo), no leque de Form. Especial.

Nós morávamos numa casinha de fundo lá na Dona Nenzinha, benzedeira do Marta Helena. 

É isso. A vida é mudança, como a própria natureza é. 

William 


sexta-feira, 28 de junho de 2024

Natais - 1975



Refeição Cultural 

Estamos no final do primeiro semestre de 2024. Na próxima semana, estaremos no semestre do Natal. 

Neste momento, não sei onde vou passar a data, se em São Paulo ou em Uberlândia. A dificuldade será reunir as pessoas mais próximas de nosso núcleo familiar. A data tem essa simbologia de reunião e confraternização.

A sociedade humana está num momento complexo. Imaginar como o mundo estará daqui a seis meses tem se tornado um exercício mais de adivinhação e desejo do que uma leitura de cenário e conjuntura política e econômica como usávamos fazer em outras épocas da humanidade.

Peguemos como exemplo de distopia da sociedade humana as eleições dos Estados Unidos da América, a nação com mais de quatro mil ogivas nucleares e que se mantém como império devido às suas intervenções violentas nos duzentos países que existem no Planeta. Concorrem neste momento dois sujeitos amorais e senis, mentirosos, e provocadores de misérias a milhões de pessoas como presidentes daquele país.

No Brasil, temos uma figura humana extraordinária, o presidente Lula, que é uma voz solitária no globo terrestre falando em paz, em saciar a fome das pessoas, em distribuir riquezas de forma equânime e preocupado com a destruição do meio ambiente. Lula acredita no diálogo e na política, na democracia, num mundo onde a democracia acabou, um mundo onde não há mais espaço para a solução pacífica das controvérsias, como reza nossa Constituição Federal.

Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come... já ouviram esse ditado popular? É assim que estamos neste momento no qual termina um semestre e começa o semestre do Natal.

A impressão que tenho é que 25 de dezembro será uma data um pouco triste em nossas vidas. Torço para que as coisas melhorem, mas esperanças sem ações concretas para que mudanças ocorram são esperanças vãs. 

Não vejo ações e movimentos em nossas vidas privadas e nas comunidades humanas em estágio falimentar que me permitam alimentar esperanças concretas de dias melhores nos próximos meses do mundo.

No entanto, sigo envidando esforços atomizados para que nossa família esteja reunida no Natal e para que eu possa contribuir de alguma forma para que as pessoas tenham oportunidade de adquirir conhecimento que incentive elas a melhorarem o mundo. Faço isso escrevendo.

Cada texto que faço penso nisso - compartilhar conhecimento de forma gratuita -, inclusive os textos de cunho pessoal como tenho feito no blog. Eu me exponho como um cidadão comum, com suas fragilidades e potências para humanizar a minha relação com leitoras e leitores.

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NATAL DE 1975

Como será que passamos a data em família? Não sei. 

No Brasil, o regime ditatorial havia transformado a vida do povo pobre e trabalhador num inferno. 

Naquele ano, uma das vítimas do regime foi o jornalista Vladimir Herzog, torturado e assassinado nas dependências do DOI-CODI. A imprensa da casa-grande era, em sua maioria, parceira do regime. Simularam o suicídio de Vlado na cela. A cena ficou marcada para sempre, denunciando a podridão da ditadura. 

O ditador da vez era Geisel. 

Politizados ou não, a vida de meus pais e da família toda de tios, tias e avós deveria estar bem difícil por causa da carestia. 

Se eu não me engano, com essa idade a gente já tinha o Leique, o nosso cachorro pequinês. Foi o único cachorro que tive na vida. Ele morreria lá em Uberlândia nos anos 80, quando a gente morava na casa-barracão no terreno de minha avó. 

Me lembro que ele estava bem velhinho, poucos dentes e cego. Ele sofreu nos últimos dias. Tenho uma foto com ele sentado na escada do sobradinho em São Paulo (ver aqui).

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Na foto acima, estou na porta de casa, na Rua Dr. Sérgio Ruiz de Albuquerque. Lá no fim da rua é a padaria Cinco Quinas, que está lá até hoje, na Av. Rio Pequeno. O molequinho deve ter uns cinco anos, pouco mais ou menos.

William 


Post Scriptum: o texto anterior desta série pode ser lido aqui.


quinta-feira, 2 de maio de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 2 de maio de 2024. Quinta-feira.


VAIDADE E HUMILDADE

A vaidade é uma das questões humanas que tem ocupado minhas reflexões. As causas e consequências dessa manifestação comportamental humana merecem nossa atenção. E merecem nosso combate. As consequências do sentimento de vaidade são muitas vezes drásticas e sem volta para toda a coletividade.

Devemos olhar para fora dos indivíduos ou devemos olhar para dentro de cada um de nós? Diria que ambas as possibilidades são necessárias. 

Me lembro do texto da filósofa Marilena Chauí, no livro "Leituras da crise" (2005) quando ela nos explica sobre as paixões humanas e o fato de os humanos serem falíveis por serem seres sujeitos às paixões, e por isso deveríamos criar instituições fortes, impessoais e protegidas das paixões humanas.

Enfim, não vou desenvolver o tema da vaidade nesta postagem. É um registro sobre tema que tem me feito refletir muito no período atual. 

Também por causa da vaidade, tenho pensado em desenvolver ou reencontrar outro comportamento humano que considero importante para as relações sociais: a humildade. Está fazendo falta um pouco de humildade em cada um de nós.

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TRANSFORMO UMA NUVEM EM LIVRO?

Que fazer de maio, que fazer de mim? Finalizo a edição impressa do livro que fiz ou esqueço isso?

Estou buscando sentidos para meu viver desde que minha rotina de vida mudou faz alguns anos. Talvez nunca mais encontre sentidos parecidos com os que tinha antes. Aliás, é até natural que não os encontre, sou outro, os tempos são outros, os contextos idem.

O sentimento de vaidade deve estar dificultando muito minha busca por sentidos novos (de nada adianta pensar na vaidade dos outros e não combater a própria). E o sentimento de humildade poderia me ajudar a encontrar algum sentido para essa etapa da existência, a etapa da metade para o fim. Metade para o fim é uma ideia ótima... posso estar a uma curva do fim... nunca se sabe do amanhã, que sequer existe.

Uma coisa que poderia fazer do meu maio seria terminar algo que acabei sendo influenciado a fazer e que investi um recurso considerável da família, e pela dúvida que tenho, não terminei a tarefa nos últimos meses. Falo da edição do livro de memórias sindicais. Tenho dúvidas incômodas se confecciono algumas unidades e presenteio alguns amigos e conhecidos ou não. No contexto atual, não me vejo lançando livro algum, muito menos vendendo.

Por necessidade de escrever, acabei escrevendo dezenas de capítulos de memórias sindicais durante a pandemia de Covid-19. Quando dei por mim, as memórias estavam escritas e publicadas e, por incrível que pareça, quando fui ver no blog os 39 capítulos tinham somados mais de 85 mil acessos. Ou seja, os textos estão lidos. 

A ideia de editar um livro impresso condiz com minhas próprias teses sobre a fragilidade do arquivamento da produção humana em redes virtuais, nuvens. 

Sou absolutamente contrário ao comportamento humano atual, muito temerário, de conservar a produção cultural humana somente em porcarias de mídias virtuais. Isso é nada, nihil, nonada, toda produção humana armazenada somente em nuvem de uma big tech é nada. Hoje existe, amanhã é nuvem dissipada.

- Decida logo, William, pois já se passou mais uma manhã deste maio!

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POUCA GENTE SE LEMBRA DISSO, MAS SAÚDE É A MELHOR COISA DO MUNDO

Nossa pequena Olga segue na UTI, e felizmente os exames descartaram meningite, cujas consequências podem ser seríssimas. Detectaram Influenza A, que também é sério. Está sendo cuidada e está melhorando. Minha mãe fará exames ainda nesta semana para saber o que está deixando ela tão sem energias para seguir a vida cotidiana. Meu pai está fazendo exames também para descobrirmos o que ele tem. Saúde é a melhor coisa do mundo!

Quando eu saio de casa para andar, trotar, pedalar. fazer algum exercício físico, mesmo sem ânimo adequado, juro que é porque racionalmente sei que é necessário fazer isso para postergar problemas de saúde que poderei ter no futuro e para preservar a saúde porque tenho consciência de meu papel de estar no mundo.

William


Post Scriptum: de alguma forma, essa refeição cultural tem alguma relação com a refeição cultural de um mês meio indigesto, que acabou mas que continua (ler aqui)


domingo, 14 de abril de 2024

Natais - 1973



Refeição Cultural

Estamos no mês de abril de 2024. Noite de sábado para domingo. Estou em Uberlândia. 

Um silêncio entristecedor predomina na casa de meus pais. Digo isso sendo uma pessoa que gosta de silêncio. São os sinais que entristecem a gente. Os acontecimentos apontam para onde as coisas caminham.

Como imaginei no último Natal, as relações entre as pessoas estão cindidas, esgarçadas, estão se diluindo. Os laços que ligaram grupos de humanos por milênios, que criaram aquilo que Benedict Arderson chama de "Comunidades Imaginadas", estão se desfazendo. As relações humanas estão cada dia mais utilitárias, só permanecem enquanto há alguma utilidade naquilo.

Tenho avaliado o comportamento humano nos últimos anos. Entendo que os seres humanos estão inseridos numa espécie de experiência a partir das big techs e suas técnicas de manipulação de massas (corporações globais que dominam os meios de comunicação), manipulação que já era tentada pelos grandes veículos de informação, mas que ganhou uma dimensão extraordinária com os algoritmos das redes sociais.

Estamos nos tornando seres antissociais, impacientes e sem vontade de lidar com qualquer pessoa que pense diferente ou emita uma palavra que a outra pessoa não goste. Relações familiares, de amor, amizade, se desfazem como se desfazem as relações virtuais, com um clique/cancelamento.

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E as guerras? Quem vai pará-las? 

Os contextos são diferentes dos contextos anteriores nos quais a espécie humana conseguiu evitar o lançamento de diversas bombas atômicas ao mesmo tempo, convencendo lideranças de grandes comunidades humanas que aquelas ações exterminariam a própria espécie. Estou falando de poucas décadas atrás. Anos de Guerra Fria.

Neste momento, com esses humanos ao nosso redor, com essas redes sociais que manipulam dezenas e centenas de milhões de humanos, com esses sociopatas por trás de corporações globais que cagam para os países e as pessoas, nós não temos perspectivas muito boas para evitar que as guerras que estão pipocando por aí avancem até o "The End", guerras em geral provocadas diretamente ou por procuração pela potência nuclear e império decadente Estados Unidos, que deixa claro que vai cair atirando contra as novas potências que estão surgindo, como a China, por exemplo.

Olhando desde abril lá para dezembro de 2024, é bem difícil saber se só a minha família terá dificuldades para se reunir no Natal ou milhões e milhões de famílias terão dificuldades diversas de reunião para confraternização...

Tempos sombrios, tempos desafiadores. 

(e pensar que a educação poderia mudar tudo isso, seria só educar as pessoas para um outro mundo possível. No entanto, sob o capitalismo e sob a governança de sociopatas, a salvação do mundo e da humanidade está cada dia mais distante)

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NATAL DE 1973 

Naquele ano, vivi com a família o meu quinto Natal. 

Nasci no Brasil, um dos países mais católicos do mundo à época. Fui batizado e recebi as bençãos divinas. 

Não me lembro das comemorações da data natalina, mas sei que com uns quatro anos de idade, eu já estava sendo aculturado como uma pessoa que vivia no ambiente das crenças religiosas do país, um misticismo resultante de todo o sincretismo religioso originário da mistura do catolicismo dos invasores europeus, com as visões de mundo dos povos indígenas e as religiões de matriz africana, vindas com os povos sequestrados e escravizados nesta terra, colônia de exploração. 

Ainda recebemos no último século e meio, povos vindos da Ásia e Oriente e suas crenças se somaram às que já existiam aqui. 

CONTEXTO NO MUNDO

Naquele ano, o World Trade Center foi inaugurado na cidade de Nova York, em 4 de abril. As torres gêmeas viraram o símbolo do poderio capitalista dos EUA. 

Dois 11/9 a registrar: 

11/9/73: no Chile, um golpe de Estado depõe Salvador Allende, que morre no Palácio La Moneda. Pinochet começa a ditadura sanguinária. 

11/9/01: muitos anos depois, a data é marcada no mundo pela queda das torres gêmeas inauguradas em 1973. Aviões se chocam contra elas, em Nova York, e o mundo seria diferente depois disso. 

EM NOME DE DEUS

Tudo que aconteceu foi em nome de Deus: nosso Natal, a invasão do Brasil no passado e a ditadura daquele momento, a vinda dos escravizados africanos, o capitalismo americano e a ditadura de Pinochet. 

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Na foto da postagem, sou o único menino entre as meninas. A foto foi tirada no casamento de meus tios em São Paulo, em maio de 1973. As duas meninas do meu lado direito são a Ione, minha companheira, e a Telma, minha irmã.

William


Post Scriptum: a postagem anterior desta série pode ser lida aqui.

domingo, 31 de março de 2024

Natais - 1972


Dilma Rousseff: mulher guerreira, lutou
para que os natais do povo fossem melhores.

Refeição Cultural

"Em 1970, Dilma foi presa e submetida a torturas em São Paulo (Oban e DOPS), no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. As torturas aplicadas foram o pau de arara, a palmatória, choques e socos, que causaram problemas em sua arcada dentária. No total, foi condenada a seis anos e um mês de prisão, além de ter os direitos políticos cassados por dez anos. No entanto, conseguiu redução da pena junto ao Superior Tribunal Militar (STM) e saiu da prisão no final de 1972." (Site Memórias da Ditatura


31 DE MARÇO DE 2024

Nesta série de textos sobre os natais que fizeram parte de minha vida, e os contextos que fizeram parte daqueles natais, me deu vontade de citar a grande mulher brasileira Dilma Rousseff, tanto por ela ter sido uma mulher que enfrentou a violência do regime de exceção e do mundo machista naqueles primeiros anos de recrudescimento da ditadura brasileira, quanto por hoje ser um dia de rememorar essas lutas que fazem parte de nossa história brasileira. 

Não podemos jamais apagar a trágica história do golpe de Estado em 1964. Pelo contrário, temos que relembrar, cobrar punição aos golpistas e agentes do Estado que violentaram o povo e nossa democracia.

Nesses 60 anos do golpe, temos que dizer de maneira firme: - Ditadura nunca mais! Sem anistia para os golpistas do passado e do presente!

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Meus pais no início dos anos setenta.

NATAL DE 1972

Naquele Natal eu tinha uns três anos e nove meses e minha irmã um pouco mais. Não sei como foi o Natal da família. Não me lembro porque era muito novo. 

O que sei é que a gente morava no bairro Rio Pequeno, Butantã, região Oeste da Grande São Paulo.  

Uma coisa que era muito comum no verão, de dezembro a março, era chuva, muita chuva, e enchentes, muitas enchentes. Nossa rua tinha enchente constantemente por causa do córrego do Rio Pequeno, hoje canalizado em parte e conhecido como Avenida Politécnica, que vai até a Raposo Tavares. 

Talvez o Natal da gente tenha sido sob enchente, vai saber.

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TEMPOS DE VIOLÊNCIAS E GUERRAS

Os tempos eram tempos de violência. Imagino meus pais, pessoas simples, ao verem os noticiários naquele ano. 

No Brasil, a ditadura havia decidido eliminar qualquer grupo de pessoas que lutasse pela volta da democracia. A ordem naquele momento era executar os opositores ao regime. Vi dias atrás uma entrevista emocionante do José Genoino a Hildegard Angel falando sobre essa época.

OLIMPÍADAS DE MUNIQUE - Naqueles meses finais de 1972 o mundo havia acompanhado o atentado terrorista nas Olimpíadas de Munique, no dia 5 de setembro. Palestinos do grupo Setembro Negro invadiram os aposentos da delegação israelense e o desfecho foi a morte de diversos atletas e treinadores. 

REGIME SIONISTA DE ISRAEL E A CAUSA PALESTINA - A questão árabe-palestina havia recrudescido desde 1967, quando o governo sionista de Israel atacou de surpresa Egito, Síria e Jordânia entre os dias 5 e 10 de junho (Guerra dos seis dias), conquistando de forma ilegal a Faixa de Gaza, a Península do Sinai, Jerusalém Oriental, a Cisjordânia e as Colinas de Golã, matando milhares de árabes-palestinos e destruindo as forças militares daqueles países.

MÍDIA MANIPULADORA HÁ DÉCADAS - Se considerarmos a mídia canalha que temos hoje (2024), a mesma daquela época (os mesmos grupos), imaginem como as notícias chegavam para os meus pais e o povo brasileiro... neste momento de genocídio do povo palestino, com a Faixa de Gaza destruída e mais de 40 mil crianças, mulheres e civis palestinos mortos, não sai na imprensa empresarial uma linha contra Israel. 

Resumindo, faz mais de 50 anos que meus pais veem a mesma manipulação informativa por parte da imprensa canalha brasileira.

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ACIDENTE NOS ANDES - Outro evento que ficou conhecido no mundo em 1972 foi a queda na Cordilheira dos Andes do avião que levava jogadores de rugby do Chile. Semanas depois, alguns sobreviventes foram encontrados. Para sobreviver, tiveram que comer carne humana. 

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UNIR A FAMÍLIA - Neste 31 de março de 2024, vivo um momento de incerteza quanto ao Natal deste ano. Sinto que será difícil reunir nosso núcleo familiar mais próximo como fizemos nos últimos anos. Farei o que estiver ao meu alcance para que estejamos todos juntos nesta data de confraternização.

William


Post Scriptum: o texto anterior desta série, o ano de 1971, pode ser lido aqui. Para ler o texto seguinte, clicar aqui.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Lembranças - Capítulo 14



Refeição Cultural

Osasco, 12 de fevereiro de 2024. Segunda-feira de Carnaval.


CAMINHOS, MUDANÇAS, NOVAS VEREDAS

Nas últimas semanas, estive mergulhado em afazeres domésticos postergados por anos. Penso que devo ter algum tipo de trauma em relação a mudanças, mudanças de moradias quero dizer.

Tempos atrás, ao refletir sobre a questão do cansaço que uma mudança de local de residência pode trazer para a pessoa que passa por isso, fiz uma conta rápida da quantidade de vezes que precisei mudar em minha vida de adulto jovem. Foram muitas mudanças: morei em onze locais num período de doze anos, entre 1987 e 1999. Morei com os pais, com avó e primos, com estranhos, sozinho em locais horríveis, depois melhores, morei de favores na casa dos outros etc.

Sem contar a mudança traumática que avalio ter sido a que vivenciei aos dez anos de idade, no início de 1980, quando saí de meu mundo no Rio Pequeno, na Zona Oeste de São Paulo, para Uberlândia, no Marta Helena, em Minas Gerais. E lá, moramos em três locais num prazo curto de uns quatro ou cinco anos. Era quase como se fora um retirante, se não da seca, dos valores dos aluguéis. É da fase mineira que me lembro de ver o ladrão de meu tênis azul com ele nos pés sem eu poder fazer nada, ou das baratas que apareceram na minha vida...

As amigas e amigos leitores que não conhecem ou não se lembram dos transtornos de uma mudança, tentem imaginar o processo: a movimentação dos poucos ou muitos móveis que vocês tenham: geladeira, fogão, sofá, cama e guarda-roupa... caixas e sacolas com seus pertences, que vão ficar tudo misturado e você nunca mais vai achar a coisa que procurar... Uma vez, quando só tinha geladeira e fogão, deixamos cair a geladeira na escadinha do terreno e ela estragou toda... até hoje me lembro. Amig@s, detesto mudança! Que merda precisar mudar!

Quando eu peguei a chave do apartamento de cooperativa habitacional em Osasco, em julho de 1999, senti o que toda gente de minha classe social sentiria ao realizar o sonho da casa própria, o desejo de ter o cantinho para se viver a vida como deveria ser para todas as pessoas do mundo. Me lembro que as chaves do apartamento foram entregues aos proprietários num sábado e na segunda-feira eu e meu pai já estávamos colocando um piso no imóvel, nós mesmos, e eu me mudei na mesma semana. Só então, parei de mudar todo ano pra lá e pra cá. Foi uma etapa vencida na vida.

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AS VEREDAS, OS CAMINHOS, NOVAS MUDANÇAS

Durante um tempo do viver, passei a ser alguém com o endereço fixo, o de residência. A vida seguiu mudando, já que a única certeza é a mudança, já que somos natureza.

Nem só de mudanças de endereços foi o percurso de minha vida. As mudanças de caminho, as veredas que foram surgindo na caminhada, seguiram dando o tom para a minha existência.

Quando fixei endereço em Osasco, na residência recém adquirida, tratei de pedir para as chefias no banco me liberarem para trabalhar numa agência próxima de casa (trabalhava na Lapa e depois fui para a Barra Funda. Queria trabalhar em Osasco): o sonho de muita gente, ir à pé de casa para o trabalho. Consegui isso. Durou pouco essa moleza na minha vida.

A vida tratou de abrir veredas novas, e trilhei caminhos diversos.

Da frustração de precisar deixar a faculdade de Educação Física em Mogi das Cruzes por falta de dinheiro para a mensalidade em 1998, veio o sonho de ser aprovado na Fuvest em 2000 e iniciar o curso de Letras na USP em 2001. O sonho de consumo: morar perto do trabalho e ir para a universidade na mesma região.

Mais mudanças vieram. O convite para ser dirigente do Sindicato e passar a representar os colegas de trabalho me parecia um dever irrecusável. A decisão foi essa. Fim da curta "moleza" de morar, trabalhar e estudar na mesma região. Os deveres políticos passariam a ser a prioridade absoluta em minha vida por quase duas décadas.

Esses caminhos iriam me levar à Capital do país, Brasília, em 2014. Por lá fiquei quatro anos.

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MUDANÇAS MEIO QUE FORÇADAS TÊM SUAS CONSEQUÊNCIAS

Foi de forma inesperada que meu grupo político me solicitou autorização para apresentar meu nome para liderar uma chapa em eleição nacional em nossa Caixa de Assistência à saúde, autogestão dos trabalhadores do Banco do Brasil.

Para ser sincero, confesso que ao longo da vida de representação sindical, sempre tive a ética política de respeitar as decisões coletivas e não rejeitar as tarefas que me eram solicitadas. Era sabido que o que mais gostava de fazer era organização de base, função essencial e na base da hierarquia sindical.

Eram em conversas consensuais com duas ou três pessoas em algum café ou almoço que me perguntavam se eu aceitaria nova função a desempenhar no movimento porque o grupo achava que meu nome seria importante. Fui aceitando, sempre (foi assim de 1999 a 2018). Nunca pleiteei cargo algum, não era o meu perfil fazer isso. Nunca me convidei a nada. Sempre fui convidado.

Assim fui rodando em diversas bases regionais do Sindicato, depois para a Executiva, depois para a Comissão de Empresa, depois para as secretarias de imprensa e formação da Confederação e acabei sendo eleito diretor de saúde e precisei me mudar para Brasília.

Como não somos sozinhos no mundo, as minhas mudanças em função da militância política equivaleram a mudanças na vida da família. Pelas minhas veredas foram entrando esposa e filho, mesmo sem eles desejarem aqueles caminhos.

A professora acabou saindo um pouco antes da escola onde lecionava há décadas. O filho saiu de seu mundo num momento que talvez ele preferisse ficar lá. De novo, as mudanças necessárias impactavam a vida da gente.

Meu compromisso com os trabalhadores e entidades sindicais foi cumprido com toda a capacidade que tinha, isso eu posso garantir com a honestidade que aprendi na vida. A família me deu um suporte incrível, às custas da própria vontade, algo nobre e que me faz ser grato até o fim de meus dias.

Voltamos de Brasília em 2018.

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CAMINHOS, MUDANÇAS, NOVAS VEREDAS

Como disse na abertura dessas reflexões, passamos semanas mergulhados em afazeres postergados por anos. Muito provavelmente porque coisas ligadas a mudanças devem ter seus componentes de traumas vividos para cada um de nós em casa.

A professora porque saiu repentinamente de seu mundo, antes do previsto, saiu juntando produções e memórias de uma vida, encaixotando a história sem o tempo adequado para lidar com a ruptura e a partida.

A mãe porque durante as mudanças de trabalho e residência, precisou encaixotar pertences de nossa história sem a tranquilidade de separar lembranças da infância do seu bem mais precioso: o filho querido.

O filho porque mudou quando menos queria e depois mudou de novo, e de novo, e as boas lembranças da infância e da recente adolescência foram encaixotadas atabalhoadamente, e foram ficando aqui, ali e acolá.

O sindicalista estudante porque repentinamente precisou mudar deixando suas preciosidades na forma de papéis papéis papéis, apostilas, cadernos, revistas, livros e mídias, porque o danado tinha sonho de estudar e rever aquilo, sacos e caixas de hipotéticos saberes pra lá e pra cá.

Mudanças intensas, não programadas, não idealizadas. A saída de Osasco. A saída da Capital. A saída da empresa para a qual dedicou a vida. A saída do movimento de forma não ideal. A saída da professora mãe e do filho estudante de seus mundos. Mudanças, caminhos trilhados em veredas abertas pela vida.

Nesta semana cumprimos uma etapa de desfazimento de coisas postergadas por anos. Não acabamos ainda. Demos um passo. Agora é recuperar o cansaço e seguir a vida.

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NOVAS VEREDAS DEVEM SURGIR, A VIDA É ASSIM

Ao caminhar nesta manhã, me sentar no banco da praça onde gosto de ficar perto de casa, fiquei refletindo sobre a vida, os caminhos, as mudanças, as veredas abertas e as possíveis veredas a escolher ainda (elas sempre se abriram antes que eu as escolhesse), e percebi que não há escolhas fáceis, evidente, pois a vida é complexa.

A cada dia, a cada reflexão, após cada leitura, mais me parece que compreendo como as coisas funcionam. E nem por isso estou livre de cometer os mesmos erros ou erros novos. Somos humanos, somos natureza, somos falíveis.

Paulo Freire diz na Pedagogia da autonomia que somos seres incompletos, por isso temos que estudar sempre e buscar novos conhecimentos, devemos seguir aguçando nossa leitura de mundo, e nunca devemos ter postura determinista, acreditar nas ideologias que falam em futuros determinados. Eu posso mudar a realidade. Nós podemos.

Vou refletir muito sobre algumas coisas nos próximos tempos. Sobre a vaidade, e o sofrimento que esse sentimento nos traz, e sobre o amor-próprio também. Se estou percebendo que querem apagar o passado, e avalio que de fato o passado não é de meu domínio, por que sofrer com isso? O mundo humano está assim.

Deveria conseguir viver o presente de forma mais leve, porque o tempo restante está a cada instante mais breve. Difícil conseguir isso. Mas refletir a respeito é importante.

Sigamos a vida, já que a vida é uma oportunidade a cada manhã que acordamos.

William


Post Scriptum: o capítulo anterior desta série de textos pode ser lido aqui.


quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Natais - 1970



Refeição Cultural

Passamos o Natal de 2023 em Uberlândia, Minas Gerais. Conseguimos repetir a reunião familiar do ano anterior, o Natal de 2022, o primeiro após o auge da pandemia mundial. 

Quase repetimos a reunião da ceia natalina anterior, "quase" porque meu cunhado passou com a família dele neste 2023 e nem sequer nos vimos. Mas tivemos também neste Natal familiares do marido de minha sobrinha. 

Os Natais em família vêm mudando ano a ano. Eu tenho consciência de que tudo muda, pois somos natureza e somos seres históricos. A história humana segue seu curso, seguimos fazendo história, percebamos ou não isso. A mudança é uma das certezas que temos no mundo natural. 

A cada reunião familiar, fica em alguns de nós uma sensação estranha de que talvez aquela confraternização tenha sido a última. Não sei se muitas pessoas têm sentido a mesma coisa, mas comigo tem sido assim. 

Apesar da consciência a respeito das mudanças constantes de tudo na vida e nos ambientes do mundo onde vivemos, algumas mudanças são resultado de transformações pelas quais os seres humanos estão passando e não são mudanças boas, na minha avaliação. Vejo com preocupação para onde vamos enquanto espécie humana.

Tenho elaborado reflexões aqui no blog sobre o risco que a sociedade humana enfrenta neste momento da história. 

Me pergunto se os seres humanos serão ainda passíveis de serem educados, e me pergunto também se seremos no próximo período seres sociáveis. Pode ser que nosso nível de alteração desde a tenra idade nos faça seres frios, insensíveis, autômatos como máquinas e sem as características essenciais dos seres humanos.

Enfim, eu me esforcei para contribuir para que tudo corresse bem neste Natal em família... nunca se sabe se teremos outro. Fiz o que esteve ao meu alcance para reunir as pessoas que amamos, para pôr juntas pessoas que não se dão mais como antigamente e coisas do tipo.

Entendo que o momento pelo qual passa a humanidade nos cobra um esforço consciente para reunir pessoas, uma boa vontade de cada um de nós para tentar restabelecer a comunhão entre as pessoas, a solidariedade, o perdão, a tolerância à alteridade, precisamos resgatar os laços humanos de amor e amizade.

Neste Natal, viajei de coração aberto, busquei energias positivas para o ato desafiador de viver num mundo em desfazimento, num mundo cuja agenda permanente pautada em nossas vidas humanas pelas mídias sociais é a aparência, os extremismos, os ódios e medos, os cancelamentos de pessoas, a guerra.

Em Uberlândia, busquei renascer em mim mesmo nos momentos nos quais estive sozinho no Parque do Sabiá, aquele paraíso. E também busquei a compreensão das coisas nas relações com as pessoas. 

Precisamos encontrar maneiras de unir pessoas em prol de agendas que foquem o bem comum, a paz interior e a paz nas relações sociais. Essa não é a agenda dos donos momentâneos do poder econômico... Mas deve ser a nossa, pessoas de boa vontade. 

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NATAL DE 1970

Como terá sido o nosso Natal de 1970? Onde será que estávamos, o nosso núcleo familiar? Meu pai, minha mãe, minha irmã e eu?

Nas conversas com minha mãe, tentei especular essas coisas do passado, mas as memórias já vão ficando distantes e de difícil organização. Vendo fotos antigas, vi que os lugares eram diferentes do nosso lar.

Minha mãe me disse que quando era possível, a família viajava para a casa de alguns familiares. Goiás ou Minas Gerais eram destinos possíveis em um final de ano. Nós vivíamos em São Paulo à época.

Hoje, com a formação política e a experiência de vida que tenho, e sendo alguém que gosta de estudar a nossa história enquanto classe trabalhadora e povo brasileiro, consigo imaginar bem melhor a vida de meus pais e familiares nos anos sessenta, setenta e oitenta.

Para ilustrar o clima e o cenário nos quais meus pais viviam as nossas histórias, como estou fazendo nesta série, destaco alguns eventos que fizeram parte do contexto brasileiro e mundial naquele ano de 1970, que chegava ao fim no Natal e naqueles dias de Ano Novo.

No Brasil, a ditadura civil-militar estava num período muito violento para os dissidentes e adversários do regime de extrema-direita, bancado pela elite do país e pelos Estados Unidos da América.

COPA DO MUNDO DE FUTEBOL

O Brasil se tornou tricampeão de futebol no México, em junho. Pelé brilhou e a seleção da Copa de 1970 talvez tenha sido uma das melhores de todos os tempos (assim como a de 1982, imagino eu). Vencemos a Itália por 4x1 no Estádio Azteca, na Cidade do México. 

O regime ditatorial usou de todas as formas a conquista da seleção canarinho para fazer política favorável ao governo. Perguntei aos meus pais sobre a Copa do Mundo de 1970 e eles se lembraram daquela onda positiva no dia a dia do país.

MORREM JIMI HENDRIX E JANIS JOPLIN

Na postagem sobre o ano de 1969, falei sobre o evento cultural que marcou o mundo em agosto daquele ano, o Festival de Woodstock. O ano em que nasci... Hendrix e Joplin estavam no auge de suas carreiras no mundo do Rock and Roll.

Pois é! Eles morreram antes do Natal de 1970. Hendrix em setembro e Joplin em outubro, ambos com 27 anos de idade. Foram perdas terríveis para o rock mundial. Eu não sei se isso afetou meus pais proletários no Brasil. Talvez não.

Os Beatles também já não existiam mais naquele Natal, uma das maiores bandas de rock de todos os tempos formalizou o fim do grupo naquele ano de 1970, após rompimentos internos desde 1969.

O SOCIALISTA SALVADOR ALLENDE É ELEITO NO CHILE

Só para finalizar a contextualização da véspera do Natal de nossa família e do Brasil e do mundo em 1970, nosso vizinho sul-americano, o Chile, terminava aquele ano com um presidente marxista eleito pelo povo numa eleição disputadíssima em setembro. Salvador Allende obteve 36,2% dos votos, à frente do candidato da direita com 34,9% e do terceiro colocado da democracia cristã com 27,8%. O congresso referendou o resultado e a América do Sul tinha naquele momento um presidente eleito defendendo o socialismo.

Provavelmente meus pais, como milhões de brasileiras e brasileiros, estavam focados em sobreviver diariamente na labuta de seus dias.

É isso! Aquele garotinho da foto que abre a postagem sou eu, ainda experimentando os momentos iniciais da vida naquele final da década de sessenta.

William


Post Scriptum: o capítulo anterior dessa série pode ser lido aqui. E o capítulo seguinte pode ser lido aqui.

Post Scriptum II: as informações sobre o ano de 1970 que incluí no texto foram pesquisadas na enciclopédia livre, Wikipedia.


sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Natais - 1969


Que bom ver meus pais sorrindo!


Refeição Cultural

Estamos em Uberlândia para passar o Natal com meus pais e familiares. Meu momento é de procura pela compreensão, de observação das coisas, devo me esforçar para sentir o instante com a intensidade que significa a fragilidade da vida. O que vejo ao meu redor é a fragilidade. Tudo é frágil e passível de se desfazer num piscar de olhos. Não é assim a própria vida?

As relações são frágeis. A casa é frágil. A natureza é frágil, apesar de sua força e potência. Todo mundo precisa de todo mundo e ainda assim somos feitos para nos sentirmos altamente livres de quaisquer relações com outras pessoas, outros seres, outras realidades. Pura mentira! Autoengano. O real e o imaginário se interligam e seguimos diariamente assim, com a falsa ideia de independência em um mundo cada dia mais interligado e dependente em tudo. Tudo! 

A natureza é nossa casa. A casa da gente é como a natureza. A casa ou a natureza tanto acolhe quanto oprime. Acolhimento e opressão são consequências de fatores interligados sem a nossa capacidade de intervenção - o acaso -, como também somos responsáveis por fazer da natureza e da nossa casa ambientes acolhedores e livres de opressão.

Neste momento do mundo, Natal de 2023, tenho algumas hipóteses sobre o comportamento humano em constante mudança. Me questiono sobre um possível amanhã refletindo a respeito de qual ser humano haverá no mundo. 

Seremos ainda animais passíveis de serem educados no sentido de sermos "homens e mulheres cultivados" (Mircea Eliade) com conhecimentos gerais? Seremos seres sociáveis num futuro próximo? No sentido de sermos seres coletivos e solidários com outras pessoas e espécies e preocupados com qualquer coisa externa a nós mesmos? E, por fim, seremos ainda seres que escrevem, que registram em signos linguísticos a nossa história do mundo e de nós mesmos? Ou seremos sociedades ágrafas, apostando a preservação de toda a nossa cultura e conhecimento em áudios e vídeos e nuvens de empresas capitalistas, as big techs?

Essas hipóteses são baseadas em observações e estudos que venho realizando nos últimos anos. Basta olhar ao meu redor, na cotidianidade de Osasco, de São Paulo ou de Uberlândia, do Brasil, do mundo que chega até mim, para ler a tendência do comportamento humano e do mundo dominado por esse animal.

A fragilidade das coisas me impressiona. Ao observar e compreender um pouquinho melhor o cotidiano das pessoas e da vida na sociedade atual, eu consigo substituir o ódio e a raiva que senti boa parte de minha vida por um sentimento de compaixão, amor e uma certa dor por sentir o quanto as pessoas estão sufocadas nos problemas cotidianos do viver, boa parte deles insolúveis por falta de um novo olhar para as coisas que importam na vida: a própria vida em coletividade, já que não somos nada sozinhos. 

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NATAL DE 1969

O Natal de 1969 foi o meu primeiro Natal na sociedade humana.  

Eu não tenho a menor ideia de como foi. Eu tinha mais ou menos uns 9 meses de idade. 

O que sei é que nasci pouco antes do famoso festival de Woodstock, ocorrido em agosto numa fazenda de gado em Bethel (NY), nos Estados Unidos. 

Não sei se meus pais curtiam aquele tipo de som com solos de guitarra de Jimi Hendrix e aquela voz incrível de Janis Joplin. Eu iria gostar de Rock e daqueles roqueiros e roqueiras quando crescesse...

Pelas fotos dos meus pais daquela época, sei ao menos que meu pai usava um cabelo com topete e talvez brilhantina e minha mãe usava aqueles cabelos mais ou menos curtos, penteados com escova e às vezes com laquê. 

O homem (espécie animal homo sapiens) havia pousado na Lua no mês de junho, imaginem só! Neil Armstrong saiu da Apollo 11, deu uns passos na Lua e acabou vendo que a Terra não é plana, é redonda (hoje tem gente ignorante suficientemente para duvidar até disso!). E aquela façanha espacial do ser humano foi transmitida pela TV ao vivo. 

Como será que meus pais receberam essa notícia? Difícil imaginar! 

Quero acreditar que em alguns momentos daquele ano de 1969, anos de chumbo aqui no Brasil, meus pais tiveram também momentos de alegria e descontração, como na foto que ilustra esta postagem.

O que sei é que tudo anda muito frágil no mundo de 2023, até na casa de meus pais, tudo anda como um castelo de cartas que pode se desmanchar a qualquer segundo com um esbarrão involuntário... 

O tempo vivido com as pessoas queridas e de nossas relações se torna cada dia mais importante e único. Carpe Diem! Aproveitem o seu dia!

Pensem nisso nesses dias de Natal. Eu estou pensando.

William

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Post Scriptum: o primeiro texto desta série de postagens, pode ser lido aqui. O capítulo seguinte pode ser lido aqui.

sábado, 16 de dezembro de 2023

Lembranças - Capítulo 13



Refeição Cultural

Osasco, 16 de dezembro de 2023. Sábado de calorzão.


CONHECI DE PERTO O ÓDIO E A FÉ

"Mas, na ocasião, me lembrei dum conselho que Zé Bebelo, na Nhanva, um dia me tinha dado. Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é. Zé Bebelo falava sempre com a máquina de acerto - inteligência só. Entendi. Cumpri. Digo: reniti, fazendo finca-pé, em força para não esparramar raivas..." (Grande Sertão: Veredas,
Guimarães Rosa)


Amig@s leitores, sempre que tiverem oportunidade tratem com respeito e carinho os trabalhadores e trabalhadoras que prestam qualquer tipo de serviço a vocês, existem trabalhos duríssimos que alguém faz para nós. Por trás de um trabalho duro realizado para nós, existe um ser humano.


OS ÓDIOS DO MUNDO

Me lembro de pegar o balde, panos, sabão, e mais alguns itens de limpeza e sair a pé de manhã do bairro Marta Helena para atravessar a BR e ir para o bairro Umuarama, onde moravam os ricaços naquelas casas enormes com gramado na frente e carrões nas garagens.

Eu batia palmas ou apertava o botão da campainha e esperava para ver se alguém atendia. 

Era o início dos anos oitenta, nós estávamos em Uberlândia havia pouco tempo, vindos de São Paulo.

Às vezes, dava sorte e a pessoa que atendia era educada e me respondia com respeito quando eu me oferecia para lavar o carro. Não era o jeito mais comum. Mas de vez em quando aparecia alguém e perguntava se eu dava conta de lavar e se lavava direito, e quanto eu cobrava para lavar o carro.

A parte que a gente guarda no fundo do coração ou da alma ou da memória são as agressões e humilhações gratuitas... essas são foda! Como esquecer aquilo? Alguns fdp humilhavam a gente só por tocar a campainha e perguntar se não gostariam que lavasse o carro.

Eu me virava para fazer um serviço bem feito. Eu mal alcançava o teto dos carros. Inventava jeitos de limpar em cima da funilaria. 

Esse foi um dos primeiros trabalhos que me lembro de fazer na infância.

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Me lembro que eu rezava e pedia a Deus e ao filho de Deus e a toda a hierarquia dos céus da religião católica para que o telefone da drogaria não tocasse e, se tocasse, eu rezava para que a entrega não fosse longe ou em alguns lugares foda de entregar o remédio.

Trabalhar naquela drogaria da Rodoviária de Uberlândia foi uma experiência diferente de alguns serviços braçais que já havia feito e foi uma experiência dura também na minha infância. Ainda me lembro da sensação de cansaço e extenuação física após longas entregas.

Minha bicicleta era uma daquelas dos anos oitenta, pesada pra burro se compararmos com as bikes modernas de hoje. 

De memória, me lembro dos nomes de bairros que disparavam as batidas do coração por saber que a entrega seria um sofrimento só: Luizote de Freitas, Custódio Pereira, Segismundo Pereira, Santa Luzia, Cruzeiro do Sul... longe e muita subida para ir até lá.

Confesso que chorava quando o trabalho que fazia era um martírio. Chorava mesmo! Me lembro que chorava de raiva. Era pequeno, mas tinha um sentimento de que aquilo não era justo. Aqueles anos foram me dando um ódio do mundo, de gente endinheirada, um ódio esquisito.

Se fuçar no fundo da memória, consigo me ver ou me imaginar chorando e pedalando aquela bicicleta na chuva indo fazer uma entrega do outro lado da cidade... cresci odiando o "trabalho".

Imaginem vocês como eram os anos oitenta. Os atendentes da drogaria me ensinaram a dar injeção. Eu tinha de quatorze para quinze anos. Aprendi a dar injeção no músculo, intramuscular, e nas veias, intravenosa. 

A frase para ensinar a aplicar injeção na bunda era a seguinte: divide a banda da bunda em quatro partes e aplica no quadrante superior externo. Não tem erro... Puxa um pouquinho o êmbolo antes para ver se não pegou veia e pode aplicar o líquido.

Não era comum aplicar injeção muscular no braço, doía mais, diziam. Também, é só pensar que a gente aplicava aquelas injeções fortíssimas de penicilina e benzetacil. Numa ampola era o pó, na outra o líquido. A gente misturava e aplicava na vítima. Amig@s leitores, eu não era uma "criança" porque a gente tinha que ser adulto cedo...

Apliquei muita injeção depois de andar quilômetros de bicicleta pelas ruas de Uberlândia. O moleque chegava suado, bufando, lavava a mão na casa da vítima e aplicava o remédio em crianças, adultos, idosos, bunda ou braço. E eu era bom para achar veia quando a injeção era intravenosa.

Por ser bom no que fazia, os clientes da drogaria pediam para eu ir... e a raiva que me dava quando era longe pra caralho?

Esse foi um dos trabalhos que me fizeram dormir como uma pedra ao me deitar na cama.

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Me lembro que dos trabalhos pesados e imundos que fiz na minha vida, um dos que me mudaram para sempre foi o de ajudante de encanador. É difícil definir porque embruteci tanto com aquele trabalho. Já fiz um texto sobre a dureza que foi meu primeiro dia de trabalho como ajudante de encanador (ler aqui)

Dias atrás, conversando em casa, o que me veio à memória foi o ódio que senti de uma mulher entojada dona do imóvel onde eu estava trabalhando quando ela soube que algum peão havia usado um vaso sanitário já instalado - a casa ainda estava em obras - e aquela desgraçada mandou o seu Joaquim, meu chefe, retirar o vaso e trocar por outro só porque ele foi usado por um trabalhador da obra... 

Me lembro que na confusão ela ainda decidiu mudar o vaso de lugar e eu tive que quebrar concreto para realocar a porra do vaso daquela sujeita. Na época, os instrumentos de trabalho eram ponteiro, talhadeira e marreta. Não tinha cortador de concreto como hoje.

Esse trabalho é inesquecível para mim, juro para vocês! E o seu Joaquim era um velhinho muito gente boa. Nunca tive problema com ele. Fico tentando me lembrar se o que me marcou foi o quanto era difícil quebrar concreto ou se era mexer em esgotos das casas das pessoas. Minha mão frágil se tornou uma mão incrivelmente grossa e forte.

Me lembro uma vez, décadas depois, de uma bancária da oposição sindical à minha corrente política me tirando (sacaneando) num bar ao dizer que minha mão parecia mão de moça... tive que lembrar a ela que eu era bancário, não era ajudante de encanador... as pessoas não sabem nada da vida dos outros!

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A última lembrança de um trabalho que me marcou e que me levou a ter um conceito muito ruim sobre o "trabalho" foi quando eu trabalhei numa empresa de alimentos, uma fábrica e distribuidora de palmitos, ainda nos anos oitenta, eu com uns 17 anos de idade, já vivendo em São Paulo.

Foi um período duro a começar pela dificuldade de chegar até o depósito onde trabalhava. Os ônibus em meu bairro só passavam lotados no ponto onde eu ficava e fui um dos milhares de passageiros que por muito tempo andou pendurado em portas de ônibus por não conseguir entrar no veículo por estar lotado. A eleição de Luiza Erundina (PT) a prefeita de São Paulo melhorou minha vida de passageiro. Nunca me esqueço disso!

A lembrança ruim não é o quanto é cansativo o trabalho pesado de descarregar caminhão com toneladas de caixas de palmito ou mesmo o trabalho de ficar o dia inteiro pela cidade, andando por corredores escorregadios e subterrâneos de restaurantes chiques entregando o produto. Essa parte é rotina de qualquer ajudante geral de qualquer coisa.

O que me marcou profundamente foram os dias nos quais me colocavam num canto isolado do depósito para abrir e esvaziar latas estufadas de palmito, palmito estragado, podre. A justificativa para aquele trabalho impossível e inacreditável era que a firma não poderia jogar as latas fora daquele jeito porque se alguém abrisse, consumisse aquilo e morresse, a empresa seria penalizada. Ou seja, eu poderia me expor ao botulismo e outras contaminações do tipo, outras pessoas não.

É provável que eu tenha um olfato ruim por causa dos trabalhos com esgoto e por esse de abrir lata de palmito podre. Como o ser humano tem um sistema nervoso altamente adaptável, provavelmente meu cérebro bloqueou parte do meu olfato para sobreviver àquelas condições insalubres nas quais trabalhei na adolescência.

Sentado no chão, eu tinha que fazer um furo na lata primeiro e aí saía um ar podre zunindo com um cheiro insuportável. Após essa etapa, eu abria a lata e jogava o conteúdo fora. Ao final do dia, dos dias de palmito podre, parecia que o cheiro nunca mais sairia de mim. Tomava banho e tinha a impressão que eu estava cheirando a palmito podre... que trampo foda foi aquele!

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A FÉ QUE EU TINHA FOI A LIGA PARA PERMANECER VIVO

Essas lembranças são sobre o ódio que senti por muito tempo em minha vida, um ódio geral, não era de uma pessoa ou algo específico, era uma raiva profunda por achar o mundo um lugar injusto, ruim.

A citação que abre esse texto, do personagem Riobaldo Tatarana, de Grande Sertão: Veredas, fala sobre o ódio que aprisiona a gente, que faz a gente virar escravo daquele(s) ao(s) qual(is) odiamos. É uma reflexão profunda do jagunço aposentado. Tenho claro que não devemos odiar ninguém, nem as piores pessoas do mundo, como vimos no poder no Brasil durante o último golpe de Estado. Odiar é ruim para quem odeia.

Mas essas lembranças também são sobre as diversas concepções de religião que experimentei até uns 30 anos de idade. Fui aculturado e feito gente no ambiente católico de minha família. Aliás, católica é a base religiosa da ampla maioria do povo brasileiro ao longo do tempo - colônia, império e repúblicas. Hoje, a igreja católica vem perdendo espaço no Brasil para as vertentes neopentecostais, muitas delas mais parecidas com empresas de manipulação da fé alheia que espaços de amor ao próximo e solidariedade. 

Além da formação católica, também vivenciei as experiências religiosas dos espíritas e das religiões de matriz africana. É inegável que a religiosidade brasileira por muito tempo foi uma mescla de diversas crenças e misticismos. Costuma-se chamar essa mescla de espiritualidades de sincretismo religioso. 

A gente cresce acreditando em Deus, é batizado, faz primeira comunhão (eu não concluí a minha), vai às missas e se casa na igreja e também vai ao centro espírita tomar um passe ou ao terreiro de umbanda ouvir conselhos dos guias espirituais e pedir favores. Ora acreditamos que vamos para o céu, ora acreditamos que temos diversas vidas e voltamos para cumprir missões na terra etc.

Eu fui muito religioso, intenso na fé como tudo que já fiz na vida. Me persignava o dia inteiro. Frequentava as missas, estudava os textos da bíblia e de outras matrizes religiosas. A religião teve um peso importante na formação do meu caráter e da minha ética. 

EU SEI O QUE SENTE UMA PESSOA RELIGIOSA

Em minha busca atual por compreensão da vida, do mundo e do comportamento das pessoas, tento o tempo todo me colocar no lugar das outras pessoas para facilitar meu esforço na interação com os seres humanos, para insistir em ser um ser social ou sociável, de relações sociais com os outros, com a alteridade, com o diferente, dentro da compreensão de que não somos nada sozinhos, sem a relação com os outros.

E revendo minha vida nas primeiras décadas, tenho a consciência de que a concepção religiosa de mundo teve o seu papel no meu percurso pela existência. Teve sim. Para o bem e para o mal.

Quando eu não suportava mais a vida ruim, injusta, quando estava com raiva, com medo, a fé numa outra vida, já que a vida material era uma bosta, me dava uma base de apoio para o momento seguinte, para o sobreviver mais um dia. Acreditar que em outra vida as coisas poderiam ser melhores é a maior das criações e explicações de mundo que o animal homo sapiens desenvolveu ao longo de sua história na Terra. Não tenho dúvida sobre isso.

O que me lembro sobre ódio e religião no meu percurso de vida me faz refletir muito sobre as pessoas ao meu redor neste momento de minha vida e do mundo.

Aconteceu comigo o inverso do que aconteceu com Saulo de Tarso, o Paulo evangelizador do cristianismo. Ele passou de perseguidor dos cristãos a um dos maiores divulgadores da palavra de Cristo no mundo antigo. Li livros sobre Paulo. 

Eu vivi um período insuportável de fúria com vinte e tantos anos e rompi com qualquer tipo de crença mística. Óbvio que à medida que vivia e que estudava, também questionava as contradições dos dogmas religiosos em geral. O fato é que perto dos trinta anos, minha leitura de mundo não comportava mais a crença religiosa como explicação da vida e do mundo. 

Ficou o respeito ao momento de cada um e cada uma, à visão de mundo de cada pessoa. O que sei é que às vezes sou mais dogmático e seguidor dos princípios cristãos que muita gente que se diz religiosa e praticante. Os Mandamentos estão cristalizados no fundo do meu ser...

Compreender a visão de mundo das pessoas, visões diferentes da minha, é algo básico para uma pessoa como eu, que já mudou tanto, já experimentou tanto, e que ainda procura por pertencimentos, por motivações, que precisa encontrar causas a se engajar.

Cansei por hoje, essas memórias são importantes para o processo de busca de sentidos e compreensões, mas elas nos cansam também.

Abraços às leitoras e leitores.

William


Post Scriptum: a leitura do capítulo anterior desta série de textos de lembranças pode ser feita aqui.