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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Livro: Forrest Gump - Winston Groom



Refeição Cultural 

LITERATURA NORTE-AMERICANA 


"Sou idiota de nascença. Meu QI é de quase 70, então eu encaixo na definição, pelo que falam. Se bobiar devo estar mais perto de ser um débil mental ou até mesmo um retardado, e pessoalmente prefiro achar que sou um pateta, ou auguma coisa do tipo, e não idiota..." (Groom, 2016, p. 9)


Certa vez, conversando com o amigo Jair Rosa, jornalista da Secretaria de Imprensa do Sindicato, falamos a respeito do personagem Forrest Gump. 

Eu havia corrido a São Silvestre com uma camiseta na qual escrevi "Run, Forrest, run!", e estava com uma barba enorme. Foi uma brincadeira legal! As pessoas na rua me viam e gritavam "Vai, Forrest!"; outras diziam "Olha o Forrest!". Foi divertido!

São Silvestre de 2009

O Jair me disse que seria legal ler o livro Forrest Gump. Eu nem sabia que existia o livro que teria inspirado o filme com a interpretação de Tom Hanks. 

Anos depois, ganhei o livro de minha companheira. Uma bela edição da Editora Aleph, com tradução de Aline Storto Pereira. O livro é de 1986 e o filme de 1994, dirigido por Robert Zemeckis.

Meu amigo me disse que no livro havia mais aventuras de Forrest, além daquelas que vimos no filme. 

Na verdade, a história de Forrest Gump no livro tem diferenças em relação ao filme, algo que considero normal. 

Na verdade, lendo o artigo de Isabelle Roblin - "Da página à tela: a reformulação de Forrest Gump" - incluído na edição que tenho, descobre-se que a história foi reescrita para o filme.

Acho importante citar também o tipo de deficiência intelectual do personagem: Síndrome de Savant, condição chamada no passado de "idiota savant". As pessoas com essa condição têm habilidades extraordinárias em certas áreas como matemática, música, artes e esportes, memória incrível etc.

O filme me marcou muito, de verdade. Tem cenas do filme que me fazem chorar e pensar muito na minha vida. Além, é claro, da trilha sonora espetacular!

Vamos ver o que a obra original nos traz. Ainda estou no começo, o livro é grande.  

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COMENTÁRIO SOBRE O LIVRO

02/02/26

"Mas eu bem sei uma coisa sobre os idiotas. Se bobiar é a única coisa que eu sei de verdade, mas eu li mesmo sobre eles... Li tudo desde o idiota dum tal Dois-toi-és-viquis, até o bobo da corte do Rei Lear; o idiota do livro do Faulkner, Benjie, e até o Boo Radley de O sol é para todos... ele era um idiota de verdade. O que eu gosto mais é o velho Lennie de Ratos e homens. A maioria desses escritores entendeu como funciona, porque seus idiotas são sempre mais espertos do que as pessoas pensam. Bom, eu concordava com isso. Qualquer idiota concordaria. Rá-rá." (Groom, 2016, p. 11)


Terminei a leitura do romance com um nó na garganta, da mesma forma que acontece comigo quando assisto ao filme de Zemeckis.

O mais difícil na leitura de um romance que já foi adaptado para o cinema é conseguir se desfazer das imagens do filme e da caracterização dos personagens, além das diferenças de adaptação do roteiro ou versão dada pelo diretor.

Então, antes de apresentar meu comentário sobre o romance de Winston Groom, registro que o filme é muito bom e que o livro é muito bom também, mesmo sendo obras com enredos bem diferentes. 

O personagem Forrest Gump tem algum grau de deficiência intelectual - Síndrome de Savant - e tanto ele quanto sua mãe sabem disso. Ele é um sujeito grande, de uns dois metros de altura, com uma bunda enorme. Desde pequeno, ele sempre deseja fazer as coisas certas, mesmo quando isso não acontece.

Além de sua mãe, outras pessoas foram importantes e marcaram a vida de Forrest Gump: Jenny Curran, amiga do colégio e amor de sua vida; Bubba, amigo da faculdade e companheiro na Guerra do Vietnã; e Tenente Dan, que conheceu na guerra. Outras personagens também vão aparecendo ao longo das peripécias que marcam a vida de Forrest.

Groom faz uma crítica ácida aos norte-americanos considerados "normais". Ao longo da história do deficiente intelectual Forrest Gump é comum vermos cenas como a do pneu do carro:

Forrest pega uma carona com um rapaz e o pneu do carro precisa ser trocado. Enquanto o motorista troca o pneu, deixa os parafusos caírem no bueiro e fica se lamentando por não poderem resolver o problema e irem embora. Forrest pensa por um instante e sugere ao motorista que tire um dos quatro parafusos de cada um dos três pneus e fixe o pneu trocado. O motorista fica puto e envergonhado por não ter pensado nisso e questiona Forrest "Como você pensou nisso se é idiota?" e Forrest responde "Sou idiota, mas não sou burro!".

O personagem carrega aquela ideia comum dos norte-americanos de se venderem como sujeitos que empreendem e que se dão bem na vida por esse motivo. Algo como "qualquer idiota esforçado consegue fazer qualquer coisa" (idiota no sentido de pessoa comum). É a ideia do self-made man, a meritocracia que manipula tanta gente de nossas classes exploradas e sem os direitos básicos da cidadania.

Forrest ao sabor do acaso vira jogador de futebol americano, astronauta, jogador de pingue-pongue, toca gaita de forma magistral, é campeão de xadrez, lutador de luta livre e outras coisas que vão aparecendo nas veredas que percorre na vida.

Com a produção de camarões, Forrest alcança fortuna e sucesso, mas mesmo com esses sonhos comuns dos homens do capital, algo falta para aquele cidadão, algo que não é dinheiro. Algo que dê sentido e satisfação em sua vida. Percebemos isso quando Forrest insiste em lutar mais após ter conseguido o dinheiro que precisava para o projeto dos camarões. 

Valeu bastante a experiência de ler a obra original que inspirou o filme de sucesso dirigido por Robert Zemeckis em 1994, com interpretações magistrais de Tom Hanks (Forrest Gump), Robin Wright (Jenny Curran), Gary Sinise (Tenente Dan), Sally Field (Senhora Gump), Mykelti Williamson (Bubba) e demais personagens no elenco.

Sobre o filme, reafirmo que sou um fã desde a primeira vez que o vi. E a trilha sonora é inesquecível!

William


Bibliografia:

GROOM, Winston. Forrest Gump. Tradução: Aline Storto Pereira. Ilustrado por Rafael Coutinho. São Paulo: Aleph, 2016.


domingo, 29 de dezembro de 2024

Vendo filmes (XXIV)



Refeição Cultural

Já que a ficção virou realidade, talvez tivéssemos que criar blade runners que caçassem e aposentassem os extremistas ditadores que querem destruir o mundo e a vida humana em benefício próprio


Rever o filme Blade Runner e a ideia de um mundo convivendo com robôs idênticos aos seres humanos, só que mais fortes e passíveis de falhas e desobediência aos seus programas é um entretenimento que mescla ficção e realidade. Então, é inevitável refletirmos sobre o mundo atual.

Estamos há duas décadas, mais ou menos, com uma nova realidade no mundo humano por causa da plataformização da sociedade. Meia dúzia de humanos concentra sozinha um poder de manipular o comportamento de bilhões de pessoas independente das fronteiras dos países. Essa ficção virou a realidade. 

As big techs, corporações que juntam bancos, meios de comunicação e empresas que destroem a natureza, controlam o mundo e o comportamento dos seres humanos. Democracias viraram ficção. Liberdade humana é uma ficção.

Poucos homens podem destruir todas as florestas que restam, todas as terras onde há algum tipo de minério, todos os mares e oceanos que quiserem inviabilizar a vida, e pagam políticos e ideólogos para isso. 

A distopia virou a realidade. Um fdp faz o que quer em um país inteiro; num território como São Paulo no Brasil, por exemplo, um fdp faz o que quer e não pega nada contra ele.

Sei lá. Para o bem do planeta Terra, da diversidade da vida no planeta e para o bem da maioria dos seres humanos, talvez fosse o caso de se criar blade runners que aposentassem esses poucos humanos sem alma e sem consideração com a coletividade do único planeta habitável no universo conhecido até o momento.

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FILMES

Blade Runner - O caçador de androides (1982) - Direção: Ridley Scott. Elenco: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Daryl Hannah.

SINOPSE (do DVD): O "Cult Movie" da ficção científica, ficou ainda mais fantástico mostrando uma chocante visão do futuro, realizado pelo consagrado diretor Ridley Scott. Por volta do ano 2000, o planeta Terra está em total decadência. Os poucos habitantes vivem aglomerados em gigantescos arranha-céus. A engenharia genética se tornou uma das maiores indústrias criando os replicantes, criaturas dotadas de extraordinária força e inteligência, praticamente indistinguíveis dos humanos. Nessa nova versão (1991), surpreendentes revelações em torno do romance entre Deckard (Harrison Ford) e Rachel (Sean Young). Qual será a verdadeira origem de o "Caçador de Androides"?

COMENTÁRIO: 

"Vi coisas que vocês jamais imaginariam... e agora tudo se perde, como as lágrimas se perdem na chuva. Agora morro..." 

Ver um filme clássico, de décadas atrás, é diferente de ver os filmes de hoje. Toda vez que vejo filmes antigos fico com essa ideia. O clássico de Ridley Scott é encantador, fisga o telespectador, encanta a gente. Desde a cena inicial daquela Los Angeles futurista, de 2019 (quatro décadas no futuro), até a questão central da história, os robôs replicantes, idênticos aos humanos. E ainda temos a trilha sonora de Vangelis.

No filme, uma corporação (Tyrell) cria e comercializa robôs idênticos a nós para serem utilizados nos piores trabalhos humanos e em exploração espacial. São tão perfeitos que só alguns especialistas conseguem através de jogos de perguntas identificar um replicante. São os caçadores de androides, os blade runners

Depois do projeto de produção dos replicantes ter sido interrompido por uma rebelião dessas máquinas, a ordem é aposentá-los (eufemismo para exterminá-los). Um blade runner aposentado, Deckard (Ford), é convocado para eliminar quatro replicantes que estão na cidade em busca de mais tempo de vida.

O filme do início dos anos oitenta aponta no enredo diversas consequências do que seria a sociedade globalizada e capitalista do futuro: um mundo destruído pelo excesso de produção e consumismo que acabou com a natureza, uma sociedade humana sem moral e sem valores e com uma ciência de ponta usada nesse contexto. Vejam se não é o mundo de 2024.

TEMPO - O tema central da ficção é o tempo, mais tempo. Os robôs são feitos com um tempo de vida determinado. Os nexus-6 têm 4 anos de vida. A temática do tempo restante - o tempo de vida das coisas - é uma grande temática para se refletir. Cada um de nós, em algum momento, terá que lidar com a questão central que move os replicantes: o tempo.

Eu lido com essa temática no dia a dia. Queria mais tempo com saúde. Não seria jovem demais para ter hoje o problema de desgaste no quadril e não poder mais sonhar projetos de corridas e outras atividades físicas? Será que estarei andando daqui a 4 anos? Como faço para pedir mais tempo ao meu criador como fez Roy Batty (Hauer) ao Dr. Tyrrel (Joe Turkel)?

O filme ainda nos traz a reflexão sobre o tempo de utilidade das coisas numa sociedade gerida pela lógica capitalista. Nada é feito para durar, pois se as coisas durarem os capitalistas e seus CEOs não terão o lucro cada vez maior. Dane-se a natureza sendo esgotada. O amanhã não importa.

Filmão! Poderia refletir sobre diversas dimensões que o filme nos abre. Vale a pena ver e rever.

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Blade Runner 2049 (2017) - Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Hampton Fancher e Michael Green. Elenco: Ryan Gosling, Harrison Ford, Ana de Armas, Sean Young, Robin Wright, Sylvia Hoeks, Jared Leto.

SINOPSE (NETFLIX): O conteúdo de um túmulo secreto chama a atenção de um poderoso empresário, que envia o caçador de replicantes K em uma missão para encontrar uma lenda perdida.

COMENTÁRIO: 

Nesta sequência de Blade Runner e os replicantes, a questão da memória foi uma das coisas que mais me chamaram a atenção. K recebe a missão de encontrar e eliminar tudo que se relacione a uma provável reprodução de um replicante por parto. Logo suas memórias começam a associá-lo ao caso. O replicante caçador de androides, K, começa a questionar o que é memória implantada e o que é memória real. O que seria real e o que seria memória criada?

"Os replicantes levam vidas difíceis, criados para fazerem o que não queremos (...), mas posso lhes dar boas memórias, para vocês recordarem e sorrirem..."

Memória - Eu ando impactado pela trágica ameaça a qualquer um de nós por doenças degenerativas como Alzheimer e Parkinson. Recentemente, vi o filme "Ainda estou aqui" e a história de Eunice Braga, que terminou seus dias com Alzheimer, me deixou muito pensativo. Ninguém merece ter uma doença dessas, na qual a essência do que somos vai desaparecendo e vai ficando só um corpo vazio sem nós e aquilo que chamamos de nossa identidade, nossa alma, nosso espírito.

O filme é bom, eu gostei. A questão dos robôs replicantes, máquinas quase idênticas a nós, é um tema permanente de preocupações e reflexões. 

Na sequência da primeira estória, que se passa numa Los Angeles do futuro, em 2019, os replicantes que estão no cotidiano da sociedade humana em 2049 não têm prazo determinado de vida, vivem por tempo indeterminado. A humanidade e a sociedade humana estão uma merda, um mundo quase inabitável, o planeta destruído por nós humanos, uma sociedade humana decadente.

O cenário da ficção de 2049 é o cenário atual, não é mais distopia, agora é o mundo verdadeiro, com trumps e bolsonarios lixos se organizando mundialmente para desgraçar a vida dos bilhões de humanos e da infinidade de seres vivos que habitam esse único planeta em condições de abrigar vida.

As ficções distópicas viraram crônicas do dia a dia de um mundo em falência total.

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É isso! Os dois filmes distópicos me fizeram refletir sobre um monte de questões atuais.

Caso haja interesse em ler mais textos criados a partir de filmes é só clicar aqui para ver o anterior.

William