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quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Artigo: 11/9



Refeição Cultural

Opinião

Algumas datas do calendário ocidental acabam ficando marcadas na história da sociedade humana por acontecimentos que ocorreram naquele dia. O 11/9 se tornou uma dessas datas.

Já tínhamos o 11/9 chileno, tínhamos o 11/9 norte-americano, e agora temos o 11/9 brasileiro. 

Para as pessoas que conhecem minimamente a história, sabemos que os três 11/9 têm alguma relação direta ou indireta com o governo dos EUA, ou seja, aconteceram por causa dele ou com a tentativa de interferência daquele governo. 

No dia 11/9/73, o governo socialista de Salvador Allende, eleito democraticamente pelo povo chileno, foi derrubado por um Golpe de Estado patrocinado pelos EUA. Allende não sobreviveu ao golpe. Augusto Pinochet foi colocado no poder e a barbárie se implantou no país por um longo tempo.

No dia 11/9/01, os EUA sofrem um atentado terrorista no qual as Torres Gêmeas do World Trade Center são atingidas por aviões, o prédio do Pentágono também é atingido por um avião e um outro cai sem atingir o alvo. Todos eles, aviões comerciais. 

Aquele atentado marcou o início do século XXI e mudou o mundo para pior, para os povos dos países periféricos e até para os norte-americanos comuns. O governo começou naquele dia uma tal guerra ao terror e tudo passou a ser "permitido" contra o povo e contra o mundo em nome da tal guerra ao terror.

No dia 11/9/25, o Brasil condenou pela primeira vez em sua história um ex-presidente e outros componentes de sua organização criminosa, a maioria deles militares e ou servidores públicos, à prisão por tentativa de Golpe de Estado e outros crimes. Bolsonaro foi condenado a 27 anos e três meses de prisão. 

O governo dos EUA tentou interferir no julgamento dos réus brasileiros estabelecendo sanções econômicas ao Brasil e ameaçou, nos últimos dias, até o uso de força militar para pressionar o poder independente do judiciário a não condenar os bandidos. 

Como disse, o dia 11/9 vai sendo marcado por acontecimentos que mudam a história dos países e povos do mundo. 

O escritor do blog não acredita que o réu Bolsonaro vá cumprir a pena na prisão. Ficaria feliz se daqui a um ano, ano e meio, pudesse voltar a esta postagem e afirmar que estava errado, vendo o Jair Messias cumprindo sua pena na prisão. 

QUE A CONDENAÇÃO DO EX-PRESIDENTE SIRVA DE EXEMPLO PARA QUE O POVO NÃO ELEJA UM INEPTO COMO ELE FOI NA PANDEMIA

Vale registrar a minha decepção com a justiça dos homens (raramente é das mulheres também) pelo fato de que o condenado por tentativa de Golpe de Estado não foi indiciado pelo pior de seus crimes, o pior, sua conduta como autoridade maior do Brasil durante a pandemia de Covid-19. 

O Jair Messias Bolsonaro fez tudo que podia para facilitar a morte por Covid de centenas de milhares de brasileiros e brasileiras, que morreram sem vacina quando já havia vacina disponível, adoecidos por não usarem máscaras com incentivo do Jair e por ele não fazer nada que deveria como presidente do Brasil durante a pandemia. 

Enfim, temos que reconhecer este 11/9 como um dia histórico, pelo menos o Brasil condenou esses desgraçados que tentaram voltar a ditadura no Brasil, com toda a violência e roubo que vem junto com o autoritarismo dessa gente fascista que é ignorante e desumana.

O "capitão" não foi condenado pelo genocídio do povo brasileiro, nem como ladrão de joias, mas pelo menos foi condenado por alguns de seus crimes. 

Que a condenação do inepto, genocida e defensor de torturadores sirva para que nunca mais tenhamos dias de mortes no Brasil como naqueles dias da pandemia, nos quais as pessoas morriam sem conseguir respirar por culpa do sujeito que ocupava a presidência do Brasil. 

Companheiro Wanderley Crivellari, presente! Vítimas da Covid-19 no Brasil, presente!

SEM ANISTIA PRA GOLPISTA!

William Mendes


domingo, 14 de abril de 2024

Natais - 1973



Refeição Cultural

Estamos no mês de abril de 2024. Noite de sábado para domingo. Estou em Uberlândia. 

Um silêncio entristecedor predomina na casa de meus pais. Digo isso sendo uma pessoa que gosta de silêncio. São os sinais que entristecem a gente. Os acontecimentos apontam para onde as coisas caminham.

Como imaginei no último Natal, as relações entre as pessoas estão cindidas, esgarçadas, estão se diluindo. Os laços que ligaram grupos de humanos por milênios, que criaram aquilo que Benedict Arderson chama de "Comunidades Imaginadas", estão se desfazendo. As relações humanas estão cada dia mais utilitárias, só permanecem enquanto há alguma utilidade naquilo.

Tenho avaliado o comportamento humano nos últimos anos. Entendo que os seres humanos estão inseridos numa espécie de experiência a partir das big techs e suas técnicas de manipulação de massas (corporações globais que dominam os meios de comunicação), manipulação que já era tentada pelos grandes veículos de informação, mas que ganhou uma dimensão extraordinária com os algoritmos das redes sociais.

Estamos nos tornando seres antissociais, impacientes e sem vontade de lidar com qualquer pessoa que pense diferente ou emita uma palavra que a outra pessoa não goste. Relações familiares, de amor, amizade, se desfazem como se desfazem as relações virtuais, com um clique/cancelamento.

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E as guerras? Quem vai pará-las? 

Os contextos são diferentes dos contextos anteriores nos quais a espécie humana conseguiu evitar o lançamento de diversas bombas atômicas ao mesmo tempo, convencendo lideranças de grandes comunidades humanas que aquelas ações exterminariam a própria espécie. Estou falando de poucas décadas atrás. Anos de Guerra Fria.

Neste momento, com esses humanos ao nosso redor, com essas redes sociais que manipulam dezenas e centenas de milhões de humanos, com esses sociopatas por trás de corporações globais que cagam para os países e as pessoas, nós não temos perspectivas muito boas para evitar que as guerras que estão pipocando por aí avancem até o "The End", guerras em geral provocadas diretamente ou por procuração pela potência nuclear e império decadente Estados Unidos, que deixa claro que vai cair atirando contra as novas potências que estão surgindo, como a China, por exemplo.

Olhando desde abril lá para dezembro de 2024, é bem difícil saber se só a minha família terá dificuldades para se reunir no Natal ou milhões e milhões de famílias terão dificuldades diversas de reunião para confraternização...

Tempos sombrios, tempos desafiadores. 

(e pensar que a educação poderia mudar tudo isso, seria só educar as pessoas para um outro mundo possível. No entanto, sob o capitalismo e sob a governança de sociopatas, a salvação do mundo e da humanidade está cada dia mais distante)

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NATAL DE 1973 

Naquele ano, vivi com a família o meu quinto Natal. 

Nasci no Brasil, um dos países mais católicos do mundo à época. Fui batizado e recebi as bençãos divinas. 

Não me lembro das comemorações da data natalina, mas sei que com uns quatro anos de idade, eu já estava sendo aculturado como uma pessoa que vivia no ambiente das crenças religiosas do país, um misticismo resultante de todo o sincretismo religioso originário da mistura do catolicismo dos invasores europeus, com as visões de mundo dos povos indígenas e as religiões de matriz africana, vindas com os povos sequestrados e escravizados nesta terra, colônia de exploração. 

Ainda recebemos no último século e meio, povos vindos da Ásia e Oriente e suas crenças se somaram às que já existiam aqui. 

CONTEXTO NO MUNDO

Naquele ano, o World Trade Center foi inaugurado na cidade de Nova York, em 4 de abril. As torres gêmeas viraram o símbolo do poderio capitalista dos EUA. 

Dois 11/9 a registrar: 

11/9/73: no Chile, um golpe de Estado depõe Salvador Allende, que morre no Palácio La Moneda. Pinochet começa a ditadura sanguinária. 

11/9/01: muitos anos depois, a data é marcada no mundo pela queda das torres gêmeas inauguradas em 1973. Aviões se chocam contra elas, em Nova York, e o mundo seria diferente depois disso. 

EM NOME DE DEUS

Tudo que aconteceu foi em nome de Deus: nosso Natal, a invasão do Brasil no passado e a ditadura daquele momento, a vinda dos escravizados africanos, o capitalismo americano e a ditadura de Pinochet. 

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Na foto da postagem, sou o único menino entre as meninas. A foto foi tirada no casamento de meus tios em São Paulo, em maio de 1973. As duas meninas do meu lado direito são a Ione, minha companheira, e a Telma, minha irmã.

William


Post Scriptum: a postagem anterior desta série pode ser lida aqui.

segunda-feira, 1 de abril de 2024

Língua Espanhola I - Ano 2002 (II)



Refeição Cultural

Revisita aos estudos de graduação na FFLCH-USP


Folheando um pouco a apostila do primeiro ano de estudos de idiomas, achei interessante rever o fenômeno do Yeísmo na Língua Espanhola.

Para deixar uma referência atual, cito abaixo a definição do fenômeno do dicionário da Real Academia Española (RAE):

Yeísmo - 1. m. Fon. Desaparición de la diferencia fonológica entre la consonante lateral palatal y la fricativa palatal sonora, de manera que, en la pronunciación, no se distinguen palabras como callado (silencioso, reservado) e cayado (bastón, palo).

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Na apostila, tem uma seção inteira dedicada ao tema. Transcrevo o texto abaixo para fins didáticos.

LL - Y (delante de vocales)

La pronunciación de los fonemas representados por la LL e por la Y (esta con vocales) se hace distintamente en el mundo hispánico.

a) Distinción entre LL / Y: la LL se pronuncia como la LH del portugués y la Y con un sonido consonante. Algunos hablantes de España y de buena parte de América (sobre todo del altiplano andino) distinguen la pronunciación de estos fonemas, pero actualmente hay una fuerte tendencia a igualarlos.

b) El yeísmo: consiste en igualar la pronunciación de la LL a la de Y. El yeísmo está muy difundido en Hispanoamérica, aunque presente diferencias, por exemplo: en la región del Río de la Plata, la LL/Y suenan como la J del portugués, en Chile la pronunciación de estos fonemas es más suave que la pronunciación rioplatense y en el Caribe la pronunciación de la LL/Y se aproxima de una I. En España el yeísmo se está imponiendo a la distinción LL/Y.

Según Manuel Seco, el yeísmo existe hoy en España (ou seja, 2002): en toda Andalucía, en Murcia (sólo en las ciudades), en Extremadura, en Castilla la Nueva (principalmente en Madrid, Toledo y Ciudad Real), en Castilla la Vieja (Ávila, Valladolid), en Cantabria (Santander), en León (Salamanca, capital), en Asturias (Oviedo y Gijón), en Cataluña (Cuencas del Ter y Llobregat) y las Islas Baleares y Canarias.

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COMENTÁRIO:

Como falante de língua portuguesa que aprendeu língua espanhola, posso dar o depoimento de experiências locais ao ouvir falantes de espanhol.

Já estive em Madri e Toledo, na Espanha. Já estive também no Chile, Argentina, Uruguai e em Cuba. Por ter estudado o idioma, fiquei atento aos falares nessas regiões.

De fato, na Argentina e Uruguai é muito claro o Yeísmo com som de J ou CH do português. No Chile é bem suave a pronúncia. Em Cuba eu consegui perceber o som mais próximo ao I. E a fala dos espanhóis de Madri é bem mais "cantada" em relação às falas dos hispano-americanos.

O estudante de espanhol precisa treinar o ouvido para os diversos "acentos" dos falantes da língua.

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LA "LL"

CALLE  VILLA  LLORAR  LLUVIA  CALLISTA  ESTRELLA

No hay pueblo como mi pueblo,

ni valle como mi valle,

ni casa como mi casa,

ni calle como mi calle.


La chiquilla, con la lluvia, a la villa lleva la llave.

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LA "Y"

AYUDAR    YERNO    YA    YO    YUGULAR    HOYO

Ya viene mayo, mayo,

Ya viene el rumbo,

Ya viene la alegría

pa todo el mundo.


¡Ay, mal haya, mal haya

mi cobardía,

que por ser yo cobarde

no eres tú mia!


El yerno del yegüero da yerba a la yeguada.


Referências: Valmaseda Regueiro, 1992.

Textos y grabaciones adaptados de BRUNO, Fátima C. & MENDOZA, Maria Angélica. Hacia el español 1. São Paulo, Saraiva. Unidad 8, Hacia Letras y Sonidos.

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Tradución:

Yerno: genro

Yegua: hembra del caballo

Yerba: erva, capim

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A primeira postagem deste tema pode ser lida clicando aqui.

William


Fonte: Apostila da Faculdade de Letras/USP, 2002.


sábado, 30 de setembro de 2023

Vendo filmes (VII)


Pôr do sol em Cuba. William.

Refeição Cultural

Osasco, 30 de setembro de 2023. 


Tenho procurado ver alguns filmes que abordem os temas que tenho estudado ultimamente. Essa sequência de filmes que cito abaixo tem essa característica.

Vi dois filmes que se passam na China, país asiático o qual tenho estudado um pouco. Também revi um filme fortíssimo sobre a tragédia da escravidão ao longo de séculos: Amistad

O recente filme O irlandês para mim retrata bem o que são os Estados Unidos. Bom filme!

Completam a lista de filmes um documentário sobre o golpe de Estado no Chile em 1973, golpe que assassinou o presidente Salvador Allende e colocou o país numa ditadura sangrenta. E um filme que se passa na Turquia, na década de setenta.

Os filmes me fizeram refletir bastante.

William

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FILMES

- O grande irmão: O dia que durou 21 anos II (2022) - Direção de Camilo Tavares. Documentário demonstra a participação ativa do governo brasileiro e do governo dos Estados Unidos, através da CIA, no golpe militar promovido no Chile em 1973. A ditadura de Pinochet seria uma das mais sangrentas da América Latina durante quase duas décadas.

COMENTÁRIO - O longa-metragem documentário é surpreendente pela documentação nova que apresenta após 4 anos de pesquisas nos arquivos do Itamarati no Brasil e do consulado brasileiro no Chile. O Brasil foi um agente central no golpe de Estado promovido no dia 11 de setembro de 1973, derrubando o governo de Salvador Allende, democraticamente eleito. Allende foi assassinado, milhares de pessoas foram presas, torturadas e desaparecidas ao longo de 17 anos de ditadura. Além disso, foi aplicado ao país toda a cartilha neoliberal de privatizações e eliminação de direitos sociais. 

Ao ver o documentário no dia 11 de setembro de 2023, 50 anos depois, percebi o quanto estamos num contexto semelhante de ameaça e risco de vivenciar novamente esse terror vivido pelo povo chileno. Na minha opinião, estamos à beira de novos golpes de Estado promovidos pelos Estados Unidos no mundo, incluindo o Brasil do 3º governo Lula, Brasil que já viveu golpe recente em 2016, orquestrado a partir de lá com a operação Lava Jato.

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- A fundação de uma República (2009) - Jian guo da ye, no original. Filme produzido na China e Hong Kong. Direção: Sanping Han e Huang Jianxin e com Tang Guoqiang no papel de Mao Tsé-Tung. Filme baseado em fatos reais sobre a história recente da China (recente ao considerar os milhares de anos da civilização chinesa), a guerra civil opondo o Partido Comunista, liderado por Mao Tsé-Tung, ao Partido Kuomintang, de Chiang Kai-Shek, conflito ocorrido entre 1946 e 1949 e ao final foi fundada a República Popular da China.

COMENTÁRIO: A indicação do filme foi feita pelo professor Elias Jabbour, com o qual fiz o curso "Compreendendo a China" no Instituto Conhecimento Liberta (ICL). Gostei do filme. Percebi que tenho muito que estudar ainda sobre a história da China e do povo chinês, pois se soubesse mais sobre o período abordado no enredo do filme, a experiência seria melhor ao assistir a obra. O filme está na internet e com legenda em português.

- A caminho de casa (2007) - Luo yi gui gen. Outro filme chinês que revi neste mês de setembro é um filme muito bonito e sentimental. Comentário aqui.

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- O expresso da meia-noite (1978) - Direção de Alan Parker e adaptação de Oliver Stone. Com Brad Davis. A história se passa na Turquia nos anos 70 e o filme diz ser baseado em fatos reais. Jovem é pego em aeroporto tentando embarcar cheio de pacotes de droga. Pegou 30 anos de sentença. 

COMENTÁRIO: Um jovem norte-americano comete a estupidez de tentar sair da Turquia com um monte de pacotes de haxixe. Foi pego, lógico! A partir daí, vamos conhecer o que é se ferrar e sofrer numa prisão turca. Dramático! Enquanto assistia ao filme, fiquei refletindo sobre o ser humano... é o único animal racional no reino animal e por mais racional que seja, é o animal que mais comete estupidez e idiotices na natureza. Por que o cara vai fazer uma coisa dessas? Ao conhecer a história de William Hayes (Billy), vemos que ele não precisava fazer uma cagada dessa com a vida dele. Enfim, somos assim, humanos!

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- O irlandês (2019) - Direção de Martin Scorsese. Com Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci. Filme conta a história do caminhoneiro Frank "The Irishman" Sheeran, sindicalista ligado ao crime organizado. Frank trabalha para a família mafiosa Bufalino (Joe Pesci) e também se torna amigo e apoiador do líder sindical Jimmy Hoffa (Al Pacino). O roteiro é apresentado como um relato das memórias de Frank, já idoso e retirado de cena.

COMENTÁRIO: O filme tem uma grande história e um grande enredo, como o clássico de Mario Puzo e Coppolla (O poderoso chefão). Ao assistir ao filme, uma das coisas que não saíram de minha cabeça foi o que a história deixa claro: o que são os Estados Unidos da América, um país que nasceu e se sustenta até hoje através da violência das armas, e tudo naquele país é uma mentira, uma invenção, um mito. Outra coisa que fiquei pensando... como alguém pode confiar numa pessoa nascida e criada na cultura norte-americana? O momento mais forte do filme, para mim, é o momento no qual vemos que toda vida tem um preço nos EUA, tudo tem um preço, tudo é business... Enfim, atuações brilhantes dos protagonistas!

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- Amistad (1997) - Direção: Steven Spielberg. Com Djimon Hounsou, Matthew McConaughey, Morgan Freeman e Anthony Hopkins. O ano é 1839, um navio parte de Cuba repleto de homens e mulheres sequestrados do Continente Africano e vendidos como escravos. Cinqué (Djimon) lidera uma rebelião no navio e liberta os escravizados. O navio é interceptado por um navio norte-americano e a partir daí veremos um grande debate na justiça dos EUA sobre o destino final daquelas pessoas. 

COMENTÁRIO: Filmaço! Estou lendo muitos livros e autores para conhecer um pouco mais sobre a história vergonhosa do sequestro e venda de seres humanos no Continente Africano ao longo de séculos. Dois autores que vieram à minha memória durante a história de Cinqué e aquelas dezenas de mulheres e homens foram Luiz Gama e Abdias Nascimento, grandes intelectuais brasileiros negros, um do século 19 e outro do século 20, heróis brasileiros na luta pela igualdade para o povo negro no Brasil. O filme é uma aula de história! Vale rever sempre! É impossível não sentir fortes emoções ao ver tanta maldade e covardia com nossos irmãos. Quando nos lembramos que a escravidão foi real e durou séculos, e ainda hoje não conseguimos resolver a desigualdade oriunda de séculos de exploração, sentimos mais ainda o coração apertado ao assistir ao filme.

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Post Scriptum: clique aqui para ver o comentário anterior sobre filmes.


segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Diário e reflexões (05/09/22)


Refeição Cultural - Confesso!

Osasco, 5 de setembro de 2022. Segunda-feira.


Confesso que estou bem pessimista em relação ao andamento das coisas: a luta de classes e suas consequências; avanços para as classes populares; a sobrevivência e preservação das espécies e dos biomas do mundo; a involução da espécie homo sapiens em relação a seus cérebros e suas culturas... 

Ao observar fatos e tendências com o conhecimento que adquiri até o momento (é pouco, mas talvez seja um pouquinho mais do que a maioria tenha), avalio que as chances de vitória das causas que nós da esquerda defendemos são bem pequenas; são chances pouco prováveis, se não impossíveis.

Brincando com uma comparação no mundo do futebol, as chances de nossas causas da esquerda serem vitoriosas no momento atual da sociedade humana é como esperar que o São Paulo vá sair classificado para a final da Copa do Brasil ao jogar no Maracanã daqui alguns dias depois de perder a partida em casa para a máquina flamenguista por 1x3... a chance matemática existe, claro. É só dar tudo errado para o Flamengo e dar tudo certo para o São Paulo naqueles 90 minutos... os jogadores deles errarem tudo, os nossos acertarem tudo, o Universo conspirar a favor de um e contra o outro e lá estaria o São Paulo classificado dentro do Maracanã após tomar um baile no Morumbi... (talvez seja mais fácil implantar o comunismo no mundo...)

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CHILE - Por votos, o povo chileno rejeitou a nova constituição que substituiria a constituição da ditadura militar de Pinochet. Os avanços na nova carta seriam incríveis para o que nós da esquerda defendemos no mundo. Em uma das matérias que li a respeito, soube que a máquina de fake news que atuou durante todo o processo foi impressionante. Esses sistemas de mentiras que invertem a realidade e o comportamento de seres humanos não se sustentam sem um aparato de recursos bancados por quem tem muito dinheiro e poder (alguns são chamados até de "empresários"). Não acho que a esquerda tenha chance contra esses sistemas, não acho! Não é só uma questão de erros nossos... Nós não temos os meios que os donos do poder e do dinheiro têm, não temos! Não é uma luta igual.

ARGENTINA - Cristina Kirchner, a principal líder da esquerda do povo argentino, só está viva neste momento porque a arma que a mataria falhou a um palmo de seu rosto. Ela é mais uma vítima dessas máquinas de ódio e intolerância bancadas com grandes recursos e produtoras de fake news que coisificam (desumanizam) pessoas e grupos sociais. Ela é vítima também do mesmo tipo de processo de lawfare que destrói qualquer pessoa ou grupo político que é atacado impiedosamente por máquinas estatais ou empresariais ou ambas conjugadas de destruição de reputações e oposições aos interesses dos capitalistas donos do dinheiro e do poder no mundo. 

Neste momento da história do mundo, qualquer liderança popular pode virar ré em alguma ação penal mequetrefe da noite para o dia se ela ameaçar os interesses do status quo capitalista. Kirchner, Correa, Morales, Lula, Haddad, o líder local de qualquer lugarejo dominado pelo coronel da região... os guardas da esquina e os homens de preto de qualquer cidadezinha mandam mais que qualquer prefeito, governador, presidente honesto, parlamentar ou figura pública de movimentos sociais que representem o povo pobre e excluído... na paz (conciliação?), nós não temos a menor chance contra essa gente e esses sistemas.

BRASIL - Quem vai assumir a presidência da república em 1º de janeiro de 2023? Lula ou o representante dos donos do poder e do dinheiro, a casa-grande secular do Brasil? Haverá eleições gerais em 2 de outubro? Haverá eleições de 2º turno caso Lula não vença no 1º turno? Vocês acreditam de verdade que as máquinas de fake news e demais putarias de lawfare não podem inviabilizar a vitória de Lula no 2º turno? Vocês acreditam mesmo que os grupos no poder não têm como interferir no resultado das eleições? (eu desconfio do processo democrático neste momento da história) Se Lula vencer esse processo estranho e incerto, tomará posse? Os homens de preto vão permitir Lula no poder? Quantos meses Lula ficará no poder com um Congresso de maioria representando a bandidagem da casa-grande? Lula e as principais lideranças de esquerda estão seguras em relação a suas vidas?

HOMENS DE PRETO - Na canetada, foi barrado o piso salarial das enfermeiras e enfermeiros do Brasil (provavelmente não merecem, mesmo tendo sobrevivido na linha de frente à pandemia que matou quase um milhão de pessoas). Os homens de preto atuam todos os dias contra nós e isso não vai mudar por mágica. Aliás, nada muda na história da luta de classes por mágica, por reza, por desejo e pensamento positivo ou coisa do gênero. Na canetada não se barrou o orçamento secreto de bilhões de dinheiro público para uns chegados roubarem o erário público. Na canetada não se mandou apreciar nenhum pedido de impedimento do sujeito na cadeira da presidência cometendo suspeitas de crimes diariamente. Na canetada barraram Lula ser ministro de Dilma Rousseff. Na canetada não barraram o impeachment de uma presidenta honesta e sem crime algum. Na canetada se barrou a candidatura de Lula em 2018. Na canetada se aboliu a ultratividade dos direitos em acordos coletivos das categorias de trabalhadores brasileiros, dando todo o poder ao patronato de extinguir direitos no dia seguinte à validade dos acordos e convenções... Ah os homens de preto... 

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Li hoje um post do jornalista Breno Altman que vale citar para que a militância orgânica e engajada reflita.

"MÉTODO - Simplesmente inútil e antipedagógico atribuir uma derrota a ação tenebrosa do inimigo. Afinal, não se pode esperar, na luta de classes, que o inimigo seja brando ou civilizado. O essencial é sempre entender os erros e deficiências que impediram derrotar esse inimigo."


Pois é! Fico pensando num monte de coisas. Em tese, concordo plenamente com a essência do que Breno Altman diz. Mas ao ficar lembrando das histórias, inclusive os exemplos que citei acima, acho que não é bem assim. 

A questão do método, que Altman nos apresenta, faz parecer que toda derrota é fruto somente de nossos erros e não do mérito do inimigo. Há séculos a esquerda e a classe trabalhadora só estariam errando ao tentar mudar a situação de exploração na qual vivemos todos nós que não pertencemos ao seleto grupo dono de todo o poder no mundo, alguns humanos que detêm tudo.

Não é bem assim... não é mesmo! Eles têm as armas, os capitães do mato, os ideólogos pagos, os meios de produção, eles fazem até "ação tenebrosa" que muitas vezes a esquerda não tem coragem de fazer como, por exemplo, eliminar fisicamente os inimigos... Breno, meu camarada, não acho que é tão simples assim avaliar que nossas derrotas são só por nossa culpa. 

Registro aqui que sou grande admirador de Breno Altman, por isso fiquei pensando no post dele.

E, claro, #LulaNoPrimeiroTurno e votem em parlamentares de esquerda!

É isso.

William

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Non Serviam (1914) - Vicente Huidobro



Vicente Huidobro. Foto de autor desconhecido.

Refeição Cultural

Este manifesto de Vicente Huidobro foi lido em 1914. O poeta chileno foi um dos autores que mais contribuiu com textos, manifestos e documentação a respeito das vanguardas latino-americanas.

Estamos estudando as vanguardas em uma disciplina de graduação de Letras, na Universidade de São Paulo. O intuito do blog é postar anotações de aulas, comentários sobre leituras, excertos de algumas obras ou de produções históricas, sempre de forma gratuita e de compartilhamento de conhecimento.

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NON SERVIAM*

Y he aquí que una buena mañana, después de una noche de preciosos sueños y delicadas pesadillas, el poeta se levanta y grita a la madre Natura: Non serviam.

Con toda la fuerza de sus pulmones, un eco traductor y optimista repite en las lejanías: "No te serviré".

La madre Natura iba ya a fulminar al joven poeta rebelde, cuando éste, quitándose el sombrero y haciendo un gracioso gesto, exclamó: "Eres una viejecita encantadora".

Ese non serviam quedó grabado en una mañana de la historia del mundo. No era un grito caprichoso, no era un acto de rebelbía superficial. Era el resultado de toda una evolución, la suma de múltiples experiencias.

El poeta, en plena conciencia de su pasado y de su futuro, lanzaba al mundo la declaración de su independencia frente a la Naturaleza.

Ya no quiere servirla más en calidad de esclavo.

El poeta dice a sus hermanos: "Hasta ahora no hemos hecho otra cosa que imitar al mundo en sus aspectos, no hemos creado nada. ¿Qué ha salido de nosotros que no estuviera antes parado ante nosotros, rodeando nuestros ojos, desafiando nuestros pies o nuestras manos?

"Hemos cantado a la Naturaleza (cosa que a ella bien poco le importa). Nunca hemos creado realidades propias como ella lo hace o lo hizo en tiempos pasados, cuando era joven y llena de impulsos creadores.

"Hemos aceptado, sin mayor reflexión, el hecho de que no puede haber otras realidades que las que nos rodean, y no hemos pensado que nosotros también podemos crear realidades en un mundo nuestro, en un mundo que espera su fauna y su flora propias. Flora y fauna que sólo el poeta puede crear, por ese don especial que le dio la misma madre Naturaleza a él únicamente a él."

Non serviam. No he de ser tu esclavo, madre Natura; seré tu amo. Te servirás de mí; está bien. No quiero y no puedo evitarlo; pero yo también me serviré de ti. Yo tendré mis árboles que no serán como los tuyos, tendré mis montañas, tendré mis ríos y mis mares, tendré mi cielo y mis estrellas.

Y ya no podrás decirme: "Ese árbol está mal, no me gusta ese cielo..., los míos son mejores".

Yo te responderé que mis cielos y mis árboles son los míos y no los tuyos y que no tienen por qué parecerse. Ya no podrás aplastar a nadie con tus pretensiones exageradas de vieja chocha y regalona. Ya nos escapamos de tu trampa.

Adiós, viejecita encantadora; adiós, madre y madrastra, no reniego ni te maldigo por los años de esclavitud a tu servicio. Ellos fueron la más preciosa enseñanza. Lo único que deseo es no olvidar nunca tus lecciones, pero ya tengo edad para andar solo por estos mundos. Por los tuyos y por los míos.

Una nueva era comienza. Al abrir sus puertas de jaspe, hinco una rodilla en tierra y te saludo muy respetuosamente.


*Este manifesto foi lido no Ateneo em 1914, em Santiago do Chile. Foi reproduzido nas Obras Completas 1, de Vicente Huidobro.

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domingo, 12 de junho de 2016

Leitura: Um velho que lia romances de amor (1989) - Luis Sepúlveda



História apaixonante...

Refeição Cultural

"A vida na selva temperou cada detalhe de seu corpo. Adquiriu músculos felinos, que com o passar dos anos se tornaram rijos. Sabia tanto da selva quanto um shuar. Era tão bom rastreador quanto um shuar. Nadava tão bem quanto um shuar. Definitivamente, era como um deles, mas não era um deles."


Um início

A vida é interessante. Ela é toda feita de ligas a partir de instantes, liames de coisas em tese desconexas.

Dias desses, estava eu nos raros momentos de descanso em casa, zapeando canais na TV, quando parei num documentário que falava da vida e obra de um cidadão chileno de nome Luis Sepúlveda. Parei para ver o que era.

Fiquei encantado com a história da vida do cara. Ele foi militante de esquerda no Chile de Salvador Allende, fez parte da Guarda Nacional e estava no La Moneda no dia trágico do Golpe em 11 de setembro de 1973.

Depois virou um exilado e auto-exilado pelo mundo, passando por alguns países na América do Sul, depois Europa. Conviveu com os índios shuares, na Selva Amazônica, conheceu Chico Mendes, ao qual dedica o livro que acabei de ler.

No dia do documentário, minha esposa viu que fiquei vidrado na história de Sepúlveda e nas perspectivas que se abriam com sua obra literária.

Dias depois, ela me daria de presente o livro "Um velho que lia romances de amor", lançado em 1989, por Luis Sepúlveda. Foi meu presente de dia dos namorados, dado a mim faz dias porque neste 12 de junho estamos cada um num lugar deste país, eu em Brasília, ela em São Paulo.

Neste sábado, acordei e abri o livro para ler. Acabei agora há pouco. Estou emocionado, arrepiado, com lágrimas nos olhos. É aquele turbilhão que a catarse nos dá.

Durante a leitura, me vi nos anos oitenta. Alternei minha lembrança de mundo infantil e adolescente de quem andou em mato - é lógico que não se compara ao cenário da Amazônia, mas andei em mato onde cresci -, fiquei revoltado com os homens que tudo destroem, com a frieza do "progresso" capitalista. Emocionei com a história da personagem principal, Antonio José Bolivar Próaño, que descobriu nos romances de amor, uma válvula de escape para esse mundo duro, desgraçado e impiedoso dos humanos.


Estou envelhecendo e espero poder ler muitos
romances, inclusive os de amor.

Noni, obrigado pelo presente do dia dos namorados. Adorei! Como sempre, eu sou o presenteado em datas comemorativas e poucas vezes retribuo com presentes. Sinta minha gratidão pela leitura que acabei de fazer e feliz dia dos namorados. Aprendemos a superar as merdas da vida e hoje temos a parceria e o companheirismo de uma relação a dois. Com o avançar da idade, essa cumplicidade é a liga mais importante nas relações humanas.

Um beijo a você e recomendo aos amig@s e amantes da leitura que conheçam essa figura, Luis Sepúlveda, que também tem uma história de amor em sua vida pessoal toda feita dos acasos, encontros e desencontros da vida.

William
Um amante da leitura


Um velho que lia romances de amor

É difícil não lembrar de outra obra que sou apaixonado desde muito tempo ao ler esta história de Antonio José Bolivar Próaño, passada na Selva Amazônica. Nosso velho aqui é nosso Santiago da clássica obra de Hemingway, O velho e o mar, que já li cinco vezes. 

Desta vez, o homem se depara com o mato e com uma onça vítima da crueza humana, que lhe matou as crias e feriu o macho. Antonio José Bolivar aprendeu a viver e conhecer o mato como poucos brancos, porque conviveu com os índios shuares. Uma frase dita durante toda a narrativa do livro me marcou bastante:

"Ele não era um deles, mas era como um deles"


Pensei tanta coisa com essa descrição. Ela serve para cada um de nós, talvez, por algum momento que já lidamos em nossas vidas.


O cenário - Selva Amazônica

"O céu era uma ameaçadora barriga de burro inchada, pendurada a poucos palmos das cabeças. O vento morno e pegajoso varria algumas folhas soltas e sacudia com violência as bananeiras raquíticas que enfeitavam a fachada da delegacia.

Os poucos habitantes de El Idilio e mais um bando de aventureiros vindos das redondezas se reuniam no cais, esperando a vez de se sentar na cadeira portátil do doutor Rubicundo Loachamín, o dentista, que aliviava as dores de seus pacientes mediante um curioso tipo de anestesia oral..."


Essa primeira parte com os causos do dentista me fizeram lembrar os anos setenta e oitenta, como eram tratadas as questões de dente, não-dente e dentaduras em todos nós, povão. (como evitar a referência de que estamos ficando velhos...)


E então, o velho atiça a curiosidade por livros

"O velho permaneceu no cais até que o barco desapareceu engolido por uma curva de rio. Então decidiu que nesse dia não falaria com mais ninguém, tirou a dentadura postiça, envolveu-a num lenço e, apertando os livros junto ao peito, foi para a cabana..."


Os brancos em meio às bernes e a chegada dos sábios índios shuares

"Sentiam-se perdidos, numa luta estéril contra a chuva que a cada investida ameaçava carregar a cabana, com os mosquitos que em cada pausa do aguaceiro atacavam com uma ferocidade sem igual, apossando-se de todo o corpo, picando, sugando, deixando ardentes víbices e larvas sob a pele, que em pouco tempo buscariam a luz abrindo feridas supurantes em seu caminho para a liberdade verde, com os animais famintos que rondavam pelo mato povoando-o de sons estremecedores que tiravam o sono, até que foram salvos pelo surgimento de uns homens seminus, de rostos pintados com polpa de urucum e enfeites multicoloridos nas cabeças e nos braços.

Eram os shuares que, compadecidos, tinham vindo ajudá-los..."


Em minha infância e adolescência, cansei de ver pessoas com bichos de pé, bernes, carrapatos grudados até parecer um grão de feijão... esse negócio de humano no meio do mato tem consequências reais para esses animais mamíferos que somos!


A cerimônia fúnebre dos shuares, a passagem para outras formas de vida e o amor

"Compartilhou do festim generoso oferecido pelos velhos que decidiam ter chegado sua hora de 'partir' e, quando estes adormeceram sob os efeitos da chicha e da natema, em meio a venturosas visões alucinadas que lhes abriam as portas de futuras existências já delineadas, ajudou a levá-los até uma cabana afastada e a cobrir seus corpos com o dulcíssimo mel da palmeira chonta.

No dia seguinte, entoando anents de louvor àquelas novas vidas, agora com formas de peixes, borboletas ou animais sábios, ajudou a reunir os ossos brancos, limpíssimos, os restos desnecessários dos anciãos transportados para outras vidas pelas mandíbulas implacáveis das formigas afiango.

Durante sua vida entre os shuares não precisou dos romances de amor para conhecê-lo."


Comentário final

Eu poderia citar tantas passagens emocionantes, que transmitem algo a se refletir. Mas eu prefiro sugerir que as pessoas conheçam a obra deste cidadão do mundo, Luis Sepúlveda.

Já faz um tempinho que tenho cismado sobre a passagem do tempo. Estou entrando numa fase da vida onde é necessário refletir o tempo todo sobre o que é mais importante, porque meu tempo não está mais vindo, está indo (e há tanto por se fazer...)

Termino a postagem com uma passagem da história:

"Certa manhã, Antonio José Bolivar descobriu que estava envelhecendo quando errou um tiro de zarabatana. Também chegava a sua hora de partir..."



Bibliografia

SEPÚLVEDA, Luis. Um velho que lia romances de amor. Tradução: Josely Vianna Baptista. Editora Relume Dumará, 2005.


quinta-feira, 28 de abril de 2016

Diário - 280416


E essas flores? Após ver o programa
que abordou a vida e obra do escritor
Luis Sepúlveda, ficou em mim a questão
do exílio e lembrei dessas flores de
minha Osasco querida!

Estamos em Maceió, Alagoas. Final de noite.

Estou em um quarto de hotel após um dia de trabalho muito positivo em busca do fortalecimento de nossa Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, onde sou gestor eleito pelos bancários. Estivemos minha equipe da Cassi Alagoas e eu em reunião com as lideranças do Banco aqui no Estado e com as lideranças do Sindicato. Fizemos diversos acordos de parcerias para fortalecer o modelo assistencial e a própria Cassi. Fiquei feliz pela reunião.

Quem disse que eu pude descansar ao chegar ao hotel? Minha natureza me impulsionou a sentar no computador e trabalhar. Fiz liberações de documentos, algumas leituras obrigatórias e escrevi, escrevi e escrevi.

Para distrair um pouco, liguei a TV (calma, pessoal, não foi no P.I.G. e lixos golpistas do gênero). Coloquei em um canal de cultura e vi três programas.

Foi encantador ver um programa sobre Mário de Andrade e a maravilhosa obra Macunaíma, obra que sou apaixonado.

Depois vi e me emocionei com um programa falando do escritor Luis Sepúlveda. Minha nossa! Como pode minha ignorância? Eu não o conhecia e fiquei louco para comprar suas obras e ler tanto elas quanto ler a respeito da vida do homem que esteve com Allende até o último instante naquele 11 de setembro fatídico. Ele próprio no programa falou muito sobre o tema Exílio. Lembrei de uma matéria que fiz na USP sobre exílio e literatura.

Mas hoje não posso nada a respeito de leituras e literaturas... sou todo Cassi.

Enfim, vamos dormir. Mas ao menos escrevi muito hoje.

William Mendes

domingo, 15 de janeiro de 2012

Vacaciones - viagem de férias (V)

Composição 1: Obelisco e torre de aço
O quinto dia do pacote de viagem não é um dia de férias. É um dia de martírio. Ao invés de curtir as férias, os trabalhadores que compram esses pacotes que incluem mais de um lugar de estadia - país, estado etc -, passam o dia de mudança de local em função de uma merda de trânsito de um lugar ao outro.

Composição 2: Árvore rosada.

Ou seja, ao final das contas, um pacote de oito dias de viagem incluindo dois países é, na verdade, um pacote que o turista paga por cinco dias de estadia e três dias de trânsito. NÃO FAÇAM ISSO!

Composição 3: Homem nu carregando pombas.

SÁBADO SALVO PELA MANHÃ

Por sorte, neste sábado 14/01 pela manhã, inventei de sair cedo e dar um rolê pela cidade de Santiago para não ficarmos só em função de sair do Chile e chegar a Argentina para dormir.

Composição 4: Anjo, leão e torre de aço.

O passeio foi produtivo em relação a bater boas fotos - meus leitores já perceberam que gosto de bater fotos com focos interessantes e composições próprias.

Composição 5: Obelisco, bandeira chilena, cavalo e homem e aços.

Acho que caminhei uns 4 ou 5 km hoje de manhã em Santiago. Saí do bairro Las Condes, onde estávamos hospedados e caminhei até a estação Santa Luzia do metrô. Bati umas fotos legais das praças por onde passei.

Composição 6: Palmeira-do-Chile, bandeiras e estátua chilenas.

Andei pela avenida Providência até ela mudar de nome. Passei pela Universidade Católica do Chile e cheguei ao meu objetivo inicial - o Cerro Sta Luzia.

Composição 7: Mãos e olhos dos patronos da Universidade Católica do Chile.

Lá tem uma fonte inspirada na fonte que existe em Roma - Fontana di Trevi. Continuei subindo até o fim e fui olhar a cidade de Santiago do mirante que há ali.

Composição 8: Fontana di Trevi chilena, torre de aço e palmeira-do-Chile.

Após chegar ao objetivo inicial da caminhada, desci no maior pique para ir embora pois faltava uma hora para fazer check out no hotel. E eu ainda fui embora de metrô. Cheguei pingando de suor.

Composição 9: Velha luminária no céu azul e verde chileno.

O dia só não foi todo perdido por minha aventura corrida de manhã.

Composição 10: E o céu chileno se fez em flor.

A tarde e a noite foi toda em função de espera, espera, trânsito, espera, filas (cola), check in, cola, filas de mais de uma hora de espera e desrespeito aos passageiros na emigração argentina, espera, falta de respeito aos turistas... hotel às 22h só pra chegar, hospedar e dormir.

Composição 11: Avião sombra de día turístico fantasma pousa em Buenos Aires

FOTOILUSTREI esta postagem com umas fotos bem legais entre os parágrafos para embelezar um pouco esse dia de martírio de turista de pacote de viagem.

Fui... quer dizer, cheguei... à Argentina.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Vacaciones - viagem de férias (IV)

Nesta sexta-feira 13, ou seja, el viernes 13, fizemos um passeio para o litoral chileno. Fomos conhecer a antiga e histórica cidade de Valparaíso, onde está o principal porto do Chile. Também conhecemos o balneário de Viña del Mar.


Montanhas envoltas em neblina formada pela umidade do Pacífico. Ela é fundamental para as plantações.

A ida para o litoral descendo por aquelas montanhas maravilhosas é de um visual deslumbrante. O contraste entre o marrom meio amarelado das montanhas mesclado com os vales verdes verdes de plantações de uvas, limões, azeitonas e milhos é imponente. Se somarmos este contraste com o azul azul do céu então, a visão é única.


Vejam os vales verdes com a forte aridez das montanhas.

Uma coisa me chamou bastante a atenção: a cada minuto se vê casas e áreas comerciais com a bandeira do Chile tremulando ao alto. Já havia percebido isso na cidade de Santiago. Aliás, aprendemos sobre o significado das cores da bandeira chilena com a nossa simpática guia Chailot.

A bela bandeira chilena. Toda bandeira tem uma história e é interessante conhecê-la.

O azul simboliza o céu sempre muito muito limpo. O branco representa a neve dos Andes. O vermelho é o sangue daqueles que lutaram pela independência do país. A estrela significa a unidade do país como uma república unitária e não como uma república federal.

A cidade lá embaixo, o porto de Valparaíso e um detalhe que adoro: esses postes de iluminação antigos.

A visão de Valparaíso é muito forte para quem é um apreciador da história do mundo e das sociedades. Estar por algum tempo ali foi uma sensação muito boa.

Um velho funicular descendo com passageiros. Descemos por ele também a 300 pesos (pouco mais que 1 real).

O grupo almoçou no balneário de Viña del Mar. Fomos em um restaurante típico e comemos um almoço completo com aperitivo, entrada, prato principal (peixe, claro!), postre e café. Muy exquisito!!

Monumento "la patria reconocida..." na praça central de Valparaíso.

Após o almoço, fomos um pouco para uma praia do local. A água do Oceano Pacífico é muito gelada. Agora já conheço dois oceanos.

Nosso grupo almoçou em um restaurante típico de Viña del Mar.

DETALHES
Vimos um monte de leões marinhos nas pedras da praia.

Leões marinhos descansam nas pedras. Clique na foto para ver um pouco melhor (minha máquina não tem zoom profissional).

No Chile só tem carro importado. Mas em Valparaíso os carros lembram os carros da ilha de Cuba, muitos devem ter décadas rodadas.

Carros antigos convivem com milhares de carros novos e luxuosos.

Os funiculares (bondinho/elevador de subir e descer morros) são muito antigos e típicos daqui. Há prédios de apartamentos incrustados nas rochas e penhascos que usam funiculares ao invés de elevadores para as pessoas chegarem nos andares.


Relógio de flores de Viña del Mar.

Vimos o famoso relógio de flores de Viña del Mar.

Não adiantou minha capacidade de voar. Depois acabei conhecendo o gelo da água do Pacífico.

Ao descer para o litoral, vimos que aqui também é cheio de pedágios.


CHILE - PAÍS ACOLHEDOR E GENTE DE BEM

Amanhã vamos para a Argentina. A impressão que fica do povo chileno é muito boa. Na minha opinião, é um povo receptivo e muito simpático.


Quadro do poeta Pablo Neruda no restaurante onde almoçamos.

Não foi possível ver muita coisa. Nem na casa de Pablo Neruda em Valparaíso deu pra ir. Não fizemos nenhum passeio específico na Cordilheira dos Andes. Se tivesse mais tempo, iria entrar nos museus da cidade de Santiago e apreciar com calma as obras.

É isso. Eu voltaria aqui tranquilamente várias vezes.

Obrigado povo chileno.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Vacaciones - viagem de férias (III)

A bela América do Sul no mundo em lapislazúli.

Nesta quinta-feira 12, o dia em Santiago foi mais tranquilo. Fizemos o city tour oferecido pelo pacote de viagem.

Voltamos em alguns lugares que havíamos ido no dia anterior. Mas foi bom da forma que fizemos, pois o roteiro com o grupo de turistas é aquele que não dá tempo de fazer nada porque são 20 ou 30 minutos em cada local. Ou seja, se não tivéssemos andado o dia todo ontem nos lugares que queríamos, hoje ficaríamos com raiva do city tour.


Palacio del Gobierno ou La Moneda. Local histórico onde Allende resistiu ao golpe.

As explicações da guia local, uma moça muito simpática e politizada, são muito interessantes. Soubemos de algumas características geográficas do Chile e também da história e da cultura do país.


Ione ao lado do homem-estátua rsrs... é um soldado da guarda.

A mineração é a principal atividade econômica. As pedras lapislazúli são muito raras e extraídas no Afeganistão e no Chile (duas vezes por ano). O cobre também é outra base da cultura chilena desde os povos da antiguidade andina.


Estátua sob uma Palmeira-do-Chile na Plaza de Armas, marco zero de Santiago.

Também nos foi falado sobre a Palmeira-do-Chile que é típica desta região da América do Sul. As plantas daqui devem se adaptar a um clima muito antagônico, porque em geral não chove por 9 meses do ano e tanto faz uns 40º em uma época como neva em outra.


Vista a partir do Cerro San Cristóbal. Um dos trocentos prédios espelhados e gigantes.

Após o passeio pelo centro da cidade, o city tour subiu uma bela serra aonde pudemos avistar Santiago e os montes nevados da Cordilheira dos Andes. Apreciamos o visual no mirante do Cerro San Cristóbal, que fica a 880 metros de altitude. Foi algo para não esquecermos que a capital chilena está ao pé dos Andes.

Picos nevados das Cordilheiras dos Andes. É comum a neblina dificultar a visão.

Após o passeio da manhã, almoçamos perto do bairro onde estamos hospedados, Las Condes. No dia de amanhã vamos fazer o passeio para Valparaíso e Viña del Mar.

Picos nevados das Cordilheira dos Andes.

DETALHES
É surpreendente saber que as construções da cidade têm resistido aos terremotos que ocorrem com certa frequência no Chile.

Nesta foto vemos os dois picos de neves nas cordilheiras.

A Catedral de Santiago, por exemplo, resistiu bem ao forte abalo sísmico de 8,8° na escala richter ocorrido em 2010. No entanto, entre as duas torres da fachada se percebe que falta uma parte da construção. Havia uma santa ali que despencou no momento do terremoto.

Interior da Catedral de Santiago. Essa maravilha tem resistido aos terremotos.

Mas fiquei olhando a catedral por dentro e fiquei estupefato de saber que toda aquela beleza resistiu e vem resistindo aos terremotos no país.

Havia uma santa entre as duas torres. Com o terremoto de 2010 ela não resistiu.

Segundo nos informamos, a grande maioria das construções daqui são feitas já com as tecnologias para suportar abalos sísmicos fortíssimos.

É isso. É madrugada de novo e vamos dormir...