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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Livro: Yargo - Jacqueline Susann



Refeição Cultural

LITERATURA

"Ah, Deus, implorei. Se for alguma coisa de Marte, não deixe que seja rastejante. Não me importo que tenha três olhos ou duas cabeças, só peço que não seja viscoso ou rasteje. Apoiei-me contra a parede e esperei."


Jacqueline Susann (1918-1974) escreveu em meados dos anos cinquenta do século passado um romance de ficção científica - Yargo (não publicado à época). 

A atriz e escritora norte-americana foi uma mulher que se destacou por sua capacidade de criação literária e por se impor como pessoa pública com opiniões próprias mesmo em sociedades tipicamente machistas e patriarcais. 

Li que ela tinha um altíssimo Quociente de Inteligência (QI), medidor muito comum naquele tempo. Como toda mulher, ela teve que ser muito firme em seus propósitos para ter uma carreira exitosa naquilo que escolheu fazer: escrever e interpretar.

Seu primeiro romance de sucesso foi O vale das bonecas (1966). Os dois romances seguintes - A máquina do amor (1969) e Uma vez só é pouco (1973) - tiveram boa acolhida dos leitores também: ela foi campeã de vendas. No Brasil, seus livros foram publicados pelo Círculo do Livro. A escritora faleceu precocemente, aos 56 anos, vítima de um câncer. Dois livros dela foram publicados após sua morte: Dolores (1976) e Yargo (1979).

Eu nasci em 1969 e passei a ler livros nos anos oitenta. Morava em Uberlândia (MG) e nossa família era muito humilde, éramos brasileiros típicos que lutavam diariamente para sobreviver num país violento contra os pobres e despossuídos e de impunidade aos ricos e donos do poder político. Meu primo Jorge Luiz assinava o Círculo do Livro e emprestar livros dele para ler foi uma oportunidade definidora de meus gostos naquele momento e como adulto.

Eu também dava meus jeitos de ler livros de interesse à época, ou comprando ou pegando na biblioteca da escola. Ficção científica, suspense e terror, ciências e coisas misteriosas eram alguns temas de meu interesse. Discos voadores, monstros, deuses e demônios, Triângulo das Bermudas, Atlântida, misticismo, histórias antigas de povos e civilizações etc, eu acreditava em tudo isso e lia muitos autores que abordavam esses temas.

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"Mais um líder se pôs de pé, com uma magnífica sugestão. Segundo a tradução de Sanau, a proposta dele era me fazerem uma lavagem cerebral e me mandarem de volta à Terra..."

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Foi esse rapaz que leu Yargo (1979), de Jacqueline Susann, ainda morando em Uberlândia. Aos 17 anos eu iria voltar para São Paulo, deixando meus pais em Minas Gerais. Devo ter lido dezenas de livros durante minha adolescência mineira, e alguns deles me impactaram e sem dúvida compuseram a pessoa na qual fui me transformando com o passar dos anos. Este romance de Susann foi um dos livros que nunca me esqueci, a história de Janet Cooper compôs minha memória de longo prazo. Óbvio que na memória o que ficou foi a lembrança da moça que foi abduzida na praia, sem detalhe algum.

Faz uns quinze anos, meu primo Jorge me perguntou se queria pegar alguns dos livros antigos dele, pois estava se desfazendo de tudo que era mídia de cultura em meio físico para só ter coisas digitais e virtuais. Eu escolhi livros como esse de Jacqueline Susann e, às vezes, sinto o desejo de reler um dos livros que li décadas atrás, no início de minha vida adulta, para tentar me encontrar com aquele rapaz que fui, naquele contexto, e tentar compreender como aqueles livros me caíram nos pensamentos e ideias que tinha à época. A experiência é bem interessante!

Ao decidir recentemente ler mais livros de mulheres e sobre mulheres, escritoras, poetas e políticas, pensei em alguns livros que tenho em casa, lidos ou aguardando a leitura. E o romance sobre aquela moça que foi abduzida na praia, e que ficou em minha lembrança como um livro marcante, de Jacqueline Susann, foi o escolhido dessas últimas semanas. Gostei do romance!

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"- Talvez eu possa esclarecer este desejo com um exemplo pessoal. Quando você era criança, Janet, provavelmente pensava que nunca iria para a cama, se permitissem. Quando chegava a hora, você relutava, como todas as criança, utilizando os mais diversos recursos. Contudo, agora que está mais velha e pode ficar acordada até a hora que quiser, há vezes em que recebe de bom grado o sono, e se entrega a ele voluntariamente. Assim é a morte para um yargoniano maduro."

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O livro é muito bem escrito. A autora teceu uma história que permite aos leitores, tanto da época quanto de hoje, perceberem as bases da sociedade norte-americana de meados do século vinte, os costumes e contradições, os temas em evidência naquele cenário de início de Guerra Fria e de efervescência consumista do estado de bem-estar social pós 2ª Guerra Mundial. É nítido o papel esperado das mulheres ao lado de seus maridos provedores do lar, a corrida armamentista e espacial entre EUA e URSS, o mundo religioso dos capitalistas em contraposição ao mundo dos ateus comunistas etc.

Aquelas décadas da segunda metade do século vinte alimentaram a imaginação de boa parte da população ocidental com a possibilidade de haver vidas inteligentes em outros planetas, discos voadores, viagens no tempo e espaço, formas de se dominar a mente das pessoas, poderes paranormais e super-homens e mulheres. O jovem que fui acreditou em absolutamente tudo isso. Eu li Charles Berlitz, J. J. Benítez, Erich Von Däniken, li vários livros de terror, demônios, fantasmas...

Enfim, valeu a leitura! Hoje sou outra pessoa, outro leitor. E tenho muitos livros a ler e reler, os clássicos que não li, os novos que estão sendo lançados e os livros que merecem a releitura. Inclusive fiquei interessado nos outros romances de Jacqueline Susann.

William

05/08/26


Bibliografia:

SUSANN, Jacqueline. Yargo. Tradução: Isabel Paquet de Araripe. Círculo do Livro. São Paulo, 1979.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Instantes (16h20)



Refeição Cultural

LEITURAS


Enquanto tentava ler no vagão do trem, um sujeito falava ao celular com uma garota. Tinha menos de trinta anos. Contou algumas vantagens sobre si a ela, a convidou pra jantar e dormir na casa dele, e para quebrar a resistência dela em aceitar, disse, então, que só jantassem. Disse que da outra vez a culpa foi dela, por ter trocado de roupa na casa dele. O tipo era desses que começou dizendo que foi orar pela manhã. Ao sair do trem, escolheu um senhor idoso perto dele, que também ouviu sua conversa, e lhe disse rindo que "a garota deu porque quis, né?".

Já em casa, concluí que foi inútil levar meu livro na mão, pensando em ler um pouco no transporte público. Li poucas páginas e ainda se estraga um pouco a capa com o suor da mão. Minha edição do romance Yargo, de Jacqueline Susann, é do Círculo do Livro, do início dos anos oitenta: bem velhinha pra um livro. Ganhei a edição de meu primo Jorge Luiz, de Uberlândia. Li o livro antes dos 17 anos. Enfim, multipliquem esse caso do sujeito que estava xavecando uma garota pelo celular por inúmeras conversas do tipo ao mesmo tempo em um vagão e concluam se é possível ler um livro no trem. Já era!

Quando fechei o livro, fiquei observando as pessoas no trem, depois nas ruas da Barra Funda, por onde andei. Depois no trem novamente. Estar entre o povo, observar a realidade ao nosso redor, é uma oportunidade de reflexão e tentativa de compreensão sobre nós mesmos, nossa espécie, nosso ambiente cultural, e também uma forma de pensar sobre o passado, presente e futuro. Somos isso que está aí... todos nós, vocês e eu.

No romance, na parte em que estou, os yargonianos não querem mandar Janet Cooper de volta à Terra por considerarem ela uma pessoa comum de nossa espécie, mediana, medíocre, sem capacidade de transmitir a questão complexa envolvida na trama e por ela não ter representatividade junto às comunidades humanas. A ideia era ter levado a Yargo o Einstein ou outro cientista de renome nos anos cinquenta. O começo do romance, guardadas as devidas diferenças, não deixa de ser um pouco como a cena de costume que vi no trem. Janet estava em seus dias de preparo para o casamento, um dos papéis atribuídos às mulheres naquela sociedade norte-americana àquela época, meados do século passado.

Pensando o povo no trem, nas ruas, nos dias de hoje, a Janet Cooper do romance, eu nos dias de hoje, o leitor e sujeito que fui nos anos oitenta, senti uma espécie de pessimismo (não fatalismo), mas uma consciência clara da dificuldade que temos para superar o projeto das elites econômicas de idiotizar a espécie humana, tornar nossa gente ignorante e, pior ainda, orgulhosa de não saber de quase nada que todos já deveríamos saber no atual estágio de desenvolvimento. 

Os acasos e veredas que me fizeram ter um pouco de consciência política hoje, eventos que moldaram meu caráter e definiram minha vida, em caminho diverso em relação aos meus pares no ambiente de onde vim, estão mais raros hoje. Se eu estivesse começando minha jornada, vindo de onde vim, dificilmente seria essa pessoa que sou: um homem com valores da esquerda. 

William 

03/08/26

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Livro: Forrest Gump - Winston Groom



Refeição Cultural 

LITERATURA NORTE-AMERICANA 


"Sou idiota de nascença. Meu QI é de quase 70, então eu encaixo na definição, pelo que falam. Se bobiar devo estar mais perto de ser um débil mental ou até mesmo um retardado, e pessoalmente prefiro achar que sou um pateta, ou auguma coisa do tipo, e não idiota..." (Groom, 2016, p. 9)


Certa vez, conversando com o amigo Jair Rosa, jornalista da Secretaria de Imprensa do Sindicato, falamos a respeito do personagem Forrest Gump. 

Eu havia corrido a São Silvestre com uma camiseta na qual escrevi "Run, Forrest, run!", e estava com uma barba enorme. Foi uma brincadeira legal! As pessoas na rua me viam e gritavam "Vai, Forrest!"; outras diziam "Olha o Forrest!". Foi divertido!

São Silvestre de 2009

O Jair me disse que seria legal ler o livro Forrest Gump. Eu nem sabia que existia o livro que teria inspirado o filme com a interpretação de Tom Hanks. 

Anos depois, ganhei o livro de minha companheira. Uma bela edição da Editora Aleph, com tradução de Aline Storto Pereira. O livro é de 1986 e o filme de 1994, dirigido por Robert Zemeckis.

Meu amigo me disse que no livro havia mais aventuras de Forrest, além daquelas que vimos no filme. 

Na verdade, a história de Forrest Gump no livro tem diferenças em relação ao filme, algo que considero normal. 

Na verdade, lendo o artigo de Isabelle Roblin - "Da página à tela: a reformulação de Forrest Gump" - incluído na edição que tenho, descobre-se que a história foi reescrita para o filme.

Acho importante citar também o tipo de deficiência intelectual do personagem: Síndrome de Savant, condição chamada no passado de "idiota savant". As pessoas com essa condição têm habilidades extraordinárias em certas áreas como matemática, música, artes e esportes, memória incrível etc.

O filme me marcou muito, de verdade. Tem cenas do filme que me fazem chorar e pensar muito na minha vida. Além, é claro, da trilha sonora espetacular!

Vamos ver o que a obra original nos traz. Ainda estou no começo, o livro é grande.  

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COMENTÁRIO SOBRE O LIVRO

02/02/26

"Mas eu bem sei uma coisa sobre os idiotas. Se bobiar é a única coisa que eu sei de verdade, mas eu li mesmo sobre eles... Li tudo desde o idiota dum tal Dois-toi-és-viquis, até o bobo da corte do Rei Lear; o idiota do livro do Faulkner, Benjie, e até o Boo Radley de O sol é para todos... ele era um idiota de verdade. O que eu gosto mais é o velho Lennie de Ratos e homens. A maioria desses escritores entendeu como funciona, porque seus idiotas são sempre mais espertos do que as pessoas pensam. Bom, eu concordava com isso. Qualquer idiota concordaria. Rá-rá." (Groom, 2016, p. 11)


Terminei a leitura do romance com um nó na garganta, da mesma forma que acontece comigo quando assisto ao filme de Zemeckis.

O mais difícil na leitura de um romance que já foi adaptado para o cinema é conseguir se desfazer das imagens do filme e da caracterização dos personagens, além das diferenças de adaptação do roteiro ou versão dada pelo diretor.

Então, antes de apresentar meu comentário sobre o romance de Winston Groom, registro que o filme é muito bom e que o livro é muito bom também, mesmo sendo obras com enredos bem diferentes. 

O personagem Forrest Gump tem algum grau de deficiência intelectual - Síndrome de Savant - e tanto ele quanto sua mãe sabem disso. Ele é um sujeito grande, de uns dois metros de altura, com uma bunda enorme. Desde pequeno, ele sempre deseja fazer as coisas certas, mesmo quando isso não acontece.

Além de sua mãe, outras pessoas foram importantes e marcaram a vida de Forrest Gump: Jenny Curran, amiga do colégio e amor de sua vida; Bubba, amigo da faculdade e companheiro na Guerra do Vietnã; e Tenente Dan, que conheceu na guerra. Outras personagens também vão aparecendo ao longo das peripécias que marcam a vida de Forrest.

Groom faz uma crítica ácida aos norte-americanos considerados "normais". Ao longo da história do deficiente intelectual Forrest Gump é comum vermos cenas como a do pneu do carro:

Forrest pega uma carona com um rapaz e o pneu do carro precisa ser trocado. Enquanto o motorista troca o pneu, deixa os parafusos caírem no bueiro e fica se lamentando por não poderem resolver o problema e irem embora. Forrest pensa por um instante e sugere ao motorista que tire um dos quatro parafusos de cada um dos três pneus e fixe o pneu trocado. O motorista fica puto e envergonhado por não ter pensado nisso e questiona Forrest "Como você pensou nisso se é idiota?" e Forrest responde "Sou idiota, mas não sou burro!".

O personagem carrega aquela ideia comum dos norte-americanos de se venderem como sujeitos que empreendem e que se dão bem na vida por esse motivo. Algo como "qualquer idiota esforçado consegue fazer qualquer coisa" (idiota no sentido de pessoa comum). É a ideia do self-made man, a meritocracia que manipula tanta gente de nossas classes exploradas e sem os direitos básicos da cidadania.

Forrest ao sabor do acaso vira jogador de futebol americano, astronauta, jogador de pingue-pongue, toca gaita de forma magistral, é campeão de xadrez, lutador de luta livre e outras coisas que vão aparecendo nas veredas que percorre na vida.

Com a produção de camarões, Forrest alcança fortuna e sucesso, mas mesmo com esses sonhos comuns dos homens do capital, algo falta para aquele cidadão, algo que não é dinheiro. Algo que dê sentido e satisfação em sua vida. Percebemos isso quando Forrest insiste em lutar mais após ter conseguido o dinheiro que precisava para o projeto dos camarões. 

Valeu bastante a experiência de ler a obra original que inspirou o filme de sucesso dirigido por Robert Zemeckis em 1994, com interpretações magistrais de Tom Hanks (Forrest Gump), Robin Wright (Jenny Curran), Gary Sinise (Tenente Dan), Sally Field (Senhora Gump), Mykelti Williamson (Bubba) e demais personagens no elenco.

Sobre o filme, reafirmo que sou um fã desde a primeira vez que o vi. E a trilha sonora é inesquecível!

William


Bibliografia:

GROOM, Winston. Forrest Gump. Tradução: Aline Storto Pereira. Ilustrado por Rafael Coutinho. São Paulo: Aleph, 2016.


segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Livro: Poemas - T. S. Eliot



Refeição Cultural 

Janeiro de 2025


O livro Poemas, de 1920, é o segundo livro de T. S. Eliot. Estou lendo uma bela e bem-acabada edição da Companhia das Letras, organizada, traduzida e com posfácio do professor Caetano W. Galindo.

Registro o mesmo sentimento que tive ao ler o primeiro livro dele Prufrock e outras observações, de 1917: não é uma poética de fácil compreensão para mim, prefiro outros autores. Mas estou firme na leitura. 

Deste livro o poema que mais gostei foi "Lune de Miel" (comentário aqui).

T. S. Eliot é contemporâneo de James Joyce. Deve ser por isso que os versos sem muito sentido para mim sejam meio doidos como algumas passagens de Ulysses, de Joyce, também traduzido por Galindo (comentário aqui).

Meu desejo é conhecer mais autores e suas poéticas. É reduzir minhas lacunas culturais. 

O próximo livro de Thomas Stearns Eliot é um dos mais aclamados da crítica: A terra devastada, de 1922. Vamos ver se os poemas me agradam mais.

Eu tenho um compromisso com a sinceridade e a honestidade na produção de meus textos aqui no blog. Por isso sou sincero em dizer como foi a leitura de autores e suas obras. 

Enfim, mais um livro lido neste início de ano.

William 


Bibliografia:

ELIOT, T. S. Poemas. Org. tradução e posfácio Caetano W. Galindo. - 1a ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


Leitura de poesia (50) - Gerontion, T. S. Eliot



GERONTION - T. S. ELIOT


     Thou hast nor youth nor age

But as it were an after dinner sleep

Dreaming of both


Eis-me aqui, um velho num mês seco,

Um menino lê em voz alta, espero a chuva.

(...)


Depois de tal saber, qual perdão? Pense agora

Que a história abunda em passagens ardilosas, corredores engenhosos

E saídas, ilude em sussurrantes ambições,

Nos guia por vaidades. Pense agora

Que ela dá quando nos vemos distraídos

E o que dá, dá com tão amplas confusões

Que dar mata de fome o desejo. Dá tarde demais

O em que não se crê mais, ou caso ainda,

Somente na memória, paixão repensada. Dá cedo demais

A mãos fracas, o que se pensa ser supérfluo

Até que recusar propaga um medo. Pense

Que medo nem coragem salvam. Perversos vícios

São cria de nosso heroísmo. Virtudes

Nos são impostas por nossos impudentes crimes.

Tais lágrimas colhem-se da árvore que dá fúria.

(...)


Versos do Poema "Gerontion" de 1920

Tradução de Caetano W. Galindo.

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COMENTÁRIO:

Ao ler este poema, fiquei pensando no acontecimento no dia de hoje nos Estados Unidos: a posse de Trump e aquela corja de gente no evento, com direito a saudação nazista e tudo.

É interessante reproduzir a nota de Galindo sobre este poema:

"Thou hast nor youth nor age: O título grego do poema significa 'velhinho'. A epígrafe shakespeariana vem de Medida por medida (ato III, cena I). Na cena um personagem diz a outro que a morte é consequência natural de uma vida que é por definição passageira. 'Tu não tens juventude nem idade,/ Mas como se fosse mera sesta depois da refeição/ Sonhando com essas duas coisas.'" (p. 370)

-

"Depois de tal saber, qual perdão? Pense agora

Que a história abunda em passagens ardilosas, corredores engenhosos"


Pois é, a história abunda de passagens ardilosas...

Estamos vendo o repeteco da história e suas passagens ardilosas com o que vem se passando com os Estados Unidos e com o mundo prestes a conhecer o resultado por sermos guiados por vaidades... E sabendo como foi a história, como perdoar?


"Guides us by vanities."

Aquele ajuntamento de feras humanas no evento de hoje me parece ter relação com a epígrafe shakespeariana do poema:

"Tu não tens juventude nem idade,/ Mas como se fosse mera sesta depois da refeição/ Sonhando com essas duas coisas."


Guiados por vaidades... Que cena dantesca: o velho irado, os donos das big techs, o manipulador nazista...

Estejamos preparados...

William


Bibliografia:

ELIOT, T. S. Poemas. Org. tradução e posfácio Caetano W. Galindo. - 1a ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (36) - Lune de Miel, T. S. Eliot



LUNE DE MIEL - T. S. ELIOT


Viram os Países-Baixos, voltam em Terre Haute;

Mais uma noite, e chegam a Ravena bela,

Lassos entre lençóis, com seus duzentos percevejos;

O suor estival e um forte odor de cadela.

Descansam de costas, joelhos abertos,

As quatro pernas moles bem inchadas de picadas.

Ergue-se o lençol para coçar melhor. 

A menos de uma légua, Saint Apollinaire

En Classe, basílica famosa entre os que adoram

Capitéis de acanto que o vento torneia.


Vão pegar o trem das oito horas 

Prolongar suas dores de Pádua a Milão,

Onde fica a Ceia e um restaurante nada caro.

Ele pensa nas gorjetas, mede o quanto gastarão.

Terão visto a Suíça e cruzado toda a França. 

E Saint Apollinaire, rígida e ascética,

Velha fábrica por Deus abandonada, guarda ainda

Em suas pedras arruinadas a forma exata de Bizâncio.


Do livro Poemas (1920)

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COMENTÁRIO:

Vi no poema certa semelhança com a temática dos poemas anteriores que escolhi, do livro de 1917: gente da classe trabalhadora e seu mundo do prazer carnal. 

A empregada da Tia Helen no colo do lacaio após a morte da patroa.

A sensualidade da boca da mulher na mesa de um café ou restaurante e os seios em movimento, no poema "Histeria". 

O casal em lua de mel proletária, com suor, percevejos, pernas picadas inchadas e coçando, e contando os tostões pra economizar o que puder. 

Aos poucos, vou conhecendo a poética de T. S. Eliot. 

Sigamos lendo poesia. 

William 


Bibliografia:

ELIOT, T. S. Poemas. Org. tradução e posfácio Caetano W. Galindo. - 1a ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


Livro: Prufrock e outras observações - T. S. Eliot



Refeição Cultural 

Janeiro de 2025


Li e reli o primeiro livro de poesias de T. S. Eliot, de 1917. São doze poemas, alguns deles longos.

Thomas Stearnes Eliot nasceu em St. Louis, Missouri, nos Estados Unidos. 

A edição que tenho das poesias de Eliot é organizada e traduzida pelo professor Caetano W. Galindo, da Universidade Federal do Paraná. 

Dele, já li a excelente edição de Ulysses, de James Joyce. Galindo é tradutor excepcional de romances e poesias. 

Eu tenho grandes lacunas culturais em relação a romances clássicos e obras poéticas. Não conhecia ainda T. S. Eliot. 

Seu primeiro livro foi de leitura difícil para mim. Vamos ver os seguintes, se me identifico mais com o poeta ganhador do Nobel de Literatura de 1948.

Sigamos em busca de novos conhecimentos. 

William 


Bibliografia:

ELIOT, T. S. Poemas. Org. tradução e posfácio Caetano W. Galindo. - 1a ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (19) - Histeria, T. S. Eliot



HISTERIA - T. S. ELIOT


Enquanto ela ria eu me vi sendo envolvido por seu riso e me tornando parte dele, até que seus dentes fossem apenas estrelas fortuitas com talento para ordem-unida. Fui tragado por alentos curtos, inalado a cada momentânea recuperação, fiquei por fim perdido nas cavernas negras de sua garganta, machucado pelo ondular de músculos invisíveis. Um garçom idoso de mãos trêmulas estendia apressado um tecido xadrez branco e rosa sobre a mesa de ferro verde oxidado, dizendo: "Se a senhora e o cavalheiro preferem tomar seu chá no jardim, se a senhora e o cavalheiro preferem tomar seu chá no jardim...". Decidi que se fosse possível deter o balanço de seus seios alguns cacos da tarde poderiam ser recolhidos, e concentrei minha atenção com cuidadosa sutileza para tal fim.


Poema de 1917

Tradução: Caetano W. Galindo 

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COMENTÁRIO:

O poeta está no início do século passado, e seus poemas trazem temas sexuais ou erotizados que podem desconcertar as elites locais. 

Na obra Prufrock e outras observações (1917), no poema "Tia Helen", vemos os prazeres da carne sendo explicitados por Eliot.

"E o lacaio sentou sobre a mesa da sala/Tendo a segunda criada no colo -/Ela, tão ciosa quando em vida da patroa."


Em "Histeria" temos a cena de uma mulher com uma boca tão sensual que o Eu-lírico fica alucinado por ela.

E para ampliar a imagem da sensualidade no poema, tem ainda o balanço dos seios...

Em ambos, performam personagens da classe trabalhadora: empregados em residências e garçons nos pequenos restaurantes. 

É a vida cotidiana se desenvolvendo na sociedade, sob o olhar atento do poeta, que denuncia as hipocrisias e recalques daquela gente que se faz de "chique" ou "de família" e farsas do tipo.

Sigamos lendo poesia neste mês. 

William Mendes 


Bibliografia:

ELIOT, T. S. Poemas. Org. tradução e posfácio Caetano W. Galindo. - 1a ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


sábado, 24 de agosto de 2024

Fahrenheit 451 - Ray Bradbury



Refeição Cultural 

"- É um trabalho ótimo. Segunda-feira, Millay; quarta-feira, Whitman; sexta-feira, Faulkner. Reduza os livros às cinzas e, depois, queime as cinzas. Este é o nosso slogan oficial."


Custei achar o livro em casa, quando acordei. Refleti que fazia tempo que não lia um romance. Só tenho lido política e outras coisas do tipo. Por que não ler Fahrenheit 451? Faz mais de uma década que o li.

Vi com entusiasmo a notícia que um dos maiores nomes das redes sociais, Felipe Neto, um "influenciador digital" sugeriu a leitura do livro de Ray Bradbury. O fato fez a venda do livro disparar. Interessante!

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A RELEITURA

Um mundo de gente fútil, vazia, uma mesmice só...

"- As pessoas não conversam sobre nada.

- Ah, elas devem falar de alguma coisa!

- Não, de nada. O que mais falam é de marcas de carros ou roupas ou piscinas e dizem: 'Que legal!'. Mas todos dizem a mesma coisa e ninguém diz nada diferente de ninguém..."

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Mundo abstrato

"(...) Você já foi alguma vez a um museu? Tudo abstrato. É só o que há agora. Meu tio diz que antigamente era diferente. Muito tempo atrás, os quadros às vezes diziam alguma coisa ou até mostravam pessoas."

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Economia da atenção 

É antiga a preocupação dos pensadores com essas máquinas que capturam as pessoas e suas consciências: Ray Bradbury já aponta nos anos 50 a geração "cara na tela" dos smartphones atuais.

"Não havia uma velha anedota sobre a esposa que falava tanto ao telefone que o marido, desesperado, correu até a loja mais próxima e telefonou para ela para perguntar o que havia para o jantar? Ora, então, por que ele não comprava uma estação transmissora para radioconchas, para conversar tarde da noite com sua mulher, murmurar, sussurrar, gritar, bradar, berrar? Mas o que ele sussurraria, o que gritaria? O que poderia dizer?" (p. 66/67)

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Pra que livros, estudos?

"- A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?" (p. 85)

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Igualdade através da ignorância total (sem os livros)

Frases:

- "Sempre se teme o que não é familiar"

- "Um livro é uma arma carregada na casa vizinha"

- "Quem sabe quem poderia ser alvo do homem lido?"

Excertos da página 89 de minha edição. 

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Os bombeiros de Fahrenheit 451

"Eles receberam uma nova missão, a guarda de nossa paz de espírito, a eliminação do nosso compreensível e legítimo sentimento de inferioridade: censores, juízes e carrascos oficiais. Eis o nosso papel, Montag, o seu e o meu." (p. 89)

Os bolsonaristas...

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Queimem os livros (cancelem tod@s aquel@s que incomodam, que fazem pensar...)

"- Os negros não gostam de Little Black Sambo. Queime-o. Os brancos não se sentem bem em relação à Cabana do pai Tomás. Queime-o. Alguém escreveu um livro sobre o fumo e o câncer de pulmão? As pessoas que fumam lamentam? Queimemos o livro. Serenidade, Montag. Paz, Montag. Leve sua briga lá para fora. Melhor ainda, para o incinerador..." (p. 90/91)

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Entupa as pessoas com dados, e evite a filosofia e a sociologia:

"(...) Encha as pessoas com dados incombustíveis, entupa-as tanto com 'fatos' que elas se sintam empanturradas, mas absolutamente 'brilhantes' quanto a informações. Assim, elas imaginarão que estão pensando, terão uma sensação de movimento sem sair do lugar. E ficarão felizes, porque fatos dessa ordem não mudam. Não as coloque em terreno movediço, como filosofia ou sociologia, com que comparar suas experiências. Aí reside a melancolia..." (p. 92/93)

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Quem quer perder tempo educando crianças?

Na segunda parte do romance, uma cena me chamou a atenção sobre o que aquela sociedade pensa sobre crianças. 

Em uma reunião de mulheres, uma delas fala horrorizada sobre a possibilidade de ter filhos e a outra ameniza o problema da atenção que se teria que dar aos filhos dizendo que é só colocar as crianças diante de aparelhos de televisão e imagens que os pirralhos não atrapalharão a vida dos adultos...

Vocês notaram alguma semelhança do contexto ficcional de 70 anos atrás com a realidade do mundo em 2024?

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Alguém tem que preservar a história e a cultura de novo

"Um deles tinha de parar de queimar. Por certo o Sol não pararia. Dessa forma, era como se tivesse que ser Montag e as pessoas com quem ele havia trabalhado até algumas horas antes. Em algum lugar, o ato de salvar e guardar teria de começar novamente e alguém tinha de se encarregar de salvar e guardar, de um modo ou de outro, nos livros, nos discos, na cabeça das pessoas, do jeito que fosse, desde que fosse seguro, livre de mariposas, traças, ferrugem e mofo, e de homens com fósforos. O mundo estava cheio de fogo de todos os tipos e tamanhos..." (p. 200)

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Sempre recomeçar, uma característica dos seres humanos 

"(...) E quando a guerra terminar, algum dia, algum ano, os livros poderão ser escritos novamente, as pessoas serão convocadas, uma a uma, para recitarem o que sabem, e os imprimiremos novamente até a próxima Idade das Trevas, quando poderemos ter de começar tudo de novo. Mas é isso o maravilhoso no homem; ele nunca fica desanimado ou desgostoso a ponto de desistir de fazer tudo novamente, porque ele sabe muito bem que isso é importante e vale a pena." (p. 216/217)

Literatura também é isso!

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O FIM (O COMEÇO)

"- Todos devem deixar algo para trás quando morrem, dizia meu avô. Um filho, um livro, um quadro, uma casa ou parede construída, um par de sapatos. Ou um jardim. Algo que sua mão tenha tocado de algum modo, para que sua alma tenha para onde ir quando você morrer. E quando as pessoas olharem para aquela árvore ou aquela flor que você plantou, você estará ali. Não importa o que você faça, dizia ele, desde que você transforme alguma coisa, do jeito que era antes de você tocá-la, em algo que é como você depois que suas mãos passaram por ela. A diferença entre o homem que apenas apara gramados e um verdadeiro jardineiro está no toque, dizia ele. O aparador de grama podia muito bem não ter estado ali; o jardineiro estará lá durante uma vida inteira." (p. 220/221)

Então...

Termino aqui o comentário sobre essa releitura de Fahrenheit 451.

Termino com uma indagação incômoda martelando dentro de mim...

Será que fui um jardineiro? Ou fui um aparador de gramas?

William Mendes 

domingo, 23 de junho de 2024

Cedoc do Refeitório Cultural (2)



Refeição Cultural

Nos anos oitenta, em Uberlândia, Minas Gerais, quando cresci no bairro Marta Helena entre os dez e os dezessete anos de idade, tive a oportunidade de ler vários livros de literatura, muitos deles emprestados pelo meu primo Jorge Luiz - que comprava lançamentos no "Círculo do Livro" -, e outros que eu conseguia de alguma forma. Eram livros "best sellers" dos anos setenta e oitenta. 

Um dos autores de romances de suspense e terror do qual cheguei a ler alguns livros à época foi o norte-americano Stephen King. Tenho alguns dos livros dele guardados em minha biblioteca até hoje. São edições antigas, amareladas e manchadas pelo tempo. Não consegui me lembrar ainda a origem dos volumes, quais deles ganhei depois de meu primo e quais adquiri em algum sebo por aí.

De uma forma ou de outra, a literatura que tive acesso à época foi essa, de romances de autores estrangeiros, pois me lembro de ter lido poucos autores brasileiros na adolescência. Talvez tenha lido aqueles livros de leitura obrigatória por causa da escola formal, um Machado de Assis ou um José de Alencar, por exemplo.

Os livros que mantenho na estante são livros ou autores que gostei, e não teria por que me desfazer dos livros. O que li nos anos oitenta e noventa fez parte da minha formação literária, mesmo não sendo leituras consideradas engajadas ou de alta cultura. 

Pensando nas lições de Italo Calvino sobre a importância de ler os clássicos da literatura universal, poderia dizer que até a literatura de suspense e terror tem seus clássicos. Stephen King tem os seus. Alguns eu leria novamente, como foi o caso de Carrie.

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LEITURAS DOS ANOS OITENTA E NOVENTA

1. Christine (1983) - Stephen King

O nome original do romance é o mesmo "Christine". Eu considero o romance um clássico. É a história de um triângulo amoroso entre Arnie Cunningham, Leigh Cabot e Christine. Tem ainda o amigo de Arnie, Dennis. 

Christine é um carro, um Plymouth Fury 1958, vermelho. Desde o primeiro momento em que Arnie viu o carro, ficou apaixonado por ele. Quer dizer, por ela, o carro foi nomeado de Christine.

O livro tem 552 páginas. Virou filme à época.

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2. O Iluminado (1977) - Stephen King

O título original do romance é "The Shining" e eu diria que é um dos maiores clássicos de Stephen King. O romance ficou mundialmente conhecido por ter virado filme estrelado por Jack Nicholson e dirigido por Stanley Kubrick.

É a história de Jack Torrance, um homem desempregado e em crise com a sua pequena família, que aceita o emprego de zelador de um hotel nas montanhas do Colorado. O que era para ser um período de tranquilidade e sossego para a família isolada pela neve, se transforma num cenário de suspense e terror que vai deixar leitores e espectadores alucinados do início ao fim.

O livro tem 445 páginas. Esse é um dos livros que comecei a leitura e não terminei. Depois acabei assistindo ao filme. Um dia, vou pegar para ler de uma vez.

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3. O Cemitério (1983) - Stephen King

Com título original "Pet Sematary", esse romance foi um dos quais nunca mais me esqueci. O enredo conta a estória da família de Louis Creed, composta por Rachel, Eileen (Ellie), Gage e Church, o gato de Eileen. O livro também virou um filme clássico.

A cena de Louis Creed voltando cansado do cemitério indígena de animais e caindo na cama todo sujo virou referência de cansaço para mim desde a adolescência.

Minha edição tem 380 páginas com fonte bem pequena. É um livrão, como os outros do autor.

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4. A Incendiária (1980) - Stephen King

O título original do romance é "Firestarter". Uma das lembranças que tenho sobre a leitura desse livro de King é que o li numa sentada, de uma vez. Não sei por que isso ficou na minha memória. Ao ver a grossura do livro hoje, imagino que deve ser uma falsa lembrança, não é possível ler essa estória de 432 páginas com fonte pequena em um dia. Mas devo ter lido em pouco tempo. O enredo é alucinante.

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5. Carrie (1974) - Stephen King

O título original tem o mesmo nome. Foi o primeiro romance de King e foi um sucesso imediato. Conta a estória da jovem Carrie, uma garota com poderes paranormais que sofre em casa com o fanatismo religioso da mãe e sofre na escola, por causa do bullying dos colegas de classe. 

O livro virou filme dirigido por Brian de Palma em 1976 e o destaque vai para a excelente interpretação de Sissy Spacek. Esse foi um dos romances de King que reli após os quarenta anos de idade. O comentário sobre a leitura pode ser lido aqui.

O livro tem 200 páginas.

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6. Zona Morta (1979) - Stephen King

Com o título original de "Dead Zone", esse é o livro de King que eu menos me lembro da estória. Mas eu li. John Smith é um rapaz como tantos outros. Um dia sofre um acidente de carro, ficando longos anos em coma. Ao acordar, percebe que detém o poder de perscrutar as mentes das pessoas.

Minha edição tem 389 páginas.

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7. A Entidade (1978) - Frank de Felitta

Com o título original "The Entity", esse livro foi duro de ler. Me lembro até hoje o quanto fiquei impressionado com a estória de uma entidade diabólica que violentava Carlotta Moran, mesmo diante dos filhos dela e com uma violência cada vez maior. É angustiante imaginar tudo aquilo que o enredo descreve no romance.

O livro é outro bichão de 478 páginas.

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8. Assassinato no campo de golfe (1923) - Agatha Christie

O título do livro é "Murder On The Links". Anotei no livro que o li em agosto do ano dois mil. Já era outro período de minha vida. Havia voltado para São Paulo. Mantive na fase adulta o hábito de leitura. É um romance policial de Christie com o clássico personagem Monsieur Hercule Poirot. Eu não me lembro do enredo. Teria que ler de novo.

O livro tem 215 páginas.

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Enfim, aos poucos vou organizar meu centro de documentação, o que inclui a minha biblioteca.

William


Post Scriptum: o texto anterior sobre meu cedoc pode ser lido aqui.


sábado, 27 de janeiro de 2024

Livro: As aventuras de Tom Sawyer - Mark Twain



Refeição Cultural - Cem clássicos

Osasco, 27 de janeiro de 2024. Sábado.


Finalmente, li uma obra do escritor norte-americano Mark Twain, uma lacuna cultural a menos para mim. Gostei do romance As aventuras de Tom Sawyer, publicado em 1876. A edição que tinha em casa é essa da Editora Nova Cultural, do início dos anos dois mil, quando comecei a adquirir livros que um dia gostaria de ler. A tradução é de Luísa Derouet.

Literatura é uma forma de cultura deliciosa e que sempre nos estimula a novas leituras e novos conhecimentos! Ao conhecer a história do jovem Tom Sawyer, descobri que é interessante que eu leia também As aventuras de Huckleberry Finn, uma espécie de continuação deste romance e a obra mais referencial de Mark Twain.

O romance narra a história do garoto órfão Tom Sawyer, que vive com sua tia Polly, seu irmão mais novo Sid e sua prima Mary. Tom é um garoto cheio de energia, desobediente e que vive em busca de aventuras. Ele tem uma imaginação incrível e para realizar suas façanhas conta com alguns amigos, como Joe Harper e Huck Finn (Huckleberry Finn), garoto de rua por ser abandonado pelo pai alcoólatra. Tom é apaixonado por Becky Thatcher, filha de uma autoridade da cidade.

Algumas questões abordadas como pano de fundo no romance me chamaram a atenção, temas sociais de dimensões importantes no contexto no qual a obra foi escrita - após a guerra civil de meados do século - e temas que fazem parte da cultura dos norte-americanos como as superstições, a questão da escravidão dos afrodescendentes e a forma como a sociedade se organiza baseada na religião.

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UM POVO SUPERSTICIOSO

As crendices e saberes populares fazem parte das culturas das comunidades humanas, independente da época e de qual país estejamos falando. Alguns têm mais ou menos superstições, mas todos os povos têm as suas crenças e concepções de mundo e de vida.

Cadê o andar 13?
Foto: William Mendes.


Quando estive nos Estados Unidos, fiquei surpreso ao constatar que era verdade que o povo norte-americano tem tanto medo do número 13 que eles se enganam deliberadamente - autoengano - fazendo de conta que não existe o 13º andar dos prédios, é algo muito estranho para nós que não somos de lá. Os números nos elevadores pulam do 12 para o 14...

O romance é repleto de superstições, ditos populares do século XIX, e quase tudo que os garotos e os adultos fazem no cotidiano tem relação com algum tipo de crença ou mística.

Verrugas

"- Agora, sim! Quem que há de querer curar verrugas com água choca de uma maneira tão tola como essa? Claro que assim não faz nada. É preciso ir sozinho para a floresta onde se saiba que há um pau podre com água dentro, e à meia-noite em ponto virar as costas para o tronco, enfiar lá a mão e dizer:

"Cevada e milho dentro desta toca
Engole-me as verrugas, água choca
".

Depois deve-se dar onze passos de olhos fechados, andar em roda três vezes e ir para casa sem falar com ninguém. Porque se falar com alguém quebra-se o feitiço." (p. 47)


E aí? Quem não cresceu em ambiente com cultura de superstição? Quando criança, assim como Sawyer, eu vivia com medo de apontar para a Lua ou estrelas no céu porque isso dava verrugas nos dedos...

Não acho que o problema seja a superstição em si. Ruim é quando as pessoas não mudam de patamar de conhecimento ao longo da existência. Com os estudos e com a ciência, o que antes era a "explicação" das coisas do cotidiano passa a ser entendido como um mito, uma explicação criada antes da ciência esclarecer o fenômeno, se é que era algum fenômeno.

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EDUCAÇÃO BASEADA NA VIOLÊNCIA

Outra coisa comum nas sociedades humanas era a forma violenta de se educar as crianças. Bater e aplicar castigos violentos e humilhantes foram alguns dos métodos pedagógicos ao longo de séculos.

"O professor calou-se a olhá-lo, surpreendido. O sussurro do estudo interrompeu-se e os outros meninos perguntaram a si próprios se Tom teria perdido o juízo.

- O que você está dizendo?

- Parei para falar com Huckleberry Finn!

Não podia haver confusão.

- Thomas Sawyer, essa é a mais espantosa confissão que tenho ouvido, e já não chega a palmatória para castigar o que fez. Tire o casaco.

E o braço do professor bateu até se cansar.

Então as chibatadas diminuíram de intensidade e seguiu-se esta ordem:

- Agora vá se sentar junto das meninas e veja se cria juízo." (p.50)


Que cena dantesca... difícil até comentar!

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FALSA ILUSÃO DE LIBERDADE

Uma característica da visão inocente das personagens infantis do romance é não compreender a miséria vivida por um dos garotos, Huck Finn, que estava em situação de total abandono social. Tom e os demais garotos achavam o máximo a "liberdade" de Finn:

"Huckleberry ia e vinha à vontade, quando o tempo estava bom dormia nos degraus das portas e, quando estava úmido, dentro de algum grande barril desocupado; não tinha de ir à escola nem à igreja, nem de receber ordens de alguém; podia ir pescar ou nadar quando e onde lhe apetecesse, demorando-se quanto quisesse; levantava-se à hora que tinha vontade; ninguém o proibia de brigar; era sempre o primeiro a andar descalço na primavera, e, no outono, o último a se calçar; nunca tinha de se lavar nem de vestir roupa lavada; podia praguejar à vontade; numa palavra, tinha tudo aquilo que torna a vida preciosa! Assim pensavam todos os meninos de São Petersburgo, que tinham a quem obedecer..." (p. 46)


Lembrando que o romance é do século XIX e "São Petersburgo" é o nome fictício da cidade norte-americana onde se passa a história de Tom e seus amigos. A ambientação do romance é na região Sul dos Estados Unidos, no Estado do Missouri, na bacia hidrográfica do Missouri-Mississippi.

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A QUESTÃO DO PRECONCEITO RACIAL

Outra dimensão sensível do romance para leitores críticos é a temática do racismo, pois o romance é ambientado nos Estados Unidos em meados do século XIX, e a questão do preconceito racial e a escravidão fazem parte do cotidiano do país.

"- Boa ideia. Mas onde vai dormir?

- No galpão de Ben Rogers. Tanto ele como o criado preto, o tio Jake, me deixam ficar lá. Carrego água para o tio Jake, quando precisa, e, por sua vez, quando não tenho o que comer, peço-lhe e ele reparte comigo. É muito bom, aquele preto. Gosta de mim, porque não o trato como se fosse menos do que eu e até já algumas vezes tenho comido ao lado dele. Mas não vá contar isso. Há coisas que as pessoas fazem quando têm muita fome, mas não gostam que se saiba." (p. 173)


Vejam essa fala de um garoto abandonado, em situação de rua. Mesmo na condição social na qual ele está exposto, existe a preocupação dele de outros garotos saberem que ele anda com pretos. É duro demais, isso!

Abaixo, Injun Joe, um assassino mestiço falando:

"(...) E isso não é tudo. Isso não é nem a milionésima parte. Ele me mandou 'açoitar'! Mandou que me açoitassem diante da prisão, como se eu fosse um negro! A vista de todos da aldeia..." (p. 179)

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COMENTÁRIO FINAL

O romance de aventuras de Mark Twain, com personagens infantis, me agradou. É uma história leve, apesar de meu olhar crítico apontar essas questões sociais acima. 

Conforme o tipo de leitor ou leitora, mais despreocupados, essas marcas de comportamentos sociais e época talvez nem sejam percebidas.

Agora que conheci Tom Sawyer como protagonista daquelas aventuras no Sul dos Estados Unidos, fica o desejo de conhecer o romance com Huckleberry Finn como protagonista, um garoto abandonado e de pai alcoólatra.

Como dizia o intelectual italiano Italo Calvino, é melhor ler que não ler os clássicos.

Abraços,

William


Bibliografia:

TWAIN, Mark. As aventuras de Tom Sawyer. Tradução: Luísa Derouet. Editora Nova Cultural, 2002.


domingo, 12 de novembro de 2023

Leitura: Os mortos vivos, de Peter Straub



Refeição Cultural

Osasco, 12 de novembro de 2023. Domingo. Um calor de 37º!


Terminei a releitura do clássico Os mortos vivos (1979), de Peter Straub. Esse livro marcou os anos oitenta. Pelo que pude apurar, até o mestre dos livros de suspense e terror, Stephen King, gostou da estória e faz comentários laudatórios a respeito desse livro de Straub.

O nome brasileiro da obra difere um pouco da lógica do título em inglês - Ghost Story - e eu diria que a tradução brasileira para a versão cinematográfica da obra seria melhor para o livro: Histórias de fantasmas (1981), dirigido por John Irvin. Eu não conheço o filme. A estória faz referências tanto a fantasmas e espíritos (Manitu) quanto a mortos vivos.

Nos anos oitenta, li dezenas de livros que saíam pelo Círculo do livro. Algumas leituras da adolescência me impactaram à época. Dos livros de suspense e terror, os de Stephen King eram os preferidos. Li Carrie, A incendiária, O cemitério, Zona morta, Christine, e tenho dele e não li ainda O iluminado

Outros de terror impactantes à época, foram A entidade, de Frank de Felitta, O exorcista, de William Peter Blatty, e os dois de Jay Anson, Horror em Amityville e 666 O limiar do inferno. Estes últimos, reli e comentei aqui no blog (ler aqui). 

Os mortos vivos, de Peter Straub, foi um dos livros que mais marcaram minha leitura de terror. Eu tinha menos de 17 anos quando o li, acreditava em coisas sobrenaturais e fiquei bem assustando durante a leitura da estória. 

Digo que o de Straub é um dos livros marcantes do gênero porque O cemitério também me marcou bastante! Até hoje defino um cansaço indescritível como o do personagem Louis Creed ao voltar do enterro do gato e cair prostrado na cama.

Na minha atual fase de leitor, às vezes pego para reler um livro lido décadas atrás para tentar avaliar como a leitura à época poderia ter impactado aquele leitor jovem com a visão de mundo que eu tinha como jovem no ambiente ao qual eu pertencia. Não é algo simples, mas acho interessante a tentativa de perceber o caminho que trilhei até aqui.

A leitura atual de Os mortos vivos foi absolutamente distinta da lembrança que tinha da leitura da adolescência. Imagino que o tenha lido em pouco tempo naquela época, porque eu lia rapidamente livros grandes. Me recordo que lia até centenas de páginas no mesmo dia. Desta vez, a leitura se arrastou por quatro meses. Lia nas madrugadas. E minha impressão da estória foi outra. Entendo que o livro é para ser lido de uma vez... como não fiz isso, o efeito foi outro.

Avalio que a estória poderia ser escrita em umas duzentas páginas, e olha lá!, e não seria necessário arrastar a estória por mais de quinhentas páginas. Nessa questão de tamanho, Jay Anson acertou nos dois romances demoníacos que fez. Peter Straud e meu saudosismo que me perdoem, mas Horror em Amityville foi mais prazeroso de ler, a parada foi resolvida em 190 páginas. Li em dois dias.

Ainda que eu tivesse lido o romance rapidamente, o efeito gostoso de sentir medo ao ler um livro de terror não seria o mesmo de antes neste leitor que vos fala, porque hoje sou descrente de qualquer coisa mística. Já foi assim na releitura dos livros de Jay Anson. À época, eu acreditava em tudo, em qualquer teoria explicativa de mundo que a mente humana criasse.

Gostaria de assistir ao filme de 1981, que contou com a participação de Fred Astaire no papel de Ricky Hawthorne. 

Já escrevi várias vezes sobre meu respeito pela visão de mundo que cada ser humano tem. A concepção mística da vida fez parte da minha percepção de mundo por décadas. Após o meu percurso pela vida, não conseguiria abraçar nenhuma explicação mágica sobre a existência humana e sobre o Universo. No entanto, sei que cada pessoa tem a sua experiência de vida e devemos respeitar isso.

Me lembro perfeitamente da sensação e efeito das culturas místicas na pessoa que era até perto dos trinta anos. Quando assisti no cinema ao filme Ghost - Do outro lado da vida (1990), foi muito impactante aquele momento no qual o público percebe junto com o protagonista o que aconteceu após o assalto.

Enfim, mais um livro lido ou relido. Este foi o 30º livro do ano, sexto ou sétimo de romance ficcional. Deu trabalho a leitura! Achei que não acabaria nunca!

William


Post Scriptum: Fiz postagem sobre a leitura em andamento. Caso tenham interesse em ler, é só clicar aqui.


sábado, 19 de agosto de 2023

54. Os mortos vivos - Peter Straub (1979)



Refeição Cultural - Cem clássicos 


(leitura em andamento)

Uma das lembranças que tenho da leitura deste livro de suspense e terror é que eu sentia medo ao lê-lo. Me lembro do medo. 

Este leitor que vos fala tinha na época da leitura menos de 17 anos e era uma pessoa de seu tempo e ambiente social (anos 80), tinha crença religiosa.

Ainda morava em Uberlândia e a edição que li foi a de meu primo Jorge Luiz, que me emprestava livros de ficção e romances. Era uma edição com capa dura do Círculo do Livro, se não me falha a memória.

Décadas depois, quis ter o livro em casa. Comprei pela internet a edição malconservada que tenho. Quase joguei ela fora quando a recebi. Acabei colocando ela num canto.

Semanas atrás, acabei pegando o velho livro e comecei a ler lentamente a estória, antes de dormir, na maioria das vezes. Já li 200 páginas e agora não paro mais, vou até o fim da ficção de Peter Straub.

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OS MORTOS VIVOS

A impressão que tive até agora, ao ler 2/5 da obra, é que o enredo se desenvolve muito lentamente, ao estilo dos antigos romances. Foram duzentas páginas lidas e me parece que os acontecimentos principais talvez só irão acontecer lá no final, daqui mais duzentas e tantas páginas.

Na cena inicial do prólogo - "Seguindo para o sul" -, um personagem está com uma criança no carro. Tudo indica que ele sequestrou a criança, uma garota. O leitor já viu a criança ser amarrada por Donald Wanderley. Ele até chegou próximo a ela com uma faca, enquanto ela dormia. É assim que temos o contato inicial com a estória. A cena final do prólogo é um diálogo estranho entre a garota e o sequestrador. O leitor vai agora voltar ao começo da estória... o começo foi in media res, como se diz na literatura, no meio da ação.

O prólogo se estendeu por trinta páginas. Agora o leitor chega à Parte Um - "Depois da festa de Jaffrey". Os eventos se passam numa cidade ficcional chamada Milburn. Conhecemos a Sociedade Chowder, cujos componentes são 4 homens idosos - Frederick Hawtorne (Ricky), Sears James, John Jaffrey e Lewis Benedikt - um quinto membro morreu um ano antes de forma estranha - Edward Wanderley -, durante uma festa na casa de Jaffrey.

A Parte Dois se chama "A vingança do Dr. Rabbitfoot". Um dos 4 amigos - o Dr. John Jaffrey - acaba por morrer de forma estranha também. Chega à cidade Donald Wanderley, sobrinho do 5º membro da Sociedade Chowder - Edward Wanderley -, falecido um ano antes numa festa na casa de Jaffrey. Donald chegou à cidade à convite do grupo.

É neste momento da estória em que estou. Minha curiosidade ao reler este livro é tentar voltar no tempo e imaginar como eu era, aquele leitor adolescente que leu o livro em meados dos anos oitenta.

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Me lembrei dos dois livros de terror que reli recentemente do norte-americano Jay Anson: Horror em Amityville, de 1977, baseado num caso real de evento sobrenatural (ler comentário aqui) e 666 O limiar do inferno, de 1981 (comentário aqui). Este último teve um enredo parecido com o do livro de Peter Straub, dezenas de páginas preparativas para um desfecho final.

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Por enquanto é isso. Volto à postagem para comentar o restante da leitura de Os mortos vivos, de Peter Straub.

(leitura em andamento)

Terminei a leitura do livro em novembro de 2023. Ler comentário final aqui.

William


sábado, 3 de junho de 2023

Leitura: A Quinta-Coluna - Ernest Hemingway



Refeição Cultural

Osasco, 03 de junho de 2023. Sábado.


Citações do prefácio

"Todos os dias éramos bombardeados pelos canhões postados à retaguarda de Leganés, nos contrafortes das colinas de Garabitas, e o Hotel Flórida, onde vivíamos e trabalhávamos, foi atingido por mais de trinta e oito projéteis de grande poder explosivo. Por isso mesmo, se não gostarem da peça, posso botar a culpa nesse bombardeio infernal; se a acharem boa, direi que aqueles obuses de certa maneira me inspiraram a escrevê-la."

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"O título da peça tem a ver com a afirmação das forças insurretas de que havia quatro colunas militares avançando na direção de Madri, no outono de 1936, e uma quinta, integrada por simpatizantes, que já se encontrava na capital e atacaria seus defensores pela retaguarda."

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"As forças inimigas que avançavam sobre Madri não tinham o hábito de poupar seus prisioneiros. Da mesma forma, os membros da quinta-coluna que fossem apanhados dentro da cidade nas semanas iniciais da Guerra Civil eram também eliminados sumariamente..."

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Em suma: esta peça se ocupa apenas da contraespionagem em Madri, tem os defeitos de um texto escrito durante os tempos de luta e, se é que tem alguma moral da história, comprova ser impossível para alguém que pertença a determinadas organizações a manutenção de um mínimo de vida particular..."

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INTRODUÇÃO

Não estava em meus planos atuais ler uma obra de Hemingway por estes dias. Já li cinco livros dele. Acho seus textos espetaculares. No entanto, as veredas dos sertões nos levam por vários caminhos, abertos ou a serem abertos com o andar, já que não há caminhos, mas se faz caminhos ao andar...

Visita à finca de Hemingway (Cuba).

Fui a Cuba dias atrás. Experiência que ainda estou digerindo, por isso escrevo meus textos no Refeitório Cultural. Em Havana, no último dia, a última escala de visitas foi a finca onde viveu Ernest Hemingway. Conheci a residência do grande escritor Papa Hemingway... foi emocionante para mim.

Minha esposa me sugeriu assistir ao filme Papa Hemingway in Cuba (2016), desde que soube que eu iria a Cuba e por saber o quanto gosto da obra do escritor. Na internet estava muito ruim de ver o filme, qualidade péssima. Eis que numa madrugada dessa semana ele passou nos canais que assinamos. Foi muito interessante ver o filme gravado em Cuba, na própria finca de Hemingway.

O filme tem como pano de fundo a Cuba pré-revolucionária, retrata o escritor em Cuba entre os anos de 1956 e 1959, quando os jovens liderados por Fidel Castro enfrentam e derrotam a ditadura de Batista, mantida pelos Estados Unidos. O filme é dramático, vemos os últimos anos da vida de Hemingway, com sérios problemas de depressão e alcoolismo. É tocante e o drama de tudo isso nos envolve profundamente.

Foi inevitável olhar na estante e escolher algum volume dele para reler. A Quinta-Coluna (1938) foi uma peça escrita por Hemingway durante a Guerra Civil Espanhola, o escritor e jornalista estava em Madri e viveu os ataques dos fascistas apoiados por Hitler.

Tudo isso me faz pensar em tanta coisa, tanta coisa! Um turbilhão toma conta de minha consciência, do meu ser. Afloram sentimentos que amarguram minha pessoa faz muito tempo, a questão da depressão e alcoolismo em pessoas queridas, a questão do bloqueio genocida imposto pelo império ao povo cubano e muito mais...

A questão do nosso país que amamos e que sofreu em 2016 um golpe de Estado - uma revolução reacionária organizada pela casa-grande, uma quinta-coluna lesa-pátria -, e até hoje sofremos as consequências dessa tragédia porque não vivemos numa democracia, mesmo com Lula eleito presidente somos reféns de ditadores que ocupam o poder real nos legislativos e judiciários, além do 4º poder, a imprensa golpista. Enfim, muita coisa aflora em minha mente...

MINHA LEITURA DO MOMENTO POLÍTICO

Vivemos um contexto de guerra no Brasil e no mundo. As democracias liberais e burguesas estão morrendo mundo afora. O cenário é desalentador em relação ao presente e futuro do planeta Terra e das formas de vida que existem. 

Nenhuma força popular e preservacionista parece poder parar a máquina de destruição do capitalismo. Os papéis da lei capitalista vencem qualquer movimento ou forma de vida que se interponha no caminho do lucro de algum homem do capital.

O capitalismo neoliberal se impôs no mundo e quem estuda minimamente história, política e ciências sabe que não há expectativa de vida sob a hegemonia do capitalismo. Estamos destruindo o planeta e nada vai parar isso a não ser que paremos o capitalismo e os poucos donos do mundo capitalista.

Não é possível salvar "no diálogo" as florestas, os biomas, os povos originários, os mais de 90% de humanos que passam suas vidas sendo explorados e escravizados miseravelmente pela pequena quantidade de homens que seguem destruindo o mundo e as mais diversas formas de vida no único planeta no universo conhecido com as condições de vida que tem na Terra.

Como estamos presos em estratagemas burocráticos organizados para não serem interrompidos, caminharemos para o fim, a não ser que criemos uma força de enfrentamento real aos bilionários e capitalistas do mundo. Eles vão nos eliminar. Essa força teria que impedir essa pequena porcentagem de homens de destruir tudo.

Só vamos proteger os biomas que restam, só vamos salvar uns 70% dos povos do mundo se derrotarmos alguns milhares de famílias capitalistas donas do mundo. E eles têm todas as forças de repressão e violência sob o comando deles. Teríamos (temos) que armar o nosso lado, que é muito maior que o deles.

Não será por processos de paz que vamos salvar o mundo e as pessoas. Não será com manifestações, greves, abaixo-assinados etc, coisas bonitinhas e sensíveis não sensibilizam homens do capital e seus lacaios, quinta-colunas de merda.

Se meu corpo fosse mais jovem, eu buscaria alguma organização para enfrentar esses destruidores da vida de forma real. As "democracias" morreram. Esses regimes comprados com dinheiro e poder da elite que temos no Brasil, nos Estados Unidos, nos países da Europa são qualquer coisa, menos democracia. 

Mandela e o CNA entenderam que nenhum movimento pacífico mudaria a condição desgraçada que os negros sul-africanos viviam sob o regime fascista da minoria branca. E mudaram a estratégia.

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É O OPRESSOR QUE DEFINE A NATUREZA DA LUTA

"A lição que aprendi com a campanha (contra a remoção do povo negro de Sophiatown em 1955) foi que no final nós não tínhamos alternativa alguma senão resistência armada e violenta. Repetidamente, havíamos utilizado todas as armas de não violência em nosso arsenal - discursos, delegações, ameaças, marchas, greves, ficar em casa, prisões voluntárias - tudo em vão, pois tudo o que fazíamos era respondido com mão de ferro. Um guerreiro pela liberdade aprende da maneira mais difícil que é o opressor quem define a natureza da luta, e ao oprimido frequentemente não se deixa recurso algum senão utilizar métodos que espelham aqueles do opressor. Em certo momento, só é possível lutar contra o fogo usando fogo" (pág. 206. Longa Caminhada até a Liberdade, Nelson Mandela)

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Nenhuma conversa ou boicote impediu Hitler de invadir e tomar todos os países da Europa, um atrás do outro, até que as bombas dos aliados, principalmente do exército vermelho, parassem a megalomania dos nazistas.

É o que penso olhando o mundo.

William


Post Scriptum: li esta peça pela primeira vez em 2017 (ler comentário aqui). Vivia sob fortes emoções. Ainda acreditava um pouco na democracia, mesmo abalado com o impeachment criminoso que Dilma havia sofrido por um bando de canalhas. A revolução reacionária da extrema-direita já estava em andamento no Brasil. Os quinta-colunas daqui já haviam implementado o golpe de Estado. Já haviam imposto a EC 95, fodendo os direitos sociais do povo brasileiro por 20 anos, as reformas da previdência e trabalhista já haviam sido impostas também, a Petrobras vinha sendo entregue aos imperialistas pelos quinta-colunas daqui. Vivemos 7 anos de destruição total do Estado nacional e dos direitos do povo brasileiro e nada deteve os fascistas. Nada... E o voto comprado pelo orçamento secreto e os bilhões ilegais em 2022 fez um Parlamento que não representa o povo e não é democrático. Francamente, não me venham chamar isso no Brasil de democracia. Como vamos salvar nossos biomas e nosso futuro? Com as "leis" criadas por aquela canalha colocada no Congresso em 2022? 


Bibliografia:

HEMINGWAY, Ernest. A Quinta-Coluna. Tradução de Ênio Silveira. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.