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terça-feira, 16 de junho de 2026

Livro: Uma abelha na chuva - Carlos de Oliveira


Carlos de Oliveira
(10/08/21-01/07/81)


Refeição Cultural

LITERATURA PORTUGUESA 


Relendo um artigo meu dias atrás, vi nele uma citação a um livro de literatura portuguesa de meados do século passado, de Carlos de Oliveira, livro do qual não me lembrava do enredo. As obras literárias são assim, umas nos deixam marcas e lembranças, outras não. Não há um livro de Samarago, por exemplo, do qual tenha me esquecido do enredo. Talvez pelo estilo ou tema tratado pelo autor, vai saber.

Só por curiosidade, procurei e encontrei Uma abelha na chuva, de 1953, em meus guardados da faculdade de Letras e comecei a ler a história de Álvaro Silvestre e D. Maria dos Prazeres, casal principal de protagonistas do enredo do romance de Carlos de Oliveira. 

Li rapidamente a metade do romance numa só sentada e posso afirmar que ele é bem escrito, a história tem questões sociais interessantes apresentadas aos leitores da época, e de hoje também, se considerar o pano de fundo da trama: a vida num vilarejo de Portugal, país dominado pela igreja católica, por uma nobreza falida e pelo ditador António Salazar, país ainda em luta por manter colônias africanas, e em franca decadência econômica. Esse era o cenário no qual foi publicado o livro.

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RELIGIÃO E PODER 

Uma das questões que me levaram a reflexões ao reler este romance é a forma como a religião e seus doutrinadores interferem e definem a vida coletiva numa comunidade humana qualquer. 

Apesar do tema central do romance ser a decadência de Portugal, a religião está ali impregnada em tudo que é decadente, as relações, as instituições, as pessoas... em tudo. E isso é de uma atualidade incrível! 

A religião neste momento da história humana, terceira década do século XXI, é uma das principais ferramentas de manipulação de massas pela extrema-direita e pelos homens do poder mundial, que contam com exércitos e máquinas que definem o comportamento de milhões de vítimas dos algoritmos das big techs, tecnologias inexistentes no passado.

Quando lemos literatura e história e acessamos cotidianos existentes em diferentes lugares e épocas podemos perceber o poder imenso de sentimentos como ódio, medo e fé, principalmente quando são utilizados por canalhas manipuladores em posição de poder.

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UMA ABELHA NA CHUVA 

O casal Álvaro Silvestre e D. Maria dos Prazeres vive numa região rural. O casamento deles é um arranjo entre um filho de comerciante bem-sucedido com uma filha da fidalguia falida. Silvestre é um banana e D. Maria uma frustrada com o marido que seu pai lhe arranjou. 

Outros personagens completam o enredo que demonstra a decadência de uma sociedade. O padre, Abel, é um agregado da casa do casal: vê pecados o dia todo e não diz nada. As más línguas dizem que "sua irmã", D. Violante, seria uma amante. Silvestre, "um homem gordo, baixo, de passo molengão", tem um irmão na África, um aventureiro mulherengo. A propriedade rural tem um cocheiro, Jacinto, o "ruivo", e outros empregados, como o mestre António, que perdeu a visão, e sua filha Clara.

Terminada a releitura, considero o romance muito bom. A história tem humor, tem momentos de tensão e final imprevisível. O autor português utiliza as técnicas modernas do romance, alterna momentos em primeira e terceira pessoa, utiliza fluxo de pensamento, acelera e desacelera o tempo da narrativa com sumários etc.

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DITOS POPULARES E ADÁGIOS 

Gostei dos ditos populares e dos adágios de D. Violante. Minha avó Deolinda era especialista em frases prontas para qualquer tema conversado.

Vejam esses ditos e adágios constantes do capítulo VIII:

"- Quando Deus queria do norte chovia"

"- (...) se as orações dos cães chegassem ao céu choviam ossos"

"- (...) Noiva serôdia, nem miolo nem côdea"

"- (...) boda e mortalha no céu se talha"

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COMENTÁRIO FINAL 

"- Nem rei nem papa à morte escapa" (ainda D. Violante)


A cultura nos leva ao conhecimento, ao autoconhecimento e à transformação. Leitura é uma das formas de acesso à cultura. A leitura de livros é fundamental para o desenvolvimento do cérebro, pois ler textos longos nos exercita a concentração e a reflexão. 

Enquanto li A abelha na chuva, refleti sobre várias coisas do mundo atual, mesmo tendo o livro sido publicado há mais de setenta anos. Os temas abordados no enredo estão aí, ao nosso redor, pautando nossa agenda de vida. Religião, política, relações humanas, propriedade e bens materiais, condição das mulheres, das classes exploradas etc.

É sempre bom ler um livro, amigas e amigos leitores do blog. 

Sigamos lendo. Se nem rei, nem papa, à morte escapa, quem dirá eu, um simples ex-bancário que deu a sorte de chegar até aqui sobrevivendo à juventude, ao ódio e às situações que a vida nos apresenta cotidianamente. Ainda estou por aqui, então sigamos lendo.

William 

16/06/26

domingo, 16 de junho de 2013

Artigo: Cismando sobre os desejos


Refeição Cultural


Fernando Pessoa.
Desejos de leitura

Não tenho escrito muito nestes dias. Sequer tenho conseguido ler como gostaria.

Apesar disso, reli no fim de semana passado o livro Uma abelha na chuva (1953), do português Carlos de Oliveira. Neste fim de semana, também fiquei às voltas com a Literatura Portuguesa. Hoje reli o livro de poemas Mensagem (1934) de Fernando Pessoa.

Ambos pertencem ao programa de uma das últimas matérias que fiz na USP em 2010. Acabei procurando e achando em casa o pacote de fotocópias da matéria e o desejo que me deu foi de pegar todos os textos teóricos e lê-los juntamente com as 5 obras analisadas naquele semestre.

Mas aí quando dou por mim e começo a tomar gosto pela leitura, o fim de semana já se foi e eu não tenho vida civil (vida própria) durante a semana. Só tenho agenda do dirigente sindical.

Minha vida está indo e eu não consigo ler mais nada. E pensar que, se eu morrer a qualquer instante, terei deixado a existência como um grande frustrado porque sei ler, não sou cego, tenho os livros e o acesso a eles e não consigo ler absolutamente nada que desejo e anseio.


Desejos alheios de consumo

Eu fico observando as pessoas ao meu redor e fico chocado e deprimido com o que vejo.

Fico me perguntando do que está valendo a luta que faço diariamente para contrabalançar o sistema capitalista, criador de fetiches da matéria, que está destruindo o único planeta que temos, pelo esgotamento e criação de bugigangas para substituir outras a cada instante.

Filme Wall-E
Como pode um proletário com salário de mil reais, ou menos, comprar um tênis de 650 reais por ser “de marca”? Como pode este mesmo proletário gastar dois mil reais para comprar um aparelho de telefone móvel? A marca de tênis, aliás, é líder mundial em exploração de mão de obra escrava e subcontratação pelo mundo afora. E mais: NÃO adianta eu falar isso para esses proletários! Não adianta!

Vale dizer que existem bons tênis de cem reais. Também existem aparelhos de telefone móvel por cento e poucos reais. Esses proletários trocam de aparelhos eletrônicos enquanto os que tinham ainda funcionariam por muito tempo. Pouco importa o planeta Terra se transformar num planeta lixo inviável à vida - lembram do filme Wall-E (2008)?

Eu não pagaria 650 reais em um tênis mesmo se eu ganhasse 10 mil por mês, simplesmente porque o tênis não vale esse dinheiro.

O que vale a minha ideologia, se o meu exemplo de não consumir coisas “de marca” como a prioridade na compra não funciona sequer com a minha família?

Os jovens viraram baterias para a alienante rede mundial de computadores. Não é só o crack e outras drogas que estão matando o cérebro dos seres humanos. A quantidade de informação inútil também está. E pensar que praticamente já digitalizaram todo o conhecimento humano na rede mundial! Mas os donos do poder sabem que ninguém usa isso.


Desejo de comunicação e a incomunicabilidade contemporânea

Durante milênios, os seres humanos sonharam em poder usufruir da plena liberdade de expressão. No entanto, durante esses mesmos milênios, o direito de comunicação ficou restrito aos donos do poder, porque eles detinham o direito de escolher o que poderia ser comunicado ou não a qualquer receptor que fosse.

Na idade média, o alemão Gutenberg inventou a máquina de impressão. A partir dali, começaria uma revolução na multiplicação dos materiais escritos de comunicação. Mas o direito de imprimir continuou nas mãos dos Estados e dos donos do poder.

Até o século passado (XX), seguia mais ou menos na mesma a questão de quem conseguia acesso a impressão e distribuição dos textos. Aos pobres mortais, só se fosse apadrinhado por alguém dono do poder ou pelo Estado.

Veio então o advento da rede mundial de computadores: a internet.

Hoje, qualquer um teria “em tese” direito a acessar e a distribuir suas produções textuais e seus pensamentos.

Cena do filme Fahrenheit 451
Se antes, livros de ficção como Fahrenheit 451 (1953), de Ray Bradbury, pensavam sociedades distópicas, nas quais era proibido ter livros e ler o que bem se entendesse das produções humanas, hoje não é preciso mais tal tipo de preocupação por parte dos donos do mundo. 

Tudo está disponível e a atenção de praticamente toda a humanidade é pasteurizada em querer as mesmas coisas – a exceção é para aquele bilhão de gente que só tem a preocupação em o que vai comer naquele dia para não morrer de fome.

Hoje, qualquer um tem mais direito de se comunicar. No entanto, não há quase ninguém disposto a ouvir, a prestar atenção em - algo como a diferença entre os verbos ingleses to hear e to listen to. O mundo é burburinho e tuc tuc tuc nos ipods, iphones, tablets, jogos virtuais, facebooks etc... as pessoas, as pessoas são baterias como aquelas do filme Matrix (1999).


Poster de Mad Max (1979).
Desejo finalizar

Finalizo esta refeição cultural indigesta, pensando em mais ficções famosas – filmes e livros –, que parecem, a cada dia, mais próximos de se realizarem.

O mundo está estabelecendo o padrão chinês de mão de obra precarizada: terceirização total sem direito algum. Aqueles que não forem os 5% detentores de todo o poder econômico e político (os Alfas e Betas), serão os subumanos gamas e ipsilones do Admirável mundo novo (1932), de Aldous Huxley.

O mundo caminha para vivermos aquele mundo da série de filmes Mad Max (1979 a 1985). E para ficar em um bem atual: O livro de Eli (2010). Lembram da cena em que o
Poster do filme.
personagem reflete sobre o tempo em que as pessoas tinham tudo e não davam valor a nada – tudo era descartável e tinha em abundância. No mundo após a última guerra, se mata por um copinho de plástico descartável...


Chega!

William Mendes

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

FLC0383 Literatura Portuguesa IV - autores estudados

Carlos de Oliveira


Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.


Carlos de Oliveira (Belém do Pará, 10 de Agosto de 1921 — Lisboa, 1 de Julho de 1981) foi um escritor português.


Nascido no Brasil,[1] filho de imigrantes portugueses, veio aos dois anos para Portugal. Fixou-se em Cantanhede, mais precisamente na vila de Febres, onde o pai exercia Medicina. Em 1933 muda-se para Coimbra, onde permanece durante quinze anos, a fim de concluir os estudos liceais e universitários. Ingressa na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra em 1941, onde estabelece amizade, convívio intelectual e solidariedade ideológica e política com outros jovens, entre os quais Joaquim Namorado, João Cochofel ou Fernando Namora. Termina a licenciatura em Ciências Histórico-Filosófias em 1947, instalando-se definitivamente em Lisboa, no ano seguinte. Periodicamente volta a Coimbra e à Gândara. Em 1949 casa-se com Ângela, jovem madeirense que conhecera na Faculdade, que será sua companheira e colaboradora permanente.


Data de 1942 o seu primeiro livro de poemas, Turismo, que contava com ilustrações de Fernando Namora, e surge integrado na colecção Novo Cancioneiro. Em 1943 publicou o seu primeiro romance, Casa na Duna. Em 1944, o romance Alcateia, será apreendido, lançando nesse mesmo ano a segunda edição de Casa na Duna.


Em 1945 publica um novo livro de poesias, Mãe Pobre. Os anos 1945 e seguintes serão, para Carlos de Oliveira, bem profícuos quanto à integração e afirmação no grupo que veicula e auspera por um "novo humanismo", com a participação nas revistas Seara Nova e Vértice e a colaboração no livro de Fernando Lopes Graça - Marchas, Danças e Canções – colectânea de poesias de vários poetas, musicadas por aquele, canções que vieram a ser conhecidas por "heróicas".


Em 1953 publica Uma Abelha na Chuva, o seu quarto romance e, unanimemente reconhecido como uma das mais importantes obras da literatura portuguesa, estando integrado nos conteúdos programáticos da disciplina de português no ensino secundário.


Em 1957 organiza, com José Gomes Ferreira, numa abordagem do imaginário popular os dois volumes de Contos Tradicionais Portugueses, alguns deles posteriormente adaptados ao cinema por João César Monteiro.


Em 1968 publica dois novos livros de poesia, Sobre o Lado Esquerdo e Micropaisagem e colabora com Fernando Lopes no filme por este realizado e terminado em 1971, Uma Abelha na Chuva, a partir da obra homónima. Publica em 1971 O Aprendiz de Feiticeiro, colectânea de crónicas e artigos, e Entre Duas Memórias, livro de poemas, pelo qual lhe é atribuído no ano seguinte o Prémio de Imprensa. Em 1976 reúne toda a sua poesia em Trabalho Poético, dois volumes, apresentando os livros anteriores, revistos, e os poemas inéditos de Pastoral, livro que será publicado autonomamente no ano seguinte. Publica em 1978 o seu último romance Finisterra, paisagem povoada de inspiração gandaresa, obra que lhe proporciona a atribuição do Prémio Cidade de Lisboa, no ano seguinte.


Morre na sua casa em Lisboa a 1 de Julho de 1981, com 60 anos incompletos.


Obras

Poesia

Turismo (1942);

Mãe Pobre (1945);

Colheita Perdida (1948);

Descida aos Infernos (1949);

Terra de Harmonia (1950);

Cantata (1960);

Micropaisagem (1968, 1969);

Sobre o Lado Esquerdo, o Lado do Coração (1968, 1969);

Entre Duas Memórias (1971);

Pastoral (1977).


Romance

Casa na Duna (1943; 2000);

Alcateia (1944; 1945);

Pequenos Burgueses (1948; 2000);

Uma Abelha na Chuva (1953; 2003);

Finisterra: paisagem e povoamento (1978; 2003).


Crónicas

O Aprendiz de Feiticeiro (1971, 1979).


Antologia

Poesias (1945-1960) (1962);

Trabalho Poético (1976; 2003).


Referências

1. ↑ Portal da Literatura. Página visitada em 14 de maio de 2009.(em português)