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quarta-feira, 29 de abril de 2026

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Brasil, 29 de abril de 2026.


"Mundo mundo vasto mundo,

se eu me chamasse Raimundo

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,

mais vasto é meu coração." 

(Poema de sete faces, CDA)


O mês de abril vai terminando com um clima instável... com um ar de incerteza ao redor dos seres viventes desse nosso mundo mundo vasto mundo. O sol apareceu, mas de repente a luz deu lugar às nuvens, e as sombras dominaram o período. O que vem por aí? O que nos reserva o amanhã?

Estamos sob ares imprevisíveis... não temos controle de quase nada. O clima clima pode nos surpreender de um instante para o outro, um fenômeno da natureza pode mudar a vida de muita gente, de muitas espécies, a nossa vida. Se morre numa enxurrada parado no trânsito de São Paulo.

O clima político está desenhado para aqueles poucos que sabem ler mais que palavras, que leem nas entrelinhas, que leem nas coisas ao redor, e que sabem ler história. A história não se repete, mas serve de referência, e com a referência e o contexto do momento, se pode prever o que vem por aí. Talvez evitar o pior...

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O escriba deste blog antigo quer e não quer escrever, quer e não quer falar, quer e não quer se envolver com as coisas do mundo, afinal ele é uma coisa do mundo, uma vida vivida em meio ao mundo mundo vasto mundo, e mesmo não se chamando Raimundo, vaga por aí, e sem rima alguma.

Já fiz alguma coisa na vida. Tive carências, tristezas, muita raiva, ódio mesmo, mas também amei, superei coisas impeditivas do querer viver. Já tive minhas fases (minhas sete faces?), já poetei sobre elas, já digeri sobre a infância, a adolescência, a vida adulta jovem, a vida madura no melhor da produção intelectual, e já encontrei as respostas a questões existenciais que havia formulado nessas fases da vida vivida e percorrida. Encontrei as respostas! 

Na fase do momento - a pessoa de agora, que pisa num outro rio sendo outra pessoa - fiquei procurando o que fazer ou o que não fazer, no que dar sentido ou a compreensão plena de que não há sentidos, e que sem haver sentidos, nós esses bichos exóticos do mundo mundo vasto mundo, que até rimamos mundo com Raimundo... enfim, talvez o sentido seja escolher o que fazer e não fazer para dar um certo sentido no próprio existir.

O que vou fazer ou tentar fazer nos próximos dias e semanas e meses do viver estando por aqui no mundo mundo vasto mundo? Não se recupera ou se volta no tempo. Não se volta a ser o que um dia se foi. Acho difícil fazer o que queria fazer, não fiz, e talvez pudesse fazer agora. Não dá! É outro rio, outra pessoa.

A passagem do tempo, essa percepção que o bicho humano tem, é inescapável. O que quis ou não, o que vivi ou não, de certa forma, não existe... existe em mim, que posso não existir num instante... não existe a não ser que se registre para além de minhas células e átomos. E olhe lá! (uma bomba ou um cancelamento apaga tudo!)

Eu existo? Existi? Os fatos, e atos, e acontecimentos, e as coisas feitas, e sentimentos nos quais me envolvi, vivi, construí, senti, existem? Vão existir amanhã? Não há controle de nada. Não há.


"Eu também já fui brasileiro

moreno como vocês.

Ponteei viola, guiei forde

e aprendi nas mesas dos bares

que o nacionalismo é uma virtude.

Mas há uma hora em que os bares se fecham

e todas as virtudes se negam."

(Também já fui brasileiro, CDA)


Já refleti sobre fazer volume por aí. Já guiei forde e já ponteei viola... aprendi nas mesas dos bares da vida. Não sei se ainda quero essas coisas depois que os bares se fecharam pra mim.


"Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,

onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.

Praticas laboriosamente os gestos universais,

sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual."

(Elegia 1938, CDA)


Como diz o poeta, é um mundo caduco. Quiçá eu seja um caduco num mundo caduco.

Por mais que eu pratique laboriosamente os gestos universais, minhas formas e ações não encerram nenhum exemplo... (isso diz tudo para mim na atualidade!)

É nesse momento que estou neste dia de derrotas para o governo Lula, de livros descartados no lixo em Osasco, de bombas apagando gente e história por aí, de big techs manipulando meus pares ao meu redor...

Não sei se quero ou faz diferença ir a lugar nenhum, fazer volume em algum lugar.

Will i am (mas...)

29/04/26

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Instantes



Sexta-feira. 

9h06. Poderia decidir hoje viajar para a China, em um grupo organizado pelo professor Lejeune Mirhan. O valor investido e a programação estão muito bons. Vi um chamado dele alertando para o prazo final de adesão. Refleti. Não vou pra China.

Estou meio mequetrefe, azedo. Faz quase duas semanas que fiz cirurgia na língua e ainda não consigo comer direito, mastigar coisas sólidas, duras. Que saco! Imagino quem tem problemas mais sérios que esse meu, imagino quem sente dor de verdade, não essa dorzinha incômoda que sinto, que foda deve ser... estou azedo!

Ontem, caminhei 11 Km em ritmo acelerado. Dias atrás, foram 8 Km. Por mais que saiba que meu quadril, meu corpo, estão sofrendo os efeitos da natureza e do tempo, e da genética e do percurso hard que percorri, a natureza da identidade da gente insiste em querer correr, fazer longas caminhadas, desafiar distâncias blá-blá-blá. Insistência também é nosso nome...

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21h48

Li mais um capítulo do livro Casa à venda: turismo, mercado de imóveis e transformação sócio-espacial em Havana, da professora de economia Aline Marcondes Miglioli, um capítulo abordando a indústria do turismo sob a ótica do capitalismo (comentários aqui). É encantador ler e sair da leitura com reflexões e novos conhecimentos! Dificilmente verei o turismo que eu e a maioria de vocês fazemos com os mesmos olhos que via antes da leitura da autora.

Comecei a leitura da nova edição da revista CartaCapital, que recebi hoje. É uma leitura triste, são notícias sobre a realidade do Brasil e do mundo. A verdade factual entristece a gente.

Aí, meia hora atrás, estava vendo uma aula de meu amigo professor de português, Sérgio Gouveia, analisando um poema de Drummond, um de meus poetas favoritos, e fiquei admirado com a facilidade com a qual ele interpretava o poema "Elegia 1938", antes de entrar na parte da aula sobre orações subordinadas adjetivas e outras questões gramaticais. Cara, que facilidade o Gouveia tem para ler e decifrar um poema do Drummond, autor cujos poemas considero exigentes, alguns de difícil compreensão.

I'm a lucky man... Refleti que a vida, de certa forma, tratou de abrir veredas e caminhos que eu não planejei. No fim, eu não fui professor de português. Orações subordinadas, metonímias, metáforas... as veredas foram minha salvação. Olhando para trás, imagino que eu não teria dado certo como professor... gramática sempre me pareceu física quântica (que deve ser mais fácil, rsrs). Porém, é certo que tentei ser um sindicalista dedicado à classe trabalhadora que representava. 

Admirável a habilidade humana de educar e transmitir conhecimentos...

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(hoje, efetivamente, estou bolado com a questão da leucoplasia oral que descobri meses atrás e as consequências até agora, duas cirurgias para retirar as lesões na língua. Passei o dia com receios em relação a essa questão...)

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

O sentido da vida (5)



Buscar compreensão a partir de fragmentos das coisas

"II - Os escritos desses primeiros filósofos na íntegra se perderam todos, como a maior parte da riquíssima literatura grega. O que sobrou deles foram pequenos trechos, às vezes o correspondente a uma página, às vezes pedaços de frases, às vezes uma palavra, inseridos em textos que séculos depois (IV séc. a.C. - VI séc. d.C.) se escreveram e que, alguns por acaso, se salvaram. Sobraram também muitas notícias sobre a vida e a doutrina deles. E sobretudo sobrou, podemos dizer assim, uma interpretação que logo se tornou definitiva, oficial, e que fixou a posição desses pensadores na história da filosofia..." (Para ler os fragmentos dos Pré-Socráticos, José Cavalcante de Souza, p. 35)


Buscar compreensão e ou sentidos a partir da observação e de fragmentos de coisas. Essas ações conscientes só podem ser realizadas por uma espécie animal no planeta Terra: os seres humanos. 

Um cachorro não pode fazer isso. Uma galinha não pode fazer isso. Uma águia também não. Uma máquina não pode fazer isso. Máquina alguma, nem essa mentira chamada "IA". Humanos podem fazer isso, se estiverem em condições favoráveis para isso.

O homem refletia sobre sua jornada existencial até ali e percebia claramente que havia encontrado respostas para vários questionamentos feitos em décadas do viver.

Estava num momento meio "E agora, José?", tradução existencial espetacular de certo momento do viver, interpretação feita pelo poeta maior, magistral Drummond de Andrade, o Carlos, que foi ser gauche na vida. E poetou. E filosofou.

Seu momento José vinha ocupando seus pensamentos cotidianos, suas ações, o seu viver.

Querendo ou não, seus registros - fragmentos de uma vida de lutas - estavam sendo revistos, sistematizados, interpretados até. 

O homem estava alinhavando tudo aquilo e o sentido de tudo vinha se mostrando a ele.

Compreendia melhor agora por que as coisas são como são.

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sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (54) - Ser, Drummond



SER - DRUMMOND


O filho que não fiz 

hoje seria homem. 

Ele corre na brisa,

sem carne, sem nome.


Às vezes o encontro 

num encontro de nuvem. 

Apoia em meu ombro 

seu ombro nenhum.


Interrogo meu filho, 

objeto de ar:

em que gruta ou concha

quedas abstrato?


Lá onde eu jazia,

responde-me o hálito,

não me percebeste,

contudo chamava-te


como ainda te chamo

(além, além do amor)

onde nada, tudo

aspira a criar-se.


O filho que não fiz

faz-se por si mesmo.


Do livro Claro enigma, 1951.

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COMENTÁRIO:

Caraca, que profundo isso!

Algo que poderias ter feito no passado, e que talvez ainda aperte teu coração, reminiscências do passado que sempre voltam.

Oportunidades perdidas, contudo, não significa que outras oportunidades não venham a existir, até porque:

"onde nada, tudo

aspira a criar-se."


O poema é profundo em suas imagens e sentidos metafóricos.


Por outro lado:

"O filho que não fiz

faz-se por si mesmo."

Quantas veredas poderia ter trilhado e não trilhei. Em cada trilha um destino. 

Na trilha que não trilhei, alguém trilhou. 


Na história, um tijolo. 

Os muros não têm os nomes de todos os tijolos. Os muros estão por aí. 


William 


ANDRADE, Carlos Drummond. Nova reunião: 23 livros de poesia - volume 1. 3ª edição - Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.


quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (52) - A ingaia ciência, Drummond



A INGAIA CIÊNCIA - DRUMMOND 


A madureza, essa terrível prenda

que alguém nos dá, rapando-nos, com ela,

todo sabor gratuito de oferenda

sob a glacialidade de uma estela,


a madureza vê, posto que a venda

interrompa a surpresa da janela,

o círculo vazio, onde se estenda,

e que o mundo converte numa cela.


A madureza sabe o preço exato

dos amores, dos ócios, dos quebrantos,

e nada pode contra a sua ciência


e nem contra si mesma. O agudo olfato,

o agudo olhar, a mão, livre de encantos,

se destroem no sonho da existência. 


Do livro Claro enigma, de 1951.

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COMENTÁRIO:

Ao pesquisar o sentido da palavra "ingaia" apurei que ela é criação poética de Drummond.

Como gaia seria uma referência à "mãe-terra" ou à vida, ou ainda à existência da vida etc, então poderia interpretar o título do poema, mais ou menos, como a ciência por trás da experiência do viver, considerando que o poeta vai abordar questões relativas à perda da inocência com a "madureza" do envelhecimento.

Drummond poderia também estar fazendo alguma referência à obra de Nietzsche "A gaia ciência", de 1882.

Interpretando um pouco as imagens do poema, diria que o eu-lírico nos transmite sua ideia a respeito do peso da experiência que se adquire com a idade, diminuindo na pessoa madura, com mais "ciência", os encantos e esperanças com as coisas simples que a natureza sob os céus ("glacialidade de uma estela") nos disponibiliza gratuitamente como os amores, os ócios e os quebrantos do experimentar viver.

Caramba, mais ou menos, hoje estou assim como o eu-lírico descreve a madureza...

Sigamos, pois a cada amanhecer, o mundo e a vida nos concedem oportunidades e novidades - "todo sabor gratuito de oferenda" - para esperançar até com as belezas da própria natureza.

William


ANDRADE, Carlos Drummond. Nova reunião: 23 livros de poesia - volume 1. 3ª edição - Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.


quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (46) - No meio do caminho, Drummond



NO MEIO DO CAMINHO - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.


Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra.


Do livro Alguma poesia, de 1930.

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COMENTÁRIO:

Não sou determinista. Acredito no poder da educação, que, se efetiva, pode mudar as pessoas, que, educadas, podem mudar a realidade do mundo.

Paulo Freire diz em Pedagogia da Autonomia que só se educa gente.

Mas... são tantas pedras no caminho!

Os fascistas estão em ascensão. Fascistas são contra Educação e Cultura. A mentira é a base da propaganda do nazismo e do fascismo. 

São as pedras no caminho.  

Aqueles que não são fascistas não se entendem. Progressistas e esquerdistas parecem incapazes de se unirem para combater a ascensão do nazifascismo atual.

São as pedras no caminho. 

Pensando nas mentiras que se impõem, na força repressora dos capitalistas que se impõe, nos ideólogos dos poderosos que se impõem, pensei nas pedras no caminho, de Drummond. 

William 


ANDRADE, Carlos Drummond. Nova reunião: 23 livros de poesia - volume 1. 3ª edição - Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

domingo, 12 de janeiro de 2025

Livro: Bagagem - Adélia Prado



Refeição Cultural 

Janeiro de 2025


"AS MORTES SUCESSIVAS 

Quando minha irmã morreu eu chorei muito

e me consolei depressa. Tinha um vestido novo

e moitas no quintal onde eu ia existir.

Quando minha mãe morreu, me consolei mais lento.

Tinha uma perturbação recém-achada:

meus seios conformavam dois montículos

e eu fiquei muito nua,

cruzando os braços sobre eles é que eu chorava.

Quando meu pai morreu, nunca mais me consolei.

Busquei retratos antigos, procurei conhecidos,

parentes, que me lembrassem sua fala,

seu modo de apertar os lábios e ter certeza.

Reproduzi o encolhido do seu corpo

em seu último sono e repeti as palavras

que ele disse quando toquei seus pés:

‘deixa, tá bom assim’.

Quem me consolará desta lembrança?

Meus seios se cumpriram

e as moitas onde existo

são pura sarça ardente de memória."


Finalmente conheci a poesia de Adélia Prado. 

Ao ver entrevistas dela na atualidade, fica fácil confirmar o que se percebe de sua poética desde seu primeiro livro Bagagem, de 1976. A poeta é muito religiosa e seu fazer poético contém toda a visão de mundo dela.

O livro está organizado em quatro seções: "O modo poético", "Um jeito e amor", "A sarça ardente I", "A sarça ardente II" e um desfecho: "Alfândega".

Vocabulário:

Sarça ardente é uma planta, com flores pequenas. 

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DA 1a SEÇÃO, "O modo poético", diversos poemas me agradaram. A começar pelo poema "Com licença poética"

Vejam o começo:

"Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

vai carregar bandeira."

Vi numa entrevista Adélia dizer que Drummond foi um dos poetas que a identificaram e apoiaram no início da carreira. 


No poema "Grande desejo" Adélia se apresenta e diz a que veio:

"(...)

sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.

Faço comida e como.

(...)

Quando dói, grito ai,

quando é bom, fico bruta,

as sensibilidades sem governo."


Como disse, gostei bastante da 1a parte.

"Procuro sol, porque sou bicho de corpo.

sombra terei depois, a mais fria." (Poema Sensorial)


O poema "Tabaréu" é mais um daqueles nos quais a poeta se define para seus leitores:

"(...)

Porque, mercê de Deus, o poder que eu tenho

é de fazer poesia, quando ela insiste feito

água no fundo da mina, levantando morrinho de areia."

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DA 2a SEÇÃO, "Um jeito e amor", gostei dos poemas "O sempre amor", "Enredo para um tema" e outros também. 

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DA 3a SEÇÃO, "A sarça ardente I", adorei o poema "Ensinamento". Ler aqui.

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DA 4a SEÇÃO, "A sarça ardente II", gostei bastante dos poemas "Episódio" e "Uma forma de falar e de morrer". Achei demais "As mortes sucessivas".


"(...) mais dolorido canta quem não é cantor", verso do poema "Modinha". 

É de alguém observador.

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DIMINUINDO AS LACUNAS CULTURAIS  

Nas últimas semanas, descobri poetas que ainda não tinha lido. 

Agora já conheço alguma coisa de Adélia Prado, Mario Quintana, T. S. Eliot, Baudelaire e Maiakóvski, poetas reconhecidos internacionalmente. 

Sigamos lendo e diminuindo nossa ignorância cultural, pois somos seres incompletos, como nos ensina Paulo Freire.

William 


Bibliografia:

PRADO, Adélia. Bagagem [recurso eletrônico]. 1. ed. - Rio de Janeiro: Record, 2021.

 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (39) - Legado, Carlos Drummond de Andrade



LEGADO - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


Que lembrança darei ao país que me deu

tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?

Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu

minha incerta medalha, e a meu nome se ri.


E mereço esperar mais do que os outros, eu?

Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.

Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,

a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.


Não deixarei de mim nenhum canto radioso,

uma voz matinal palpitando na bruma

e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.


De tudo quanto foi meu passo caprichoso

na vida, restará, pois o resto se esfuma,

uma pedra que havia em meio do caminho.


Do livro Claro Enigma, 1951.

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COMENTÁRIO:

Depois de conhecer os seis primeiros livros de meu poeta preferido, Drummond, iniciei a leitura do sétimo livro dele: Claro Enigma (1951).


"Que lembrança darei ao país que me deu

tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?"


Essa pergunta inicial me pegou logo de cara. E o eu-lírico já tascou sua resposta ao final: a pedra, a sua pedra no caminho...


"De tudo quanto foi meu passo caprichoso

na vida, restará, pois o resto se esfuma,

uma pedra que havia em meio do caminho."



A pedra no caminho...

O país que me deu tudo que lembro e sei...


Ainda existe o país que me deu tudo que lembro e sei?

Não sei, penso que não.

Tudo, me parece, esfumou-se.



"E mereço esperar mais do que os outros, eu?"



Não, não mereço esperar mais do que ninguém. Num país onde "o resto se esfuma" eu diria ser um privilegiado. Rolei minhas pedras do caminho. 


Meu legado?

Eu quis deixar algum legado... esfumou-se.

Talvez as palavras... talvez as palavras. Meus milhares de textos nos blogs. Talvez o meu legado.

William


ANDRADE, Carlos Drummond. Nova reunião: 23 livros de poesia - volume 1. 3ª edição - Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

segunda-feira, 24 de junho de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 24 de junho de 2024. Inverno com o calor do mundo fritando.


A DESORDEM MUNDIAL

O título de minha reflexão é o mesmo título do livro de Moniz Bandeira (que já li, por sinal: ver comentário aqui), mas que culpa tenho eu se esse é o melhor grupo de palavras que pesquei no reino das palavras (como dizia Drummond) para expressar um pouco do que tenho avaliado ao observar o mundo ao meu redor?

Vivemos uma verdadeira desordem mundial. Desordem cognitiva, afetiva, social, jurídica, econômica, política, ambiental etc. Estamos sob a era da desordem mundial. E isso é grave! Se quisermos ter alguma chance de vida, temos que mudar a ordem, a tendência, o rumo das coisas.

CENAS COTIDIANAS

As conversas de elevador têm sido cada dia mais desconexas, como se um marciano falasse com um terráqueo, ou um terráqueo com um jupteriano: pergunto a um conhecido sobre a cachorra deles. Ele está meio aéreo, diz não saber quantos anos a cachorrinha tem: aliás, está no elevador que não seria o determinado pelas regras para transportar animais. Encontro um casal que me cumprimenta perguntando se estou de volta, sendo que voltei de Brasília há seis anos. Outra conhecida antiga, talvez com alguma questão de memória pelo avanço da idade, me deixou preocupado por imaginar se ela está morando sozinha e sem cuidador.

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GUERRAS ATÉ O FIM

Nas redes sociais e páginas de informação (ou desinformação) vemos a verdadeira desordem mundial. Para quem se atenta, a dúvida é: quando será o dia D? O império dos humanos que vivem no espaço geográfico chamado atualmente de Estados Unidos da América está em decadência, e já avisou há duzentos anos que se cair, vai cair atirando. Dane-se o nome da guerra ou das guerras que causará, vai cair atirando. Como as tecnologias de destruição em massa são muito mais destrutivas que nas épocas passadas, quando outros impérios caíram, arrisca agora não sobrar lugar no globo terrestre passível de manter vida humana sustentável. Fodeu!

O mundo humano produziu mais de dez mil ogivas nucleares no último século. Estados Unidos e Rússia têm mais de oito mil delas. Os Estados Unidos não aceitam essa questão de BRICS e China e Rússia e o caralho... Os Estados Unidos não aceitam substituírem o dólar como única moeda de troca no mundo - dólar é a moeda sem lastro em ouro e com lastro em bombas -, e além das bombas nucleares, os Estados Unidos sozinhos têm outra bomba mais potente que a atômica, a bomba bloqueio, essa mata pouco na hora e vai matando uma comunidade inteira atingida por ela como são os efeitos radioativos da bomba atômica após o impacto: vai matando de fome, doença, de miséria absoluta de tudo, mata principalmente indefesos: crianças, mulheres e idosos, civis incapacitados e vulneráveis de todo tipo. 

Os Estados Unidos têm e usarão cada dia mais a bomba bloqueio. Olhou feio para eles, bloqueio no país ou governo que ousou levantar os olhos para o imperador...

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CRIAÇÕES HUMANAS NÃO SÃO NATURAIS, NEM OS DIREITOS, NEM A CONCENTRAÇÃO DE RIQUEZA DE UNS E A MISÉRIA DA MAIORIA

É uma desordem mundial. No entanto, a desordem mundial tem método. Não é natural, assim como o professor Pedro Serrano nos ensinou sobre os direitos, nos lembrando que os direitos não são naturais, são criações humanas e por isso precisam ser defendidos, caso contrário não existirão mais (comentário aqui). 

A desordem mundial tem artífices, tem humanos por trás dela. É gente poderosa. Mortal, mas poderosa. Essa gente está viva e está tramando contra nós, nos quer mortos. Se não mortos, nos quer necessitados como exército de reserva. (Os capitalistas) Nos querem ignorantes, burros, seres não pensantes, de fácil manipulação. Seres medrosos (e de novo, me lembro de Drummond nos falando do medo).

As ferramentas tecnológicas (do tipo algoritmos) e as pessoas por trás delas nos roubaram filhos, pais, companheiros e amigos. Roubaram a mente, a atenção de nossos entes mais queridos. Estão nos roubando as características que nos fizeram homo sapiens ao longo de centenas de milhares de anos. 

Nos roubam a criatividade na solução de problemas que realmente importam, soluções para preservação da vida da própria espécie. Estamos nos tornando seres boçais, com características de rebanhos, quase seres bovinos mesmo!

E como um boi vai achar soluções que importam, soluções para evitar as bombas atômicas, as bombas bloqueios dos EUA? Como um boi vai lutar contra a desigualdade social, a injustiça contra as maiorias em favor de alguns?

Que foda!

A desordem é projeto de uma pequena parte dos humanos para dominar a totalidade do ecossistema. E não estamos atentos para isso. Ou estamos e não estamos nos organizando para combater e reverter a desordem.

DETALHE: como me lembrou num almoço o companheiro Deli Soares, e não sabemos nada do mundo, só vemos ou sabemos fragmentos. O que sei eu dos chineses, dos indianos, dos turcos, dos iranianos, dos povos do continente africano etc. Meu olhar atomizado é aqui do mundo ocidental hegemonizado pelo capitalismo... não sei nada de nada, só tenho algumas noções... e devem ser muito pequenas sobre as coisas do mundo.

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A DESORDEM NO TRÂNSITO, AS MOTOS, OS MOTORISTAS

No Brasil, enfrentamos uma revolução conservadora e reacionária ao mesmo tempo, pois são conceitos diferentes. O golpe de Estado em 2016 - perpetrado pelos donos do poder tanto do Brasil, a casa-grande, quanto do império norte-americano, por causa do pré-sal e da participação do Brasil nos BRICS - trouxe uma anomia que perdura mesmo após o fim do mandato de Bolsonaro na presidência do país. Uma anomia. Não existem mais regras comuns e aceitas pela cidadania. Não existem. 

Vejam o trânsito, por exemplo. Não acho que devemos culpar individualmente um homem ou uma mulher pilotando uma moto ou um carro pela desgraça que virou o trânsito nas vias urbanas e nas estradas do Brasil. É a anomia na qual nos encontramos. Milhões de pessoas que andam de motos incorporaram como "regra" que não existem regras de trânsito para elas. 

"Nenhuma regra do código de trânsito do país se aplica a uma moto" deve imaginar alguém que anda de moto... e centenas e milhares de pessoas são atropeladas todos os dias, ocupam os insuficientes leitos de hospitais todos os dias, ficam sequeladas e morrem todos os dias.

A desordem total.

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A SAÚDE QUE DEVERIA IMPORTAR E NÃO IMPORTA

Milhões de dinheiros privados e públicos, o sistema como um todo, são desperdiçados em procedimentos curativos e não preventivos, são investidos em coisas supérfluas ou estéticas como afinar um nariz, tirar uma gordurinha na coxa etc ao invés de serem utilizados nos eventos agudos e crônicos como, por exemplo, traumas de acidentes e violências, ou para salvar vidas de pessoas com câncer, com doenças tratáveis, ou ainda investidos no longo prazo para educar e mudar hábitos alimentares adoecedores da vida cotidiana no mundo em desordem mundial. 

As doenças e a criação de desejos e "necessidades" nos corpos das pessoas significam lucro, dinheiro na conta individual de uma pequena parcela de humanos com conhecimentos técnicos em saúde que deveria ter por objetivo nobre cuidar da saúde das pessoas. 

Mas no mundo organizado e focado no bem-estar dos seres humanos, pessoas com saúde não gerariam lucro para a parcela de pessoas que detém o saber médico como mercadoria e com objetivo de lucro.

A DESORDEM PESSOAL

Feita a reflexão sobre a desordem do mundo humano, finalizo minhas impressões comentando a minha desordem pessoal. Falo a minha, mas imagino que seja a desordem de muita gente por aí.

O dia começa e o dia termina e a gente não consegue cumprir o que imaginou que seria necessário ou obrigação cumprir. Às vezes, sequer sabemos delimitar onde começa ou termina o dia por não ser possível localizar o ponto de saída ou de chegada do "corre" cotidiano de cada um.

Por décadas, meu cotidiano foi organizar a categoria bancária para conquistar um espaço social mais favorável à gente de minha classe. Minha cabeça tinha o foco no coletivo, minha agenda era a mudança no mundo coletivo por saber que isso equivaleria a mudanças positivas em nosso mundo pessoal. 

Hoje, mesmo tendo mais tempo livre para a vida pessoal, mesmo não sendo agente de mudanças nas lutas coletivas com mandato eletivo, minha vida pessoal é o caos, é a desordem total. 

Será que isso acontece com a maioria das pessoas? Tenho impressão que sim. De certa forma, somos reflexo do mundo material real, nosso comportamento e nossas ideias são reflexos da desordem mundial imposta a nós pela hegemonia do capitalismo.

Nossas ideias são capturadas (ou formatadas pela realidade hegemônica), são roubadas de nós pelos mecanismos da imposição de comportamentos do fetiche da mercadoria da desordem mundial capitalista. É o que descrevi acima. Nosso cotidiano comum e banal é o cotidiano do mundo em desordem por causa do capitalismo.

Mesmo sem cumprir jornadas vendendo minha força de trabalho para algum comprador de meu corpo e de meu tempo, sigo a lógica desse mecanismo, desse sistema destrutivo do planeta e dos seres que nele habitam.

Confesso minha desordem pessoal neste mundo em desordem. Confesso minha impotência, mesmo tendo tido a oportunidade de adquirir um pouco de consciência política e de classe.

Até meu corpo está em desordem. Não sei mais o meu papel no mundo, nos espaços por onde habito. E não desisti de nada. Meu percurso existencial não me permitiria jogar a toalha. 

Seguirei observando. Estudando e escrevendo.

William


quinta-feira, 30 de maio de 2024

5 de 100 dias



5. O que fazer numa centena de dias quando se está percebendo o mundo em processo progressivo de desfazimento? Hoje, entendo Drummond quando seus eu-líricos diziam que viver é uma ordem, viver apenas, sem mistificação. Compreendo o poeta. Viver para mim é uma necessidade (e não por mim)!

Eu posso parar as guerras em andamento? Posso interromper o extermínio do povo palestino executado pelos sionistas de Israel? Posso ajudar meus irmãos e irmãs cubanos vivendo carências materiais essenciais sob um bloqueio criminoso por parte do país mais terrorista do mundo, os Estados Unidos? 

Eu posso interromper as humilhações que os inimigos do povo e da classe trabalhadora brasileira e do país estão impondo ao presidente Lula através daquele parlamento com 400 bárbaros comprados com o dinheiro das poucas famílias bilionárias, o 1%, e comprados com o orçamento (inclusive o secreto) do país capturado por aqueles canalhas?

O que está ao meu alcance fazer para frear as injustiças e violências e ignorâncias do mundo no qual estou inserido como um dos participantes da sociedade humana? O que fazer?

Eu não sei.

Nos últimos dias, o que fiz foi me sentar com pessoas com as quais trabalhei e convivi por muito tempo e que considero como amigas para comermos uma pizza e conversarmos. 

Também estou passando uns dias com a família e com amigos na colônia dos professores do Sinpro SP na Praia Grande. Estou conversando com pessoas com as quais se pode conversar ainda. Isso é bom.

Em relação às leituras e textos em andamento, sobre a ideia de ser mais "acabativo", terminei mais um dos volumes do Gen Pés Descalços, História em Quadrinhos de Keiji Nakazawa, um mangá extraordinário que conta ao mundo a tragédia vivida pelo povo de Hiroshima, comunidade humana vítima da bomba atômica lançada pelos Estados Unidos, o país mais terrorista do mundo. Li o volume sete, agora faltam três. (comentário aqui)

Enfim, não estou numa função social atualmente que me permita ou que me facilite a condição para mudar a realidade injusta e perversa da sociedade humana. Isso não é uma desculpa para não fazer nada para mudar a realidade ruim, não é. Mas ainda não me vejo pertencente a um movimento desses muda-mundo.

Se for avaliar criticamente e honestamente, diria até mesmo que os movimentos aos quais participei por um bom tempo em minha vida profissional, movimento sindical e partidário, que já tiveram força para mudar realidades da classe trabalhadora, hoje têm dificuldade para apontar um horizonte e utopias para o povo trabalhador e sem posses.

Se o Partido dos Trabalhadores não for enfático em alguma bandeira que o diferencie dos demais partidos tradicionais, dizendo aos seus filiados, militância e simpatizantes qual sua posição em relação ao capitalismo, por exemplo, terá cada dia mais dificuldade de mudar a realidade do povo trabalhador e sem posses.

É a minha opinião.

Muitas lideranças do PT querem "humanizar" o capitalismo, ao invés de deixar claro que temos que superar esse sistema destrutivo do mundo e do ser humano.

Acho isso foda! Francamente!

Bom, como a vida de todos nós está muito instável, não sabemos se as guerras tomarão conta de tudo e nosso cotidiano será invadido por uma delas, talvez seja bom estar com mais pessoas queridas nessa centena de dias que estou por aí, vivendo, sem mistificações. Conversar com amigas e amigos é bom.

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Ah, sobre a "condenação" do bárbaro Trump, que tomou conta das notícias das mídias no dia de hoje... para mim é nuvem. Nuvem. Não muda nada nos Estados Unidos e não muda nada para os palestinos, para os cubanos, para os venezuelanos, para os chineses, não muda nada em relação ao que a extrema-direita e o 1% estão organizando para inviabilizar qualquer desejo de Lula de desfazer alguns dos crimes de lesa-pátria e lesa-humanidade praticados pelos bárbaros no poder político até 2022: bolsonaristas et caterva da laia deles. Não muda nada. O que vão fazer com Lula e conosco já está traçado pelos 400 bárbaros do Parlamento. O problema é o nosso lado da classe, as nossas lideranças sindicais e partidárias. Nosso lado não está sendo organizado para reagir, resistir e lutar pela nossa ideia de mundo. Nada a ver com o merda do Trump ou o merda do Biden. Nada!

William


domingo, 9 de julho de 2023

Leitura: Novos poemas - Carlos Drummond de Andrade



Refeição Cultural

Osasco, 9 de julho de 2023. Domingo.


O TEMPO, A MATÉRIA E OS HOMENS PRESENTES 


"Que quer a paixão? detê-lo.
Que quer o peito? fechar-se
contra os poderes do mundo
para na treva fundir-se.

Que quer a canção? erguer-se
em arco sobre os abismos.
Que quer o homem? salvar-se,
ao prêmio de uma canção.
" (O arco)


O livro Novos poemas (1948) é o sexto livro de poesias de Drummond que li. Ele está no 1º volume da coletânea Nova Reunião: 23 livros de poesia, da Edições BestBolso. 

Os cinco livros anteriores de Drummond são os que mais conheço, desde que passei a ler poesia, após os 30 anos de idade. Os três primeiros - Alguma poesia, Brejo das almas e Sentimento do mundo - leio há mais de duas décadas. José e A rosa do povo, li inteiros pela primeira vez durante a pandemia de Covid-19. Foi uma experiência marcante.

"O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,/a vida presente" (Mãos dadas)

Drummond é uma figura humana extraordinária! Dessas que passaram pela humanidade e deixaram grandes coisas para os seres humanos. O poeta foi cronista por mais de seis décadas. Como cronista era um observador, um homem cuja matéria era o tempo, os homens e a vida presentes. Um grande homem, Drummond.

Talvez por causa do poeta trabalhar justamente com as palavras e sua matéria ser o tempo, os homens e a vida é que sempre que leio Drummond fico tão pensativo sobre nossas vidas, nosso tempo e os humanos que nos cercam. Foi assim na leitura dos poemas desse pequeno livro Novos poemas. Pensei nessas coisas do tempo presente e da vida presente.

"Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me veem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
" (Canção amiga)  

É evidente que o coração sente o esquecimento, o ser deixado de lado por causa dos tempos de mesmices e bolhas amigas que não toleram a divergência construtiva. Como não sentir? Sinto. É seguir saudando os velhos amigos.

"E resta a espera, que sempre é um dom.
Sim, os extraviados um dia regressam
ou nunca, ou pode ser, ou ontem.
E de pensar realizamos
" (Desaparecimento de Luísa Porto)

Tanto tenho refletido sobre os momentos nos quais nos sentimos impotentes por causa da incapacidade de interferir em eventos da materialidade da vida nossa e dos outros... às vezes, nos resta a torcida e a espera, até como um dom mesmo, como diz o poeta.

"Mas tenho apenas meu canto,
e que vale um canto? O poeta,
imóvel dentro do verso,

cansado de vã pergunta,
farto de contemplação,
quisera fazer do poema
não uma flor: uma bomba
e com essa bomba romper
" (Notícias de Espanha)

Eita, poeta! Às vezes, a gente que agora só tem a palavra, sem mandato sem representação, a vontade é de escrever e falar tudo o que pensa mesmo, sobre o movimento, sobre a Cassi, sobre acertos e erros de nosso governo, as potencialidades efetivadas e as perdidas...

"A dileta circunstância
de um achado não perdido,
visão de graça fortuita
e ciência não ensinada,
achei, achamos. Já volto
e de uma bolsa invisível
vou tirando uma cidade,
uma flor, uma experiência,
um colóquio de guerreiros,
uma relação humana,
uma negação da morte,
vou arrumando esses bens
em preto na face branca.
" (Aliança)

Do poema "Aliança" quase escolhi dele a ideia triste de "Já desisto de lavrar/este país inconcluso,". Aí pensei, pensei, pensei e senti que o melhor é tirar a ideia feliz "e de uma bolsa invisível,/vou tirando uma cidade,/uma flor, uma experiência/um colóquio de guerreiros,/uma relação humana,". 

É isso! Estamos vivos, estamos aqui, a vida é o presente de lutas, a história segue sendo feita por nós, humanos.

O poema "O enigma", último do livro, é fabuloso! As pedras são as personagens da história. Elas caminhavam pela estrada e um dia uma forma obscura lhes interrompe o caminho. Eram inteligentes e raciocinaram enquanto puderam sobre o que fazer. Acabaram por se fixarem no caminho como chão, montanhas ou seixos.

"Ai! de que serve a inteligência - lastimam-se as pedras. Nós éramos inteligentes; contudo, pensar a ameaça não é removê-la; é criá-la.

Ai! de que serve a sensibilidade - choram as pedras. Nós éramos sensíveis, e o dom de misericórdia se volta contra nós, quando contávamos aplicá-lo a espécies menos favorecidas.
" (O enigma)

Fica para nós a mensagem final do poema e do livro, a Coisa "não se compadece nem de si nem daqueles que reduz à congelada expectação", a Coisa "Barra o caminho e medita, obscura."

Esse é nosso poeta Carlos Drummond de Andrade. Esse foi meu 2º livro do semestre e o 20º neste ano. 

Se contar os poemas dos 6 livros que li de meu poeta preferido, agora são 49+26+28+12+55+12=182 poemas conhecidos por mim. Faltam centenas ainda. É seguir lendo e conhecendo Drummond.

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REFLEXÕES

No início deste semestre, a primeira leitura feita por mim foi a argumentação do jovem advogado Fidel Castro em defesa do movimento de libertação de Cuba e do povo cubano, o grupo atacou o Quartel Moncada e por detalhes não obteve sucesso. Fidel nos conta em A história me absolverá as motivações seculares que moveram aqueles jovens corajosos, patriotas e revolucionários. Ler comentário sobre o livro aqui.

De ler a argumentação de Fidel Castro e de ver paralelos entre as causas originárias das lutas de libertação do povo cubano e as causas que moveram por mais de meio século o retirante nordestino e metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva - essas causas comuns são a miséria do povo, a injustiça social e o abuso de elites e grupos de poder instalados nos países da América do Sul e Caribe - peguei na estante alguns livros sobre Lula e os apartei como desejo de leitura para os próximos dias.

E onde entram os desejos de leitura que ocupam os dois lados de minha pequena mesa de trabalho e estudos na sacada de casa, livros sobre Cuba, sobre Machado, de poesias de Cecília Meireles e Drummond e Os miseráveis? Peguei até um livro de Peter Straub dos anos oitenta de terror e suspense que me deu medo quando o li na adolescência... 

Que miscelânea é essa? Talvez tudo isso tenha para mim um sentido de tempo presente, de urgência do presente, de finitude de tudo e falta de tempo para conhecer tudo que gostaria de conhecer no parco tempo de uma vida humana. Eu só tenho o presente...

Sinto que o tempo está passando naturalmente. Sinto que o tempo está escorrendo rápido como se fosse a água descendo por um ralo: tempo psicológico? tempo cronológico?

Já sei que não tenho o tempo que passou, sei que não tenho domínio algum sobre um eventual tempo que possa vir, e às vezes sinto que sequer tenho domínio sobre o tempo presente. 

O tempo presente. A materialidade do tempo presente. Se sou e estou por que sinto que não consigo sequer fruir o tempo como poderia ser e estar? 

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Domingo. Gostaria de ir à plenária de 100 dias do mandato da vereadora Luna Zaratiini (PT-SP), a jovem está fazendo um mandato da forma como aprendi a fazer representação política, ela está sempre presente nas reuniões e eventos do DZ Butantã. 

Trabalho de base: meu primeiro exemplo de trabalho de base foi nosso companheiro Marcos Martins, aqui de Osasco: ele sempre foi uma referência para mim. Um mandato ao lado do povo o tempo todo, ao lado da base social que representa. Fiz assim os nossos mandatos sindicais e o de gestor de saúde na autogestão dos trabalhadores do BB. Fui querido e odiado por isso. É a luta de classes.

Nesta semana já saí de casa na quinta ao ir a um Sarau do Sindicato, saí na sexta ao me encontrar com um colega de banco aposentado, já passei a tarde do sábado em reunião do Partido contribuindo com as visões políticas que temos, e na segunda tenho que sair para ir a uma atividade defender as casas de cultura ameaças de privatização pelo governo de merda da cidade de São Paulo. Acabei decidindo ficar em casa no domingo. Fica aqui o meu registro de admiração e apoio ao mandato de Luna Zarattini.

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"Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
" (Canção amiga)

Tanta coisa pra escrever, mesmo que para poucas pessoas. Faz dias que tenho refletido sobre fazer um artigo abordando a questão do álcool, da bebida alcoólica e seus efeitos deletérios para as pessoas que bebem e para a sociedade como um todo. Sei que não vão gostar do que vou dizer, mas fico pensando nos ensinamentos de Edward Said sobre o papel que um estudioso e intelectual tem perante a sociedade. Temos que apontar o que pensamos sobre as coisas, independentemente de agradar ou não as pessoas.

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É isso! Já escrevi bastante por hoje. Vamos ficar em casa, ler um pouco e talvez fazer algo mais favorável à saúde do corpo e da mente.

William


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond de. Nova reunião: 23 livros de poesia - volume 1. 3ª edição - Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.


sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

A Rosa do Povo - Carlos Drummond de Andrade



Refeição Cultural

"A doença não me intimide, que ela não possa
chegar até aquele ponto do homem onde tudo se
                                         [explica.
Uma parte de mim sofre, outra pede amor,
outra viaja, outra discute, uma última trabalha,
sou todas as comunicações, como posso ser triste?
" ("Os últimos dias", CDA)


Último dia do ano, último livro do ano (foram 57 obras lidas). Ano passado li A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1945. Que livro! Cinquenta e cinco poemas porradas. Neste mês de dezembro, reli o livro dentro de um projeto de ler toda a poesia de Drummond em ordem cronológica. Com isso, reli os 4 livros que já conhecia e José, de 1942.

Que livro! Perfeito para os tempos que correm. Drummond diz que o livro é um livro que traz características de um tempo, de uma época, tanto do poeta quanto do mundo, que vivia a mortandade da 2ª Guerra Mundial, nazismo, fascismos, Estado Novo de Vargas. Não falo que o livro é perfeito para os tempos que correm!

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"E a matéria se veja acabar: adeus, composição
que um dia se chamou Carlos Drummond de Andrade.
Adeus, minha presença, meu olhar e minhas veias
                        [grossas,
meus sulcos no travesseiro, minha sombra no muro,
sinal meu no rosto, olhos míopes, objetos de uso
          [pessoal, ideia de justiça, revolta e sono, adeus,
vida aos outros legada.
" ("Os últimos dias", CDA)

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Difícil um poeta no qual meu Eu se veja melhor nos Eu-líricos dos poemas do que Drummond. Difícil alguém que me represente mais do que Drummond e seus personagens.

RETROSPECTIVA DE LEITURAS POÉTICAS

Com a releitura de A Rosa do Povo, encerro um ano de bastante leitura de poemas. Li os 5 livros iniciais de Drummond, são 170 poemas. Agora vou pras novidades, tudo que não conheço dele em 18 livros a ler.

No começo do ano li as poesias de Bertolt Brecht. Li uma coletânea de 260 poemas publicados entre 1913-1956. Que poemas, também! Demais!

No primeiro semestre, li poemas de outros poetas modernistas - Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira. De Mário li Pauliceia Desvairada (1922) e Losango Cáqui (1926). De Oswald li Pau-Brasil (1924). De Manuel Bandeira li Libertinagem (1930). Tudo releituras.

Em agosto li Espumas Flutuantes (1870), de Castro Alves. Reli também Distraídos venceremos (1987), de Paulo Leminski.

Finalmente, li o clássico Odisseia, de Homero, em versos, na tradução do maranhense Odorico Mendes, o patriarca da transcriação.

Por fim, li vários livros de Cecília Meireles, dentro de um projeto de ler as obras poéticas completas da poeta.

---

Registro feito. Repito: de tudo que li, ninguém chega perto de Carlos Drummond de Andrade em relação à identificação entre Eu-lírico e Eu mesmo.

É isso.

William


Post Scriptum: fiz uma postagem de retrospectiva cultural do ano de 2021. Foram 57 obras lidas no ano. Para ler a postagem é só clicar aqui.


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond. Nova Reunião: 23 livros de poesia - volume 1. 3ª edição - Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Leitura - Robinson Crusoé, 30 capítulos lidos




Refeição Cultural

"Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé.
Comprida história que não acaba mais.
" ("Infância", C.D.A.)


(Contém spoiler)

Ufa! Ô vida longa essa do Robinson Crusoé! O cara passou vinte e oito anos na ilha onde naufragou. Sua história na ilha foi até a metade do livro. Agora sei que As aventuras de Robinson Crusoé vão muito além dos anos que passou na ilha.

O personagem já é um sexagenário e não perdeu seu espírito irrequieto, que não consegue ficar quieto em lugar nenhum e quando acha que vai parar em algum lugar, algo o chama para partir.

Depois de visitar sua ilha por quase um mês, saiu pelos mares do mundo de novo. Lá na ilha, alguns capítulos de seu diário trataram dos arranjos que fez para deixar todo mundo arrebanhado pela religião cristã, parte "papista" (ou seja, católicos) e parte protestante.

Andando a bordo de navio cujo capitão é um sobrinho, viajou para mares distantes e na ilha de Madagascar a tripulação se pôs em guerra com os nativos e a diferença de tecnologia armamentista a favor dos europeus foi responsável por um massacre local.

Crusoé passou um tempão acusando a tripulação de assassina e com isso foi expulso e deixado em terras distantes. As aventuras seguiram e o inglês se tornou grande comerciante naquela região do mundo.

Ufa! O cara é sexagenário e suas aventuras são de alguém no auge do vigor adulto.

Faltam 6 capítulos. 

Daqui um pouquinho terei preenchido mais uma lacuna cultural e saberei da história de Robinson Crusoé, aquela que o Eu-Lírico de Drummond cita no poema "Infância".

Sigo lendo os clássicos. Sempre lembrando de Italo Calvino: é melhor ler que não ler os clássicos.

William


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond. Nova Reunião: 23 livros de poesia - volume 1. 3ª edição - Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

DEFOE, Daniel. As aventuras de Robinson Crusoé. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.

domingo, 12 de dezembro de 2021

José (1942) - Carlos Drummond de Andrade



Refeição Cultural

"E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
" ("José", p. 129)


Aproveitei o cansaço que sentia ao acordar neste domingo para ler um pequeno livro de poesias de Carlos Drummond de Andrade: José (1942). São 12 poemas. Mas não são quaisquer 12 poemas... a começar pelo poema "José", que nos deixa sem saber o que responder até hoje!

"você marcha, José!
José, para onde?
" (p. 131)

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O primeiro poema - "A Bruxa" parece ter sido feito pra mim, hoje. Poderia ser o Eu-Lírico.

"A BRUXA

Nesta cidade do Rio, 
de dois milhões de habitantes, 
estou sozinho no quarto 
estou sozinho na América.

(...)

Mas se tento comunicar-me,
o que há é apenas a noite
e uma espantosa solidão.
" (p. 113/14)

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O segundo poema é demais - "O Boi", parece feito pra nós, hoje. Enquanto lia e relia ficava vendo as pessoas em situação de rua, a miséria do povo sem terra e sem teto, sem emprego e sem direitos sociais, as casas vazias de bilionários da especulação imobiliária.

"O BOI

Ó solidão do boi no campo,
ó solidão do homem na rua!
Entre carros, trens, telefones,
entre gritos, o ermo profundo.

Ó solidão do boi no campo,
ó milhões sofrendo sem praga!
Se há noite ou sol, é indiferente,
a escuridão rompe com o dia.

Ó solidão do boi no campo,
homens torcendo-se calados!
A cidade é inexplicável
e as casas não têm sentido algum.

Ó solidão do boi no campo!
O navio-fantasma passa
em silêncio na rua cheia.
Se uma tempestade de amor caísse!
As mãos unidas, a vida salva...
Mas o tempo é firme. O boi é só.
No campo imenso a torre de petróleo.
" (p. 114/15)

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O poema "O Lutador" é maravilhoso! Talvez ainda escreva na vã esperança de lutar com palavras. Nesse momento não tenho acreditado nelas, mas tenho que me esforçar e acreditar nas palavras.

"O LUTADOR

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.

(...)

Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue...
Entretanto, luto.
" (p. 121/22)

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CONHECENDO DRUMMOND

Passei anos conhecendo poucos poemas de nosso poeta modernista C.D.A., basicamente os poemas dos três primeiros livros dele - Alguma Poesia (1930), Brejo das Almas (1934) e Sentimento do Mundo (1940). Ano passado, nas leituras durante a pandemia mundial de Covid-19, li o livro A Rosa do Povo (1945). E só. É o que conheço até agora. 

Tenho em casa a obra completa de poesia de Drummond. São 23 livros. Resolvi expandir meu conhecimento em relação à produção poética de nosso poeta maior. Com a leitura do livro José (1942), conheço agora 5 livros. São 170 poemas reunidos nesses livros.

É isso. Estou fazendo o mesmo com a obra poética de Cecília Meireles.

William


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond. Nova Reunião: 23 livros de poesia - volume 1. 3ª edição - Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.


segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Viagem (1939) - Cecília Meireles



Refeição Cultural


"Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.
" (p. 245/6)


Ufa! Seguimos na viagem ao mundo da poesia de autores brasileiros.

Terminei a leitura do livro Viagem (1939), de Cecília Meireles. É o 7º livro de poesias que leio da poeta brasileira. Cecília, agora, é a poeta da qual mais li poesias até hoje. Com a leitura dos 100 poemas de Viagem, passo a conhecer 359 poemas dela. Quer dizer, não contei os poemas de Paulo Leminski, mas já li sua obra completa também: Toda Poesia (2013). Não sei se a quantidade de poemas de Leminski é tão grande quanto a de Meireles.

Para registrar corretamente, o livro do Paulo Leminski que tenho contém: quarenta clics em curitiba (1976), caprichos & relaxos (1983), distraídos venceremos (1987), la vie en close (1991), o ex-estranho (1996), winterverno (2001) e poemas esparsos. Os nomes todos com letra minúscula, caixa baixa, fazem parte da edição que tenho. Ler aqui comentários sobre o livro de Leminski.

Tenho um longo caminho pela frente para ler e conhecer a obra poética dos principais poetas brasileiros. Já conheço um pouco de João Cabral, de Manuel Bandeira, de Drummond, Castro Alves, Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Cecília Meireles. Alguns deles tenho a obra completa e falta só seguir lendo e conhecendo. Imaginem a lacuna gigante... nada de Vinícius de Moraes, Cora Coralina, Ferreira Gullar, Mário Quintana, irmãos Campos, só pra citar alguns poetas que não li nada ainda.

Vou ler a obra completa de Cecília Meireles. O incentivo veio do fato de ter ganhado essa edição de minha companheira tempos atrás e agora decidi ir lendo aos poucos. No primeiro volume, que estou lendo agora, são 13 livros. Acabei de ler o 7º. Agora conheço Espectros (1919), Nunca mais... e Poema dos poemas (1923), Baladas para El-Rei (1925), Cânticos (1927), A festa das letras (1937), Morena, pena de amor (1939) e Viagem (1939).

Também tenho as obras poéticas completas de Drummond. Vou lê-las também (postagens sobre ele ver aqui). Por décadas, o poeta itabirano foi o autor do qual eu mais conhecia poemas, isso porque já havia lido e sempre reli os 3 livros iniciais dele - Alguma Poesia (1930), Brejo das Almas (1934) e Sentimento do Mundo (1940). Ano passado, li A rosa do povo (1945). Agora preciso expandir meu conhecimento de Drummond. Vamos aos poucos lendo sua obra das décadas seguintes.

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CECÍLIA MEIRELES E VIAGEM

O livro é denso, não considero de leitura fácil. Senti dificuldade na compreensão de diversos poemas, assim como foi na releitura de Brejo das Almas, de Drummond. Alguns poemas são impenetráveis para este leitor que registra a experiência da leitura. Não tenho problema algum em dizer isso.

Gostei muito da série de poemas chamados por Cecília de "epigramas". São 13 epigramas. Alguns são demais!

Para citar alguns dos poemas com os quais me identifiquei e que me agradaram bastante, fico com "Retrato", "Epigrama nº 2" sobre a Felicidade e o tempo, "Canção" (p. 255, pois há outros com o mesmo nome), "Solidão", "Murmúrio", "Epigrama nº 4" sobre o choro, "Epigrama nº 5" sobre a gota d'água que resiste ao vento, "Pausa", "Cantiga" (p. 323) com o bem-te-vi, "Epigrama nº 12" sobre a engrenagem e o inseto, "Vento", dentre outros.

O poema "Destino" trabalha com duas imagens se contrapondo: pastora de nuvens x pastores da terra. É muito interessante!

O poema "Quadras" tem algumas estrofes bem legais, do tipo:

"Passarinho ambicioso
fez nas nuvens o seu ninho.
Quando as nuvens forem chuva,
pobre de ti, passarinho.
" (p. 310)

*

"Ao lado da minha casa
morre o sol e nasce o vento.
O vento me traz teu nome,
leva o sol meu pensamento.
" (p. 311)

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Adorei o poema "Onda". Ele contém 8 estrofes e deixo abaixo a primeira e a última.

"Onda

Quem falou de primavera
sem ter visto o teu sorriso,
falou sem saber o que era.

(...)

mas quem falou de deserto
sem nunca ver os meus olhos...
- falou, mas não estava certo.
" (p. 316)

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Como não dava pra deixar aqui vários poemas, deixo um dos epigramas de Viagem.

"Epigrama nº 2

És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir, e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa.
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo, despovoado e profundo, persiste.
" (p. 252)

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COMENTÁRIO FINAL

Quanto mais leio os poemas de Cecília Meireles mais vou compreendendo a sua poética. Pesquisar informações a respeito de sua biografia também tem sido fundamental para mim. 

A cada texto ou entrevista com alguém falando sobre a intelectual, melhor fica minha compreensão dos poemas que já li (os 7 primeiros livros), que cobrem a vida dela entre a infância e a idade adulta, quase quarenta anos, época em que seu marido faleceu, por não superar a depressão profunda que sofria.

A autora lidou com mortes e perdas ao longo da vida e isso influenciou a pessoa que era e a sua poética. O pai morreu antes dela nascer, a mãe quando tinha 3 anos, depois a babá Pedrina e a avó que a criou, depois o marido. 

Isso não quer dizer que Cecília Meireles fosse uma pessoa triste e ou depressiva. As experiências com as perdas fizeram com que ela visse a vida como passageira, fugaz e, por ser religiosa, na minha leitura, ela via a vida como algo além da existência terrena. Nos poemas que já li, há um Eu-lírico que traz constantemente uma temática mística e metafísica.

É isso. Seguimos lendo poesia e conhecendo autores, autoras e poemas brasileiros.

William


Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin. Apresentação: Alberto da Costa e Silva. 1ª edição - São Paulo: Global, 2017.